Em tempos desafiadores, marcados por crescentes tensões dentro e fora do país, além de discursos e práticas autoritários, o falecimento de Luiz Antônio de Castro Santos em 4 de julho de 2025, aos 80 anos, representa uma grande perda. Sociólogo e um dos mais importantes expoentes das ciências sociais e da saúde, Castro Santos deixou um legado de pesquisa e reflexão que a Revista Physis tem a honra de homenagear neste editorial, revisitando momentos marcantes de sua biografia e as contribuições que moldaram sua trajetória no Instituto de Medicina Social da UERJ e em outras instituições colaboradoras.
Sua carreira foi um testemunho da profunda interconexão entre a sociologia histórica e a Saúde Coletiva. Na década de 1980, quando a sociologia histórica ainda hesitava em estabelecer vínculos entre a saúde pública e a história do Brasil, Castro Santos foi pioneiro. Seus primeiros escritos sobre as reformas sanitárias em São Paulo e na Bahia, no início do século XX, tornaram-se públicos. Baseados em sua tese de doutorado defendida em Harvard em 1987, esses trabalhos foram inovadores ao traçar relações entre saúde, pensamento social e políticas de saúde no Brasil. Desde então, a obra de Castro Santos se tornou um marco, abrindo caminho para uma nova linha de estudos históricos e aprofundando o conhecimento em questões cruciais para historiadores e cientistas sociais que investigam a saúde pública e o pensamento social brasileiro. Sua contribuição foi igualmente relevante para sanitaristas e pesquisadores da Saúde Pública e Coletiva, enriquecendo e ampliando o debate no campo.
A partir do Instituto de Medicina Social, Castro Santos construiu uma vasta obra na sociologia histórica da saúde, orientando diversos pesquisadores. Graças a ele, muitos se dedicaram a explorar as complexas relações entre saúde internacional, nacionalismo, saúde pública, pensamento social e a história das profissões de saúde no país. Sua análise da saúde e do saneamento como “ideias-força” na formação da nacionalidade brasileira durante a Primeira República (1889-1930) foi particularmente influente. Essa perspectiva foi retomada e desenvolvida por nomes como Gilberto Hochman e Nísia Trindade Lima, que aprofundaram as discussões sobre pensamento social e saúde pública. Com o apoio constante de Castro Santos, esse movimento ganhou contornos institucionais, com a criação da Casa de Oswaldo Cruz, uma das unidades da Fiocruz. A Casa é hoje responsável pela produção e disseminação do conhecimento histórico em saúde e ciências biomédicas, pela preservação do patrimônio cultural da saúde e pela educação em ciência e tecnologia.
Castro Santos iniciou sua carreira profissional no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em agosto de 1985, dedicando-se a temas como desigualdade social e demografia brasileira. Cerca de 12 anos depois, em meados de 1997, a convite da antropóloga Maria Andrea Loyola, ele ingressou no Instituto de Medicina Social. Essa instituição, desde meados dos anos 1970, teve papel de destaque nas discussões e iniciativas relacionadas ao movimento pela reforma sanitária brasileira e na construção e consolidação da Saúde Coletiva, questionando a visão exclusivamente biomédica da saúde.
Sua atuação como pesquisador, profundamente ancorada na literatura brasileira e em diálogo com ela, revela também o humanista reconhecido por sua visão sobre as pessoas, as instituições e a própria identidade nacional. Castro Santos, por exemplo, cultivava uma profunda admiração e amizade por Antônio Cândido, sociólogo e crítico literário. Com ele, correspondia-se e compartilhava um imenso zelo pela qualidade textual, considerando requisitos inegociáveis a precisão e o apurado senso estético. Esse rigor se manifestava em suas leituras sempre acuradas, nas revisões e nos diálogos sobre as mais diversas obras e autores. E, é claro, em suas próprias obras, como O pensamento social no Brasil: pequenos estudos (Santos, 2003), Saúde & História (Santos; Faria, 2010), em coautoria com Lina Faria; e O pensamento social no Brasil: estilos, idiomas (Santos, 2017).
Seu olhar crítico era sempre acompanhado por uma imensa generosidade; era comum vê-lo em debates acalorados, mas sempre aberto à escuta e ao aprendizado. Essa generosidade se manifestava mesmo quando reclamava do que chamava de “obsessão metodológica” na Saúde Coletiva, que dizia ser uma forma de compensação à pouca atenção que a área devota à teoria social. Sua mente inquieta e seu espírito combativo farão profunda falta nestes tempos difíceis. Assim, podemos afirmar que o legado que nos deixa não se resume a um conjunto de obras e ideias, mas um convite permanente à reflexão e a um contínuo olhar crítico em relação às instituições e políticas de saúde e educação.
Sua partida nos entristece, mas acima de tudo, celebramos sua vida, obra e ideias, que continuarão a nos inspirar na construção de um país onde a saúde não seja um privilégio, mas uma realidade para cada cidadão. Seu nome estará para sempre gravado na história e sociologia da saúde, bem como na própria Saúde Coletiva brasileira.
