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Jornal de Pneumologia

Print version ISSN 0102-3586On-line version ISSN 1678-4642

J. Pneumologia vol.27 no.1 São Paulo Jan. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-35862001000100010 

CARTA AO EDITOR

 


 

Manoel de Abreu

 

 

É muito provável que a grande maioria dos médicos com menos de 40 ou 50 anos de idade conheça Manoel de Abreu apenas como o inventor da abreugrafia. Também o meu caso, apesar de ter sido aluno da escola médica que homenageou o ilustre colega no nome do seu Centro Acadêmico.

Graças à prazerosa leitura do livro Vida e obra de Manoel de Abreu, o criador da abreugrafia, do doutor Itazil Benício dos Santos, agraciado com o privilégio do convívio com o biografado e com o talento da escrita, descobri que a abreugrafia foi apenas o marco maior de uma obra muito mais extensa e valiosa.

O exemplar de 1963, que me acompanhou durante as últimas semanas, escrito em Salvador, de setembro de 1962 a março de 1963, pertence à Biblioteca da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. A dedicatória de próprio punho da viúva do famoso radiologista diz: "Ao Prof. Adauto Barbosa Lima, ilustre diretor da Faculdade de Medicina de São Paulo, homenagem afetuosa da Viúva Manoel de Abreu. São Paulo, Abril 1976".

Manoel Dias de Abreu, terceiro filho do casal Júlio Antunes de Abreu, português da província do Minho, e Mercedes da Rocha Dias, natural de Sorocaba, nasceu em São Paulo a 4 de janeiro de 1892.

Diplomou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1913 e defendeu tese de doutoramento intitulada "Natureza Pobre", relativa à influência do clima tropical sobre a civilização, em julho de 1914. Nesse mesmo ano, deixou o Brasil acompanhado de seus pais, do irmão Júlio Antunes de Abreu Júnior e da irmã Mercedes Dias de Abreu, com destino à Europa, a fim de aperfeiçoar-se nos hospitais de Paris. A Primeira Grande Guerra obrigou-os a desembarcar e permanecer em Lisboa até o início do ano de 1915, quando, enfim, a família Abreu chega à capital da França.

Seu primeiro contato com a medicina francesa foi no Nouvel Hôpital de la Pitié, mais precisamente, no serviço do professor Gaston Lion. Encarregado de fotografar peças cirúrgicas, Manoel de Abreu demonstrou engenhosidade e construiu um dispositivo especial para obter fotografias da mucosa gástrica.

Entre as paredes do Hôtel-Dieu, no ano de 1916, o jovem brasileiro despertou para os encantos da emergente especialidade criada por Roentgen em 1895. No seu livro, o doutor Itazil dos Santos narra com rara felicidade o fascínio que o inesperado diagnóstico radiológico de tuberculose em doente, cujo exame propedêutico clínico, realizado pelo chefe do Serviço, o professor Gilbert, nada havia revelado de anormal, causou em Manoel de Abreu: "... Depois de examiná-lo, exaustivamente, conforme as normas de propedêutica clínica, através da percussão e da auscultação, disse, descansando sobre a mesa o estetoscópio, em tom categórico: ¾ Não há nada de anormal no tórax. Não se trata, certamente, de uma afecção pulmonar, ou pleural. Mas... Você, de Abreu, vai levá-lo ao laboratório de Radiologia... A chapa confirmará o exame clínico... Feita a chapa, Abreu levou-a ¾ ainda molhada e presa aos grampos com os quais deveria voltar à solução fixadora, ¾ a seu mestre... Tomando a chapa nas mãos, Gilbert suspendeu-a em face da janela, para examiná-la por transparência... Não pôde esconder mais do que a sua surprêsa, o seu espanto, ante o quadro que se lhe deparava aos olhos, de uma tuberculose avançada, complicada de piopneumotórax... Aquela contradição entre o achado clínico e o achado radiológico era resultante da transição que experimentavam os conhecimentos médicos na ocasião... A radiologia ensaiava seus primeiros passos... Para êle, Abreu, aquela contradição chocante, entre a estetacústica e a radiologia, teve uma grande significação." Esse acontecimento provavelmente contribuiu para que o jovem médico brasileiro se inclinasse definitivamente para a radiologia.

Mais uma vez, o professor Gilbert viria aproximar Manoel de Abreu da promissora especialidade ao confiar-lhe a chefia do Laboratório Central de Radiologia do Hôtel-Dieu, ocupando o posto do Dr. Guilleminot, afastado para servir na Grande Guerra.

O terceiro nosocômio que freqüentou em Paris foi o Hospital Laennec, desta vez como assistente do professor Maingot. Lá, aperfeiçoou-se na radiologia pulmonar e desenvolveu a densimetria, isto é, a mensuração das diferentes densidades. Também no hospital que leva o nome do inventor do estetoscópio visualizou pela primeira vez na fotografia do écran fluorescente o meio de realizar exame do tórax em massa e por baixo custo com a finalidade de detectar precocemente a tuberculose pulmonar. Infelizmente, obstáculos técnicos o impediram de desenvolver a abreugrafia já em 1919.

Tanto as persistentes, porém frustradas, tentativas de obter a radiofotografia como seu livro "Radiodiagnostic dans la tuberculose pleuro-pulmonaire", publicado em 1921, deixam transparecer sua convicção de que o controle da tuberculose teria que passar pelo diagnóstico em massa desse mal.

Ao retornar ao Rio de Janeiro em 1922, encontrou a cidade assolada por uma epidemia de tuberculose que o impressionou a ponto de declarar: "Havia óbitos, não havia doentes, os quais ocultavam seu diagnóstico na espêssa massa da população; os poucos doentes que havia, procuravam o dispensário na fase final da doença, quando o tratamento, o isolamento e as várias medidas profiláticas já eram inúteis" (Itazil Benício dos Santos, Vida e obra de Manoel de Abreu, o criador da abreugrafia, irmãos Pongetti editores, 1963).

Uma segunda tentativa de obter fotografia do écran teve lugar em 1924. Desafortunadamente, ainda não foi desta vez que alcançou o êxito. Apesar disso, prosseguiu na luta contra a tuberculose e, por sua influência, junto com o primeiro dispensário organizado no Rio, instalou-se o primeiro Serviço de Radiologia destinado ao diagnóstico daquela doença.

Durante a década de 20, deu continuidade aos estudos sobre a formação da imagem, iniciados em Paris, e que culminaram com a teoria da Radiogeometria.

Casou-se, na residência de seus pais, em São Paulo, com a senhora Dulcie Evers de Abreu no dia sete de setembro de 1929.

No Rio de Janeiro, assumiu, a pedido do médico e prefeito Pedro Ernesto, a chefia do Serviço de Radiologia do Hospital Jesus e, diante do imenso número de casos de tuberculose pulmonar que diagnosticava nas crianças radiografadas, decidiu-se pela terceira tentativa de criar a fluorografia.

O sucesso sorriu-lhe numa noite do ano de 1936. As imagens das primeiras fluorografias eram suficientementes nítidas. O desafio do diagnóstico radiológico a baixo custo parecia superado. Restava-lhe sistematizar o novo método, divulgá-lo e utilizá-lo em massa no combate à tuberculose.

O primeiro aparelho destinado a realizar exames em série da população foi construído pela Casa Lohner e instalado no Centro de Saúde nº 3, à rua do Rezende nº 128, na cidade do Rio de Janeiro. No mesmo lugar, inaugurou-se o primeiro Serviço de Cadastro Torácico, em 1937. De 8 a 21 de julho desse ano, foram examinados 758 indivíduos aparentemente sãos, dos quais 44 apresentavam lesões pulmonares detectadas pela fluorografia. A nova técnica começava a provar sua utilidade.

Durante o ano de 1938, três Serviços de Recenseamento Torácico foram criados em São Paulo: no Instituto Clemente Ferreira, no Hospital Municipal e no Instituto de Higiene. Outras cidades do Brasil, da América do Sul, Estados Unidos e Europa também adotaram a fluorografia como instrumento na luta contra a epidemia de tuberculose.

O novo método diagnóstico recebeu várias denominações, tais como fluorografia, fotofluorografia, radiofotografia e Roentgenfotografia. Esta última foi a escolhida por Manoel de Abreu na sua apresentação do novo processo de exame à Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro em julho de 1936.

O Dr. Ary Miranda, presidente do I Congresso Nacional de Tuberculose, realizado em maio de 1939, propôs que fosse utilizado o nome abreugrafia para designar o método criado por Manuel de Abreu. Anos depois, em 1958, o prefeito de São Paulo, Ademar de Barros, determinou que as repartições públicas da Prefeitura deveriam obrigatoriamente usar o termo abreugrafia e instituiu o dia 4 de janeiro, dia do nascimento de Manoel de Abreu, como o Dia da Abreugrafia, imitando o gesto do então Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Imperdíveis são os trechos das cartas que o Dr. Itazil reproduziu no seu livro a respeito da legitimidade do pioneirismo de Manoel de Abreu. A indignação da comunidade científica brasileira e dos vizinhos sul-americanos surgiu da publicação do trabalho do Dr. Friedrich Berner, no qual o aparelho fluorográfico da Casa Siemens-Reiniger-Werke está citado como roentgenreihenbildner (seriógrafo) segundo o Prof. Holfelder.

Na carta que o Dr. Th. Sehmer, diretor da Casa Siemens, de Berlim, enviou a Manoel de Abreu lemos: "...Segundo as notícias que recebemos, êstes fatos produziram descontentamento não só a V. Exa., mas também à totalidade do mundo médico do Brasil, porque dos citados fatos foi concluído que a indústria e o mundo médico da Alemanha tinham a intenção de suprimir sistematicamente os grandes méritos de V. Exa., o que foi considerado uma ofensa à ciência brasileira. Pelas notícias recebidas, estamos extremamente consternados e na minha qualidade de gerente da Casa Siemens-Reiniger-Werke sinto-me obrigado a dar-lhe esclarecimentos detalhados... Nós denominamos oficialmente o nosso aparelho de "Schirmbildgerat Siemens" (Aparelho fluorográfico Siemens) ou "Schirmbildgerat (Aparelho fluorográfico Siemens) segundo ABREU", com melhoramento segundo indicações do Prof. HOLFELDER... É verdade que o Sr. Dr. BERNER citou unicamente o senhor Prof. HOLFELDER. Naquele trabalho êle não citou V. Exa. Nem outros investigadores notáveis. Em parte pode isso explicar-se pelo fato do Sr. Dr. BERNER ser o primeiro assistente do Sr. Prof. HOLFELDER e que neste caso especial o Sr. Dr. BERNER aproveitava a ocasião para exprimir a sua veneração pessoal ao seu mestre... Permita-me, excelentíssimo senhor Professor, aproveitar esta ocasião para chamar a sua atenção para o fato que mesmo o descobridor dos Raios X, o Professor ROENTGEN, sofreu maior injustiça do que sofre neste momento V. Exa. Sabemos que os cientistas inglêses e franceses opuseram-se por longo tempo à denominação Raios Roentgen, mas sim X-Rays, Rayons X e Raios X. Repetidas vêzes rogaram os alemães que mencionassem o nome do descobridor, porém em vão. Unicamente com respeito à unidade da dosagem dos Raios X a Sociedade Radiológica Internacional acabou por reconhecer a denominação Roentgen, porém se diz 1 R, em vez de 1 Roentgen, ao passo que conseguiram introduzir na Alemanha os nomes do italiano VOLTA e do francês AMPÈRE".

Essa carta, mais do que apenas um esclarecimento ou um pedido de desculpas, constitui um documento histórico no qual se percebe certo ressentimento do médico alemão em relação aos ingleses e franceses aproximadamente dois meses antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Para melhor avaliar as imagens suspeitas obtidas com a abreugrafia, propôs o emprego da tomografia localizada que, por ser menos dispendiosa que a tomografia de todo o tórax, poderia ser utilizada de forma sistemática.

Visando eliminar os inconvenientes da demora e do custo elevado do estudo tomográfico corte a corte de determinada área do tórax, idealizou a técnica das tomografias simultâneas, isto é, a realização de vários cortes simultâneos em uma só exposição, através do emprego de vários filmes superpostos.

Com o intuito de diminuir o número de casos sem diagnóstico baciloscópico, nos brindou com a pesquisa do bacilo de Koch no lavado pulmonar ou lavado traqueobroncoalveolar. O primeiro lavado foi realizado em 17 de agosto de 1944 no Hospital São Sebastião.

A importância de sua obra rendeu-lhe inúmeras homenagens no Brasil e no Exterior, conduziu à criação da Sociedade Brasileira de Abreugrafia em 1957 e à publicação da "Revista Brasileira de Abreugrafia".

Faleceu de câncer de pulmão em 30 de abril de 1962.

Nos dias de hoje, em meio à imensurável influência da medicina baseada em exames complementares sofisticados e caros, estrangeira, principalmente anglo-saxônica, finalmente começamos a tentar resgatar os médicos de família, a relação médico-paciente e ¾ por que não? ¾ o valor do médico brasileiro. Acredito que o livro "Vida e obra de Manoel de Abreu, o criador da abreugrafia" do médico Itazil Benício dos Santos teria efeito muito positivo sobre os jovens médicos do nosso país e deveria ser leitura obrigatória nas nossas escolas médicas.

 

RUBENS BEDRIKOW
Professor Instrutor Assistente do Serviço de Emergência
Clínica da Santa Casa de São Paulo, Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina

 

 

Endereço para correspondência ¾ Rua Prof. Horácio Berlinck, 514 ¾ 05505-040 ¾ São Paulo, SP. Tel./fax: (11) 212-4612; E-mail: bedrikow@sti.com.br

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