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Saúde em Debate

Print version ISSN 0103-1104On-line version ISSN 2358-2898

Saúde debate vol.43 no.123 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2019  Epub Mar 09, 2020

https://doi.org/10.1590/0103-1104201912303 

ARTIGO ORIGINAL

Absenteísmo de usuários como fator de desperdício: desafio para sustentabilidade em sistema universal de saúde

Sonia Maria Beltrame1 
http://orcid.org/0000-0002-0755-5565

Adauto Emmerich Oliveira1 
http://orcid.org/0000-0001-5160-3280

Maria Angelica Borges dos Santos2 

Edson Theodoro Santos Neto1 
http://orcid.org/0000-0002-7351-7719

1Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) – Vitória (ES), Brasil.

2Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.


RESUMO

O absenteísmo de usuários em consultas e exames é considerado um problema mundial na assistência à saúde, gerando desperdício de recursos tanto no setor público como no setor privado. O objetivo deste estudo foi o de estimar o desperdício de recursos monetários vinculado ao absenteísmo em procedimentos especializados no Sistema Único de Saúde (SUS) na Região de Saúde Metropolitana do Espírito Santo (RSM-ES) entre os anos de 2014 e 2016. Analisaram-se 1.002.719 procedimentos, sendo 666.182 consultas e 336.537 exames especializados. Os dados de absenteísmo foram retirados dos registros administrativos do Sistema de Regulação do ES (SisReg-ES), fornecidos pela Secretaria Estadual de Saúde. Os valores monetários foram obtidos por meio da Tabela SUS, da tabela complementar de convênios e da tabela de custos estimados, segundo o tipo de prestador envolvido no atendimento. A taxa média de absenteísmo para consultas foi de 38,6% (257.025 consultas), gerando um total estimado de R$3.558.837,88; e para exames especializados, foi de 32,1% (108.103 exames), em um total estimado de R$15.007.624,15. Os valores totais desperdiçados são significativos e evidenciam o desafio constante na agenda dos gestores na busca pela SUStentabilidade em sistemas universais de saúde.

PALAVRAS-CHAVE Absenteísmo; Atenção secundária à saúde; Gestão em saúde; Integralidade em saúde

ABSTRACT

Non-attendance to specialized healthcare appointments, diagnostic, and therapeutic procedures is a global problem in healthcare, leading to the wastage of resources both in the public and private sectors. This study aims to estimate financial wastage of resources linked to non-attendance to scheduled health specialist appointments and procedures in the metropolitan region of the Espírito Santo State (ES), Brazil, between 2014 and 2016. We studied 1.002.719 specialized healthcare procedures, being 666.182 appointments with specialized physicians and other healthcare professionals, and 336.537 specialized diagnostic and other therapeutic procedures. Non-attendance date were retrieved from the administrative procedure scheduling database (SisReg-ES) available in the ES Regulatory Agency and provided by the ES Health Office. Financial values used to estimate wastage were retrieved from the SUS and other standard tariff lists for medical procedures, and used according to the administrative regime of the three types of service providers. Non-attendance average rate for medical and health specialists’ appointments achieved 38.6%, or 257.025 missed appointments, equivalent to an estimated waste of resources of R$3.558.837,88. Non-attendance as for other specialized procedures reached 32.1%, or 108.103 missed procedures, equivalent to R$15.007.624,15. Total wasted resources reached significant values, evincing the ongoing challenge to managers seeking to attain SUStainable universal health care systems.

KEYWORDS Absenteeism; Secondary care; Health management; Integrality in health

Introdução

O absenteísmo de usuários é o ato de não comparecer às consultas e/ou aos procedimentos agendados sem qualquer comunicação prévia ao local de realização1. É considerado um problema mundial na assistência à saúde tanto no setor público como no privado, de acordo com trabalhos publicados no Brasil2,3 e no mundo4-6. Uma revisão sistemática sobre o tema apontou uma taxa média mundial de absenteísmo de 23%, sendo os maiores índices encontrados na África (43,0%), seguido pela América do Sul (27,8%), Ásia (25,1%), América do Norte (23,5%), Europa (19,3%) e Oceania (13,2%)7. No Sistema Único de Saúde (SUS), o absenteísmo revela-se um problema crônico, com taxas próximas ou superior a 25%8 atingindo percentuais altos em diversos tipos de atendimento e especialidades médicas9.

O absenteísmo foi associado a algumas causas, como esquecimento3,10, falhas na comunicação entre o serviço e o usuário, melhora dos sintomas de adoecimento11, agendamento em horário de trabalho2,10-12, falta de transporte e dia da semana agendado4. Entre as suas consequências, destacam-se o aumento da fila de espera e de demandas por urgência2,12, o desperdício de recursos públicos2,4-6,13, a redução da produtividade e perda da eficiência da clínica e da gestão5. Essas consequências comprometem o acesso e acarretam aumento dos custos com a assistência à saúde2,3,14, gerando custos sociais15, estimulando atitudes negativas no profissional16 e acarretando atraso no diagnóstico e tratamento adequado13. Em síntese, o absenteísmo é considerado um fenômeno multicausal, repercutindo em todos os envolvidos: gestão, trabalhador e usuário2,3.

A assistência à saúde no SUS é dividida em atenção básica, atenção secundária ou média complexidade e atenção terciária ou alta complexidade17. A porta de entrada por iniciativa própria do usuário ao sistema é pela atenção básica, por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA)17,18. A atenção básica deve ser resolutiva em mais de 85% dos problemas de saúde da população, e o usuário deve ser encaminhado para a atenção especializada quando for necessário19.

Entretanto, desde a criação do SUS, em 1988, o sistema vem enfrentando inúmeras dificuldades quanto ao acesso do cidadão às ações e serviços de saúde resolutivos, adequados, oportunos e eficazes. É inegável a extensão de benefícios trazidos à população ao longo da sua existência, mas, na prática, ainda é parcial, com inúmeras debilidades e insuficiências20. O SUS foi implantado, mas não foi consolidado21. O acesso aos serviços especializados ou de média complexidade tem sido destacado como um dos principais obstáculos para a sua efetivação22.

O envelhecimento da população tem contribuído para aumentar as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), as demandas na atenção especializada, portanto, impõe novos desafios ao sistema de saúde18. O aumento da prevalência das DCNT pode também ser explicado pelo maior acesso aos serviços de saúde e meios de diagnósticos dessas doenças23. Atualmente, a demanda por procedimentos diagnósticos e terapêuticos em decorrência das DCNT está se tornando prioridade em saúde pública no Brasil24.

Nesse contexto, a gestão dos serviços precisa considerar, para o seu planejamento, as mudanças no cenário de adoecimento do País nas últimas décadas25. Assim, para qualificar a gestão dos serviços, em 2008, o Ministério da Saúde (MS), instituiu a Política Nacional de Regulação em Saúde26. A regulação do acesso à saúde é utilizada pelo Estado como um importante instrumento de gestão pública, ainda em processo de aprimoramento, com o objetivo de alcançar a eficiência, a equidade e o equilíbrio entre a oferta, demanda e financiamento27. O sistema de regulação (SisReg) utilizado é on-line e disponibilizado pelo MS, pelo Departamento de Informática do SUS (Datasus), para gerenciar todo complexo regulatório e operar as centrais de regulação no País. Sob esse aspecto, a política de regulação permite aos gestores conhecer o tamanho das filas de espera e do absenteísmo por meio do banco de dados que produz, orientando a gestão na busca de soluções.

Na Região de Saúde Metropolitana do Espírito Santo (RSM-ES), o absenteísmo na atenção especializada é um problema frequente verificado pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesa-ES) e tem ocasionado prejuízos à população e aos cofres públicos, considerando que é grande o número de usuários do SUS com consultas e exames agendados nas diversas especialidades que não comparecem e não desmarcam. Segundo os dados da Sesa-ES, no primeiro semestre de 2015, a taxa de absenteísmo foi de 38%, para consultas e exames especializados agendados pela Central de Regulação28.

Assim, o absenteísmo na atenção especializada tem chamado a atenção dos gestores do SUS no Brasil, porque contribui para o aumento da fila de espera no atendimento, somado aos pacientes faltosos que tendem a voltar para a fila, o que acarreta diminuição do aproveitamento da oferta, que, por conseguinte, aumenta o tempo de espera para um novo agendamento2. Atualmente, os desafios para a oferta de serviços na atenção especializada são inúmeros e, possivelmente, serão agravados pelas consequências da Emenda Constitucional (EC) 95/2016, que limita os gastos públicos por 20 anos e pode dificultar o incremento de recursos para a saúde e demais políticas sociais, representando uma grande ameaça a essas demandas. Os cortes orçamentários poderão repercutir nos indicadores de saúde da população29,30.

Nesse sentido, aperfeiçoar a gestão na saúde é necessário para combater e reduzir o desperdício e aumentar a eficiência, otimizando os recursos financeiros disponíveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2010, no relatório ‘Financiamento da Cobertura Universal’, revela que de 20% a 40% de todos os gastos em saúde são desperdiçados por ineficiência, recursos estes que poderiam ser redirecionados para atingir a cobertura universal.

Por outro lado, são escassos estudos que abordem o absenteísmo como fonte de desperdício e apliquem avaliação econômica e métodos analíticos dos serviços não executados evidenciando o desperdício que ele causa4. As publicações, em sua maioria, abordam as causas e estratégias para sua redução, sendo enfáticas ao afirmar que causam prejuízos monetários, geralmente com abordagens apoiadas em evidências empíricas5. Assim, cada vez mais, torna-se necessário que os conceitos de avaliação econômica façam parte da rotina dos sistemas e serviços de saúde31.

Com base nessas considerações, identificando o absenteísmo como um problema crescente no SUS, o objetivo deste estudo foi estimar o desperdício de recursos monetários vinculado ao absenteísmo em procedimentos especializados no SUS na RSM-ES entre os anos de 2014 e 2016.

Métodos

Trata-se de um estudo descritivo baseado em dados de registros administrativos, conduzido na RSM-ES, localizada na região Sudeste. A região é composta por 20 municípios que apresentam os melhores Índices de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) do estado (0,68 a 0,856) e população de 1.935.393 habitantes32.

Foram utilizados dados gerados de 1.002.719 procedimentos de consultas e exames especializados, agendados de janeiro a dezembro de 2014 a 2016 no SisReg-ES, fornecidos pela Sesa-ES. Os procedimentos agendados referem-se às vagas disponibilizadas por especialidades pela Programação Pactuada Integrada (PPI), realizada entre estado e municípios da região. Foram analisados 666.182 consultas especializadas e 336.537 exames especializados, em um total de 38 locais executantes, que incluíram participações variadas por especialidade de agendamentos em estabelecimentos públicos (gestão direta) e contratados do SUS, estabelecimentos filantrópicos e serviços públicos com gestão de Organizações Sociais (OS).

As variáveis selecionadas foram: ano (2014, 2015 e 2016); procedimento agendado (códigos para tipos de consulta e exame especializado agendados); procedimento confirmado (realizado com o comparecimento do paciente); procedimento não confirmado (absenteísmo devido ao não comparecimento do paciente); consultas especializadas e exames especializados (rol de procedimentos da atenção de média complexidade); e local executante (locais de referência, onde os procedimentos foram realizados). Inicialmente, os dados foram separados segundo consultas e exames e ano de agendamento.

As consultas foram registradas segundo diversas nominações usadas pelo SisReg-ES, tendo sido necessário utilizar a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), do Ministério do Trabalho, para recodificar a especialidade médica e outras do profissional executante. As diversas nominações para a mesma especialidade foram agrupadas em uma única classificação da CBO para posterior codificação e definição de correspondência (de-para) com os procedimentos das Tabelas de valores /preços utilizados.

Os exames especializados codificados pela tabela do SisReg-ES também foram recodificados, a exemplo do procedimento adotado para as consultas. Os exames foram agrupados em grupos e subgrupos, conforme classificação da Tabela Unificada de Procedimentos, Medicamentos e Insumos Estratégicos do SUS (Tabela SUS), identificando-se o número de exames agendados, exames confirmados, absenteísmo e o montante monetário. O grupo 02 foi composto por todos os procedimentos dos subgrupos com finalidade diagnóstica; o grupo 03, por todos os procedimentos dos subgrupos com exames relacionados com os procedimentos clínicos; e o grupo 04, por todos os procedimentos dos subgrupos com exames relacionados com os procedimentos cirúrgicos.

Os valores atribuídos a cada procedimento variaram segundo as remunerações vinculadas aos locais executantes e respectivas naturezas administrativas. Para procedimentos efetuados nos estabelecimentos públicos estadual e federal (gestão direta) e contratados do SUS (gestão indireta), a referência para valores de procedimentos foi a Tabela SUS (Tabela SUS/2018). Para os filantrópicos, foram somados os valores das tabelas complementares dos aditivos de 2018 fornecidas pela Sesa-ES e os valores da Tabela SUS/2018. Para os serviços públicos com gestão de OS, foi utilizada tabela de custos estimados por local executante, fornecida pela Sesa que adota a ferramenta denominada Key Performance Indicators for Health (KPIH) para efetuar o sistema de gestão de custos. Todos os valores foram atualizados para o ano de 2018.

Procedimentos de consultas/exames foram agrupados por especialidades, quantificando-se o total agendado, total confirmado, absenteísmo (procedimentos não confirmados = agendados - confirmados) e o valor monetário anual por especialidade atribuído ao absenteísmo, segundo as tabelas por natureza administrativas do local executante. Posteriormente, foram elencadas as especialidades em ordem crescente pela taxa de absenteísmo e pelo valor monetário gerado em cada especialidade.

As taxas de absenteísmo anuais para consultas e exames especializados foram calculadas com a divisão do total de procedimentos não confirmados (absenteísmo) (numerador) pelo total de procedimentos agendados (denominador) para cada especialidade, multiplicando-se o resultado por cem.

Os valores monetários estimados para desperdício foram obtidos mediante a multiplicação do total de procedimentos não confirmados (absenteísmo) anualmente por especialidade pelos valores atribuídos a cada procedimento segundo a natureza administrativa do local executante.

Para as análises foi utilizado o Programa Microsoft Office Excel®. O estudo foi autorizado pela Sesa-ES por meio do Termo de Anuência, datado de 26 de setembro de 2017, constante no processo nº 79619819/2017, e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), respeitando a resolução do Conselho Nacional de Saúde, aprovado em 02 de maio de 2018, protocolo nº 2.631.695.

Resultados

Durante o período estudado, foram contabilizados 666.182 procedimentos de consultas e 336.537 exames especializados, em um total de 1.002.719 procedimentos, o que corresponde a R$ 18.566.462,03 de valores monetários desperdiçados atribuídos ao absenteísmo. Deve-se destacar que esses valores devem ser relativizados, visto que a pesquisa apresentou limitações devido às fragilidades do banco de dados gerado no SisReg-ES e à falta de análise econômica por local executante não oferecendo informações sobre o custo real do procedimento.

As consultas especializadas, agendadas para 34 especialidades, apresentaram taxa média de absenteísmo no período de 38,6% (257.025 consultas) e um desperdício associado ao absenteísmo estimado de R$ 3.558.837,88. A especialidade, com todas as consultas clínicas somadas, que apresentou o menor valor monetário com o absenteísmo nos três anos de estudo foi a de médico oncologista clínico (R$ 880,00), e a que apresentou o maior valor foi de médico oftalmologista (R$ 558.262,20). Os índices de absenteísmo por especialidades variaram de 0% (cirurgião-dentista para pacientes com necessidades especiais) a 75,9% (fisioterapeuta geral). Destaque-se que as consultas agendadas com cirurgião-dentista para pacientes com necessidades especiais não foram oferecidas nos anos de 2015 e 2016 (tabela 1).

Tabela 1 Descrição do absenteísmo em consultas especializadas na Região de Saúde Metropolitana, Espírito Santo, Brasil. 2014-2016 

2014 2015 2016 2014-2016 Derperdício
A C Abs. Valor R$ A C Abs. Valor R$ A C Abs. Valor R$ Ag. Total Tx. Abs.
N (%)
Valor (R$)
Médico Oncologista Clínico
104 73 31 310,00 73 50 23 230,00 88 54 34 340,00 265 88 (33,2) 880,00
Médico Cancerologista Cirúrgico
94 73 21 210,00 109 81 28 280,00 127 89 38 410,00 330 87 (26,4) 900,00
Cirurgião-Dentista - Clínico Geral
67 38 29 390,00 106 59 47 760,00 109 84 25 390,00 282 101 (35,8) 1.540,00
Médico Geneticista
34 15 19 380,00 54 28 26 520,00 102 57 45 900,00 190 90 (47,4) 1.800,00
Cirurgião-Dentista Bucomaxilofacial
90 61 29 290,00 186 124 62 3.037,75 254 185 69 3.204,46 530 160 (30,2) 6.532,21
Médico Cirurgião Torácico
36 22 14 140,00 96 59 37 790,13 175 107 68 5.728,92 307 119 (38,8) 6.659,05
Médico Cirurgião Plástico
879 511 368 4.550,00 1.216 776 440 5.050,00 1.049 653 396 4.620,00 3144 1.204 (38,3) 14.220,00
Médico Cirurgião de Cabeça e Pescoço
457 310 147 10.307,00 542 347 195 2.220,00 969 646 323 3.480,00 1968 665 (33,8) 16.007,00
Fisioterapeuta Geral
908 243 665 6.650,00 714 91 623 6.230,00 572 195 377 3.770,00 2194 1.665 (75,9) 16.650,00
Médico Mastologista
2.137 1.493 644 6.560,00 2.065 1.427 638 7.280,00 1.943 1.334 609 6.620,00 6145 1.891 (30,8) 20.460,00
Médico Infectologista
425 259 166 9.821,80 305 147 158 1.950,00 924 283 641 11.810,00 1654 965 (58,3) 23.581,80
Médico Geriatra
2.574 1.796 778 7.780,00 2.403 1.586 817 8.170,00 2.466 1.618 848 8.480,00 7443 2.443 (32,8) 24.430,00
Médico Hematologista
3.102 2.025 1.077 11.370,00 3.610 2.243 1.367 14.870,00 3.229 2.065 1.164 12.920,00 9941 3.608 (36,3) 39.160,00
Médico Cirurgião Pediátrico
1.497 594 903 9.720,00 2.030 1.041 989 11.520,00 2.824 1.380 1.444 18.010,00 6351 3.336 (52,5) 39.250,00
Médico Ginecologista e Obstetra
2.897 2.000 897 10.830,00 3.185 2.185 1.000 11.040,00 3.978 2.389 1.589 17.450,00 10060 3.486 (34,7) 39.320,00
Médico Fisiatra
1.855 6.38 1.217 12.170,00 2.322 635 1.687 16.870,00 2.493 834 1.659 16.590,00 6670 4.563 (68,4) 45.630,00
Médico Nefrologista
6.226 4.229 1.997 20.120,00 4.152 2.738 1.414 14.980,00 2.895 1.856 1.039 10.590,00 13273 4.450 (33,5) 45.690,00
Médico Alergista e Imunologista
3.369 2.117 1.252 12.520,00 4.845 2.956 1.889 18.890,00 4.959 3.062 1.897 18.970,00 13173 5.038 (38,2) 50.380,00
Médico Neurocirurgião
1.157 830 327 39.689,80 572 352 220 8.481,00 491 245 246 2.600,00 2220 793 (35,7) 50.770,80
Médico Pneumologista
4.594 2.838 1.756 21.505,00 4.460 2.763 1.697 20.545,00 2.535 1.424 1.111 11.350,00 11589 4.564 (39,4) 53.400,00
Médico Reumatologista
5.494 4.082 1.412 14.230,00 7.851 5.140 2.711 28.100,00 6.778 4.665 2.113 21.710,00 20123 6.236 (31,0) 64.040,00
Médico Coloproctologista
3.147 1.889 1.258 14.270,00 3.754 2.028 1.726 19.190,00 6.264 3.169 3.095 33.890,00 13165 6.079 (46,2) 67.350,00
Médico Cardiologista
7.369 4.803 2.566 52.759,60 6.317 3.724 2.593 29.000,00 10.013 5.598 4.415 45.470,00 23699 9.574 (40,4) 127.229,60
Médico Angiologista
2.559 1.425 1.134 65.765,80 5.957 3.570 2.387 43.046,95 7.448 4.160 3.288 42.297,00 15964 6.809 (42,7) 151.109,75
Médico Cirurgião Geral
7.019 4.219 2.800 93.084,20 6.810 4.050 2.760 38.936,60 4.234 2.493 1.741 20.720,00 18063 7.301 (40,4) 152.740,80
Médico Psiquiatra
13.396 8.268 5.128 53.956,00 15.373 9.323 6.050 60.500,00 12.296 7.736 4.560 45.600,00 41065 15.738 (38,3) 160.056,00
Médico Neurologista
8.654 5.260 3.394 58.533,54 10.915 6.598 4.317 64.084,45 7.683 4.465 3.218 40.185,13 27252 10.929 (40,1) 162.803,12
Médico Urologista
14.736 10.237 4.499 79.112,00 15.638 11.052 4.586 49.660,80 14.798 9.522 5.276 55.860,00 45172 14.361 (31,8) 184.632,80
Médico Gastroenterologista
8.088 5.382 2.706 84.532,60 6.571 3.930 2.641 54.047,20 11.472 6.340 5.132 52.840,00 26131 10.479 (40,1) 191.419,80
Médico Endocrinologista e Metabologista
16.217 10.945 5.272 56.635,00 18.678 12.006 6.672 69.090,00 19.263 12.731 6.532 68.400,00 54158 18.476 (34,1) 194.125,00
Médico Otorrinolaringologista
18.850 11.700 7.150 83.404,40 21.081 13.261 7.820 84.963,40 15.917 9.792 6.125 62.490,00 55848 21.095 (37,8) 230.857,80
Médico Dermatologista
23.810 13.602 10.208 104.810,00 25.478 14.784 10.694 111.200,00 26.782 16.106 10.676 110.600,00 76070 3.1578 (41,5) 326.610,00
Médico Ortopedista
20.425 12.189 8.236 185.651,44 28.408 16.830 11.578 123.410,37 41.935 24.662 17.273 181.278,34 90768 37.087 (40,9) 490.340,15
Médico Oftalmologista
18.562 12.536 6.026 131.920,00 19.942 12.342 7.600 204.292,68 22.468 14.127 8.341 222.049,52 60972 21.967 (36,0) 558.262,20
Cirurgião-Dentista - Paciente Com Necessidade Especial
3 3 0 - 0 0 0 - 0 0 0 - 3 - -
Total Geral
200.831 126.705 74.126 1.263.978,18 225.818 138.326 87.492 1.133.236,33 239.533 144.126 95407 1.161.623,37 666.182 257.025 3.558.837,88

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do SisReg/Sesa-ES.

A - agendada; C - confirmada; Abs. - absenteísmo; Ag. Total - agendada total; N - absenteísmo total; Tx. Abs. - Taxa de absenteísmo.

Apenas para a especialidade médica cancerologista cirúrgico (2,9%) a taxa de absenteísmo foi inferior a 30% (26,4%), com um desperdício atribuído ao absenteísmo de R$ 900,00. Entre o total, 19 especialidades, o equivalente a 55,9%, tiveram uma variação da taxa de absenteísmo entre 30% e 40%, sendo as consultas com cirurgião-dentista bucomaxilofacial (30,2%) as que apresentaram a menor taxa do grupo, e as consultas com médico pneumologista as que apresentaram a maior taxa (39,4%). Esse grupo totalizou um desperdício estimado em R$ 1.761.422,86 pelo absenteísmo. Nove especialidades (26,5%) apresentaram uma variação da taxa de absenteísmo entre 40% e 50%, tendo as consultas com médicos gastroenterologista e neurologista a menor taxa (40,1%), e as consultas com médico geneticista a maior taxa (47,4%). Essas especialidades somadas apresentaram um desperdício de R$ 1.671.403,22.

Duas especialidades (5,9%) apresentaram a taxa de absenteísmo entre 50% e inferior a 60% – médico cirurgião pediátrico (52,5%) e médico infectologista (58,3%), com um desperdício estimado de R$ 62.831,80. Somente as consultas com médico fisiatra (2,9%) apresentaram taxa de absenteísmo superior a 60% (68,4%), com desperdício estimado de R$ 45.630,00. Para as consultas de fisioterapeuta geral (2,9%), foram encontradas as maiores taxas de absenteísmo (75,9%), com desperdício estimado em R$ 16.650,00.

O total de consultas especializadas agendadas no período cresceu de 200.831, em 2014, para 239.533, em 2016 (aumento de 19,3%) (gráfico 1), destacando-se os crescimentos absolutos nas especialidades de ortopedia e oftalmologia (tabela 1).

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do SisReg/Sesa-ES.

Gráfico 1 Taxas de absenteísmo e oferta de exames e consultas especializadas na Região de Saúde Metropolitana, Espírito Santo, Brasil. 2014-2016 

O absenteísmo em consultas especializadas teve aumento médio de 2,9% entre 2014 e 2016. Para as consultas especializadas, no ano de 2014, em um total de 200.831 agendadas, a taxa de absenteísmo foi de 36,9%, o equivalente a 74.126 consultas em 2015, em um total de 225.818; a taxa de absenteísmo foi de 38,7% – 87.492 consultas –, e, em 2016, em um total de 239.533, a taxa de absenteísmo foi de 39,8% – 95.407 consultas –, sendo a taxa média de absenteísmo para os anos estudados de 38,6%, em um total de 257.025 consultas não realizadas (gráfico 1).

A taxa média de absenteísmo para os exames especializados foi de 32,1%, o equivalente a 108.103 exames perdidos. No período estudado, foram 108.103 exames agendados e não realizados, com um desperdício estimado em R$ 15.007.624,15 (tabela 2). Para exames especializados, a taxa de absenteísmo vem decrescendo anualmente, sendo com 34,3% em 2014, 32,7% em 2015 e 29,7% em 2016. Em contraste, a oferta cresceu 9,7% entre 2014 e 2015, e 13,1% entre 2015 e 2016 (gráfico 1).

Tabela 2 Descrição do absenteísmo em exames especializados na Região de Saúde Metropolitana, Espírito Santo, Brasil. 2014-2016 

2014 2015 2016 2014-2016 Desperdício
A C Abs. Valor R$ A C Abs. Valor R$ A C Abs. Valor R$ Ag. Total Tx. Abs.
N (%)
Valor (R$)
02-PROCEDIMENTOS COM FINALIDADE DIAGNÓSTICA
..02.01-Coleta de material
1.354 927 427 142.603,39 1.330 979 351 121.878,46 1.391 1.018 373 123.153,30 4.075 1.151 (28,2) 387.635,15
..02.06-Diagnóstico por tomografia
6.754 5.139 1.615 226.876,80 7.987 6.179 1.808 266.716,69 9.308 7.365 1.943 274.201,81 24.049 5.366 (22,3) 767.795,30
..02.08-Diagnóstico por medicina nuclear in vivo
4.419 3.211 1.208 370.829,93 3.599 2.825 774 254.287,46 3.499 2.631 868 258.294,61 11.517 2.850 (24,7) 883.412,00
..02.11-Métodos diagnósticos em especialidades
14.176 9.990 4.186 227.820,06 16.531 11.654 4.877 310.527,67 16.664 11.192 5.472 424.720,26 47.371 14.535 (30,7) 963.067,99
..02.04-Diagnóstico por radiologia
27.771 15.325 12.446 432.363,23 26.833 16.408 10.425 427.419,72 23.274 15.692 7.582 363.127,38 77.878 30.453 (39,1) 1.222.910,33
..02.07-Diagnóstico por ressonância magnética
7.191 5.452 1.739 544.493,45 8.710 6.881 1.829 573.885,99 9.814 7.565 2.249 766.104,75 25.715 5.817 (22,7) 1.884.484,19
..02.05-Diagnóstico por ultrassonografia
28.601 18.511 10.090 989.998,75 30.988 19.542 11.446 1.097.388,01 32.368 22.578 9.790 927.641,32 91.957 31.326 (34,1) 3.015.028,08
..02.09-Diagnóstico por endoscopia
12.992 9.223 3.769 1.008.499,89 16.905 11.611 5.294 1.719.830,13 19.567 13.592 5.975 1.921.425,86 49.464 15.038 (30,4) 4.649.755,88
Total Procedimentos com Finalidade Diagnóstica
103.258 67.778 35.480 3.943.485,50 112.883 76.079 36.804 4.771.934,13 115.885 81.633 34.252 5.058.669,29 332.026 106.536 (32,1) 13.774.088,92
03-PROCEDIMENTOS CLÍNICOS
..03.09-Terapias especializadas
1 - 1 172,00 - - - - - - - - 1 1 (100,0) 172,00
Total Procedimentos com Terapias Especializadas
1 - 1 172,00 - - - - - - - - 1 1 (100,0) 172,00
04-PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS
..04.04-Cirurgia vias aéreas super, cabeça pescoço
2 1 1 48,42 - - - - 1 - 1 48,42 3 2 (66,7) 96,84
..04.06-Cirurgia do aparelho Circulatório
- - - - - - - - 37 15 22 56.588,62 37 22 (59,5) 56.588,62
04-PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS
..04.05-Cirurgia do aparelho da visão
991 700 291 213.393,62 1.476 916 560 452.180,71 2.003 1.312 691 511.103,44 4.470 1.542 (34,5) 1.176.677,77
Total Procedimentos Cirúrgicos
993 701 292 213.442,04 1.476 916 560 452.180,71 2.041 1.327 714 567.740,48 4.510 1.566 (34,7) 1.233.363,23
Total Geral
104.252 68.479 35.773 4.157.099,54 114.359 76.995 37.364 5.224.114,84 117.926 82.960 34.966 5.626.409,77 336.537 108.103 (32,1) 15.007.624,15

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do SisReg/Sesa-ES.

A - agendada; C - confirmada; Abs. - absenteísmo; Ag. Total - agendada total; N - absenteísmo total; Tx. Abs. - Taxa de absenteísmo.

Durante o período analisado, foram agendados 336.537 exames especializados, e os índices de absenteísmo variaram de 22,3% (diagnóstico por tomografia) a 100% (terapias especializadas), relacionados com os exames de litotripsia extracorpórea. Dos procedimentos com finalidade diagnóstica (grupo 02), quatro exames apresentaram absenteísmo entre 20,0% e 30,0%. Os exames do subgrupo 02.06, diagnóstico por tomografia, apresentaram as menores taxas de absenteísmo (22,3%); e os do subgrupo 02.01, exame com coleta de material, as maiores taxas (28,2%). Os outros quatro exames especializados nesse grupo tiveram taxas de absenteísmo entre 30,0% e 40,0%, sendo os exames do subgrupo 02.09, diagnóstico por endoscopia, a menor taxa (30,4%); e os do subgrupo 02.04, diagnóstico por radiologia, a maior taxa (39,1%). Os exames do grupo 02 somados representaram um desperdício estimado de R$ 13.774.088,92, o que corresponde a 91,8% do total de desperdício com o absenteísmo em exames especializados.

Procedimentos vinculados ao grupo 04 – procedimentos cirúrgicos – tiveram taxas de absenteísmo entre 30,0% e 70,0%. Cirurgia do aparelho de visão (subgrupo 04.05) apresentou a menor taxa de absenteísmo (34,5%); e o subgrupo 04.04 – cirurgia de vias aéreas superiores, cabeça e pescoço – teve a maior taxa de absenteísmo (66,7%). Os valores dos procedimentos do grupo 03 e 04 somados representaram um desperdício de R$ 1.233.535,23 (8,2% do total de desperdício monetário acumulado nos grupos 02, 03 e 04 dos exames especializados), conforme tabela 2.

Discussão

Os estudos publicados sobre absenteísmo, tanto no Brasil como no exterior, são enfáticos em afirmar que o ele causa prejuízos monetários, mas poucos apresentam uma abordagem fundamentada em avaliação econômica e métodos analíticos dos serviços para estimar valores envolvidos4. O presente estudo, portanto, é pioneiro ao atribuir valores monetários ao não comparecimento dos usuários do SUS a procedimentos agendados no estado do ES.

A estimativa de desperdício monetário acumulado nos três anos estudados com o absenteísmo dos usuários em consultas, exames e outros procedimentos especializados na RSM-ES foi de R$ 18.566.462,03, com valores atualizados das tabelas utilizadas, para o ano de 2018. Os resultados corroboram os prejuízos monetários gerados pelo absenteísmo, ainda que as estimativas sejam limitadas pelos dados disponíveis em função das estruturas administrativas existentes nas diversas modalidades de gestão, principalmente nos serviços públicos, deixando a análise muito restrita a valores da Tabela SUS.

Houve crescimento tanto da oferta de consultas e exames como da taxa de absenteísmo em consultas, o que fundamenta a preocupação da gestão estadual com o tema28. Os resultados mostram que as taxas de absenteísmo em consultas especializadas (38,6%) e em exames especializados (32,1%) na RSM-ES são altas e estão compatíveis com outros estudos realizados no Brasil que pesquisaram a atenção especializada, confirmando que as taxas altas não são exclusivas daqui, destacando em São Paulo (34,4%)9, em Florianópolis (34,4%)2 e em João Pessoa (39,8%)3, preocupando aos gestores, evidenciando que os esforços somados para ampliar a oferta acabam não se efetivando.

A especialidade odontológica para pacientes com necessidades especiais teve taxa zero de absenteísmo, o que, segundo a gerência da Central de Regulação, pode ser justificado pela especialidade ter sido ofertada somente em 2014 e pela possibilidade de baixa oferta de vagas gerar uma grande expectativa nos familiares. Os pacientes especiais de acordo com os comprometimentos não são atendidos na atenção básica odontológica e são encaminhados para a atenção especializada. A especialidade médico cancerologista cirúrgico apresentou a menor taxa de absenteísmo (26,4%) e pode ser justificada pela gravidade da patologia já diagnosticada e pela necessidade de rápida intervenção.

A consulta de fisioterapeuta geral apresentou a maior taxa (75,8%), o que está em acordo com a revisão sistemática de Dantas et al.7 , que encontraram a taxa de 79,2%, sendo as causas mais frequentes as limitações de locomoção devido aos agravos das patologias crônicas, estando em sintonia com o relato da gerência da Central de Regulação, segundo o qual as faltas podem ser justificadas por falha no registro de comparecimento, por agravos da patologia e também, para alguns casos, a melhora dos sintomas.

Procedimentos com finalidade diagnóstica, como tomografia e ressonância magnética, tiveram as menores taxas de absenteísmo – 22,3 % e 22,7% respectivamente. O menor absenteísmo do grupo pode ser explicado pelo fato de esses exames terem maior complexidade tecnológica e serem, em tese, solicitados nos casos de uma clínica mais definida, que requer um exame mais qualificado para auxiliar no diagnóstico e conduta. Apesar de serem menores, essas taxas de absenteísmo são significativas, e os valores estimados para desperdício são altos, por serem exames de alta densidade tecnológica, acarretando um desperdício de R$ 2.652.279,49, o equivalente a 19,3% do total monetário desperdiçado no grupo 02. Nesse mesmo grupo, observou-se que os exames com menor densidade tecnológica, subgrupo 04, diagnóstico por radiologia, geralmente solicitados quando a clínica não está muito definida, são os que apresentam as maiores taxas de absenteísmo (39,1%). As taxas de absenteísmo altas podem ser explicadas por diversos motivos, podendo-se destacar o longo tempo de espera, que pode cursar com melhora ou a piora dos sintomas, podendo o usuário buscar serviços de emergência ou pagar na rede privada3,9.

O aumento da oferta de consultas nos 20 municípios da RSM-ES no período de estudo evidencia os esforços da gestão para implementar o Plano de Intervenção Regional (PIR), baseado no Plano Diretor de Regionalização (PDR) do ES de 2011, que dividiu o estado em quatro regiões de saúde. O PIR foi influenciado pelo Decreto Federal nº 7.508, de 28 de junho de 2011, que regulamentou a Lei Federal nº 8.080/90 e reafirmou a necessidade da reorganização das redes de atenção no âmbito das regiões de saúde19,33.

A regionalização, entendida aqui como a diretriz organizativa do SUS, que orienta os processos de descentralização das ações e dos serviços de saúde e a pactuação entre os gestores nos níveis federal, estadual e municipal, visa organizar redes de atenção com distintas densidades tecnológicas34. Ela orientou a PPI entre o Estado e municípios na região de saúde, contemplando os desafios da integralidade do cuidado e das respostas às necessidades da população de disponibilizar serviços de saúde mais próximos do usuário, principalmente na atenção especializada e na alta complexidade33.

Considera-se aqui o conceito de integralidade defendido por Giovanella et al.35, isto é, a garantia da assistência nos três níveis de atenção à saúde e a articulação das ações de promoção, prevenção e recuperação, em sintonia com o conceito defendido por Pinheiro36. Para esta última autora, integralidade é uma construção coletiva que ganha forma e expressão no espaço do encontro dos diferentes sujeitos implicados na produção do cuidado e em defesa da vida.

A atenção especializada é considerada um anteparo para o bom desempenho e avanço na qualidade do sistema de saúde, podendo constituir-se em um nó crítico dos mais complexos. Por isso, tem sido destacada por gestores e pesquisadores como um desafio para atingir a integralidade como diretriz do SUS23,37. Segundo Mendes38, para alcançar a integralidade, há a necessidade de vincular a assistência e a integração dos serviços por meio de redes de saúde, regionalizadas e hierarquizada, considerando-se a dificuldade em dispor da totalidade de recursos e competências para a solução de todos os problemas de saúde de uma população. No período do estudo, as redes no ES ainda não estavam definidas. A implantação iniciou-se em setembro de 2017 na região norte do estado, sendo três implantadas em 2018.

Para organizar o fluxo nos três níveis de atenção, a regulação do acesso é considerada um valioso instrumento da gestão; a qual busca estabelecer um equilíbrio entre a demanda, a oferta e o financiamento27. As taxas de absenteísmo crescentes na RSM-ES indicam que, apesar de a oferta das vagas reguladas ter aumentado, o absenteísmo contribuiu, na prática, para reduzir o acesso à atenção especializada, evidenciando oportunidades de assistência perdidas e contribuindo para aumentar a fila de espera por procedimentos9.

O acesso à média complexidade é entendido aqui como a oportunidade de buscar e obter serviços de saúde adequados às necessidades do usuário38. A ampliação do acesso às ações e aos serviços é um dos grandes desafios do SUS e exige dos gestores a organização e mecanismos que visem consolidar o sistema23. É possível compreender que acesso vai além da utilização do sistema de saúde. É um conceito de múltiplas dimensões, composto por fatores financeiros e não financeiros, que pode variar ao longo do tempo com a evolução e o surgimento de novas necessidades para a sociedade39.

Os desafios para a oferta da atenção especializada na RSM-ES são grandes, considerando suas características. A realidade dos 20 municípios é muito diferente. Em oito deles, a população de residentes está em torno de 15 mil habitantes, e em quatro, ultrapassa 300 mil habitantes, gerando assim grandes diferenças em relação aos investimentos na atenção à saúde. Alguns municípios dispõem somente de serviços básicos evidenciando a necessidade de organização da atenção especializada nas redes de saúde, entre os sistemas municipal e estadual, no âmbito da região33. A atenção especializada é estratégica e necessária para dar efetividade e sequência à atenção básica, complementando-a e provendo assistência especializada a quem dela necessitar40. Assim, o absenteísmo na atenção especializada é uma preocupação constante para os gestores tanto pela desassistência quanto pelo desperdício2,9.

Os custos da atenção especializada são altos e englobam procedimentos de maior densidade tecnológica, as chamadas tecnologias especializadas41. Entre as pesquisas com metodologia mais detalhada, do ponto de vista de avaliação econômica, realizadas sobre o tema, pode-se destacar uma coorte retrospectiva no Texas, EUA, de 1997-2008, com uma análise incluindo custos diretos e indiretos para vários serviços médicos. O custo médio por paciente do absenteísmo foi de US$ 196,00 para o ano de 200842. No Brasil, são raros os trabalhos que indicam valores desperdiçados com o absenteísmo, destacando-se uma pesquisa realizada em um hospital público de Uberlândia, que identificou prejuízo, em 2011, de R$ 1,1 milhão por ano, computando os procedimentos não realizados e o seu valor na Tabela SUS43.

O conhecimento dos dados sobre o absenteísmo na RSM-ES disponibilizados pelo Sesa-ES só foi possível devido à existência do SisReg-ES. O registro dos dados no sistema é passível de falhas, e não permite identificar se o absenteísmo ocorreu somente por problemas relacionados com o usuário ou se também foi agravado por questões de gestão. A Sesa-ES já identificou como problema os dados superestimados, considerando que, em alguns locais executantes, não é dada baixa no sistema quando o usuário é atendido, confirmando a realização do procedimento, o que compromete os dados encontrados, já que ficam computados como absenteísmo procedimentos realizados33.

Considerando as falhas recorrentes no registro dos atendimentos, nos diversos locais executantes, incluindo os serviços próprios, a Sesa-ES adotou medidas administrativas para atender à necessidade de adequação do Registro (chave de agendamento) de todos os usuários SUS, atendidos via SisReg, publicando em 20 de novembro de 2018, no Diário Oficial, a Portaria nº 084-R/2018, que normatiza a baixa obrigatória no SisReg dos procedimentos realizados, que devem ser atualizados diariamente. Pretende-se, com esta medida, obter dados mais próximos do real sobre a atenção ao usuário.

São limitações deste estudo a fragilidade do banco de dados gerado no SisReg-ES, em função do não registro no sistema dos atendimentos realizados, gerando uma taxa maior de absenteísmo. Outra limitação foi a falta de análise econômica por local executante, de modo que não oferece informações sobre o custo real por procedimento. Considerando os dados disponíveis, não é possível afirmar que todos os valores são realmente desperdiçados, devido às particularidades no desembolso monetário por serviços prestados nas diferentes modalidades de gestão na RSM-ES (serviços públicos estadual e federal, serviços filantrópicos, serviços privados e serviços públicos com gestão de OS). O custo estratificado por local daria ao estudo um valor do desperdício mais próximo do real.

As causas do absenteísmo são muito variadas e estão relacionadas com a gestão, com o usuário e com o trabalhador. Entretanto, um estudo realizado na atenção especializada na Espanha analisou essas causas, concluindo que o percentual de causas evitáveis é de 52,4%6. Isso sugere que haja amplo espaço para a implementação de esforços de correção. Justifica-se, portanto, uma análise individualizada futura do comportamento do absenteísmo em cada especialidade para subsidiar esses esforços.

Conclusões

O absenteísmo de usuários é um problema crônico nos sistemas de saúde no Brasil e no mundo, que pode inviabilizar a sustentabilidade da ampliação da oferta de serviços especializados. Na atenção especializada, ele é crescente na RSM-ES, com prejuízos para a gestão pública e para os usuários, levando em consideração, principalmente, o prejuízo social que ele acarreta. Salienta-se que as taxas de absenteísmo e os valores monetários encontrados representam dados significativos para o sistema de saúde pública.

Sugere-se que sejam buscadas as causas do absenteísmo relacionadas com a gestão e as particularidades do usuário, a fim de propor medidas de redução viáveis, tais como: fortalecimento da atenção básica como porta de entrada do usuário, qualificação do sistema de regulação, estabelecimento de redes de atenção à saúde regionalizadas e hierarquizadas e outras. Considera-se a integralidade da atenção como um dos maiores desafios do SUS, que exigem medidas inovadoras e capazes de promover cada vez mais um atendimento mais humanizado e comprometido com a vida.

Os dados de custos por serviço são importantes informações que ajudam na tomada de decisão por gestores, sobre investimentos e prioridades, apoiando a maior eficiência nos gastos em saúde. Assim, pode-se concluir que otimizar os recursos disponíveis e combater o desperdício sem comprometer a qualidade da assistência serão um desafio constante na agenda dos gestores do SUS na atualidade e nos próximos anos.

Suporte financeiro: Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes)

*Orcid (Open Researcher and Contributor ID).

Referências

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Recebido: 26 de Abril de 2019; Aceito: 22 de Outubro de 2019

sonia_beltrame@yahoo.com.br

Colaboradores

Beltrame SM (0000-0002-0755-5565)* contribuiu para concepção, planejamento, metodologia e redação final. Oliveira AE (0000-0001-5160-3280)* contribuiu para concepção, planejamento, análise e interpretação dos dados, elaboração e revisão crítica da versão preliminar e da versão final do manuscrito. Santos MAB (0000-0002-7547-3537)* contribuiu para concepção, análise, elaboração do texto e revisão do documento final. Santos Neto ET (0000-0002-7351-7719)* contribuiu para concepção, planejamento, análise e interpretação dos dados, elaboração e revisão crítica da versão preliminar e da versão final do manuscrito.

Conflito de interesses: inexistente

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