Open-access Uso da simulação realística em um curso de saúde mental virtual

RESUMO

Introdução:   A simulação realística é uma técnica conceituada para a formação de profissionais de saúde já empregada nas instituições de ensino e que oferece a oportunidade de aquisição de habilidades práticas.

Relato de experiência:   Assim neste trabalho, buscou-se descrever a experiência do formato de aperfeiçoamento virtual híbrido, mediado por tutoria, com foco na discussão da simulação realística, que foi a principal ferramenta para o treinamento de habilidades utilizada.

Discussão:  Neste trabalho, utilizou-se a abordagem quantitativo-qualitativa para discutir o uso da metodologia de simulação realística em uma turma de um curso de aperfeiçoamento em saúde mental. Descreve-se a avaliação da metodologia de simulação realística feita pelos participantes, que a consideraram positiva e expressaram a necessidade desse tipo de metodologia nas formações de profissionais da área de saúde mental.

Conclusão:   As metodologias ativas são utilizadas no ambiente acadêmico e ganham mais importância em ambientes de prática profissional onde os desafios são constantes e a formação deve dialogar com a rotina de trabalho do cursista.

Palavras-chave:
Educação Virtual; Simulação Realística; Saúde Mental; Interprofissional

ABSTRACT

Introduction:   Realistic simulation is a well-regarded technique for the training of health professionals, already used in educational institutions and offering the opportunity to acquire practical skills.

Experience report:   Thus, in this investigation, we sought to describe the experience of the hybrid virtual improvement course, mediated by tutoring, focusing on the discussion of realistic simulation, which was the main tool for the training skills used.

Discussion:  In this article, a quantitative qualitative approach was used to discuss the use of the realistic simulation methodology in a group of a mental health improvement course. The evaluation of the realistic simulation methodology by the participants was described, who evaluated it positively and expressed the need for this type of methodology in the training of professionals in the field of mental health.

Conclusion:   Active methodologies are used in the academic environment and gain more importance in professional practice environments where challenges are constant and the training must dialogue with the student’s work routine.

Keywords:
Education; Virtual; Realistic Simulation; Mental Health; Interprofessional

INTRODUÇÃO

A saúde mental vem sendo tema relevante para governos, organizações e sujeitos que têm buscado serviços nesse campo, objetivando melhor qualidade de vida. Contudo, estima-se que o percentual de pessoas com transtornos mentais que não conseguem ter acesso a tratamento varia de 32% a 85%, enquanto apenas 1% da força de trabalho em saúde do mundo é composta de profissionais de saúde mental1.

Urgem, portanto, ações governamentais que qualifiquem os serviços de saúde existentes com vistas a ampliar a assistência à população. O Programa de Ação para reduzir as Lacunas em Saúde Mental (mental health Gap Action Programme - mhGAP)2, lançado em 2008 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), oferece orientação para o cuidado destinado às pessoas com transtornos mentais, neurológicos e por uso de álcool e outras drogas (MNS) e seus cuidadores, bem como supera as diferenças entre os recursos disponíveis e a grande necessidade de oferta desses serviços.

No Ceará, estado da Região Nordeste do Brasil, têm sido realizadas ações para qualificar recursos humanos no âmbito das Redes de Atenção à Saúde (RAS) desde 20173, usando como referência o Manual de intervenções do mhGAP (MI-mhGAP) versão 1.0, lançado pela OMS em 2010. Já com o intuito de capacitar instrutores e supervisores na aplicação desse material, passou-se a utilizar o Treinamento de Instrutores e Supervisores (ToTS)2 da versão 2.0, lançado em 2015. Esse estado foi um dos pioneiros no país a organizar duas oficinas de imersão do ToTS, que ocorreram em 2018 e 2019, capacitando 81 profissionais de saúde de diferentes categorias profissionais4. Na sequência, iniciou-se, em meados do ano 2020, o projeto educacional: “Cuidados em saúde mental e atenção psicossocial: avaliação, manejo e seguimento nos territórios”, ou, Smaps-CE, sigla que pode ser representada como saúde mental na atenção primária à saúde ou saúde mental e atenção psicossocial5.

O projeto objetiva capacitar profissionais que atuam na Estratégia Saúde da Família (ESF), nas policlínicas, nos ambulatórios especializados, nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e demais dispositivos da RAS do Ceará. O projeto desenvolve nos participantes conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para a realização de ações efetivas e de qualidade para acolhimento de pessoas com condições MNS, por meio do MI-mhGAP (versões 2.06 e humanitária7) na avaliação, no manejo e no seguimento do usuário em serviços não especializados, especialmente na atenção primária à saúde (APS). Visa também ampliar o acesso ao cuidado em serviços não especializados, utilizando os recursos disponíveis no território, inclusive o apoio matricial, a partir de um modelo de escalonamento de cuidados8.

Diante do cenário trazido pela pandemia da Sars-CoV-2, fez-se necessário redefinir a execução do Smaps e produzir um modelo remoto, com uso de ferramentas digitais de ensino-aprendizagem ativo e uso de ambientes virtuais, o que tornou possível ainda atingir regiões distantes, como a região do Cariri, no sul do estado. Foram adaptados os módulos do MI-mhGAP de introdução, cuidados e práticas essenciais, depressão, suicídio, psicose, uso de substâncias, infância, luto, estresse agudo e outros, além de diversos materiais sobre território, modelos de cuidados, supervisão e questões locais norteadas pelos princípios da atenção psicossocial comunitária e territorial, tendo como foco a realidade local, as especificidades de população e o sistema de saúde cearenses.

Pesquisas como a de Viana9 apontam a insegurança e sensação de despreparo dos profissionais de saúde da família quanto à abordagem da temática saúde mental junto aos usuários do SUS. Para sanar essa carência técnica, utilizou-se nos treinamentos a simulação realística para o desenvolvimento de habilidades de avaliação, manejo e acompanhamento de pessoas com condições MNS.

A simulação realística foi a tradução livre adotada nesse contexto para o termo original do material do ToTS, em inglês, roleplay. É considerada uma técnica consagrada entre formações do campo da saúde e se destaca entre os pressupostos teórico-metodológicos de instituições de ensino de referência10. Além disso, é um recurso amplamente empregado em cursos de graduação e pós-graduação em saúde, no mundo todo11),(12.

As simulações ofereceram aos profissionais em formação a oportunidade de praticar habilidades que serão usadas na futura prática clínica e ajudam a consolidar o processo de ensino-aprendizagem13. Portanto, não devem ser utilizadas como parte opcional ou descartável do treinamento.

Foram realizados diversos formatos do curso desde 2020, entre cursos básicos e de aperfeiçoamento virtuais híbridos, cursos virtuais assíncronos mediados por tutoria e oficinas presenciais14),(15. Neste trabalho, objetivou-se descrever a experiência do formato de aperfeiçoamento virtual híbrido, mediado por tutoria, com foco na discussão da simulação realística, que foi a principal ferramenta para o treinamento de habilidades utilizada.

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Trata-se de um relato de experiência que tem como objetivo descrever e discutir o uso da metodologia de simulação realística ou roleplay no formato virtual, em uma das turmas do curso de aperfeiçoamento no ano de 2021.

A turma do curso de aperfeiçoamento teve 180 horas-aula, sendo 48 horas síncronas, 96 horas assíncronas e 36 horas para a realização de atividades em grupos tutoriais (GT) de aprendizagem menores (simulação realística e atividades em ambiente de trabalho). O curso foi estruturado em três módulos: 1. “Introdução ao curso”, 2. “Clínico (básico e avançado)” e 3. “Território, saúde mental e atenção psicossocial”. A composição da turma se deu por meio de dois terços de profissionais de saúde de nível superior da atenção primária (médicos e enfermeiros da ESF) e de um terço de profissionais de saúde mental (Núcleo Apoio à Saúde da Família, ambulatórios e Caps), assim como alguns gestores de uma mesma região geográfica do Ceará, em um total de 93 inscritos. Os cursistas foram selecionados e indicados pelos gestores municipais por meio de documento oficial de liberação15.

As aulas ocorreram de forma semipresencial virtual, no período de maio a setembro de 2021, com profissionais da região do Cariri (municípios de Juazeiro do Norte, Iguatu e Cariús) no Ceará. Foram incluídos profissionais do município de Sobral como forma de capacitá-los para expandir o curso. Também participaram residentes em saúde das áreas de medicina de família e comunidade, psiquiatria e multiprofissional de saúde da família, saúde mental e saúde coletiva.

A programação do curso ocorreu em oito momentos síncronos (quinzenais) de quatro horas de duração e 16 horas síncronas em grupos menores para prática de exercícios de simulação realística e discussão das atividades para o ambiente de trabalho. Propuseram-se atividades em ambiente de trabalho a cada unidade e, no final do curso, a apresentação de três produtos: mapa de rede local, diagnóstico situacional do território e relato sobre implementação do matriciamento.

Com o distanciamento geográfico entre os participantes, o processo de ensino-aprendizagem ocorreu de formas síncrona (acompanhando os princípios do ensino presencial) e assíncrona, valendo-se de recursos variados como videoaulas, vídeo-casos, cartilhas interativas, podcasts e demais atividades disponibilizadas no ambiente virtual de aprendizagem (AVA).

Para os momentos assíncronos, foram utilizados recursos educacionais disponibilizados no Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment (Moodle)16, um software livre, personalizado em espaço virtual interativo, que permite o compartilhamento de materiais didáticos diversificados. O banco de recursos educacionais do curso contou com: nove livros-multimídia, 14 videoaulas, nove podcasts, dez vídeo-casos legendados, nove atividades em ambiente de trabalho, oito outras atividades diversas, nove pós-testes avaliativos, três formulários de avaliação e os 16 momentos síncronos gravados, além de uma biblioteca virtual com os manuais do mhGAP e outras referências.

Nos momentos síncronos, utilizaram-se metodologias ativas de ensino-aprendizagem como brainstorm com nuvem de palavras14, simulação realística em pequenos grupos e roteiros de avaliação, manejo e seguimento das condições, exposições dialogadas com uso de chat e áudio, discussões em grandes e pequenos grupos, casos clínicos, storytelling (história pessoal), exposição de vídeo-casos, relatos de experiência, entre outros.

Utilizou-se o Google Meet nos encontros com todos (exposições dialogadas, momentos de autocuidado, avaliação) e em salas separadas compostas pelos integrantes dos quatro GTs de aprendizagem para incentivar a maior participação e a troca entre os participantes. Os links de acesso às salas virtuais eram encaminhados nos grupos de WhatsApp® cuja função também era facilitar a comunicação e o entendimento dos participantes no decorrer do curso.

Para aplicação da metodologia de simulação realística no Smaps, os cursistas foram subdivididos em pequenos grupos de quatro a cinco pessoas, com o apoio de um coordenador/facilitador (atuante na rede especializada de saúde mental), e orientados a se organizar como melhor preferissem. Desse modo, poderiam realizar a atividade no ambiente de trabalho ou fora dele, presencial ou virtualmente, no melhor horário para todos.

Durante o curso, utilizaram-se quatros roteiros de simulação do material do ToTS com os temas: depressão, suicídio, psicoses e outros problemas importantes de saúde mental1. Os roteiros eram enviados e esclarecidos no encontro síncrono sobre a temática. Havia um roteiro para a interpretação do profissional, da pessoa que busca ajuda e um de observador. O observador contava ainda com o apoio de um instrumento de avaliação de competências para fornecer feedback ao cursista que interpretasse o papel de profissional de saúde. A atividade tinha duração média de 20 minutos por simulação, sendo os cursistas estimulados a trocar de papéis e repetir o exercício de forma que todos interpretassem os três papéis, se possível, em sua realidade.

Ter um observador em uma consulta com um paciente pode ser constrangedor para a própria consulta em si, e, muitas vezes, a supervisão se baseia apenas em relatos dos participantes e em discussões de casos. Esse desafio piora no momento em que essas habilidades devem ser desenvolvidas em capacitações virtuais. O uso de simulações realistas em capacitações a distância necessita de suporte de uma equipe de tecnologia e apoio próximo dos facilitadores, e é imprescindível paciência, pois as primeiras experiências tendem a ser demoradas ou incompletas pela não familiaridade dos profissionais com a tecnologia envolvida. Nos treinamentos síncronos, esse desafio pode ser maior.

Dessa forma, considerou-se oportuno organizar a divisão dos grupos a fim de garantir que todos pudessem vivenciar todos ou o maior número possível de papéis (profissional, paciente, observador, familiar acompanhante do paciente etc.), priorizando ainda que o coordenador do grupo fosse um profissional da rede especializada de modo que a atividade funcionasse como uma estratégia de apoio matricial com foco em educação permanente. Essa estratégia, associada ao fato de dar autonomia aos grupos para os encontros, foi utilizada para reduzir os desafios ligados à timidez e ao uso da tecnologia de alguns cursistas.

A coleta de dados se deu no período de agosto a outubro de 2022. A análise teve como base os dados extraídos da plataforma Sistema Acadêmico de Gestão Unificada (Sagu)17 e do AVA (Moodle)3, assim como de planilhas de formulários do Google Forms com dados de inscrição e uma específica para avaliar a metodologia de simulação. O formulário de avaliação da simulação contava com três itens: “que bom”; “que pena” e “que tal”19, sendo os cursistas convidados a responder livremente, de maneira discursiva, sobre os aspectos positivos, negativos e sugestões. Os dados quantitativos foram expressos em estatística descritiva por meio de quadros. Os dados qualitativos foram categorizados e analisados por meio da análise temática de Minayo20.

Informa-se que este estudo é parte integrante da pesquisa Avaliação do projeto pedagógico TOHP/MHGAP/SMAPS - Cuidados em Saúde Mental e Atenção Psicossocial: avaliação, manejo e seguimento nos territórios, apreciada e aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa, em 4 de junho de 2021, por meio do Parecer nº 4.754.424.

Ressalta-se que todos os participantes assinaram digitalmente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) disponibilizado no AVA dos cursos. O TCLE foi elaborado conforme determinação da Resolução nº 466/201221 referente à pesquisa envolvendo seres humanos, bem como seguiu as orientações da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para coleta de dados de seres humanos por meio de ambientes virtuais.

DISCUSSÃO

Para a turma em estudo, obtiveram-se 93 inscrições para o curso, e 67 profissionais (72,04% dos inscritos) efetivamente iniciaram o curso. Dos que iniciaram, 71,64% (48) foram aprovados; 22,38% (15), reprovados; e 5,9% (quatro), desistiram. Dos concludentes, 68,8% eram do sexo feminino (33). A faixa etária variou de 23 a 54 anos (com moda de 33 anos). Dentre a formação dos profissionais, a categoria da enfermagem foi a de maior público atingido (33,3%), seguida por médicos (27,1%) e psicólogos (16,7%), respectivamente. Outras categorias profissionais também fizeram parte do processo formativo, conforme pode ser visto, de forma detalhada, no Gráfico 1.

Gráfico 1
Categoria profissional dos concludentes.

Em sua maioria, esses profissionais estavam atuando, prioritariamente, na rede APS (39,6% - 19), seguida por rede especializada (31,3% - 15) e gestão (6,3% - três). Os residentes em saúde representavam 22,9% (11), principalmente das áreas de psiquiatria e multiprofissionais de ênfase comunitária. Essas informações estão dispostas no Gráfico 2.

Gráfico 2
Nível de assistência onde atuavam os concludentes da ação educacional.

O formulário de avaliação da metodologia de simulação realística teve uma taxa de resposta de 54,16% (26 dos 48 aprovados responderam a ele). Apenas um grupo conseguiu realizar a atividade presencialmente com seus pares no ambiente de trabalho. Os demais utilizaram a ferramenta Google Meet para a atividade e realizaram os encontros fora de seu horário habitual de trabalho.

Em relação ao tópico “que bom”, as 26 respostas foram válidas. Mas no “que pena” sete respostas foram excluídas da análise, e no “que tal” houve quatro exclusões por não terem relação com o tema ou porque não foram respondidas. As 67 respostas válidas foram então lidas exaustivamente, e surgiram quatro categorias temáticas: avaliação, potencialidades, desafios e sugestões.

Os cursistas foram unânimes em avaliar a metodologia como positiva, usando termos e expressões como “excelente”, “adorei”, “positiva”, “dinâmica”, “boa”, “metodologia que faz a diferença”, “enriquecedora”, “exemplar”, “muito bom”, “realístico”, “maravilhoso” e “momentos ricos”. Esta frase de uma participante ilustra a avaliação positiva: “Nunca tinha vivenciado as experiências de roleplay, mas são muito ricas” (#E24).

A eficácia da criação de realidades controladas para ambiente de aprendizagem é corroborada, por exemplo, nos estudos de Negri et al.22 e Tun et al.23. Essa metodologia ativa se destacou diante de outras práticas educativas aplicadas durante o curso. Essa realidade confirmada em Salvador et al.24 inclui o planejamento pedagógico e o preparo das atividades a fim de garantir sua plena realização.

Butafava et al.25 reforçam, em pesquisa com estudantes de Medicina, que a percepção dos cursistas sobre essas metodologias ativas é satisfatória. De acordo com esses autores, a simulação realística tem se destacado no feedback de estudantes da área da saúde.

Com relação às potencialidades, foram bastante reforçadas as perspectivas multi e interprofissional, que possibilitam compartilhar ideias e conhecimentos, e aprender com colegas de áreas diversas. Ter uma metodologia que possibilite praticar o que vinha sendo discutido no curso também surgiu como uma categoria relevante:

Ter um momento para simularmos um atendimento ideal e aprender com os outros profissionais! (#E5).

É uma experiência enriquecedora, nos possibilita de utilizar o que estudamos (#E17).

O potencial de aprendizagem da simulação realística é considerável, tendo em vista que permite ao sujeito desenvolver habilidades práticas em ambientes controlados, podendo ocorrer em vários formatos com alta adaptabilidade aos recursos disponíveis. Por isso, vem sendo utilizada em várias formações do campo da saúde: psicodiagnóstico26, emergência27, obstetrícia28, pediatria29, entre outras especialidades da saúde.

Durante o curso, o feedback dessa prática se mostrou outro importante elemento da metodologia, considerando que uma apreciação da atividade era realizada logo após a cena com a equipe e posteriormente com o tutor. Além disso, os fatores lúdico e dinâmico consolidam a simulação realística como a metodologia mais bem avaliada e citada entre os participantes do curso.

Apesar de estarem em um curso virtual durante a pandemia de Covid-19, a possibilidade de os cursistas interagirem entre si, promoverem a socialização e ampliarem a comunicação foi outra grande potencialidade elencada por eles, que também reforçaram a oportunidade de receberem feedback (havia um roteiro de avaliação por competências para tal) dos colegas.

Outras potencialidades citadas envolveram a questão de a metodologia ser vivencial, dinâmica e reflexiva, promover empatia ao vivenciarem os diferentes papéis (profissional, paciente e observador), além de possibilitar o treinamento de habilidades para o uso da telessaúde.

Chamaram a atenção os desafios em relação à gestão do tempo e ao fato de a metodologia ser feita virtualmente:

Difícil organizar os horários de todos os participantes online (#E4).

Pena que não tenhamos mais tempo (#E5).

Que pena que não tivemos oportunidade de realizar presencial (#E26).

A dificuldade de interação no primeiro encontro do grupo e a falta de mais detalhes nos roteiros também emergiram das respostas:

Dificuldade de interação presencial na primeira entrevista (#E2).

Os casos não apresentam muitos detalhes (#E8).

Como sugestões, a maioria dos cursistas trouxe a necessidade de ampliar a carga horária do curso, destinando mais tempo para a metodologia de simulação realística, além de promover momentos geograficamente presenciais:

Aumentar o tempo de realização (#E9).

[...] pensar em estratégias para que exista um horário obrigatório para a atividade (#E4).

Também foi sugerido melhorar as orientações da atividade, tornando-as mais claras e objetivas:

Explicar melhor a atividade (#E10).

Um roteiro com mais informações (#E8).

As respostas reforçaram ainda a validade e a necessidade em insistir e ampliar o uso da metodologia no curso:

Acho que manter e insistir nesse método (#E25).

Mais roller play nos cursos de capacitações (#E23)

Um cursista citou ainda a possibilidade de replicar a metodologia: “Adorei essa técnica e vou fazer uso na minha docência” (#E3).

No campo da saúde mental, dentro da perspectiva da atenção psicossocial, a simulação realística se adapta à realidade da equipe multiprofissional integrando conhecimentos especializados e favorecendo casos do cotidiano do serviço extremamente complexos.

Realidades de contexto específico da simulação realística no campo da saúde mental em contextos de capacitações a distância não possuem literatura abundante30, porém encontram produção em vários lugares do mundo, como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália, Irã, Taiwan, predominantemente, com utilização de “casos padronizados” tal como oferecido no curso. Williams et al.30 referem que falta literatura para atestar os resultados entre os pacientes. Sem embargo, apresentam-se dados satisfatórios para profissionais em treinamento.

É necessário fortalecer esse tipo de metodologia na área da saúde mental, tendo em vista os desafios que essa área enfrenta e a grande necessidade de treinamento para equipes de atenção primária e especializada. Nessas situações, a simulação realística pode contribuir com grande êxito. O desenvolvimento de habilidades na área de saúde, em especial aquelas relacionadas às habilidades de comunicação, do diagnóstico e do manejo dos casos, incluindo abordagens psicoterápicas individuais e em grupo, é um grande desafio na área de saúde mental, o que traz um grande potencial para o uso dessa metodologia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados do presente estudo evidenciam a importância de propagar, de forma sistemática, metodologias que respeitem a capacidade criativa dos sujeitos envolvidos no processo de aprendizagem, desafiando-os a buscar soluções diante dos problemas na sua própria realidade laboral. Metodologias ativas, como a simulação realística, que já vêm sendo usadas nos ambientes acadêmico e de pós-graduação, ganham ainda mais pertinência em ambientes de prática profissional, onde os desafios são constantes e a formação deve dialogar com a rotina de trabalho do cursista.

Considerando ainda o desafio de seguir capacitando recursos humanos em saúde mental, de modo a garantir a adesão ao conhecimento e a satisfação ao fim do curso, percebem-se como positivos os resultados apresentados no presente estudo.

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  • 2
    Avaiado pelo processo de double blind review.
  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento.

Editado por

  • Editora-chefe: Rosiane Viana Zuza Diniz. Editora associada: Cristiane Barelli.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    27 Ago 2023
  • Aceito
    24 Set 2024
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