Resumo
Este artigo visa analisar a relação entre saneamento básico e saúde pública, destacando como aspectos na infraestrutura sanitária influencia a ocorrência de doenças. A metodologia aplicada foi uma revisão integrativa utilizando a estratégia PICO (População, Intervenção, Comparação e Resultado). Foram identificados 867 artigos através de busca em base de dados, dos quais 38 foram selecionados como relevantes após um rigoroso processo de triagem. A maioria dos estudos analisados revelou uma relação clara entre saneamento básico e saúde pública, destacando que melhorias no acesso à água potável, práticas higiênicas, infraestrutura sanitária adequada e prestação de serviços de saneamento resultaram em uma redução significativa na incidência/prevalência de doenças. No entanto, seis estudos não encontraram relevância significativa entre saneamento e saúde, sugerindo que outros fatores, como aspectos socioculturais, também devam ser explorados. O estudo reforça que o investimento em saneamento básico é crucial para a prevenção de doenças e redução de custos no sistema de saúde. Embora existam lacunas que necessitam de pesquisas adicionais, especialmente no que se refere a fatores socioculturais, as evidências apontam que melhorias no saneamento básico têm um impacto substancial na promoção da saúde e na qualidade de vida das populações.
Palavras-chave:
Saúde Pública; Infraestrutura sanitária; Saneamento; Políticas públicas
Abstract
This article aims to analyze the relationship between basic sanitation and public health, highlighting how aspects of sanitation infrastructure influence the occurrence of diseases. The methodology applied was an integrative review using the PICO strategy (Population, Intervention, Comparison, and Outcome). A total of 867 articles were identified through database searches, of which 38 were selected as relevant after a rigorous screening process. Most of the studies analyzed revealed a clear relationship between basic sanitation and public health, highlighting that improvements in access to drinking water, hygienic practices, adequate sanitation infrastructure, and the provision of sanitation services resulted in a significant reduction in the incidence/prevalence of diseases. However, six studies found no significant relevance between sanitation and health, suggesting that other factors, such as sociocultural aspects, should also be explored. The study reinforces that investment in basic sanitation is crucial to prevent diseases and reduce costs in the health system. Although there are gaps that require further research, especially regarding sociocultural factors, the evidence indicates that improvements in basic sanitation have a substantial impact on health promotion and the quality of life of populations.
Keywords:
Public Health; Sanitation infrastructure; Sanitation; Public policies
Introdução
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o saneamento é reconhecido como um direito humano básico, e consiste no gerenciamento ou controle de todos os fatores do meio físico do homem, que exercem ou podem exercer efeito deletério sobre seu bem-estar físico, mental ou social. Em conjunto com ações socioeconômicas, tem objetivo de englobar a salubridade ambiental e prevenir a ocorrência de epidemias e endemias, promovendo condições favoráveis à promoção de saúde e bem-estar (WHO, 2018).
O saneamento básico é uma grande preocupação de saúde pública, especialmente em países de baixa e média renda (Prüss-Üstün et al., 2016), é o que afirma também a OMS, quando elenca o saneamento básico precário como um “risco tradicional” à saúde. Muito associado à pobreza, afeta mais a população de baixa renda, em conjunto com outros riscos, como a subnutrição e a higiene inadequada (WHO, 2009).
Mundialmente, estima-se que mais de 700 milhões de pessoas não tenham acesso a água potável e que três bilhões não tenham acesso a saneamento melhorado (WHO; UNICEF, 2019). Fuentes et al. (2006) salientam que a água contaminada é responsável por inúmeras doenças de veiculação hídrica. Todos os anos, cerca de 1,8 milhão de crianças morrem em decorrência de diarreia ou outras doenças provocadas por água inadequada para o consumo humano e por más condições de saneamento, correspondendo a aproximadamente 4.900 mortes por dia no planeta.
Viana et al. (2022) revelam que em 2020 a taxa de incidência de internações por doenças associadas à ausência de saneamento básico, no Brasil, foi de 7,91% a cada dez mil habitantes, e foram gastos, no mesmo ano, mais de R$ 70 milhões apenas com internações causadas por essas doenças.
Mesmo distante do ideal, a expansão do saneamento ao longo dos anos, com a ampliação das áreas de cobertura com água tratada e coleta de esgoto, trouxe ganhos à saúde, permitido a redução das doenças e das mortes por veiculação hídrica. Isso porque, em 2010, 54,6% da população não tinha coleta dos esgotos, enquanto nove anos depois (em 2019), a população sem acesso foi reduzida a 45,9%. No mesmo período, registrou-se queda nas internações por doenças de veiculação hídrica, passando de 603,6 mil para 273,4 mil, representando 5,1% e 2,2% de todas as internações no país, respectivamente (Instituto Trata Brasil, 2021).
Além de impactos na saúde, a oferta eficiente de saneamento pode implicar contribuições positivas para economia do país. A falta de saneamento básico universal no país, por sua vez, gera perdas bilionárias para a economia. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), doenças gastrointestinais provocadas pelo acesso deficiente à água tratada e ao esgoto encanado levam milhares de trabalhadores a faltarem aos seus postos de trabalhos todos os anos (Vettorazzo, 2022).
O objetivo deste artigo de revisão integrativa é avaliar e sintetizar a relação entre saneamento básico e a ocorrência de doenças, identificando as principais evidências científicas sobre como a infraestrutura sanitária influencia na saúde pública. Busca-se observar como a falta de saneamento adequado contribui para a prevalência e incidência de doenças, bem como observar que intervenções eficazes podem mitigar esses impactos negativos. Além disso, o artigo pretende mostrar que as políticas públicas que promovem melhorias na infraestrutura sanitária, visam à redução de doenças e ao aprimoramento da qualidade de vida das populações afetadas.
Metodologia
Para a realização deste estudo, optou-se pelo método de revisão integrativa da literatura, que reúne, analisa e sintetiza os resultados de pesquisas sobre a temática investigada (Botelho et al., 2011; Mendes et al., 2008). Esse método permite sintetizar resultados que discutem a implementação de intervenções efetivas nas políticas públicas de saneamento básico, com foco nas doenças inter-relacionadas.
Essa metodologia torna os resultados de pesquisa mais acessíveis, uma vez que em um único estudo o leitor tem acesso a diversas pesquisas realizadas. Desta forma, permite-se agilidade na divulgação do conhecimento, na construção de uma análise ampla da literatura, contribuindo para discussões sobre métodos e resultados de pesquisas, assim como reflexões sobre a realização de futuros estudos (Mendes et al., 2008).
O delineamento do estudo se deu por meio das recomendações do checklist do Statement for Reporting Systematic Reviews and Meta-Analyses of Studies - PRISMA. Assim, foram seguidas as seguintes etapas: identificação do tema e escolha da questão de pesquisa; busca na literatura; definição dos critérios de inclusão e exclusão dos estudos; seleção da amostra; inclusão dos estudos selecionados; definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; análise dos resultados e apresentação da revisão; e por fim, discussão dos dados (Galvão; Pansani, 2015; Galvão; Pereira, 2014; Scorsolini-Comin; Santos, 2010; Mendes et al., 2008).
Nesta revisão integrativa, optou-se por utilizar a estratégia PICO, acrônimo para Patient (População - P), Intervention (Interesse - I), Comparison (Comparação - C), Outcomes (Desfecho - O) (Santos et al., 2007). É importante destacar que essa estratégia trabalha com evidências de pesquisas quantitativas (Araújo, 2020).
Na temática abordada neste estudo, o PICO foi formulado da seguinte maneira:
- P: População residente.
- I: Intervenções com implantações de serviços de saneamento básico.
- C: Comparações de grupos com diferentes condições de atendimento por saneamento básico.
- O: Desfechos em saúde coletiva (como incidência e prevalência de doenças, mortalidade, qualidade de vida etc.).
Definiu-se, então, a seguinte questão de pesquisa: “O que há de produção científica que relacione a implantação dos serviços de saneamento e os impactos na ocorrência de doenças associadas ao saneamento inadequado?”.1
Após a estruturação da questão de pesquisa, foi realizada uma consulta aos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), para o estabelecimento da estratégia de busca nos bancos de dados. A busca pelas produções ocorreu de janeiro a maio de 2024, nas seguintes bases de dados: LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), PubMed® e Scielo. Para a busca na literatura, foram utilizados descritores indexados, de acordo com a padronização DeCs/MeSh: “saneamento”, “doenças”, e “saúde pública”.
Foram incluídos artigos de texto completos com foco em saneamento básico e saúde pública publicados entre os anos de 2007 e 2023, no idioma português, inglês e espanhol. Considerou-se como marco inicial da pesquisa o ano de 2007, pois foi o ano de publicação da Lei Federal nº 11.445/2007 (Brasil, 2007) a qual estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico e para a política federal de saneamento básico, além também de ter sido o ano de lançamento do primeiro Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que tinha como objetivo estimular o crescimento da economia brasileira e melhorar as condições de vida da população brasileira, através do investimento em obras de infraestrutura (dentre elas estão incluídas as obras de saneamento básico) (Souza; Gomes, 2019; BNDES, 2011)
A revisão integrativa é um tipo de revisão de literatura que busca sintetizar e integrar resultados de estudos independentes sobre um tema específico, apresentando o estado da arte e contribuindo para o desenvolvimento de teorias, identificando convergências e divergências nos resultados e metodologias dos estudos incluídos. Dessa forma permite que o leitor reconheça os profissionais que mais investigam determinado assunto, separando assim o achado científico de opiniões e ideias (Mendes et al., 2008; Souza et al., 2010).
Nesse sentido, foram excluídas teses, dissertações, monografias, revisões tradicionais de literatura, estudos secundários (revisões sistemáticas e integrativas), carta-resposta, editoriais, resenhas, relatos de experiências, artigos de opinião, resumos publicados em anais de eventos, publicações em websites, propagandas veiculadas, bem como documentos produzidos nos níveis governamentais, acadêmicos, empresariais, industriais, sem controle de editores. Estes tipos de documentos não são considerados estudos empíricos com resultados que possam ser integrados na revisão, pois geralmente apresentam interpretações, opiniões ou reflexões pessoais, e não resultados de pesquisas científicas. A revisão integrativa busca reunir resultados de estudos empíricos para identificar o conhecimento atual sobre um tema (Nassi-Calò, 2021; Alvarenga et al, 2024).
Percorreram-se três fases para seleção dos estudos. A primeira seleção fez a verificação de duplicadas, na segunda abordagem de triagem dos artigos avaliou-se títulos e resumos, e por fim, a leitura completa dos artigos restantes para inclusão ou exclusão. Nessa etapa da revisão integrativa foi utilizado o aplicativo de revisão Rayyan, que auxilia na triagem de artigos duplicados e organização daqueles que serão incluídos ou excluídos da pesquisa. Esse aplicativo da Web usa um processo de semiautomação, e incorpora um alto nível de usabilidade neste procedimento (Ouzzani et al., 2016).
Nos artigos incluídos foi realizada uma análise descritiva, com a apresentação dos dados agrupados em nome da revista, ano, título, autor, objetivo e resultados. Esses dados fundamentaram os resultados da revisão, os quais foram apresentados de maneira descritiva e por meio de tabelas.
Resultados
As buscas nas bases de dados mencionadas, por meio dos descritores e critérios estabelecidos, resultaram em 867 publicações/registros. O primeiro critério de seleção identificou 28 duplicadas, restando assim 839 para a fase de leitura de título e resumo, dos quais 699 foram excluídos por não se relacionarem ao tema de interesse e não corresponderem a questão de pesquisa adotada. Os 140 estudos restante seguiram para a fase de leitura na íntegra, sendo 102 excluídos por não abordarem a correlação direta entre saneamento básico e doenças inter-relacionadas, ou não apontarem o saneamento como fator de risco para essas doenças. De tal maneira 38 publicações foram incluídas na revisão por cumprirem os critérios de inclusão e por responderem à pergunta de pesquisa. A Figura 1 exibe o fluxograma relativo às ações do processo de seleção das publicações.
Fluxograma do processo de identificação, seleção e inclusão dos estudos, elaborado a partir da recomendação PRISMA
Seguiram-se, portanto, as fases de interpretação dos resultados e reprodução da revisão considerando os elegíveis para compor a amostra da presente revisão integrativa. O Quadro 1 caracteriza os estudos de acordo com os autores, ano de publicação, periódico, título e objetivo central do estudo.
Como pode ser observado, 38 artigos compuseram a amostra desta revisão integrativa, a qual se propôs a identificar a relação entre o saneamento básico e a saúde pública, sendo uma correlação entre essas variáveis apresentando o saneamento como um fator de risco para essas doenças. Os estudos foram mapeados em 15 países, sendo 13 estudos realizados na América do Sul (Brasil e Peru), 12 no continente africano (Guiné-Bissau, Benin, Moçambique, Quênia e Etiópia) e 11 no asiático (Arábia Saudita, Iêmen, Irã, Paquistão, Nepal, Bangladesh, Índia e China). Não houve achados para Europa, Oceania, América do Norte e Central. Os países com mais relatos foram Brasil e Etiópia, com 12 e 8 trabalhos, respectivamente (Figura 2).
Com relação ao Brasil, foram identificados 12 estudos; dos 26 estados e Distrito Federal, sete possuíam um estudo (Amazonas, Amapá, Maranhão, Ceará, Bahia, Minas Gerais e Distrito Federal) e o Pará, dois estudos. Pode-se perceber o destaque para estudos realizados nas regiões Norte, que apresentou o maior quantitativo (4), e a Nordeste, com três estudos. Três estudos apresentaram dados nacionais (Figura 3).
Durante a leitura dos textos, foi possível observar a abordagem de inúmeros aspectos relacionados ao saneamento, incluindo o acesso a água e esgotos, condições sanitárias em comunidades específicas, fatores socioeconômicos na ausência de serviços de esgotamento sanitário, relação entre saneamento e saúde, relação entre saneamento, higiene e saúde e aspectos de investimento público.
Discussões
A partir da leitura completa dos artigos selecionados, analisando seus objetivos e resultados, foi possível observar que a principal articulação entre o saneamento básico e a saúde reside na correlação entre a prestação desse serviço e a ocorrência de doenças. De modo geral, constatou-se a importância das condições sanitárias como fatores de risco para a prevalência de doenças.
Além disso, alguns estudos destacaram a relevância dos investimentos aplicados em setores de infraestrutura sanitárias com impacto de minimizar a problemática nos serviços de saúde. Ademais, destaca-se, além dos aspectos sanitários, a importância dos hábitos higiênicos no controle de doenças nas comunidades.
Para uma melhor apresentação das conclusões obtidas na leitura dos artigos, estas podem ser categorizadas nos seguintes grupos de abordagem, por apresentarem semelhanças na temática dos resultados encontrados:
-
Acesso a água tratada;
-
Hábitos higiênicos;
-
Instalações sanitárias adequadas;
-
Implantação dos serviços de saneamento;
-
Investimentos/Gastos em saneamento.
Ainda foram identificados alguns artigos cujos resultados apontam a não relação entre impactos de aspectos do saneamento relacionadas à ocorrência de doenças. Na Figura 4, por meio do Diagrama de Venn, é possível identificar a quantidade de artigos que se enquadram em cada linha de abordagem.
Com base nesse agrupamento e categorização, serão apresentados os resultados alcançados pelos autores em seus estudos.
Acesso a água tratada (1)
Em pleno século XXI, o Brasil ainda apresenta enormes desafios em relação à oferta dos serviços de saneamento. Cerca de 33 milhões de pessoas vivem sem acesso à água potável, segundo dados divulgados pelo Instituto Trata Brasil. O dado chama a atenção pelo fato de o país ser um dos mais ricos em disponibilidade hídrica do planeta, e ainda assim, principalmente a Região Norte, ter dificuldade de acesso a água tratada em quantidade e qualidade satisfatória (SNIS, 2023).
O cuidado quanto à segurança hídrica no acesso da água é fundamental para garantir o bem-estar à população. As contribuições de Birhan et al. (2023) apontaram associação significante entre a ocorrência de doenças diarreicas com a fonte de água utilizada nos domicílios. Mostrou uma probabilidade 12,5 vezes maior de prevalência de doenças diarreicas entre crianças de 5 anos que faziam uso de água contaminada com fezes.
Instalações sanitárias adequadas (2)
Em alguns achados, identificou-se que instalações sanitárias adequadas se apresentam como um recurso fundamental na prevenção de doenças. De acordo com Brahmanandam e Bharambe (2023), a prática de defecação a céu aberto está associada à disseminação de patógenos responsáveis por doenças diarreicas. Seu estudo corrobora a eficácia das instalações sanitárias na mitigação desse problema ao evidenciar que sua implementação nas comunidades resulta em uma significativa redução na morbidade por diarreia.
No mesmo sentido, Lin et al. (2020) realizaram uma análise sobre a diminuição da taxa de mortalidade por diarreia, a qual declinou de 7.748,05 em 2006 para 2.405,46 em 2017. Este decréscimo substancial é atribuído principalmente à adoção generalizada de instalações sanitárias adequadas ao longo desse período.
Serviços de saneamento (9)
A importância da implantação dos serviços de saneamento e de sua associação com a saúde humana já é reconhecida desde a Antiguidade e consolidada na literatura, sendo ressaltada nesta revisão por vários autores (Gaffan et al., 2023; Asgedom et al., 2023; Bradshaw et al., 2019; Paiva; Souza, 2018; Pioli et al., 2016; Gonçalves et al., 2016; Butala et al., 2010; Al-Ghamdi et al., 2009; Calijuri et al., 2009).
Gaffan et al. (2023) e Asgedom et al. (2023) identificaram que crianças que viviam em domicílios com serviços básicos de saneamento tinham menor probabilidade de diarreia do que outras. Gaffan et al. (2023) pode ainda apontar uma probabilidade de 1,5 a 1,9 vezes maior de desenvolvimento de diarreia nas crianças das comunidades com serviços precários de saneamento.
Bradshaw et al. (2019) afirmam que há relações entre as condições ambientais e métricas combinadas de saúde infantil em toda a região africana. Pontuam que as futuras intervenções com políticas públicas são eficazes para reduzir o sofrimento e a morte infantil no futuro, uma vez que, no estudo, ficou demonstrado que a saúde infantil se torna mais vulnerável quando a qualidade da água, o serviço de saneamento, a qualidade do ar e o desempenho ambiental eram mais baixos. Estes resultados enfatizam a importância do investimento contínuo em serviços de saneamento.
Paiva e Souza (2018) demonstraram a importância da cobertura por esgotamento sanitário e abastecimento de água, refletindo nas internações por doenças relacionadas ao saneamento inadequado. O trabalho apresenta uma redução no risco de internação para o ano de 2013, indicando que cerca de 16,3% das internações por doenças de veiculação hídrica poderiam ter sido evitadas, com a ampliação do número de indivíduos residentes em domicílios com coleta por rede de esgoto.
Gonçalves et al. (2016) fizeram uma análise específica em relação a fatores de risco para ocorrência de leptospirose e concluíram que há uma maior concentração da doença em áreas com ausência de coleta de resíduos sólidos domiciliares, esgotamento sanitário e abastecimento de água, todos esses serviços compreendidos pelo saneamento básico.
Para Pioli et al. (2016), a prestação dos serviços de abastecimento de água juntamente com o esgotamento sanitário foram as variáveis dos indicadores de saneamento básico que demonstraram os mais elevados índices de correlação com os indicadores de saúde, especificamente com as doenças infecciosas e parasitárias (DIPs). Na mesma analogia, Butala et al. (2010), em seu estudo, fornecem evidências estatísticas rigorosas para mostrar que a melhoria na infraestrutura de comunidades está associada a melhores resultados de saúde, apresentando redução de 18% nas doenças transmitidas pela água após as intervenções com as devidas melhorias nesse segmento.
Nesse mesmo viés, Calijuri et al. (2009) mostraram que, de modo geral, domicílios que não apresentam história de agravo (dentre eles foram estudados, malária, micoses, dengue, febre amarela, diarreia) estão servidas com melhores níveis de saneamento.
Al-Ghamdi et al. (2009) identificaram que o principal fator de risco para prevalência de diarreia estava relacionado a derrames de esgoto a céu aberto provenientes de fossa sépticas, indicando a importância de implantação de serviço adequado de saneamento básico.
Investimento em saneamento (3)
No olhar em que o saneamento básico precário é responsável pela elevada destinação de recursos financeiros públicos para a assistência médica em doenças relacionadas ao saneamento inadequado, o que acarreta prejuízos econômicos ao Sistema Único de Saúde - SUS devido à utilização de verbas públicas para o tratamento de doenças evitáveis, Ferreira et al. (2021), Salla et al. (2019) e Rai et al. (2019) trazem contribuições muito pertinentes.
Ferreira et al. (2021) buscaram avaliar o impacto do investimento em infraestruturas de serviços saneamento na prevenção ou erradicação de doenças de veiculação hídrica. Concluiu-se que a propagação de doenças transmitidas pela água no Brasil poderia ser mitigada se os estados brasileiros melhorassem drasticamente a eficiência de seus investimentos para garantir a cobertura de todos os cidadãos. Da mesma forma, seria possível evitar as internações hospitalares, diminuindo gastos no SUS, bem como beneficiando a economia do país, evitando dias de trabalho perdidos. De acordo com os autores, um investimento relativamente pequeno em saneamento teria impacto enorme nas hospitalizações por doenças hídricas.
Na mesma linha, Salla et al. (2019) explanam que a implantação de saneamento básico eficiente elimina os gastos com as doenças de veiculação hídrica, pois para cada dólar investido no saneamento básico economizam-se aproximadamente 4,3 dólares com a saúde, valor similar ao encontrado na literatura da área (Eid, 2015; Mara et al., 2010; ONU, 2014; WHO, 2012). Salientam, ainda, que as constatações demonstram que as melhorias no sistema de abastecimento de água são mais efetivas na economia de gastos com a saúde. Dessa forma, o estudo indicou que a relação de custo saúde/saneamento apresenta quedas sensíveis com melhorias no sistema de abastecimento de água.
Adicionalmente, Rai et al. (2019) revelam que o efeito combinado do saneamento e da sensibilização através da dotação orçamental é muito benéfico para controlar a propagação de doenças. Por meio de uma eficaz cobertura sanitária através de alocação orçamentária e capacidade de carga da dotação orçamental para programas de saneamento, é possível reduzir bactérias no meio ambiente e com isso baixar o limiar epidêmico, controlando a propagação da infecção.
Água tratada e instalações sanitárias (7)
Girmay et al. (2023) observaram, quando da utilização de água de fontes não seguras, probabilidade 25,99 maior de acometimento por doenças diarreicas. Conclusões revelaram que se mais de 99% dos agregados familiares tivessem acesso a serviços de água potável geridos de forma segura, de acordo com a agenda dos ODS para 2030, a prevalência de doenças diarreicas entre crianças menores de 5 anos seria significativamente reduzida. A ausência de utilização de instalações sanitárias também teve influência, sendo a probabilidade de ocorrência de diarreia de 5,17 vezes maior.
Nesse mesmo viés, Srivastava et al. (2022) concluíram, em seus resultados, associações de diarreias com consumo de água não tratada e instalações sanitárias inadequadas. A probabilidade de diarreia foi 32% maior entre os idosos que usavam instalações sanitárias não melhoradas. Da mesma forma, os idosos que usaram fontes de água não melhoradas tiveram maiores probabilidades de diarreia do que os seus homólogos.
Para Haq et al. (2022), a qualidade da água utilizada e as instalações sanitárias inadequadas foram os fatores significativos que contribuíram para a desnutrição infantil causando atraso no crescimento nas zonas estudadas.
A ausência de instalações sanitárias foi positivamente associada à doença intestinal nos estudos de Yoseph e Beyene (2020), principalmente atendimento com água e instalações sanitárias de uso para necessidades fisiológicas. Nesse mesmo sentido Azage et al. (2016) apresentaram probabilidades de 1,73 e 2,43 maiores de crianças terem diarreia pelo uso de água não tratada e instalações sanitárias inadequadas, respectivamente.
De acordo com Ebrahimi et al. (2016) houve redução significativa no número de DALYs (indicador, onde um DALY corresponde a um ano de vida saudável que é perdido ou vivido com incapacidade) e mortes entre 1990 e 2010, o que foi atribuído ao desenvolvimento de novos sistemas de água e saneamento ambiental no Irã. O número de DALY para uso de água não tratada e ambientes insalubres (precárias instalações sanitárias) foi de 5.838 em 1990, que diminuiu para 326 em 2010.
Sady et al. (2013) identificaram em seus estudos uma maior prevalência de casos de esquistossomose entre indivíduos que tinham contato com água não tratada e também que faziam uso de instalações sanitárias inadequadas.
Água tratada e hábitos higiênicos (2)
Aliado ao acesso à água tratada, Kang et al. (2022) e Cha et al. (2021) investigaram a influência dos hábitos higiênicos como fatores determinantes na prevalência de doenças dentro das comunidades analisadas. Kang et al. (2022) observaram que comunidades que dispunham de acesso à água tratada e adotavam práticas de higiene apresentaram significativa redução no risco de cólera (redução de 47%). Da mesma maneira, Cha et al. (2021) constataram que a prática de hábitos higiênicos se mostrou estatisticamente significativa na prevenção da incidência de diarreia.
Desta forma, é imprescindível ressaltar que a eficácia e o impacto positivo dos hábitos higiênicos na saúde pública dependem diretamente da garantia de acesso contínuo e seguro à água tratada.
Hábitos higiênicos e serviços de saneamento (2)
Vasconcelos et al. (2011), frente aos resultados por eles observados, ficou evidenciado que a prevalência de enteroparasitoses nas crianças está diretamente relacionada com as condições de vida e de higiene. Constatou-se que 38% dos domicílios não possuíam filtros e faziam uso de água não tratada para o consumo e mais de 45% das residências possuíam a fossa séptica como modalidade de saneamento, o que contribui para que no contato com o solo seja facilitado para contrair a doença. Com relação aos hábitos higiênicos, foi observado que nas localidades que apresentavam boas condições de saneamento ainda assim foram encontrados parasitores indicando que o fator de risco é a falta de orientação e higiene por parte da população.
Silva et al. (2011) avaliaram as condições relacionadas com a ascaridíase, em específico. O coeficiente geral de prevalência foi alto, de 53,6% que pode ser relacionado ao grau de insalubridade ao qual a população estava inserida, bem como seus precários hábitos de higiene. No quesito saneamento básico, 78,1% das famílias afirmaram realizar suas necessidades fisiológicas ao ar livre. Quanto ao destino do lixo, as famílias admitiram não haver coleta periódica no bairro onde moram. Dessa maneira, a prevalência das parasitoses é um reflexo claro da falta de saneamento básico da região estudada.
Água tratada X hábitos higiênicos X instalações sanitárias (4)
Derseh et al. (2021) revelaram que os preditores de diarreia aguda eram a falta da prática de hábitos higiênicos, o uso de água não tratada bem como a ausência de instalações adequadas para as necessidades fisiológicas, oferecendo contato direto no seu manuseio pelo ser humano.
Sobre o estudo da prevalência de enteroparasitores, Vilar et al. (2021) mostraram a forte associação a práticas de higiene deficitárias e uso de água não tratada. Ainda como fator de risco, a comunidade fazia uso de fossas sépticas, as quais estavam próximas aos poços em que utilizavam da água para consumo.
Conforme Soboksa et al. (2019) a ocorrência de diarreia infantil aumentou entre crianças cujas famílias não utilizavam água tratada, bem como aquelas que utilizavam instalações sanitárias inadequadas. Sendo que a prática de hábitos higiênicos apresentou menor probabilidade de ter diarreia.
Cowman et al. (2017) apontaram como fatores de risco para a ocorrência de cólera a utilização de água não tratada, bem como o uso de instalações sanitárias precárias, e aliado a isso, práticas de higiene deficientes.
Água tratada X instalações sanitárias X serviços de saneamento (1)
Bellido et al. (2010), com os resultados apresentados em seu estudo indicaram que a infraestrutura precária e a falta de serviços de saneamento são determinantes importantes da mortalidade por doenças de transmissão hídrica, nesse caso em específico se mostrou fator preponderante as variáveis abastecimento de água, instalação sanitária e coleta de lixo.
Água tratada X hábitos higiênicos X serviços de saneamento (1)
Nos resultados apresentados por Gebru et al. (2023) as infecções parasitárias intestinais estavam associadas a más condições de saneamento. Aspectos de higiene também apresentaram como fatores de risco para maiores infecções, assim como com a relação do consumo de água de fontes não tratadas aumentou a probabilidade de contrair diarreia. Observa-se nesse sentido que fica comprometida a prática de bons hábitos higiênicos quando faltam elementos para garantir essa prática, como disponibilização de coleta de resíduos, uso de instalações sanitárias limpas e consumo de água tratada. Neste estudo, a comunidade despejava resíduos em campo aberto, com probabilidade 1,7 vezes maior de ser acometida por infecções parasitárias. Ainda foi observado que apenas 14% das latrinas utilizadas para necessidades fisiológicas estavam limpas, o que aumentava em 1,8 vezes a probabilidade de infecção. Aliado a isso, a indisponibilidade de água tratada aumentava em 2,36 vezes de contraírem diarreia.
Não identificada relação saneamento X saúde (6)
Em contraste com o exposto nos parágrafos anteriores, alguns estudos encontraram resultados opostos sobre a relação entre saneamento básico e a ocorrência de doenças, desafiando o consenso estabelecido na literatura.
No estudo de Torres-Slimming et al. (2023), nas comunidades estudadas, foi observado que aquelas que possuíam aparelhos sanitários tinham mais probabilidade (4,29 vezes) de episódios de diarreia. Da mesma maneira ocorreu com a utilização de água tratada, onde as comunidades que faziam uso tinham 4,25 vezes a mais de episódio de diarreia. Os autores citam essa conclusão como descobertas inesperadas, uma vez que não está alinhada com outros estudos globais e sugerem uma investigação mais aprofundada sobre os fatores locais de risco.
O objetivo da pesquisa de Araújo et al. (2021) foi correlacionar indicadores operacionais de abastecimento de água com a frequência de doenças de notificação compulsória de transmissão hídrica. As hipóteses de sua pesquisa foram rejeitadas, ou seja, a melhoria dos indicadores operacionais não contribuiu com reduções ocorrência de doenças diarreicas agudas. Os autores ainda esclarecem que essas conclusões podem ser em virtude de falhas nos bancos de dados, sugerindo novos estudos.
Por sua vez, Knee et al. (2021) estudaram o impacto da intervenção em saneamento urbano em localidades com prevalência de infecção entérica. Não houve evidências de que a intervenção tenha tido efeito na prevalência de qualquer infecção bacteriana ou protozoária.
De acordo com Bhandari et al. (2019), os resultados de seu estudo mostraram que as probabilidades dos indivíduos em desenvolver uma doença eram 3,07 vezes maiores entre aqueles que utilizavam água tratada.
Com relação a isto, é importante observar que apenas o acesso ao abastecimento de água pode não ser suficiente. Outros fatores na comunidade podem contribuir para o surgimento de doenças, como fatores culturais, hábitos de higiene ou deficiências nas instalações físicas relacionadas ao abastecimento de água.
Santos et al. (2014) revelaram elevada ocorrência de parasitas intestinais em áreas com bom atendimento por rede de esgoto e abastecidas com água tratada. Neste cenário, os resultados indicaram que outros fatores devem favorecer a ocorrência de parasitas, no caso os maus hábitos de higiene seriam os principais fatores relacionados à transmissão de parasitas intestinais.
Da mesma maneira, Vieira e Benetton (2013) não observaram resultados estatisticamente significativos que apontassem a relação entre as parasitoses intestinais e os fatores ambientais.
Conclusão
Por meio dessa abordagem integrativa, a maioria dos autores delinearam a inter-relação entre condições sanitárias e saúde humana, destacando a importância de intervenções que visem melhorar os aspectos fundamentais do saneamento básico e seus impactos na saúde pública. O paradigma que associa o acesso à água de qualidade com a prevenção de doenças hídricas é amplamente reconhecido. No entanto, outros fatores, como os hábitos higiênicos e os aspectos socioculturais, também desempenham um papel crucial nessa relação.
Embora o acesso à água seja uma condição sine qua non para a prática de hábitos higiênicos, algumas investigações revelaram que apenas dispor de acesso à água não é suficiente, sendo crucial que práticas higiênicas sejam efetivamente realizadas. Ações simples, como lavar as mãos e roupas, higienizar alimentos, tomar banho, manter limpas as instalações sanitárias e descartar o lixo corretamente, são formas eficazes de prevenir diversas doenças. Portanto, a melhoria das condições de saneamento não se resume apenas à disponibilização de água, mas também à promoção da educação sanitária envolvendo o conhecimento de práticas higiênicas adequadas.
A ausência ou deficiência de saneamento tem impactos significativos na saúde pública, contribuindo para a incidência de doenças infecciosas e parasitárias, além de aumentar os gastos públicos com consultas médicas e internações. Investimentos prioritários em saneamento básico são essenciais para implementar intervenções eficientes que reduzam agravos e doenças preveníveis, resultando em economias significativas para o sistema de saúde e benefícios para a saúde física da população. Uma população saudável é mais apta a trabalhar e estudar, o que contribui para o desenvolvimento e a economia do país.
Além disso, garantir o acesso aos serviços de saneamento básico é um passo fundamental para assegurar os direitos humanos e a dignidade social, reduzindo a exposição a situações de vulnerabilidade social. Apesar do reconhecimento dos efeitos adversos da ineficiência e falta de cobertura de saneamento, há uma lacuna na produção de estudos que comprovem estatisticamente a correlação entre saneamento e saúde. A apresentação de dados quantitativos que demonstrem a redução de ocorrências de doenças com o aumento dos índices de atendimento de saneamento é necessária para ampliar o conhecimento científico sobre os determinantes sociais e ambientais da saúde, subsidiando a aplicação efetiva de políticas públicas adequadas.2
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Todos dados da pesquisa estão disponíveis neste artigo.
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Este artigo é resultado da tese de doutorado intitulada Estimação de valores de referência associados à probabilidade de ocorrência de doenças diarreicas aguda no Estado do Acre: uma avaliação da influência da oferta de saneamento básico, de autoria de Wilians Montefusco da Cruz, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Acre, com previsão de defesa para março de 2027.
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W. M. da Cruz e C. de L. A. Montefusco: concepção e projeto, análise e interpretação dos dados, redação do artigo. J. G. do V. Moreira: revisão crítica relevante do conteúdo intelectual, aprovação final da versão a ser publicada. K. G. Passos: concepção e projeto, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual, aprovação final da versão a ser publicada. Os autores são responsáveis por todos os aspectos do trabalho na garantia da exatidão e integridade de qualquer parte da obra.
Todos dados da pesquisa estão disponíveis neste artigo.





Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.
Fonte: Elaborado pelos autores, segundo resultados obtidos na revisão, 2024.Nota: Em dois estudos, não foi possível identificar o local de pesquisa.
Fonte: Elaborado pelos autores, segundo resultados obtidos na revisão, 2024.
Fonte: Elaborado pelos autores, 2024.