Open-access Avaliação dos atributos de acesso ao primeiro contato e longitudinalidade na Atenção Primária à Saúde

Evaluation of the attributes first contact access and longitudinality in Primary Health Care

RESUMO

Este estudo avaliou os atributos de acesso de primeiro contato e longitudinalidade do cuidado na Atenção Primária à Saúde do município de Sinop, em Mato Grosso, segundo a visão de 32 médicos(as), 32 enfermeiros(as) e 27 dentistas. Trata-se de uma pesquisa quantitativa, observacional transversal, cujos dados foram coletados por um questionário sociodemográfico e pelo instrumento PCATool, contendo 9 questões para acesso e 13 para longitudinalidade. Os escores foram padronizados para uma escala com variação de 0 a 10, sendo classificados como satisfatórios os valores ? 6,6. A melhor avaliação foi o atributo da longitudinalidade, com escore médio de 6,8; o atributo acesso de primeiro contato apresentou a pior avaliação, tendo escore médio de 4,4, sem diferenças estatisticamente significativas entre os profissionais (p>0,05). Com isso, conclui-se que há necessidade de repensar tais práticas e promover um ambiente que possibilite mudanças no contexto atual, reduzindo barreiras no acesso e proporcionando um cuidado contínuo.

PALAVRAS-CHAVES
Atenção Primária à Saúde; Continuidade da assistência ao paciente; Acesso aos serviços de saúde; Pessoal da saúde

ABSTRACT

This study aimed to evaluate the attributes first contact access and longitudinality of care in Primary Health Care in the municipality of Sinop, in Mato Grosso, from the perspective of 32 doctors, 32 nurses and 27 dentists. This is a quantitative, observational, cross-sectional research, whose data were collected using a sociodemographic questionnaire and the Primary Care Assessment instrument (PCATool), containing 9 questions for access and 13 for longitudinality. Score values were standardized to a scale ranging from 0 to 10, with values ? 6.6 being classified as overwhelming. The best evaluation was the longitudinality attribute, with an average score of 6.8; the first contact access attribute presented a worse evaluation, with an average score of 4.4, with no statistically significant differences between professionals (p>0.05). Therefore, it is concluded that there is a need to rethink such practices and promote a context that allows changes in the current context, reducing barriers to access and providing continuous care.

PALAVRAS-CHAVES
Atenção Primária à Saúde; Continuidade da assistência ao paciente; Acesso aos serviços de saúde; Pessoal da saúde

Introdução

A Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta de entrada para o sistema de saúde e é considerada o primeiro ponto de contato do indivíduo com o serviço. Com o objetivo de ampliar o acesso, melhorar a qualidade dos serviços e reconfigurar a forma de oferecer cuidados de saúde, o Ministério da Saúde (MS) implementou, em 1994, o Programa Saúde da Família (PSF), posteriormente denominado Estratégia Saúde da Família (ESF), sendo essa a principal estratégia para organizar a APS14.

Segundo Starfield5, a APS é definida por quatro atributos essenciais: acesso de primeiro contato, longitudinalidade, integralidade e coordenação da atenção. A garantia do acesso do indivíduo ao sistema de saúde é fundamental para a promoção da saúde, prevenção de doenças e redução da morbimortalidade. Quando o acesso é garantido de forma rápida e efetiva, os problemas de saúde são identificados precocemente. Por outro lado, quando o acesso é dificultado, os indivíduos podem demorar a buscar atendimento, o que pode levar ao agravamento das condições de saúde5,6.

O programa Previne Brasil, instituído pelo Ministério da Saúde em 2019, trouxe novos indicadores para avaliar a efetividade da APS no Brasil, com um foco importante na ampliação do acesso e na qualificação dos serviços. Entre esses indicadores, destacam-se a cobertura de consultas de pré-natal, a taxa de acompanhamento de hipertensos e diabéticos e a cobertura vacinal, que permitem avaliar como a APS está garantindo o acesso e promovendo a saúde da população. Esses indicadores servem como ferramenta de monitoramento e incentivo financeiro, priorizando resultados e ampliando o acesso ao promover cuidados preventivos e contínuos, fundamentais para reduzir a morbidade e a mortalidade evitáveis. Com o uso dos indicadores do Previne Brasil, o governo busca aprimorar o acesso rápido e efetivo aos serviços de APS, fortalecendo o papel das equipes de saúde da família na detecção precoce e no acompanhamento de doenças crônicas, reforçando a integralidade e a resolutividade do sistema de saúde2,7.

Outro aspecto importante na atenção primaria é a longitudinalidade do cuidado, que se refere ao acompanhamento contínuo do paciente por uma equipe de profissionais de saúde. Esse conceito enfatiza a importância de uma fonte regular de cuidado, facilitando a construção de uma relação duradoura entre pacientes e profissionais de saúde. A longitudinalidade está associada a diversos benefícios, incluindo uma melhor comunicação, maior adesão aos cuidados preventivos e uma redução nas taxas de hospitalização e uso de serviços de emergência8. Entretanto, esse atributo, muitas vezes, é prejudicado por fatores como a alta rotatividade de profissionais, o que pode comprometer o vínculo das equipes com a comunidade, prejudicando a qualidade da assistência e a satisfação do usuário5 e influenciando negativamente o alcance de bons resultados2,6,811.

A APS no Brasil enfrenta desafios significativos para se estabelecer como a porta de entrada do sistema de saúde. Em muitos casos, ainda é vista pelos usuários como um serviço complementar focado em procedimentos simples, como a obtenção de medicamentos ou a aferição de pressão arterial, em vez de um ponto de partida integral para a promoção da saúde e prevenção de doenças12.

Com o objetivo de compreender melhor as dificuldades envolvidas na efetividade da APS, foram desenvolvidos, na década de 1990 e no início dos anos 2000, instrumentos para avaliar a qualidade da APS. O Instrumento de Avaliação da Atenção Primária (PCATool – Primary Care Assessment Tool) apresenta versões autoaplicáveis destinadas a crianças, adultos maiores de 18 anos, profissionais de saúde e coordenadores/gerentes do serviço de saúde. Criado por Cassady et al.13 e Shi, Starfield e Xu14, na Johns Hopkins Primary Care Policy Center (PCPC), o PCATool mede a presença e extensão dos quatro atributos essenciais e dos três atributos derivados da APS15. O PCATool foi validado no Brasil e recebeu o nome de Instrumento de Avaliação da Atenção Primária-PCATool-Brasil1618.

Estudos indicam que o desempenho da APS no Brasil ainda enfrenta desafios significativos, destacando a necessidade de melhorias contínuas para garantir a efetividade da APS19. Além disso, apontam que a utilização e a acessibilidade são componentes críticos do acesso de primeiro contato, sendo fatores fortemente ligados à estrutura dos serviços de APS e influenciando diretamente a experiência do usuário6,20,21.

Embora existam estudos de avaliação da APS utilizando o PCATool em diversas regiões do Brasil1927, estudos que tenham avaliado a visão dos profissionais de saúde sobre os atributos da APS em Sinop-MT ainda não foram realizados. Assim, este trabalho é importante para verificar as possíveis deficiências e as potencialidades do serviço orientando intervenções para minimizar os problemas identificados28.

Assim, o objetivo desta pesquisa foi avaliar os atributos do acesso de primeiro contato e da longitudinalidade em unidades de saúde do município de Sinop-MT, do ponto de vista dos profissionais de saúde.

Material e métodos

Este estudo quantitativo transversal, de caráter censitário, foi realizado no município de Sinop, localizado na região Centro-Oeste do Brasil, no estado de Mato Grosso, com uma população de 196.312 habitantes29. Na época do estudo, em julho de 2023, a rede de saúde do município contava com 24 unidades básicas de saúde, 32 equipes de Estratégia de Saúde da Família (eESF), três equipes de Atenção Primária (eAP) e, ainda, com uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e uma policlínica 24 horas, um hospital regional e 7 centros de especialidades, incluindo médicas, odontológicas, psicossocial, psicossocial infanto-juvenil, referência em hanseníase e tuberculose, reabilitação e saúde da mulher. As unidades de saúde funcionam das 7h às 11h e das 13h às 17h, de segunda a sexta-feira, com todos os profissionais atuando em uma carga horária de 40 horas semanais, correspondendo a uma cobertura populacional de 100%30.

Este estudo abrangeu todos os 91 profissionais atuantes nas 24 unidades de saúde de Sinop-MT no ano de 2023, incluindo 32 médicos, 32 enfermeiros e 27 cirurgiões-dentistas. Foram excluídos da pesquisa os profissionais com menos de um ano de atuação na APS, pois o tempo de trabalho é considerado um fator importante na construção do vínculo com a população, no conhecimento dos processos organizacionais e na adaptação à rotina da unidade. Também foram excluídos os profissionais ausentes no momento da aplicação do questionário, devido a férias ou atestado médico.

O convite foi, inicialmente, feito aos profissionais durante as reuniões mensais promovidas pela Secretaria Municipal de Saúde, em julho de 2023. Nesse encontro, foram repassadas todas as informações sobre a pesquisa, entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e apresentados os questionários para coleta de dados. Por se tratar de um instrumento autoaplicável, os questionários foram respondidos e recolhidos na própria reunião.

Em um segundo momento, foi realizada uma busca ativa pelos profissionais que não estavam presentes na reunião, nas suas respectivas Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde foi seguido o mesmo protocolo.

Para caracterização dos participantes, foi utilizado questionário contendo sete questões que incluíam dados de identificação do profissional, como formação acadêmica e experiência profissional, onde foram consideradas como variáveis independentes: o sexo (masculino ou feminino); a idade, descrita em anos; o estado civil (casado(a), união estável, solteiro(a), viúvo(a), divorciado(a)); o tempo de formação, descrito em anos; o tempo de trabalho na UBS, descrito em anos; e a modalidade de ingresso no serviço (concurso, processo seletivo ou prestador de serviço)28.

O acesso de primeiro contato e a longitudinalidade do cuidado foram avaliados utilizando o Instrumento de Avaliação da Atenção Primária, conhecido como PCATool-Brasil (Primary Care Assessment Tool), versão profissional, validado no Brasil em 201014.

O acesso de primeiro contato foi medido por nove questões, enquanto a longitudinalidade foi avaliada por 13 questões. Para o cálculo do escore geral de avaliação da APS, foi realizada a soma de todas as respostas e obtida a média entre os componentes dos atributos31.

Os valores dos escores foram padronizados para uma escala variando de 0 a 10, sendo classificado como satisfatório o escore geral ≥ 6,615,31.

Inicialmente, foram realizadas análises descritivas e exploratórias dos dados32. As variáveis quantitativas foram descritas com médias, desvios-padrão, medianas, valores mínimos e máximos33. Para as variáveis categóricas, foram utilizadas frequências absolutas e relativas. As comparações entre as diferentes classes de profissionais com relação aos escores dos atributos ‘acesso de primeiro contato’ e ‘longitudinalidade’ foram conduzidas empregando análise de variância (ANOVA one way). Todas as análises foram realizadas no software R34, com um nível de significância de 5%33.

Por se tratar de pesquisa envolvendo seres humanos, este estudo foi conduzido em conformidade com a Resolução nº 46635, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde, bem como com o Decreto nº 9.759, de 11 de abril de 201936, que mantém a regulamentação do Sistema CEP/CONEP para a ética em pesquisa no País. O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade proponente, registrado sob o CAEE 70227323.0.000.5374, com o parecer nº 6.135.506.

Resultados

Dos 91 profissionais convidados a participar, oito foram excluídos por tempo de serviço inferior a um ano, e 20 profissionais não estavam presentes no dia da aplicação do questionário por estarem de férias, atestado médico ou por recusaram-se a participar. A amostra final do estudo contou com 63 profissionais, correspondendo a 69,2% da população, sendo 28 médicos, 16 enfermeiros e 19 dentistas.

A análise descritiva das variáveis relativas ao perfil dos profissionais de saúde participantes do estudo está descrita na tabela 1.

Tabela 1
Análise descritiva das variáveis de perfil dos profissionais de saúde participantes do estudo (n=63)

A maior parte dos profissionais entrevistados era médico(a) (44,4%), do sexo feminino (74,6%), em união estável (38,1%), na faixa etária entre 26 e 69 anos e tempo médio de atuação na atenção primária de 6,2 anos. Com relação à modalidade de ingresso no sistema, a maioria era concursada (46,0%).

A análise dos atributos ‘acesso de primeiro contato’ e ‘longitudinalidade’ em função da classe profissional está descrita na tabela 2.

Tabela 2
Escores dos atributos ‘acesso de primeiro contato’ e ‘longitudinalidade’ conforme o instrumento ‘Primary Care Assessment Tool, 2021’, em função da classe profissional

A melhor avaliação foi o atributo da longitudinalidade, com escore médio de 6,8, sendo, então, considerado satisfatório. O atributo acesso de primeiro contato apresentou pior avaliação, tendo escore médio de 4,4, sem diferenças estatisticamente significativas entre os profissionais (p>0,05).

Na tabela 3 está apresentada a análise descritiva das variáveis do atributo ‘longitudinalidade’.

Tabela 3
Análise descritiva das variáveis do atributo ‘longitudinalidade’ conforme o instrumento ‘Primary Care Assessment Tool, 2021’ (n=63)

Com relação à longitudinalidade, 33,3% dos profissionais afirmaram que os pacientes são sempre atendidos pelo mesmo médico, enfermeiro ou dentista. A maioria, 79,4%, relatou que entende as perguntas dos pacientes, enquanto 46,0% acreditam que os pacientes compreendem o que é dito. Além disso, 66,7% afirmam dar tempo suficiente para os pacientes expressarem suas preocupações, e 65,1% acreditam que os pacientes se sentem à vontade para compartilhar questões. Apenas 14,3% conhecem o histórico de saúde completo dos pacientes, e 28,6% sabem todos os medicamentos que eles estão tomando.

Na tabela 4 estão apresentados os resultados da análise descritiva das variáveis do atributo ‘acesso de primeiro contato’.

Tabela 4
Análise descritiva das variáveis do atributo ‘acesso de primeiro contato’ conforme o instrumento ‘Primary Care Assessment Tool, 2021’ (n=63)

A análise do acesso de primeiro contato mostrou que 69,8% dos profissionais informaram que os serviços de saúde não funcionam aos sábados e domingos, e 50,8% não estão abertos até as 20h em alguns dias da semana. Apesar disso, 61,9% disseram que atendem os pacientes no mesmo dia quando o serviço está aberto. Apenas 17,5% oferecem assistência rápida por telefone, e 57,1% indicaram a falta de um número de telefone para contato fora do horário de funcionamento. Além disso, 66,7% relataram ausência de atendimento no mesmo dia nos finais de semana e 74,6% à noite. No entanto, 74,6% consideram fácil para os pacientes agendarem consultas de rotina.

Discussão

Na avaliação dos atributos da atenção primária em Sinop-MT, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre as categorias profissionais para ambos os atributos, o que sugere uma percepção relativamente uniforme sobre esses aspectos da APS entre médicos, enfermeiros e odontólogos. Os profissionais de saúde consideraram o atributo de acesso de primeiro contato como insatisfatório, e o atributo de longitudinalidade foi melhor avaliado, sendo considerado satisfatório.

O atributo acesso de primeiro contato verifica a disponibilidade e o funcionamento dos serviços quanto aos seus horários, à existência de canais de comunicação, além da facilidade para o usuário conseguir consulta e do tempo de espera28,37.

O acesso de primeiro contato foi avaliado pelos profissionais como insatisfatório, mostrando deficiências relacionadas a alguns aspectos que compõem esse atributo, como horários de funcionamento reduzidos e ausência de serviço telefônico. Tais achados estão de acordo com a literatura1927,3841, na qual a acessibilidade é apresentada como o atributo com maior avaliação negativa na visão dos profissionais de saúde25, refletindo uma dificuldade comum a ser enfrentada na APS no Brasil.

Diante do cenário desafiador, caracterizado pela alta demanda e por agendas sobrecarregadas, o modelo de Acesso Avançado surge como uma estratégia para ampliar o acesso aos serviços de saúde33. Esse modelo organiza os serviços de maneira que as pessoas possam buscar atendimento nas UBS para qualquer tipo de problema de saúde, seja urgência, atendimento de rotina ou preventivo, e sejam atendidas no mesmo dia ou em até 48 horas6,33. Essa abordagem favorece a continuidade do cuidado, reduz as faltas e contribui significativamente para a diminuição das filas de espera33.

O modelo de Acesso Avançado busca minimizar o descompasso entre a oferta e a procura dos serviços de saúde, adotando uma abordagem distinta dos sistemas tradicionais de agendamento. Diferentemente destes, que frequentemente postergam parte das demandas para datas futuras, o Acesso Avançado prioriza resolver as necessidades no momento presente, garantindo, ao mesmo tempo, a preservação da capacidade de atendimento para os dias seguintes. Contudo, ainda há uma escassez de pesquisas nacionais que analisem a efetividade desse modelo e seu impacto na ampliação do acesso à APS33.

Com a finalidade de entender quais são os pontos que poderiam contribuir para essa avaliação negativa do atributo de acesso por parte dos profissionais, cada componente foi avaliado separadamente. Foi observado que os profissionais relataram não haver serviços disponíveis no período noturno nem nos finais de semana, mesmo quando há necessidade de urgência.

A ampliação do horário de atendimento e a contratação de mais profissionais são estratégias sugeridas para melhorar a acessibilidade e reduzir a superlotação em outros pontos de atenção37.

Diante disso e compreendendo que o MS do Brasil tem, cada vez mais, priorizado a execução de gestão pública com base em esforços empreendidos na implementação de iniciativas que reconheçam a excelência da saúde ofertada à população brasileira, foi lançado o programa Saúde na Hora42,43. A estratégia tem como objetivo principal ampliar o acesso dos usuários às ações e aos serviços ofertados pela APS, porém, vai além e também prevê estender o horário de funcionamento das UBS, ampliando o número de usuários nas ações e nos serviços promovidos nesses espaços, reduzindo, assim, o volume de atendimentos de usuários em UPA e emergências hospitalares15,42.

Essas medidas poderiam não apenas aumentar a capacidade de atendimento das unidades de saúde, mas, também, melhorar a qualidade do serviço prestado, tornando a APS uma verdadeira porta de entrada para o Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, a ampliação dos horários de atendimento deve ser abordada com uma visão gerencial que considere vários aspectos, tais quais: a viabilidade financeira, a satisfação dos profissionais, a demanda da população e o impacto na qualidade do atendimento2,16,44.

A baixa disponibilidade de aconselhamento telefônico rápido e a ausência de um número de contato para emergências fora do horário de funcionamento configuram-se como pontos críticos a serem considerados para a melhoria do acesso, conforme evidenciado em estudos realizados em Alfenas e Passos, municípios de Minas Gerais45,46. Uma possível solução seria a implantação de teleconsultas, estratégia que tem sido cada vez mais incorporada ao processo de trabalho da APS, especialmente após a pandemia de covid-19. Pensada para aproveitar a tecnologia em benefício dos profissionais, a teleconsulta trouxe inúmeras vantagens aos serviços de saúde, contribuindo para a ampliação do acesso e melhorando tanto a acessibilidade geográfica quanto a organizacional dos serviços28,47.

Porém, no município de Sinop-MT, assim como na maior parte do Brasil, a atenção básica não tem como rotina a utilização de serviços telefônicos para que o usuário entre em contato com o serviço e receba assistência24. Os mesmos resultados foram evidenciados em outros estudos20,37.

Adicionalmente, a investigação conduzida por Oliveira et al.48 reforça a existência de uma estrutura inadequada e a falta de integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde, fatores que contribuem substancialmente para a precariedade do acesso, uma vez que a integração das redes de atenção é necessária para garantir a efetividade na prestação de serviços de saúde. O uso adequado e o preenchimento correto dos prontuários clínicos eletrônicos, que, no caso de Sinop, é o e-SUS, auxiliariam na comunicação entre os níveis de atenção, reduzindo as dificuldades enfrentadas pela população49,50.

A facilidade observada na marcação de consultas de rotina nas UBS de Sinop-MT apresenta-se como um aspecto positivo, sugerindo um avanço na organização dos serviços de saúde. Esse progresso pode estar associado às melhorias nas plataformas de agendamento, conforme discutido por Bispo et al.37, que enfatizam a importância da modernização dos sistemas de agendamento para aprimorar o acesso aos serviços de saúde.

No que se refere à avaliação do atributo da longitudinalidade, que aborda questões sobre o vínculo entre profissional e paciente, as características da comunicação, o conhecimento acerca da condição de saúde e social do paciente e se este é sempre atendido pelo mesmo profissional, o presente estudo apresentou-se satisfatório, com média de 6,8, porém, com espaço para aperfeiçoamento. O resultado é semelhante ao de estudos realizados em Goiás e Pará24,25,28,50,51.

Também com intenção de compreender pontos críticos que necessitam de melhorias, cada item foi observado individualmente. Verificou-se que os profissionais relataram que a falta de serviços telefônicos afeta não apenas a acessibilidade, mas, também, a continuidade do cuidado, uma vez que poucos profissionais retrataram que os pacientes conseguem falar com o profissional que os conhece melhor por telefone, o que é evidenciado em outros estudos46. Porém, como visto anteriormente, a APS do Brasil, assim como em Sinop-MT, não tem como rotina a utilização de serviços telefônicos para que o usuário entre em contato com o serviço e receba assistência através desse meio28.

Outro ponto observado foi a baixa porcentagem de profissionais que demostraram conhecer a vida pessoal de seus pacientes, como com quem eles moram ou onde trabalham, evidenciando um vínculo enfraquecido, conforme também é relatado no estudo de Rolim et al.24. Evidência questionável, uma vez que 32 das 35 equipes avaliadas fazem parte da estratégia de saúde da família, devendo, assim, ter um contato mais próximo com seus pacientes em decorrência de atendê-los em consultas subsequentes, de discutir os casos em reunião de equipe, ter contato com esses pacientes em grupos e atividades coletivas promovidas na UBS, realizar visitas domiciliares, devendo, dessa forma, estabelecer vínculos como seres humanos, e não apenas a partir da relação profissional-paciente17,41.

A longitudinalidade favorece a construção de um vínculo sólido entre os profissionais de saúde e a população, possibilitando uma relação de cooperação mútua. Dessa forma, o serviço de saúde passa a atuar como referência reguladora do cuidado, sendo reconhecido pela comunidade ao longo do tempo. Esse vínculo promove um conhecimento mais aprofundado das necessidades e dos problemas dos usuários, fortalecendo a aproximação, a confiança e, consequentemente, a capacidade de resolver tais questões de maneira mais efetiva52.

Um dos possíveis fatores que agravam esse enfraquecimento no vínculo, evidenciado no estudo, além da estrutura inadequada, é a alta rotatividade dos profissionais, que pode prejudicar a continuidade do cuidado, afetar o acolhimento, o conhecimento das necessidades de saúde e a construção de relações de confiança, elementos essenciais para a qualidade do cuidado37,46,53.

Esses fatos podem ser observados no município de Sinop, onde a contratação de profissionais ocorre por meio de processo seletivo, com tempo de contrato de 6 meses e possível renovação por mais 6 meses. Essa característica de contratação, em que não há vínculo empregatício, desfavorece o acompanhamento longitudinal do serviço assistencial, e a relação do profissional com o usuário e do profissional com os demais membros da equipe fica fragilizada26.

Estratégias para melhorar a estabilidade da equipe de saúde e a implementação de ferramentas de comunicação mais eficientes podem ajudar a superar as barreiras atuais e melhorar o atendimento ao usuário. Além do mais, uma longitudinalidade satisfatória está alinhada com a evidência de que pode levar a melhores resultados em termos de gestão de condições crônicas e adesão ao tratamento24,54.

Não foram encontradas diferenças significativas entre as categorias profissionais avaliadas, diferentemente do que foi evidenciado por Rolim et al.24, que observaram avaliações significativamente menores na percepção dos dentistas nos atributos acessibilidade e longitudinalidade. Tal avaliação possui implicações importantes para a orientação da APS, pois o não conhecimento ou a não aproximação dos problemas de saúde da população e dos serviços por essa classe profissional se evidencia. Fato também percebido em Sinop, onde, até o momento da coleta de dados, os prontuários odontológicos ficavam separados dos prontuários médicos e de enfermagem, e as consultas eram agendadas diretamente com o auxiliar de saúde bucal, e não com a recepção, como é feito com o restante da equipe. Isso se coloca como desafio a ser superado para estabelecer uma relação de proximidade e conhecimento das demandas dos serviços.

Diante de tais achados, observa-se que a garantia da acessibilidade na APS é importante também para o alcance da longitudinalidade do cuidado. Os aspectos negativos da avaliação da acessibilidade podem contribuir para piores avaliações dos aspectos da longitudinalidade.

Este estudo apresenta algumas limitações em decorrência do seu caráter transversal, que não permite inferir a causalidade entre os aspectos observados no processo de trabalho. Além disso, sugerem-se novos estudos que abordem, também, as experiências dos usuários.

Como potencialidade, pode-se citar o uso o instrumento PCATool-BR, ferramenta que permite a avaliação dos atributos separadamente, possibilitando um aprofundamento das reflexões dentro de cada atributo avaliado.

Considerações finais

A melhoria do acesso de primeiro contato é fundamental para que a APS cumpra seu papel como porta de entrada do sistema de saúde e ponto de partida para os outros níveis de atenção, e não sirva apenas para realização de procedimentos simples, dessa forma, auxiliando na ampliação da longitudinalidade e na redução de internações hospitalares desnecessárias.

Para que a APS cumpra seu papel como porta de entrada do sistema de saúde, é necessário ir além da ampliação do horário de funcionamento e da oferta de atendimentos nos finais de semana. A instalação de telefones para facilitar a comunicação também é importante. Para favorecer o acesso, devem ser criadas condições que permitam uma melhor execução do trabalho pela equipe de saúde, incluindo: capacitação adequada dos profissionais, dimensionamento correto da equipe, remuneração condizente com a jornada de trabalho, implantação de protocolos para ampliar o acesso, organização da programação dos serviços e disponibilização de insumos necessários.

É fundamental que essas ações sejam realizadas em parceria com as comunidades, buscando atender às necessidades dos usuários e aprimorar a utilização dos serviços. Um esforço coordenado é necessário para superar as limitações atuais e promover um sistema de saúde mais acessível, contínuo e centrado no paciente.

Disponibilidade de dados:

os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito

  • Suporte financeiro:
    não houve

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Editado por

  • Editora responsável:
    Jamilli Silva Santos

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2025

Histórico

  • Recebido
    21 Jan 2025
  • Aceito
    07 Mar 2025
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