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Acta Paulista de Enfermagem

On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.26 no.3 São Paulo  2013

https://doi.org/10.1590/S0103-21002013000300014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Autocuidado das pessoas com diabetes mellitus que possuem complicações em membros inferiores

 

 

Danielle dos Santos Gomides; Lilian Cristiane Gomes Villas-Boas; Anna Claudia Martins Coelho; Ana Emilia Pace

Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

Autor correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar as atividades de autocuidado de pessoas com diabetes mellitus que possuem úlceras e/ou amputações em membros inferiores.
MÉTODOS: Estudo transversal de abordagem quantitativa, desenvolvido em unidades secundária e terciária da saúde. O instrumento de pesquisa para avaliação do autocuidado foi o Questionário de Atividades de Autocuidado com o Diabetes, previamente validado para a língua portuguesa. Aplicou-se esse questionário a uma amostra de conveniência, composta por 35 pessoas.
RESULTADOS: Observou-se um autocuidado desejável, ou seja, um bom autocuidado, relacionado ao uso da terapia medicamentosa e o contrário para a prática de atividade física.
CONCLUSÃO: Os dados sugeriram que o acompanhamento contínuo dessas pessoas, no cuidado das úlceras, pode contribuir às atividades de autocuidado; a presença das úlceras limita a prática da atividade física.

Descritores: Enfermagem; Avaliação em enfermagem; Cuidados de enfermagem; Diabetes mellitus tipo 2; Autocuidado


 

 

Introdução

O autocuidado pode ser definido como a prática de atividades que as pessoas realizam em seu próprio benefício na manutenção da vida, saúde e bem-estar e o desenvolvimento dessa prática está diretamente relacionado às habilidades, limitações, valores, regras culturais e científicas da própria pessoa.(1)

Autocuidado significa deixar de ser passivo em relação aos cuidados e diretrizes apontadas pela medicina. Trata-se de um comportamento pessoal, que pode influenciar na saúde, porém não se dá de maneira isolada, mas em conjunto com fatores ambientais, sociais, econômicos, hereditários e relacionados aos serviços da saúde.(2)

A Organização Mundial da Saúde recomenda a educação para o autocuidado como forma de prevenir e tratar doenças crônicas, pois ele propicia o envolvimento da pessoa em seu tratamento e produz maior adesão ao esquema terapêutico, minimizando complicações e incapacidades associadas aos problemas crônicos.(3)

Dentre as doenças crônicas, o diabetes mellitus destaca-se por sua alta prevalência mundial e seu potencial para o desenvolvimento de complicações crônicas e agudas, quando não tratada adequadamente.(4,5)

Dentre as complicações crônicas, a neuropatia diabética, presente em 50% dos pacientes acima de 60 anos, é o fator mais importante na origem de alterações estruturais e funcionais nos pés, as quais produzem as úlceras em membros inferiores.(6,7)

Estudo conduzido em serviço especializado com portadores de diabetes mellitus mostrou que, mais de 50% da população do estudo possuía, inicialmente, condições dermatológicas propícias ao desenvolvimento de úlceras/lesões.(8)

De maneira geral, que os portadores de diabetes mellitus reconhecem a importância e a necessidade dos cuidados com os pés para evitar complicações, porém o autocuidado não é realizado corretamente.(9) Ressalta-se ainda que a presença de complicações pode diminuir a motivação para o autocuidado, frente às limitações relacionadas a elas.(10)

Considerado um dos principais componentes no tratamento do diabetes, o autocuidado envolve o segmento de um plano alimentar, a monitorização da glicemia capilar, a realização de atividades físicas, o uso correto da medicação e os cuidados com os pés.(11)

Mediante a importância do autocuidado para o tratamento e a prevenção das complicações crônicas do DM, bem como o crescente número de portadores de diabetes mellitus acometidas por complicações em membros inferiores, o objetivo deste estudo foi avaliar as atividades de autocuidado com o diabetes em pessoas que possuem complicações em membros inferiores.

 

Métodos

Estudo transversal e descritivo desenvolvido em ambulatórios de unidades secundária e terciária da saúde na cidade de Ribeirão Preto, região sudeste do Brasil no período de outubro de 2011 a maio de 2012.

Os critérios de inclusão foram: portadores de diabetes mellitus do tipo 2, com idade mínima de 30 anos, capazes de responder verbalmente e que apresentavam úlceras e/ou amputações em membros inferiores.

Os dados sociodemográficos e clínicos foram coletados por meio de entrevista individual com os participantes, utilizando instrumento estruturado, e os resultados dos exames laboratoriais, obtidos através de consulta aos prontuários clínicos.

O instrumento de pesquisa foi o Questionário de Atividades de Autocuidado com o Diabetes, versão traduzida, adaptada e validada para a cultura brasileira a partir do The Summary of Diabetes Self Care Activities Measure (SDSCA).(11,12)

Os dados foram coletados no momento dos retornos às consultas, realizadas para acompanhamento dos pacientes no cuidado das úlceras em pés e/ou das amputações em membros inferiores, por meio da realização de curativos. As entrevistas duraram aproximadamente 20 minutos.

Para análise dos dados, utilizou-se o programa Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 17.0. As variáveis contínuas foram descritas por meio de média e desvio padrão (DP); as variáveis categóricas, por meio de frequência absoluta e porcentagem.

Foram atribuídos valores às respostas de acordo com a frequência com que realizavam determinada atividade nos dias da semana, com variação dos escores, de cada item, de zero a sete. O valor zero corresponde a situação menos desejável e sete ao mais favorável. Nos itens da dimensão "alimentação específica", os valores foram invertidos (7=0, 6=1, 5=2, 4=3, 3=4, 2=5, 1=6, 0=7). A análise do tabagismo foi realizada por meio das frequências absoluta e relativa de fumantes na amostra, bem como a média de cigarros consumidos por dia.(12)

O desenvolvimento do estudo atendeu as normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos.

 

Resultados

A população de estudo foi constituída por 35 participantes selecionados por amostra de conveniência.

Destacam-se, na caracterização sociodemográfica, predominância do gênero masculino (62,9%) e média de escolaridade igual a 5,3 (DP=4,3) anos de estudo (Tabela 1).

 

 

Os resultados obtidos nos itens do QAD estão descritos na tabela 2.

 

 

Quanto ao tabagismo, duas pessoas (5,7%) referiram fazer uso do cigarro; a média de cigarros consumidos por dia foi de 0,3 (DP=1,3), variando o intervalo entre zero e sete cigarros.

 

Discussão

Os limites dos resultados deste estudo estão relacionados ao delineamento transversal que não permite o estabelecimento de relações de causa e efeito, mas sugeriu associações interessantes sobre o autocuidados de portadores de diabetes mellitus. A amostragem por conveniência foi escolhida para arrolar a população acessível em um período de tempo significativo para a condição clínica em estudo, e julgamos representativa da população-alvo.

A amostra foi composta, em sua maioria, por pessoas do gênero masculino (62,9%). A média do tempo de diagnóstico foi 19,4 (DP=8,4) anos e 85,7% dos participantes possuíam baixa escolaridade. Estudos apontam que o risco para o desenvolvimento de úlceras nos pés é maior no gênero masculino, com mais de dez anos de doença.(6)

A escolaridade está diretamente relacionada ao autocuidado, ou seja, quanto mais baixa a escolaridade, menor o autocuidado.(9) A desigualdade social no acesso e na utilização dos serviços da saúde está relacionada, dentre outros fatores, ao nível de educação das pessoas. Desse modo, pessoas com baixa escolaridade podem apresentar maior grau de dificuldade no acesso à informação e ao processo de aprendizagem para a realização de cuidados em saúde.(13,14)

Ao analisar o autocuidado de portadores de diabetes mellitus, obteve-se uma pontuação maior para as atividades relacionadas à terapia medicamentosa e uma pontuação menor para as atividades relacionada às atividades físicas.

Dados semelhantes foram encontrados em estudos realizados em outros países que utilizaram o mesmo instrumento de pesquisa.(12,15) Na Índia, país que se encontra em processo de desenvolvimento, assim como o Brasil, os resultados encontrados mostraram que 79,8% informaram realizar atividades relacionadas à terapia medicamentosa, enquanto 21% relataram realizar o nível de atividade física recomendado.(15)

Estudo seccional realizado em uma amostra de 162 portadores de diabetes mellitus, utilizando o instrumento "Questionário das Atividades da Autocuidado com a Diabetes" versão reduzida, validada para o português do Brasil,(16) obteve média de 4,34 (DP=1,34) pontos (escores ≥5 indicam bom comportamento de autocuidado). A amostra desse estudo, desse modo, apresentou baixo autocuidado em relação às recomendações de dieta e exercício físico.(17)

Estudo que objetivou avaliar o nível de atividade física entre 118 portadores de diabetes mellitus, por meio do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ), obteve que 30,7% da amostra era pouco ativa, 60,6% ativa e 8,7% muito ativa; quanto ao exercício físico, 83 (70,3%) relataram não praticar.(18)

Neste estudo, a prática de atividade física obteve no item "realizar atividade física por pelo menos 30 minutos", média de 1,0 (DP=2,2) dia por semana e, no item "realizar exercício físico específico (caminhar, nadar etc.)", média de 0,4 (DP= 1,6) dia por semana, o que mostrou semelhança com os dados encontrados na literatura.

Entretanto, o autocuidado relacionado à dieta foi próximo do desejável em três dos cinco itens que o questionário possui sobre alimentação (itens "seguir dieta saudável", "seguir orientação alimentar" e "comer alimentos ricos em gorduras" com médias respectivas de 5,6 (DP=2,41), 4,3 (DP=3) e 6,2 (DP= 1,5) dias por semana, respectivamente).

Quanto à terapia medicamentosa, outros estudos que utilizaram esse instrumento encontraram resultados semelhantes, isto é, mostraram uma alta pontuação para as atividades de autocuidado que envolvem a terapia medicamentosa.(12,15)

Cuidados que envolvem mudanças no estilo de vida, como práticas de alimentação saudável e de atividade física, são apontados como os de maior dificuldade para a adesão, ao contrário da terapia medicamentosa, à qual, geralmente, as pessoas apresentam maior adesão.(19)

A baixa adesão à dieta pode estar associada a fatores como restrição alimentar frequentemente de longa duração, interferência nos hábitos da família e demanda por alimentos de maior custo, assim como tempo extra para o preparo.(19)

Quanto à prática do exercício físico, estudo sobre os motivos apontados pelos portadores de diabetes mellitus para não realizá-lo foram: desânimo, desconforto, falta de tempo, desconhecimento, não gostar, restrição médica, hipoglicemia e outros.(18)

Por outro lado, ressalta-se, também, que a população do estudo possuía úlceras e/ou amputações em extremidades de membros inferiores, fatores que limitam a prática de atividade física.

As atividades de autocuidado com os pés obtiveram escores muito próximos ao desejável nos três itens de avaliação dessas atividades. Estudo para avaliar a capacidade de autocuidado entre portadores de diabetes mellitus no México, mostrou que as pessoas podem ter baixa motivação para o autocuidado frente às incapacidades relacionadas às comorbidades e complicações crônicas da doença.(10)

As pessoas que participaram do presente estudo recebiam acompanhamento ambulatorial e orientações da equipe profissional local. Esse fato pode ter contribuído para um elevado escore nas atividades de autocuidado com os pés.

Dessa forma, salienta-se a importância dos profissionais da saúde para estimular, motivar e desenvolver as habilidades de autocuidado, frente às incapacidades e limitações relacionadas às comorbidades e complicações crônicas da doença.(10)

Encontrou-se, na amostra estudada, baixa frequência de pessoas que fazem uso de tabaco (5,7%). Esse resultado mostrou-se positivo, pois já existem evidências que apontam que o uso de tabaco está associado à ocorrência de amputações.(6,7)

Quanto à automonitorização sanguínea, essa é uma medida fundamental no controle do diabetes mellitus.(20) No presente estudo, essa atividade obteve média de cinco, nos escores do questionário QAD, considerada próxima do desejável, que é sete. No entanto, espera-se que a automonitorização da glicemia capilar seja realizada por todas as pessoas com DM, principalmente, em uso de insulina e/ou antidiabéticos orais.

Tais dados sugerem que o acompanhamento contínuo dessas pessoas, no cuidado das úlceras, pode contribuir às atividades de autocuidado; a baixa pontuação encontrada para a prática de atividades físicas reflete a condição imposta pela situação atual, que impõe limitações para a prática da mesma.

 

Conclusão

As atividades de autocuidado referidas pelos portadores de diabetes mellitus que possuem úlceras em pés e/ou amputações em membros inferiores obtiveram pontuações acima de quatro, exceto aquelas relacionadas às atividades físicas.

Colaborações

Gomides DS contribuiu com a concepção do projeto, redação do artigo e revisão crítica e relevante do conteúdo intelectual; Villas-Boas LCG e Coelho ACM participaram da análise e interpretação dos dados, redação do artigo e revisão crítica e relevante do conteúdo intelectual e Pace AE colaborou com análise e interpretação dos dados, redação do artigo, revisão crítica e relevante do conteúdo intelectual e aprovação da versão final a ser publicada.

 

Referências

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Autor correspondente:
Ana Emilia Pace
Avenida dos Bandeirantes, 3.900, Ribeirão Preto, SP, Brasil.
CEP: 14040-902
aepace@eerp.usp.br

Submetido 13 de junho de 2013
Aceito 28 de junho de 2013
Conflitos de interesse: não há conflitos de interesse a declarar.

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