Resumo
O objetivo do artigo é discutir a relação entre desigualdade de gênero e sofrimento psíquico, por meio de uma pesquisa narrativa com mulheres profissionais de saúde e usuárias de um grupo de promoção de saúde mental. Os dados foram coletados em entrevistas narrativas em grupo, diários de campo e registros de discussões teórico-clínicas, e analisados com base em quatro categorias: coletivização do sofrimento entre mulheres; construção de novas referências; cuidado pensado a partir da lógica feminina; e perspectiva das profissionais de saúde. Os resultados destacaram que a coletivização do sofrimento permitiu superar o silêncio e a solidão, além de ressignificar experiências a partir de novos referenciais sensíveis às questões de gênero. O cuidado pensado sob uma lógica feminina trouxe mudanças na compreensão das profissionais sobre desigualdades de gênero e seu impacto na saúde mental, revelando que práticas de saúde podem perpetuar opressões. Conclui-se que a prática narrativa amplia a interlocução, fomenta o diálogo e promove a solidariedade. Profissionais de saúde desempenham papel estratégico no enfrentamento da opressão e da violência de gênero, indicando a necessidade de revisão e avanço nas diretrizes que orientam suas práticas.
Palavras-chave:
Promoção da saúde mental; Gênero; Grupo de mulheres; Pesquisa narrativa
Abstract
This article aims to discuss the relationship between gender inequality and psychological distress through narrative research with female health professionals and users of a mental health promotion group. Data were collected through group narrative interviews, field diaries, and records of theoretical-clinical discussions, and analyzed based on four categories: collectivization of suffering among women; construction of new references; care conceived from a feminine perspective; and perspective of health professionals. The results highlighted that the collectivization of suffering allowed overcoming silence and loneliness, in addition to redefining experiences based on new references sensitive to gender issues. Care conceived from a feminine perspective brought about changes in the professionals’ understanding of gender inequalities and their impact on mental health, revealing that health practices can perpetuate oppression. It is concluded that narrative practice broadens interlocution, fosters dialogue, and promotes solidarity. Health professionals play a strategic role in confronting oppression and gender violence, indicating the need to review and advance the guidelines that guide their practices.
Keywords:
Mental health promotion; Gender; Women's group; Narrative research
Introdução
No ano de 2022, a Organização Mundial da Saúde divulgou seu relatório mundial sobre saúde mental que apontava, dentre outros determinantes sociais, a desigualdade e a violência de gênero como fatores de risco para as condições de saúde mental (OMS, 2022). Embora existam discussões importantes nesse campo, ainda são incipientes as propostas de cuidado em serviços de saúde que sejam sensíveis a essa temática. Isto faz com que, muitas vezes, as violências sociais às quais as mulheres estão submetidas em suas vidas cotidianas também se reproduzam nos serviços de saúde. Zanello e Costa (2015) apontam maior predominância de mulheres em serviços de saúde mental em razão de acessarem mais os serviços, serem alvo de mais intervenções e expressarem mais seus sintomas. Rosa e Campos (2012) indicam que o sofrimento psíquico das mulheres apresenta aspectos que costumam ficar à sombra no modelo biomédico, como: jornada de trabalho, relações conjugais, questões raciais e ainda a possibilidade de desenvolver atividades de lazer. Martins et al. (2020) demonstram que microagressões raciais e de gênero exercem impacto negativo significativo na saúde mental e na autoestima de mulheres negras.
De acordo com Capistrano et al. (2021), a medicalização é a forma mais frequente de resposta ao sofrimento feminino, ainda que esse fenômeno esteja também relacionado com outros fatores sociais. Também é comum que as mulheres se silenciem sobre as violências de gênero sofridas e sejam estereotipadas como poliqueixosas (idem). As autoras ressaltam a escassez de estudos sobre intervenções voltadas para mulheres no campo da saúde mental que partam de uma perspectiva ampliada e contextualizada em relação às questões sociais e superem as abordagens baseadas em sintomas, indicando a necessidade de maior aproximação de entre o campo da saúde mental e os estudos de gênero.
No plano da política, é urgente revisar e reorientar as práticas em saúde, sobretudo aquelas relacionadas à promoção de saúde mental, para que incluam a perspectiva de gênero em seus planejamentos. Desde 2001, a OMS tem assinalado a necessidade de rompimento com o paradigma psiquiátrico saúde-doença, tomando a saúde em conexão ao cuidado comunitário - ou seja, como algo que pode vir a ser produzido, mesmo quando há doença. A saúde passa a estar relacionada, dentre outros fatores, a características e habilidades que permitem às pessoas gerenciar tensões e mudanças na vida, contribuir com seu ambiente social, trabalhar de forma produtiva e manter o bem-estar emocional e espiritual (Jané-Llopis, 2005).
Essa abordagem enfatiza o papel das desigualdades sociais e econômicas, dentre outros fatores estruturais, como determinantes da saúde mental (OMS, 2022). Nesse sentido, o combate ativo em relação a preconceitos e estereótipos de gênero envolve a produção e disseminação de saberes e conhecimentos que ampliem a qualidade de vida nos territórios e pode abrir novas vias para lidar com o sofrimento feminino (Capistrano et al., 2021). O letramento de gênero contribui para a produção de um conhecimento menos normativo e mais próximo das experiências vividas, promovendo ações diretas e concretas na forma como as mulheres vivem a vida, experimentam a feminilidade e organizam seu cotidiano.
Espaços coletivos de troca de experiências entre mulheres têm sido propostos como estratégias de cuidado em alguns serviços de saúde mental. Macedo e Souza (2021) apontam como o grupo de mulheres em um Centro de Atenção Psicossocial auxilia as participantes a produzir novos significados para seus sofrimentos, a partir do compartilhamento de situações vividas no âmbito doméstico. Rézio e Fortuna (2018) verificaram a importância do grupo de mulheres em um CAPSad para adesão ao tratamento, construção de autonomia e reinserção social, além da construção de vínculos, apoio mútuo, recuperação da autoestima e relações sociais. Os vínculos proporcionados pelo grupo auxiliaram na superação coletiva de preconceitos e rejeição social, servindo como apoio para as participantes. Na atenção primária, a convivência e a geração de renda contribuem para a redução da iniquidade em saúde, aumento da qualidade de vida, além de fortalecer ações de educação e promoção de saúde (Alves et al., 2020).
O projeto de extensão “Diversas narrativas e produção de cuidado em saúde mental”, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB/UFRJ), tem como finalidade a produção de modos de cuidado e o suporte à construção de narrativas alternativas relacionadas a gênero, a partir da circulação entre pontos de vista. O projeto é dividido em dois eixos de trabalho. O primeiro, voltado para profissionais de saúde mental, alunas de graduação e pós-graduação da universidade, tem como objetivo sensibilizá-las para as questões de gênero, através de rodas de conversa temáticas e discussões de textos acadêmicos e literários, além de produções artísticas e culturais. Também se destina a capacitá-las para a coordenação de grupos de promoção de saúde mental e troca de experiência entre mulheres no ambulatório de saúde mental do IPUB, segundo eixo do projeto.
Os grupos de promoção de saúde mental são ofertados para usuárias em tratamento no ambulatório de saúde mental, a partir de encaminhamento dos profissionais responsáveis por seus atendimentos. São grupos abertos, de frequência semanal, com o objetivo de trocar experiências e compartilhar histórias. Durante os anos de 2020 a 2022, as atividades foram desenvolvidas no formato remoto, em plataforma disponibilizada pela instituição.
No presente artigo, discutimos a relação entre desigualdade de gênero e sofrimento psíquico, por meio de pesquisa narrativa realizada com mulheres profissionais de saúde e usuárias participantes dos grupos de promoção de saúde mental vinculados ao projeto de extensão.
Pesquisa narrativa - colaboração entre mulheres
A pesquisa narrativa se constitui como método qualitativo cujo interesse se volta para conhecer a vida de determinadas pessoas, a partir das histórias contadas por elas (Creswell, 2007). Para Muylaert et al. (2014), narrar o vivido e compartilhar com as outras suas histórias, de maneira a provocar novos enraizamentos e transformações em um ir e vir entre indivíduo e grupo, tendo como visada um fazer coletivo (Muylaert et al., 2014).
Na área da saúde, a aplicação do método permite conhecer, como apontam Damasceno et al. (2008), o processo saúde-doença, ou seja, o ponto de vista das usuárias, mas também experiências relacionadas aos processos de trabalho de profissionais de saúde. As histórias contadas emergem da interação e do diálogo entre entrevistadoras e entrevistadas, destacando, assim, a característica colaborativa e relacional do método (Muylaert et al., 2014).
A coleta de dados envolve registros pessoais escritos ou imagens e a entrevista narrativa. Nesse método de entrevista, as participantes contam acontecimentos de vida, de modo a reconstituir acontecimentos sociais a partir de suas perspectivas (Jovchelovich, 2008). Trata-se de uma entrevista não estruturada e com interferência mínima da entrevistadora, utilizando como via de comunicação o contar e escutar histórias (idem). As histórias coletadas costumam ser reunidas, analisadas e recriadas pela(s) pesquisadora(s) em uma narrativa que combina as visões de participantes e pesquisadoras acerca da experiência contada (Clandinin; Connelly, 2000).
O presente estudo foi realizado no ambulatório de saúde mental de uma instituição universitária. Participaram da pesquisa usuárias em atendimento nesse serviço e profissionais de saúde - staff e estudantes de graduação e pós-graduação - responsáveis pela condução dos grupos de promoção de saúde.
Em relação às usuárias, utilizamos como critério de inclusão: mulheres que frequentam o ambulatório, com idade entre 18 e 35 anos e desejavam participar de um grupo de troca de experiências; e como critério de exclusão, pessoas em crise ou que não tivessem indicação da equipe de acompanhamento para participar de um grupo. Os grupos se mantiveram abertos à entrada de novas participantes, sem a obrigatoriedade de participação semanal nos encontros. Foram realizados 40 encontros coordenados pelo mesmo grupo de profissionais, com média de cinco participantes por semana. O convite para entrevista foi enviado, seis meses após o término dos encontros, para as nove usuárias que frequentaram o grupo desde o início e cinco aceitaram participar do estudo.
Foram realizadas duas entrevistas narrativas em grupo com as usuárias do dispositivo grupal (Usuárias = 5) com duração de uma hora e trinta minutos cada, no intervalo de quinze dias entre a primeira e a segunda entrevista. As entrevistas se deram de forma remota, em plataforma virtual, por ser a mesma forma de realização dos encontros do grupo. Foram gravadas e transcritas com autorização das participantes.
O grupo de Usuárias foi formado por cinco mulheres cisgênero, com idades entre 19 e 35 anos, solteiras, sem filhos, estudantes universitárias, moradoras do subúrbio do município Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, em acompanhamento psiquiátrico no ambulatório da instituição onde o estudo foi realizado. Dentre as participantes, quatro moram sozinhas e uma mora com o namorado; três trabalham e cursam o ensino superior e duas estudam e recebem bolsas de assistência estudantil da Universidade; três participantes se autodeclaram pardas, uma se autodeclara preta e uma se autodeclara branca; quatro têm renda de até dois salários mínimos e uma recebe entre 4-10 salários mínimos.
As participantes foram estimuladas a falar de forma livre sobre suas vivências no grupo de mulheres e como avaliavam sua participação no grupo, bem como os efeitos do grupo em suas vidas. Os principais temas abordados pelas participantes foram transcritos pelas entrevistadoras e organizados em um texto escrito reapresentado às entrevistadas no segundo encontro, para que as participantes validassem, junto às pesquisadoras, o conteúdo do texto, reescrevessem ou aprofundassem trechos que julgassem pertinentes.
Em relação às profissionais de saúde, foram incluídas no estudo as mulheres que coordenavam o grupo de usuárias ao longo de um ano e desejavam participar da entrevista. Foram realizadas três entrevistas narrativas grupais com as profissionais de saúde, distribuídas no período de três semanas e com duração de uma hora cada.
O grupo das Profissionais foi formado por quatro mulheres cisgênero (Profissionais = 4), com idades entre 45 e 20 anos, sendo duas brancas e duas negras; uma psicóloga servidora pública, duas estudantes de pós-graduação latos sensu e uma estudante de graduação.
As participantes foram convidadas a narrarem livremente sobre a experiência profissional no grupo com ênfase no sofrimento psíquico das mulheres e seus modos de cuidado. O conteúdo foi transcrito e transformado em uma primeira leitura sobre os temas compartilhados e submetido às entrevistadas para reflexão, debate e aprofundamento das considerações suscitadas.
A análise do material se deu a partir dos textos produzidos nas entrevistas narrativas realizadas com os dois grupos (Usuárias e Profissionais), diários de campo, atas dos encontros e registros das discussões teórico-clínicas. Foram destacados aspectos relevantes das vivências femininas de sofrimento psíquico, do compartilhamento dessas experiências nos grupos e das reorientações no modo de pensar o cuidado de mulheres. O material final foi recontado em um texto de pesquisa que inclui as versões e as perspectivas das pesquisadoras, articulados aos textos teóricos que embasaram o estudo.
O material foi categorizado a partir dos seguintes eixos de análise: coletivização do sofrimento entre mulheres; construção de novas referências; um cuidado pensado a partir da lógica feminina; e a perspectiva das profissionais de saúde.
Atendendo às exigências da Resolução CNS nº 466/2012, esta pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB), com o número CAAE 56267722.3.0000.5263 e CAAE 51352321.0.0000.5263. Todas as participantes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Não houve financiamento para este estudo.1
Coletivização do sofrimento entre mulheres
Muitos ambulatórios de saúde mental costumam priorizar atendimentos individuais, entendendo o sofrimento como algo interno e inerente aos sujeitos. As mulheres que participaram do grupo estavam ou já estiveram em atendimentos psiquiátricos e psicoterapêuticos individuais, experiência que produziu quase ou nenhum efeito em relação à elucidação do sofrimento relacionado à desigualdade de gênero.
Coletivizar a experiência e compartilhar com outras mulheres, inclusive com as profissionais de saúde, trouxe para as participantes a possibilidade inédita de produção de novos sentidos para a leitura que faziam de seu sofrimento.
Eu costumava me sentir uma doida, desviada, totalmente diferente, perdida no mundo. Quando eu vim parar aqui eu vi que as questões que eu vivia não eram questões só minhas, eram questões de mulheres. (Usuária 2)
Uma das estratégias para facilitar a aproximação entre as mulheres foi a proposta de que elas se apresentassem a partir de elementos cotidianos significativos para elas: fotos, desenhos e pequenos objetos foram selecionados para representar a casa e a rotina do dia a dia. Esse modo de chegada permitiu colocar em primeiro plano aquilo que costuma geralmente ficar de fora nos serviços de saúde mental: o modo como o corpo e memória são tocados pelo cotidiano. A tatuagem em homenagem ao pai que perdeu na adolescência, o presente de um amigo querido e pequenos objetos do cotidiano irromperam na cena, subvertendo modos mais convencionais de aproximação.
Narrar a vida partindo de lugares e registros íntimos favorece a conexão e possibilita que cada uma tenha a chance de transmitir o modo como se vira, suas estratégias para lidar com a vida e com a história. A articulação da experiência individual com a coletiva ajuda a encontrar a voz, falando em companhia, apoiadas umas pelas outras.
[...] o que as colegas trazem colabora comigo, com o meu processo, com a minha caminhada. Posso compartilhar e colaborar com as meninas. Em momentos difíceis, a gente tem o grupo como um apoio, uma forma de lembrar que passamos por situações semelhantes, nos apoiamos umas nas outras e aqui é um espaço seguro. (Usuária 5)
Anzaldua (2021) diz que escrever é um ato colaborativo que inclui as leitoras, um ato comunal, endereçado a outras. Também bel hooks (2017) frisa que em sua prática docente se interessa pelo engajamento, pela criação de uma comunidade de aprendizado. Nessa mesma linha, a troca entre as participantes do grupo, seja por meio das histórias ou do compartilhamento de escritos e registros, se alinha à ideia de uma prática de liberdade, que não se dá sem envolvimento e participação em uma comunidade. Como indica Paulo Freire (1987), “ninguém se liberta sozinho”.
Comunidade diz respeito ao modo como cada mulher pode, desde o seu lugar e a partir de sua perspectiva, encontrar elementos tanto de reunião quanto de separação. Lorde (2021) chama atenção para uma “suposta homogeneidade de experiência coberta pela palavra sororidade que, de fato, não existe” (p. 143). As diferenças servem de ferramenta para o desenvolvimento de saídas criativas, mobilizando o poder coletivo das mulheres (p. 145).
Eu não sabia como ter amigas mulheres e, depois de entrar para o grupo, eu passei a me conectar com as minhas amigas mulheres. Agora eu tenho mais amigas mulheres do que homens e eu estou achando fantástico. (Usuária 4)
Uma das profissionais de saúde aponta a importância de “criar um espaço para que as diferenças apareçam, sejam assumidas e reconhecidas” (Profissional 3). As participantes, apesar de compartilharem da mesma faixa etária e escolaridade, vivenciaram graus de vulnerabilidade distintos de acordo com outros determinantes como raça, classe, território de moradia e relações familiares.
Eu entendi que vinha de um momento em que estava descobrindo meu lado feminista, entendendo mais sobre isso e como essas dores do dia a dia, da vivência, das histórias, poderiam ser compartilhadas com outras pessoas. (Usuária 1)
Sair da solidão a partir da coletivização do sofrimento permite que momentos de muita dor sejam compartilhados e superados com o apoio do grupo, construindo um amparo discursivo, na vida e no laço social, como nas passagens que seguem e que suscitaram concordância geral:
Eu acho que o momento marcante para mim foi que vocês me impediram de me matar. (Usuária 2)
Ah! Isso foi marcante para todo mundo. (Usuária 1)
Construindo novas referências
A história familiar e o modo como cada uma se situa em relação à linhagem feminina foi outra dimensão muito presente no grupo. Refletir acerca da relação com as mães ou cuidadoras, permite localizar e se posicionar em relação à cadeia geracional, revisitando o modo como as mães ou cuidadoras vivem ou viveram o feminino. Tocar nessas identificações ajuda a compreender o medo sentido em relação à possibilidade de repetir relações amorosas opressivas e violentas, mas também em relação à certa distância que se estabeleceu entre elas e suas famílias de origem depois de terem se tornado as primeiras a ingressar na universidade. Como se diferenciar das mulheres da família sem precisar romper os laços?
Como assinala uma das profissionais que participa do grupo, a expectativa de recompensa financeira ao cursar uma carreira universitária raramente se concretiza a curto prazo e pode gerar frustração.
Elas achavam que não passariam por certas situações que elas ainda estão passando. ... má remuneração... ter um diploma, estar ascendendo academicamente não significa necessariamente recompensa financeira. (Profissional 2)
Ser a primeira da família a ir para a universidade gera muitas expectativas e frustrações, não é fácil desbravar esse caminho. Romper com o destino familiar, fazer diferente, implica lidar com o sentimento de solidão e requer a construção de novas referências.
Elas são as primeiras a terem essa trajetória. Mas isso fica frágil de se sustentar, porque nenhuma outra pessoa da família teve essa experiência ou sustentou isso. (Profissional 3)
Esse rompimento com a história delas traz sofrimento. A família, aquelas pessoas que estão na história delas, não aceitavam elas assim. [...] Essa falta de aceitação produz essas expectativas com a vida, que também que vão se quebrando. E aí acho que são muitas quebras. (Profissional 4)
O recurso narrativo ajuda a atravessar momentos delicados e a encontrar a força para seguir adiante, coletivizar o sofrimento dá uma dimensão mais ampliada daquilo que até então ficava restrito ao privado.
A seleção de um trecho de um filme, de um livro, de uma música é um elemento disparador. A partir desse elo narrativo, cada uma destaca um fragmento, articulando-o com sua própria história. Como elas mesmas iam se dando conta, esses elementos não estavam desatrelados de uma história coletiva, maior. (Profissional 1)
Elementos da cultura nos auxiliam a escrever a nossa própria história, tecendo encadeamentos com outras histórias e favorecendo, assim, um senso de pertencimento. A partir do conto “Olhos d’água”, da escritora Conceição Evaristo, as relações mães-filhas puderam ser exploradas.
Quando a personagem conseguiu descobrir qual o olhar da mãe dela, ela conseguiu finalmente ver a verdade, reconhecer a história dela e de tudo o que viveram juntas. (Usuária 4)
Histórias de vulnerabilidade na infância, com violência familiar, negligência e desamparo vieram à tona. Passagens da vida em que se sentiram desprotegidas, solitárias e sem referência de cuidado. Para a Usuária 2, a passagem para a vida adulta foi marcada pela necessidade de um afastamento físico da família para não se tornar “uma versão estendida da mãe”. Outras passaram a viver em outra cidade ou deixaram de falar com suas mães para buscarem seus próprios caminhos.
Ao se afastarem das famílias, precisaram buscar novas referências e apoio para si. Para muitas delas, o tratamento em saúde mental se deu nesse momento, ao se verem sozinhas e sem referências. O grupo foi, por essa razão, um espaço privilegiado de acolhimento, apoio e amparo para que um trabalho de corte, ruptura, mas também de costura, de reconstrução de laços pudesse ocorrer.
Passei muitos anos sem falar com minha mãe e acabei esquecendo muita coisa sobre ela, muita coisa que ela fez de bom para mim, porque naquele momento era mais fácil não gostar dela. Quando chovia, eu e meu irmão tínhamos muito medo porque alagava dentro de casa, os ratos passavam, e minha mãe ficava com a gente em cima da cama até passar, dizendo que estávamos, na verdade, em um barco remando. [...] Foram momentos e situações do dia a dia que eu passei a olhar com mais delicadeza e reconhecer as atitudes dela que não eram apenas negativas. (Usuária 1)
Uma das participantes, ao romper os laços com a família, experimentou o sentimento de estar perdida e à deriva, mas acena com uma saída:
Tem um dessossego dentro de mim e saio na tentativa de me encontrar. Fico perdida como a personagem (de uma música). [...] Mas também curto a perdição e busco por um futuro onde eu me encontre. (Usuária 5)
Lugones (1987) incentiva as mulheres a reverem convenções e tradições, libertando-se de modos fixos de vínculo para experimentarem outros modos de laço, um amor baseado na pluralidade, na diferença. A possibilidade de ir e vir, de transitar entre mundos, é fundamental para as epistemologias feministas, habilidade que racismo e patriarcado insistem em apagar. A crítica e o julgamento feminino em relação a outras mulheres fazem parte das estratégias do regime falocêntrico para manter as mulheres submissas e enfraquecidas. Em uma deturpação perversa, essa artimanha transforma amor em abuso, instigando as mulheres a exercerem poder umas sobre as outras.
Visitar mundos é uma forma de encontrar identificação na diferença e compartilhar a humanidade em comum. Mas isso não esgota o problema, porque a intimidade, o ficar à vontade, é condição para ter lugar, pertencer. Para isso, é fundamental conviver e passar tempo com outras mulheres, participar do cotidiano como condição para ter histórias para contar.
As ações não são únicas e exclusivas de somente uma de nós. O que as outras trouxeram aqui sobre a vida delas tem efeito nas nossas ações. (Usuária 4)
Eu fui perceber que a amizade com as mulheres estava me fazendo falta. (Usuária 2)
Um cuidado pensado a partir da lógica feminina
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2014; 2022), os grupos populacionais mais expostos a circunstâncias sociais, econômicas e ambientais desfavoráveis têm mais riscos de adquirirem perturbações mentais. Tais circunstâncias ainda se relacionam com variáveis de raça e gênero, agravando a vulnerabilidade de determinados grupos, nos quais as mulheres se incluem. Pessoas negras do Terceiro Mundo, classe trabalhadora, idosos e mulheres são grupos constantemente submetidos a opressões sistemáticas, ocupando lugares sociais dispensáveis e desumanizados (Lorde, 2021), tornando-as suscetíveis à violação de direitos e à segregação e dificultando seu acesso à saúde, educação, emprego e liberdade.
Além disso, grupos socialmente desfavorecidos costumam sofrer um descrédito sistemático que atinge seu testemunho e terem condições de acesso dificultadas a recursos interpretativos e instrumentos de leitura que iluminariam suas experiências sociais e culturais. Tuana (2017) destaca que as mulheres costumam ser vítimas preferenciais de injustiça epistêmica e defende, em razão deste fato, a necessidade de epistemologias feministas. Questiona, com isso, a ideia de um sujeito universal, tal como sustentado pelo discurso científico, em que valores e interesses são ocultados em nome de uma neutralidade que encobre uma perspectiva masculina.
A luta feminista tem se empenhado na construção e consolidação de práticas epistêmicas mais justas, desvelando e contestando as relações de poder existentes (Tuana, 2017). As epistemologias feministas e pós-coloniais contribuem para a produção de conhecimento e estratégias que superem a parcialidade de gênero e as desigualdades de raça, classe e orientação sexual (Lima, 2021).
As participantes dizem experimentar constrangimento por não conseguirem falar sobre assuntos em consultas com profissionais homens.
Falando com mulheres eu me sinto mais segura, me sinto melhor. Aqui no grupo eu sinto que o que eu vou falar não vai ter um deboche. Sem falar que tem coisas que eu já passei na vida que só quem é mulher vai entender. (Usuária 1)
Estratégias para invisibilizar e silenciar sistematicamente o sofrimento derivado da opressão de gênero impedem que este seja elaborado e transformado em conhecimento. Práticas de saúde atravessadas pela norma machista e heteronormativa com frequência reproduzem preconceitos e estereótipos das relações de gênero. As mulheres tendem a se sentirem culpadas por não se encaixarem em ideais de comportamento sustentados pela cultura, o que envolve também a adequação a certo modo de performar o feminino. Culpa, tristeza e solidão reforçam o silenciamento e o mal-estar.
A gente é colocada socialmente nesse lugar de espera, de que tem que depender de alguém ao lado para se sentir aceita, vista, acolhida. (Usuária 4)
Parece que meu pensamento sempre foi voltado aos homens que eu tive ao meu redor, a maneira como me julgavam, como me olhavam, como eu tinha que parecer para impressioná-los e como eu tinha que me preservar para não aparecer muito diante deles. (Usuária 1)
O fortalecimento da autoestima e da autonomia das mulheres como sujeitos sociais precisa ser incluído como parte do cuidado em saúde mental. Segundo bel hooks (2021), passividade e perda da capacidade de autoafirmação fazem parte da socialização machista, mas “o amor próprio não pode florescer em isolamento” (hooks, 2021, p. 94), sendo fundamental um ambiente acolhedor e para aprender a amar a si mesma e às outras.
Desde criança ouvimos comentários “você é feia, você não é bonita, você não é como a fulana”. Então a gente começa a criar aquela competição que nem sabemos onde começa. [...]. Dentro desse espaço, a gente consegue subsídios, ferramentas através dos nossos diálogos, para trabalhar esse nosso emocional ferido e também o nosso feminino. (Usuária 2)
A rejeição da ideia do amor romântico, do casamento tradicional e da maternidade é uma das primeiras formas que as participantes encontram para se diferenciar ativamente da história de suas mães.
Há uma oposição muito ativa a isso, a estabelecer relacionamentos, a ter uma família, filhos... Elas falam de não querer ter filhos, casar, por conta das consequências dos relacionamentos violentos vividos pelas mães. (Profissional 1)
Questionar a banalização dos relacionamentos abusivos e a expectativa social de casar e ter filhos, reconhecer o sofrimento das mães e as violências vivenciadas pelas mesmas e perceber como isso repercute na própria vida, reconhecer-se enquanto fruto desse tipo de relação envolve um processo doloroso, mas necessário para romper com a herança social tradicional e poder conduzir a própria vida desatrelando-se dessas imposições.
O compartilhamento de histórias, conforme observaram Buechler et al. (2023), suscita a solidariedade e pode transformar a realidade vivida em um contexto de extrema violência. Ações de promoção de saúde mental devem focar na criação de soluções que permitam lidar coletivamente com as circunstâncias da vida (Oliveira, 2021). A construção de sentidos ajuda a nomear o sofrimento e o reconhecimento da violência de gênero a partir de referenciais próprios e compartilhados coletivamente.
A convivência no grupo viabiliza a ruptura do silenciamento e instiga à construção de novas saídas. O coletivo facilita o processo de subjetivação da experiência e ajuda a fortalecer a caminhada ruma à construção de modos mais próprios de estar com os outros e de se relacionar amorosamente.
A perspectiva das profissionais de saúde
Dar visibilidade às marcas de opressão exige um reposicionamento nas práticas em saúde, estimulando o protagonismo e a autonomia para alcançar mudanças individuais, mas também coletivas. De maneira intencional ou não, o sofrimento de populações que já se encontram em desvantagem pode ser agravado pelo encontro com o profissional de saúde. Isto se dá pela maneira como o sofrimento é apropriado e entendido pelos profissionais - por exemplo, através de práticas medicalizantes, mas também pelas teias burocráticas de acesso ou barreira ao cuidado e pela invisibilização do sofrimento social em categorias diagnósticas.
Essa discussão de gênero só está chegando agora. Assim, do cuidado estar levando essas questões de gênero de raça. Eu acho que o campo da Atenção Psicossocial está se abrindo para esse momento. [...] A formação, as especializações, residências, nesse viés aí do gênero, da raça, da classe… eu acho isso vem se pensando agora né. Porque eu acho que a gente também está ainda muito dominado por essa questão diagnóstica, da medicalização. (Profissional 2)
A abordagem em saúde é suscetível aos efeitos de gênero em suas práticas. Não por acaso, todas as participantes compartilharam ter experimentado desconforto com profissionais de saúde homens, pontuando que não é incomum saírem de muitas consultas com a sensação de terem “falado demais e incomodado”.
Entender o sofrimento a partir da complexa realidade de cada participante e trazer à tona a discussão sobre a desigualdade de gênero é condição para a construção de um cuidado centrado na experiência feminina. Ao nosso ver, o cuidado de mulheres não precisa ser exclusivamente conduzido por mulheres, mas a perspectiva de gênero deve ser considerada e problematizada para que as ações sejam mais condizentes com a experiência. O cuidado, pensado a partir da lógica feminina, pode introduzir nuances e matizes que aproximem profissionais de saúde da experiência feminina.
Elas falam muito de se sentirem confortáveis por só ter mulheres, vão falando desde problemas de saúde até essas coisas sobre casamento, sobre o corpo. (Profissional 4)
A formação em saúde e, sobretudo, em saúde mental ainda precisa avançar no sentido de um cuidado que atenda às necessidades concretas de suas usuárias. Problematizar a dinâmica da relação entre sofrimento psíquico e questões sociais é o primeiro passo na direção da construção de narrativas alternativas que ampliem a autonomia e o protagonismo de grupos e pessoas que costumam ficar à margem.
Esse recorte de gênero, raça e classe social é importante. Pensando inclusive a gente tem um diagnóstico de borderline que é dado às mulheres quase sempre, como uma coisa que se prolifera muito, né? (Profissional 1)
A mulher negra está na base da pirâmide. Então somos nós que estamos, assim, em maior desvantagem social. Então eu acho que é isso, se a gente não tem isso como perspectiva, como causador de sofrimento, como faz? Isso tem que estar na perspectiva do profissional de saúde, do profissional que está no SUS, do profissional que trabalha em equipe. (Profissional 3).
Repensar a formação profissional na área da saúde mental pode contribuir para criar contextos que acolham a diferença e que sejam inclusivos, sensíveis e solidários. É importante destacar, entretanto, que a experiência transforma também aqueles que cuidam, como as narrativas a seguir dão testemunho:
É uma experiência muito rica. A minha formação acadêmica é pouco aberta a esse tipo de recurso [...]. Essa partilha, nesse lugar, é muito especial para mim. [...] É diferente a profissional que chegou no início e a que sai do encontro. Trabalhar esse lugar, de como eu ia me colocar também foi muito legal. A experiência toda é muito linda. (Profissional 2)
[...] as mulheres são muito diferentes, a gente não vai ter uma padronização do feminino. Até na própria graduação mesmo a gente avançando tanto, eu acho que querem provar que tem, esse padrão, e na prática a gente vê que não é assim. (Profissional 3)
[...] no serviço especializado, essas outras conexões, essas outras variáveis, não são colocadas em nenhum momento, isso não opera. Opera o diagnóstico, a medicalização, uma forma muito mais dura e qualquer outra questão fica de fora disso. E aí vai depender do profissional que está ali atendendo num esforço muito individual. (Profissional 1)
Como mostra Kilomba (2019), a manutenção do poder e o privilégio do conhecimento hegemônico se refletem através dos discursos. Descentrar o conhecimento, criar novos espaços de teorização e de práticas, é uma forma de transformar o modo como o poder se configura. Bicudo (2019) nos convoca a dar lugar ao descontentamento epistêmico e rejeitar ativamente papéis e valores sociais injustos, bem como a repensar o cuidado e a questionar a institucionalização de práticas machistas e sexistas.
Eu estou muito cansada de ficar vendo essa padronização de sofrimento [...] é impossível a gente conseguir colocar todos os sofrimentos nessas pequenas caixinhas. O sofrimento psíquico da mulher e não só dela, vai muito além do que os diagnósticos tentam colocar. (Profissional 2)
Pensar a concepção do cuidado a partir da lente feminista implica reconhecer questões de gênero, raça, classe. Esse entendimento se constrói a partir de um posicionamento e engajamento ético-político, trazendo pautas pouco exploradas no meio acadêmico e profissional ligado à área da saúde. A universalização provoca apagamento, limita, segrega e não corresponde à realidade das mulheres. Contextualizar e fazer emergir formas alternativas de exercer a feminilidade constituiu ligação potente entre usuárias e profissionais.
Eu já ouvi isso: que ouvir uma pessoa trans, uma pessoa negra, ouvir uma mulher, vai ser sempre tudo igual, é a mesma coisa. As bases teóricas precisam funcionar para tudo. Mas sem estar advertido desses lugares, que são lugares sociais a gente acaba não ouvindo nada né? A gente acaba calando as pessoas. Então a gente está aqui também se havendo com esse déficit. (Profissional 4)
Conclusão
A prática narrativa permite o acesso a outras experiências subjetivas, amplia a interlocução, fomenta o diálogo e convoca à solidariedade. A promoção de saúde mental deve proporcionar ampliação de parceria, criação de ambientes acolhedores e ampliação de repertório narrativo, desenvolvendo recursos para falar de si a partir de referenciais próprios.
A circulação da palavra e a produção coletiva de narrativas permitem alcançar efeitos de subjetivação que ressignificam experiências ligadas ao gênero, fomentando a produção de estratégias que desembocam em maior protagonismo, diminuição do sofrimento e do sentimento de solidão. A distribuição em grupo produz modos de cuidado voltados para a minimização do silenciamento produzido pela injustiça de gênero, dando suporte à construção de narrativas alternativas que priorizam o cuidado relacional, o compartilhamento de experiências e a circulação entre pontos de vista diversos.
Existe ainda pouco debate sobre a influência da variável gênero no sofrimento psíquico. O olhar interseccional tem se constituído como ferramenta potente na leitura das desigualdades, discriminações e vulnerabilidades sofridas pelas mulheres. Iluminar o modo como as opressões afetam a saúde mental é fundamental para combater práticas e teorias que, neste campo, reforçam um lugar objetificado, estereotipado e submisso para mulheres. Refletir sobre os estereótipos de gênero pode ajudar a não perpetuar condutas e atitudes racistas, machistas, conservadoras e heteronormativas no campo da saúde.
Estabelecer relações entre particularidades individuais e aspectos mais coletivos do sofrimento e incluir a perspectiva de gênero no cuidado são fundamentais para tocar no modo como o poder é distribuído em nossa sociedade. Profissionais de saúde podem ter papel estratégico no combate à opressão e à violência de gênero nos serviços de saúde. Legitimar experiências de sofrimento pode auxiliar a denunciar e combater sua perpetuação e contribuir para maior protagonismo das mulheres no enfrentamento de suas dores.
Para concluir, gostaríamos de pontuar que este é um estudo exploratório que apresenta experiências e reflexões de um grupo de mulheres com recorte social e geracional específico: jovens, com escolaridade alta, solteiras e sem filhos. Tais características podem ter interferido nos achados da pesquisa. Apesar de termos apontado para as diferenças em suas vivências e trajetórias de vida, o fato de serem mulheres jovens universitárias é possível que já tenham tido contato com algum letramento de gênero para fazerem a leitura de seu sofrimento. Destacamos que é desejável realizar pesquisas futuras com grupos de mulheres com outros recortes sociais e geracionais. Dessa forma, será possível realizar comparações e reflexões adicionais àquelas aqui apresentadas.
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