SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.32 issue4Obstetric/neonatal care: expansion of nurses’ clinical practice in Primary Care author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.32 no.4 São Paulo July/Aug. 2019  Epub Aug 12, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201900049 

Editorial

Bem-estar e saúde mental materna

Mary Steen, PhD, RN, FAAN, FEANS, FRCN1 

Adriana Amorim Francisco, Profª Drª2 
http://orcid.org/0000-0003-4705-6987

1Professora de Obstetrícia na Escola de Enfermagem e Obstetrícia, Divisão de Ciências da Saúde, University of South Australia, Adelaide, Austrália

2Departamento de Enfermagem na Saúde da Mulher, Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil


O objetivo deste editorial é chamar a atenção às questões relacionadas a saúde mental e bem-estar materno. Durante a gravidez, parto, e após o parto nota-se aumento do risco de problemas de saúde mental entre puérperas. Normalmente, durante a gestação e no período pós-parto, observa-se aumento dos níveis de ansiedade e estresse. Tal aumento pode ser isolado ou vir acompanhado de outros problemas que afetam a saúde mental da mulher.1

A saúde mental está relacionada ao estado emocional, psicológico e ao bem-estar dos indivíduos e pode, portanto, influenciar sentimento e o funcionamento de gestantes ou puérperas.

A Organização Mundial da Saúde (OMC) define saúde mental como “…estado de bem-estar em que o indivíduo é consciente de suas próprias capacidades, pode lidar com o estresse normal da vida, trabalhar de maneira produtiva, e contribuir para sua comunidade”.2

Contudo, o bem-estar não é frequentemente avaliado, e muitas gestantes e puérperas que estão sob risco não são diagnosticadas quando em estado negativo de bem-estar, e, portanto, perde-se a oportunidade de identificar situações de ansiedade, estresse e problemas de enfrentamento. Contudo, a depressão pós-parto (DPP) está sendo objeto de avaliação em muitos países e em alguns, inclusive, há suporte para diagnóstico da depressão pré-natal.3-5

Porém, algumas preocupações existem sobre a eficácia da estratégia de avaliação da depressão para detectar problemas de saúde mental entre gestantes e novas mães6, considerando que a avaliação é, em geral, realizada em um período específico e, portanto, tem limitações e pode disponibilizar somente uma descrição do estado emocional dos indivíduos. Além disso, há também dúvidas de que a avaliação das mulheres colabora para medicalização do parto e da maternidade,7 sendo importante reconhecer que há um possível estigma associado a identificação da DPP.8,9

Portanto, não seria melhor avaliar o estado de bem-estar e permitir as mulheres grávidas um auto-acompanhamento e possiblidade de continuar seguimento após o parto?

A escala de bem-estar mental de Warwick-Edinburgh (WEMWBS, abreviatura em inglês)10foi utilizada com eficácia por gestantes e novas mães em estudo conduzido na Inglaterra que mediu o bem-estar por meio de investigação de como a resiliência para melhoria a saúde mental.11 A WEMWBS é baseada em cinco conceitos principais: satisfação com relacionamentos interpessoais, funcionamento positivo, afeto positivo, perspectiva hedónica e perspectiva eudemónica.

Há também estudos recentes realizados na Austrália que indicam o potencial positivo do auto-acompanhamento do bem-estar materno. A ferramenta visual “Capture My Mood” (CMM) (registro de estado de ânimo) que inclui cinco descritores (conexão, segurança, animação, satisfação e capacidade) está alinhada aos cinco principais conceitos da WEMWBS mencionados acima e possuem designação especifica em relação as mulheres para que realizem auto-acompanhamento de seu bem-estar durante e após o parto.7 A ferramenta CMM tem sido utilizada como piloto, sendo que outros avanços e pesquisas estão em andamento para disponibilizar versão online já que muitas gestantes e novas mães possuem celulares e acesso à internet.

É interessante notar que o conceito “igualdade de oportunidades” tem sido relatado.1 Esse conceito enfatiza a importância de avaliar a saúde mental e dar importância similar aos problemas de saúde física. A piora na saúde física materna após o parto pode levar à problemas de saúde mental e piora da saúde mental pode levar a problemas de saúde física, considerando que essas questões são inter-relacionadas. Por exemplo, quando o indivíduo está ansioso e estressado, muitos sintomas físicos poderão estar presente como, tensão muscular, tontura, enxaquecas, palpitações, problemas gástricas e urinárias, inquietação, insônia, e aumento da susceptibilidade à dor.12 Durante a gravidez, os altos níveis de cortisol podem aumentar as chances das mulheres de desenvolverem hipertensão, pré-eclâmpsia, restrição de crescimento uterino, nascimento de feto prematuro e também dificuldade durante o parto.13

Portanto, é vital que os links entre a saúde mental e saúde física sejam levadas em consideração na gestação e após o parto no momento da assistência à saúde materna. Parece ser evidente a necessidade de disponibilizar importância igualitária a saúde mental e a saúde física da mulher, também como promover o bem-estar durante a gravidez e após o parto.

Promovendo a saúde mental maternal

A depressão é um dos distúrbios mentais mais prevalentes na gravidez e no pós-parto, afetando cerca de um quinto das mulheres.14 A depressão pré-natal é o principal fator de risco para depressão pós-parto, e é geralmente uma continuidade da depressão que se iniciou no período pré-natal.15-18

No Brasil, a prevalência das depressões pré-natais é cerca de 20%19 o que é similar em países de alta renda, e considerando os problemas de algumas mulheres em idade reprodutiva que tem de enfrentar problemas para acessar o sistema de saúde, a assistência pré-natal é vital para prevenção da depressão pós-parto e promoção do bem-estar mental das gestantes e puérperas.

Um importante aspecto da assistência materna é o apoio à gestante para capacidade de adquirir, desenvolver e manter a resiliência e estratégias de enfrentamento para promoção da saúde e bem-estar. Ser resiliente contribui para gestante desenvolver estratégias de enfrentamento, lidar com a ansiedade e estresse, reduzir o medo associado ao parto e ajuda-las a manter saúde e bem-estar ao longo da maternidade.11

É, portanto, muito importante considerar a promoção do bem-estar e as formas de mantê-lo tais como as “cinco formas de bem-estar”20 e também a assistência contínua à saúde.21

O estado de saúde mental de uma mãe afeta o desenvolvimento físico, emocional e psicológico da criança e deve ser considerado durante a assistência à saúde materna.22

Em síntese

É importante avaliar o bem-estar das mulheres durante o período pré-natal e pós-parto. O auto-acompanhamento pode ser benéfico e as ferramentas como o “CMM” podem auxiliar no reconhecimento dos indivíduos que estão sob risco e, deste modo, possibilitar que procurem apoio de profissional de saúde ou busque ajuda de membros da família ou amigos. É importante considerar a promoção do bem-estar e de ações que ajudem a mantê-lo. Além disso, devem-se desenvolver estratégias de enfrentamento e formas para lidar com situações de ansiedade e estresse, e também como construir redes de apoio. A assistência continuada à saúde e o apoio de grupos da comunidade podem auxiliar as gestantes e as novas mães no desenvolvimento da confiança para relatarem qualquer problema de saúde mental, aquisição de resiliência e na prevenção do isolamento social. O aumento da consciência do conceito de igualdade de oportunidades e de que a saúde mental requer o mesmo cuidado que a saúde física ajudará as mães a manter-se resilientes e satisfeitas.

Referências

1. Steen M, Steen S. Striving for better maternal mental health. Pract Midwife. 2014;17(3):11–4. [ Links ]

2. World Health Organization (WHO). Mental health: strengthening our response [Internet]. Genève: WHO; 2016. [cited 2019 May 13]. Available from: who.int/mediacentre/factsheets/fs220/en/ [ Links ]

3. Perinatal Mental Health National Action Plan 2008-2010 [Internet]. [cited 2019 May 13]. Available from: Beyondblue.org.au/docs/default-source/8.-perinatal-documents/bw0125-report-beyondblues-perinatal-mental-health-(nap)-full-report.pdf?sfvrsn=2 [ Links ]

4. National Institute for Health and Care Excelence (NICE). Antenatal and postnatal mental health: clinical management and service guidance (clinical guideline CG192). London: NICE; 2014. [cited 2019 May 13]. Available from: nice.org.uk/guidance/indevelopment/gid-cgwave0598 [ Links ]

5. s O’Connor E, Rossom RC, Henninger M, Groom HC, Burda BU. Primary Care Screening for and Treatment of Depression in Pregnant and Postpartum Women: Evidence Report and Systematic Review for the US Preventive Services Task Force. JAMA. 2016;315(4):388–406. [ Links ]

6. Austin MP, Middleton PF, Highet NJ. Australian mental health reform for perinatal care. Med J Aust. 2011;195(3):112–3. [ Links ]

7. Brealey SD, Hewitt C, Green JM, Morrell J, Gilbody S. Screening for postnatal depression – is it acceptable to women and healthcare professionals? A systematic review and meta-synthesis. J Reprod Infant Psychol. 2010;28(4):328–44. [ Links ]

8. McKellar L, Steen M, Lorensuhewa N. Capture my mood: a feasibility study to develop a visual scale for women to self-monitor their mental wellbeing following birth. Evid Based Midwifery. 2017;15(2):54–9. [ Links ]

9. Steen M, Jones A. Maternal mental health: stigma and shame. Pract Midwife. 2013;16(6):5. [ Links ]

10. Tennant R, Hiller L, Fishwick R, Platt S, Joseph S, Weich S, et al. The Warwick-Edinburgh Mental Well-being Scale (WEMWBS): development and UK validation. Health Qual Life Outcomes. 2007;5(1):63. [ Links ]

11. Steen M, Robinson M, Robertson S, Raine G. Pre- and post-survey findings from the Mind ‘Building resilience programme for better mental health: pregnant women and new mothers’. Evid Based Midwifery. 2015;13(3):92–9. [ Links ]

12. Wood L. Psychological interventions in anxiety and depression. In: Smith G, editors. Psychological interventions in mental health nursing. United Kingdom: Open University Press/McGraw Hill Education Maidenhead; 2012. [ Links ]

13. Steen M, Green B. (Mental Health during pregnancy and parenthood. In: Mental health: Across the Lifespan. Steen M, Thomas M, editors. London, UK: Taylor & Francis; 2016. [ Links ]

14. Limlomwongse N, Liabsuetrakul T. Cohort study of depressive moods in Thai women during late pregnancy and 6-8 weeks of postpartum using the Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS). Arch Women Ment Health. 2006 May;9(3):131–8. [ Links ]

15. Alami KM, Kadri N, Berrada S. Prevalence and psychosocial correlates of depressed mood during pregnancy and after childbirth in a Moroccan sample. Arch Women Ment Health. 2006;9(6):343–6. [ Links ]

16. Andersson L, Sundström-Poromaa I, Wulff M, Aström M, Bixo M. Depression and anxiety during pregnancy and six months postpartum: a follow-up study. Acta Obstet Gynecol Scand. 2006;85(8):937–44. [ Links ]

17. Ryan D, Milis L, Misri N. Depression during pregnancy. Can Fam Physician. 2005;51:1087–93. [ Links ]

18. Heron J, O’Connor TG, Evans J, Golding J, Glover V; ALSPAC Study Team. The course of anxiety and depression through pregnancy and the postpartum in a community sample. J Affect Disord. 2004;80(1):65–73. [ Links ]

19. Pereira PK, Lovisi GM. Prevalence of gestacional depression and associated factors. Rev Psiq Clín. 2008;35(4):144–53. [ Links ]

20. New Economic Foundation. Five ways to wellbeing [Internet].London: New Economic Foundation; 2008. [cited 2019 May 13]. Available from: neweconomics.org/projects/entry/five-ways-to-well-being [ Links ]

21. Care Quality Commission (CQC). National findings from the 2013 survey of women’s experiences of maternity care. London: CQC; 2013. [ Links ]

22. Steen M, Jones A, Woodsworth B. Anxiety, bonding and attachment during pregnancy, the transition to parenthood and psychotherapy. Br J Midwifery. 2013;21(12):768–74. [ Links ]

Creative Commons License  This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.