RESUMO
Objetivo: Mapear as estratégias descritas na literatura que podem ser adotadas pela equipe de enfermagem para a prevenção de lesões por pressão em pessoas idosas hospitalizadas.
Método: Revisão de escopo estruturada conforme a metodologia do JBI, realizada em 17 de junho de 2024. A busca dos documentos foi realizada em oito bases de dados e em uma biblioteca de teses e dissertações, com auxílio do aplicativo Rayyan para a seleção dos estudos.
Resultados: Foram incluídos 11 estudos na revisão. A avaliação inicial de risco, a reavaliação contínua e o monitoramento, a redistribuição da pressão, a manutenção da integridade da pele, o tratamento de lesões por pressão, o suporte nutricional e hídrico, a educação e o envolvimento de pacientes e familiares, a capacitação da equipe de saúde, além da implementação de instrumentos padronizados e do uso de tecnologia, foram identificados como as principais estratégias de prevenção.
Conclusão: As estratégias de prevenção identificadas permitem à equipe de enfermagem agir de forma rápida, utilizando intervenções integradas que são otimizadas pela capacitação dos profissionais, bem como pelo uso de instrumentos padronizados e tecnologias avançadas.
DESCRITORES
Saúde do Idoso; Idoso; Úlcera por Pressão; Enfermagem; Cuidados de Enfermagem
ABSTRACT
Objective: To map the strategies described in the literature that can be adopted by the nursing team to prevent pressure injuries in hospitalized older people.
Method: Structured scoping review according to the JBI methodology, performed on June 17, 2024. The search for documents was carried out in eight databases and in a library of theses and dissertations, with the help of the application Rayyan for selecting studies.
Results: Eleven studies were included in the review. Initial risk assessment, ongoing reassessment and monitoring, pressure redistribution, maintenance of skin integrity, treatment of pressure injuries, nutritional and fluid support, education and involvement of patients and families, training of the healthcare team, in addition to the implementation of standardized instruments and the use of technology, were identified as the main prevention strategies.
Conclusion: The identified prevention strategies allow the nursing team to act quickly, using integrated interventions optimized by professional training, as well as to use standardized instruments and advanced technologies.
DESCRIPTORS
Health of the Elderly; Aged; Pressure Ulcer; Nursing; Nursing Care
RESUMEN
Objetivo: Mapear las estrategias descritas en la literatura que pueden ser adoptadas por el equipo de enfermería para prevenir lesiones por presión en ancianos hospitalizados.
Método: Revisión de alcance estructurada según la metodología JBI, realizada el 17 de junio de 2024. La búsqueda de documentos se realizó en ocho bases de datos y en una biblioteca de tesis y disertaciones, con ayuda de la aplicación Rayyan para la selección de estudios.
Resultados: Se incluyeron once estudios en la revisión. La evaluación inicial del riesgo, la reevaluación continua y el seguimiento, la redistribución de la presión, el mantenimiento de la integridad de la piel, el tratamiento de las lesiones por presión, el soporte nutricional y de líquidos, la educación y la participación de los pacientes y las familias, la capacitación del equipo de atención médica, además de la implementación de instrumentos estandarizados y el uso de tecnología, se identificaron como las principales estrategias de prevención.
Conclusión: Las estrategias de prevención identificadas permiten al equipo de enfermería actuar con rapidez, utilizando intervenciones integradas y optimizadas por la formación profesional, así como el uso de instrumentos estandarizados y tecnologías avanzadas.
DESCRIPTORES
Salud del Anciano; Anciano; Úlcera por Presión; Enfermería; Atención de Enfermería
INTRODUÇÃO
A Lesão por Pressão (LP) é um dano localizado na pele ou tecidos subjacentes, geralmente sobre proeminências ósseas ou associadas a dispositivos médicos, decorrente de pressão prolongada isolada ou combinada ao cisalhamento, influenciada por fatores intrínsecos e extrínsecos que comprometem a resistência tecidual(1). A prevalência global é de 12,8%, predominando os estágios I (43,5%) e II (28,0%), e os locais mais acometidos são sacro (37,3%), calcanhares (29,5%) e quadril (7,8%)(2). A pressão sustentada sobre essas regiões leva à isquemia e necrose tecidual; a fricção, o cisalhamento e a umidade agravam o processo, favorecendo a ruptura da pele(3).
O risco é maior em pessoas com mobilidade ou sensibilidade reduzidas, como pacientes acamados ou em cadeira de rodas, especialmente na população idosa, cuja pele apresenta alterações relacionadas ao envelhecimento(4). A previsão de 2,1 bilhões de pessoas com 60 anos ou mais até 2050 evidencia a magnitude desse desafio e a necessidade de políticas e práticas preventivas eficazes(5–7). No ambiente hospitalar, a prevenção de LP é uma responsabilidade compartilhada, com destaque para o papel do enfermeiro no cuidado direto. Entretanto, limitações de conhecimento e habilidades ainda comprometem a prática preventiva, reforçando a necessidade de atualização profissional(8). A prática baseada em evidências é essencial para decisões clínicas seguras e eficazes, mas enfrenta barreiras como lacunas formativas e dificuldades na incorporação de recomendações(9).
Apesar de campanhas e avanços tecnológicos, a incidência e o impacto das LP em pessoas idosas hospitalizadas permanecem alarmantes, com poucos avanços significativos nas últimas décadas. Esse cenário evidencia a necessidade urgente de intensificar esforços para conscientização, prevenção e tratamento dessas lesões, além de maior investimento em pesquisa e prática clínica para desenvolver estratégias mais eficazes(10).
No Brasil, regulamentações como a Lei do Exercício Profissional da Enfermagem (Lei nº 7.498/1986), a Resolução COFEN nº 564/2017 e o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), instituído pela Portaria do Ministério da Saúde nº 529/2013, estabelecem diretrizes claras para a atuação dos enfermeiros na prevenção e tratamento das LP. Essas normas reforçam a importância de práticas seguras e qualificadas para garantir a segurança e a qualidade do atendimento às pessoas idosas hospitalizadas(11–13).
Apesar dessas regulamentações e da obrigatoriedade de Núcleos de Segurança do Paciente (NSP), o Brasil enfrenta desafios importantes na prevenção de LP. Entre 2014 e 2022, as LP corresponderam a 20,3% das notificações de eventos adversos no Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), totalizando 223.378 casos. Esse número posiciona as LP como o segundo tipo de evento adverso mais frequente no país. Nesse período, foram reportados 26.735 “never events”, dos quais 72,21% estavam relacionados a LP estágio 3 e 21,57% a LP estágio 4, com 65 óbitos diretamente atribuídos a essas lesões(14).
Esses dados evidenciam que, apesar dos esforços normativos, persistem desigualdades regionais, insuficiência de recursos e lacunas na capacitação profissional. Muitos serviços hospitalares apresentam infraestrutura inadequada, incluindo falta de colchões de redistribuição de pressão e dispositivos essenciais, o que compromete as práticas preventivas. Além disso, disparidades socioeconômicas e o aumento da demanda por internações de pessoas idosas sobrecarregam o sistema de saúde, dificultando a implementação de estratégias baseadas em evidências(14).
Para garantir o ineditismo desta revisão, realizou-se busca na literatura científica, abrangendo diversas bases de dados. Embora existam diretrizes globais e revisões sistemáticas sobre a prevenção de LP, essas recomendações são amplas e voltadas para equipes multiprofissionais ou instituições de longa permanência. Contudo, inexistem revisões focadas exclusivamente na atuação da enfermagem no contexto hospitalar.
Diante disso, esta revisão busca mapear as estratégias adotadas pela enfermagem e identificar as práticas preventivas mais relevantes para esse cenário. A escolha pela revisão de escopo permite uma visão abrangente, destacando não apenas as evidências consolidadas, mas também as lacunas existentes na literatura sobre a atuação da enfermagem na prevenção de LP em pessoas idosas hospitalizadas.
A relevância deste estudo reside na sistematização de estratégias preventivas para pessoas idosas hospitalizadas, um grupo particularmente vulnerável, com potencial para aprimorar práticas clínicas e garantir cuidados mais eficazes. Além disso, ao mapear os estudos realizados pela enfermagem, reforça-se o papel dessa profissão na produção de conhecimento e na implementação de intervenções preventivas. Como protagonista no cuidado contínuo, a enfermagem pode utilizar essas evidências para fomentar capacitações, influenciar políticas institucionais e fortalecer sua autonomia na prevenção de LP. Assim, esta revisão de escopo tem como objetivo mapear as estratégias descritas na literatura que podem ser adotadas pela equipe de enfermagem para a prevenção de LP em pessoas idosas hospitalizadas.
MÉTODO
Tipo de Pesquisa
Trata-se de uma revisão de escopo conduzida conforme a metodologia do JBI para este tipo de estudo(15), seguindo as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses 2020 (PRISMA 2020)(16). O protocolo da revisão foi registrado no Open Science Framework (OSF) sob o Digital Object Identifier (DOI): 10.17605/OSF.IO/WRVZ5. Todas as modificações metodológicas realizadas durante o desenvolvimento do protocolo foram documentadas nesta versão.
Pergunta de Pesquisa da Revisão
Para formular a questão de pesquisa, foi utilizada a estratégia PCC (População, Conceito e Contexto): População (pessoas idosas hospitalizadas), Conceito (estratégias de prevenção de LP) e Contexto (assistência de enfermagem a pessoas idosas hospitalizadas). Assim, a pergunta foi elaborada da seguinte forma: “Quais estratégias descritas na literatura podem ser adotadas pela equipe de enfermagem para a prevenção de LP em pessoas idosas hospitalizadas?”.
Critérios de Elegibilidade
Os critérios de inclusão e exclusão foram estabelecidos com base no método PCC (População, Conceito e Contexto)(15). A população-alvo incluiu pessoas idosas hospitalizadas, excluindo estudos que abordaram outras faixas etárias. O conceito focou em estratégias de prevenção de LP, enquanto estudos que não trataram desse tema em pessoas idosas foram excluídos. O contexto considerou a assistência de enfermagem em pessoas idosas hospitalizadas. Foram incluídas diversas fontes de evidência, sem restrição de idioma, recorte temporal ou país de origem, contemplando artigos, dissertações e teses. Excluíram-se estudos metodológicos para tradução ou validação de instrumentos, ensaios teóricos e editoriais
Estratégia de Pesquisa
Para elaborar a estratégia de busca desta revisão de escopo, foi realizada uma pesquisa preliminar nas bases de dados PubMed® e Web of Science™, na qual se utilizaram os cabeçalhos de assuntos médicos da Medline (MeSH), os descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e o tesauro da Emtree. A leitura dos títulos e resumos dos textos encontrados nessa pesquisa preliminar permitiu a identificação de outras palavras-chave e termos sinônimos, com o objetivo de expandir os resultados da busca e obter uma estratégia mais sensível para a segunda fase de seleção dos dados.
Dessa forma, as bases de dados incluíram: PubMed® (National Library of Medicine, NLM); Web of Science™ – Coleção Principal (Clarivate Analytics); Scopus® (Elsevier); e Embase® (Elsevier). As bases de dados Base de Dados em Enfermagem (BDENF), Literatura Latino-Americana e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (LILACS) e Índice Bibliográfico Español en Ciencias de la Salud (IBECS) foram acessadas por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Para contemplar estudos de literatura cinzenta, também foi utilizada a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Os termos relacionados ao acrônimo PCC foram adaptados para cada plataforma de dados, levando em consideração as variações e os operadores booleanos (AND e OR) para desenvolver as estratégias finais, apresentadas no Quadro 1.
Sintaxe de construção, descritores/palavras-chaves e operadores booleanos utilizados nas bases de dados – Teresina, PI, Brasil, 2024.
As buscas foram realizadas em 17 de junho de 2024, utilizando acesso remoto às bases de dados por meio do portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), acessado via Comunidade Acadêmica Federada (CAFe) com o login da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Seleção da Fonte de Evidências
A seleção do material relacionado à temática ocorreu com o auxílio do sistema de gerenciamento de referências Rayyan CQRI Systems(17). Inicialmente, os arquivos contendo a literatura encontrada em cada fonte de informação foram exportados para o sistema. Dois revisores, de forma independente, realizaram a exclusão do material duplicado. Em seguida, procederam à leitura dos resumos dos textos remanescentes, atribuindo conceitos de aceitação ou rejeição conforme os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos. O processo foi conduzido às cegas, utilizando o recurso blind on disponibilizado pelo sistema, e quaisquer discrepâncias entre os revisores foram solucionadas por um terceiro revisor.
Após essa etapa, os textos selecionados foram lidos integralmente e avaliados segundo os critérios de inclusão e exclusão. Os textos aceitos foram utilizados para a extração de dados. Os resultados desse processo foram organizados em um diagrama que apresenta as fases de identificação, triagem, inclusão e seleção dos textos para a revisão.
Extração dos Dados
A extração dos dados para inclusão nesta revisão foi realizada com base na lista de referências gerada no Rayyan, que foi exportada para uma planilha do Microsoft Excel. Posteriormente, os três revisores preencheram a planilha de forma independente, seguindo um formulário elaborado especificamente para essa etapa, com o objetivo de atender ao propósito e à questão da revisão. Durante a fase de protocolo, foi desenvolvido e testado um rascunho de tabela para o registro das principais informações. Esse rascunho foi refinado ao longo da fase de revisão e resultou na versão final, que incluiu os seguintes dados extraídos de cada fonte: fonte de informação, autor(es), título, tipo, método, país, idioma, descritores/palavras-chave e estratégias de prevenção de LP em pessoas idosas realizadas pela equipe de enfermagem.
Apresentação dos Resultados
Os achados foram sumarizados utilizando o método de redução dos dados, por meio de leitura crítica e classificação dos resultados em categorias conceituais(18). Os resultados foram apresentados em figuras e quadros. O primeiro quadro detalhou as informações descritivas dos estudos, incluindo a fonte de informação, autor(es), título, tipo, método, país, idioma e descritores/palavras-chave. O segundo quadro sintetizou as estratégias de prevenção de LP em pessoas idosas hospitalizadas que podem ser aplicadas pela equipe de enfermagem.
A Figura 1 apresenta o processo de identificação, triagem e inclusão dos artigos. A Figura 2, um diagrama circular, organiza as estratégias de prevenção de LP em pessoas idosas hospitalizadas identificadas na revisão. Diferentemente de uma hierarquia, o diagrama exibe as estratégias de forma interdependente, com intervenções posicionadas em segmentos que evidenciam sua complementaridade e relevância igualitária. Esse formato favorece uma visualização integrada das ações, ressaltando a contribuição de cada estratégia para a prevenção eficaz de LP no contexto das pessoas idosas hospitalizadas.
Fluxograma do processo de identificação, triagem e inclusão dos artigos – Teresina, PI, Brasil, 2024.
Diagrama circular das estratégias de prevenção de lesões por pressão em pessoas idosas realizadas pela equipe de enfermagem – Teresina, PI, Brasil, 2024.
A discussão foi fundamentada na literatura selecionada e em outros estudos científicos relacionados ao tema. Além disso, foram utilizados documentos de entidades que promovem a criação e disseminação de diretrizes baseadas em evidências, com o objetivo de educar e capacitar profissionais de saúde, além de desenvolver políticas voltadas para a melhoria da prevenção e tratamento de LP.
Aspectos Éticos
Por se tratar de uma revisão de escopo sem envolvimento direto de participantes humanos, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme orientações do JBI. Todas as etapas foram conduzidas em conformidade com os princípios éticos aplicáveis à pesquisa, assegurando transparência, rigor metodológico e integridade científica. Foram respeitados os direitos autorais e a correta citação das fontes, garantindo a reprodutibilidade e a confiabilidade dos achados.
RESULTADOS
As estratégias de busca identificaram um total de 4.867 publicações. Após a remoção de 412 duplicatas, restaram 4.455 estudos para a triagem dos títulos e resumos. Desses, 97 foram selecionados para leitura completa. Durante essa fase, 13 estudos não puderam ser recuperados, resultando em 84 artigos que foram lidos na íntegra. Após uma análise minuciosa, 73 artigos foram excluídos, restando 11 estudos para compor esta revisão. Todos os motivos de exclusão foram documentados visando à construção do relatório de excluídos para posterior exposição. É importante destacar que não foi possível identificar estudos adicionais por outros métodos, não adicionando mais evidências à presente revisão (Figura 1).
A partir da análise dos 11 estudos incluídos, constatou- se que a revista com o maior número de publicações sobre o tema foi a International Wound Journal, com duas publicações (18,18%). Além disso, os estudos foram realizados por 36 autores diferentes. Os anos com maior número de publicações foram 2021, 2019 e 2015, cada um com duas publicações (18,18%), enquanto os demais anos registraram uma publicação (9,09%) cada. Em relação à tipologia, verificou-se que todos os estudos analisados eram artigos científicos, sendo nove pesquisas de campo (81,82%). O método mais utilizado foi o quase- experimental, presente em três estudos (27,27%). Ademais, a China foi o país de origem mais representativo, com três estudos (27,27%).
No que diz respeito ao idioma, a maioria dos textos estava disponível em inglês (72,73%). Por fim, as palavras-chave destacaram estratégias de prevenção e tratamento de LP em pessoas idosas, enfatizando a importância dos cuidados de enfermagem contínuos, da terapia nutricional e do uso de tecnologia para feedback em tempo real. Essas informações estão detalhadas no Quadro 2.
A análise das estratégias para prevenção da LP em pessoas idosas hospitalizadas revelou 10 abordagens importantes que podem ser realizadas pela equipe de enfermagem: avaliação inicial de risco; reavaliação contínua e monitoramento; redistribuição da pressão; manutenção da integridade da pele; tratamento de LP, suporte nutricional e hídrico; educação e envolvimento de pacientes e familiares; capacitação da equipe de saúde, implementação de instrumentos padronizados e uso de tecnologia (Quadro 3).
Estratégias de prevenção de lesões por pressão em pessoas idosas que podem ser realizadas pela equipe de enfermagem – Teresina, PI, Brasil, 2024.
Para facilitar a compreensão das estratégias de prevenção de LP em pessoas idosas hospitalizadas, as intervenções foram organizadas em um modelo circular que apresenta quatro áreas inter-relacionadas, cada uma representando aspectos fundamentais dos cuidados necessários (Figura 2).
A área “Avaliação e Identificação de Risco” representa o alicerce das intervenções preventivas. Ela inclui a avaliação inicial do risco, essencial para identificar pacientes vulneráveis, e a reavaliação contínua, que permite monitorar o estado do paciente ao longo do tempo.
Na sequência, a área “Intervenções Práticas Diretas” engloba ações específicas, como a redistribuição da pressão, a manutenção da integridade da pele e o tratamento de lesões já estabelecidas. Essas práticas visam prevenir o surgimento de novas lesões e minimizar os danos de lesões existentes.
A área “Suporte Adicional e Capacitação” destaca a importância de oferecer suporte nutricional e hídrico, promover a educação e o envolvimento de pacientes e familiares, além de capacitar a equipe de saúde. Essas medidas ampliam a eficácia das intervenções preventivas e fortalecem o cuidado colaborativo.
Por fim, a área “Instrumentos e Tecnologia” reúne os elementos mais avançados do cuidado, incluindo a implementação de instrumentos padronizados e a utilização de tecnologias para melhorar a eficiência e a precisão das intervenções preventivas.
DISCUSSÃO
Os achados deste estudo permitiram agrupar as estratégias de prevenção de LP adotadas pela equipe de enfermagem em pessoas idosas hospitalizadas em dez categorias. Essas recomendações estão alinhadas às diretrizes internacionais do Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Quick Reference Guide 2019, que, embora gerais, orientam a adaptação das práticas preventivas para o contexto hospitalar e para a população idosa(30).
A avaliação sistemática da pele é uma medida essencial para a prevenção. A literatura recomenda uma inspeção holística, da cabeça aos pés, com atenção especial às proeminências ósseas e às áreas sob dispositivos, visando identificar precocemente sinais de lesão. Essa avaliação deve ser periódica e considerar superfícies de apoio, integridade da pele, mobilidade, conforto e nível de atividade, de modo a subsidiar intervenções adequadas(31).
Evidências indicam que intervenções preditivas de enfermagem são mais eficazes que abordagens convencionais na prevenção de LP em idosos acamados por longos períodos, aumentando a satisfação dos pacientes e apresentando alta viabilidade(19). As escalas de Braden (1987) e Norton (1962) são ferramentas amplamente utilizadas para estratificar o risco de LP, ao analisarem fatores como mobilidade, umidade, sensibilidade, nutrição e fricção, favorecendo a implementação de medidas preventivas direcionadas(32,33).
A reavaliação periódica e o monitoramento contínuo potencializam esses resultados. Um dos estudos incluídos mostrou que a utilização de bota com dispositivo de suspensão de calcanhar em pacientes acima de 70 anos reduziu a incidência de LP quando o risco foi avaliado desde o atendimento pré-hospitalar até a alta, garantindo a continuidade do cuidado(27).
Assim, as estratégias de avaliação inicial, reavaliação e monitoramento, compreendidas na categoria “Avaliação e Identificação de Risco”, apresentam baixo custo, aplicabilidade ampla e elevada eficácia para a identificação precoce de fatores de risco e para o desencadeamento oportuno de intervenções preventivas.
A redistribuição da pressão, por meio da mudança de decúbito e do uso de superfícies de suporte, é uma estratégia essencial para a prevenção de LP. Uma revisão sistemática, contudo, aponta ausência de consenso quanto aos intervalos ideais de reposicionamento, variando entre 2, 3, 4 e 6 horas(34). Assim, as diretrizes da Wound Ostomy & Continence Nurses Society recomendam ajustar a frequência do reposicionamento às condições clínicas e necessidades individuais, definindo esse cuidado como padrão(35).
As superfícies de suporte contribuem para aliviar a pressão em áreas vulneráveis e podem ser classificadas em sistêmicas e locais. As primeiras incluem colchões de alta especificação, colchões de ar reativos ou de pressão alternada e outros dispositivos avançados, amplamente utilizados para proteger regiões como a sacrococcígea, mais suscetível ao desenvolvimento de LP. As superfícies locais, como almofadas de gel ou de ar, são adaptadas às especificidades anatômicas. Dispositivos antigos, como colchões e almofadas de água, não são recomendados devido à eficácia limitada e aos riscos associados ao uso inadequado(30,36).
Embora estudos mais antigos já destacassem a importância da redistribuição da pressão(29), diretrizes atuais reforçam práticas atualizadas, como a posição lateral a 30° e o uso de dispositivos suspensores para os calcanhares, aliadas a planos individualizados que conciliem risco, conforto e tecnologias avançadas(29,30).
A manutenção da integridade da pele é outro componente central. Em ambientes de alta prevalência de xerose cutânea, dermatite associada à incontinência, lacerações e intertrigo, inspeções frequentes e manutenção da pele seca são medidas essenciais. Evidências demonstram que programas estruturados de cuidados, incluindo limpadores suaves e produtos leave-on, são eficazes para prevenir danos, especialmente em pessoas idosas e pacientes pediátricos(37).
Em um dos estudos analisados, o uso de diagnósticos e planos de cuidados específicos para pessoas idosas contribuiu para a prevenção e para a melhoria da qualidade do cuidado, com intervenções voltadas a higiene, manejo da incontinência, monitoramento da pele e nutrição, posicionamento e supervisão da pressão sobre áreas vulneráveis(21).
Embora o foco seja a prevenção, o tratamento das LP é parte integrante da assistência. Inclui limpeza adequada, uso de curativos e técnicas terapêuticas para acelerar a cicatrização e prevenir complicações. O desbridamento — cirúrgico, autolítico, enzimático ou mecânico — é essencial na remoção de tecido necrótico, e o controle da infecção requer o uso de antimicrobianos tópicos ou sistêmicos, mantendo a lesão limpa e coberta para reduzir riscos e favorecer a cicatrização(38).
Um estudo mostrou que o cuidado de enfermagem contínuo reduziu complicações e aumentou a satisfação dos pacientes idosos hospitalizados, integrando prevenção, tratamento e apoio físico e psicológico, com participação ativa de pacientes e familiares(20).
No diagrama circular, as estratégias de redistribuição da pressão, manutenção da integridade da pele e tratamento das LP compõem a área “Intervenções Práticas Diretas”, fundamentais para prevenir novas lesões e favorecer a recuperação das existentes por meio de cuidados especializados.
No âmbito da área “Suporte Adicional e Capacitação”, a nutrição e a hidratação adequadas são componentes essenciais para a prevenção e cicatrização de LP. A equipe de enfermagem deve monitorar o estado nutricional e incentivar a ingestão hídrica, uma vez que desnutrição e desidratação aumentam a morbimortalidade e comprometem a cicatrização. A perda de peso não planejada e a baixa ingestão de líquidos são fatores de risco que exigem identificação precoce e manejo oportuno(39).
As diretrizes atuais recomendam abordagem multidisciplinar para o manejo das LP(30). Nutricionistas e dietistas ajustam a dieta e indicam suplementos proteicos de acordo com as necessidades individuais, otimizando o estado nutricional e favorecendo a prevenção e a cicatrização(40). Contudo, ainda são escassas as evidências quanto à eficácia de composições nutricionais específicas(41). Um estudo transversal e multicêntrico com pacientes ≥70 anos em risco de LP evidenciou que o cuidado nutricional oferecido está aquém do recomendado: triagem nutricional, encaminhamento ao nutricionista e suplementação proteica são práticas pouco frequentes na rotina assistencial(23).
O envolvimento de pacientes e familiares no plano de cuidados é outro pilar dessa área, abrangendo orientações sobre sinais de alerta e medidas preventivas. Essa estratégia, porém, é pouco implementada devido à ausência de materiais educativos adequados; quando disponíveis, costumam ser incompletos, negligenciando diretrizes para cuidadores e recursos visuais(42). Um dos estudos analisados reforça a importância de integrar a prevenção de LP ao cuidado global da pessoa idosa hospitalizada, destacando a atuação de equipes interdisciplinares de avaliação geriátrica(28).
A capacitação da equipe é decisiva para a educação do paciente e para a qualidade assistencial. Programas de educação continuada, presenciais ou a distância, devem ser estruturados, supervisionados e utilizar metodologias ativas, como simulação e ensino online. Evidências indicam que treinamentos entre 45 minutos e duas horas, mesmo em formato e-learning, são eficazes para aprimorar a identificação precoce de riscos e a implementação de medidas preventivas(43–45).
Em um estudo retrospectivo realizado no Second Affiliated Hospital of Wenzhou Medical University, 103 idosos hospitalizados foram assistidos por enfermeiros recém-treinados sobre causas, prevenção e tratamento de LP. O cuidado integral reduziu significativamente o risco de LP, melhorou o estado psicológico e a qualidade de vida dos pacientes e aumentou o conforto durante a hospitalização(22).
No modelo circular, as estratégias de suporte nutricional e hídrico, associadas à educação e ao engajamento de pacientes e familiares, compõem a área “Suporte Adicional e Capacitação”. Essas medidas são fundamentais para a prevenção de LP em idosos hospitalizados, população especialmente suscetível à desnutrição e à desidratação, e exigem um cuidado integral, interdisciplinar e contínuo.
Na área “Instrumentos e Tecnologia” do diagrama circular, a implementação de protocolos estruturados é um eixo central para a prevenção de LP. A adesão rigorosa a protocolos bem definidos melhora a qualidade da assistência e reduz significativamente a incidência dessas lesões. Programas específicos potencializam sua eficácia ao garantir atenção integral e contínua ao paciente(46). Nesse processo, a enfermagem desempenha papel central na aplicação, monitoramento e ajuste das medidas, adaptando-as às necessidades individuais(47).
A revisão identificou ferramentas essenciais para a prevenção de LP. O SSKIN Care Bundle é uma abordagem abrangente baseada em cinco pilares: superfícies de suporte adequadas, supervisão regular da pele, manejo da umidade, nutrição e movimentação do paciente. O Malnutrition Universal Screening Tool (MUST) avalia o risco de desnutrição por meio de fatores como o Índice de massa corporal (IMC), perda de peso recente e impacto da doença no estado nutricional. Já a Cruz de Segurança ou Calendário de Segurança é uma estratégia visual utilizada em unidades de saúde para monitorar eventos adversos e promover um ambiente de cuidado mais seguro(26).
Tecnologias avançadas têm se mostrado eficazes como estratégias de prevenção. Métodos de aprendizado de máquina para modelos preditivos, reconhecimento de postura e análise de imagens contribuem para detecção precoce e monitoramento contínuo(48). Sensores vestíveis auxiliam na adesão aos protocolos de reposicionamento, reduzindo a incidência de LP(49). Outras tecnologias, como ultrassom, termografia, medição de umidade subepidérmica e espectroscopia a laser Doppler, superam as limitações da inspeção visual tradicional, possibilitando uma abordagem mais precisa e proativa(50).
Apesar desses avanços, a implementação tecnológica em hospitais, especialmente em países em desenvolvimento, enfrenta desafios: falta de infraestrutura, custos elevados, necessidade de capacitação contínua, impacto orçamentário, desigualdade no acesso e dependência de equipamentos importados. Tais fatores reforçam a importância de estratégias adaptadas à realidade local, buscando acessibilidade e sustentabilidade(51).
Um estudo incluído nesta revisão avaliou o uso do Continuous Bedside Pressure Mapping (CBPM) em uma unidade de reabilitação ortopédica em Uppsala, Suécia, com pacientes acima de 65 anos. O CBPM utiliza um tapete com sensores de pressão conectados a um monitor, que indica em vermelho as áreas de maior pressão. Essa visualização em tempo real forneceu feedback à equipe e aos pacientes, incentivando a mudança de posição e promovendo autocuidado. Após a intervenção, houve melhora no conhecimento dos pacientes sobre fatores de risco e prevenção de LP, com maior engajamento nas medidas preventivas(24).
No modelo circular, a implementação de instrumentos padronizados e o uso de tecnologias compõem a área “Instrumentos e Tecnologia”. Essas estratégias demandam mais recursos e envolvem intervenções mais complexas do que as ações diretas de manejo, porém estruturam e qualificam as práticas assistenciais, oferecendo suporte às demais áreas, fortalecendo a prevenção secundária e terciária e contribuindo para reduzir os danos em pessoas idosas hospitalizadas.
Apesar das evidências de eficácia das intervenções pontuais, a prevalência global das lesões por pressão permanece elevada. Esse paradoxo decorre de barreiras estruturais e organizacionais, como a escassez de recursos humanos e materiais, baixa adesão às diretrizes, lacunas de conhecimento e habilidades, ausência de cultura de segurança consolidada e dificuldades práticas para incorporar recomendações na rotina assistencial. Mesmo em hospitais com sistemas estruturados, um estudo recente demonstra que a implementação das diretrizes é prejudicada por esses fatores, reforçando que medidas isoladas são insuficientes sem mudanças institucionais e políticas consistentes(52).
Uma limitação desta revisão é a ausência de avaliação formal da qualidade metodológica dos estudos incluídos, o que pode afetar a robustez das conclusões. Essa limitação foi atenuada pela análise abrangente da literatura científica e pela consulta a recomendações de órgãos especializados. Embora revisões de escopo usualmente não realizem avaliação crítica dos estudos, buscou-se embasar as estratégias apresentadas considerando as especificidades da hospitalização de pessoas idosas, com recomendações mais aplicáveis ao contexto clínico.
Este estudo contribui para a prática de enfermagem ao identificar evidências que orientam a implementação de estratégias sistematizadas para a prevenção de LP. Ressalta-se a necessidade de capacitação contínua da equipe, bem como do uso racional de tecnologias para monitoramento de risco e avaliação de intervenções, promovendo maior segurança e qualidade assistencial. No contexto hospitalar, essas estratégias devem ser adaptadas aos recursos e à infraestrutura disponíveis, especialmente em cenários com limitações tecnológicas e de capacitação profissional. Assim, integrar essas ações aos protocolos institucionais, investir em educação continuada e utilizar tecnologias emergentes de forma criteriosa são medidas essenciais para consolidar a prevenção de LP como padrão assistencial seguro e efetivo.
Por fim, os achados desta revisão estão alinhados à literatura internacional, que enfatiza a necessidade de ampliar a pesquisa em enfermagem sobre prevenção de LP, reforçando a importância de práticas fundamentadas em evidências para atender adequadamente essa população vulnerável(53).
CONCLUSÃO
As estratégias de prevenção de LP mapeadas na revisão foram organizadas em quatro áreas: avaliação e identificação de risco, intervenções práticas diretas, suporte adicional e capacitação, e instrumentos e tecnologia. Essas estratégias permitem à equipe de enfermagem atuar de forma rápida e eficiente, empregando intervenções integradas, otimizadas pela capacitação profissional e pelo uso de instrumentos padronizados e tecnologias avançadas.
Essas abordagens apresentam implicações diretas na assistência à pessoa idosa. A avaliação precoce identifica riscos e possibilita uma ação imediata. As intervenções práticas, como a redistribuição da pressão e os cuidados com a pele, previnem o desenvolvimento de lesões. O suporte adicional, incluindo nutrição, educação e treinamento da equipe, aprimora a qualidade do cuidado. O uso de instrumentos padronizados e tecnologias avançadas facilita tanto a aplicação quanto o monitoramento das práticas preventivas. Quando aplicadas de forma integrada, essas estratégias garantem um cuidado de qualidade, reduzem o risco de LP e promovem uma assistência integral e específica para pessoas idosas hospitalizadas.
Recomenda-se a realização de estudos de intervenção que explorem as diferentes estratégias, com foco especial na implementação de tecnologias avançadas e protocolos rigorosos. Esses estudos podem fortalecer a eficácia das práticas preventivas e promover melhorias na qualidade do cuidado oferecido a essa população vulnerável.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que sustenta os resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Referências bibliográficas
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Fonte: adaptado de Page et al. (2021)(