Resumo
Objetivo: Identificar e descrever os modelos teóricos, dimensões, conceitos, construtos, variáveis e/ou fatores de risco que estão relacionados à transmissão intradomiciliar do vírus SARS-CoV-2.
Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa, utilizando as bases de dados da BVS e PubMed. A estratégia de busca foi desenvolvida de acordo com a técnica PVO e foram utilizados descritores combinados com operadores booleanos. Foram incluídos estudos disponíveis, publicados de 2019 a 2023. Foi utilizada a tipologia Cabrera Arana para identificação do nível de utilização e profundidade de uso dos modelos teóricos.
Resultados: Foram incluídos 54 artigos. Apenas 5 (9%) relataram a utilização de modelos teóricos e, dos que incluíram, utilizaram e descreveram em profundidade - Níveis 3 (n=1) e 4 (n=4). As principais dimensões relatadas foram sociodemográfica; clínica; epidemiológica; exposição familiar e individual à Covid; às características da infecção e sintomatologia da Covid; e relacionadas às características dos domicílios.
Conclusões: O estudo disponibiliza uma análise sobre os modelos teóricos e as principais dimensões, conceitos, construtos e variáveis sobre a transmissão intradomiciliar do vírus SARS-CoV-2. A compreensão mais aprofundada desses aspectos teóricos permitirá uma abordagem mais fundamentada no desenvolvimento de pesquisas, estratégias preventivas e tomadas de decisão em saúde pública.
Palavras-chave:
SARS-CoV-2; Covid-19; Sindemia; Modelos teóricos; Saúde Pública
Abstract
Objective: Identify and describe the theoretical models, dimensions, concepts, constructs, variables and/or risk factors related to intra-household transmission of the SARS-CoV-2 virus.
Methods: This is an integrative review, using the VHL and PubMed databases. The search strategy was developed according to the PVO technique and descriptors combined with Boolean operators were used. Available studies, published from 2019 to 2023, were included. The Cabrera Arana typology was used to identify the level of use and depth of use of theoretical models.
Results: 54 articles were included. Only 5 (9%) reported the use of theoretical models and those that included, used and described in depth - Levels 3 (n=1) and 4 (n=4). The main dimensions reported were sociodemographic; clinic; epidemiological; family and individual exposure to COVID; the characteristics of COVID infection and symptoms; and related to the characteristics of the households.
Conclusions: The study analyzes theoretical models and the main dimensions, concepts, constructs and variables of intra-household transmission of the SARS-CoV-2 virus. A deeper understanding of these theoretical aspects will allow for a more grounded approach to research development, preventive strategies and decision-making in public health.
Keywords:
SARS-CoV-2; COVID-19; Syndemic; Theoretical models; Public health
Introdução
A pandemia de Covid-19 fez com que a comunidade científica desempenhasse uma força-tarefa para o desenvolvimento de pesquisas com o intuito de conhecer rapidamente e de forma aprofundada, os processos relacionados à transmissão, prevenção e controle do vírus SARS-CoV-2 e da doença por ele causada, Covid-19 (Bai et al., 2020; Lee et al., 2021). Apesar dos esforços, verifica-se na literatura científica escassez de estudos sobre o tema, que abordem e/ou explicitem os modelos teóricos adotados, bem como que apresentem e justifiquem quais e como as variáveis em estudo estão relacionadas ao processo de transmissão intradomiciliar do vírus SARS-CoV-2 de forma ampla e aprofundada (Almeida Filho, 2020; Pangarso, 2021).
A falta de descrição das variáveis e modelos teóricos nos estudos torna a seleção e escolha das variáveis para pesquisas futuras uma tarefa complexa para pesquisadores e suas equipes (Souza Filho et al., 2023; Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021). Além disso, a falta de justificativas e informações em profundidade sobre a plausibilidade técnico-científica para escolha de variáveis nos estudos pode impactar na produção heterogênea de pesquisas e resultados sobre o tema, fragilizando e fortalecendo, assim, a compreensão errônea de que a fundamentação teórica seja um mero detalhe ao relato científico (Cabrera Arana, 2007; Cabrera Arana; Molina Marín; Rdríguez Tejada, 2005).
Vale ressaltar, no entanto, que a fundamentação teórica é por vezes é considerada o fio condutor das pesquisas (Adom; Hussein; Agyem, 2018; Grant; Osanloo, 2014). Assim, compreender o “porquê” e “quais” conceitos, constructos, dimensões e/ou variáveis devem ser incluídos em uma pesquisa é fundamental para alcançar a qualidade no processo de repetibilidade, bem como para fortalecer a reprodutibilidade científica e identificar lacunas e possibilidades de inovações aos modelos teóricos (Souza Filho et al., 2023).
Além dessas questões, o produtivismo científico vivenciado há décadas, e que cada vez mais hierarquiza como prioridade às publicações os aspectos metodológicos em detrimento dos teóricos, pode ser um dos motivos que influencia os pesquisadores a ignorarem e/ou negligenciarem a importância da fundamentação teórica, bem como seu relato em profundidade nas pesquisas (Patrus; Dantas; Shigaki, 2015; Souza; Silva Junior; Agra, 2016).
De acordo com a teoria dos Pressupostos da Qualidade Científica, que embasa nosso estudo, toda pesquisa deve ser fundamentada e guiada por um modelo teórico (Souza Filho et al., 2023; Souza Filho; Struchiner, 2021; Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021). Outrossim, de acordo com os pressupostos dessa teoria, toda pesquisa deve apresentar em completude e sem sobreposição de nível de importância, a teoria, metodologia e relato em profundidade, pois só assim se pode pensar em qualidade e reprodutibilidade científica com menor viés (Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021).
Até onde foram nossos esforços, não encontramos uma revisão ou diretriz que indique de forma aprofundada e ampla os modelos teóricos, dimensões, conceitos, construtos e variáveis relacionados à transmissão intradomiciliar por SARS-CoV-2. Nesse sentido, acreditamos que a identificação teórica possibilitará a reflexão sobre caminhos a serem traçados para o desenvolvimento e aprimoramento de pesquisas futuras, bem como a tomada de decisão em saúde pública.
Além disso, acreditamos que a realização desta revisão servirá como um alerta para os pesquisadores, no campo da Saúde Pública e Coletiva, sobre a escassez e heterogeneidade entre conceitos e variáveis inseridas nos modelos teóricos relacionados à transmissão intradomiciliar por SARS-CoV-2 em suas pesquisas. Isso, por sua vez, pode dificultar a reprodutibilidade dos estudos, suas comparações e até mesmo tomadas de decisões para a gestão em Saúde Pública (Souza Filho et al., 2023; Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2022).
Nesse contexto, e com a finalidade de auxiliar pesquisadores na compreensão e escolha das variáveis para pesquisas futuras, o presente estudo tem como objetivo identificar e descrever os modelos teóricos, dimensões, conceitos, construtos, variáveis e/ou fatores de risco que estão relacionados à transmissão intradomiciliar do vírus SARS-CoV-2. Além disso, apresentamos reflexões teórico-metodológicas sobre a importância de elaboração, utilização e relato dos modelos teóricos às pesquisas em Covid-19.
Método
Para alcançar nosso objetivo, foi realizada uma revisão da literatura disponível, explorando estudos que abordaram os aspectos teóricos e/ou empíricos associados à transmissão intradomiciliar do vírus SARS-CoV-2. Dessa forma, foram considerados artigos que abordassem os contextos residenciais, as características demográficas dos moradores, as interações sociais, os comportamentos individuais e coletivos, as medidas de prevenção adotadas e outros fatores relevantes.
Assim, foi desenvolvida uma revisão da literatura do tipo integrativa, por ser uma metodologia de síntese do conhecimento científico e de atualização profissional (Kutcher; Lebaron, 2022). Trata-se de uma abordagem mais ampla, quando comparada a outros formatos de revisão, pois permite a inclusão de estudos experimentais e não experimentais; dados da literatura teórica e empírica; e pode tratar de temas relacionados a definição de conceitos, revisão de teorias, evidências e análises teórico-metodológicas (Oermann; Knafl, 2021).
Modelo teórico
Esta revisão foi baseada no modelo teórico dos Pressupostos da Qualidade Científica, segundo o qual o fazer científico pode ser caracterizado como a interpretação do conhecimento adquirido através da combinação entre teoria, metodologia e relato, em relação a determinado tempo, pessoa e lugar (Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2024; Souza Filho; Struchiner, 2021). Nesse sentido, o modelo permite inferir que, para alcançarmos estudos de alta qualidade científica, esses pilares do conhecimento (teoria, metodologia e relato) devem apresentar, consequentemente, alta qualidade, sem que se estabeleça relação hierárquica ou sobreposição de importância entre si (Souza Filho; Struchiner, 2021; Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021).
Pergunta de pesquisa
Esta revisão apresentou como ponto de partida para orientação e seleção dos artigos para análise, a seguinte pergunta: Quais os modelos teóricos, dimensões, conceitos, construtos, variáveis e/ou fatores de risco relacionados à transmissão intradomiciliar por SARS-CoV-2?
Os termos adotados foram identificados através de análise qualitativa, por meio da interpretação dos estudos analisados, baseados nas seguintes definições:
-
Modelos teóricos: sistema hipotético-dedutivo com o objetivo de representar a realidade, a fim de explicar e prever os eventos ou situações em questão e gerar proposições a partir de proposições iniciais (Souza Filho; Struchiner, 2021);
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Conceito: qualquer palavra que expresse uma abstração intelectualizada da ideia de um fenômeno ou de um objeto observado (Freitas, 1994);
-
Construto: afirmação genérica do conceito em uma relação com o mundo real, baseada em variáveis e fenômenos observáveis e mensuráveis, que representam as contrapartes das variáveis teóricas e que ainda permite ser delimitada por dimensões (Freitas, 1994);
-
Dimensão: ideia ou tentativa de nomear todos os aspectos que possibilitem delinear um conjunto de conhecimentos sobre um objeto constituinte de um corpus teórico, considerando suas coordenadas, permitindo assim a localização exata e mensurável de cada ponto ou tópico de uma pesquisa sem ser pego no tempo ou na hierarquia (Freitas, 1994);
-
Fatores de risco: qualquer aspecto do comportamento pessoal ou estilo de vida, exposição ambiental, característica inata ou hereditária, que, com base em evidências epidemiológicas, é conhecido por estar associado a uma condição relacionada à saúde considerada importante prevenir (Malta et al., 2017).
Critérios de elegibilidade
Critérios de inclusão: ser um estudo teórico ou empírico sobre transmissão intradomiciliar do SARS-CoV-2; e ser um estudo que aborde (no sentido de citar, descrever, analisar e/ou adotar) modelos teóricos, dimensões, conceitos, constructos, variáveis e/ou fatores de risco relacionados ao processo de transmissão intradomiciliar do SARS-CoV-2.
Critérios de exclusão: estudos realizados com animais; e estudos realizados em residentes de instituições de longa permanência para idosos, bem como estudos com amostra de indivíduos em ambientes ambulatoriais ou internados em hospitais, haja vista tais locais possuírem aspectos diferentes das residências e situações de sociabilidade geral da população.
Estratégias de busca dos estudos
A busca eletrônica foi conduzida nas bases de dados: Medline (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online) via PUBMED, e SciELO (Scientific Eletronic Library Online) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde) via BVS (Biblioteca Virtual de Saúde). Foram incluídos estudos disponíveis, publicados de 2019 a 2023.
A estratégia de busca foi desenvolvida de acordo com o a técnica PVO, adaptada da técnica PICO (Biruel; Pinto, 2011). A técnica PVO deve ser utilizada para perguntas de pesquisa do tipo exploratória que têm por finalidade gerar hipóteses, e não necessariamente, propor a comprovação de intervenções especificas. Neste caso, torna-se possível adaptar a técnica sem considerar os elementos I intervenção e/ou o C controle/comparação. Dessa forma, o acrônimo P continua sendo descrito como população, contexto, situação-problema (fenômeno estudado); o V, como as variáveis, que podem ou não ser propostas pelo pesquisador e utilizadas como limitador na construção da estratégia de pesquisa, ou identificadas como categorias em uma estratégia de pesquisa mais ampla; e o O (outcomes), desfecho ou o que se espera responder com a pesquisa.
Para nossa revisão, descrevemos a PVO da seguinte maneira de acordo com nossa pergunta de pesquisa:
-
P (população): pessoas expostas ao vírus SARS-CoV-2;
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V (variáveis limites): modelos teóricos, dimensões, conceitos, construtos, variáveis e/ou fatores de risco;
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O (desfechos): transmissão intradomiciliar.
Nesse sentido, as chaves de buscas utilizadas nas bases de dados foram construídas a partir do acrônimo PVO e seus descritores e termos relacionados via DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e seus respectivos correspondentes pelo MeSH (Medical Subject Headings).
Dessa forma, para o acrônimo P (população) foram utilizados os seguintes descritores ou termos relacionados a Pessoas expostas ao vírus SARS-CoV-2: “SARS-CoV-2/SARS-CoV-2; COVID-19/COVID-19; doença do novo coronavírus 2019/2019; novel coronavirus disease; variantes do SARS-CoV-2/SARS-CoV-2 variants”.
Para o acrônimo V (variáveis limites), foram utilizados: descritores e termos relacionados a Modelos teóricos, dimensões, conceitos, construtos, variáveis e/ou fatores de risco: “Modelos Teóricos/Model, theoretical; Fatores de risco/Risk factors; Modelos Estruturais/Models, structural; Análise fatorial/Factor analysis, statistical; Teoria de Sistemas/Systems theory; Estudo de prova de conceito/Proof of Concept Study; Formação de Conceito/Concept formation; Teoria/Theory; Construto teórico/Theoretical constructo; Construto/Construct; Dimensão/Dimension; Quadro teórico/Theoretical framework; Variável/Variable”.
Para o acrônimo O (desfechos), foram utilizados: com relação à Transmissão intradomiciliar, foram utilizados os descritores e termos relacionados: “Transmissão/Transmission; Infecções/Infections; Transmissão de Doença Infecciosa/Disease transmission, infectious; Casa/Home; Doméstico/household; Domiciliar/Domiciliary; Residência/Residence”.
Para a formação das chaves de busca, inicialmente os termos dentro de cada acrônimo foram combinados utilizando o operador booleano “OR” como exemplo, “(((((Transmission[MeSH Subheading]) OR (Transmission[Title/Abstract])) OR (Infections[MeSH Terms])) OR (Infections[Title/Abstract])) OR (disease transmission, infectious[MeSH Terms])))”, de modo a ampliar a busca na tentativa de que todo e qualquer artigo que contenha algum dos termos fossem recuperados. Além disso, foram cruzados os resultados obtidos em cada etapa utilizando o operador booleano “AND” como, “(((((Transmission[MeSH Subheading]) OR (Transmission[Title/Abstract])) OR (Infections[MeSH Terms])) OR (Infections[Title/Abstract])) OR (disease transmission, infectious[MeSH Terms]))) AND (((((Home Environment[MeSH Terms]) OR (household[Title/Abstract])) OR (home[Title/Abstract])) OR (domiciliary[Title/Abstract])) OR (Residence[Title/Abstract])))” , com a finalidade de encontrar um número determinado de referências que posteriormente fossem examinadas de acordo com os critérios de inclusão. Foram realizados testes de resultados, de modo a definir quais os termos eficazes e quais os termos ou combinações ineficientes. Para tal, a estratégia de busca elaborada pelos autores foi revisada por bibliotecária experiente na construção de estratégias de busca e externa ao grupo de pesquisa, resultando na seguinte chave de busca adotada para nosso estudo:
(((((((((((((((((model, theoretical[MeSH Terms]) OR (risk factors[MeSH Terms])) OR (models, structural[MeSH Terms])) OR (factor analysis, statistical[MeSH Terms])) OR (systems theory[MeSH Terms])) OR (Theory[Title/Abstract])) OR (theoretical construct[Title/Abstract])) OR (construct[Title/Abstract])) OR (dimension[Title/Abstract])) OR (theoretical framework[Title/Abstract])) OR (framework[Title/Abstract])) OR (theoretical models[Title/Abstract])) OR (variable[Title/Abstract])) OR (Proof of Concept Study[MeSH Terms])) OR (concept formation[MeSH Terms])) AND (((((Transmission[MeSH Subheading]) OR (Transmission[Title/Abstract])) OR (Infections[MeSH Terms])) OR (Infections[Title/Abstract])) OR (disease transmission, infectious[MeSH Terms]))) AND (((((Home Environment[MeSH Terms]) OR (household[Title/Abstract])) OR (home[Title/Abstract])) OR (domiciliary[Title/Abstract])) OR (Residence[Title/Abstract]))) AND (((((SARS-CoV-2[MeSH Terms]) OR (COVID-19[MeSH Terms])) OR (2019 Novel Coronavirus Disease[Title/Abstract])) OR (Coronavirus Disease 2019[Title/Abstract])) OR (SARS-CoV-2 variants[Supplementary Concept])).
Para gerenciar os artigos selecionados, um banco de dados com os resultados das pesquisas foi gerado utilizando a ferramenta EndNote 3.1, em que foram extraídos automaticamente os metadados de cada artigo, contendo as seguintes variáveis: autores; título; ano, nome do periódico; volume, número de páginas; resumo; base de dados onde foi encontrado; e número de registro na base de dados. Através dessa ferramenta, foram excluídas as referências duplicadas e em seguida exportados os arquivos remanescentes para uma “Planilha Base” que continha os metadados de cada estudo, gerada no software Microsoft Excel®. A planilha foi alimentada e serviu para comparações entre os achados e escolhas dos avaliadores para as etapas de seleção e extração de dados dos estudos.
Seleção dos estudos e extração dos dados
O levantamento bibliográfico foi realizado em maio de 2023. Na tentativa de atender ao critério de confiabilidade da seleção dos estudos, a primeira etapa de seleção (leitura de títulos e resumos) foi realizada por dois pesquisadores de forma independente, (BABSF) e (MANL). Ambos os profissionais possuem experiência em elaboração, análise e condução de revisões integrativas.
Inicialmente, ambos os revisores, receberam uma cópia da “Planilha Base” gerada após a verificação da duplicidade dos arquivos e contendo os metadados de cada estudo, onde realizaram, de forma independente, a leitura dos títulos e resumos dos artigos e selecionaram os que atenderam aos critérios de elegibilidade. Dessa forma, cada revisor registrou, em sua planilha, se o estudo foi “incluído”, “excluído” ou considerado “indeciso”, para possíveis resoluções consensuais.
Após preenchimento das planilhas individuais, os dados foram inseridos em uma “Planilha Base” por um terceiro pesquisador da equipe (ÉFT), na qual foi verificada a concordância das respostas entre os avaliadores por meio de um estatístico externo à equipe, não envolvido na pesquisa. Foram acrescentadas à “Planilha Base” as seguintes variáveis: seleção pelo primeiro avaliador; seleção pelo segundo avaliador; motivações para a escolha do primeiro avaliador; motivações para a escolha do segundo avaliador; concordância final e os motivos das exclusões após consenso. Os artigos registrados como “indeciso” para ambos os avaliadores, foram incluídos para a segunda etapa de seleção.
As discordâncias foram resolvidas por consenso entre os avaliadores, em que cada revisor apresentou suas motivações quanto à escolha inicial do artigo em questão.
Uma vez concluída a primeira etapa de seleção dos artigos, os avaliadores (BABSF e MANL) iniciaram, ainda de forma independente, a segunda etapa de seleção, na qual foi realizada a leitura na íntegra da seção métodos dos artigos selecionados e daqueles aos quais os avaliadores apresentaram dúvidas para sua inclusão/exclusão. Procedeu-se, assim, a uma nova leitura que dirimisse as dúvidas quanto a inclusão ou exclusão dos estudos, incluindo apenas os artigos que atenderam em completude aos critérios de elegibilidade.
Após a etapa de seleção dos artigos, realizou-se a extração dos dados, também em duplicidade pelos pesquisadores (BABSF) e (MANL), que ainda de forma independente, realizaram a leitura na íntegra dos artigos incluídos, quando foi realizada a coleta dos dados de cada trabalho, acrescentados na “Planilha Base” para análise. As eventuais discordâncias foram resolvidas por consenso, em que cada revisor apresentou suas motivações quanto à escolha para tal resposta. Não houve necessidade de consulta a um terceiro avaliador. Dessa forma, assim como nas etapas anteriores de seleção dos estudos, realizou-se (pelo mesmo estatístico) o teste estatístico de Kappa para avaliar o grau de concordância entre os dois revisores. No teste de Kappa, os valores podem variar de -1 a 1, onde -1 representa discordância total; 1, concordância total; e 0, ausência de concordância ou igual ao acaso. Para classificação do Kappa, adotamos: <0 (ausente); 0-0.19 (ruim/insignificante); 0.20-0.39 (razoável); 0.40-0.59 (moderada); 0.60-0.79 (substancial); 0.80-1.00 (quase perfeita) (Landis; Koch, 1977).
Além dos metadados extraídos durante as etapas de seleção dos artigos automaticamente, pela ferramenta EndNote 3.1, os seguintes dados foram extraídos pelos pesquisadores (BABSF e MANL), de forma independente, por meio de formulário padronizado: Desenho de Estudo; Objetivo Principal do Estudo; Se o Estudo Cita Teoria ou Modelo Teórico; Nome das Teorias Utilizadas; Nome dos Modelos Teóricos Utilizados; Dimensões Teóricas Utilizadas; Conceitos/Constructos/Variáveis Teóricas Selecionadas; e Fatores de Risco Observados.
Para os estudos que citaram pelo menos uma teoria ou modelo teórico, foi verificado o nível de profundidade de uso das teorias e/ou modelos nas pesquisas, de acordo com instrumento para análise da Tipologia e Classificação do nível de profundidade teórica adotado nas pesquisas, desenvolvido por Cabrera Arana (Cabrera Arana, 2007; Cabrera Arana; Molina Marín; Rodríguez Tejada, 2005). O instrumento não busca aferir qualidade do relato teórico, mas apresenta uma gradação referente ao uso de teorias/modelos, buscando refletir maior profundidade no uso e relato das mesmas.
O instrumento baseia a avaliação em quatro pontos/perguntas, com resposta dicotômica (SIM/NÃO): o texto cita/menciona na introdução alguma teoria e/ou modelo como fundamento da pesquisa? o texto descreve/apresenta na introdução os componentes da teoria e/ou modelo referentes à formulação da pesquisa? O texto desenvolve/demonstra, na metodologia, a forma como os componentes, variáveis e/ou construtos da teoria e/ou modelo foram operacionalizados? o texto discute/debate os componentes, variáveis e/ou constructos da teoria e/ou modelo aplicados?
Por essa avaliação, os estudos são classificados em:
-
Nível I: quando o autor cita, referencia ou enuncia pelo menos uma teoria e/ou modelo, mas não descreve variáveis, conceitos ou construtos que foram usados ao incorporar essa referência na introdução, contextualização ou fundamentação teórica do texto publicado.
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Nível II: quando, na introdução, os autores citam, referenciam ou enunciam e descrevem variáveis, conceitos ou construtos de algum modelo e/ou teoria, mas não aplicam essas descrições ao método (por exemplo, para escolha do delineamento, técnicas e/ou instrumentos), análise e discussão.
-
Nível III: quando, com relação à teoria e/ou modelo, são descritos pelo menos variáveis, conceitos ou constructos de interesse, e explicitamente os autores relatam como a base teórica serviu para orientar o trabalho metodológico, revisão ou reflexão dos autores, mas não são discutidos os resultados e/ou conclusões à luz da teoria adotada.
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Nível IV: considerado uso ideal ou esperado para comunicação científica rigorosa, expressa que uma teoria e/ou modelo deve ser citado e descrito em suas variáveis e construtos; guiar a metodologia e que, com base nos componentes explicativos da teoria, deve-se discutir de forma coerente e explícita as conclusões ou questões abordadas (Cabrera Arana, 2007; Cabrera Arana; Molina Marín; Rodrigues Tejada, 2005).
Além disso, com a finalidade de atender em completude as recomendações da literatura científica atual (Souza Filho; Struchiner, 2021; Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2022), que ressalta a importância do relato teórico aprofundado em estudos que abordam e/ou utilizam modelos teóricos, adotamos para relato científico, o instrumento Checklist para Relato Teórico em Estudos Epidemiológicos (CRT-EE) (Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021), desenvolvido com o intuito de auxiliar pesquisadores a aprimorarem o relato teórico e com utilizações pela comunidade científica (Freitas; Lourenço; Chaves, 2023). O CRT-EE apresenta maneiras pelas quais os autores podem garantir relatórios mais transparentes e completos com relação à fundamentação teórica.
O instrumento CRT-EE é composto por 15 itens apresentados numericamente de um a 15, de acordo com as seções tradicionalmente encontradas em um manuscrito, sendo: título (item 1); resumo (item 2); introdução (itens 3-6); metodologia (itens 7-10); resultados (itens 11 e 12); discussão (itens 13 e 14); e conclusão (item 15). Além disso, inclui uma coluna para marcação das respostas, de forma dicotômica (sim ou não), acerca da inclusão, ou não, de cada item no artigo (Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021).
Adicionalmente, para o relato dos aspectos metodológicos, embora nosso estudo não se trate de revisão sistemática, foi utilizado o Preferred Reporting Items for Systematic Reviews (PRISMA) (Liberati et al., 2009). O instrumento é composto por uma checklist de 27 itens e um diagrama de fluxo de seleção de artigos divido em quatro fases, e tem como foco auxiliar os autores a melhorarem o relato de revisões sistemáticas com ou sem meta-análises. Apesar de o PRISMA apresentar seu foco em revisões de ensaios clínicos randomizados, ele também pode ser utilizado como base para relatos de revisões sistemáticas de outros tipos de pesquisa (Galvão; Pansani, 2015).
Análise e apresentação dos dados
A síntese dos resultados foi realizada por meio de descrição narrativa gerada através de interpretações qualitativas e reflexões dos autores sobre os tópicos relacionados ao desenvolvimento de modelos teóricos, não sendo, assim, avaliada a qualidade dos estudos incluídos nesta revisão. Entretanto, na tentativa de aumentar a confiabilidade dos achados, realizaram-se testes de concordância para cada etapa desta revisão, a fim de minimizar o viés entre os avaliadores. Outrossim, a síntese qualitativa dos estudos incluídos foi apresentada na seção discussão, com base na sistematização e contraposição dos resultados e discussões emergentes dos estudos.1
Resultados
Resultados da busca
Na primeira etapa do processo de seleção (leitura de títulos e resumos), foram identificados 62 artigos, com concordância quase perfeita (Kappa=0.958) entre os avaliadores. Entretanto, na segunda etapa (leitura completa da seção métodos dos artigos selecionados), foram excluídos oito artigos (dois estudos realizados em instituições de longa permanência para idosos; dois estudos que não tratavam especificamente da transmissão intradomiciliar, apenas em nível populacional; um estudo não disponibilizado gratuitamente; um estudo não tratava da transmissão intradomiciliar, apenas sobre a carga viral associada ao tipo de variante; 1 estudo realizado em centro hospitalar), apresentando Kappa=1 (concordância quase perfeita) entre os avaliadores. Assim, foram incluídos para análise, 54 artigos.
Características das revisões incluídas
O Quadro 1 sintetiza os 54 documentos incluídos, sendo 12 estudos (22,2%) publicados no ano de 2020, 31 (57,4%) dos artigos em 2021, sete artigos (13%) identificados em 2022; e apenas quatro (7,4%), até o momento da última atualização (27/09/2023) para o ano de 2023.
Em relação ao tipo de desenho de estudo incluídos nas revisões, foram identificados 30 coortes (55,5%); 15 estudos seccionais (27,8%); seis revisões sistemáticas (11,3%); um estudo de caso-controle (1,8%); um estudo de método misto (1,8%) e um ensaio teórico (1,8%), denotando representatividade de diferentes métodos de análise e discussão da temática. A maioria dos documentos foi publicada em formato de artigo original completo (n=22; 73,3%).
Excluindo para descrição textual, os estudos de revisão sistemática com ou sem metanálise (n=6), por compilarem dados de múltiplos países, as pesquisas foram provenientes principalmente da China (12 estudos, 25%); Estados Unidos (8 estudos, 16,6%); Israel (3 estudos, 6,35%), e Brasil (3 estudos, 6,35%). Os demais artigos selecionados não desenvolveram mais que dois estudos por país e apenas um estudo do tipo “Ensaio Teórico” não especificou o país de origem, sendo seus autores vinculados aos países do México, Nova Zelândia e Itália. O idioma predominante dos artigos foi o inglês, para os 54 documentos (100%).
Em relação ao relato teórico, referente a utilização de modelos teóricos como base para as pesquisas, apenas 9% (n=5) dos artigos analisados cita/menciona a utilização de modelos teóricos em suas pesquisas.
As principais dimensões descritas nos artigos foram a sociodemográfica, citada pela maioria dos estudos (n=31; 57,4%) analisados; 24 estudos (44,4%) abordaram a dimensão clínica; 16 (29,6%) a exposição familiar e individual à Covid; 11 artigos (20,3%) analisaram a dimensão epidemiológica; sete (13%), às características da infecção e sintomatologia da Covid; seis estudos (11,1%) analisaram a dimensão respectiva às características dos domicílios; e seis pesquisas (11,1%), não explicitaram as dimensões abordadas. Com relação às variáveis conceituais e/ou de análise, todos os estudos apresentaram pelo menos uma.
Características teóricas dos artigos que utilizaram Modelos Teóricos
De acordo com o instrumento adotado para tipologia e classificação do nível de profundidade de utilização das teorias e/ou modelos (Cabrera Arana, 2007; Cabrera Arana; Molina Marín; Rodríguez Tejada, 2005), dos cinco estudos que relataram bases teóricas, apenas um (20%) foi classificado no Nível 3 (Desenvolve/Demonstra), pois descreveu as principais variáveis de interesse. Os autores relataram como a base teórica serviu para orientar o trabalho metodológico, revisão e reflexão dos autores, mas não foram discutidos os resultados e conclusões à luz do modelo teórico adotado. Os outros quatro estudos (80%) foram classificados no Nível 4 (Discute/Debate), considerado uso ideal para comunicação científica rigorosa de teorias e modelos teóricos, por citar e descrever as variáveis e construtos referentes ao modelo teórico adotado, bem como apresentar como o modelo guiou a metodologia. Além disso, explicitar com base nos componentes explicativos da teoria ou modelo, discussão de forma coerente e conclusões sobre as questões abordadas na pesquisa.
Ressaltamos haver diferenças conceituais entre teorias e modelos teóricos, as quais não são distinguidas pelo instrumento - focado na explicitação da fundamentação teórica, em sentido amplo - não impactando nos resultados, uma vez que todos os artigos que utilizaram teorias e/ou modelos realizaram a opção de uso pelos modelos teóricos. Realizamos essa diferenciação nos estudos analisados com objetivo de apresentar descrição minuciosa das análises. Observou-se, portanto, que os artigos que citaram pelo menos uma teoria e/ou modelo teórico privilegiaram o uso de modelos teóricos (100%). Nenhum estudo relatou a utilização de teorias concomitantemente aos modelos teóricos para fundamentação.
Discussão
Através desta revisão integrativa, procuramos sintetizar os principais modelos teóricos propostos na literatura, bem como identificarmos as dimensões, conceitos, construtos, variáveis e/ou fatores frequentemente associados à transmissão intradomiciliar do vírus SARS-CoV-2. Nesse sentido, o estudo foi desenvolvido na tentativa de identificar e explicitar variáveis mínimas necessárias a um modelo teórico amplo e respaldado pela literatura científica, que auxilie pesquisadores e gestores públicos na identificação e escolha de variáveis para pesquisas futuras, bem como na tomada de decisão em saúde pública. Além disso, demos ênfase à compreensão dos fatores de risco envolvidos nesse processo, a fim de fornecer insights valiosos para a formulação de estratégias eficazes de prevenção e controle do SARS-CoV-2 e Covid-19 no ambiente doméstico.
Até onde vai nosso conhecimento, este é o primeiro estudo a tentar identificar e descrever a utilização de modelos teóricos adotados nas pesquisas envolvendo o tema “Transmissão Intradomiciliar do SARS-CoV-2”. Apesar do pequeno tamanho amostral de artigos analisados em nosso estudo (n=54), nossa principal hipótese parece ser confirmada. Verificamos fragilidades e limitações na utilização e relato de modelos teóricos nas pesquisas sobre o tema, haja vista apenas cinco dos 54 artigos analisados, apresentarem em seu relato, fundamentação teórica com base em modelos teóricos. Esse achado evidencia fragilidade na utilização e nível de profundidade do uso de teorias e modelos teóricos no desenvolvimento das pesquisas analisadas.
Assim, nossos achados corroboram a importância de fortalecer a orientação das pesquisas através de modelos teóricos, desde a seleção de um tópico, desenvolvimento de questões de pesquisa, revisão bibliográfica, procedimentos metodológicos e plano de análise (Grant; Osanloo, 2014; Souza Filho; Struchiner, 2021). Uma boa estrutura e fundamentação teórica fornece não apenas pontos positivos para as questões metodológicas, mas também mais subsídios para interpretação dos resultados, discussões, visualização de limitações e aprimoramento das conclusões por parte da equipe de pesquisa e leitores para todos os tipos de desenho de estudo (Grant; Osanloo, 2014; Adom; Hussein; Agyem, 2018; Souza Filho et al., 2023).
Adicionalmente, revisões sistemáticas e metanálises (RS) são consideradas estudos da mais alta qualidade na hierarquia das evidências científicas, sendo cada vez mais utilizadas para a tomada de decisões em Saúde Pública (Manchikanti et al., 2009). Entretanto, falhas teóricas, metodológicas, ou de relato podem impactar negativamente na sua validade, reprodutibilidade e qualidade (Luo et al., 2018; Souza Filho; Struchiner, 2021; Souza Filho et al., 2024). Assim, partimos da premissa de que todos os estudos, independentemente do método, devem estar baseados e orientados por uma teoria e/ou modelo teórico, servindo como um guia para a pesquisa e promovendo melhor qualidade (Rocco; Plakhotnik, 2009), o que inclui as RS.
Ressaltamos que, embora seja recomendado que estudos de revisões sistemáticas explicitem teorias e/ou modelos teóricos que fundamentam suas práticas para elucidar como a teoria opera (nela e nos estudos incluídos nas revisões) (Soares; Yonekura, 2011), nenhuma revisão incluída em nosso estudo citou teorias e/ou modelos teóricos. Com resultado similar para a defasagem de citação teórica em revisões sistemáticas, Davies et al. (2010), em RS realizada para identificar o uso de teorias em 235 avaliações dos estudos de disseminação e implementação de diretrizes, identificaram que apenas 22,5% das RS incluíram teorias e/ou modelos teóricos. Restrições de espaço ou falta de valorização do relato teórico podem ser possíveis explicações. Crescente ênfase em transparência nas publicações e disponibilidade de periódicos on-line sem restrições de espaço podem configurar alternativas (Davies; Walker; Grimshaw, 2010). Além disso, os periódicos devem expor em suas orientações para submissão e avaliação dos artigos, a importância do relato teórico em profundidade, e estimular o desenvolvimento e utilização de instrumentos para este fim (Souza Filho; Struchiner, 2021; Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021).
Além da explicitação teórica, é importante descrever e apresentar as dimensões e variáveis relacionadas à fundamentação teórica (Cabrera Arana, 2007), o que possibilita leitura crítica e avaliação mais robusta pelos leitores dos planos teórico e empírico, bem como a análise da rede causal (Souza Filho et al., 2023).
A análise das diversas dimensões, como a sociodemográfica e socioeconômica; clínico-epidemiológica; exposição familiar e individual à Covid; características da infecção e sintomatologia da doença; características do domicílio; estilo de vida; parâmetros comunitários; fatores ocupacionais; características de relacionamento entre os contatos domésticos e fatores comportamentais de proteção contra o vírus, revelam-se como dimensões essenciais para pesquisas que abordem a transmissão intradomiciliar da Covid-19. A explicitação e descrição aprofundada dessas dimensões não só permite uma compreensão mais ampla dos mecanismos subjacentes à disseminação do vírus, mas também possibilita o desenvolvimento de estratégias de prevenção e controle mais eficazes (Bispo Júnior; Santos, 2021). Além disso, ao considerar fatores como ocupação, características do domicílio e comportamentos de proteção, os pesquisadores podem identificar grupos de risco/vulneráveis e áreas geográficas críticas, o que pode requerer o direcionamento de recursos e estratégias de intervenções mais precisas (Apolonio et al., 2022).
Ressaltamos que embora a literatura científica apresente e recomende a utilização de três tipos de modelos teóricos nas pesquisas - o Modelo Teórico Conceitual, Modelo Teórico de Análise, e o Modelo Teórico Observado - e que todas as variáveis devam ser explicitadas (Adom; Hussein; Agyem, 2018; Souza Filho et al., 2023), muitas pesquisas simplificam seus modelos, adotando e relatando apenas as dimensões como variáveis totais e não o quadro teórico e conceitual amplo com todas as dimensões e variáveis conceituais e de constructos que compõem cada dimensão. (Souza Filho et al., 2023; Souza Filho; Struchiner, 2021).
Tal abordagem de redução de variáveis, que, por um lado, pode aparentemente facilitar a visualização, pode, no entanto, impactar negativamente nos resultados, caso este modelo seja analisado e interpretado estritamente de forma simplificada (Matsui; Le-Rademacher; Mandrekar, 2021; Shi et al., 2019). Essa é uma das críticas relacionadas ao processo de elaboração e explicitação gráfica dos Gráficos Acíclicos Direcionados (DAGs), que faz uso das cadeias de causações - que em sua maioria, simplifica sucessivas relações entre as variáveis no tempo - para atender a processos relacionados ao comportamento dinâmico entre variáveis (Krieger; Davey Smith, 2016). Isso pode, inclusive, impossibilitar a representação dinâmica das relações de causa e efeito por meio dos DAGs (Pearl; Mackenzie, 2018).
Os modelos teóricos já são métodos que visam, simplificadamente, espelhar em seus resultados o modelo teórico hipotético-dedutivo adotado na pesquisa; se forem reduzidos ainda mais, limitam a compreensão do completo raciocínio teórico-metodológico do pesquisador sobre o tema. Assim, saber de onde o pesquisador primário partiu e chegou com relação à teoria utilizada é imprescindível para avaliação, interpretação e reprodutibilidade dos estudos (Souza Filho et al., 2023; Souza Filho; Struchiner, 2021). É necessário que o leitor seja capaz de compreender a visão de mundo do pesquisador, levando em conta aspectos como o tempo, o lugar e as condições gerais e idiossincráticas que permitiram a concepção e realização da pesquisa, bem como do processo de escolha das variáveis. Além disso, podendo facilitar a interpretação dos resultados e relações estudadas, a apresentação adequada da fundamentação teórica favorece a autorreflexão da equipe de pesquisa sobre os caminhos percorridos e as possibilidades de revisão e aprimoramento dos modelos teóricos utilizados.
A descrição detalhada das variáveis e dimensões teóricas desempenha papel fundamental nas pesquisas sobre a transmissão intradomiciliar da Covid-19 (Bispo Júnior; Santos, 2021; Madewell et al., 2020). Dessa forma, a equipe de pesquisa deve compreender as limitações teóricas e seus impactos nos resultados das pesquisas e desenvolvimento de futuros estudos, quando se opta por explicitações e análises simplificadas por dimensões, ao invés do completo arcabouço de variáveis que as compõem. Isso se deve ao caráter multifacetado e complexo desse fenômeno, que envolve uma interação intricada de vários fatores como os epidemiológicos, comportamentais, políticos, econômicos, ambientais, entre outros (Bispo Júnior; Santos, 2021).
Ao explicitar as variáveis de interesse - como por exemplo, a presença de casos sintomáticos, a ventilação dos ambientes, o uso de medidas de prevenção e a dinâmica de contato entre os membros da família -, os pesquisadores podem não apenas compreender melhor os mecanismos subjacentes da transmissão, mas também fornecer caminhos teóricos mais precisos para intervenções mais eficazes (Smith et al., 2023). Além disso, a construção de modelos teóricos sólidos e aprofundados, que apresentem plausibilidade técnico-científica bem fundamentada, pode auxiliar a prever e controlar surtos intradomiciliares da Covid-19, contribuindo para a mitigação da pandemia (Bertozzi et al., 2020; Van Der Vegt et al., 2022). Portanto, a atenção cuidadosa à descrição das variáveis e dimensões teóricas nas pesquisas é essencial para o avanço do conhecimento científico e para a tomada de decisões informadas no enfrentamento da disseminação do vírus SARS-CoV-2 dentro das residências.
Assim, torna-se importante que sejam apresentadas descrições detalhadas sobre os principais aspectos da teoria e/ou modelo teórico adotado, incluindo as hipóteses sobre as relações causais, o papel das dimensões e variáveis, e o significado dos símbolos presentes nos modelos gráficos e/ou termos não convencionais utilizados pelos autores, facilitando a compreensão dos leitores (Adom; Hussein; Agyem, 2018). Outrossim, é importante considerar que uma representação gráfica pode ser mais efetiva que apenas a textual para a comunicação de conteúdos complexos (Vekiri, 2002). A explicitação gráfica do modelo teórico pode melhorar e facilitar mecanismos de decodificação e recodificação da linguagem por leitores e pesquisadores, facilitando a compreensão e aprendizagem significativa, bem como o desenvolvimento de modelos teóricos significativos (Souza Filho; Struchiner, 2021), sendo um ponto negligenciado na maioria das pesquisas analisadas em nosso estudo.
Outro ponto relevante identificado em nosso estudo foi a heterogeneidade de nomenclaturas conceituais para as variáveis descritas nos artigos analisados. A possibilidade de existirem variadas formas conceituais, categóricas e de registro para uma mesma variável, em um mesmo arcabouço teórico ou modelo, torna imprescindível a descrição detalhada destas (Adom; Hussein; Agyem, 2018; Heale; Noble, 2019). Nesse sentido, os autores devem descrever, detalhadamente, a forma de conceituação, categorização, mensuração e registro de todas as variáveis a serem observadas no estudo, de acordo com a fundamentação teórica adotada, permitindo a compreensão da forma como foram operacionalizadas. Assim como para os demais pontos abordados, para casos em que a teoria ou modelo teórico apresente grande quantidade de variáveis e estas requeiram maior número de palavras para sua descrição detalhada, tais informações devem ser disponibilizadas como arquivo de suplemento ou links externos para acesso dos leitores (Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021).
Somado a isso, é fundamental o relato transparente das possíveis limitações que a teoria e/ou modelo adotado pode apresentar, bem como seus possíveis impactos nos resultados obtidos (Souza Filho et al., 2023; Souza Filho; Tritany; Struchiner, 2021), fato este não identificado nos estudos analisados. Desse modo, os leitores poderão realizar análise aprofundada sobre as potencialidades e fragilidades da teoria em questão; reflexões acerca da qualidade da pesquisa, e pode permitir o aprimoramento de pesquisas futuras.
Ressaltamos que nosso estudo pode apresentar limitações, uma vez que nem todos os estudos selecionados correspondiam a artigos publicados em sessões de “Artigos Originais”, o que muitas vezes pode fazer com que os periódicos e avaliadores flexibilizem no rigor técnico-científico para submissão e avaliação do relato dos artigos. Foram incluídos, ainda, estudos com desenhos heterogêneos, o que pode de certa forma, comprometer a qualidade dos resultados apresentados e relato da pesquisa, em virtude da possibilidade de viés ampliado.
Outrossim, a inclusão de apenas duas bases de dados para busca dos artigos (BVS e PUBMED) pode não representar a qualidade de relato de forma geral, dada a amostra reduzida e possíveis vieses de publicação. Dessa forma, nossos resultados podem não representar em completude, as variáveis mínimas necessárias para as pesquisas sobre o tema. Adicionalmente, o método utilizado neste estudo para avaliação e análise do nível de profundidade de uso dos modelos teóricos apresenta pontos subjetivos de análise, o que pode interferir nos resultados, os quais devem ser interpretados com cautela.
Conclusões
Ao identificar e analisar os modelos teóricos, dimensões, conceitos, construtos e variáveis presentes na literatura científica, este estudo contribui para o avanço do conhecimento sobre a rede causal relacionada à transmissão intradomiciliar do vírus SARS-CoV-2. A compreensão aprofundada de aspectos teóricos permitirá uma abordagem fundamentada no desenvolvimento de pesquisas e estratégias preventivas adequadas, visando reduzir a disseminação do vírus dentro das residências e proteger a saúde dos indivíduos.
Além disso, os resultados desta revisão poderão orientar a condução de futuras pesquisas, fornecendo reflexões teórico-metodológicas sobre as variáveis a serem consideradas para pesquisas futuras sobre o tema e as lacunas de conhecimento a serem preenchidas. Isso pode favorecer a produção de estudos mais consistentes e comparáveis, impulsionando a qualidade e a relevância das investigações baseadas em modelos teóricos, bem como a reprodutibilidade das pesquisas relacionadas à transmissão intradomiciliar do SARS-CoV-2.
Nesse sentido, evidencia-se a importância da compreensão por parte de pesquisadores, revisores e editores de periódicos, sobre a importância do relato aprofundado e adequado nas pesquisas, não apenas dos aspectos metodológicos desenvolvidos e/ou observados nos estudos, mas também da fundamentação teórica, em particular os modelos teóricos e suas variáveis. Negligenciar a importância deste tema ao processo do fazer e qualidade científica, em particular no que tange às pesquisas relacionadas à transmissão intradomiciliar do SARS-CoV-2, pode acarretar consequências negativas à população, ciência e ao processo de tomada de decisão em saúde.
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Fonte: Elaboração própria.