Open-access Bioética e direitos humanos no ensino de enfermagem: um relato de experiência pedagógica*

RESUMO

Objetivo:  Descrever uma experiência pedagógica com estudantes de enfermagem que usaram fotografias como ferramenta didática para o ensino de direitos humanos.

Método:  Trata-se do relato de experiência pedagógica de estudo qualitativo transversal fundamentado na bioética narrativa, que utiliza narrativas pessoais como instrumento analítico para aprofundar a compreensão de problemas éticos, e na análise iconográfica, que investiga os significados profundos e os contextos subjacentes às fotografias registradas.

Resultados:  As fotografias capturadas pelos “estudantes fotógrafos” retratam situações reais do cotidiano de nossa sociedade evidenciando questões como pobreza, exclusão social e negligência governamental, as quais, segundo os próprios participantes, evocam violações de diversos artigos da Declaração Universal de Direitos Humanos.

Considerações finais:  A oficina pedagógica usou a fotografia para engajar estudantes em reflexões sobre direitos humanos e questões sociais, promovendo formação ética e humanizada. Apesar de limitações, o estudo revelou um déficit na educação universitária em direitos humanos, mas destacou o potencial de metodologias inovadoras para fortalecer a preparação crítica e empática dos futuros profissionais.

DESCRITORES
Bioética; Direitos Humanos; Ensino; Estudantes de Enfermagem; Fotografia

ABSTRACT

Objective:  To describe a pedagogical experience with nursing students who used photographs as a teaching tool for teaching human rights.

Method:  This is a report of a pedagogical experience of a cross-sectional qualitative study based on narrative bioethics, which uses personal narratives as an analytical instrument to deepen the understanding of ethical problems, and on iconographic analysis, which investigates the deep meanings and contexts underlying the recorded photographs.

Results:  The photographs taken by “photographer students” portray real situations from everyday life in our society, highlighting issues such as poverty, social exclusion and government negligence, which, according to the participants themselves, evoke violations of several articles of the Universal Declaration of Human Rights.

Final considerations:  The pedagogical workshop used photography to engage students in reflections on human rights and social issues, promoting ethical and humanized training. Despite limitations, the study revealed a deficit in university education on human rights, but highlighted the potential of innovative methodologies to strengthen the critical and empathetic preparation of future professionals.

DESCRIPTORS
Bioethics; Human Rights; Teaching; Students; Nursing; Photography

RESUMEN

Objetivo:  Describir una experiencia pedagógica con estudiantes de enfermería que utilizaron la fotografía como herramienta didáctica para la enseñanza de los derechos humanos.

Método:  Se trata de un relato de experiencia pedagógica de estudio cualitativo transversal basado en la bioética narrativa, que utiliza las narrativas personales como instrumento analítico para profundizar en la comprensión de los problemas éticos, y en el análisis iconográfico, que investiga los significados y contextos profundos que subyacen a las fotografías registradas.

Resultados:  Las fotografías realizadas por los “estudiantes fotógrafos” retratan situaciones reales de la vida cotidiana de nuestra sociedad, resaltando temas como la pobreza, la exclusión social y la negligencia gubernamental, que, según los propios participantes, evocan violaciones de varios artículos de la Declaración Universal de Derechos Humanos.

Consideraciones finales:  El taller pedagógico utilizó la fotografía para involucrar a los estudiantes en reflexiones sobre derechos humanos y cuestiones sociales, promoviendo una formación ética y humanizada. A pesar de las limitaciones, el estudio reveló un déficit en la formación universitaria en derechos humanos, pero destacó el potencial de metodologías innovadoras para fortalecer la preparación crítica y empática de los futuros profesionales.

DESCRIPTORES
Bioética; Derechos Humanos; Enseñanza; Estudiantes de Enfermería; Fotografía

INTRODUÇÃO

A fotografia é uma ferramenta poderosa para o conhecimento histórico, representando eventos e grupos sociais, e atuando como recurso pedagógico para análise de temas frequentemente negligenciados. Como uma experiência social, a fotografia permite interpretações variadas, influenciadas pelo patrimônio cultural de cada indivíduo. Ela também possibilita a análise dos discursos que moldam suas interpretações a partir dos contextos em que foram criadas(1,2).

Por meio da fotografia, memórias e emoções são eternizadas, permitindo questionamentos sociais de forma democrática(2-4). No campo dos direitos humanos, a fotografia denuncia violações e lutas por dignidade, imortalizando eventos como guerras e conquistas de direitos(5). Essas imagens contrastam com a narrativa de direitos inalienáveis das declarações, evidenciando um mundo com inúmeras violações(5#x2013;7).

Assim, a fotografia não apenas reflete a realidade, mas também cria narrativas que incentivam reflexões críticas. No ensino de direitos humanos, ela possibilita discussões sobre respeito e cumprimento desses direitos, especialmente entre futuros profissionais de saúde(1,8,9). Ao capturar uma imagem, o fotógrafo constrói um discurso ao decidir o que mostrar, refletindo uma interpretação subjetiva da realidade(9). Barthes(10) vê o fotógrafo como um narrador, cujas escolhas influenciam a percepção do observador.

Essa relação entre imagem e interpretação reflete a construção histórica da dignidade humana, princípio central nos direitos humanos e na bioética, que é consolidada como um campo interdisciplinar que estuda a vida e suas dimensões à luz de valores e princípios morais(11,12). Nesse contexto, o principialismo bioético, baseado nos princípios de autonomia, beneficência, não maleficência e justiça, reforça a necessidade de garantir equidade e respeito à dignidade humana, valores também assegurados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH)(7,11,12).

A bioética narrativa, uma abordagem emergente da bioética e aprofundada por Tomás Moratalla(13), complementa essa perspectiva ao articular princípios morais com as histórias individuais e coletivas que valorizam a experiência e o contexto de cada indivíduo na tomada de decisão ética. No ensino de direitos humanos, essa abordagem, associada às imagens, torna-se uma ferramenta de sensibilização e análise crítica, incentivando reflexões sobre dignidade, justiça, equidade e princípios bioéticos, contribuindo para a formação de cidadãos e profissionais de saúde conscientes e comprometidos com a ética e os direitos humanos(11#x2013;14).

Na enfermagem, valores como dignidade e respeito aos direitos humanos são fundamentais para uma prática ética e humanizada. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para os cursos de graduação em enfermagem enfatizam a necessidade de uma formação humanista, crítica e reflexiva, preparando enfermeiros para atuar com responsabilidade social e compromisso com a cidadania(15). Essas diretrizes ressaltam a importância da inclusão de conteúdos relacionados a direitos humanos, ética e bioética, capacitando os profissionais para identificar, enfrentar e prevenir desigualdades e discriminações na saúde(16).

A inclusão dos direitos humanos e da bioética na formação do enfermeiro assegura um cuidado pautado no respeito à autonomia, privacidade e dignidade dos pacientes, princípios fundamentais sustentados pelo principialismo bioético e enriquecidos pela bioética narrativa(11#x2013;14). Dessa forma, a formação não se limita ao desenvolvimento técnico-científico, mas também fortalece o compromisso ético, reflexivo e humanizado da profissão, em consonância com os princípios da DUDH(7,16).

Embora a linguagem dos direitos humanos ainda não seja amplamente utilizada no cotidiano da profissão, os princípios estabelecidos no Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, como o bem-estar do paciente e da comunidade, respeito, tolerância e honestidade, refletem diretamente os direitos assegurados pela DUDH, demonstrando a interseção entre a ética profissional e os valores fundamentais da bioética e da justiça social(7,17,18).

Logo, diante do exposto, este estudo teve como objetivo descrever uma experiência pedagógica com estudantes de enfermagem que usaram fotografias como ferramenta didática para o ensino de direitos humanos. Essa abordagem buscou fortalecer o compromisso dos futuros profissionais com a construção de uma prática mais ética e humana alinhada aos princípios fundamentais éticos e dos direitos humanos.

MÉTODO

Tipo de Estudo

Trata-se de relato de experiência pedagógica, com abordagem qualitativa e de corte transversal, realizado durante o estágio de docência de doutorado em um programa de pós-graduação em ciências da saúde de uma universidade pública federal do Brasil. A base teórico-metodológica do estudo apoiou-se na bioética narrativa e na análise iconográfica, permitindo uma análise mais sensível e contextualizada sobre as violações dos princípios da DUDH(7,13,14,19,20). Para garantir o rigor metodológico, o estudo seguiu os critérios do COnsolidated criteria for REporting Qualitative research(21).

Local e População do Estudo

O estudo foi realizado em universidade pública federal do Brasil, entre março e julho de 2024, com estudantes do 5º semestre do curso de graduação em enfermagem, matriculados na disciplina de Bioética e Legislação em Enfermagem (BLE). Ao todo, 48 estudantes foram convidados a participar da “Oficina Pedagógica Fotográfica”, atividade proposta no âmbito da disciplina. O plano de ensino da BLE destaca a obrigatoriedade de abordar a temática dos direitos humanos e a sua importância tanto para a assistência quanto para a pesquisa em saúde. Logo, a incorporação da fotografia como ferramenta pedagógica de reflexão crítica permitiu aos estudantes explorar, de forma diferenciada, a interseção entre teoria e prática, estimulando habilidades artísticas e a conscientização sobre questões bioéticas na saúde, reforçando sua relevância para a prática profissional.

Coleta de Dados

A “Oficina Pedagógica Fotográfica” foi organizada em quatro etapas, todas concebidas para não comprometer o andamento da disciplina de BLE. Seu planejamento foi realizado em conjunto com as professoras responsáveis, visando assegurar que as atividades estivessem em harmonia com o cronograma acadêmico previsto para o semestre.

As duas primeiras etapas consistiram em aulas teóricas que abordaram os conceitos fundamentais, a história e as diretrizes sobre direitos humanos, além do papel da fotografia na defesa desses direitos, destacando-a como ferramenta de denúncia e transformação social. Esses encontros abordaram a temática dos direitos humanos, conforme previsto no plano de ensino da disciplina, proporcionando aos estudantes uma base teórica sólida e um entendimento crítico que os preparou para os momentos subsequentes.

O terceiro momento foi destinado a uma atividade prática voluntária, que consistia no envio de uma fotografia inédita ilustrando a violação de algum artigo da DUDH(7). As violações poderiam abordar temas como integridade (física, psíquica ou patrimonial), liberdade, segurança, direitos sociais, civis e políticos, vida, e violação de direitos voltados ao meio ambiente. Entretanto, a especificação do tipo de violação dependeria do registro escolhido pelo acadêmico, o que significa que nem todas as formas de violações poderiam ser contempladas no exercício(7).

Os alunos foram orientados a capturar as imagens (coloridas ou preto e branco) com celulares, devido à facilidade de uso. Para os estudantes que optassem por incluir indivíduos nas imagens, foram disponibilizadas duas vias do Termo de Cessão de Uso de Imagem para Fins Científicos: uma para o modelo e outra a ser entregue às professoras, para o armazenamento. Estes foram orientados a postar suas fotografias, com título, o modelo de celular utilizado e uma legenda que incluísse o artigo da DUDH(7) violado (critérios de inclusão das imagens no estudo), na sala virtual da disciplina vinculada à matrícula e ao e-mail institucional universitário. Somente as professoras e a equipe de pesquisa tinham permissão para gerenciar o conteúdo da sala virtual, o que assegurou a confidencialidade e a organização das imagens. Além disso, esta atividade foi opcional e não avaliativa, garantindo que a não entrega não resultasse em penalidades acadêmicas.

Por fim, o quarto momento da oficina foi dedicado à discussão, em sala de aula e de forma presencial, das fotografias registradas pelos estudantes. Durante essa etapa, as imagens foram apresentadas juntamente com sua análise iconográfica. Isso permitiu que todos os estudantes realizassem uma análise crítica das fotografias registradas e dos artigos violados, a fim de possibilitar uma análise crítica posterior.

Análise e Tratamento dos Dados

Neste estudo, a análise dos dados foi baseada na análise iconográfica de Panofsky(19) e na bioética narrativa de Tomás Moratalla(13). A abordagem de Panofsky envolveu três etapas: pré-iconográfica, que examina os elementos visuais das imagens; iconográfica, que interpreta os significados e símbolos nelas contidos; e iconológica, que contextualiza os elementos em seu cenário histórico e cultural. A bioética narrativa complementou essa abordagem ao focar as experiências subjacentes às imagens, ajudando a interpretar as narrativas e as conexões com as violações observadas da DUDH(7,13,14,19,20).

A perspectiva de Tomás Moratalla(13), aplicada neste estudo, destaca as narrativas como ferramenta pedagógica na bioética, permitindo que os estudantes compreendessem os dilemas éticos por meio de experiências concretas e histórias representadas nas imagens. Essa visão ao integrar a análise narrativa, junto aos desafios éticos da prática profissional, fortaleceu a conexão entre bioética, direitos humanos e realidade social, preparando os estudantes para lidar com situações complexas na assistência(11#x2013;14).

Aspectos Éticos

Este estudo seguiu os princípios éticos da Resolução no 466/2012(22) do Conselho Nacional de Saúde, e foi iniciado apenas após a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, Parecer Consubstanciado nº 6.312.687, 20/09/2023. Todos os estudantes foram informados sobre a pesquisa e concordaram em participar voluntariamente, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Para garantir o anonimato, os participantes foram identificados como “estudante fotógrafo (EF)”, seguido de um código numérico, atribuído conforme a ordem cronológica de recebimento das fotografias (por exemplo: EF01, EF02, etc.). Os participantes que não enviaram fotografias foram identificados como “estudante observador (EO)”, seguidos de um código numérico iniciado a partir do número 29, em continuidade à numeração dos participantes da oficina e totalizando o número de estudantes matriculados na disciplina (por exemplo: EO29, EO30, etc.).

RESULTADOS

Participaram do estudo 48 estudantes matriculados na disciplina de BLE. Entre esses, 28 enviaram fotografias para a atividade prática do terceiro momento. No entanto, duas imagens foram excluídas por não atenderem aos critérios estabelecidos, resultando em uma amostra final de 26 fotografias para análise (pré-iconográfica e interpretação iconográfica). Os estudantes que não realizaram o envio das fotografias, optando por participar apenas das aulas teóricas (primeiro e segundo momentos) e da discussão no quarto momento, compartilharam suas narrativas sobre as imagens de seus colegas.

A análise preliminar permitiu a categorização das fotografias em três temas: (1) O lixo como símbolo da interferência, representando os resíduos como marcas de abandono e descaso; (2) A urbanização como ponto de reflexão social, destacando as contradições entre modernização e marginalização; e (3) O homem como centro das desigualdades, evidenciando as vulnerabilidades e os impactos das injustiças sociais sobre os indivíduos. Essas imagens foram organizadas conforme a ordem cronológica de recebimento, o que justifica a ausência de uma sequência linear dentro das categorias.

Conforme ilustrado na Figura 1, as fotografias capturadas pelos EFs retratam pobreza, exclusão social e negligência governamental, evidenciando diversas violações de direitos humanos. Após a análise preliminar, observou-se que predominaram violações ligadas à liberdade, direitos sociais, civis e políticos, direito à vida e meio ambiente, conforme estabelecido na DUDH(7).

Figura 1
Compilado das fotografias registradas pelos estudantes durante a atividade prática – Brasília, DF, Brasil, 2025.

Análise Pré-Iconográfica

A análise preliminar das fotografias concentrou-se na observação objetiva de elementos visíveis e recorrentes nas imagens, como formas, cores, figuras e a composição dos elementos, sem atribuir interpretações ou significados(19,20). Diante disso, foi possível identificar a presença constante de elementos degradantes no ambiente, como lixo, entulho, pichações e vegetação alta. Em algumas dessas imagens, foram registrados abrigos improvisados, localizados em áreas inadequadas e expostas a riscos (Figura 2).

Figura 2
Elementos de degradação observados nas fotografias – Brasília, DF, Brasil, 2025.

Em contrapartida, embora menos frequentes, algumas fotografias revelaram figuras humanas em situações cotidianas, como indivíduos à espera de transporte público, segurando sacolas de lixo e recebendo cuidados de saúde (Figura 3). A composição fotográfica dessas imagens também se destacou, apresentando cores mais frias, incluindo opções em preto e branco, que contrastam com as cores quentes predominantes nas demais fotografias. Outro aspecto notável na composição diz respeito às linhas imaginárias que, “desenhadas” pelos EFs durante a captura da imagem, orientavam a visão do observador em direção aos elementos de destaque.

Figura 3
Figuras humanas observadas nas fotografias – Brasília, DF, Brasil, 2025.

Essa variação estética e os elementos presentes nas fotografias enriqueceram a narrativa visual, proporcionando uma compreensão mais complexa e multifacetada da vida urbana vulnerável às violações da DUDH(7), conforme capturado pelos EFs. Além disso, essa diversidade estética contribuiu para a estruturação da narrativa fotográfica, facilitando a interpretação iconográfica das imagens.

Interpretação Iconográfica

A identificação iconográfica envolveu a análise das imagens, atribuindo significados aos elementos visuais previamente identificados. O objetivo central desta etapa foi interpretar os símbolos, figuras e composições observadas, situando-os em seus contextos sociais, religiosos, culturais ou históricos(19,20). No caso das fotografias registradas pelos EFs, a identificação iconográfica permitiu explorar como os elementos visuais capturados refletem questões relacionadas às violações dos direitos humanos e à vulnerabilidade social.

Ao destacarem nas fotografias elementos que demonstram a degradação do ambiente, por exemplo, os EFs indicam a ausência de manutenção e cuidado nos espaços de convivência coletiva, simbolizando a negligência com áreas que são ocupadas, geralmente, por populações vulneráveis. Esse cenário de abandono pode ser entendido como um reflexo da marginalização enfrentada por essas comunidades, que muitas vezes vivem sem acesso a serviços básicos e infraestrutura de qualidade.

Em uma outra perspectiva, as fotografias que incluem figuras humanas, apesar de retratarem cenas cotidianas, também revelam camadas de vulnerabilidade social e violações dos direitos humanos quando observadas em profundidade (Figura 4). Essas imagens capturam não apenas as ações imediatas dos indivíduos, mas sugerem contextos de precariedade e desamparo que transcendem o óbvio, remetendo a questões estruturais e à ausência de garantias básicas.

Figura 4
Fotografias de cenas cotidianas de vulnerabilidade social – Brasília, DF, Brasil, 2025.

A cena de indivíduos aguardando transporte público, por exemplo, pode ser interpretada como um símbolo da escassez de acesso a um sistema de transporte eficiente, seguro e em quantidade adequada, evidenciando uma violação indireta ao direito à mobilidade e à liberdade de movimento(7). Essa limitação não apenas dificulta a locomoção, mas também reflete a falta de infraestrutura urbana necessária para garantir a dignidade e o bem-estar das comunidades.

Outro simbolismo apresentado nas fotografias é a representação de pessoas carregando sacolas de lixo, ato que além de destacar a relação dos moradores com a gestão de resíduos, traz a reflexão do lixo como fonte de alimento. Tal realidade reflete o abandono dos direitos fundamentais, além de ilustrar a desumanização e insegurança alimentar, que são violações do direito a um meio ambiente saudável, à vida e à dignidade(7).

Na interpretação iconográfica, foi possível perceber desigualdade e exclusão social nas imagens dos EFs antes mesmo de identificar os artigos violados da DUDH(7). As composições fotográficas, elaboradas com atenção por eles, aliadas ao conhecimento dos artigos da declaração, tema abordado nas etapas iniciais da oficina, facilitaram a identificação dos simbolismos presentes nas imagens e o mapeamento preliminar dos direitos violados antes mesmo de serem apresentados em suas narrativas.

Interpretação Iconológica e a Bioética Narrativa

A interpretação iconológica vai além da simples descrição visual e simbólica das imagens; ela buscou explorar as ideias, valores e significados profundos dos elementos dentro do contexto histórico e social em que a obra foi criada(19,20). A bioética narrativa, por sua vez, complementou essa análise ao enriquecer a compreensão de obras que tratam de temas como vida e condição humana, proporcionando uma visão mais profunda das questões éticas e emocionais representadas(13,14).

No caso das fotografias capturadas pelos EFs, essa abordagem integrada possibilitou a exploração não apenas dos aspectos visuais e técnicos das imagens, mas também das narrativas pessoais e coletivas que elas carregam. No contexto bioético, essas violações desafiam os princípios do principialismo, comprometendo a autonomia, justiça e beneficência no cuidado em saúde e na dignidade humana(11,12). A bioética narrativa complementa essa perspectiva ao transformar as imagens em narrativas visuais que expõem essas desigualdades e dilemas éticos(13,14). Esse processo estimula a empatia e a reflexão crítica, auxiliando os estudantes a compreender o impacto das violações de direitos humanos na assistência em enfermagem e reforçando a importância de uma prática pautada na ética, equidade e dignidade humana.

A inclusão dessas emoções no registro influenciou diretamente o impacto que cada estudante desejou transmitir ao seu observador. Os elementos “táteis” da fotografia e o simbolismo presente na composição das imagens se entrelaçaram com as ideias dos direitos humanos e dos princípios bioéticos, moldando a percepção e interpretação de todos os atores que as analisaram. Dessa forma, cada análise foi enriquecida por esses elementos, que, juntos, ampliaram a experiência e a compreensão das obras imagéticas.

Ao discutirem as emoções e reflexões surgidas durante a captura, os EFs puderam articular como essas imagens representam fragmentos das violações cotidianas em nossa sociedade. Suas verbalizações enriqueceram a compreensão das fotografias e dos artigos que elas evocam, promovendo uma discussão que incluiu as percepções dos EOs, que não fizeram registros, mas que conseguiram identificar outras violações menos evidentes para o fotógrafo.

Durante as análises, os EFs ressaltaram que, frequentemente, não percebem as violações de direitos que ocorrem diariamente com as pessoas ao seu redor, devido à normalização dessas situações em diversos contextos. Esse aspecto também foi destacado pelos EOs, que reconheceram não perceber com frequência as violações ao seu redor de maneira tão vívida como nas fotografias. Muitos desses estudantes relataram, inclusive, por não perceberem violações tão explícitas em seus contextos, que optaram por não enviar suas próprias imagens:

Tive interesse, mas não tive tempo para buscar algo além do que já estava sendo fotografado por outros colegas. No entanto, percebo que, independentemente de quão explícitas sejam, as violações estão sempre presentes ao nosso redor! (EO29).

Os EOs não apenas reconheceram e compreenderam o simbolismo por trás das fotografias, mas também ampliaram as interpretações, trazendo novas perspectivas que não haviam sido mencionadas anteriormente. Esse diálogo demonstra que houve compreensão mais profunda das questões sociais em pauta, permitindo que todos os estudantes, independentemente de sua participação, engajassem nas questões levantadas pelas fotografias (Figura 5).

Figura 5
Fotografia 19 e as narrativas dos estudantes – Brasília, DF, Brasil, 2025.

Ao ser analisado o papel social das imagens, todos os estudantes apontaram que tanto as fotografias que registraram quanto aquelas apresentadas ao longo da oficina desempenham um papel fundamental como ferramentas de comunicação crítica e transformação social, em diferentes contextos. Para os estudantes, as imagens não são apenas representações da realidade, mas também instrumentos poderosos para provocar reflexão, gerar debate e questionar normas estabelecidas:

É através da fotografia que podemos evidenciar realidades diferentes e avançarmos em discussões importantes para a sociedade (EO32).

A fotografia é mais do que a retratação de momentos importantes; pode ser uma forma de crítica e denúncia social, apontando direitos que são violados e realidades que precisam ser mudadas (EO40).

No que diz respeito às fotografias que registram violações aos direitos previstos na DUDH(7), observa-se seu grande potencial de sensibilizar o público, influenciar atitudes e até inspirar mudanças sociais significativas. Esse impacto é particularmente relevante para os estudantes, como apontaram, uma vez que são futuros profissionais da saúde e, portanto, estarão inseridos em contextos de trabalho vulneráveis ou em contato direto com populações em situação de risco.

Percebe-se que, para todos os estudantes, o registro de violações aos artigos da DUDH(7), assim como a compreensão da fotografia como uma ferramenta de crítica social, não é algo impossível ou difícil de ser realizado, uma vez que situações de pobreza, exclusão social e negligência governamental estão constantemente presentes em nossa sociedade, e a visualização dessas violações pode fomentar o desenvolvimento do senso crítico. No entanto, estes ressaltam que a identificação dessas violações é mais clara com um conhecimento prévio dos conceitos teóricos, especialmente no contexto acadêmico:

A partir da abordagem da temática sobre direitos humanos e bioética, sinto que meu olhar e o meu senso crítico melhorou com relação ao início da disciplina. Se fosse abordado com mais amplitude dentro da universidade, os alunos teriam uma formação mais humana (EO35).

Esse embasamento permite uma leitura mais crítica e aprofundada da realidade, facilitando a percepção das desigualdades estruturais e dos direitos que estão sendo desrespeitados. No contexto da saúde, conforme apontado por eles, essa educação diferenciada é essencial, pois os preparariam para identificar e enfrentar as desigualdades no acesso a cuidados, assim como as discriminações que podem ocorrer nos sistemas de saúde. Ao integrar essa abordagem à formação em enfermagem, reforça-se a importância de uma prática baseada na equidade, no respeito aos direitos humanos e na promoção de uma assistência mais justa e inclusiva.

A seguir, na seção da discussão, serão abordadas as implicações da fotografia como ferramenta pedagógica na educação em direitos humanos, em articulação com a bioética narrativa e o principialismo bioético. Serão analisados seus impactos na reflexão crítica e ética, destacando as violações sociais e seus reflexos na prática de enfermagem.

DISCUSSÃO

Susan Sontag (2004) argumenta que a fotografia transforma eventos em objetos consumíveis, criando narrativas limitadas e subjetivas da realidade. Ela vê as fotografias como construções que podem simplificar a complexidade do evento original, tornando a análise ativa do observador essencial para seu entendimento(23). Corroborando a ideia, Roland Barthes(10) apresenta a fotografia como uma forma de narrativa que documenta e cria uma experiência pessoal.

A união das ideias de Sontag e Barthes permite uma reflexão profunda sobre imagem, realidade e interpretação. Sontag vê a fotografia como uma forma de consumo que cria narrativas visuais restritas, enquanto Barthes realça sua dimensão íntima, na qual o contexto e o detalhe emocional criam uma experiência única, transformando a relação entre o fotógrafo e o observador(10,23). Assim, a fotografia, como ferramenta de transformação, alinha-se aos conceitos da bioética narrativa, pois não apenas registra uma realidade, mas também molda respostas éticas e emocionais únicas.

A bioética narrativa valoriza essa capacidade de sentir e interpretar experiências alheias, permitindo que a fotografia transcenda o papel de espelho da realidade, tornando-se um espaço de diálogo e empatia em questões humanas(13,14). Aplicando a análise iconológica de Erwin Panofsky, que examina as imagens em seus contextos históricos e culturais, percebe-se que elas desvendam camadas profundas de significado. Essas camadas são cruciais para fomentar empatia e compreensão ética, enriquecendo tanto a experiência de quem registra quanto a de quem observa a fotografia(19,20).

Esses conceitos ajudam a compreender como os estudantes de enfermagem que participaram da oficina percebem as violações dos direitos humanos em nossa sociedade, destacando a fotografia como crítica social. Estes entenderam que ela não apenas documenta, mas engaja e provoca empatia, abordando a injustiça de maneira que articula discursos sobre a humanidade e suas vulnerabilidades, funcionando como um elo entre o presente e a transformação social(1,36).

Sob a ótica do principialismo bioético, essa abordagem reforça nos estudantes de enfermagem a importância dos princípios da autonomia, justiça, beneficência e não maleficência na saúde. A fotografia, ao expor desigualdades e estimular a reflexão crítica, amplia a percepção da responsabilidade ética na defesa dos direitos humanos. Assim, a análise imagética sensibiliza para os desafios das populações vulneráveis, fortalecendo a necessidade de uma atuação profissional pautada na equidade, respeito e bem-estar coletivo(11,12).

Já no formato de imagem estática, a fotografia representa uma realidade próxima, mas, como aponta Secco(2), permanece sujeita a influências externas tanto do fotógrafo quanto do observador. Quando enriquecida pelas narrativas, a fotografia transcende seu papel documental e pode se tornar um essencial instrumento acadêmico para promoção de debates e reflexões profundas sobre questões sociais e violações de direitos humanos, temas que estão interligados às práticas diárias da enfermagem. Além disso, essa abordagem fortalece a formação crítica dos estudantes, incentivando uma assistência mais humanizada e eticamente comprometida com a equidade e dignidade dos pacientes(11,12).

Assim, o encontro entre bioética narrativa e fotografia ocorre ao empregar as narrativas e experiências dos estudantes de enfermagem na captura de imagens como instrumentos para estimular uma reflexão crítica e deliberação ética nos cuidados em saúde. Esse processo de integrar a narrativa com o ato fotográfico no ensino ultrapassa a simples transmissão de conhecimento, engajando os estudantes de enfermagem em uma análise profunda e ativa de questões éticas e sociais, promovendo uma compreensão mais holística e responsável das complexidades envolvidas na prática assistencial(13,14).

Estudos com participantes de diferentes áreas e níveis de ensino mostram que a fotografia é uma ferramenta eficaz para conscientizar sobre questões sensíveis, construindo narrativas imagéticas que desconstroem práticas mecanicistas e ampliam o entendimento crítico(10,19,2325). Dessa forma, essa abordagem fortalece a formação dos estudantes, capacitando-os a identificar violações de direitos humanos e refletir sobre as condutas éticas a serem adotadas na prática profissional da enfermagem(15#x2013;18,25). Além disso, promove um cuidado mais humanizado, reafirmando o compromisso da profissão com a justiça social, os princípios éticos e a dignidade dos pacientes(11,12). No que tange à educação superior, é vital criar uma cultura de direitos humanos, conforme apontam as DCNs e a Política Nacional de Educação em Direitos Humanos(15,26), que seja essencial para atitudes de defesa dos mais vulneráveis. Esta educação deve oferecer não apenas conhecimento técnico, mas também desenvolver habilidades críticas e éticas, preparando os futuros profissionais para atuarem com responsabilidade e reflexão(17,2628).

Integrar a educação em direitos humanos, em alinhamento aos princípios éticos, ao currículo prepara o indivíduo como um agente de mudança aberto ao diálogo e comprometido com a dignidade e equidade(11,12,17,18,27,28). Para que esse aprendizado seja eficaz, é essencial que a educação vá além da teoria, utilizando atividades práticas como a fotografia. Esse método não só estimula uma reflexão profunda sobre as implicações éticas e sociais da prática profissional, mas também motiva os estudantes a engajar ativamente em atividades interativas, promovendo um aprendizado envolvente e crítico(20,27,28).

Logo, percebe-se que os estudantes de saúde, principalmente os de enfermagem, devem receber formação técnica e conteúdo que integrem teoria e prática assistencial, permitindo a inserção em rotinas e protocolos de instituições de saúde(25#x2013;28). A inclusão de temas transversais aos direitos humanos ajuda a formar profissionais aptos e conscientes para atuar com ética e respeito à dignidade e vulnerabilidades dos pacientes.

Apesar da pequena amostra e da aplicação em um único curso, a principal lacuna deste estudo foi a ausência de fotografias que representassem uma maior diversidade de violações dos direitos humanos. Essa limitação possivelmente decorre da baixa familiaridade dos acadêmicos de enfermagem com a temática dos direitos humanos ao longo da graduação, o que pode ter resultado na invisibilização de violações presentes em seu cotidiano. Esse cenário evidencia a necessidade de ampliar a abordagem sobre direitos humanos na formação em enfermagem, integrando a DUDH de maneira interdisciplinar ao currículo teórico e prático. A inclusão desse tema de forma mais estruturada não apenas contribuiria para o desenvolvimento de uma visão crítica e reflexiva dos estudantes, mas também fortaleceria sua atuação profissional no reconhecimento e enfrentamento das injustiças sociais e desigualdades em saúde.

CONCLUSÃO

A oficina pedagógica desenvolvida neste estudo foi uma experiência significativa, permitindo que os estudantes se envolvessem tanto na captura quanto na análise crítica das imagens. O uso das fotografias como ferramenta didática para o ensino de direitos humanos estimulou a reflexão sobre questões sociais e direitos humanos, ampliando a compreensão dos participantes sobre as implicações éticas em sua futura prática profissional.

Além disso, a presente experiência pedagógica pode ser utilizada como ferramenta para identificar as fragilidades dos alunos no que tange à percepção e compreensão sobre as violações do DUDH, permitindo ao docente aprofundar e expandir o debate. A ausência de uma abordagem integrada entre bioética, enfermagem e direitos humanos limita a formação crítica e ética dos enfermeiros.

Logo, a associação entre práticas pedagógicas, como bioética narrativa, principialismo, direitos humanos e uso da fotografia, como ferramenta metodológica para integração e aplicação desses referenciais foi essencial. Tal fato contribuiu para o preparo de futuros profissionais empáticos, sensíveis às violações, com consciência ética sobre a dignidade e as vulnerabilidades diante das violações da DUDH, vivenciadas no cotidiano profissional da enfermagem.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente devido à presença de informações sensíveis e à necessidade de preservação da confidencialidade dos participantes. As fotografias e demais materiais produzidos durante a oficina pedagógica estão armazenados em repositório acadêmico institucional de uso restrito à equipe de pesquisa, conforme aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) (Parecer Consubstanciado nº 6.312.687, de 20/09/2023). Todas as informações relevantes para a compreensão dos achados estão descritas no corpo do artigo.

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  • Apoio financeiro
    o presente trabalho foi realizado com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - (CAPES) Brasil - Código de Financiamento 001, através da concessão de bolsa de doutorado acadêmico (Edital DPG nº 003/2024); da Secretária de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) Brasil, através da bolsa-residência do Programa de Residência Uniprofissional de Enfermagem da Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (FEPECS) Brasil (Edital – 2023/2025); e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Brasil, pela concessão de Bolsa de Produtividade em Pesquisa 1-D (2016/2020), que foram fundamentais para a realização deste estudo.

Editado por

  • EDITORA ASSOCIADA
    Cristina Lavareda Baixinho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Nov 2024
  • Aceito
    08 Abr 2025
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