Open-access Percepções de estudantes do campo da saúde sobre a prática interprofissional colaborativa no cuidado a pacientes com doenças crônicas

Resumo

O tratamento de usuários portadores de doenças crônicas é um desafio para a saúde pública devido à multicausalidade. O objetivo desta pesquisa foi compreender as percepções dos estudantes sobre os cuidados prestados aos portadores de doenças crônicas. Trata-se de uma pesquisa de campo com abordagem exploratória e qualitativa. Foram incluídos estudantes do último ano dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia, Educação Física e Medicina de uma universidade privada do interior do estado de São Paulo, Brasil. Foram excluídos os que não estavam presentes no dia do convite, assim como no dia agendado para as entrevistas. A coleta de dados ocorreu por meio de um roteiro construído pelas próprias autoras com perguntas norteadoras durante o período de setembro a novembro de 2023. O áudio da entrevista gravado e posteriormente transcrito foi tratado no software IRAMUTEQ e analisado à luz dos referenciais da prática interprofissional colaborativa e doenças crônicas não transmissíveis. Os resultados apontam que alguns estudantes identificaram alguns determinantes sociais dessas patologias, seus desafios, tratamento e a necessidade de um trabalho interprofissional que permanece incipiente no seu cenário de formação teórica e prática.

Palavras-chave:
Doença crônica; Relações interprofissionais; Educação Interprofissional

Abstract

Treating patients with chronic diseases is challenging for public health due to their multicausality. This study sought to understand students' perceptions of the care provided to patients with chronic diseases. This is an exploratory and qualitative field study with an exploratory approach. Students from the final year of the Nursing, Physiotherapy, Psychology, Physical Education, and Medicine courses at a private university in the interior of São Paulo, Brazil, were included. Those absent on the day of the invitation and the day scheduled for interviews were excluded. Data was collected using a script constructed by the authors with guiding questions from September to November 2023. The interview audio was recorded and later transcribed using IRAMUTEQ software. The interview was then analyzed considering references to collaborative interprofessional practice and chronic non-communicable diseases. The results indicate that some students identified social determinants of these pathologies, their challenges, their treatment, and the need for interprofessional work, which remains in the theoretical and practical training scenario.

Keywords:
Chronic Disease; Interprofessional Relations; Interprofessional Education

Introdução

Doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) representam um dos principais problemas de saúde pública do mundo, causando cerca de 35 milhões de mortes anualmente. Estão relacionadas à privação de bem-estar e limitações laborais, além de agravamento de problemas econômicos, sociais e familiares (WHO 2018; Draeger et al., 2022). Dentre essas doenças, destacam-se quatro principais causas de morte prematuras: doenças cardiovasculares, neoplasias, diabetes e pulmonares crônicas. O enfrentamento desse perfil epidemiológico depende de políticas públicas efetivas e de formação adequada dos profissionais de saúde (WHO, 2019; Draeger et al., 2022).

Essa condição é complexa por envolver diversos fatores no processo de adoecimento, como urbanização acelerada, estresse, desigualdade social, baixa escolaridade e desinformação, assim como obesidade, sedentarismo, tabagismo, etilismo, inatividade física e alimentação inadequada. Esses são fatores de risco modificáveis, ou seja, estratégias de atuação profissional e políticas públicas adequadas podem diminuir a ocorrência das patologias e seus agravos (Haikal et al., 2023).

A Prática Interprofissional Colaborativa em Saúde (PIC) pode ser uma alternativa para lidar com os diversos fatores modificáveis envolvidos no tratamento de DCNT, pois essa condição demanda trabalhar com diferentes olhares. A PIC é definida como uma parceria entre uma equipe de profissionais de saúde de diferentes campos do conhecimento. Para a colaboração interprofissional acontecer, existe a premissa de que os profissionais queiram trabalhar juntos para oferecer um cuidado melhor (D’Amour et al., 2008).

A colaboração se refere a parcerias estabelecidas no cotidiano do trabalho, fortalecendo e aprimorando o que já é produzido no trabalho em equipe. Com o uso da PIC a equipe compartilha objetivos, apresenta metas bem definidas sobre o cuidado prestado, compartilha tomada de decisões e olha o usuário como centro da atenção, assim, o foco não é o profissional, e sim o usuário ou família (Peduzzi et al., 2020; Agreli, 2017).

A prática do cuidado junto à Atenção Centrada no Paciente (ACP) se instala a partir da designação de toda atenção ao usuário ou à família e suas necessidades no decorrer do acompanhamento. Centrar a atenção no usuário é uma forma de valorizar os diferentes olhares e abordagens profissionais para aquela necessidade de cuidado, não se restringindo apenas à sua especialidade (Agreli, 2017).

Portanto, uma formação em saúde fragmentada, centrada na doença, no profissional faz parte de um passado que precisa ser superado para conseguir lidar com os diversos desafios contemporâneos de saúde. A formação profissional contextualizada, problematizada com o modelo interprofissional é uma forma de buscar a superação do modelo hegemônico e produzir um cuidado integral com base nas necessidades dos usuários e famílias (Sousa et al., 2023).

Assim, esta pesquisa tem como pergunta norteadora: como as percepções dos estudantes sobre os cuidados de portadores de DCNT podem colaborar para a construção de um cuidado mais assertivo e colaborativo? O objetivo foi compreender as percepções dos estudantes do último ano de graduação dos cursos de enfermagem, fisioterapia, psicologia, medicina e educação física sobre os cuidados prestados aos portadores de DCNT.

Materiais e Método

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória, que responde a questões muito particulares e, nas ciências sociais, preocupa-se com um nível de realidade que não pode ser quantificado. A pesquisa qualitativa exploratória trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, correspondendo a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização. Assim, para compreender percepções, é importante uma abordagem que valorize seus significados e aspirações (Minayo, 2001).

Participaram da pesquisa estudantes de uma universidade privada do interior do estado de São Paulo do último ano de graduação dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia, Educação Física e Medicina. Esses cursos foram escolhidos por serem formações que se aproximam mais da temática estudada. O convite foi feito aos estudantes do último ano, pois nesse período existe uma maior vivência nos campos de estágio, ou seja, os estudantes estão mais próximos da prática profissional, além de ser um período em que já cursaram a maioria das disciplinas curriculares.

A coleta de dados contou com uma amostra aleatória; foram agendadas as entrevistas dos estudantes que aceitaram participar da pesquisa, após o convite realizado verbalmente em sala de aula pelas pesquisadoras. O número de entrevistados por curso seguiu a lógica da saturação de dados, ou seja, foram agendadas entrevistas até que os dados começassem a se repetir. Foram agendados dia e horário para a realização da entrevista na própria universidade ou nos campos de estágio, quando foram apresentados os objetivos da pesquisa, esclarecidas as dúvidas e assinado o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), ficando uma via com as pesquisadoras e outra com o participante.

O critério de inclusão foi: ser estudante do último ano dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia, Educação Física e Medicina. Foram excluídos os alunos que não estavam presentes no dia do convite, assim como no dia agendado para as entrevistas.

As entrevistas foram realizadas individualmente por uma das pesquisadoras, em um ambiente reservado fora do horário de aula. As entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas pelas pesquisadoras em um documento no Word, o qual passou pela dupla checagem, ou seja, uma pesquisadora realizou a transcrição e a outra fez a checagem dessa transcrição com base no áudio. A coleta de dados ocorreu de setembro a novembro de 2023, a duração média de cada entrevista foi de aproximadamente trinta minutos.

Os participantes responderam às seguintes perguntas disparadoras: o que você entende sobre DCNT? Você acredita que uma abordagem com diversos profissionais que trabalhem com o olhar focado na necessidade do usuário possa contribuir para o cuidado com as DCNT? Como poderia ser útil? Você vivenciou durante algum momento dos seus estágios da graduação, ou durante algum momento teórico-prático (simulação) um atendimento a portador de DCNT? Esse atendimento foi compartilhado? Qual o papel da sua profissão para os portadores de DCNT? Quais os desafios na abordagem e no tratamento de portadores de DCNT?

Os dados resultantes das entrevistas foram transcritos e submetidos à análise textual lexicográfica com auxílio do software interface de R por Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ), que foi desenvolvido sobre a lógica do Open Source. Categoriza os dados textuais a partir da avaliação da semelhança de seus vocabulários, indicando elementos das representações do objeto estudado (Camargo; Justo, 2013; Costa et al., 2021). Utilizou-se a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), para identificar a frequência de cada palavra e a sua conexão com outras, contribuindo para análise do corpus textual.

O programa pode construir matrizes com esses léxicos e organizar esses dados em um dendrograma que permite a visualização das relações entre as classes (Camargo; Justo, 2013). Com essa análise lexical, ele associa os vocabulários mais comuns entre os segmentos de texto com cada classe do corpus original, contribuindo para a análise qualitativa (Camargo; Justo, 2013). Após o tratamento dos dados, a interpretação e análise foram realizadas com base na literatura pertinente aos cuidados de DCNT e da PIC. A intersecção entre essas abordagens forneceu os dados para a análise do material.1

Todas as etapas da pesquisa seguiram as diretrizes da Ética em Pesquisa presentes em documentos nacionais e internacionais para este fim. A pesquisa foi realizada após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos em atendimento à resolução 466/2012. Parecer: 6.258.226 aceito em 2023, com código de Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) n. 70905723.7.0000.5383.

Resultados

Participaram da pesquisa 43 estudantes, destes 26 (60,46%) eram do sexo feminino e 17 (39,53) do sexo masculino, com idades entre 20 e 50 anos. O corpus das entrevistas foi constituído por 348 segmentos de textos (ST), quando trabalhado no Iramuteq na CHD foram aproveitados 271 ST (77,87% das ST) para elucidação das classes.

Figura 1
Dendograma: Doenças crônicas e seus desafios.

Observa-se que o corpus é composto por seis classes, sendo que as classes 4 e 5 estão relacionadas com a classe 1, enquanto as classes 3 e 6 estão relacionadas com a classe 2.

Classe 1: Determinantes sociais das DCNT e seus desafios

As palavras e as unidades de contexto elementares mais representativas da classe 1 permitiram a contextualização dos fatores relacionados com as DCNT. As palavras “adquirir”, “afetar”, “social”, “familiar”, “hereditariedade” e “curar” representam os diversos fatores envolvidos no surgimento e convivência com a DCNT, conforme pode ser observado na seguinte fala:

Doenças crônicas não transmissíveis eu entendo que são aquelas doenças que não tem cura! Infelizmente ...elas podem ser geradas por problemas genéticos ou histórico familiar e muitas vezes também por fatores de risco como, por exemplo, o tabagismo e obesidade... (estudante/Enfermagem).

São doenças que vão atrapalhar o paciente durante a vida toda, alguns pacientes têm uma boa ideia ...ele vai ter que tratar, mas alguns não entendem tão bem e acho que todo profissional tem que saber explicar bem para o paciente como ele vai manter a vida com essa doença... quais são as dificuldades, as limitações ao longo da vida, precisa ter sempre uma boa conversa, explicar bem como funciona, porque algumas patologias como a diabetes por exemplo, caso a pessoa não tenha um bom tratamento, um cuidado, vai acabar atrapalhando o resto da vida dela... (estudante/Fisioterapia).

Eu entendo que as DCNT, elas geram uma demanda muito particular na sociedade e são pacientes que demandam tempo de tratamento, gasto da rede pública, uma assistência prolongada, mais cuidado dos vários profissionais. Por exemplo, diabetes, uma doença que quando é diagnosticada, ele já está com diabetes no mínimo há uns 10 anos, então é uma doença que já está caracterizando alguma doença secundária como uma doença cardiológica que dispõe mais à preexistência do infarto, AVC e isso faz que o paciente fique menos produtivo para a sociedade... (estudante/Medicina).

Bom, as DCNT são doenças comportamentais adquiridas através dos hábitos dos indivíduos, então se às vezes ele não procura uma qualidade de vida corre mais risco de estar disposto a essas doenças. Esse é um problema muito alarmante porque elas são uma das classes de doenças que mais matam no mundo. (estudante/Educação Física).

Classe 2: DCNT e o cuidado interprofissional

As palavras que representam esta classe são: médico, enfermeiro, fundamental, ajudar e nutricionista. Essa necessidade de diferentes olhares pode ser observada nas seguintes falas:

Eu acredito que contribui sim, porque cada um vai atuar em uma determinada função. Por exemplo, um nutricionista pode atuar na parte da alimentação, podendo elaborar uma dieta que seja adequada para cada caso, o médico pode atuar na parte de prescrever, pode analisar a situação da doença e o enfermeiro pode atuar nas respostas humanas alteradas desse paciente colaborando nessa parte. Então, assim, temos muitos profissionais que vão colaborar em determinado ponto, então acho que é importante ter esse tratamento multidisciplinar. (estudante/Enfermagem).

Por exemplo, um médico dando diagnóstico para o paciente, encaminhando-o para a fisioterapia, coisa que muitos não fazem, principalmente DPOC, eles pegam, dão o diagnóstico fala ...para de fumar. Aí o paciente não consegue às vezes nem respirar, sendo dependente de oxigênio, então eu acredito que começa aí. Também tem situações nas quais, às vezes ele precisa de um psicólogo porque fuma por fatores emocionais, enfim psicossociais. (estudante/Fisioterapia).

Por exemplo, no estágio que passávamos na clínica, na parte de geriatria, muitas vezes tinha paciente idoso que o manejo medicamentoso não era o suficiente, então tinha que adequar com alimentação, tudo mais, encaminhar para nutrição, ou para a psicologia, um complementando o outro. (estudante/Medicina).

Sim, o olhar, dessas diversas áreas é muito importante no sentido de integração de todo esse paciente, porque o paciente ele não é só a doença, ele é um ser integral. Então precisa ter esse olhar, sim, a partir do que é observado, do que é diagnosticado por cada uma das diversas áreas. A psicologia tem um olhar também, tanto para o profissional, como esse profissional percebe essa situação toda assim com o paciente. (estudante/Psicologia).

Para mim é fundamental que cada um entenda a área que vai trabalhar para fazer uma abordagem diretamente para um paciente. Por exemplo, a medicina puxará para o quadro clínico da doença! Entender através dos exames..., nós, através dos exercícios físicos, a gente consegue também ter essa abordagem no quadro clínico e ter a melhora, então para mim acho que é fundamental essa interprofissionalidade. (estudante/Educação Física).

Classe 3: Vivências no atendimento a portadores de DCNT

As palavras que representam essa classe são: atender, enfermagem, hospital, consulta, olhar, compartilhar. Essas vivências ocorridas durante o processo de formação com portadores de DCNT são demonstradas nas seguintes falas:

Eu vivenciei, sim, no meu estágio supervisionado, hospitalar... Um paciente que internou, esse paciente descobriu diabetes já no momento avançado, entrando numa cetoacidose diabética. Teve complicações por não saber que tinha diabetes...então nesse momento que ele estava internado teve uma equipe multi, nutricionista, psicólogo porque a vida dele vai se transformar, ele vai ter que ter um autocuidado diferente do que ele vivia, tanto na parte da alimentação, na parte medicamentosa. Tem um fator social, equipe da enfermagem que explicou a doença e como ele conduzirá essa doença daqui por diante. (estudante/Enfermagem)

Compartilhei essa experiência no hospital, tive pacientes que eram DPOC e estava sempre em contato com enfermeiro, médicos, fisioterapeutas toda essa gama de profissionais ajudando esse paciente, então eu conseguia ver que ele se sentia mais seguro e confiava mais no trabalho dos profissionais e se sentia mais acolhido, e vimos que a melhora era nítida. A enfermagem sempre estava lá fazendo tudo, a fisio realizando as manobras e os médicos sempre monitorando, oferecendo sempre as melhores medicações para o paciente. (estudante/Fisioterapia).

Sim, sempre atende no posto ou até mesmo no hospital, a gente pedia interconsulta com outras profissionais para gente ver como ia fazer o andamento do tratamento, inclusive sempre encaminhamos paciente diabético para o nutricionista, às vezes psicólogo. (estudante/Medicina).

Classe 4: Desafios do profissional para o tratamento

As palavras representativas desta classe são: desafio, dificuldade, aderir, entender, explicar, abordagem. As seguintes falas trazem esses apontamentos:

Primeiramente, fazer com que o paciente entenda a relação dele, das atividades que faz com o próprio corpo, que nada mais é que os exercícios que fazemos com ele na fisioterapia. Levam qualidade de vida para ele seja nos mínimos detalhes que ele realiza, seja levantando da cama, seja correndo, andando agindo mais na reabilitação que na prevenção, pois pegamos esse paciente já na reabilitação depois tentamos prevenir em outras questões para ele ter uma qualidade de vida. (estudante/Fisioterapia)

Acho que além de conseguir medicar da melhor maneira é tentar fazer com que todas as medicações não tenham interações entre elas, que acho que é uma das partes mais difíceis. Normalmente esses pacientes fazem polifarmácia e a adesão, que é muito difícil fazer esses pacientes terem adesão tanto medicamentosa quanto de mudança de vida para poder melhorar, ou até mesmo eles entenderem que precisam fazer um acompanhamento melhor para essa doença não progredir, porque eles não sabem as consequências disso mais para frente, não aderindo tanto ao tratamento. (estudante/Medicina)

Classe 5: Desafios do paciente para o tratamento de DCNT

Essa classe apresentou as palavras: difícil, adesão, aceitar, tratamento, orientação, continuação. As seguintes falas representam os desafios:

Acredito que seja a falta de comunicação, o enfermeiro ou a equipe ter paciência de explicar, abordar de uma forma calma, um olhar voltado a isso, entender as necessidades do paciente, entender o vínculo, onde ele mora, com quem ela mora, a rotina do paciente, acredito que seja essa dificuldade, porque hoje em dia o pessoal só quer passar e acabou. No tratamento às vezes não fica autoexplicativo para o paciente, ou às vezes ele deixa de se cuidar por não ter vontade, ou até mesmo porque o enfermeiro acabou passando meio que tanto faz, isso acaba interferindo no autocuidado do paciente. (estudante/Enfermagem).

Os pacientes não querem mudar de vida, muitos não largam os maus hábitos, eles vêm para a fisioterapia ficam aqui uma hora, eles querem que essa uma hora seja eficiente para uma semana inteira. Duas vezes que eles vêm aqui gastam uma hora por dia eles acham que tem que ser suficiente que eles não têm que fazer nada em casa, no tratamento as mesmas coisas. A gente não consegue ter resultado porque eles não seguem os exercícios domiciliares. (estudante/Fisioterapia).

Acho que o desafio para trazer o paciente com doença crônica não transmissível talvez seja a falta de conhecimento das sensações que o paciente tem com a doença e o desafio no tratamento é a falta de compreender o que ele tem e eu como profissional entender o que ele sente. (estudante/Psicologia)

Esses pacientes não enxergam a necessidade que eles têm de praticar, de nos procurar porque muitas das vezes falta informação, daquilo que eu disse se eles tivessem informações adequadas se tivessem sido avisados e tivessem sido expostos aos benefícios da atividade, do exercício físico, muitas vezes eles dariam mais valor e possibilitariam que eles não chegassem a tal quadro... (estudante/Educação Física).

Classe 6: Tratamento das DCNT

Representada pelas palavras “exercício físico”, “psicólogo”, “medicação”, “nutricional”, “diabetes”, “começar”. As seguintes falas representam essa classe:

Um tratamento de qualidade de vida, não só com medicação, mas com mudanças nos hábitos alimentares, por exemplo tabagismo, diminuir a quantidade de cigarros, bebidas, diminuir a quantidade de consumo, e assim a qualidade de vida. (estudante/Enfermagem).

Em geral, saber lidar com a dor, como você pode ressignificar essa doença e como você pode conviver com ela, com as dores, com os sintomas. Acho que é ressignificar e saber lidar com a situação. (estudante/Psicologia).

Acho que o nosso papel é fundamental através dos exercícios físicos, por exemplo, os diabéticos a gente consegue ter controle glicêmico através do aumento da sensibilidade da insulina. Para um paciente com hipertensão arterial a gente consegue também ter uma melhora do quadro clínico atrás dos exercícios. (estudante/Educação Física).

Discussão

Como determinantes sociais das DCNT, são apontadas as desigualdades sociais, as diferenças no acesso aos bens e aos serviços, baixa escolaridade e desigualdades no acesso à informação. Tais fatores englobam uma gama de adversidades que prejudicam o diagnóstico e o tratamento dos portadores de DCNT. Logo, esses determinantes, quando presentes na vida dos pacientes, afetam previamente todo o processo de saúde (Melo et al., 2019).

Na primeira classe, segundo os estudantes, alguns determinantes da patologia estão relacionados a fatores hereditários, hábitos de vida como tabagismo ou sedentarismo. Os desafios, conforme os alunos, estão relacionados a manter a doença sob controle ao longo da vida. Vale destacar que, nesta primeira classe, enquanto o estudante de Enfermagem enfatiza os determinantes da doença, o estudante de Fisioterapia aponta o desafio do convívio com a patologia ao longo da vida; o de Medicina aponta os desafios para o sistema de saúde e, por fim, o de Educação Física relata o desafio da qualidade de vida. É importante ressaltar como cada profissão apresenta um olhar complementar de acordo com seu campo de formação.

As DCNT são referidas como patologias comportamentais, porém são definidas como condições de longa duração resultantes de combinações de fatores genéticos, fisiológicos, ambientais e comportamentais. É importante ressaltar que as DCNT são influenciadas pelo comportamento; no entanto, a combinação de causas pode ocorrer ao longo da vida do usuário. A hereditariedade é um fator que pode desencadear a doença independentemente do seu comportamento e seus hábitos de vida (Borges et al., 2023).

Os achados da classe 2 mencionam a importância de um cuidado compartilhado entre os diferentes profissionais, todos os estudantes falam da necessidade dos diferentes profissionais na assistência, porém, essas falas refletem um olhar e cuidado ainda fragmentado, em que cada profissional faz o seu trabalho de forma complementar, mas não integrada.

A PIC utiliza a equipe de profissionais de saúde de diferentes campos do conhecimento para trabalhar com uma abordagem participativa e colaborativa. Tal abordagem compartilha os problemas. com uma tomada de decisão que envolve o cuidado centrado no usuário, incluindo o paciente, a família e a comunidade no processo de responsabilização pela sua saúde (Peduzzi et al., 2020).

O tratamento multidisciplinar reflete um cuidado fragmentado em que cada profissional faz uma avaliação do paciente. Porém, não trabalham juntos visando a um cuidado focado nas necessidades do usuário, os exemplos mencionados são diferentes atendimentos, porém não interligados. A ideia apresentada é de um trabalho multiprofissional, ou seja, com diferentes profissionais trabalhando, onde cada especialista faz a sua avaliação e oferece as suas contribuições de acordo com sua especialidade, porém com pouca interação (WHO, 2010).

As vivências dos estudantes presentes na classe 3 refletem essa definição de um trabalho fragmentado onde cada profissional contribui com a sua área de conhecimento, porém, não compartilham saberes, planejamento e ações que demonstrem objetivos e metas em comum. Ao mesmo tempo, em que os estudantes defendem os benefícios e a necessidade de um trabalho em equipe e integrado, suas experiências em campo de estágio refletem um trabalho no modelo tradicional com pouca integração.

Os resultados evidenciam a importância de se trabalhar com a Educação Interprofissional (EIP) na área da saúde. Esse tipo de educação se articula aos debates com base na Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS), por ser nesse contexto que os condicionantes e determinantes sociais são incorporados ao conceito de saúde. Utilizando um olhar ampliado, valorizam estratégias que buscam articular as ações com as redes de proteção social (Freire et al., 2019; Brasil, 2018).

A EIP preconiza a aprendizagem entre estudantes de duas ou mais profissões com vista à integralidade das ações, visando ao aprimoramento e à qualidade dos cuidados nos serviços de saúde. Para isso, é fundamental aprender em conjunto interativamente para melhorar a colaboração e a qualidade da assistência à saúde (Reeves; Xyrichis; Zwarenstein, 2018; Freire et al., 2019).

As DCNTs são patologias que exigem uma série de fatores para seu tratamento adequado, desde fatores sociais que favoreçam o autocuidado a fatores que favoreçam uma mudança do estilo de vida. Essas diferentes facetas das patologias exigem que os profissionais identifiquem a melhor abordagem para conduzir cada caso, requerem uma interação entre esses profissionais e um cuidado centrado no usuário (Costa et al., 2021).

As falas presentes na classe 4 refletem o olhar do estudante de fisioterapia que menciona o desafio de trabalhar mais na reabilitação do que na prevenção de agravos dos pacientes portadores de DCNT. O estudante de Medicina enfatiza o desafio do tratamento medicamentoso, o que de fato é um ponto importante do tratamento, porém a dificuldade em relação ao estímulo para mudança de comportamento não faz parte das maiores preocupações.

As preocupações sobre o tratamento na perspectiva profissional refletem o histórico da saúde em desenvolver uma prática excessivamente medicalizante, mais assistencialista e muitas vezes pouco sensível à singularidade dos usuários. Isto pode estar no contexto social que de fato não proporcione fatores favoráveis ao seu tratamento, como o acesso aos serviços de saúde, alimentação saudável, sono adequado e estímulo à prática de exercícios (Torres-Cruz; Dias, 2022).

Devido à sua complexidade, a adesão ao tratamento dessas patologias não se limita ao acesso às informações, à própria doença, à sua sintomatologia, à mudança necessária no estilo de vida, ao uso permanente de medicamentos. Até mesmo questões institucionais de acesso aos serviços de saúde fazem parte da gama de fatores que influenciam diretamente o desfecho do seguimento do usuário (Costa et al., 2021; Silva; Crepaldi; Bousfield, 2021).

Conforme os achados da classe 5, que mencionam o desafio na perspectiva do paciente, a comunicação é retomada como um fator importante para o tratamento ser eficaz. O estudante de enfermagem fala da importância do vínculo com o profissional, menciona a relevância da compreensão do usuário sobre seu estado de saúde e seu tratamento, assim como o estudante de psicologia. Esses depoimentos relatam a necessidade da compreensão adequada para um tratamento eficaz.

Uma das políticas do Sistema Único de Saúde (SUS), a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) tem como um dos objetivos desenvolver a relação de vínculo e responsabilização entre equipe e população. Segundo esta Política, o vínculo é a construção afetiva entre usuários e profissionais de saúde, permitindo o aprofundamento do processo de corresponsabilização pela saúde, porém, isso é construído ao longo do tempo e faz parte do processo terapêutico (Brasil, 2017; Barbosa; Bossi, 2017).

Já os estudantes de Fisioterapia e Educação Física mencionam um ponto de discussão, em suas falas existem as expressões “… os pacientes não querem mudar de vida…” em outra fala, a expressão “…eles não enxergam a necessidade de praticar, de nos procurar…”. A maioria dos pacientes difíceis é rotulada dessa forma quando o cuidado é centrado no profissional, assim o vínculo, laço de confiança, não é construído. Desse modo, o profissional não escuta o paciente e a relação passa a ser paternalista, autoritária, com foco estritamente biomédico (Cruvinel; Grosseman, 2023).

O cuidado centrado na pessoa demanda a consideração da dimensão biopsicossocial da pessoa e sua participação ativa no tratamento. É fundamental a exploração do contexto social e a situação em que ocorreu o adoecimento, bem como valorizar as experiências, perspectivas, complicações, necessidades e expectativas. O compartilhamento de informações deve garantir que o paciente as compreenda e sinta liberdade em expor suas dúvidas para serem esclarecidas, além da sua participação no plano terapêutico (Benedetti, 2013; Cruvinel; Grosseman, 2023).

Quando o usuário é culpabilizado pelo seu estado de saúde e pela dificuldade em aderir ao tratamento, existe uma valorização maior da doença do que da pessoa que adoeceu, seu processo de adoecimento e sua autonomia (Cruvinel; Grosseman, 2023).

Na classe 6, os estudantes de Enfermagem e Fisioterapia apresentam uma visão ampliada mediante o tratamento das pessoas portadoras de DCNT, apontam um foco na mudança do estilo de vida e no processo de ressignificar o adoecimento, aprendendo a conviver com a doença.

Existem iniciativas nacionais e globais propostas para a prevenção e controle das DCNTs. A Organização das Nações Unidas incluiu nos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) metas para a redução das DCNTs e seus fatores de risco até 2030. Assim, os profissionais de saúde devem estar envolvidos no planejamento de estratégias para conseguirem garantir o acesso à saúde com aconselhamento nacional e local para pacientes com DCNT e suas famílias. É importante um avanço em medidas mais rígidas em relação ao tabaco, álcool e alimentação não saudável, promover e estimular o autocuidado para o convívio e controle da patologia (Malta et al., 2021; WHO, 2016).

O cenário no qual os estudantes seguem um atendimento individualizado, com foco na especialidade, é o oposto do cenário preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que passou a considerar o trabalho interprofissional como uma estratégia inovadora na formação e atuação dos profissionais de saúde. Visa ofertar em todos os âmbitos de saúde, com suas complexidades, um tratamento aprimorado (WHO, 2010).

A interdisciplinaridade nos cursos de saúde visa superar a tendência à fragmentação dos conhecimentos, por meio da integração de disciplinas em um mesmo campo profissional, porém o que ocorre nos cursos de saúde atualmente é uma tentativa, ao construir uma abordagem interdisciplinar sem a construção prévia da EIP. Para a construção dessa educação, é importante o apoio do corpo docente na implementação de cursos e programas que incluam a EIP, assim como a experiência interprofissional tem que ser incorporada no contexto da prática atual, nos diversos cenários de estágio para uma aprendizagem eficaz e significativa (Peduzzi et al., 2020; Reevis et al., 2016; Benevides; Miranda; Pereira, 2023).

Assim, as instituições de ensino devem incorporar os princípios e diretrizes do SUS, como também orientar o aluno sobre a importância e forma de como a rede de serviços deve se integrar, enfatizando as políticas de saúde, como, por exemplo, a Política de Humanização, que visa um cuidado integral. Além disso, os projetos pedagógicos dos cursos orientados pelas diretrizes curriculares nacionais devem contribuir para uma formação capaz de atuar na análise, monitoramento e, avaliação das situações de saúde que fortalece a resolutividade, um dos princípios organizativos do sistema que também pode ser favorecida pela interprofissionalidade (Brasil, 2017).

Portanto, ofertar uma formação que valorize e trabalhe a PIC pode favorecer o atendimento dos portadores de DCNTs por aumentar o olhar e o cuidado diante da complexidade dessas patologias e dos seus determinantes sociais. A articulação do cuidado de diversos profissionais favorece um trabalho em equipe e a resolução de problemas que levem à construção de conhecimentos dialogados, respeitando e valorizando as contribuições de cada profissional com foco no cuidado e na mudança do estilo de vida do usuário (Araújo et al., 2017).

Considerações finais

Foi possível identificar que não houve diferença significativa entre os cursos, alguns apresentaram um ponto de vista mais amplo e outros, mais restrito, porém foram percepções complementares sobre a assistência aos pacientes com DCNTs. A identificação dos determinantes sociais, além da identificação dos desafios para o tratamento do ponto de vista do usuário, assim como do ponto de vista dos profissionais.

Os achados apontam que os estudantes mencionam o envolvimento de vários profissionais nos cuidados com o portador de DCNT, porém, as vivências relatadas mostram um cuidado ainda fragmentado.

O estudo apresenta a limitação de retratar uma realidade local; assim, os resultados devem ser compreendidos sob essa perspectiva. Porém, esse desafio na formação profissional e no cuidado dos portadores de DCNTs pode apresentar semelhanças em outros ambientes acadêmicos.

É de suma importância, portanto, enfatizar e aprofundar essas temáticas na graduação, para que se estude e conheça mais sobre a PIC, pesquisando e criando abordagens que possam favorecer um cuidado integrado. Para tanto, os cenários de estágio são lugares que podem ser utilizados para essa integração, assim como ações de simulação, dentre outras atividades.

Referências

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  • Editora responsável:
    Fernanda Mattioni

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    27 Fev 2024
  • Revisado
    01 Out 2024
  • Aceito
    02 Nov 2024
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