Open-access Tõkowiseri: cosmovivências kumuánicas, bayaroánicas e yaiwánicas

RESUMO

O artigo, elaborado por um autor do povo Tuyuka, apresenta a visão do território amazônico como tõkowiseri - uma casa cerimonial que faz borbulhar a vida. Essa visão resulta das compreensões milenares das cosmovivências kumuánicas, bayaroánicas e yawánicas, isto é, dos especialistas (kumua, baya e yaiwa) que cuidam dos patamares cósmicos e todos os seus habitantes. Os povos originários e a Amazônia como um ser vivo mantêm uma relação de respeito recíproco e interdependência. Os seres da floresta, da terra, da água e do ar são como seus avós, cunhados, primos, irmãos e sobrinhos. É uma família cósmica que abarca muitos seres em conexão contínua. Os especialistas do noroeste amazônico, ante qualquer ação que vai afetar os habitantes de outra casa (floresta, água, ar...), pedem a permissão através da realização de cerimônias rituais no intuito de obter frutas, peixes, caça e oferecer proteção, tranquilidade, compreensão e convites para a festa cerimonial.

PALAVRAS-CHAVE:
Tuyuka; Tõkowiseri; Cerimônias rituais; Amazônia; Cosmovivência

ABSTRACT

This article, written by an author from the Tuyuka people, presents a vision of the Ama-zon territory as a tõkowiseri - a ceremonial house that makes life bubble. This vision is based on the millenary understandings of the Kumuánica, Bayaroánica and Yawánica cosmovivences, that is, the specialists (Kumua, Baya and Yaiwa) who look after the cosmic levels and all their inhabitants. The indigenous peoples and the Amazon as a liv-ing being maintain a relationship of mutual respect and interdependence. The beings of the forest, land, water and air are like their grandparents, brothers-in-law, cousins, brothers and nephews. It’s a cosmic family that encompasses many beings in continuous connection. The specialists of the north-western Amazon, when faced with any action that is going to affect the inhabitants of another house (forest, water, air...), ask for per-mission by performing ritual ceremonies in order to obtain fruit, fish, game and to offer protection, tranquillity, understanding and favours for the ceremonial feast.

KEYWORDS:
Tuyuka; Tõkowiseri; Ritual ceremonies; Amazonia; Cosmovivence

Introdução

O presente artigo apresenta uma breve abordagem antropológica da cosmovivência kumuánica,1 bayaroánica,2 yaiwánica3 dos povos originários da família linguística tukano oriental, no noroeste amazônico: Arapaso, Bará, Barasana, Desana, Karapanã, Kubeu, Makuna, Mirititapuia, Piratapauia, Siriano, Taiwano (Eduria), Tatuyo, Tariana, Tukano, Tuyuka e Wanana.

Cada povo possui a própria versão na narrativa de origem. De maneira bem simples, os Ʉtãpinopona-Tuyuka vieram dentro do mesmo Ʉtãpino - Cobra Canoa - e passaram pelas mesmas casas de origem, conhecidas como Pamʉri wiseri e Tõkowiseri. A diferença que existe, conforme aquilo que eu aprendi junto aos meus avós e especialistas, é que nós não saímos da Cachoeira de Ipanoré, no Rio Uaupés, mas saímos do mundo das águas na Cachoeira Caju - Sunapoea -, também conhecida como cachoeira de Jurupari, na Colômbia. Lá iniciaram as cerimônias tuyuka e continuam sendo feitas até aos dias atuais. De lá desceram o Rio Uaupés, entraram no Rio Papuri e se espalharam pelas cabeceiras do Rio Tiquié; outros ficaram no lado colombiano. Na atualidade os Tuyuka espalham-se por outras cidades, tais como São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro, Barcelos, Novo Airão, Manaus e até em outros estados brasileiros.

Tõkowiseri4

A palavra tõko 5 literalmente refere-se ao sumo doce (buiuiu) extraído de um arbusto denominado tõgʉ em língua tuyuka. A palavra tõko é um prefixo qualificador e ativador de bem, daquilo que é bom, doce, saboroso, descontaminado. Em língua tukano o prefixo correspondente é kãrako. Em língua tukano kãra é uma frutinha doce (buiuiu). Essa palavra assume o mesmo princípio qualificador.

Os kumua, bayaroá, yaiwa e outros especialistas a utilizam continuamente nas cerimônias, especialmente para transformar uma matéria em matéria imbuída de forças de bem. Vejamos alguns exemplos: tõko kumurõ - banco doce, banco de vida, do bem, da saúde, da alegria, dos conhecimentos, do entusiasmo, etc; tõko botari - esteio (da maloca) do bem, seguro, que garante segurança, inspira músicas, discursos, orienta a circularidade das danças; tõko tiba - caixa de adorno (enfeites de danças), caixa da ancestralidade, caixa que guarda as músicas, guarda a vida da ancestralidade, dos enfeites, das músicas, melodias, ritmos; tõko yuiró - suporte de cuia do bem, da vida, da sabedoria, das cerimônias; tõko sopé - porta de entrada/saída do bem, da saúde, da beleza; tõko wai - peixe da vida, que gera boa saúde, boa aparência física. Assim vai poder utilizar esse prefixo qualificador de poderes do bem.

É nessa perspectiva que o presente artigo utiliza uma complexa realidade de tõkowiseri. Os kumua, bayaroá, yaiwa e demais especialistas utilizam esse conceito referindo-se a muitos significados da ancestralidade (história passada), incidência na vida presente e garantia de uma vida melhor para o futuro. No período da ancestralidade tõkowiseri são os lugares de origem que os antropólogos da região do Alto Rio Negro (AM) denominaram casas de transformação. Em língua tuyuka se diz pamʉri wiseri. Cada uma dessas casas tem nome específico: Diawi (casa d´água), Senawi (casa de abacaxi), Ikima wi (igarapé inajá) etc. Cada casa possui uma história específica, mas compõem a trajetória ampla da viagem do Ʉtãpino-Cobra-da-água. Cada pamʉri wiseri (casa de surgimento) na cerimônia é denominada tõkowiseri. Fala-se assim para indicar que nessa casa se deu origem a algum conhecimento e alguma prática muito importante para a vida dos pamʉri basoka - gentes de transformação. Na compreensão de kumu, bayá e yaí, essas casas precisam ser como fonte de vida. Vejamos os exemplos: tõko wi, yukʉrika basori wi: casa de oferecimento de frutas; tõko wi, wai basori wi: casa de oferecimento de peixes; tõko wi, waikʉra basori wi: casa de oferecimento de carne de caça. O kumu, ao fazer a cerimônia de uma casa cerimonial (maloca), estabelece conexão com as casas de origem. A utilização desse prefixo é muito profunda, pois quando um kumu realiza a cerimônia de proteção de uma residência, escola, hospital, centro comunitário, torna-os tõkowiseri. Ao assumir esse nome, essa casa entra em conexão com outros tõkowiseri do patamar subterrâneo, da água, da terra, da floresta, do vento, da constelação. Os habitantes de tais patamares conectam-se aos habitantes desse patamar: humanos e outras gentes (da floresta, das águas, das serras etc.).

Conforme Ʉremiri, meu interlocutor, toda cerimônia ritual que se realiza dentro do basawi conecta-se com todos os basawiseri do mundo desse patamar horizontal e com os basawiseri dos patamares (do alto e subterrâneo), no alcance vertical. A realização da cerimônia ritual Yukʉrika basore é um momento fantástico de interligação/conexão com os kumua e bayaroa de outros basawiseri em outros patamares do cosmo.

Os kumua inserem e ativam esses poderes na matéria (tabaco, ipadu, ayahuasca, caxiri, breu, rapé, sons de instrumentos) soprando sobre a matéria cerimonial. O kumu utiliza o prefixo tõko, que deve ser entendido como princípio ativador de efeitos bons. Esses poderes são acessados por humanos através do sabor (amargo, doce e travoso) da bebida caxiri e ayahuasca, sentindo o cheiro do tabaco ao fumar e inalando o cheiro da fumaça do breu; através da audição dos sons de instrumentos musicais; inalando o rapé, comendo o ipadu, lambendo a pimenta e sal após as cerimônias. Barreto (2018, p.64) diz:

Os bahsese são um vasto repertório de fórmulas, palavras e expressões especiais retiradas dos kihti ukũse (narrativas míticas) e proferidas ritualmente pelos especialistas yepamahsã. Os bahsese possibilitam a comunicação e interação entre os mahsã (humanos) e os waimahsã. É também uma prática terapêutica de prevenção, proteção e cura de doenças, a partir da habilidade de ativar verbalmente elementos e princípios curativos, contidos em tipos de vegetal e de animal e, por fim, de limpeza e despotencialização dos alimentos, tornando-os próprios para consumo humano.

Os kumua são os especialistas dos basesé, mas outros sábios que adquirem os conhecimentos podem também realizar as cerimônias, como também as mulheres e jovens. Não é restrito aos homens, porém é mais comum que eles realizem tais cerimônias.

Kumua, bayaroá e yaiwa

As pessoas habilitadas para ativar o tõko em matérias são os Kumua. Eles conhecem a prática kumuánica para transformar os diversos sabores (amargo, travoso, azedo, adocicado) com o princípio ativador de tõko. Assim, aqueles que acessarem as matérias xamanizadas tornar-se-ão seres do bem, da tranquilidade, gostosos, adocicados, apetitosos, simpáticos:

Bahsero é a habilidade de um especialista em evocar e pôr em ação as qualidades sensíveis (amargura, doçura, acidez, frieza etc.) que produzem efeito de abrandamento sobre dor ou doença, elementos e princípios curativos nos diversos tipos de vegetal e animal. [...]. Os especialistas desse tipo de conhecimento são responsáveis por mobilizar os ahpose por meio dos bahsese: ordenar, arranjar, direcionar e equilibrar a casa, o mundo, para que os yepamahsã vivam bem e em um mundo seguro e harmonioso. (Barreto, 2018, p.65)

A palavra ahpose utilizada na citação acima explicita umas das ações dos bahsese que, conhecida como bahse ahpose¸ explica que há cerimônia em que o kumu e demais especialistas realizam a reparação, correção, tranquilização dos seres provocados por humanos. Tais ações se justificam após o erro cometido pelo desrespeito aos lugares de origem (fazendo barulho etc.) ou pelo não cumprimento das restrições alimentares exigidas. São realizadas na mesma cerimônia quando se percebe que não se alcança o resultado esperado.

Para os povos da família linguística tukano oriental, essas Casas/Wiseri estão presentes ao longo de todo o percurso do Pamʉriyukʉsʉ (em língua tukano), Pamʉriyokosoro (em língua tuyuka), conhecida também como Canoa de Transformação ou Cobra-Canoa. Conforme a narrativa de origem, essa longa viagem inicia-se em um lugar chamado Opekõtaro (em língua tuyuka), Opekõditara (em língua tukano), lago localizado na cidade do Rio de Janeiro, ao pé da montanha do Pão de Açúcar. De lá partiu a Cobra-Canoa, veio pela costa do Brasil, entrou pelo rio Amazonas e depois seguiu a viagem pelo rio Negro, o rio Uaupés e outros igarapés.

Figura 1
Três patamares: em todos os patamares existem os mesmos materiais cerimoniais e os especialistas em cada patamar. Três elementos que aparecem no desenho: tabaco/fumo, cuia de pátu (ipadu) e kapitʉ (pote de ayahuasca).

Figura 2
Basawi/tõkowi (Maloca): representa Tõkowiseri - casas de origem, de emergência, de transformação. Em cada patamar existem diversos Tõkowiseri.

Figura 3
Instrumentos de danças.

Figura 4
Materiais de Tõkowiseri - casas de origem, de emergência, de transformação: kumu, bayá e yaiwa os utilizam.

Em nível kumuánico e bayaroánico, essa história está presente na memória dos especialistas e é narrada por eles durante as cerimônias. As Casas/Wiseri não são lugares simples: são tõkowiseri e como tais têm seus donos, que cuidam delas. Alguém pode perguntar: quem são esses donos? A resposta é simples e relevante: os donos dos tõkowiseri são os peixes, as cobras, os pássaros, os macacos, enfim, são espécies animais, vegetais, minerais, pedras e terra de diversos tipos (amarela, marrom, argila...), águas com diversas colorações.

Nessa perspectiva não se deve entender Casas/Wiseri como estrutura de uma casa de modelo ocidental. A compreensão kumuánica entende que o piso da casa é a diversidade de terra que há naquele lugar, são tipos de água, tipos de pedras; os esteios, caibros, cipós e cobertura de casa são diversidade de árvores, arbustos e ervas que existem naquele lugar. Os donos das casas são cobras, animais peçonhentos, aranhas, maniuaras, insetos, formigas, diversidade de pássaros e seres aquáticos (pequenos e grandes) que cuidam da Casa. A extensão dos rios todos possui seus donos que já habitavam antes da chegada dos povos indígenas e não indígenas a esses territórios.

A ação cerimonial de cuidado dos humanos e de outras gentes e seus territórios é articulada entre os kumua, bayaora e yaiwa. Na região do Alto Rio Negro (AM), temos mais as figuras de kumua e bayaroa. Sendo assim, o cuidado dos humanos e outras gentes não tem tanto amparo como tinha nos tempos muito antigos.

Pamʉrimasa

Os membros da família tukano oriental consideram-se como pamʉrimasa,6 que em língua tuyuka significa gente emergida das águas. No sentido mais amplo corresponde ao termo humano como se entende na língua portuguesa. Pamʉrimasa7 são seres que foram conduzidos por ʉtãpino, que em língua tuyuka significa Cobra-de-Pedra. ʉtãpino é também conhecido por Pino yokosoro (Cobra-Canoa).

A relação entre os waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa é vertical e horizontal. Os significados literais em língua tukano são: waimasa (wai: peixe, masã: gente): Gente-peixe/Peixe-gente; yukʉmasa (yukʉ: árvore, masã: gente): Gente-árvore/Árvore-gente; bʉpoamasa (bʉpoa: trovões, masã: gente): Gentes-trovões/Trovões-gente. Estou ordenando os waimasa no patamar subterrâneo, os yukʉmasa no patamar do meio e os bʉpoamasa no patamar do alto. A compreensão desse formato de organização é anterior à compreensão científica da terra redonda. Na atualidade o cosmo pode ser compreendido de maneira circular e em movimento contínuo, o que torna viável a interação de saberes da ciência indígena e daquela derivada de avanços de pesquisas científicas. A compreensão tradicional indígena e os conhecimentos da ciência ocidental não se opõem, mas se complementam.

Segundo as narrativas tuyuka, o Ʉtãpino conduziu os pamʉrimasa para dentro dos territórios habitados por waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa, apresentando-os de maneira gradual, não todos de uma vez nem de uma vez para sempre. Através das cerimônias, os pamʉrimasa seguem mostrando aos waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa quem são eles, como e onde querem viver nesses territórios alheios. Eles querem ser adotados como filhos, filhas, sobrinhos, sobrinhas, netos, netas, avôs e avós dos waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa. Os especialistas são indivíduos que conhecem a dinâmica do cosmo e o modo de vida de seus habitantes. Conhecem também seu poder de cuidado e seu poder de destruição. Os próprios kumua, bayaroa e yaiwa não são superpoderes nem são possuidores de superpoderes. Eles correm o risco de serem atingidos por doenças que os kumua, bayaroa e yaiwa de outros patamares podem lhes causar. Eles mesmos precisam se proteger continuamente. São mais expostos à aquisição de doenças por serem embaixadores de outros parentes e seres cósmicos. Esses especialistas se cuidam através do cumprimento das restrições alimentares e sexuais em alguns períodos, após a realização das cerimônias.

Cerimônias rituais

Nas cerimônias kumuánicas e bayaroánicas os especialistas costumam dizer que somos nikʉ paramerã (netos de um mesmo avô ancestral) e nikʉporã nisa mari (filhos de um mesmo pai ancestral). Pelas cerimônias periódicas os kumua acompanham os membros de seu povo por diversos ciclos da vida, desde a concepção, nascimento, alimentação, primeira menstruação até a partida desse patamar (morte). Os pamʉrimasa fazem o processo de pertencimento à vida dos waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa. Dessa maneira sentem que seu pertencimento aos territórios dos waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa. Valencia (2010, p.30) se refere assim a essa realidade:

De esta manera, sabemos que los indígenas estamos conectados con el mundo animal y vegetal, incluyendo el mismo espacio donde vivimos. Este es el propio método que tenemos para el manejo de nuestro territorio. Sabiendo y practicando nuestro conocimiento ancestral (~kubua baseri keti aka), por ahora decimos que, mientras los ~kubua estemos vivos, el manejo seguirá vigente. Para que este conocimiento tenga la seguridad de seguir vigente, estamos construyendo y fortaleciendo este manejo con este trabajo de investigación, que es sumamente importante para las generaciones futuras.

Ao serem adotados por eles, são participantes de seus patrimônios. A partir dessa consciência os pamʉrimasa seguem regras para estabelecer a boa convivência. Antes da realização das roças, das pescarias, caçadas, coletas de fruta, pedem permissão dos donos e realizam as cerimônias, convidando-lhes para participar da festa. Na festa os especialistas kumua pedem a permissão dos donos de determinado lugar (onde tem fruteiras/frutas, onde tem caça, lagos/igarapés para a pescaria). Dessa maneira os pamʉrimasa levam o estilo de vida que exige respeito para com terra, floresta, águas etc. Não há exploração descontrolada e desrespeitosa das regiões onde habitam, pois sabem que há necessidade de uma interlocução qualificada para que todos se sintam respeitados. Se os pamʉrimasa não respeitarem os diversos lugares, os waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa causam doenças, enfermidades e desastres (grandes enchentes, secas, desmoronamentos, superaquecimento...). Rodríguez (2010, p.32), do povo Makuna, relembra:

Muchos pueblos indígenas han conservado su historia y la han practicado en su relación con la naturaleza desde mucho tiempo atrás. Yo soy un indígena makuna de la parte baja del rio Pira-Paraná, entonces ¿qué ha sido la naturaleza para nosotros?; ¿qué ha significado la selva para nosotros? La selva ha existido desde hace mucho tiempo, antiguamente no había mucha gente, la selva estaba más bien solitaria, todo se conservaba bien dice la historia, y la gente vivía tranquila. Esta historia llegó a un punto nuevo, a un momento de cambio en el que el indígena y la selva empezaron a tener contacto con otras sociedades que tenían una visión totalmente diferente, y ahí empezó la interferencia, o por lo menos en muestro caso.

Os kumua e os bayaroa, nas cerimônias, realizam as narrativas das histórias de origem das pessoas e de suas relações com os seres daqueles lugares, bem como do que viveram naqueles espaços na vinda primeira. A partir daquelas histórias e naquelas casas, os bayaroa cantam e dançam como cantaram e dançaram os primeiros seres cósmicos (cobras, humanos). Assim esses lugares tornam-se tõkowiseri - lugar, casa e cosmo que contém em si os sabores bons (saboroso, apetitoso, harmonizado, tranquilo, apaziguado, adocicado), que produzem bem-estar, bem-agir, bem-pensar e bem-relacionar com todos os seres cósmicos.

O movimento de dança realizado por bayaroa segue como o movimento de um rio. Para os membros da família linguística tukano oriental, o rio por onde o Ʉtãpino se locomoveu é conhecido de Opekõdia (Rio de Leite). Os pamʉrimasa beberam águas com diversas colorações (transparente, avermelhada, escura, barrenta, esverdeada) no processo de sua transformação e crescimento. A viagem do Ʉtãpino intercala-se entre sua locomoção no fundo do rio e as diversas paradas em direção à terra onde se realiza a cerimônia específica.

Na história dos pamʉrimasa, essas paradas tornaram-se tradições narrativas dentro do Basawi (Casa cerimonial). O movimento de dança expressa a trajetória de locomoção do Ʉtãpino trazendo os pamʉrimasa. Os bayaroa movimentam-se pela pista de dança cantando e dançando: dessa forma atualizam a locomoção do Ʉtãpino seguindo rio acima. Os dançarinos movimentam-se como uma grande cobra, dançam pelo lado esquerdo, passam pela porta do sol poente e vem dançando pelo lado direito para atingir a porta do sol nascente. Quanto maior for o número de dançarinos e dançarinas, aumenta o movimento semelhante ao de uma Cobra. Dão três voltas e depois realizam a parada. Stephen Hugh-Jones (2013, p.70) escreve em seu trabalho:

Los rituales de la comunidad y el contacto con los poderes sobrenaturales que ello implica se consideran beneficiosos para los participantes, tanto en el sentido general de mantener el orden cósmico como de brindarle especialmente protección a los participantes. Estos rituales son necesarios para el bienestar del grupo, aunque también sean potencialmente peligrosos para los participantes, cuyo cuidado es responsabilidad del chamán.

O tempo de parada relembra a parada de Ʉtãpino durante sua viagem trazendo os pamʉrimasa. As paradas servem para as mulheres e os homens beberem o peyuru (caxiri) e kapi (ayahuasca) aos bayaroa. Os kumua circulam o mʉnoro (tabaco) e patuwa (cuia de ipadu) aos bayaroa. Aproveitam para descansar e contar coisas engraçadas para dar boas gargalhadas. Em algumas paradas realizam as narrativas sobre algumas Casas de origem. Narram o que aconteceu naquela Casa e o que foi falado. São momentos específicos de transmissão dos conhecimentos ancestrais. Cada povo possui modos próprios de cerimônias de basese do Basawi. Luis Cayón (2013, p.33), um dos especialistas sobre os povos do noroeste amazônico, diz:

El Pensamiento en su forma más profunda es un dominio exclusivo de los chamanes, con él ocurre algo parecido a la sabiduría entre los apache, pues todas las personas lo tienen en mayor o menor medida. Así que no se puede afirmar que el sistema de conocimiento basado en el Pensamiento sea exclusivo del chamanismo, una vez que este informa y ofrece las referencias a las personas para entender y ver su mundo.

Os kumua, bayaroa e yaiwa do noroeste amazônico entendem que o mundo está organizado em três patamares, como já referi acima. Conforme essa compreensão, à semelhança do que existe nesse patamar, nos outros patamares existem diversos tõkowiseri com os especialistas kumua, bayaroa e yaiwa. Eles cuidam do cosmo através de suas cerimônias de basese (“benzimentos”). Os especialistas pamʉrimasa creem que os especialistas de todos os patamares cuidam da vida de seus seres e seus territórios ao longo dos ciclos de vida:

Os Kumua rolam-se nos outros patamares (tũrʉãbʉrʉ nʉkawa, chegam ao patamar bem protegido (weti patipʉ), ao patamar do clima frio (yʉsʉase patipʉ), tornam-se brisas frias (okotõri yʉsʉasã bʉrʉ nʉkawĩ), recebem a energia do suco de frutas doce (kãrako ñesami). Eles assumem o formato roliço de cuia pequena (ñasagã kagakã) e o formato de cuia serrada pela metade (ñasagã yeheka kagakã). Else se tornam dentes de suco doce (upikari kãrako) e boca de suco doce (kãrako ʉsero). Transformam-se em cuia grande para servir o caxiri (peru diapeori waharo), em cuia pequena para servir o caxiri (peru wari waharo), em cuia masculina (ʉmʉa waharo). Os Kumua assumem as formas de mãos femininas (numiaye wamokãri pose) e as energias femininas vindas de outros patamares (numiaye katise sĩture kahãse). (Rezende, 2021, p.196)

Os kumua são agentes que, sendo humanos (tuyuka, tukano...) através de seu estatuto epistemológico (pensar, raciocínio...) transitam por todos os patamares (do meio, subterrâneo, alto...) para dialogar, negociar, convencer, consultar, criar alianças, emprestar benesses com os kumua desses patamares. Por sua vez, eles também querem que as gentes-humanos concedam aquilo que as gentes-seres cósmicos desejam. É uma relação de troca de benesses, de participação das lutas a favor e contra outros seres, em situações nocivas às vidas das gentes cósmicas. Nessa perspectiva, gentes cósmicas, incluindo gentes-humanos, são corresponsáveis pela saúde cósmica e cúmplices de sua destruição. Nesse movimento de deslocamentos cósmicos há várias imagens de movimentos: rolar, vestir-se, baixar, cair, voar, esfriar, aquecer, transformar-se em cheiro, odor. São categorias de linguagens que expressam àquilo que se faz no plano metafísico de um kumu ou outros especialistas que fazem uso de basese.

Os pamʉrimasa procuram realizar suas cerimônias, cada qual no seu lugar. Os tõkowiseri (Casas cerimoniais, malocas) conectam-se entre si. É muito importante que quem possui seus tõkowiseri realize continuamente as cerimônias. Meus parentes tuyuka dizem que existem muitos Tõkowiseri fincados nos três patamares. No patamar onde nós pisamos, alguns povos não construíram mais seus Tõkowiseri. Alguns povos possuem seus tõkowiseri, mas não realizam suas cerimônias. Quando somente em alguns Tõkowiseri fazem as cerimônias, perde-se a força de conexão de elementos que garantem o bom funcionamento cósmico e de seus habitantes. Por outra parte também diminuíram os especialistas kumua, bayaroa e yaiwa.

Com a diminuição do número de tõkowiseri (Casas cerimoniais, “Malocas”) e de kumua, bayaroa, yaiwa e outros especialistas do patamar do meio (terra), o cosmo e a vida de todos os seres ficam sem o cuidado necessário. Os territórios de todos os patamares são ameaçados e outros são destruídos. A existência deles é semelhante à existência de satélites que enviam informações a cada tempo para os centros especializados. Com essa analogia estou dizendo que os kumua, bayaroa e yaiwa de todos os povos estavam interligados entre si: gentes-humanos, gentes-árvores, gentes-constelações, gentes-trovões, gentes-peixes, gentes-água, gentes-pássaros etc. Na compreensão tuyuka todos têm seus tõkowiseri, isto é, as suas malocas onde realizam as cerimônias para cuidar do cosmo. Na minha analogia eu quis dizer que os tõkowiseri e seus especialistas são como satélites guiados e/ou teleguiados por seres que capturam as imagens das vulnerabilidades cósmicas. Os especialistas humanos realizavam essas interligações com outros povos. Por meio de seu senso apurado, meditações e sonhos recebiam as informações do que acontecia em cada patamar. Eles conseguiam conhecer quem eram os especialistas que promovem as boas cerimônias, a favor da vida cósmica, e quem eram os especialistas que ameaçavam o bem-existir dos tõkowiseri dos patamares e seus habitantes.

Cosmovisão e cosmovivência

A partir dessa cosmovisão e cosmovivência os povos originários do noroeste amazônico entendem a importância de interligar as cerimônias dos tõkowiseri por meio de tõkodari¸ ou seja, os fios de boas energias que saem e chegam nos tõkowiseri. tõkodari são veias que facilitam a boa circulação do sangue cm todos os patamares e garantir o bem-viver dos habitantes de um tõkowi. Para cada tõkowi é preciso oferecer os tõkokumupirĩ (bancos de vida), tõkoyuiro (suporte do bem), tõkomʉno (tabaco de vida), tõkopatu (ipadu da vida), tõkokapi (ayahuasca de vida). Cayón (2012, p.169) observa o seguinte:

Estos hechos generan muchas preguntas con relación a las maneras de ocupación del espacio y, principalmente, sobre las formas de construcción del mismo puesto que parece existir una lógica regional para resolver la contradicción entre la distribución real de las unidades sociales y la idea de un espacio ordenado según la propiedad patrilineal del territorio que define su ocupación ideal. Esta lógica tiene como cimiento la lectura chamánica del espacio. Según ésta el macro-espacio se piensa como una maloca que abarca el universo, conteniendo a otras malocas pequeñas que son los territorios específicos de cada pueblo y las casas de los diferentes seres no humanos. La maloca cosmos no sólo es una red de lugares donde viven todos los seres que habitan el universo, sino también un tejido complejo de formas de vida constituidas por objetos y sustancias contenidas en algunos lugares específicos del macro-espacio y que sólo pueden ser manipulados por chamanes. De esta manera, para hablar de la construcción del espacio en esta región es necesario centrarse en la relación entre el chamanismo, el espacio, la noción de persona y las concepciones de vitalidad.

A epistemologia tuyuka sob responsabilidade dos especialistas não para de aprofundar seus conhecimentos, avança e se aperfeiçoa. Eles sabem da durabilidade dos tõkowiseri (“Malocas”) e, antes que chegue o fim de sua vida, já se preparam para reformar o construir um novo tõkowi. Nobre observa o seguinte a respeito da importância dos conhecimentos indígenas:

Não somente novos paradigmas de saber são necessários para a civilização global, mas precisamos de tradução de visões e de culturas, de diálogo que pressupõe humildade e de receptividade entre os saberes estabelecidos. A ciência, através da tecnologia e das engenharias, consagrou-se nos sistemas mundiais de poder, e tem enorme prestígio e influência. O saber indígena goza de respeito cultural e projeta uma importante aura de valor, mas infelizmente apenas é percebido e compreendido por poucas pessoas, tendo quase nenhuma influência sobre as ações humanas que estão transformando o planeta. Sam Johnston, da Universidade das Nações Unidas, afirmou na Cúpula Mundial dos Povos Indígenas sobre Mudança Climática: (2009) “O mundo tem que prestar atenção às opiniões das comunidades indígenas e à sabedoria do conhecimento ancestral. (Nobre, 2010, p.39-40)

Na atualidade, entre os pamʉrimasa diminuiu a preocupação de manter em pé um tõkowi. Quando não acontecem as cerimônias rituais, dificulta-se a transmissão de conhecimentos e cada vez mais novas gerações vão se afastando desses conhecimentos.

“A festa das frutas” é o título de minha tese de doutorado em antropologia. Nela organizei os conhecimentos necessários para fazer uma festa das frutas, em cada tõkowi antiga e nos espaços novos. Quem é membro da família linguística tukano oriental sabe que seguem diversos acontecimentos no cosmo: nascimento/banho da criança recém-nascida, nominação e iniciação à juventude, primeira menstruação da menina; os ciclos das frutas; a época da enchente de rios, tempo da seca, início de verão, tempo das lagartas, da caça, desova de peixes (piracema); cerimônia antes de iniciar a roça na mata virgem e capoeiras; construção e inauguração de nova maloca; preparação para a coleta e oferecimento das frutas, etc. São tempos e espaços que emergem para fazer a festa onde todos os seres cósmicos participam. Esses tempos e espaços são especiais para que agentes especialistas de cada Tõkowi façam cerimônias de interconexão das cosmovivências kumuánicas, bayaroánicas e yaiwánicas. Conforme, Cayón (2012, p.177),

La interacción práctica y chamánica entre humanos y no humanos depende de la caracterización de cada parte de la selva. Los lugares transformados por actividad humana, previa una negociación chamánica con los espíritus dueños de los árboles, dejan de ser hoa (morte) para convertirse en masã ye (lo de la gente), es decir, la maloca, los cultivos y los rastrojos (capoeiras), éstos vuelven a ser hoa cuando el bosque se ha regenerado por completo. En un nivel más amplio, en la selva y los ríos se alternan sitios sagrados y no sagrados, o sea, lugares en los que se puede o no tomar recursos; eso define el comportamiento de una persona con respecto a cada lugar: cada individuo sabe dónde puede o no cazar y pescar para su sustento diario.

Os filhos e filhas dos pamʉrimasa, quando nascem, recebem os nomes relacionados aos lugares de origem, nome de peixes, de pássaros e frutas. A partir desses nomes o kumu ativa os efeitos do tõko (bons) para garantir a saúde, bem-viver, bem-falar e bem-agir dos pamʉrimasa: tõkowʉabe (beiju da vida), tõkowai (peixe da vida) etc. Quando um membro do pamʉrimasa fica enfermo, o kumu retorna a esse lugar para diagnosticar a causa e o tipo da doença. O kumu seleciona uma fórmula para curar a doença. Os seres cósmicos vivem em meio a diversos perigos. O Ʉtãpino conhecia a existência waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa nos territórios do noroeste amazônico. Adentrar-se pelos rios que percorrem os territórios alheios significava correr o risco de ser atacado e morto pelos waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa. Quando se ouvem as narrativas sobre a viagem do Ʉtãpino (Canoa de Transformação) para emergir (sair definitivamente d´água na Cachoeira de Ipanoré, na Cachoeira de Caju para os Tuyuka e outros lugares para outros povos) percebe-se que Ʉtãpino enfrentou muitos seres cósmicos (cobras, piranhas...) que quiseram exterminá-lo, mas ele com suas estratégias escapava e seguia sua trajetória subindo os rios. Quando uma pessoa adquire uma doença, o kumu utiliza essa analogia no momento de sua cerimônia, pois a vida humana é como a trajetória de Ʉtãpino, existem muitos seres que querem atacar e matar. Por isso o kumu ou outro especialista precisa tornar a pessoa capaz de enfrentar os problemas para alcançar seus objetivos.

O Ʉtãpino utilizou sua inteligência estratégica para fugir e desviar por outros canais de rios (paranás), buracos e caminhos. Ele não enfrenta de frente, mas realiza diversas cerimônias para tranquilizar a fúria dos waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa. Assim conduziu os pamʉrimasa com cuidado. Quando pressentia que determinada região apresentava risco para a sua vida e de seus filhos, parava, locomovia-se para terra e realizava as cerimônias de proteção de sua viagem, dele mesmo e de seus filhos. Tranquilizava os waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa, dialogava e pedia permissão para seguir sua viagem.

Cuidava dos pamʉrimasa para evitar que se tornassem vítimas de doenças e morressem antes de chegar a seu lugar de surgimento. Desde a origem o Ʉtãpino utilizava os materiais cerimoniais para sua sustentabilidade, autoproteção, tranquilização dos waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa: mʉno (tabaco), patu (ipadu), kapi (ayahuasca), upé (breu/cera de abelha). Por meio das cerimônias o Ʉtãpino conseguiu estabelecer a compreensão e o respeito entre os pamʉrimasa, waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa. Ele convencia-os ao respeito, argumentando que todos somos irmãos, irmãs, avós, tias, tios, sogros, genros, primos e cunhados. Esse parentesco não é físico-material: ele se dá no nível epistemológico, metafísico, “espiritual”, imaterial. Quem é indígena entenderá com mais facilidade esse parentesco cósmico, pois muitos nomes pessoais indígenas são de pássaros, peixes, frutas, cores etc. O mʉno (tabaco) era fumado por todos os seres cósmicos, tornava-os netos do mesmo pai ancestral. Da mesma forma acontecia quando comiam o patu (ipadu) e tomavam o kapi (ayahuasca). Inalando o cheiro da fumaça do breu/cera de abelha, todos os seres cósmicos tornavam-se membros da mesma família cósmica. Na atualidade as cerimônias têm o mesmo sentido originário, é importante que em muitos tõkowiseri se realizem as cerimônias. Não pode ser cerimônias de um Tõkowi, mas de muitos Tõkowiseri. Cayón (2012, p.170) também apresenta essa compreensão:

Estos pueblos afirman que el universo está constituido por malocas invisibles que están conectadas entre sí por caminos que sólo conocen los chamanes. Las malocas están en la tierra, el subsuelo, el rio y en los diferentes niveles cósmicos, y son consideradas como “lugares sagrados” habitados por diferentes seres y son espíritus; dichos lugares son concebidos como los cimientos del universo.

A cerimônia realizada no tõkowi de um povo não visa apenas conseguir o seu bem individual/localizado, mas conseguir a sustentabilidade do equilíbrio, harmonia, tranquilidade de tõkowiseri e dos habitantes cósmicos de três patamares. Tõkowiseri são centros cerimoniais, por excelência, dos kumua, bayaroa e yaiwa. Tõkowiseri tem significado relacionado aos “lugares sagrados” que se espalham ao longo dos rios por onde o Ʉtãpino seguiu, são lugares significativos até aos dias atuais para quem os conhece. Quem os conhece melhor são os especialistas. Por isso, seus diálogos são bem fundamentados. Assim podem argumentar de modo adequado na petição aos waimasa e yukʉmasa a respeito da utilização de porções de seus territórios e patrimônios para fazer uma roça. Eles não pedem um território inteiro para desmatar e desrespeitá-lo. Os territórios do patamar do alto, da terra e subterrâneo possuem sua ancestralidade e suas histórias, isto é, têm seus donos que cuidam deles, zelam pelas árvores frutíferas, pelos peixes existentes, pela diversidade de pássaros. Não podem ser pensados como espaços sem donos, como espaços de ninguém: têm seus donos originários. Cada tipo de água, lago, estirão, beirada de rios, serras, montanhas, praias, pedreiras, floresta de terra preta, floresta de terra arenosa, floresta de terra argilosa, com suas variedades de vegetação, possuem seus donos. São diversos tipos de pássaros, macacos, porcos-do-mato, araras, tucanos, papagaios, tartarugas, cutias, pacas, antas etc. Todos andam em seus territórios, de tempo e tempo vão a outros territórios para voltar em tempo propício para sustentabilidade de suas vidas. Para ter domínio desses conhecimentos, os kumua, bayaroa, yaiwa e outros especialistas conhecem os ciclos da floração das árvores, quando as frutas crescem e amadurecem. O ciclo da vida dos insetos, formigas, pássaros e outros animais dependem também desses ciclos, como também de peixes e outros seres aquáticos. Eles conhecem também o ciclo das constelações. Não são conhecimentos compartimentados, há uma interligação entre várias áreas de conhecimento. Aprendem esses conhecimentos observando os ciclos da vida, participando da própria vida cósmica, fazendo festas, fazendo narrativas, fazendo cerimônias, meditando e trocando conhecimentos entre os diversos conhecedores.

Compreendendo dessa maneira, os povos originários do noroeste amazônico realizam cerimônias para negociar como serão realizadas as roças, pedem permissão da floresta, pois seus filhos e filhas (árvores) serão derrubados. Em troca darão outras netas (mandiocas, cará...). Negociam festas de oferecimento das frutas, dos peixes, das caças; se sentarão com os kumua, bayaroa e yaiwa para o diálogo, negociação e estabelecimento de acordos de boa convivência.

As linguagens utilizadas nesses momentos são linguagens sensíveis, degustáveis, audíveis: cheirar a fumaça do breu/cera de abelha, fumar/sentir o sabor de fumo, comer o sabor adocicado/amargo de ipadu, beber caxiri adocicado, beber ayahuasca de sabor amargo/travoso, sentir o ardor de rapé no nariz, soprar os instrumentos de dança, dançar, correr, suar; ouvir e ver as danças dos bayaroa; ouvir as narrativas das histórias de origens de cada povo e ouvir as interpretações para as exigências de tempos e espaços atuais. Para acessar aos conhecimentos indígenas a única via não é entender uma língua falada, mas dar atenção ao que está acontecendo, sentir o clima de muita risada, de achar graça, fazer o silêncio, dançar nos ritmos, ouvir os sons de instrumentos musicais, suar, beber, sentir a embriaguez, fumar o tabaco, inalar o rapé, seguir as dietas estabelecidas. Enfim, há diversos caminhos que levam a um indivíduo a acessar os diversos conhecimentos.

Durante a festa os seres waimasa, yukʉmasa e bʉpoamasa participam como convidados especiais pelos kumua de um tõkowi. As especialidades das mulheres são importantes para que aconteça uma festa dentro de um tõkowi. As mulheres são especialistas na preparação de bebidas, comidas, pinturas, cantos e danças nas cerimônias de um tõkowi. O cuidado pela integralidade da vida cósmica fundamenta-se na cosmovivência, pois nos leva a compreender que não somente os que se consideram humanos habitam e cuidam do cosmo. Os humanos-terra, humanos-água, humanos-floresta, humanos-cachoeira, humanos-ar, humanos-pássaros, humanos-peixes, humanos-cobras, humanos-lagos, humanos-sol, humanos-lua, humanos-estrelas, humanos-chuvas, humanos-trovões etc., cuidam também do cosmo. Eles, mais que os humanos pamʉrimasa, conhecem a dinâmica cósmica.

Conclusão

No contexto de grandes transformações mundiais, climáticas, de enchentes e secas acentuadas, extensos desmatamentos para monocultura, grandes plantações, uso intenso de agrotóxicos, exploração mineral que desmata florestas, grandes escavações, poluição de águas com o mercúrio que mata os peixes e outros animais, os povos amazônicos tornam-se vítimas dessas mudanças climáticas que atingem as tradições humanas. Os ciclos de vida não seguem mais como no passado, mas seguem de forma desordenada: quando era época das enchentes é época de seca; assim os peixes ficam também sem saber a época de desova e piracema; descontrola a vida das fruteiras e dos animais que se alimentam das frutas.

Na perspectiva dos pamʉrimasa essas destruições acontecem devido à falta de respeito com a vida dos territórios e de seus habitantes. A prática cerimonial de proteção, de apaziguamento, de tranquilização torna-se frágil diante de utilização de maquinarias supermodernas de destruição dos territórios. As nossas fórmulas kumuánicas e bayaroánicas não conseguem neutralizar a força destrutiva do mercúrio, de agrotóxico etc. Alguns territórios amazônicos seguem existindo por causa da existência dos povos originários, que resistem e lutam para que os homens ambiciosos não acabem com aquilo que para eles é como Casa que têm seus donos.

Vale muito os povos originários terem outros tipos de tõkowiseri. Somente os tõkowiseri tradicionais (malocas) não bastam hoje em dia. Como também não bastam os kumua, Bayaroa e os Yaiwa, especialistas tradicionais das cerimônias rituais. Na atualidade os povos indígenas precisam transitar nas Embaixadas de países que querem defender as culturas dos povos do mundo inteiro, defender seus territórios, combater os desmatamentos. Novos tõkowiseri são as novas sedes de organizações indígenas espalhadas pelos territórios amazônicos que se conectam com as sedes de parlamentos indígenas internacionais. Somente os povos indígenas também não conseguirão defender seus territórios. Na atualidade, defender os diversos territórios espalhados pela terra produz sustentabilidade para a vida global. Como tradicionalmente os povos pamʉrimasa transitavam em três patamares, na atualidade precisa percorrer por seis continentes, para ganhar forças locais, regionais, nacionais e internacionais. É preciso conectar-se e interligar-se com as instituições que defendem os mesmos interesses dos pequenos, das florestas, dos rios. Quando eu falo assim não estou dizendo que as práticas cerimoniais tradicionais devem ficar fora: pelo contrário, elas devem ser as principais forças para nós indígenas. Os kumua, bayaroa e yaiwa são guardiões das filosofias, antropologias, teologias e espiritualidades que garantiram o nosso aparecimento como pamʉrimasa. Ortiz (2010|, p.223-34), falando da importância do Plan de Manejo Ambiental (PMA), diz:

Las investigaciones han permitido también revitalizar la memoria colectiva sobra as historias de origen de los diferentes grupos humanos que habitan en este rio, fortalecimiento la identidad cultural al implicarse un proceso de reconstrucción de los saberes propios que se há venido concretando en la reactivación de circuitos de transmisión del conocimiento tradicional. S han generado de esta manera, mecanismos para la apropiación, por parte de las nuevas generaciones, de los conocimientos para vivir bien y cuidar del territorio, propiciando a su vez oportunidades sociales, espirituales y económicas para los jóvenes dentro de la zona.

Para ajudar na luta pelos direitos nossos e da humanidade precisamos de especialistas que dialoguem de igual para igual com os demais especialistas. Precisamos de indígenas porta-vozes dos conhecimentos ancestrais, que conheçam bem suas culturas originárias e que, ao mesmo tempo, sejam formados como advogados, filósofos, antropólogos, arqueólogos, ecólogos, cientistas sociais, especialistas em direito internacional, especialistas em outras línguas.

Referências

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Notas

  • 1
    Elaborei esse conceito para explicar que os kumua são especialistas para ativar poderes para proteger, acalmar, pacificar, tranquilizar, esconder, livrar... os seres cósmicos (humanos e gentes de outros patamares) para que possam viver bem, não sejam atingidos pelos poderes de prejudicar a saúde dos seres, utilizando mʉnó (tabaco/fumo), patu (ipadu), ʉhpé/sikãta (breu branco), kahpi (ayahuasca), peyuru (caxiri/bebida fermentada).
  • 2
    O conceito explica que os bayaroa são especialistas para ativar poderes para proteger, acalmar, pacificar, tranquilizar, esconder, livrar... os seres cósmicos (humanos e gentes de outros patamares) para que possam viver bem, não sejam atingidos pelos poderes de prejudicar a saúde dos seres, cantando e dançando.
  • 3
    Esse conceito explica que os yaiá/yaiwa, são especialistas em diagnosticar as origens das doenças provocadas pelos seres da floresta, da água, da terra, trovão/relâmpago, vento; doenças causadas por outras especialistas humanos etc. Eles descobrem com o ritual de okó sistasé (lançando a água preparada para detectar a origem das doenças e os causadores de doenças); com a utilização da uhusé (chupar/sugando a doença na parte onde dói); e com mʉnó puhtiré (baforando a fumaça do cigarro).
  • 4
    Tõko significa sumo/suco de fruta de um arbusto denominado tõ. Em língua tuyuka se diz tõko (ko designa o líquido). Wiseri (plural) refere-se as “Casas”, no sentido de cosmos. Tõkowiseri significa casas de frutas doces, isto é, casas da vida, casas da saúde, do bem viver, bem-estar, bem-fazer e bem-relacionar com todos os seres cósmicos que podem ser conhecidos como humanos.
  • 5
    Tõko (pronunciado com o aberto) é uma palavra escrita em língua Ʉtãpinopona-tuyuka.
  • 6
    Entre os povos da família linguística Tukano original as pessoas são denominadas de pamʉrimasa (em língua tukano), pamʉribasoka (em língua tuyuka). A tradução literal de pamʉribasoka é gente que emergiu das águas, gente da fermentação.
  • 7
    Neste artigo vou utilizar o termo pamʉrimasa, em língua tukano; possui o mesmo significado do pamʉribasoka.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2024

Histórico

  • Recebido
    06 Jun 2023
  • Aceito
    12 Maio 2024
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