Os últimos anos foram dramáticos em relação ao crescimento da pobreza, das desigualdades e da fome. A América Latina experimentou, com a erosão de suas instituições democráticas, o aumento vertiginoso dos índices de insegurança alimentar, fruto da diminuição de investimentos, de redirecionamentos de política econômica, além das tragédias humanitárias resultantes pandemia de covid-19. Em 2021, o relatório sobre o Estado da segurança alimentar e nutricional do mundo (SOFI) (FAO, 2021 ), o primeiro após a emergência sanitária, apontou o aumento vertiginoso da fome no mundo, com cerca de 3 bilhões de adultos e crianças sem acesso à alimentação de forma saudável e consistente. Ásia, África, América Latina e Caribe foram as regiões que mais sofreram com as crises econômicas, sociais, políticas e climáticas nesse período, tendo como consequência o aumento vertiginoso dos índices relacionados à carestia e ao acesso à alimentação. Entre 2019 e 2021, a fome na América Latina e no Caribe aumentou em 28%, representando um total de 8 milhões de pessoas a mais com fome. Por fim, o inquérito nacional promovido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN) em 2022 , após a pandemia, mostrou que a insegurança alimentar se tornou ainda mais presente entre as famílias brasileiras, atingindo 14 milhões de pessoas.
Diversos campos do conhecimento têm buscado refletir sobre a escassez, a ausência de alimentação e os públicos atingidos por esses fenômenos históricos. As respostas a essas demandas também têm sido objeto da história, mediante abordagens interdisciplinares, em contato com a saúde coletiva, antropologia e ciências sociais. Além disso, história cultural, história política e história da saúde têm se apropriado desse tema a partir dos tensionamentos de seus próprios campos. Longe de ser um problema apenas recente, a (falta de) alimentação faz parte do processo de estruturação do que passou a ser chamado de “Terceiro Mundo” (Davis, 2020), bem como um “motor de transformações históricas” (Arnold, 1988 ), e, no caso do Brasil, uma marca da República (Andrade; Freitas, 2014).
Em artigo fundamental para a consolidação e desenvolvimento dessa área de estudos no Brasil, Meneses e Carneiro ( 1997 ) destacavam que a história da alimentação já tinha, naquele momento, personalidade própria, assumindo certo protagonismo e institucionalização nas ciências sociais. Por mais que trouxessem exemplos desse tema na historiografia brasileira, os autores fizeram a ressalva de que a extensa bibliografia apresentada no artigo (de 85 páginas, algo impensável para a conjuntura acadêmica atual) era essencialmente europeia e estadunidense. De acordo com os historiadores, “tais lacunas se devem, seja à origem predominante dos estudos e ao interesse maior que despertou a pesquisa nessas áreas, seja a seu viés eurocêntrico, seja, enfim, às grandes dificuldades, com que nos defrontamos, de acesso à bibliografia” (Meneses; Carneiro, 1997: 2). Em uma perspectiva mais atrelada aos problemas históricos da América Latina, Pohl-Valero e Vargas Dominguez ( 2021 ) chamam atenção para as comunidades epistêmicas formadas por redes de experts latino-americanos, bem como para processos de formação de políticas alimentares com a presença de acordos entre agências internacionais e governos locais, além da participação de cientistas sociais no estudo e tentativas de mudanças de hábitos alimentares tradicionais do continente.
Este número temático tem o objetivo de apresentar para o leitor da Estudos Históricos 12 artigos de autores que trazem reflexões e apontamentos sobre a forma como pessoas de diferentes realidades, lugares e temporalidades lidaram com a fome, a escassez e a ineficiência (ou mesmo falta) de políticas alimentares. Do Recôncavo Baiano do século XIX à Moçambique dos anos 1980, dos “sertões áridos” à União Soviética stalinista, os textos vão trabalhar as relações entre alimentação, sua ausência e seus públicos em diferentes instituições, organizações e perspectivas. Além disso, abordarão a intervenção de médicos e de profissionais de saúde na alimentação das populações, no combate à mortalidade infantil e à fome. Foram submetidos 30 artigos para este número temático, com méritos acadêmicos inegáveis. Infelizmente nem todos puderam ser incorporados, mas demonstraram que o campo tem se desenvolvido a partir de diferentes perspectivas e abordagens do tema.
Os artigos tratam de diversos temas relacionados às múltiplas possibilidades de enfoque da temática deste número. Maria José Correa Gómez demonstra as mudanças no abastecimento e na fiscalização da carne no Chile, expondo as questões sociais oriundas desse processo no século XIX. No mesmo século, porém em outro recorte geográfico, Carlos Alberto Medeiros Lima se propõe a abordar a relação entre a incidência de privação extrema comparando duas regiões do Brasil.
No início do século XX, a mortalidade infantil era uma das principais questões sociais no Cone Sul. Dois artigos tratam das estratégias envolvendo o combate à má saúde da infância nessa região: Gisele Sanglard e Caroline Gil abordam o Brasil; já Maricéla Gonzalez destaca o contexto chileno. Em período posterior, após 1945, instituições como a Legião Brasileira de Assistência também se preocuparam com a criação dos “futuros brasileiros”, como Bruno Sanches Mariante destaca. Ivi Vasconcelos Elias e José Buschini, tratam, respectivamente, da história da nutrição como especialidade e da conformação dessa comunidade epistêmica nos fóruns internacionais, assim como a recepção dessas ideias na América Latina. O texto de Thaiz Senna destaca que a ausência de alimentos e escassez são trágicas consequências das guerras, como o relato de mulheres durante o cerco de Stalingrado demonstra. Denise de Sordi e Adriana Salay Leme dedicam-se a comparar o espaço da fome no debate público em duas épocas distintas: os anos 1930 e o período após a constituição de 1988, bem como as consequências desse contexto para a formulação de políticas públicas. A desnutrição e a escassez foram as dramáticas consequências das secas de 1932, e a resposta a elas mobilizou os médicos daquele período, como evidencia o artigo de Joel Carlos de Souza Andrade e Juciene Batista Felix Andrade. O número temático se encerra com artigos que abordam períodos mais recentes, mas de realidades distintas, como a abordagem da imprensa sobre o combate à miséria e vadiagem em Moçambique, tema do texto de Gilberto Daniel Rafael e Maria Isabel Moura Nascimento. Por fim, mas não menos importante, trazemos as reflexões de Julia Dolce e Antonádia Borges sobre o contexto histórico envolvendo a desnutrição crônica vivida pelos Yanomamis e as consequências dessa tragédia.
Além dos artigos, trazemos para os leitores uma entrevista realizada por Adriana Salay Leme (Universidade de São Paulo [USP]) e Rômulo Andrade (Fundação Oswaldo Cruz [Fiocruz]) com Jeffrey Pilcher, autor de livros fundamentais para o desenvolvimento do campo de história da alimentação, e editor do Oxford Handbook of Food History e do periódico Global Food History . Na seção Colaborações Especiais , Thiago Lima da Silva (Universidade Federal da Paraíba [UFPB]) presenteia-nos com uma tradução de um instigante artigo de Camilla Orejuela (University of Gothenburg), que traz a seguinte reflexão: por que e, principalmente, como monumentalizar a fome e a escassez? Quais questões emanam desse processo?
Finalmente, é necessário fazer um recorte do momento da escrita deste editorial, em que o combate à fome tem retornado ao seu protagonismo nas ações de saúde pública. Segundo o SOFI de 2024, a insegurança alimentar de moderada a grave na América Latina caiu de cerca de 30% em 2022 para 25% em 2023, o que equivale a cerca de 19 milhões de pessoas a menos com fome. No Brasil, caiu 85% em 2023. Em números absolutos, 14,7 milhões de pessoas deixaram de passar fome no país, passando de 17,2 milhões em 2022 para 2,5 milhões em 2023. Além disso, durante a reunião do G20, em julho de 2024, foi lançada a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, recolocando o tema em um lugar de destaque na agenda internacional. Os organizadores do número temático esperam que esse “tema incômodo”, nas palavras do médico pernambucano Josué de Castro, na introdução do clássico Geografia da Fome , de 1946, nunca mais retorne ao esquecimento, e que o combate a ele seja constante.
Referências
- ANDRADE, Rômulo de Paula; FREITAS, Gabriele Carvalho de. Fome, um passado inacabado: historiografia, tempo presente e desigualdade no Brasil. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 16, n. 41, p. e0201, 2024.
- ARNOLD, David. Famine: social crisis and historical change. Oxford: B. Blackwell, 1988.
- DAVIS, Mike. Holocaustos coloniais: a criação do Terceiro Mundo. São Paulo: Ed. Venetta, 2022.
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FAO. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA ALIMENTAÇÃO E AGRICULTURA et al. El estado de la seguridade alimentaria y la nutrición en el mundo 2021:transfomación de los sistemas alimentarios en aras de la seguridade alimentaria, una nutrición mejorada y dietas asequibles ysaludables para todos. Roma: FAO, 2021. Disponível em: https://openknowledge.fao.org/handle/20.500.14283/cb4474es . Acesso em: 18 set. 2024.
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FAO. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA ALIMENTAÇÃO E AGRICULTURA et al. El estado de la seguridade alimentaria y la nutrición en el mundo 2024: Financiacióm para acabar com el hambre, la inseguridad alimentaria y la malnutrición en todas sus formas. Roma: FAO, 2024. Disponível em: https://www.fao.org/publications/home/fao-flagship-publications/the-state-of-food-security-and-nutrition-in-the-world/es . Acesso em: 18 set. 2024.
» https://www.fao.org/publications/home/fao-flagship-publications/the-state-of-food-security-and-nutrition-in-the-world/es - MENESES, Ulpiano T. Bezerra de; CARNEIRO, Henrique. A História da alimentação: balizas historiográficas. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 9-91, 1997.
- POHL-VALERO, Stefan; VARGAS DOMINGUEZ, Joel. El hambre de los otros: ciencia y políticas alimentarias en Latinoamérica, siglos XX y XXI . Bogotá: Editorial Universidad del Rosario, 2021.
- REDE PENSSAN. REDE BRASILEIRA DE PESQUISA EM SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da covid-19 no Brasil. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert: Rede PENSSAN, 2022.
