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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.58 no.5 Belo Horizonte Oct. 2006

https://doi.org/10.1590/S0102-09352006000500037 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Enterotoxemia em bovino

 

Bovine enterotoxaemia

 

 

F.C.F. Lobato; R.A. Assis; V.L.V.Abreu; M.F. Souza Jr.; C.G.R.D. Lima; F.M. Salvarani

Escola de Veterinária - UFMG Caixa Postal 567 30123-970 – Belo Horizonte, MG

 

 


Palavras-chave: bovino, enterotoxemia, Clostridium perfringens tipo D


ABSTRACT

This report describes a case of bovine enterotoxaemia in Morro da Garça, Minas Gerais, Brazil. Clostridium perfringens type D was isolated in pure culture and was characterized by biochemical reactions and PCR. By the mouse neutralization test, the presence of epsilon toxin from intestinal content was detected.

Keywords : cattle, enterotoxaemia, Clostridium perfringens type D


 

 

Clostridium perfringens é classificado em cinco tipos (A-E), com base na produção de quatro principais toxinas, denominadas alfa, beta, épsilon e iota. A enterotoxemia produzida por C. perfringens tipo D ocorre em ovinos, caprinos e bovinos, acomete principalmente animais entre três dias e seis meses de idade (Lobato et al., 2000), embora tenha sido descrita em animais adultos (Sigurdarson eThorsteinsson, 1990; Silveira et al., 1995). A doença está relacionada principalmente à ação necrosante e letal da toxina épsilon secretada pelos tipos B e D, produzida inicialmente como uma prototoxina, que é ativada pela tripsina ou por toxinas secundárias de C. perfringens (Minami et al., 1997). Fatores que alteram o ambiente intestinal, como níveis elevados de carboidratos, dietas ricas em proteína e pastagens luxuriantes, podem resultar em abundante crescimento de C. perfringens e produção de toxinas (Kriek et al., 1994).

Este trabalho teve por objetivo descrever um caso de enterotoxemia bovina por C. perfringens tipo D em Morro da Garça, Minas Gerais.

Em um lote de 540 vacas em lactação, da raça Girolanda, em regime semi-intensivo, morreram cinco animais no intervalo de um a três dias. Segundo o médico veterinário, esses animais apresentavam fezes mais fluídas e escuras, dificuldade de locomoção, inicialmente afetando os membros posteriores, seguindo-se de decúbito lateral e morte. Os animais eram alimentados com silagem de milho, polpa cítrica, caroço de algodão, concentrado protéico, uréia e mistura mineral. Em uma determinada época, houve a substituição da polpa cítrica pela casquinha de soja sem que houvesse a adaptação dos animais. A casquinha de soja foi fornecida por aproximadamente 20 dias. Os animais eram vacinados contra febre aftosa, raiva, rinotraqueíte infecciosa bovina e diarréia viral bovina e vermifugados no pré-parto. A vacinação contra clostridioses era feita na fase de recria, do terceiro ao 12º mês de idade.

Realizou-se necropsia em um animal com menos de duas horas após a morte, encontrando-se alterações ao longo do intestino delgado, principalmente em sua porção mais distal, caracterizadas pela presença de petéquias, edema e conteúdo amarelo-escuro. Amostra do conteúdo intestinal foi remetida sob refrigeração ao laboratório. Esfregaços do conteúdo intestinal foram confeccionados e corados pelo Gram. O material foi inoculado em ágar sangue e incubado em atmosfera de anaerobiose a 37ºC por 24 horas. Colônias isoladas que apresentavam duplo halo de hemólise foram submetidas a provas bioquímicas, segundo Quinn et al. (1994), e processadas por uma técnica de PCR para os genes codificadores das toxinas alfa, beta, épsilon e iota de C. perfringens (Uzal et al., 1997). Uma fração do conteúdo intestinal foi centrifugada em refrigeração a 10.000 x g a 4ºC por 30 minutos, o sobrenadante foi filtrado em membrana com poro de 0,22µm, e a pesquisa de toxinas de C. perfringens foi feita pela técnica de soroneutralização em camundongos, segundo Tammemagy e Grant (1967).

Grande número de bastonetes curtos, grossos, não esporulados, Gram positivos únicos ou em cadeias, foram observados nos esfregaços da mucosa intestinal. Colônias branco-acinzentadas, umbilicadas, com um duplo halo de hemólise de aproximadamente 2mm de diâmetro, sugestivas de C. perfringens foram observadas nas placas de ágar sangue. Colônias isoladas confirmaram tratar-se de C. perfringens pela caracterização bioquímica, e como sendo do tipo D pela PCR (Uzal et al., 1997). Na pesquisa de toxinas, os dois camundongos inoculados com o filtrado do conteúdo intestinal morreram em até 24 horas, os camundongos que receberam a mistura de filtrado mais antitoxina épsilon e filtrado aquecido a 100ºC foram protegidos, permitindo tipificar a toxina como épsilon.

Com base no histórico, achados patológicos, microbiológicos e pela soroneutralização em camundongos, firmou-se o diagnóstico de enterotoxemia por C. perfringens tipo D.

A suspeita de enterotoxemia em bovinos adultos, principalmente nos quadros de morte súbita, tem sido relatada com freqüência por médicos veterinários, entretanto, o diagnóstico só é feito com base em sinais clínicos e, ocasionalmente, em achados de necropsia.

No Brasil, Silveira et al. (1995), relataram na região Centro-Oeste, casos de enterotoxemia em bovinos adultos. Entretanto, os autores apenas isolaram e tipificaram C. perfringens sem detecção direta da(s) toxina (s) envolvida (s). Outros relatos da ocorrência de enterotoxemia por C. perfringens, no país, foram feitos por Baldassi et al. (1995) e Colodel et al. (2003), ambos em caprinos. Baldassi et al. (1995) verificaram morte súbita em um rebanho caprino com base no isolamento de C. perfringens (sem tipificação) e na detecção de uma toxina termolábil letal, que não foi caracterizada. Colodel et al. (2003) descreveram cinco surtos de enterotoxemia em caprinos, com detecção direta da toxina épsilon produzida por C. perfringens tipo D, pela técnica de soroneutralização em camundongos. Portanto, na espécie bovina, este constitui o primeiro diagnóstico no Brasil de enterotoxemia por C. perfringens tipo D com detecção da toxina épsilon em conteúdo intestinal. Desse modo, para um efetivo diagnóstico de enterotoxemia bovina, é imprescindível a detecção direta de toxinas em associação ao histórico, sinais clínicos, achados de necropsia, isolamento, caracterização bioquímica e tipificação do agente.

 

AGRADECIMENTO

Os autores agradecem ao Dr. Guilherme Rocha pelo envio do material para exame laboratorial.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 4 de julho de 2006
Aceito em 5 de julho de 2006

 

 

*Autor para correspondência (corresponding author)
E-mail: flobato@vet.ufmg.br

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