Open-access Observações empíricas e experiências subjetivas na escolha de referenciais teóricos em pesquisa etnográfica no campo da saúde indígena*

Empirical observations and subjective experiences in the selection process of the theoretical approach in an ethnographic research in the indigenous health context

RESUMO

O objetivo deste texto foi narrar o processo de escolha dos referencias teóricos utilizados em uma pesquisa etnográfica explorando a interação entre revisão bibliográfica/ observação empírica/experiência subjetiva. Analisando-se o percurso da pesquisa a partir das teorias de Roy Wagner, evidencia-se a importância de se observar não apenas o que ocorre no campo, mas também como aquilo que ocorre no campo é vivenciado pelo pesquisador, como um importante recurso nesse processo de escolha.

PALAVRAS-CHAVE:
Etnografia; Experiência Subjetiva; Trabalho de Campo; Saúde Indígena.

ABSTRACT

The objective of this paper was to narrate the selection process of the theoretical approach used in an ethnographic research, exploring the interaction between literature review/empirical observation/subjective experience. The importance of observing not only what happens on the field, but also how what happens in the field is experienced by the researcher, was described as an important resource in this process of choice, by the analyze of the trajectory of the research using the Roy Wagner’s theories.

KEYWORDS:
Ethnography; Subjective experience; Field Work; Indigenous Health.

Introdução

Nos últimos vinte anos está em curso no Brasil um processo de ampliação dos objetos de interesse dos pesquisadores do campo da saúde mental. Ao buscarem compreender significados e experiências relacionados ao processo saúde-doença, pesquisadores desse campo passaram a apresentar um interesse crescente pelos métodos qualitativos, inclusive pela etnografia (CAPRARA; LANDIM, 2008).

Parte integrante do fazer etnográfico é a convivência cotidiana e face a face do investigador junto aos sujeitos e grupos sociais de interesse (CIOCCARI, 2009). Partindo de tais circunstâncias, observações empíricas, que geram experiências subjetivas, são significadas por meio de uma interação complexa com teorias, que são testadas, refutadas e/ou adaptadas nesse mesmo processo. Embora se reconheça a importância da descrição do caminho trilhado para escolha dos referenciais teóricos e sua relação com as demais etapas da construção do conhecimento, publicações da área da saúde raramente o expõem (ARANA, 2007).

Neste texto, pretendo narrar o processo de escolha dos referencias teóricos utilizados em uma pesquisa etnográfica evidenciando-se sua interação, tanto com a observação empírica, como com a experiência subjetiva (tanto aquela sentida pelo pesquisador, como aquela evocada nos interlocutores pela sua presença). A pesquisa em pauta, minha tese de doutorado (SOUZA, 2009), tinha o objetivo de analisar a violência interpessoal juvenil em Iauaretê, populosa e multiétnica comunidade indígena, localizada no Alto Rio Negro2.

Entendo que um texto com esta proposta é potencialmente relevante para o campo da saúde mental pelo fato de explorar aspectos de uma estratégia de pesquisa, a etnografia, ainda não plenamente difundida entre pesquisadores desse campo no Brasil, bem como ao abordar algumas de suas especificidades quando realizada no contexto indígena. Especificamente o fio condutor da narrativa, o processo de escolha dos referencias teóricos que norteiam a pesquisa, mostra-se promissor, pois se relaciona a um caminho não linear, no qual se entrelaçam observações e subjetividades, algo de certa forma análogo ao que se vivencia no campo da saúde mental, no qual teorias e hipóteses são constantemente construídas e desconstruídas no contexto do encontro terapêutico.

Para compressão desse processo de escolha dos referenciais teóricos utilizarei algumas das contribuições de Wagner (2010) a respeito do trabalho de campo, dentre as quais destaco seu entendimento que o pesquisador “usa sua própria cultura para estudar outras” (p. 29), “não havendo outra maneira senão conhecer ambas [a sua cultura e a que pretende estudar] simultaneamente” (p. 30). Dessa forma, para esse autor os esforços do pesquisador,

para compreender aqueles que está estudando, para tornar essas pessoas e suas condutas plenas de significado e para comunicar esse conhecimento a outros irão brotar de suas habilidades para produzir significado no âmbito de sua própria cultura. (p. 36).

Proponho que os referenciais teóricos a serem recrutados para compreender a realidade investigada são elementos da cultura erudita, a qual o pesquisador neófito que se encontra em processo de aprendizado (mediando pela díade observação/experiência) pretende se filiar, e que esse maneja de forma fragmentada seus símbolos quando entra em campo, pelo menos no início de sua carreira. Assim, entendo que haveria um simultâneo e progressivo refinamento compreensivo (inventivo/criativo), tanto da ‘cultura’ do nativo, como da ‘cultura’ do pesquisador no transcurso da pesquisa, entrelaçando observações, subjetividades e teorias, suas escolhas e seus usos.

Contexto da pesquisa, referenciais teóricos preliminares e a hipótese não dita

A região do Alto Rio Negro é região habitada por aproximadamente 30.000 indígenas, de mais de 20 etnias diferentes (PAGLIARO; AZEVEDO; SANTOS, 2005). Cada grupo étnico é composto por diferentes sibs, que são grupos de parentesco hieraquizados de acordo com a ordem de nascimento dos ancestrais fundadores. A ocupação do território se dá essencialmente de forma dispersa ao longo dos cursos dos rios (JACKSON, 1983). Nos locais de assentamento, dadas às regras de descendência patrilinear e de residência patrilocal póscasamento, moravam homens (e seus filhos e filhas solteiras) de um mesmo sib, e suas esposas de outros grupos (CHERNELA, 1993). A progenitura ancestral, ancorada em bases míticas, fundamentava em larga medida o exercício da liderança, que era exercida através da busca de consensos sociais, entre pessoas ligadas por laços de parentesco.

Os povos rionegrinos estão em contato com a sociedade nacional há mais de três séculos. Missionários católicos salesianos estão intensivamente presentes na região desde a segunda década do século passado. Esses estabeleceram centros missionários, implantando um projeto civilizador, através da instalação de internatos (ANDRELLO, 2006), o que contribui para entrada em desuso dos rituais de iniciação, que demarcavam a passagem da infância para idade adulta.

Um dos centros missionários foi instalado, em 1929, na localidade de Iauaretê. Com o internato, inaugurado em 1930, favoreceu-se a migração para essa localidade. Essa migração foi ainda intensificada com o fechamento do internato e sua transformação em escola estadual. Em 2007, a população de Iauaretê era de 2.779 habitantes, 50 vezes maior que aquela de 70 anos atrás, e encontrava-se dividida em 10 vilas, cada qual com seu próprio quadro de lideranças. Cinco vilas são chamadas de ‘tradicionais’, relacionando-se as cinco malocas tarianas, existentes na chegada dos missionários, e derrubadas dois anos após. As demais vilas, chamadas de ‘novas’, são formadas por famílias que lá se instalaram ao longo dos anos seguintes (ANDRELLO, 2006).

Iauaretê é tida como um local de ‘muitos movimentos’, denotando que lá ocorrem muitas festas. Nessas se bebe tanto caxiri, bebida fermentada a base de frutas e mandioca, como bebidas industrializadas, como a cachaça. As festas indígenas se associam, como noutros antigos centros missionários da região, a um conjunto de outras festas como aquelas relacionadas às datas do calendário cívico-nacional, comemorações religiosas, aniversários e casamentos (SOUZA; GARNELO, 2007). Essas ocorrem em praticamente em todos os finais de semana, concomitantemente em diferentes vilas. Não é necessário permanecer mais do que um mês em Iauaretê para poder observar ou ter notícia de situações nas quais, nessas festas, jovens se envolvem em brigas.

Meus pontos de partida para busca de referencias teóricos, para orientar a investigação em pauta foram: o meu conhecimento reduzido do contexto da pesquisa, baseado nos dados da literatura acima descritos; minha experiência adquirida em investigação conduzida em outros centros missionários rionegrinos menos populosos (SOUZA; GARNELO, 2007); bem como apriorístico intuito de valer-me de pressupostos que buscassem compreender a violência através de um olhar que respeitasse as especificidades dos grupos indígenas (visando reduzir o viés etnocêntrico), que a analisasse em suas dimensões coletivas (e não como fruto de idiossincrasias individuais), e como um fenômeno ancorado profundamente na cultura. Dessa forma, no projeto de qualificação aventei a possibilidade de valer-me das discussões teóricas de Clastres (2004) relativas à dinâmica das guerras tribais para compreensão da violência juvenil em Iauaretê. Desse autor, destaquei o caráter político da guerra, sobretudo a tese que ela imprimiria a essas sociedades uma lógica centrífuga (dispersiva), ao induzir a dispersão, a fragmentação e a atomização dos grupos, o que lhes garantiria o exercício de seus ideais de autonomia e independência em relação a outros grupos indígenas. Com a pacificação forçada e com a criação de centros missionários, uma lógica centrípeta (de concentração) passaria a operar, permitindo a formação de comunidades multiétnicas como Iauaretê. Assim, a hipótese implícita e não dita, relacionada ao uso dessas formulações de Clastres, seria que a violência juvenil poderia ser compreendida como algo que se contraporia a lógica centrípeta, e que operaria demarcando diferenças entre grupos que se organizavam antes de forma dispersa e passaram a dividir um mesmo território.

Entrada no campo e construção de parentesco

A entrada em campo é “um momento rico de significados sutis” (CAPRARA; LANDIM, 2008, p. 369). Não é incomum que elementos registrados no início da pesquisa, que parecem “sem utilidade direta”, se revelem “com o tempo de uma grande riqueza e pertinência” (GUTWIRTH, 2001, p. 233). O trecho abaixo se enquadra nesse tipo de registro. A partir da releitura crítica do mesmo e do cotejamento com outras experiências de campo, se iniciou um processo que permitiu identificar tanto outro referencial teórico para compreensão do objeto de investigação que se tornou central nas análises subsequentes, como os indicativos para sua posterior articulação com o enfoque inicialmente aventado.

Está difícil entrar de fato no campo. Considerando a proposta inicial de fazer observações em três vilas diferentes, venho vagando de vila em vila, de festa em festa, buscando estabelecer relações e observar particularmente o consumo de bebidas. Nestas investidas percebo que minha presença evoca profunda desconfiança, que por vezes se apresenta como hostilidade franca. Sobre mim recai a dúvida, quiçá a certeza plena de ser ‘igual a todos os brancos’, que meu intento com a pesquisa era, como um senhor irritado dizia, me ‘aproveitar dos índios’. Noutra festa um jovem disse-me para voltar para o meu lugar. Ontem foi necessário que pessoas intercedessem apartando-me de duas pessoas que encolerizadas ‘conversavam’ comigo. Lembrei-me que logo quando cheguei, quando acontecia uma comemoração festiva de uma semana de duração, durante a qual ocorriam eventos nas diferentes vilas, fui alertado por lideranças indígenas para evitar andar de noite ‘atravessando as vilas’. Diante dos ocorridos e desta advertência vou mudar minha estratégia, irei fazer observações apenas na vila na qual estou morando.

Wagner (2010) aponta que “as pessoas geralmente se sentem desconfortáveis com um estranho em seu meio”, e desenvolvem “defesas para mantê-los a certa distância” (p. 32), essas “não são necessariamente hostis (embora possam sê-lo)” (p. 34). Nesse caso específico, as ‘defesas’ eram hostis, demandando, além da paciência e cordialidade propostas por Wagner, uma flexibilização das estratégias de investigação, bem como uma atenção redobrada para esses eventos, pois eles estavam de certa forma, relacionados ao objeto de investigação, ou seja, as interações hostis entre pessoas.

Especificamente, abandonei a estratégia de fazer observações em três vilas pré-selecionadas, para me restringir a uma delas, aquela na qual eu estava morando, uma vila ‘tradicional’, cujo sib Tariano predominante era de baixo status na hierarquia de parentesco. Tal decisão foi tomada com certo pesar, visto que eu cria que tal fato tornaria a pesquisa menos abrangente.

Com o tempo, foi possível atentar que as ‘limitações’ e as ‘frustrações’ impostas pelo campo não redundam necessariamente em perdas, sendo possível transformá-las em dados. O caminho utilizado para transformar a ‘perda’ em dado, foi considerar que o “comportamento do observador, suas angústias, manobras de defesa, estratégias de pesquisa e decisões” são fontes de dados etnográficos tão importantes quanto o próprio comportamento nativo (DEVEREUX, 1980, apudCIOCCARI, 2009, p. 221).

Focando as atividades de pesquisa em uma vila, ampliei a observação e a participação no cotidiano, comparecendo às reuniões comunitárias, às festas de casamento, aos aniversários, etc. Dessa forma, a entrada em campo foi se dando. Com os moradores dessa vila pude estreitar laços, comer e beber, observar e ser observado, sentir-me por vezes aceito e por vezes excluído, o que permitiu, como descreverei na sequência de eventos a seguir, perceber meu objeto de investigação sobre novos prismas, e também a potencialidade de outros referencias teóricos para iluminar essa compressão.

Após alguns meses, levei para uma festa outro não-índio, que estava visitando Iauaretê. As conversas giraram em comparar o novo visitante a mim. Naquele momento éramos totalmente diferentes. Afinal, eu bebia e comia ‘com’ e ‘como’ eles (ou pelo menos tentava). Eu entendia e falava algumas poucas palavras em Tukano, embora reiteradamente afirmassem que só falaria corretamente depois que mordesse a língua (numa clara metáfora sexual) de uma moça que falasse esse idioma. Enfim, o novo visitante era mais ‘de fora’ do que eu.

Algum tempo depois, um homem que era hostilizado pelos moradores da vila na qual eu realizava as observações, em parte por causa de suas explícitas ambições político-partidárias, escreveu um documento que desagradou profundamente os membros da associação indígena local. Ao conversarem comigo a respeito do assunto, diziam que o documento, embora tivesse o conteúdo equivocado, estava muito bem escrito. Dias depois, numa festa, ficou explícito que havia uma forte suspeita que eu o teria ajudado a escrever o texto. Essa explicitação ocorreu de forma hostil, semelhante àquela descrita no fragmento apresentado no início desta seção.

A relação entre esses eventos foi percebida em campo, entretanto uma compreensão teoricamente embasada, e a possibilidade dos mesmos apontarem para possível adoção de determinado referencial teórico, só foi construída no processo de redação da tese. Tal processo foi realizado tomando como horizonte teórico as formulações de Viveiros de Castro (2002) a respeito da construção do parentesco em contextos ameríndios. Digno de nota é o fato que eu não tinha uma leitura prévia consistente desse autor. De fato, os primeiros contatos com suas teorias deram-se em campo, de forma indireta, através dos trabalhos de Andrello (2006) e Lasmar (2005) que foram leituras constantes durante o tempo que estive em Iauaretê. Tais aspectos evidenciam a importância das imprevisíveis situações que se configuram no dia a dia no local da pesquisa (PEIRANO, 1992) durante o fazer etnográfico, inclusive no processo de escolha dos referenciais teóricos.

Analisando-se as descrições etnográficas apresentadas nesta seção a partir das formulações de Viveiros de Castro (2002), a relação social estabelecida entre mim e os moradores de Iauaretê partiu de uma distinção radical, na qual eu seria o outro. No contexto ameríndio, a relação primeira é a da diferença, da alteridade e exterioridade, que se encontra associada à periculosidade inata, que precisa ser de alguma forma domesticada. Na lógica simbólica do parentesco, essa é uma relação de afinidade3, que por sua vez, “ocupa o lugar do dado na matriz relacional cósmica” (p. 406). O estranho é o afim, que é representado como outro tipo pessoa. Através da convivência, da corresidência e da comensalidade, a diferença pode ser atenuada. O parentesco e a semelhança, ou seja, a consanguinidade deve ser entendida, nesse contexto, como fruto da agência humana. O estabelecimento de relações reais de afinidade, como na metáfora de ‘morder a língua’, concorre no sentido de extrair a diferença do afim, consanguinizando-o, favorecendo a convivência cotidiana. Porém esse processo é sempre parcial e inacabado. A afinidade e a periculosidade a ela associada pode a qualquer momento, sobretudo nos momentos de crise, despontar, pois os afins são “de diversos modos, a linha de fratura do grupo local” (p. 426). Sobre mim, recaíram suspeitas de ter colaborado com a redação do texto, e a hostilidade antes domesticada veio à tona, no contexto de consumo de bebidas alcoólicas.

Buscando compreender os eventos que ocorreram, evolvendo a mim e as pessoas da vila na qual eu morava, pude aventar, por analogia, um caminho teórico para nortear a compreensão da violência juvenil no contexto de Iauaretê. Tal caminho construído na interação entre observação e teoria se assenta na hipótese de que, no interior de cada vila localizada na populosa e multiétnica Iauaretê, haveria a necessidade constante de produzir semelhanças, borrando as diferenças entre os diferentes grupos e subgrupos que compõem a população local, para possibilitar a convivência cotidiana. Esse processo, todavia, seria sempre imperfeito e inacabado. A violência juvenil no interior das vilas poderia ser compreendida como uma das diferentes formas através da quais se expressaria a fragilidade desse processo de consaguinização do outro.

Brigas e guerras

Em campo, por outro lado, observei eventos violentos nos quais os jovens eram de vilas diferentes, ou seja, de unidades sociopolíticas distintas, o que apontava para a potencialidade da utilização do referencial da guerra tribal, aventado nas fases iniciais da pesquisa, para compor o arcabouço teórico da pesquisa.

Entretanto, foi preciso reformular a hipótese que indicava a potencialidade de utilização da chave teórica da guerra para compreensão da violência juvenil em Iauaretê. Tal reformulação partiu dos achados de campo que evidenciaram que, no contexto de Iauaretê, ser de determinada vila é um aspecto importante para sociabilidade, coexistindo com a importância de pertencer a determinado sib, conforme se depreende do trecho abaixo.

Fulano me perguntou de onde eu era. Inicialmente disse que era do Ceará. Depois que morava em Manaus. A seguir, tentei explicar que minha família teria vindo para o Brasil, há muitos anos atrás, de Portugal e da Espanha. Pouco interessado em minha história familiar e muito menos em minha genealogia, meu interlocutor, objetivamente refez sua pergunta: ’Aqui eu Iauaretê, o senhor é de onde?’. Disse-lhe que morava com a equipe de saúde. Sua resposta foi: ’Ah! O senhor mora em São Miguel. Nós aqui já decidimos, quem mora em São Miguel é de São Miguel.

Mesmo aqueles oriundos de outros lugares precisam ser de alguma vila. Andrello (2006), que realizou trabalho de campo dez anos antes, preferiu deixar em aberto a questão se Iauaretê seria uma única comunidade, ou um conjunto de comunidades. No contexto observado, foi possível encontrar fortes indícios que localmente Iauaretê é representada e vivenciada como um aglomerado composto de várias vilas, que se organizam como grupos locais, possuindo suas lideranças, seus locais de reunião, suas festas, etc. Reiteradamente as lideranças indígenas iniciavam seus discursos com expressões do tipo: “Aqui em Iauaretê, nas dez comunidades...”. Soma-se ainda, a esse argumento, a observação que parte das brigas envolvendo jovens era justificada pelas rixas que envolviam pessoas de diferentes vilas.

No Alto Rio Negro, as guerras tribais não são mais observadas em sua plenitude desde o início do século XX. Entretanto, Fausto (1999) considera ser possível a continuidade dos sistemas guerreiros, mesmo na ausência de guerra, sobretudo se a concebemos para além de sua manifestação explícita, entendendo-a como um

espaço de mediação entre grupos e pessoas, lugar de operação de uma complexa dialética entre exterioridade e interioridade, entre alteridade e identidade. (p. 265).

Assim, os aportes teóricos relativos às guerras tribais, compõem uma chave para compreensão da mediação dos limites entre ‘nós’ e os ‘outros’. Através da guerra, os diferentes grupos interagiriam por meio de uma “lógica centrífuga” (CLASTRES, 2004, p. 266), permitindo que mantivessem seus ideais de autarquia e independência, evitando a fusão entre eles, que alienaria suas especificidades. Nesse sentido, a guerra pôde ser compreendida pela lógica do parentesco, na medida em que explicita a afinidade do ‘outro-inimigo-de-outra-vila’, e promove a consanguinização do outro-aliado-corresidente.

Em Iauaretê atuariam um conjunto de forças centrípetas, a escola, o atendimento de saúde ocidental, a luz elétrica, etc. Essas forças atrativas dificultariam que as pessoas se mudassem para outros locais em caso de discussões e hostilidades. Porém, forças centrífugas, simbolicamente associadas à guerra, permaneceriam operando, uma vez que a fragmentação persiste. A resultante dessa tensão é que parece configurar o cenário de Iauaretê, no qual há fragmentação (diversidade de vilas) na ausência de dispersão (concentração espacial).

Dessa forma, a hipótese implícita que de certa forma justificou a utilização dos referencias relativos às guerras tribais é que as atuais brigas dos jovens, particularmente aquelas que ocorrem entre aqueles de vilas diferentes, atuam como forças centrífugas, de forma análoga (mais obviamente, não idêntica) às guerras tribais, contribuindo para se evitar a fusão alienante, num contexto de forte pressão centrípeta.

Por fim, utilizando as formulações de Viveiros de Castro (2002) a respeito da construção do parentesco no contexto ameríndio, juntamente com as contribuições de Clastres (2004) a respeito das guerras tribais, pude compreender as brigas entre os jovens, através de dois prismas inter-relacionados. Por um lado, ‘analisando a parcialidade’ e ‘fragilidade do processo consanguinização’, que concorreriam no sentido de alienar as diferenças, num contexto no qual o pertencimento a grupos de vizinhança (vilas, formadas por parentes e não parentes que se tornam corresidentes), vem tornando-se tão importante quanto o pertencimento à descendência de ancestrais comuns, para ordenar as formas de interação entre as pessoas. Por outro lado, outro caminho importante seria ‘a análise da demarcação da diferença’, entendendo-se que mesmo que a diferença não precise ser construída, visto que a alteridade é dada, no contexto de Iauaretê far-se-ia necessário, por vezes, explicitála, sendo a violência juvenil um caminho para isso.

Considerações finais

A entrada em campo deve ser precedida de uma prévia e exaustiva revisão da literatura, que deve atentar, não apenas para os resultados de pesquisas anteriores, mas também para os referenciais teóricos e metodológicos que foram utilizados. Destaca-se que a utilização de determinado referencial se vincula, de forma mais ou menos explícita, a adoção de hipóteses explicativas a respeito do fenômeno social que se investiga.

O contato direto com o campo ampliará as informações a respeito do fenômeno que se está investigando. Tal processo fornecerá subsídios para reformulação das hipóteses, que por sua vez exigirá reconfigurações no balizamento teórico proposto. Das diferentes experiências de campo, que auxiliam no processo de escolha dos referenciais teóricos, destaco a entrada em campo. De particular interesse, no caso aqui apresentado, foi o exame de como fui analisado por meus interlocutores, o que remete a uma observação de Devereux (1980), citada por Cioccari (2009, p. 222):

quando se examinam os modos pelos quais o observador é esquadrinhado em campo, é preciso considerar [que há uma] observação recíproca, na qual tanto o pesquisador como os nativos agem como observadores.

A análise de tal dinâmica interativa mostra-se uma fonte relevante por fornecer subsídios para a escolha dos referencias teóricos.

Outro ponto igualmente importante foi atentar para o fato que parte relevante dos dados a serem coletados em campo não foi revelada “ao pesquisador, mas no pesquisador” (PEIRANO, 1992, p. 7). Em outras palavras, por vezes se deve procurar ‘observar’ não aquilo que ocorre no campo, mas como aquilo que ocorre no campo é vivenciado pelo pesquisador. Como descrito ao longo deste texto, tal exercício de desviar o olhar para si mesmo consistiu noutro importante recurso para escolha dos referenciais teóricos.

Espero que com este artigo tenha sido possível evidenciar a necessidade de disciplinada revisão da literatura, de sensibilidade em relação aos indicativos do campo, de certa dose de acaso e de paciente trabalho de artesão, para dar sentido às experiências do campo, reorientar hipóteses, selecionar, juntar e adaptar os referenciais teóricos ao contexto da pesquisa. Tal processo permite que o pesquisador construa seu próprio entendimento sobre o que observou baseando-se em analogias. E, de acordo com Wagner (2010, p. 41), “as analogias que ele cria são extensões das suas próprias noções e daquelas de sua cultura, transformada por suas experiências da situação de campo”, o que por sua vez permite “catapultar sua compreensão para além dos limites impostos por pontos de vista prévios”. Por fim, ressalto meu entendimento que este processo de escolha necessita ser descrito e problematizado para que se possa dar maior consistência aos trabalhos qualitativos, em especial aqueles de orientação etnográfica, realizados no campo da saúde em geral e da saúde mental, em particular.

  • *
    Este artigo foi realizado no contexto da tese de doutorado “Juventude, uso de álcool e violência em um contexto indígena em transformação”, apresentada em 2009, no Instituto Fernandes Figueira, Fundação Oswaldo Cruz. Recebeu o prêmio Luiz Cerqueira, em 2010, para o melhor trabalho na área de “Saúde Mental”.
  • 2
    Destaco que o objetivo deste texto é modesto e circunscrito. Nele não pretendo apresentar uma introdução à etnografia, para tanto recomendo a leitura de autores clássicos (MALINOWSKI, 1978) e de textos básicos (VICTORA; KNAUTH; HASSEN, 2001); nem explorar os limites e possibilidades da pesquisa etnográfica no campo da saúde, como Caprara e Landim (2008); ou realizar uma revisão das bases teórico-conceituais desse método, como o realizado por Wagner (2010), autor que inclusive, forneceu as bases teóricas para a reflexão aqui realizada. Outro ponto que também aproveito para evidenciar é que é possível que o leitor não concorde com os referenciais teóricos adotados para compreensão da violência juvenil em Iauaretê, encontrando limitações nos mesmos, ou vislumbrando maior poder explicativo em outros. Entretanto, para manter a coerência com a proposta do artigo e a honestidade acadêmica opto por valer-me apenas dos referencias teóricos aventados ao longo do processo de elaboração da tese.
  • 3
    De forma bem simplificada, e, sobretudo para facilitar a compreensão da argumentação apresentada, relação de afinidade pode ser entendida como aquela que é intermediada por relações de casamento, tais como esposo e esposa, genro/nora e sogro/sogra, e entre cunhados(as). Para compreensão em profundidade consultar Viveiros de Castro (2002).
  • Suporte financeiro: Trabalho financiado pelo Edital MCT/CNPq/MS-SCTIEDECIT 38/2005; Processo Individual 400904/2005-5.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    Out-Dez 2011

Histórico

  • Recebido
    Abr 2011
  • Aceito
    Out 2011
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