Open-access Utilização de aplicativos móveis como suporte à prática clínica odontológica de cirurgiões-dentistas: revisão de escopo

Use of mobile applications to support the clinical dental practice of dentists: scope review

Resumo

Objetivou-se realizar uma síntese da utilização de aplicativos móveis na prática clínica odontológica. Uma revisão de escopo foi desenvolvida seguindo os preceitos do Joanna Briggs Institute, e descrita obedecendo aos critérios PRISMA-SR. Utilizou-se o acrônimo PCC, sendo a população os cirurgiões-dentistas, o conceito os aplicativos móveis e o contexto os serviços de saúde. Uma estratégia de busca foi realizada nas bases bibliográficas PUBMED, Scopus, Web of Science, Lilacs, Embase, Google Scholar e Livivo, utilizando as palavras-chave “cirurgiões-dentistas”, “aplicativos móveis” e “serviços de saúde”, sem restrições quanto a idioma, data de publicação e tipo de estudo. Dos 289 artigos identificados, foram selecionados 16 estudos para extração dos dados. As produções apresentadas são relativamente novas, a partir de 2015, em sua maioria na área da estomatologia. Os estudos tinham como foco principal capacitar os profissionais quanto ao diagnóstico de alterações bucais e suporte à prática clínica. A prática clínica odontológica tem utilizado aplicativos móveis voltados para apresentação de protocolos, captura de vídeos e fotografias que fornecem subsídios para diagnósticos, endossando a aplicação da teleodontologia como ferramenta de qualificação da assistência.

Palavras-chave:
Teleodontologia; Aplicativos móveis; Serviços de saúde; Odontologia; Diagnóstico

Abstract

It aimed at providing an overview of the use of mobile applications in clinical dental practice. A scoping review was conducted following the guidelines of the Joanna Briggs Institute and described according to the PRISMA-SR criteria. The PCC acronym was used, where the population was dentists, the concept was mobile applications, and the context was healthcare services. A search strategy was implemented across bibliographic databases: PUBMED, Scopus, Web of Science, Lilacs, Embase, Google Scholar and Livivo, using the keywords: dentists, mobile applications, and healthcare services, with no restrictions regarding language, publication date, or study type. Out of 289 identified articles, 16 studies were selected for data extraction. The reviewed publications are relatively recent, mostly from 2015 onward, primarily in Stomatology. The studies' main focus was empowering professionals in diagnosing oral alterations and supporting clinical practice. Clinical dental practice has incorporated mobile applications to present protocols, capture videos and photos that aid in diagnostics, thus endorsing teledentistry as a tool to enhance care quality.

Keywords:
Teledentistry; Mobile Applications; Health services; Dentistry; Diagnosis

Introdução

A crescente transformação tecnológica tem impactado de forma significativa o setor da saúde promovendo novas possibilidades de atendimento por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) (Souza; Rendeiro; Araújo, 2021). No contexto da odontologia, essas inovações têm potencial para ampliar o acesso aos serviços e melhorar a qualidade da atenção (Celuppi et al., 2021).

A teleodontologia apresenta-se como um meio de promoção de saúde, com grande impacto social, podendo ser usada para o atendimento ou para a troca de informações clínicas, planejamento, consulta, diagnóstico, orientação, monitoramento e qualificação dos profissionais (Moraes et al., 2021). Destaca-se como uma solução promissora para a prática odontológica à distância, com o uso de aplicativos móveis complementando, qualificando e otimizando o tempo de trabalho, além de proporcionar benefícios ao permitir o acesso rápido e seguro as informações (Braz et al., 2018).

Nos últimos anos, o uso de aplicativos móveis tem se tornado mais comum, especialmente após a pandemia de Covid-19, quando a necessidade de atendimento remoto foi intensificada e passaram a exercer um papel facilitador no processo de cuidado. A pandemia apresenta-se como um marco divisor na revolução tecnológica no setor saúde, pois estabeleceu a necessidade de desenvolver estratégias e adequar os serviços para atuarem frente a esse cenário (Celuppi et al., 2021).

A pandemia de Covid-19 pode ter pavimentado o caminho para a integração da teleodontologia nos sistemas de saúde, embora ocorram variações entre os países quanto a infraestrutura tecnológica, as características dos sistemas de saúde e os órgãos reguladores. No entanto, o uso da teleodontologia na prática clínica diária ainda é limitado na maioria dos países (El Tantawi et al., 2023).

Nessa perspectiva, observou-se a necessidade de investigar acerca da disponibilidade e utilização de aplicativos móveis na prática clínica odontológica. Portanto, o objetivo dessa revisão de escopo é identificar e mapear as evidências relacionadas a utilização de aplicativos móveis subsidiando a prática clínica na odontologia, avaliando a viabilidade da utilização de tecnologias para saúde bucal.

Metodologia

Trata-se de um estudo de revisão de escopo que buscou informações sobre a utilização de aplicativos móveis pelos cirurgiões dentistas nos serviços de saúde. Esse estudo foi desenvolvido seguindo os preceitos do Joanna Briggs Institute (Peters et al., 2015) e relatada de acordo com o Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) (Tricco et al., 2018).

Utilizou-se o acrônimo PCC, onde a População eram os cirurgiões-dentistas, o Conceito, os aplicativos móveis, e o Contexto, os serviços de saúde. A revisão de escopo foi desenvolvida para responder a um questionamento específico: “Como a utilização de aplicativos móveis têm ajudado na prática clínica dos cirurgiões-dentistas ao redor do mundo?”. O protocolo foi registrado no Open Science Framework, em 25 de maio de 2022.

A estratégia de busca incluiu MeSH terms, sinônimos, termos relacionados e termos livres relacionados a cirurgiões-dentistas e aplicativos móveis. As palavras-chaves utilizadas na busca foram combinadas com o auxílio dos operadores boleanos “OR” e “AND”, conforme apresentado no Quadro 1. A estratégia iniciou pelo PUBMED e em seguida foram adaptadas para as seguintes bases bibliográficas: Scopus, Web of Science, Lilacs, Embase, Google Scholar e Livivo. Não foram adotadas restrições quanto à idioma, data de publicação e tipo de estudo.

Após a busca nas bases bibliográficas, os resumos foram importados para um software gerenciador de referências (Mendeley®, Elsevier), no qual as duplicatas encontradas foram removidas. Na triagem inicial, dois pesquisadores (MDASC e ROS) selecionaram os estudos de forma cega utilizando o software online Rayyan (Ouzzani et al., 2016) após a leitura do título e resumo, obedecendo os critérios de inclusão: artigos disponibilizados nas línguas portuguesa, inglesa ou espanhola; artigos dispostos na íntegra; sem restrição de data e que abordassem a temática do estudo, as discordâncias foram resolvidas por consenso.

Após a triagem inicial, os artigos foram lidos na íntegra para confirmar a inclusão no estudo. Para a extração dos dados um formulário padrão foi aplicado para obter as seguintes informações: Autor (data), localidade (país), objetivo do aplicativo, nome do aplicativo, funcionalidade e especialidade.1

Um diagrama de fluxo (PRISMA-ScR) foi gerado para relatar o fluxo dos artigos durante a revisão (Figura 1). Um resumo dos resultados encontrados foi exposto (Quadro 2).

Quadro 1
Estratégias de busca utilizadas para cada base bibliográfica
Quadro 2
Descrição dos dados extraídos dos artigos incluídos na revisão de escopo

Resultados

Foram identificados 289 estudos, na busca em bases bibliográficas e verificação das referências de artigos incluídos. Após a remoção de duplicatas, 153 registros permaneceram e passaram pela leitura de títulos e resumos. Destes, 90 foram excluídos por não se adequarem à pergunta da pesquisa. Após a leitura de 63 artigos na íntegra, 16 foram selecionados para análise descritiva (Quadro 2).

Figura 1
Diagrama de fluxo PRISMA da seleção dos estudos para revisão de escopo

As pesquisas foram publicadas entre os anos de 2015-2022 em diferentes países, sendo metade publicadas nos últimos dois anos. A maioria dos estudos foi realizada no Brasil (n=4), seguido pela Itália (n=3) e Índia (n=3) (Figura 2). Os estudos tinham como foco principal capacitar os profissionais da saúde quanto ao diagnóstico de alterações bucais, suporte à prática clínica e direcionamento quanto ao tratamento de escolha. O tipo de ação utilizada foi assíncrono na maioria dos estudos. As ferramentas mais utilizadas para obtenção dos dados dos pacientes foram fotografias e vídeos.

Figura 2
Distribuição espacial dos locais onde foram aplicadas pesquisas sobre a utilização de aplicativos móveis.

Os resultados evidenciam a utilização de aplicativos em um número restrito de especialidades nas áreas da odontologia. Mais da metade dos artigos (63%), de diferentes localizações geográficas (incluindo Brasil, Itália, Índia, Malásia e Venezuela), destacam o uso de aplicativos móveis como método em fazer diagnóstico de lesões orais.

No que tange ao contexto, constatamos que em seis artigos (37%), os aplicativos tinham por finalidade oferecer um suporte à saúde pública. Um estudo não apresentava a identificação do nome do aplicativo desenvolvido e avaliado, os autores foram contatados via e-mail, porém não se obteve resposta. Em dois artigos, havia aplicativos não específicos para a saúde, como o WhatsApp.

Discussão

As TICs introduzem uma nova dimensão, moldada pela percepção de que vivemos em uma sociedade globalmente interconectada. Isso implica que tanto nosso conhecimento quanto nossa visão do mundo sejam dinâmicos (Haddad; Bönecker; Skelton-Macedo, 2014).

O uso das TICs tornou-se realidade nas diversas áreas do conhecimento (Haddad, 2012). Em si tratando de saúde, proporciona um aumento da integralidade do cuidado, melhora na qualificação dos profissionais e na oferta dos serviços, além de ser mais custo-efetivo (Teche, 2021). As TICs estão sendo amplamente utilizadas, pois possuem dispositivos que estruturam, organizam, armazenam, processam e compartilham dados informacionais, possibilitando acesso em tempo real ou remoto, a fim de solucionar as necessidades em saúde (Gomes et al., 2019).

A presente revisão evidencia a diversidade na utilização e aplicação das TICs na odontologia nos serviços de saúde, em diferentes contextos e possibilidades, consoante ao estudo de Patuzzi (2021), onde foram descritos a forma como a teleodontologia é utilizada e em quais áreas, desde a promoção e atenção à saúde bucal, com abordagens preventivas e educativas, apoio e realização de diagnósticos, prescrição de medicamentos, triagem de casos, monitoramento de tratamentos, com envio de resultados de maneira digital. Entretanto, verifica-se a utilização das TICs numa pequena quantidade de especialidades odontológicas.

A distribuição espacial dos estudos, põe em evidência países como Brasil e Índia que apresentam um alto índice de câncer oral (Birur et al., 2018; Soares; Bastos Neto; Santos, 2019). Em grande parte, os artigos identificados nesta pesquisa, destacam o uso de aplicativos móveis na área da estomatologia, este dado pode estar associado às dificuldades e inconsistências em realizar diagnóstico de lesões orais pelos cirurgiões-dentistas (Brito et al., 2020).

Desta forma, é de suma importância considerar a complexidade e urgência do atendimento de pacientes com câncer bucal, onde a teleodontologia mostra-se como uma opção para continuidade do atendimento, apresentando inúmeros benefícios (Patuzzi, 2021). Os resultados de alguns estudos mostram que o diagnóstico remoto pode ser uma ferramenta interessante para a detecção de lesões bucais (Flores et al., 2020; Silva et al., 2021). Esses achados estão em consonância com os dados desta revisão.

Foram identificados e incluídos estudos que discutiram ferramentas importantes para suporte e continuidade do cuidado em saúde bucal. Os estudos avaliados nesta revisão inseriram populações a ferramentas distintas. Segundo Ichoukade (2021), a procura por serviços de teleodontologia aumentou em todo o mundo em resposta à pandemia, de forma específica, entre abril e dezembro de 2020, quando os casos de Covid-19 e as regulamentações de bloqueio estiveram em seu pico. A pandemia, com suas múltiplas facetas, foi um período crítico para a humanidade e um grande desafio para os sistemas de saúde em todo o mundo (Carrer et al., 2022). Nesta revisão, 50% dos artigos foram identificados nos últimos dois anos.

A teleodontologia configura-se como uma importante ferramenta de cuidado em saúde (Carrer et al., 2020). Aderir a essa área do conhecimento é uma oportunidade de proporcionar cuidados clínicos à distância e as vantagens estão relacionadas a redução das desigualdades em saúde bucal, possibilitando o atendimento remoto as pessoas localizadas em áreas rurais ou afastadas que não podem frequentar os estabelecimentos de saúde, proporcionando um acesso mais igualitário aos serviços, incluindo os especializados, economizando tempo e custos (Ichoukade, 2021; Patuzzi, 2021; Teche, 2021).

O estabelecimento das soluções tecnológicas apresentadas neste estudo proporciona celeridade e facilidade de acesso aos serviços de saúde conforme observado no estudo de Celuppi et al., (2021), onde os autores afirmam que a efetivação das soluções tecnológicas para manejo clínico, diagnóstico por imagem, uso de inteligência artificial, rastreamento de casos, desenvolvimento de aplicativos, ferramentas para análise de dados, autodiagnóstico e orientação à tomada de decisão, são experiências vivenciadas neste período, mas que podem oportunizar e flexibilizar melhorias na saúde futuramente.

Em todos os artigos avaliados, os aplicativos móveis surgem como alternativa, apresentando resultados satisfatórios quanto à sua utilização, de acordo com os resultados de Bezerra et al., (2020), que enfatizam que é preciso considerar as características relevantes quanto ao uso destes dispositivos, pois facilitam o acesso à informação, sem limites de tempo e espaço.

No contexto da saúde pública, as evidências encontradas nesta revisão apontaram uma escassez de dispositivos voltados para esse setor, que pode ser atribuída a incorporação de TICs nos serviços de saúde ainda ser incipiente devido a algumas barreiras para implementação destas ferramentas tecnológicas tais como à necessidade de investimento em recursos humanos, infraestrutura, conexão, ausência de apoio pelos gestores entre outras (Belber et al., 2021; Figueiredo et al., 2022; Silva et al., 2022). Ou ainda, a falta de integração da saúde bucal em sistemas de saúde ao redor do mundo. A literatura indica que a saúde bucal é frequentemente excluída do pacote de serviços essenciais oferecidos e das discussões sobre cobertura de saúde (Abuhaloob et al., 2024; Jashni et al., 2023; Luan et al., 2024; Santos et al., 2024).

Dessa forma, a escassez ou a inexistência desses dispositivos pode estar intimamente ligada a essa problemática, uma vez que a ausência de apoio institucional e políticas adequadas limita tanto a incorporação de tecnologias quanto o acesso da população aos serviços de saúde bucal impactando diretamente a saúde geral das populações e aumentando as desigualdades.

As TICs podem ser utilizadas em todos os espaços, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS) (Fonseca; Alenar, 2017). Sendo instrumentos potenciais para o desenvolvimento de práticas educativas, garantindo confiabilidade, facilitando o fluxo de dados e informações, oferece apoio à gestão, influi na adoção de inovações para as práticas do fazer saúde, contribui para melhoria do processo assistencial além de impactar positivamente na horizontalidade e integralidade das ações (Cardoso; Silva; Santos, 2021).

Não obstante as reflexões presentes nos achados discutidos, nossa pesquisa apresenta como limitações, o pequeno número de publicações relacionadas a temática, fator que pode estar associado à possibilidade de existirem aplicativos sem relatos na literatura. Essas lacunas podem estar relacionadas a fatores como a recente incorporação de tecnologias móveis na odontologia, a falta de evidências científicas, desafios metodológicos, necessidade de financiamento e de avaliação rigorosa nos processos de validação e desenvolvimento dessas tecnologias (Oliveira Júnior, 2023).

Como pontos fortes desta revisão, apresentamos resultados de um amplo período avaliado, sem restrição de idioma e dentro de uma breve contextualização epidemiológica e social, sugerindo para pesquisas futuras investigações que considerem as diferentes realidades e necessidades apresentadas.

É necessário haver investimentos públicos para a ampliação do uso de múltiplas tipologias de oferta de serviços de telessaúde, que associam o uso da internet e dispositivos móveis. Desta forma, será possível maior aceitação por parte de profissionais, pacientes e gestores, incorporando todas as possibilidades de ações de telessaúde. Quando essa modalidade de atendimento passa a ser inserida no cotidiano clínico, muitas barreiras são minimizadas e amplia-se o acesso à saúde (Schmitz; Harzheim, 2017).

Conclusão

A utilização de aplicativos móveis na prática clínica odontológica é uma tendência crescente e com resultados promissores, especialmente na área de diagnóstico e monitoramento de condições bucais.

A teleodontologia emerge como uma ferramenta valiosa para ampliar o acesso, especialmente em regiões remotas, otimizando o tempo e os recursos dos profissionais. Contudo, para que seu uso seja mais amplamente implementado, é necessário haver investimento contínuo em infraestrutura e formação dos profissionais, além de políticas que integrem a saúde bucal aos serviços essenciais e incentivem o uso de tecnologias na área.

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  • 1
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  • Editora responsável:
    Jane Russo

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    22 Maio 2023
  • Revisado
    15 Nov 2024
  • Aceito
    26 Nov 2024
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