Open-access Avaliação da efetividade da atenção fisioterapêutica na Atenção Básica em diferentes modelos de atenção

Evaluation of the effectiveness of physiotherapy care in Primary Care under different care models

Resumo

O objetivo desta pesquisa foi avaliar a efetividade da atenção fisioterapêutica na Atenção Básica (AB) em diferentes modelos de atenção. Trata-se de uma pesquisa avaliativa, qualitativa, realizada em seis municípios da macrorregião da Grande Florianópolis-SC, selecionados intencionalmente por porte populacional e presença ou ausência de rede hospitalar. A atenção fisioterapêutica foi classificada a partir de uma tipologia: tipo 1 - Equipe multidisciplinar com fisioterapeuta; tipo 2 - Equipe multidisciplinar com fisioterapeuta terceirizado/credenciado; tipo 3 - Mista, abarca os tipos 1 e 2. A matriz avaliativa, composta por três dimensões e nove indicadores, foi aplicada através de entrevistas com fisioterapeutas, gestores, usuários com dor lombar crônica ou usuários restritos ao domicílio, selecionados de forma intencional. Três municípios foram parcialmente efetivos, dois do tipo 1 e um tipo 2; os demais não foram efetivos. Nesta amostra, maior oferta de educação permanente, maior resolubilidade para pacientes com doenças crônicas e maior oferta de atendimento domiciliar são necessários para aprimorar a efetividade da Atenção Primária à Saúde em Fisioterapia.

Palavras-chave:
Avaliação de impacto na saúde; Efetividade; Fisioterapia; Atenção Básica

Abstract

Objectives:   To evaluate the effectiveness of physiotherapy care in the Unified Health System (SUS) Primary Care (PC), in different management models.

Methods:  This is an evaluative, qualitative research carried out in six municipalities in the Macroregion of Florianópolis, Santa Catarina state. The sample was intentionally selected by population size and presence or absence of a hospital in the municipality. Physiotherapy care was classified based on a typology: type 1 - Multidisciplinary team with physiotherapist; type 2- Multidisciplinary team with outsourced/accredited physiotherapist; type 3 - Mixed, with types 1 and type 2 characteristics. The cities were classified as “effective”, "partially effective" or “non-effective”, based on a matrix of evaluation, consisting of three dimensions and nine indicators. Interviews were conducted with physiotherapists, managers, and health system users with chronic low back pain or home care users, selected intentionally.

Results/Discussion:  Three municipalities were classified as partially effective, two type 1 and one type 2; the other cities were classified as non-effective. The determining factors for non-effectiveness were related to dimensions “management actions” and “health promotion”. In this sample, largest permanent education offering, better solvability for chronic conditions patients, and greater provision of home care are necessary to improve the Physiotherapy Primary Care effectiveness.

Keywords:
Health Evaluation; Effectiveness; Physiotherapy; Primary Health Care

Introdução

A Atenção Primária à Saúde (APS), elemento central para garantia do direito universal à saúde, foi denominada de Atenção Básica (AB) durante o processo de sua implantação no Brasil, para diferenciar políticas propostas pelo movimento sanitário das estratégias difundidas internacionalmente (Giovanella; Mendonça, 2012). No Brasil, estruturou-se a partir da Estratégia Saúde da Família (ESF). Posteriormente, os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) e os Núcleos Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB) possibilitaram a integração de outras categorias profissionais, de acordo com as necessidades de cada região (Brasil, 2017).

Os NASF-AB promoveram a aproximação formal da fisioterapia com a AB. A atenção fisioterapêutica na AB busca o compartilhamento da assistência tradicional com atividades de promoção, prevenção e educação em saúde (Fonseca et al., 2016). Entretanto, para além dos desafios associados à assistência, outros fatores prejudicaram essa integração, como a pandemia da Covid-19 e as políticas de governo mais recentes, como a Emenda Constitucional 95, o programa Previne Brasil e alteração no custeio dos NASF-AB impactaram na composição das equipes (Casotti, 2023). A atenção fisioterapêutica na AB foi escolhida como objeto desta pesquisa, por ser o cenário no qual o enfrentamento e resolução dos problemas mais prevalentes são realizados de forma articulada e perene, sempre visando consolidar os princípios e diretrizes do SUS e fortalecendo os sistemas locais de saúde (Pinto; Giovanella, 2018).

Além disso, observa-se escassez de estudos avaliativos sobre a atenção fisioterapêutica no sistema de saúde, com predomínio de pesquisas normativas que não ultrapassam a análise de mérito (eficácia e eficiência) das ações. Por isso, aspectos da qualidade dos serviços que estejam relacionados ao seu valor - efetividade e relevância (Kovaleski, 2018), raramente são contemplados, e esta pesquisa pode contribuir para reduzir esta lacuna, trazendo informações inovadoras para o campo de atenção (Rothstein; Albiero; Freitas, 2024).

Assumindo o conceito elaborado por Contandriopoulos et al. (1997), de que a “avaliação é um julgamento de valor a respeito de uma intervenção ou sobre qualquer um de seus componentes, com o objetivo de ajudar na tomada de decisões”, e o conceito adaptado para a saúde por Kovaleski et al. (2011), de que a “efetividade avalia aspectos políticos relacionados às expectativas individuais e coletivas em relação à saúde, atrelada à maximização de resultados da qualidade da gestão em saúde”, questiona-se: a atenção fisioterapêutica na AB é efetiva? qual o grau de efetividade?

Para responder a tais questões, o presente estudo teve o objetivo de avaliar a efetividade da atenção fisioterapêutica na AB em diferentes modelos de atenção e em municípios com presença e ausência de rede hospitalar.

Métodos

Caracterização da pesquisa

Caracteriza-se como pesquisa avaliativa (Contandriopoulos et al., 2000), de abordagem qualitativa (Minayo, 2021), com realização de estudos de casos múltiplos (Yin, 2010).

Uma matriz avaliativa proposta previamente pelos autores (Rothstein; Albiero; Freitas, 2024), composta por três dimensões e nove indicadores, foi aplicada em amostra intencional composta por seis municípios, de diferentes portes populacionais, presença ou ausência de rede hospitalar, e diferentes modelos de oferta da atenção fisioterapêutica na AB, sendo classificados a partir de uma tipologia criada para este estudo.

Seleção dos casos

Optou-se por aplicar a Matriz em municípios da macrorregião da Grande Florianópolis, selecionando-se seis entre 22 municípios, de forma intencional, considerando os critérios “porte”, “presença de rede hospitalar” e “tipo de atenção”.

Tipologia dos casos

As formas de atuação fisioterapêutica foram classificadas por meio da seguinte tipologia, construída a partir de entrevista com gestores de seis municípios da mesma região: tipo 1 - Equipe multidisciplinar com fisioterapeuta - equipes que operam em modelo de equipes multidisciplinares mesmo após as mudanças de financiamento instituídas pela Nota Técnica n.3/2020; tipo 2 - Equipe multidisciplinar com fisioterapeuta terceirizados - equipes que não possuem fisioterapeuta e suprem a demanda contratando clínicas credenciadas; tipo 3 - Mista - abarca os tipos 1 e 2, contando com fisioterapeuta próprios e também terceirizados.

A Matriz Avaliativa e fontes de evidências

A Tabela 1 apresenta a amostra pesquisada, indicando para cada município as características de porte, rede hospitalar e tipo de assistência, além do número e segmento - gestor, fisioterapeuta ou usuário - dos entrevistados.

Tabela 1
Distribuição dos entrevistados, de acordo com o tipo de função e necessidade de atenção em cada município. Florianópolis-SC, 2024

No total, foram entrevistados oito gestores, 13 fisioterapeutas, sendo que destes, três compartilhavam a carga horária com a gestão; 20 usuários em restritos ao domicílio e 49 usuários com histórico de dor lombar crônica, escolhida por ser a mais prevalente das morbidades com resolução ao alcance da assistência fisioterapêutica na AB. No total, foram 87 entrevistados.

Quadro 1
Matriz Avaliativa da efetividade da atenção fisioterapêutica na AB

Todas as questões possuíam campo aberto para observações, e todos os comentários realizados pelos entrevistados foram registrados pela pesquisadora, fisioterapeuta, com experiência em pesquisas na AB.

A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas com fisioterapeutas (FT), gestores, usuários com dor lombar crônica (DL) ou usuários restritos ao domicílio (RD). Estas ocorreram de forma virtual no período de janeiro a abril de 2023. Em municípios de tipo 2 e 3, as perguntas relacionadas ao indicador 3 foram realizadas diretamente ao usuário, e o indicador 7 ao gestor da equipe da AB.

Fisioterapeutas de clínicas credenciadas não participaram da pesquisa. As clínicas credenciadas realizavam assistência nos estabelecimentos próprio, e eram responsáveis por toda assistência clínica e domiciliar em M6 e M3 e 80% total da assistência clínica no M4.

Foi solicitado aos municípios que todos os usuários RD tivessem características para atenção domiciliar 1 (Brasil, 2016), que é destinada aqueles com dificuldade de locomoção, mas com problemas compensados/controlados e que necessitam de cuidados com menor frequência e recursos. Todos os participantes foram escolhidos de forma intencional, sendo os usuários elegíveis aos critérios da pesquisa identificados pelo FT ou pela regulação. Usuários com DL eram elegíveis quando estivessem a pelo menos três meses em intervenções fisioterapêuticas na AB.

Após coletados, os dados foram consolidados e aplicados a Matriz Avaliativa. No julgamento de cada dimensão foram atribuídas pontuações e as qualificações boa, regular ou ruim. A classificação da pontuação da dimensão e o julgamento da dimensão estão apresentados no Quadro 2 - As dimensões foram julgadas considerando a pontuação máxima possível de ser atingida.

Foi lançada na Matriz a resposta com maior predomínio consolidado, além disso, no parâmetro “sim=bom”, “não= ruim”, foi considerada a classificação regular quando havia empate de respostas. Na dimensão 1 considerou-se a seguinte pontuação: muito = bom (4 pontos), pouco = regular (2 pontos) e nada/ruim (0), com pontuação máxima de 20 pontos. Na dimensão 2: muito = bom (3 pontos), pouco = regular (2 pontos) e nada/ruim (1), com possibilidade de pontuação máxima de 12 pontos. Na dimensão 3: muito = bom (2 pontos), pouco = regular (1 pontos) e nada/ruim (0), com pontuação máxima de 8 pontos (Rothstein; Albiero; Freitas, 2024).

Após a soma da classificação de cada dimensão, foi possível realizar o julgamento da dimensão, realizando sua classificação conforme quadro apresentado a seguir. Com a soma da pontuação do julgamento das dimensões, obteve-se a pontuação final da aplicação da matriz, e com isso o juízo de valor em relação à efetividade da atenção fisioterapêutica.

Quadro 2
Classificação da pontuação, julgamento das dimensões e juízo de valor final

Considerações éticas

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) parecer número 5.309.694 e CAAE 53011421.3.0000.0121.

Resultados

O Quadro 3 apresenta o julgamento de valor de cada medida em cada um dos indicadores, nos seis municípios da macrorregião da Grande Florianópolis-SC. O Quadro 4 apresenta a classificação do julgamento de cada dimensão, a pontuação total e a emissão de juízo de valor do grau de efetividade de cada município, segundo a tipologia.

Quadro 3
Julgamento de valor de cada medida em seis municípios da macrorregião de Florianópolis-SC
Quadro 4
Grau de efetividade da atenção fisioterapêutica na AB de seis municípios da macrorregião de Florianópolis-SC

Destaque-se que todos os municípios apresentaram impacto em relação a ações assistenciais, com predomínio de classificação “muito bom” e com relatos como:

A fisioterapia mexe bastante com ela. Isso previne muito escaras. Estou muito satisfeita, pra nós é um alento a fisioterapia. É tudo pra pessoa acamada. É muito bom. (Cuidadora usuária RD1_M2).

Eu me sinto muito melhor eu não andava nem nada, agora eu já ando, eu não podia sentar na cadeira por causa da coluna, foi bem bom. Me sinto muito bem com a fisioterapia que eu fiz. (Usuário 4 DL_ M3).

[...] mas ao longo que a gente vai vendo as possibilidades... a redução de espasmo, a acessibilidade pra ir ao banheiro.. eu aprendi muito pois eu nunca tinha tido contato com uma cadeira de rodas… e ter um profissional que te diz: você vai ter uma vida boa assim nessa situação que tu tá, sendo cadeirante, é muito importante, melhora muito minha autoestima. (Usuária 2 RD_M4).

No entanto, o M1 teve classificação “regular” nesta dimensão, ao receber “ruim” no indicador 2 - Modificação na dependência física funcional, e insatisfação de usuários em RD em relação à atenção prestada, impactando na classificação “regular” da dimensão 2 e “ruim” na dimensão 3. O município adotou como política uma ação de visitas domiciliares esparsas e sem atendimento, enquanto os outros municípios realizam atendimento domiciliar, o que interferiu negativamente na satisfação e na percepção de impacto da atenção fisioterapêutica.

Não há um atendimento, eles vieram aqui, eles fizeram uma avaliação muito breve, nada demais e foram embora e nunca voltaram e eu achei que era uma avaliação pra gerar sessões e não voltaram. A minha mãe é da classificação vermelha, mas vieram e não fizeram nada que foi relevante. Muito simpáticos, mas a fisioterapeuta falou que um dos estagiários poderia vir, mas nunca mais vieram (Cuidadora 3 - M1).

Não vieram mais aqui, vieram uma vez e não vieram mais. Melhorou muito pouco quando vieram. Eu não sei fazer, eu lido com ela, mas não sei o que é pra fazer. Nada satisfeita eu estou (Cuidadora 5_M1).

Em relação à dimensão “Ações de Gestão”, nenhum município alcançou classificação máxima, com “regular” em quatro municípios (três do tipo 1 e um do tipo 2) e “ruim” nos dois municípios do tipo 3. Cinco municípios tiveram classificação “ruim” em relação à garantia do cuidado a pessoas restritas ao domicílio; o M6, de pequeno porte e sem rede hospitalar, foi o único com classificação “bom” garantindo cuidado a mais de 80% da população RD do território. A classificação “ruim” nessa dimensão levou os municípios 3 e 4 à não efetividade.

A necessidade de melhora em relação a resolubilidade da assistência fisioterapêutica em usuários com condições crônicas (indicador 4), o aumento de acesso a usuários RD (indicador 5) e ampliação da educação permanente (indicador 7) foram determinantes, sendo que o indicador 4 e 7 só tiveram classificação “bom” em municípios de tipo 1. É importante perceber que municípios com fisioterapeutas próprios têm mais resolubilidade para pacientes crônicos; o uso de terceirizados apresenta bons resultados, mas perpetua a dependência da assistência fisioterapêutica.

Chama atenção os resultados do indicador 6 - satisfação dos usuários. Usuários com DL estavam “muito satisfeitos=bom”. Usuários RD estavam “pouco satisfeitos ou insatisfeitos = ruim” com visitas domiciliares(M1), “satisfeitos = regular” com atendimentos semanais (M4, M5) e “muito satisfeitos=bom” com atendimentos mais de uma vez por semana (M2, M3, M6), o influenciou na classificação geral do indicador em cada município.

Para a dimensão “Promoção em Saúde”, observou-se na fala dos usuários:

[...] antes de fazer a fisioterapia eu estava bem reprimida sabe, eu não conseguia ter uma vida social, eu não conseguia estar junto com outras pessoas, nem em momento social em um aniversário com amigos (Usuário DL 3- M1).

Eu voltei a fazer muitas atividades que eu não estava fazendo antes. Eu passei a me movimentar, a fazer caminhada, muito bom. Meu sono melhorou, pois eu não tenho mais dor nas costas, não sinto o que sentia antes. (Usuário DL- M5)

[...] parece que a mente dele ficou mais ativa, ele reconhece mais as pessoas (cuidadora 1RD_M6).

Nessa dimensão, o M1 obteve classificação “ruim” nos indicadores 8 e 9 nas questões respondidas pelos usuários RD. No M5, características intrínsecas da população e determinantes sociais parecem interferir com maior efeito na atenção fisioterapêutica, com três classificações “regular” e falas como as que se seguem.

Eu cuido da minha mãe acamada, então é uma prisão sabe, eu tenho um irmão deficiente e uma mãe acamada, por isso estou agora sentindo dor nos braços, mas eu não saio por isso. (Usuário 4 DL_ M5)

[...] depois dessa cirurgia eu parei muito, e aqui não tem coisas na comunidade em que se possa se envolver, aqui é uma coisa meia restrita sabe, o pessoal não é de fazer coisa na comunidade aqui, no máximo o que tem é uma festinha e chega. (Usuário 8 DL_ M5)

Em relação à pontuação total por tipologia, observou-se que a pontuação 6 esteve presente em todos os tipos; com o diferencial de que nos municípios tipo 3 (Mista) questões de gestão levaram a não efetividade.

Os municípios de tipo 1 apresentaram classificação ligeiramente melhor que os tipo 3 na dimensão ações de gestão; o tipo 2 destacou-se por ser único bem avaliado na assistência a pessoas restritas ao domicílio.

A satisfação dos usuários RD foi impactada positivamente nos municípios nos quais ocorria a oferta de atendimento domiciliar com frequência superior a um atendimento por semana (M2, M3, M6).

Discussão

Em relação à dimensão 1 - Ações assistenciais, os usuários com dor lombar crônica entrevistados perceberam o impacto da atenção fisioterapêutica, sobre a sintomatologia e sobre a capacidade física funcional, corroborando a literatura (Maselli et al., 2022). Fato relevante, considerando que a lombalgia é um importante problema de saúde pública, tornando-se a principal causa de incapacidade em todo o mundo (Chen et al., 2019).

Já para usuários restritos ao domicílio, observou-se que o impacto da atenção fisioterapêutica foi percebido apenas nos municípios onde há atendimento fisioterapêutico com frequência mínima semanal. Para Levy e Oliveira (2003), a reabilitação fisioterapêutica de muitas doenças neurológicas, visa recuperar “e/ou” manter os graus de incapacidade, promovendo melhora das funções motoras sensitivas e neurológicas. Apesar de todos os usuários relatarem manutenção ou melhora de seu estado de saúde, no M1 o impacto não foi percebido por 5 dos 6 respondentes, devido à ausência de uma atenção mais regular.

Em relação à dimensão 2 - Ações de gestão, ainda que a forma de organização da assistência prestada pelo município 1 esteja de acordo com a recomendado da Portaria n.825/2016, que redefine a Atenção Domiciliar (AD) no âmbito do SUS (Brasil, 2016), esta modalidade não atende às expectativas dos usuários. Entre as explicações, a falta de longitudinalidade e de vínculo, que afetam o sucesso do tratamento, desde a adesão ao seu manejo, são determinantes na satisfação do usuário (Guadie et al., 2022).

As constatações de que casos mais severos tem avaliações piores, mencionadas por Gaudie et al. (2022), neste estudo, foram compensadas pela frequência da atenção fisioterapêutica, como observado no M6.

Em relação ao indicador "Garantia do cuidado a pessoas restritas ao domicílio", apesar de haver uma dificuldade de acesso no SUS bem relatada na literatura (Sá et al., 2023; Pauletti, 2023; Santos et al., 2022), há necessidade de os gestores repensarem seus arranjos, uma vez que é inviável sem bem avaliado com falta de recursos e acesso: o M1 tem 10 fisioterapeutas para atender 140 equipes de ESF e o M5 tem apenas um profissional para atender toda a demanda de sua população, de quase 9 mil habitantes.

Além disso, Bôas e Shimizu (2015) citam que gestores enfrentam dificuldade para definir o quantitativo de profissionais necessários em relação ao número de pacientes possíveis de serem cuidados de acordo com suas especificidades e região de abrangência. Ademais, os dois municípios do tipo 1 tinham profissionais que compartilhavam carga horária de gestão e assistência, o que cabe analisar diante de tais fatos, a necessidade de uma adequação da relação profissional e número de usuários atendidos.

Para além disso, Portes et al. (2011) mencionam que a metodologia de eleição de usuário de atenção domiciliar ainda é um grande desafio; segundo as diretrizes do Ministério da Saúde (Brasil, 2012), a modalidade AD1 visa o cuidado a usuários RD que precisam de visitas com menor frequência, com problemas controlados. No entanto, o que se viu na prática é que cada município definiu uma lógica de atenção. Alguns com atendimentos que variavam a frequência semanal, outros com visitas domiciliares e usuários acamados não percebem que visitas domiciliares são suficientes para atender suas demandas de atenção fisioterapêutica.

A oferta de ações de educação permanente (indicador 7) ocorreu em apenas dois municípios, ainda que a literatura a tenha apontado como necessária para a AB, seja para mobilizar lideranças e gestores, ou por suas implicações sobre a qualidade da atenção (Almeida et al., 2022), uma vez que a educação permanente deve qualificar os processos de trabalho, considerando as especificidades locais e as competências culturais do território, fortalecendo atributos da AB (Starfield, 2002). Ressalta-se que tiveram classificação “ruim” em relação ao indicador 7, dois municípios do tipo 3 e um do tipo 2. É possível que a gestão tenha maior dificuldade de trabalhar esse aspecto em equipes mistas, visto que profissionais de clínicas credenciadas tem suas horas técnicas revertidas em procedimentos (atendimentos). Do mesmo modo, a opção político-gerencial de contratar serviços terceirizados pode levar a maior dificuldade tanto para o desenvolvimento de ações permanentes quanto para a efetividade, uma vez que o recebimento por procedimentos executados provoca um baixo percentual de altas nos prazos previstos, perpetuando os tratamentos e a dependência do sistema de mais e mais procedimentos.

Portanto, ao considerar a dimensão ações de gestão, observam-se nela as piores classificações (regular e ruim), o que interferiu diretamente na classificação de não efetividade de dois municípios, demonstrando a importância de se rever os processos de gestão na atenção fisioterapêutica, visto o reflexo que esses indicadores podem ter nas outras dimensões e na consolidação dos princípios e diretrizes do SUS e da AB.

Maior resolubilidade, resulta na consolidação de um dos atributos da AB de proporcionar um maior acesso (Starfield, 2002) e com isso a melhoria de indicadores de saúde (Leite et al., 2018), bem como a diminuição de encaminhamentos para outros níveis. A baixa garantia do cuidado às pessoas RD, fere princípios de acesso e impacta na classificação da qualidade da assistência. Além disso, a oferta de educação permanente é indispensável para que o conceito ampliado de saúde seja incorporado na prática e seja assim, efetivo.

Em relação à dimensão 3 - Ações de Promoção da Saúde, os impactos da atenção fisioterapêutica foram observados em relação ao estilo e qualidade de vida por usuários com DL em todos os municípios, promovendo modificação de comportamento e estilo de vida e maior participação social. No entanto, não foram percebidos por usuários RD no M1, onde os usuários não identificaram a atenção fisioterapêutica como promotora de oportunidades para maior interação familiar e social.

Embora a literatura aponte que quadros com maior comprometimento funcional tenham maior influência em relação a diminuição dos papéis sociais e da qualidade de vida (Ramos-lima et al., 2018), os efeitos da atenção fisioterapêutica não foram observados primordialmente pela inexistência de um atendimento sistematizado no M1.

Procópio et al. (2019), ao discorrerem sobre os desafios e potencialidades da atenção domiciliar, chamam atenção para o fato de os cuidadores apresentarem vivências de confiança, segurança e afeto, mas também de insegurança, falta de apoio e esgotamento físico e emocional, o que exige que atores envolvidos com a AD e gestores questionem as formas de produção do cuidado instituídas.

Quanto à tipologia, observou-se pontuação 6 em todos os tipos; no entanto, dois municípios (tipo 3) tiveram classificação “ruim” na dimensão gestão, não sendo, portanto, efetivos. Os municípios parcialmente efetivos foram de tipologia 1 (M2, M5) e 2 (M6).

No M2, os respondentes foram usuários DL participantes de grupos, corroborando a literatura em relação ao impacto de grupos, os quais, são capazes de minimizar doenças e perda de capacidade funcional, preservar e desenvolver autonomia (Ribeiro; Soares; Baish, 2021).

No M6, dois pontos merecem destaque. A assistência realizada com profissionais credenciados mostrou-se efetiva tanto na atenção a usuários com DL como RD. No M6, usuários RD eram atendidos com maior frequência, assim como no M2, que também disponibilizava atendimento domiciliar por credenciado. Tais dados refletem a necessidade de um novo planejamento sobre a atenção ao usuário RD, remanejando regulação, gerando acesso e buscando estratégias de assistência que sejam adequadas às necessidades destes, gerando satisfação e efetivação da atenção fisioterapêutica.

No entanto, tais resultados merecem ser analisados com cautela. Estudos de custo-efetividade são sugeridos para complementar os resultados, visto que, segundo Pires et al. (2010), o setor público compra procedimentos caros ofertados pela rede privada. No caso da atenção a DL por serviços especializados, especialistas recebem pacientes por encaminhamento e quase sempre há um trabalho isolado da AB; não há vinculação às equipes, o tratamento tende a ser contínuo e com características de atenção secundária (Mendes, 2012).

Além disso, Tesser (2006) menciona que mesmo que comprovadas não haver vantagens, essas intervenções levarão anos ou até décadas para serem retiradas da prática cotidiana. Ademais, as diretrizes atuais recomendam que os casos de lombalgia sejam tratados na AB por não estarem, na maioria dos casos, relacionados a doenças graves (Foster et al., 2018).

Considerando que a AB é um local privilegiado para regulação do acesso e sua resolubilidade impacta na coordenação do cuidado em toda a rede é importante qualificar a regulação do cuidado. Nesse contexto, pesquisadores citam a relevância de se considerar a funcionalidade nas definições de acesso, a fim de alcançar a resolubilidade ideal às condições crônicas de saúde (De Lima et al., 2018).

Finalmente, conclui-se que a atenção fisioterapêutica na AB se mostrou parcialmente efetiva em dois municípios do tipo 1 e um município do tipo 2. Dois municípios do tipo 3 obtiveram pontuação suficiente, mas aspectos relacionados à gestão do serviço foram determinantes para a não efetividade.

Os fatores determinantes para a não efetividade estiveram associadas as dimensões “ações de gestão” e “promoção da saúde”, por baixa oferta de educação permanente às equipes, pouca resolubilidade a usuários com condições crônicas, necessidade de ampliação de acesso a usuários RD com maior impacto sobre aspectos de promoção da saúde desta população.

As limitações deste estudo estão relacionadas ao fato de ter sido realizado em apenas seis municípios do Sul do Brasil. No entanto, foi possível, avaliar a efetividade da atenção fisioterapêutica na AB, representando um importante marco para avaliação nesse âmbito de atenção.1

Agradecimento

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela concessão de bolsa de doutorado para Joyce Ribeiro Rothstein (Processo nº 88882.437589/2019-01).

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    J. R. Rothstein: concepção, planejamento, análise dos dados, revisão crítica do conteúdo e aprovação da versão final. J. F. G. Albiero: coorientação do estudo desde sua concepção, revisão crítica do conteúdo e aprovação da versão final do manuscrito. S. F. T. de Freitas: orientação do estudo, sua concepção, planejamento, revisão crítica do conteúdo e aprovação final.
  • Editora responsável:
    Paula Nunes

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Ago 2024
  • Revisado
    27 Abr 2025
  • Aceito
    16 Jun 2025
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