Vivenciamos, desde o final do século XX, o ressurgimento do economicismo, no campo da esquerda, sob uma nova roupagem. Um exemplo bastante ilustrativo desse ressurgimento é o que podemos denominar novo socialismo utópico2. As tendências neoutópicas que informaram, por exemplo, os chamados movimentos antiglobalização, possuem como traço comum a difusão da tese segundo a qual seria possível “mudar o mundo sem tomar o poder”. Para os autores que se inspiram nessa ideia, seria possível a construção do socialismo nos interstícios da sociedade capitalista.
A despeito da negação crítica pelas tendências neoutópicas do economicismo marxista do século XX (que caracterizou, sobretudo, a Segunda Internacional), é possível apontar a existência de um elemento que os aproxima: o abandono da prática política revolucionária, na transformação social. Ao limitarem o reflexo das ações dos movimentos sociais ao terreno da “sociedade civil”, os autores afinados com a perspectiva neoutópica expulsam do seu campo de reflexões a análise teórica tanto da dominação política e da coerção exercida pelo Estado na sociedade capitalista como do papel do Estado na transformação social3. Consideram, principalmente, que a luta pela transformação social prescinde da luta pelo poder do Estado e da sua destruição.
Rocha (2025) analisa as ideias veiculadas pelo filósofo e economista John Holloway, concernentes à potencialidade de transformação social a partir de opções de poder-fazer que se constituem como fissuras no modo de produção capitalista. Consideramos que as ideias de Holloway vão ao encontro das teses veiculadas pelo novo socialismo utópico. As considerações de Rocha (2025), favoráveis às teses de Holloway, suscitaram este comentário crítico. . O pensamento de Holloway está informado pelos acontecimentos que abalaram a esquerda mundial - a queda do bloco soviético, a crise do Estado de bem-estar social, as mudanças econômicas em direção ao mercado financeiro efetuadas pela China etc. - e estabelecem como alvo de crítica o marxismo socialdemocrata e comunista do século XX. As ideias, apresentadas, especialmente, em seu livro Mudar o mundo sem tomar o poder, inspiram-se profundamente no movimento zapatista, na contestação à implantação das contrarreformas neoliberais e nos movimentos antiglobalização.
Holloway (2003) defende o abandono do modelo de revolução ou transformação do mundo associada à conquista do poder, viabilizada pela ação de um partido político. A ideia que guia a sua negação da política e do Estado se inscreve na tese segundo a qual, na “atualidade”, os Estados não mais se configurariam como os “centros de poder” que as “teorias estadocêntricas” de Rosa Luxemburgo e Bernstein assumiam (Holloway, 2001, p. 174). As relações sociais capitalistas teriam ultrapassado as fronteiras estatais, já que “[a] rede de relações sociais em que os Estados nacionais particulares estão imersos é - e foi desde o começo do capitalismo - uma rede global”. O Estado não seria, portanto, mais do que um “[...] nó em uma rede de relações sociais” (Holloway, 2003, p. 26, 28). Holloway salienta que essa configuração do Estado não havia sido considerada pelos revolucionários do século XX, os quais se equivocaram ao colocá-lo no centro da transformação social. Essa “ilusão estatal” constituiria, portanto, o pressuposto tanto das lutas pela “reforma” do Estado quanto pela “revolução”, que visava à transformação da sociedade através do Estado.
Ao afirmar a necessidade de “mudar o mundo sem tomar o poder”, Holloway defende a possibilidade de criação de um outro mundo “aqui” e “agora”, o que denota que o autor não abandona a ideia de “revolução”. No entanto, a ideia de um “mundo novo” pauta-se em um “novo conceito de revolução social”, que se insinuaria em todos os movimentos sociais de revolta e contestação. O que define esse novo conceito é a capacidade dos movimentos de contestação de “[...] provocar fissuras no capitalismo a partir de dentro”, ou seja, de criar nos interstícios da sociedade que está sendo negada “espaços de antipoder”, momentos ou áreas de atividade nas quais um outro mundo, “[...] um mundo de dignidade, um mundo de humanidade” já se prefiguraria (Holloway, 2003, p. 37).
Ao argumentar que o significado da revolução só pode ser apreendido na medida que se “faz a revolução”, Holloway (2001, p. 175) defende a ideia das “rebeldias em movimento”. É nesse sentido que o problema da “organização da revolta” não mais deve coincidir com a ação partidária com vistas ao poder estatal, já que esse tipo de ação não faria mais do que reconstituir o “poder-sobre” de outra maneira. Holloway sustenta, diferentemente das teses que predominam no marxismo, que a história não é a história das leis do desenvolvimento capitalista, pois “[n]ão há deuses de nenhum tipo, nem o dinheiro, nem o capital, nem as forças produtivas, nem a história”; somos “nós”, assevera, “[...] os únicos criadores, os únicos salvadores possíveis, os únicos culpados” (Holloway, 2003, p. 262). E pondera, dessa maneira, que o grande problema a ser pensado é o da “confluência das fissuras”, da constituição dos “espaços de antipoder”, isto é, de como seria possível construir uma “confluência” suficientemente forte para romper com o sistema.
No entanto, ao considerar que o núcleo da originalidade do movimento zapatista “[...] é o projeto de mudar o mundo sem tomar o poder”, Holloway (2001, p. 174) se omite quanto à necessidade de um debate acerca das questões prementes da estratégia e da tática dos movimentos insurgentes. Dito de outro modo, denota um descaso analítico em relação ao papel do Estado na reprodução das condições ideológicas da dominação de classe e da sua função repressiva na “manutenção da ordem”. Ao concentrar seus esforços teóricos na defesa de uma revolução “por baixo”, já que, ao seu ver, quaisquer tentativas de mudança social restritas ao âmbito da “sociedade” automaticamente corroeriam as estruturas do poder estatal, Holloway não oferece qualquer reflexão sobre como essa “revolução por baixo” lograria transformar o sistema, sem suscitar uma reação - violenta - dos que se encontram “em cima”. Sua única referência ao conteúdo da transformação estatal, que ocorreria simultaneamente às outras transformações, pode ser encontrada em um artigo de 1997, onde argumenta que a política revolucionária, ao invés de privilegiar “tomar o poder”, deve desenvolver formas de articulação política, a fim de obrigar os “[...] que detêm os cargos estatais a obedecer ao povo”, o que conduziria à superação entre Estado e sociedade e à efetiva abolição daquele (Holloway, 1997).
Dessa reflexão de Holloway decorre, inevitavelmente, a seguinte questão: como submeter os detentores dos cargos estatais às ordens dos “de baixo”? Ao desconsiderar a necessidade de uma análise substantiva do grande debate que dominou por muito tempo o pensamento revolucionário - reforma versus revolução -, Holloway acaba por reproduzir, pela negação, os argumentos veiculados pela socialdemocracia marxista: o Estado burguês não precisa ser destruído: basta ser reformado. As reflexões de Holloway concernentes à transformação social dispensam, terminantemente, uma reflexão sobre a revolução política. No entanto, mesmo que o Estado não se constitua no
[...] único lugar a partir do qual se exerce o poder é, sem dúvida alguma, o espaço privilegiado de seu exercício [e] por mais que alguns teóricos falem da ‘desestatização’ e do ‘descentramento’ do estado, este seguirá sendo por bastante tempo um componente fundamental de qualquer sociedade de classes (Boron, 2003, s/p).
Ao pautar-se em um conceito abstrato de poder e ao desconsiderar o caráter estrutural do Estado burguês, Holloway (2003, p. 25) abandona a possibilidade de uma análise concreta dos limites das experiências do “socialismo real”, reduzindo-as à simples premissa da troca de um poder pelo outro, o que teria condicionado o fracasso dessas experiências.
Já a concepção de Estado como uma estrutura jurídico-política, a qual, articulada à estrutura econômica, integra uma totalidade social ou modo de produção (nesse caso, o modo de produção capitalista), designa que “[o] Estado é o principal fator de coesão das formações sociais divididas em classes, graças à sua função repressiva e a outro aspecto, quase sempre ignorado, que é a sua função ideológica” (Boito Jr., 2004, p. 76). O Estado é o responsável pela manutenção das relações de produção capitalistas, através da detenção do monopólio da força organizada, o que lhe possibilita, pois, empregar essa força em momentos de instabilidade social.
Mas é a ação do direito burguês e do burocratismo - a ele ligado - no interior das instituições estatais que garante a reprodução mais ou menos pacífica das relações de produção capitalistas. O direito é a fonte da ideologia contratual da livre compra e venda de força de trabalho, a qual encobre a relação de exploração entre o capitalista e o operário. Formalmente igualitário, concede ao exercício do burocratismo a aparência de universalidade, através de um recrutamento meritocrático dos seus funcionários - fato que origina uma hierarquia burocrática das competências provenientes de todas as classes - e situa o Estado enquanto o grande representante da nação. Portanto, o lugar privilegiado do exercício da repressão e da dominação política não pode ser outro que não o aparelho do Estado. A mudança social exige uma transformação prévia do Estado.
Por fim, em relação à acusação de “estadocentrismo” que Holloway endereça aos revolucionários do século XX, ela tende a ser sugestiva, caso se restringisse ao marxismo soviético, na sua fase stalinista; no entanto, mostra-se equivocada ao ser estendida, por exemplo, à concepção leninista de revolução e ao seu conceito de ditadura do proletariado. Em O Estado e a revolução, Lenin (1980) defende a tese de que as lutas sociais só se constituem em lutas revolucionárias capazes de transformar o sistema capitalista, se tiverem como alvo o poder do Estado e se se desenvolverem no sentido da sua destruição.
REFERÊNCIAS
- BOITO JÚNIOR, Armando. O lugar da política na teoria marxista da história. Crítica Marxista. Rio de Janeiro, n. 18, p. 62-81, 2004.
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BORON, Atilio A. Poder, “contrapoder” y “antipoder”. Notas sobre um extravio teórico-político en el pensamiento crítico contemporáneo. Chiapas. México, n. 5, 1997. Disponível em: Disponível em: https://revistachiapas.org/No15/ch15boron.html Acesso em: 20 jun. 2025.
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HOLLOWAY, John. La revuelta de la dignidad. Chiapas. México, n. 5, 1997. Disponível em: Disponível em: https://chiapas.iiec.unam.mx/No5/ch5holloway.html Acesso em: 20 jun. 2025.
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HOLLOWAY, John. El zapatismo y las ciencias sociales en América Latina. OSAL - Observatorio Social de América Latina, Buenos Aires, n. 04, p. 171-176, jun. 2001. Disponível em: Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/osal/20110210035129/osal4.pdf Acesso em: 20 jun. 2025.
» http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/osal/20110210035129/osal4.pdf - HOLLOWAY, John. Mudar o mundo sem tomar o poder. O significado da revolução hoje. São Paulo: Viramundo, 2003.
- LAZAGNA, Angela. O político na transição socialista. Explicação e retificação da contribuição da corrente althusseriana. 2017. Tese (Doutorado em Ciência Política) -Unicamp, Campinas, 2017.
- LENIN, Vladimir Ilich. O Estado e a Revolução. A doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na revolução. In: Obras Escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, 1980. v. 2, p. 219-305.
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ROCHA, José Manuel de Sacadura. O ‘Grito’: John Holloway e a materialidade radical do poder-fazer. Trans/Form/Ação: Revista de Filosofia da Unesp, Marília, v. 48, n. 4, e025075, 2025. Disponível em: Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/16598 Acesso em: 12 jun. 2025.
» https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/16598 - ZARPELON, Sandra Regina. A esquerda não socialista e o novo sindicalismo utópico: aproximação entre a atuação das ONGs e o cooperativismo da CUT. 2003. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) - Unicamp, Campinas, 2003.
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Retomamos aqui o conceito formulado por Sandra Zarpelon (2003).
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3
Em minha tese de doutorado, retomei o debate sobre o lugar do político e da política na reprodução capitalista e na transição socialista, promovido nas décadas de 1960 e 1970 pelo filósofo franco-argelino Louis Althusser e seus discípulos. Ver, nesse sentido, Lazagna (2017).
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Declaração de disponibilidade de dados:
O conjunto de dados deste artigo está disponível no SciELO Dataverse da Revista Trans/Form/Ação, no link: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2025.v48.n4.e025128
O conjunto de dados deste artigo está disponível no SciELO Dataverse da Revista Trans/Form/Ação, no link: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2025.v48.n4.e025128
