Open-access “Força, explosão e libido”: efeitos da testosterona sob a ótica de homens usuários

“Strength, explosion and libido”: testosterone effects from the perspective of male users

“Fuerza, explosión y libido”: efectos de la testosterona desde la perspectiva de usuarios

Resumo:

Neste artigo, discuto os três principais efeitos do hormônio sexual testosterona, a força física, a agressividade e o desejo sexual, para refletir sobre atributos da masculinidade hegemônica, a partir de entrevistas com homens usuários. A fundamentação teórica se baseia nos estudos de Gênero e Ciência e estudos sobre homens e masculinidades. Os dados empíricos decorrem de relatos de história de vida de 21 homens usuários do hormônio e a análise segue o método da análise do discurso. Os resultados apontam para um looping effect do modelo tradicional de masculinidade, que precisa ser expandido para comportar corpos atravessados por diversos marcadores sociais na construção de uma imagem semelhante do corpo masculino.

Palavras-chave:
masculinidades; testosterona; gênero; hormônios sexuais

Abstract:

This article discusses three main effects of the sex hormone testosterone, physical strength, aggressiveness and sexual desire, to reflect on attributes of hegemonic masculinity, based on interviews with male users. The theoretical foundation is based on Gender and Science studies and studies on men and masculinities. Empirical data derive from life history interviews of 21 male users of the hormone and the analysis follows the discourse analysis method. The results point to a looping effect of the traditional model of masculinity, which needs to be expanded to include bodies crossed by different social markers in the construction of a similar image of the male body.

Keywords:
Masculinities; Testosterone; Gender; Sex Hormones

Resumen:

Este artículo discute tres efectos principales de la hormona sexual testosterona, la fuerza física, la agresividad y el deseo sexual, para reflexionar sobre los atributos de la masculinidad hegemónica, basado en entrevistas con usuarios masculinos. La fundamentación teórica se basa en estudios de Género y Ciencias y estudios sobre varones y masculinidades. Los datos empíricos provienen de historias de vida de 21 usuarios masculinos de la hormona y el análisis sigue el método de análisis del discurso. Los resultados apuntan a un efecto de looping del modelo tradicional de masculinidad, que necesita ser ampliado para incluir cuerpos atravesados ​​por diferentes marcadores sociales en la construcción de una imagen similar del cuerpo masculino.

Palabras-clave:
masculinidades; testosterona; género; hormonas sexuales

Introdução

Este artigo discute os principais efeitos da testosterona percebidos por usuários do hormônio, com vistas a refletir sobre sua relação com atributos característicos da masculinidade hegemônica. Para a análise, revisito entrevistas com homens usuários de testosterona obtidas para minha pesquisa de doutorado (TRAMONTANO, 2017b), que se valeu de relatos de história de vida para construir uma biografia da testosterona (Arjun APPADURAI, 2008; Sjaak van der GEEST; Susan WHYTE; Anita HARDON, 1996), pensando sua associação com a construção da masculinidade desses homens.

A testosterona é um hormônio esteroide, produzido prioritariamente pelas gônadas, em homens e mulheres, e associada a uma ampla gama de efeitos, de anatômicos a comportamentais, porém mais diretamente ligada ao desenvolvimento de caracteres sexuais secundários em homens, o que lhe confere o rótulo, cientificamente impreciso, de hormônio sexual masculino por excelência. Tanto a definição científica quanto o senso comum entendem a testosterona (e os hormônios sexuais em geral) como ferramentas biotecnológicas da produção de corpos sexuados, a partir do dimorfismo sexual e do binarismo de gênero (Nelly OUDSHOORN, 1994; Fabíola ROHDEN, 2008). Assim, neste artigo, adoto como fundamentação teórica os estudos de gênero, em especial de Gênero e Ciência, que põem em xeque a ancoragem biológica da diferença sexual (Maria Teresa CITELI, 2015), que veremos bem marcada no material empírico analisado.

Com o recorte proposto, pretendo discutir como os efeitos considerados positivos ou desejáveis pelos usuários giram em torno de três grandes características masculinas: a força física, a agressividade e o desejo sexual, como fica explícito na fala que intitula o artigo: “É mais força, explosão e libido” (Jorge).1 Ancorado na literatura de estudos da masculinidade, especialmente em George Mosse (1996), Miguel Vale de Almeida (2000) e Raewyn Connell (2005), ressalto que tais efeitos coadunam com atributos centrais para a imagem ideal do homem Ocidental moderno, naquilo que se convencionou nomear de masculinidade hegemônica, e são efeitos tradicionais da testosterona consolidados na literatura biomédica (TRAMONTANO, 2017a). Outros efeitos são mencionados, porém, com menor relevância ou ligados a situações específicas, como alterações no hematócrito2 ou na sudorese. Alguns, como o aumento da pilosidade, principalmente barba, e o engrossamento da voz, são bem-vindos entre os homens trans, mas indiferentes para os cis.

Durante o trabalho de campo, foi comum a ideia de que a testosterona não estabelece ou inaugura atributos de masculinidade, mas exacerba características que estavam latentes. Veremos frequentemente, nos relatos abaixo, a noção de que o hormônio interage com algo prévio do comportamento ou da personalidade do usuário. Porém, apesar de esse olhar mais subjetivo, os relatos são muito parecidos entre si. Foi mais comum ouvir consensos que divergências e, considerando que há relativa heterogeneidade de marcadores sociais na amostra, esperava, a princípio, relatos que refletissem essas particularidades.

É a partir desse estranhamento que busco refletir, neste artigo, sobre as possibilidades de adaptação dos atributos tradicionais de masculinidade, que se pretendem rígidos e universais, às experiências vividas de diferentes homens. O que, em um primeiro momento, pode ser visto como uma repetição acrítica, sugiro ser olhado a partir do conceito de looping effect, de Ian Hacking (1995, p. 369-70):

Há mudanças em indivíduos [de um dado] tipo, o que significa que o próprio tipo se torna diferente (possivelmente confirmado em seu estereótipo, mas [...] pode acontecer exatamente o contrário). Em seguida, porque o tipo muda, há um novo conhecimento a ser obtido sobre o tipo. Mas esse novo conhecimento, por sua vez, torna-se parte do que deve ser conhecido sobre os membros da espécie, que muda novamente.

Assim, a similaridade dos relatos, que poderia apagar as diferenças entre modelos de masculinidade, termina por expandir os limites da masculinidade hegemônica, ao ter seus atributos mais centrais apropriados e transformados por homens que estariam em localizações subordinadas ou cúmplices de masculinidade. É nesse sentido que podemos observar um looping effect na masculinidade: a partir do momento em que corpos que não seriam chancelados como hegemônicos nas rígidas normas de gênero assumem e exibem características hegemônicas, a imagem ideal dos corpos masculinos é alterada, incorporando novas possibilidades ao ser homem.

Método

Os pressupostos teórico-metodológicos da pesquisa se basearam no conceito de vida social das coisas, de Igor Kopytoff (2008) e Appadurai (2008), e de biografia do medicamento, conforme Geest, Whyte e Hardon (1996). A escolha pelo relato de história de vida visava à compreensão da interseção entre duas biografias: a dos homens entrevistados e a da própria testosterona, operando, assim, uma biografia dupla, construída na relação entre eles e o hormônio. Ou seja, o objetivo era pensar a confluência da vida da molécula com a dos sujeitos da pesquisa, o que discuto com mais profundidade na tese (TRAMONTANO, 2017b). A análise dos dados seguiu o método da análise do discurso, entendida em uma perspectiva foucaultiana, compreendendo que o contexto sócio-histórico de emergência dos discursos e mesmo a linguagem não verbal são relevantes para a compreensão ampla do sentido dos discursos e das práticas dos entrevistados (Michel FOUCAULT, 2008).

Ao todo, foram entrevistados 21 homens, sendo 14 cisgêneros e 7 transexuais, entre 26 e 66 anos, estando 9 (nove) concentrados na faixa de 30-40 anos. Segundo critérios de autoidentificação, foram ouvidos 15 homens brancos e 8 (oito) negros (6 (seis) pardos e 2 (dois) pretos) e 10 heterossexuais, 9 (nove) homossexuais, 1 (um) pansexual e 1 (um) bissexual. A pesquisa se concentrou no eixo Rio-São Paulo, com 3 (três) exceções: 1 (um) em Porto Alegre-RS, 1 (um) no Recife-PE e 1 (um) na Califórnia-EUA. Essas entrevistas foram realizadas por videochamada, enquanto as outras foram presenciais. O Quadro 1 apresenta os nomes e as características dos entrevistados mais relevantes para a análise.

Quadro 1
Perfil dos entrevistados

Os critérios de inclusão foram a autoidentificação como homem e o uso da testosterona. Os objetivos com o uso eram distintos e, por vezes, se sobrepunham, mas envolviam prioritariamente o anabolismo muscular e/ou a afirmação da identidade de gênero. Todas as entrevistas foram realizadas em 2016. A aproximação com o campo e o contato com os entrevistados foi um processo longo, mas o esquema de bola de neve, onde um entrevistado indica o próximo, funcionou bem. A dinâmica das entrevistas foi variável: a mais longa levou mais de duas horas e a mais curta, apenas 35 minutos. Por questões de espaço, não aprofundarei essa problemática ou os meandros da relação pesquisador-pesquisado no campo, como o fiz na tese (TRAMONTANO, 2017b).

A seguir, apresento trechos das entrevistas com os nomes fictícios para manter o anonimato. A pesquisa foi registrada na Plataforma Brasil e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa e todos os participantes concordaram em assinar um TCLE.

Força física: o Hulk, o Jesus Cristo, o Arnold

Um dos maiores consensos em campo foi a percepção do aumento da força física como o principal efeito da testosterona. Ainda na aproximação com o campo, me foi explicado que o efeito do hormônio não é um desenvolvimento automático da musculatura; o que aumenta seria a força, e o ganho muscular, uma consequência.

Com a testosterona [...] ganho de força, recuperação de pós-treino [...] sensacionais. Agora eu sei por que os caras tomam isso aqui como se não fizesse mal nenhum! Com a testosterona, eu acho que o primeiro efeito que eu senti foi [...] o ganho de força, conseguia aumentar a carga. [...] segurei um pouco até na carga [...] pra usar não numa carga tão acima, mas conseguir forçar ao máximo o que eu achava que conseguia. [...] Então eu acho que o ganho de força foi a primeira (Mateus).

A força física é um atributo amplamente considerado inerente à masculinidade. Segundo Sócrates Nolasco (1993, p. 18), a ideia da “força física, definida pela massa muscular” é frequentemente acionada para descrever o homem ideal, sendo um lugar comum em arquétipos e estereótipos hegemônicos de masculinidade. Fátima Cecchetto (2002, p. 54) também percebe “uma conexão entre músculo e masculinidade”, de maneira que “a mais tradicional e primitiva forma de ver a masculinidade ancora-se na exibição da virilidade e da força física”.

Mosse (1996) destaca como o ideal moderno de masculinidade retomou a forma física e as proporções musculares do jovem atleta helênico como um padrão de beleza a ser perseguido por todos os homens. Essa musculatura avantajada, contudo, não pode reduzir o homem a um selvagem, e a contenção dos instintos descrita por Norbert Elias (2011) como característica da burguesia fez com que essa virilidade fosse temperada por um autocontrole, que seria o grande atributo do modelo ocidental de masculinidade.

[O] paradigma era principalmente o de atletas jovens que, através da estrutura de seus corpos e seu comportamento, exemplificavam poder e virilidade, e também harmonia, proporção e autocontrole [...] Os corpos masculinos [...] eram sempre flexíveis, e nenhuma característica do corpo ou do rosto perturbava suas nobres proporções [...] O corpo ideal projetava tanto a força quanto a restrição (MOSSE, 1996, p. 29, tradução livre).

Esse autocontrole será acionado em diferentes momentos, como quando Mateus afirma ter “segurado um pouco” o aumento de carga. Por vezes, outras características serão somadas à força, como resistência, ânimo, agilidade e disposição, mas aumentar a carga na musculação é a consequência mais direta e mais concreta do ganho de força. Assim, uma capacidade de levantar pesos maiores serve de comprovação da ação do hormônio.

Segundo Cecchetto (2002, p. 54), “[v]irilidade, proezas e outros atributos másculos demarcam um dos maiores eixos através do qual os homens situam-se e classificam outros homens”. Não à toa, um constrangimento para o iniciante na prática da musculação é ser identificado como aquele que levanta menos peso, que fica “lá só brincando com os pesinhos coloridos3 (explicado na nota de rodapé 3) (Mateus). Esse julgamento é uma queixa comum de quem começa a malhar e foi um dos motivos para Fernando recorrer à testosterona: “todo mundo pega[va] um peso maior que eu! Mas às vezes, nem era uma questão de peso, dava pra observar que eu até pegava pesos diferentes, porque eu tenho uma força... eu tenho força física, mas não necessariamente uma... musculatura exuberante”. Ou seja, numa tentativa de reduzir o estigma do “pesinho”, Fernando tenta descolar a “musculatura exuberante” da força física, o que não tem muito eco, especialmente entre aqueles que já abandonaram há muito tempo os pesinhos coloridos.

Mesmo em falas nas quais a restrição e o autocontrole ficam mais evidentes, destacados como uma atitude responsável, fica implícito o orgulho das cargas muito altas.

Nada de cargas excessivas também, né, como as pessoas às vezes, “nossa, você deve pegar 500 kg no supino né?”. Não! É pesado pra maioria das pessoas, mas não é pesado pra mim, entendeu? Então, às vezes, você vê lá eu botando 60 kg de cada lado, aquilo não é o meu limite. Aquilo ali é 70, 80% da minha força (Jorge).

Ao descrever o aumento de carga, Antonio traz outra questão: “Muito mais peso com mais facilidade [...] E o rendimento fica melhor [...] o cansaço diminui um pouco, não fica aquela coisa muito alta de quando a gente não está tomando nada”. Um dos motivos do recurso às chamadas drogas de estilo de vida seria a elevação do organismo e suas capacidades a um nível sobre-humano. Esse aprimoramento foi descrito por diversos estudiosos do Viagra, em especial Meika Loe (2001), que argumenta que os inibidores de PDE-5 garantem ao homem uma masculinidade mítica, marcada por uma ereção infalível, inatingível sem intervenções farmacológicas. No caso, a testosterona diminui o cansaço inevitável em uma atividade física exaustiva, garantindo resistência e disposição renovadas, e eleva o homem a uma condição superior, permitindo-lhe proezas heroicas. Para Paulo, “Eu começo a usar [...] hoje e amanhã eu tô me sentindo o Hulk, e tô com a coxa de Hulk!”. Já para Samuel: “já no segundo dia eu me sentia [...] sou o Jesus Cristo agora! Foda! Sou o Arnold!”.

Em ambos os relatos, temos a menção a figuras sobre-humanas, seja o Hulk dos quadrinhos, o Arnold Schwarzenegger, considerado uma lenda viva,4 ou Jesus Cristo, o messias. Um homem deificado, inspirado em heróis, é uma imagem comum à masculinidade, já que “o corpo masculino é deificado, purgado [...] das impurezas da humanidade” (MOSSE, 1996, p. 32, tradução livre). Segundo Nolasco (1993, p. 30),

a representação masculina é uma efígie de um deus ou de um herói [...] As atribuições de força, poder, coragem, astúcia e inteligência, e as exclusões de sentimentos como medo, inveja e raiva, diminuem as distâncias existentes entre a representação de um homem e a de um deus, tornando o herói alguém digno das premiações dos céus.

Vale ressaltar que os entrevistados mencionavam o aumento de força associado a alguma prática esportiva, prioritariamente, a musculação. Contudo, essa força física era observada no cotidiano, ainda que de difícil mensuração. Para demonstrar a magnitude do aumento, a saída mais fácil parecia ser a comparação com o desempenho esportivo anterior ao hormônio, seja o aumento da carga na musculação, a distância percorrida na corrida ou na natação etc.

Somando os relatos, é possível afirmar que a força física emergiu no campo como o mais evidente e o menos problemático dos efeitos da testosterona, normalmente medido por uma melhora da performance nos esportes.

Libido: a “marreta de aço” e o “pau macio”

Além da força, outro atributo marcante do homem seria a “predação sexual”, nos termos de Vale de Almeida (2000). A disponibilidade irrestrita para o sexo, a busca constante por uma multiplicidade de experiências e parcerias sexuais e um desejo irrefreável de fazer sexo são características consideradas inerentes e instintivas ao homem no binarismo de gênero. Porém, se a força física era algo digno de orgulho, um desejo sexual exacerbado foi apresentado de forma mais ambígua. Por vezes, surgia como um efeito colateral, não necessariamente negativo: “O único efeito colateral que eu tive é vontade de fazer sexo. Aumentou muito assim, tipo de subir pelas paredes, de querer ir na sauna toda semana, sabe, de querer dar, dar, dar, dar!” (Otávio). Não deixa de ser irônico que, ao usar o “hormônio masculino por excelência”, Otávio sinta um desejo de ser penetrado. Sílvio também considerou o aumento do desejo sexual como um efeito colateral: “O efeito colateral é de mais libido. [...] Como minha libido estava muito mais alta, minha performance também melhorava [...] ficava mais tempo fazendo sexo, não me cansava tão rápido [...] tinha ereção mais fácil e... é... com menos estímulo.

Faz-se necessário apontar uma polissemia da categoria “libido”. Em pesquisas anteriores, identifiquei que libido era tratada com um sinônimo de desejo sexual nos discursos médico-científicos sobre a testosterona (Lucas TRAMONTANO; Jane RUSSO, 2015). Por considerar que libido tenha um significado específico na psicanálise, julgo ser reducionista igualar os termos, porém, entre os homens que entrevistei, os dois termos eram intercambiáveis. A exceção foi Renato, graduando em Psicologia. A entrevista com ele foi uma das últimas, e já havia naturalizado libido como sinônimo de desejo sexual, então, perguntei-lhe diretamente sobre mudanças na libido, ao que ele respondeu, incomodado: “não sei o que você quer dizer com libido...”. Tive que explicar que não me referia ao uso psicanalítico, mas ao que seria um termo êmico. Se Renato questionou, para os outros, libido e desejo sexual não apenas eram sinônimos, como parecia óbvio que o aumento é um efeito da testosterona: “Libido, eu não preciso nem falar né, nas alturas!” (Rubens).

Livi Faro, ao estudar usos médicos da testosterona em mulheres, identificou uma diferença entre libido e desejo sexual no discurso médico-científico: “‘Desejo’ surge na série semântica que associa receptividade/satisfação/resposta positiva. Já libido emerge no contexto dos efeitos colaterais, devendo ser administrada por um ajuste de doses” (FARO, 2016, p. 174). Assim, libido estaria mais associado a uma gramática farmacológica, ao passo que desejo seria mais “holista”. Não posso afirmar que meus entrevistados tivessem a percepção dessa diferença, mas, nas entrevistas, havia uma tendência a circunscrever toda a experiência somática aos efeitos da testosterona; logo, entendo que a diferença de Faro se aplique; eles estavam, de fato, falando dos impactos do uso de uma substância sobre a sexualidade.

Mas a libido não era o único fator alterado. Antonio sumariza, na fala a seguir, diversos outros elementos acionados pelos interlocutores:

A testosterona lá em cima, no caso, a libido lá em cima [...] às vezes, você está pensando em nada, do nada [...] tá daquele jeito, e por aí vai. [Você fica com mais vontade ou a prática em si muda?] Os dois! [Demora mais ou menos a ejacular?] Demora mais, demora mais! (Antônio).

Temos, assim, a associação da testosterona não só com a vontade de fazer sexo, mas também com a ereção e diferenças no genital, com a performance sexual e com alterações na ejaculação, questões que apareceram diversas vezes no campo. O desejo sexual é compreendido como articulando simultaneamente uma vontade e uma disponibilidade para o sexo, representadas pela ereção. O melhor exemplo veio de Mateus, numa fala muito explícita de uma percepção homogênea no campo: “Não, aí parecia o maníaco do parque! [risos] Marreta de aço, assim, coisa linda, tipo, parecia que tinha doze, treze anos de novo! Uma coisa bem intensa assim, tipo, ‘nossa, meu deus, a mina tá ali! Puta que pariu, tô de pau duro!’”.

O efeito da testosterona na ereção é o momento no qual seu caráter de aprimoramento é mais evidenciado. Segundo Peter Conrad (2007, p. 87), um dos usos de terapias de enhancement é numa noção de “reparo”, ou seja, na proposta de restaurar o corpo a condições prévias, perdidas com o passar dos anos. Assim, Mateus me falou que sua ereção com testosterona é equiparável àquela do início de sua adolescência. Leandro também a associou a uma questão etária:

O que eu sentia num primeiro momento era uma coisa meio que falam dos adolescentes, você acorda de pau duro [risos], acordar com vontade de transar, né, o que eu não tinha antes. É meio, meio, é... o clitóris, ele fica com ereções espontâneas assim, e aí aumenta o desejo.

Esse caráter de atingir o inatingível aparece no relato de Sérgio: “desempenho sexual, aumenta o dobro [...] Aumenta o desejo e a performance! [...] sem a testosterona, você não consegue... quando eu tô usando, consigo muito mais!”. Ou seja, a testosterona possibilita proezas sexuais impossíveis na sua ausência.

Rolf de Souza (2003), na análise das conversas de homens em churrascos no subúrbio carioca, destaca o que Vale de Almeida (2000) chama de “bravatas sexuais”. Pouco importando a veracidade, é uma característica da sociabilidade masculina a descrição de peripécias sexuais; a “novidade” contemporânea é que a performance é potencializada por uma substância química.

O único que eu ouvi falar abertamente que tomou o Viagra foi Sérgio, que descrevia com riqueza de detalhes o efeito do Viagra em seu membro, a descrição era feita de forma tão vigorosa e prazerosa que chegava a ser patética. [...] a maior preocupação era mostrar para os pares que ele tinha conseguido poderes inimagináveis através de uma poção mágica, ao final do relato químico-anatômico, o tom era triunfal (SOUZA, 2003, p. 73, grifos no original).

E a testosterona também cumprirá esse papel de “poção mágica”, conferindo habilidades notáveis aos usuários: “Dá mais tesão, tipo, qualquer coisa tu fica de pau duro, não tem desenrolo [...] Qualquer toque, tava de pau duro, terminava de fazer, já tava de pau duro” (Samuel). Os relatos deslizavam entre o que seria uma maior vontade ou “tesão” (“era necessidade quase que diária de fazer sexo. É, diária, tipo, muito louco!” (Rubens), a sensação de “pau duro” o tempo todo e uma curiosidade em experimentar as novas capacidades do “brinquedo”, como Flávio e Mateus se referem ao próprio genital. Tudo isso irá compor o aumento de “libido”.

Antes a gente ficava excitado, a gente só tinha lubrificação, né? Hoje a gente fica excitado e, literalmente, fica de pau duro, então, a gente não sabia o que era ficar de pau duro [risos]. Quando a gente aprende o que que é ficar de pau duro, aí a gente acha que é outra coisa [...] acha que tem que... mas depois de um tempo você aprende a usar o brinquedo melhor, e aí você não fica muito assim... mas talvez no começo sim, [...] você fique um pouco mais mesmo com a libido mais assim né, querendo fazer as coisas... mas acho que é a sensação mesmo (Flávio).

A experiência dos homens trans de descobrir mais tardiamente o que é “ficar de pau duro” se torna estratégica para compreendermos a relação masculina com o genital, uma vez que será apresentada com uma surpresa mais naturalizada pelos homens cis. Porém, destaco que essa diferença é mais retórica do que real; os cis falaram da ereção com testosterona com o mesmo fascínio dos trans. É essencial fazer essa ressalva para evitar uma separação, entre os interlocutores, que seria apenas transfóbica. A centralidade do “pau duro” para a sexualidade masculina definitivamente atravessava expressões de gênero em campo. Outra demonstração de que essa diferenciação cis/trans em relação ao genital deve ser relativizada vem no relato de Rubens. A hipertrofia do membro, que a princípio seria uma questão apenas trans, pode se dar também em um corpo cis:

[E]u vou te falar, meu pênis engrossou [...] não foi eu que reparei, foi um garoto que eu saía [...] ele falou, “é, seu pênis ficou mais grosso”. Foi assim, foi o veredicto dele, né? Eu falei, se ele está falando, quem sou eu... eu não fiz medida de circunferência antes e pós, e conversando com a minha amiga, ela... o clitóris dela teve um certo aumento também.

Assim, o tamanho do pênis, uma das maiores preocupações dos homens, pode também ser modificado com a testosterona. Foi em um sentido de “mágica” que Leandro me falou sobre a hipertrofia genital:

[A testosterona] tem um poder quase mágico! [risos] Eu acho que... claro que isso interage com as pessoas que já éramos antes, né? Não acho que é um produto exclusivo dela, mas... ela é... ela potencializa demais! Eu sinto várias coisas assim de diferente. Tem a própria ereção, né, que ela é muito mais rápida, e... e fácil! [E, de fato, aumenta?] Aumenta, muito!

Apresentar a testosterona como potencializadora de características masculinas foi uma constante, e, no sexo, tudo é muito potencializado com o hormônio. O apetite sexual se torna insaciável, de forma que o/a parceiro/a sexual aparece em clara desvantagem:

A libido, indiscutivelmente, vai a dez, a cem, isso em todos. [...] com certeza, a testosterona é uma… potência fantástica para a libido, né? Isso eu vivi e os garotos todos vivem isso. Isso é indiscutível [...] as mulheres não dão conta, nenhuma mulher dá conta de um homem trans que começa a tomar testosterona, você acaba tendo que se masturbar às vezes várias vezes por dia. É muita libido! (Ivan).

Uma questão que se repetiu foi o recurso à masturbação como forma de “aliviar” o excesso conferido pela testosterona. Segundo Mauro, “você quer bater punheta três vezes por dia, até [...] fazer sexo todo dia se for possível”. Flávio comenta que amigos usuários dizem “ah, tô querendo trepar muito, me masturbar muito” e explica que “tem muito isso porque o clitóris está... tá hipertrofiado, você sente mais”.

A estimulação erótica trazida pelo hormônio afeta diversas dimensões da sexualidade, até mesmo a orientação sexual. É como se uma cortina se abrisse, tornando disponíveis novas possibilidades sexuais.

Você passa a... o desejo acaba mudando, né, então [risos] é... de fato, eu... me sentia atraído por toda e qualquer pessoa, independente mesmo de gênero, de tudo, de idade... de tudo! [...] na primeira vez que eu vim pra São Paulo depois que tinha tomado hormônio [...] eu cheguei e tinha aquele povo saindo do metrô e subindo a escada [...] então aquela coisa do olfato... bem... aguçado, e o cheiro de todo mundo, né, cheiro de homem, de mulher, de banho, de perfume, e... uau! (Frederico).

Analogamente, Leandro relata como um aumento exponencial do desejo abriu caminho para a erotização de corpos que até então não o atraíam, assim como deixou seu corpo mais disponível a ser erotizado:

Eu acho que aquilo que a testosterona também cumpre no plano do erótico é que ela estabiliza... uma corporalidade assim, uma visão... um tipo de corpo que vai produzindo outros desejos. Então, você se torna atraente para pessoas que, a princípio, você não era.

Ivan defendeu que a testosterona, ainda que interagindo com outras características, chancela mudanças mais abrangentes na vida sexual:

De uma maneira geral, os trans pouco transam, né, antes da cirurgia ou antes de transicionar. Não é regra, mas pela dificuldade do corpo, de ficar nu, a maioria transa de cueca, então, quando vem a testosterona, que dá aquela… começa[m] os efeitos, nascer pelo, nascer barba, a autoestima sobe, você fica mais seguro, e aí você tem mais coragem de transar nu, de… enfim, de transar mesmo. [...] Isso é indiscutível, esse efeito não tem o que se discutir!

É possível falar em um empoderamento que a testosterona confere, seja ao apresentar-se (e sentir-se) como alguém desejável, seja na segurança e autoestima, no orgulho do corpo, ou mesmo em questões mais profundas, como descreve Fernando:

Transformou o meu subjetivo também. [...] estou falando inclusive de questões de gênero [...] o meu subjetivo acabou sendo moldado muito mais para o feminino, e inclusive para uma passividade maior. [...] Então assim, eu tinha até... 20 e poucos?... mais trejeitos femininos etc. e tal [...] depois [de usar testosterona] eu senti o que a gente chama de empowerment, empoderamento, e essa, pra mim, foi uma transição. Eu larguei o feminino que não fazia parte de mim, e me tornei uma pessoa muito mais... pró-ativa, mais ativa, e muito mais... dona de mim... é... muito mais pauzuda! Em todos os sentidos.

Nesse ponto, percebemos a reprodução das hierarquias de gênero. Fernando precisa “largar” um “feminino”, que o tornava mais emotivo e passivo, atributos vistos como fracos e, ao fazê-lo, se torna uma pessoa mais ativa, mais dona de si, atributos valorizados positivamente em nossa sociedade. Não é surpreendente, pois, que Fernando se compreenda como mais masculino e, seguindo a lógica falocêntrica, se defina como uma pessoa “muito mais pauzuda”.

Outra forma de avaliar os efeitos da testosterona é pelos resultados de sua ausência. Um excesso de testosterona circulando na corrente sanguínea, como acontece no uso exógeno do hormônio, irá inibir a via de produção endógena da testosterona, por feedback retroativo. Quando o uso é interrompido subitamente, leva algum tempo para que os testículos voltem a produzir normalmente o hormônio e os índices de testosterona, que estavam elevados, caem a níveis baixíssimos. A consequência fica evidente no incômodo de Mateus: “Parou de funcionar o brinquedo, assim, foi, tipo, total! [...] vontade, desejo sexual, caiu bastante, assim, não tinha [...] depois que eu parei!”. O mesmo aconteceu com Rubens:

Foi depois que eu terminei tudo, tipo a última dose, uma semana depois, aí veio. [...] foi o auge mesmo, tipo, eu não sentia, eu nunca tinha sentido isso na vida! [...] Ficou dormente de você não ter resposta [...] Você está tendo estímulo, o estímulo está acontecendo, mas... não sobe!

Samuel afirmou que “teve um aumento, depois eu senti uma queda brusca”, que impactou inclusive seu relacionamento:

Tinha vontade, mas, às vezes, a ereção vinha e, tipo... não mantinha! Como diz um amigo meu, “pau macio”. É, ficava com o pau macio! Minha noiva chegou até a achar que eu tava comendo outra por fora, a maior merda.

Já para Antônio, essa “queda abrupta” seria resultado mais de um “mau uso”:

Ela [a libido] diminui. É aquilo... aí, no caso, é questão de formação, de pessoas assim que pensa que... não vai descer, coisa e tal, que para do nada. Tem que, tipo, como se fosse vindo parando aos poucos. Por exemplo, eu vou parar daqui a quatro semanas, então eu vou reduzindo e vou aumentando o espaço de tempo da aplicação.

O único contraponto ao aumento do desejo foi trazido por Paulo:

Não, muito pelo contrário! Menos vontade. O que eu acho muito engraçado, o pessoal fala que aumenta a vontade, [comigo] diminuiu a vontade. [...] o pessoal que usa geralmente fala, “nossa, eu usei testosterona e agora estou subindo pelas paredes!”. Comigo nada! [...] Diminui total! Pra mim, diminui total! É uma linha tipo, “eu me basto, eu não preciso de ninguém, me larga!”.

Mesmo Paulo relata com surpresa essa diferença, oposta ao esperado, inclusive, nas descrições dos efeitos da testosterona na literatura médica. Talvez aqui haja margem para a discussão de que o desejo sexual é um fenômeno multifacetado, que não depende exclusivamente de taxas hormonais; podemos inferir que outros fatores tenham atravessado a experiência do uso de Paulo. Outra hipótese é de que se trata de uma reação idiossincrática, peculiar, sempre uma possibilidade na farmacologia; ou, ainda, que a forma farmacêutica do hormônio escolhida por ele seja a responsável por esse efeito antagônico. De toda forma, quando aprofundei a questão na entrevista, ele não tinha muito a dizer, afirmando apenas que seus objetivos com o uso não eram sexuais, logo, não foi um incômodo nem uma decepção.

Ao olhar os relatos, parece que a mesma testosterona que dá, tira. O desejo sexual -diferente da força, em que, mesmo após o uso, mantém-se algum ganho muscular - não apenas reverte, mas praticamente desaparece. Podemos, então, afirmar um duplo papel do hormônio, que aumenta o desejo assim como o diminui; a “marreta de aço” se converte em um “pau macio” numa rapidez impressionante.

Agressividade: “parecia que eu vivi meses de TPM

Se a força física e o desejo sexual são valorizados, a agressividade é negada ou minimizada. Considerada inerente ao homem (e à testosterona), a agressividade vinha muito ligada à violência física e a maioria dos entrevistados não se sentia à vontade para exibir comportamentos abertamente violentos. Na verdade, a maioria repudiou esse tipo de resposta emocional, trazendo outras maneiras de lidar com isso, como Fernando:

Meu sexo mudou totalmente! [...] porque eu ainda era muito [...] carinhoso, delicado na cama [...] eu tenho tido experiências bem... enriquecedoras, sabe, coisas que jamais eu pensasse que eu pudesse, inclusive, eu curtisse. Coisas de dominação, aquelas questões talvez mais... sádicas, ou masoquistas, né? Eu... acabei me tornando... talvez mais sádico [...] Mas isso obviamente dentro de uma conjuntura sexual. Na vida, a agressividade se pontua também, mas não é uma coisa assim, é eventual, é pontual e eu acho que não tá nada fora dos padrões.

Ao falar sobre espaços de sociabilidade masculina, Vale de Almeida (2000, p. 189) descreve uma “etiqueta” masculina no espaço público, que se afirma “mais pela sexualidade que pela violência ou a força física”, ao menos entre latinos. O exemplo dos duelos descritos por Mosse (1996) é muito elucidativo nesse sentido, pois representa uma transição entre um modelo aristocrático e medieval de masculinidade para o modelo burguês moderno. Para Pedro Paulo de Oliveira (2004), o processo civilizador rechaça a selvageria pública representada pelos duelos fatais, que foram transferidos para recintos fechados e atenuados, tendo de terminar com um aperto de mãos, logo, sem mortes.

Há uma notável transformação ritualística do duelo à medida que ele passa a ser apropriado pela burguesia. A ênfase na bravura, na ousadia e no destemor desloca-se paulatinamente para a questão da firmeza, do autocontrole e da contenção (OLIVEIRA, 2004, p. 25).

Novamente, o autocontrole irá limitar os excessos masculinos. Contudo, a agressividade não será extinta do ideal de masculinidade; ela passa a funcionar como um último recurso, acionado apenas em casos extremos. Um homem agressivo, violento, é um homem descontrolado, mas um “homem de verdade” deve “mostrar que há o potencial da violência” (VALE DE ALMEIDA, 2000, p. 189, grifos no original). O corpo musculoso cumpre esse papel, mas a agressividade precisa ser constantemente “temperada”, contida, e isso será feito de diferentes formas. Uma das estratégias de “escoar” essa agressividade era pela via sexual, não apenas para Fernando. Quando perguntei a Rubens quais eram essas “alterações de humor”, ele respondeu:

Impaciência. Eu não... eu me controlava, porque eu con... eu me controlava mesmo, porque eu já sou uma pessoa nervosa normalmente, e... isso me dava certo nervosismo. E, é assim, dava hora de malhar, eu tinha que malhar, eu tinha... tinha que botar isso pra fora em algum lugar! E agressividade, mas a agressividade eu já conseguia canalizar pro lado sexual, então, eu, se tivesse que bater em alguém, fazer alguma coisa, eu fazia nesse sentido.

Rubens, pois, encontrou dois caminhos. Primeiro, no sexo. Ele afirma que, antes da testosterona, preferia ser penetrado, ao passo que, agora, ele costuma ser o “ativo”. O segundo caminho era transferir esse excesso para o treino na academia, o mesmo feito por Evandro: “ajudava você no exercício te dando uma motivação de... não, não é raiva, mas é de agressividade mesmo, misturando todo aquele sentimento ali, você coloca... colocava na academia.

Nesse ponto, identifiquei uma estratégia discursiva nas entrevistas. Foram raros os usos de “agressividade” ou “violência” para falar de si; essas palavras apareciam ao se referir a outros usuários ou como um efeito esperado da testosterona, mas dificilmente como um atributo de si. Mesmo quando eu empregava o termo “agressividade” na pergunta, a resposta deslizava para eufemismos: “impaciência”/“impaciente” (o mais comum), “intolerantes”, “nervosos”, “impulsivos”, “irritados”, “estressados”, “agitados”, “irritadiços”, “com pouca concentração”, “assertivos”, “estourados”, “de pavio curto”; ou, mais genérico, se referiam a uma “alteração” ou “mudança” de humor. Nesse sentido, a “explosão” a que Jorge se refere na expressão “força, explosão e libido” diz respeito a uma difusa agressividade. A ideia de uma “explosão” que permite determinadas proezas físicas está presente na etnografia de Cecchetto (2002, p. 169):

Segundo os lutadores, as bombas dão “explosão”, uma categoria nativa para referir o desempenho competitivo arrojado, mas provocado intencionalmente pelo uso de medicamentos que aumentam o rendimento físico [...] Estas drogas, como afirmam os informantes que dão “explosão” com o uso continuado, permitem que se vire “um louco no tatame”.

Se, para os lutadores, a agressividade era um dos efeitos buscados com a testosterona, entre meus interlocutores, ela era normalmente malvista. Segundo Ivan,

alguns reclamam que se tornaram mais agressivos com a testosterona. Eu não sei, eu acho que isso aí é uma interferência muito social. [...] agressão eu acho que é muito cultural. Você vive numa sociedade agressiva, você se torna agressivo. Se ser homem é ser agressivo, então você vai ser agressivo porque você é homem. Então é... eu acho que é uma performance!

Nesse trecho, emergem alguns pontos que ficam nas entrelinhas em outras falas. Primeiro, a agressividade como algo cultural, consequência de uma sociedade agressiva, não sendo efeito da testosterona. Segundo, uma tautologia entre masculinidade e agressividade. Ser homem é ser agressivo, e ser agressivo faz o homem. A circularidade do raciocínio é interessante porque essa associação foi muita naturalizada em outras entrevistas. Porém, outros também questionaram a ancoragem biológica da agressividade, mencionando um difuso “psicológico”, como Jorge: “Tem gente que você vê que o cara fica mais nervoso, mais alterado, mas [em] muita gente é muito psicológico. [Isso nunca aconteceu com você?] Não, não, não!”. Flávio, que também não se sente mais agressivo com a testosterona, segue a mesma linha:

Tem uns que vão dizer que se sentem mais homens, que isso, que aquilo outro, né, que ficam mais estressados, que não sei o quê, porque eles atribuem o estresse e... libido, essas coisas todas, à masculinidade, né? [...] pra mim não! [risos] também acho que rola essa coisa psicológica assim de... de... de atribuir à testosterona todas as... até o machismo! “Ah, eu sou machista agora porque uso testosterona” [risos] pra mim [...] não acho que mudou muita coisa, não.

Já Mauro é mais taxativo: “Eu acho que isso é um machismo, eu nunca senti diferença em relação à agressividade!”. Para outros, a associação era tão naturalizada que até surpreendeu quando não foi percebida, como me contou Frederico:

Eu tinha muita preocupação com relação à agressividade, que eu tanto lia, que falava “ah, que testosterona torna os meninos agressivos, nã-nã-nã”. Eu não senti isso, né? Eu tinha medo, realmente, de ter essa agressividade, e não! Penso, pelo menos no meu caso, penso eu que, se houve alguma agressividade, foram questões muito pontuais, muito específicas.

Se a força e a libido têm resultados muito visíveis (músculos e ereção), a agressividade é mais difusa, e talvez isso explique a dificuldade nas respostas. Por outro lado, a associação é legitimada em discursos “oficiais”. Antes de iniciar o uso, o médico que acompanhava Leandro falou sobre isso com ele e sua companheira:

Na época ele me chamou, e chamou a [companheira] e disse assim [...] “olha, o hormônio, ele tem efeitos físicos e tem efeitos emocionais [...] pode acontecer de você ter assim, rompantes de agressividade, mudar um pouco a sua forma de se comportar e tal, é importante que vocês estejam atentos a isso também” [...] eu comecei também a sentir também um pouco mais de assertividade. [...] Eu fui ficando um pouco mais... pavio curto, talvez? [...] mas, ao mesmo tempo, foi uma coisa boa, que também eu acho que é... o circuito depressivo, ele foi cantando pra subir, sabe? [...] ele apontou para uma coisa mais... uma preocupação com uma violência. [...] Isso nunca aconteceu. Eu acho que isso interage, obviamente, com as tuas características fundamentais. [...] talvez o hormônio, ele te autorize mais a isso, ele te dê permissão pra isso. Mas não, não aconteceu nenhum episódio violento, nem lá no plano da relação íntima com a [companheira], nem na vida assim de... conflitos... não, não tenho registros disso... interpessoais, assim.

Ao passo que o médico preveniu sobre uma violência física, Leandro associou uma ideia de agressividade a uma assertividade na vida, que era bem-vinda, inclusive, por retirá-lo de um ciclo depressivo contra o qual vinha lutando já há alguns anos e a testosterona ajudou a superar. Por outro lado, Roberto foi um dos poucos a confirmar que ficou mais agressivo: “Eu acho que fiquei, sim, mais agressivo [...] eu senti que teve um aumento da agressividade, irritabilidade, né, irritabilidade. E até meio impaciente!”. Ainda que admita, ele escapa para uma irritabilidade, uma impaciência, que diminui a conotação de violência que a palavra agressividade imputa. Já Augusto circunscreveu a agressividade ao início do uso: “eu fiquei muito agressivo no começo! [...] estourava fácil assim. Eu sou um pouco assim mesmo, mas é menos! Com a… depois que comecei a tomar, ficou muito assim. Eu tava me percebendo assim, chato!”. Admitir a agressividade como efeito pressuposto da testosterona (e do homem), para então diluir seu conteúdo mais “físico”, também apareceu na história de Claudio:

O humor muda, entendeu? Você aumentando a testo e, pior ainda, diminuindo o carbo[idrato], seu humor, seu pavio zera! Você é, enfim, fica alterado e você não... acaba não percebendo isso. Você tem que segurar a onda para não afetar a quem está ao seu redor, [você fica] mais intolerante, eu acho. [Você ficou mais agressivo?] A gente segura a onda, entendeu? A gente não... não fica agressivo. Não sei se as pessoas que fazem uso [...] raramente, se ficam agressivas, porque a testo, hormônio masculino, se você não está acostumado e joga a testo lá em cima, você vai ter um... uma... uma potencialização nos seus efeitos masculinos, né? Agressividade é uma. Mas a gente que faz uso frequente, há muito tempo, não. [...] não tem agressividade, não tem... a única coisa é o humor que muda.

Assim, é uma mudança de humor, é a falta de carboidrato, é um uso pontual e/ou descontrolado da testosterona que fará com que os outros desenvolvam um “efeito masculino” do hormônio. Entretanto, por ser um usuário crônico, Claudio possuiria o autocontrole necessário para “segurar a onda” e evitar o pior de seus efeitos. Porém, para Samuel, um usuário ocasional,

a única coisa que eu percebi foi a mudança de humor mesmo. Ficava... a irritabilidade muito mais rápido. Qualquer coisinha eu ficava estressado. [...] Uma impaciência. O nível de estresse, por qualquer coisinha já... já me tirava do... do sério. Já sou uma pessoa mais esquentada, mas eu senti que... aumentou um pouco a... passou um pouco do... do... do... do que eu já me conhecia, do meu normal.

Nesse ponto, há outro paralelo com a etnografia de Cecchetto (2002, p. 173-175). Os lutadores experientes (os “casca-grossa”) são mais responsáveis, dominam as técnicas do jiu-jitsu e não se envolvem em “brigas de rua”; já os “novatos” são brigões e utilizam anabolizantes de forma descontrolada, ganhando competições com muita força e pouca técnica. Porém, a contradição fica explícita quando a pesquisadora pergunta a um professor veterano sobre o uso de “bombas”, e ele afirma ser contrário ao uso para, logo em seguida, dizer que ele próprio usaria, o que sugere um controle que os outros não teriam. Ao dizer que ele usaria, mas condena o uso nos outros, o argumento é justamente que “mexer com a testosterona” é complicado porque “o cara fica muito agressivo”.

Para encerrar este ponto, destaco uma interessante comparação feita por Mateus:

Ah, cara, efeitos de humor, assim, parecia que eu vivi meses de TPM! Qualquer coisa, o pavio era muito curto! [...] Muito impaciente, irritadiço, qualquer coisa me tirava do sério. A sensação... o comparativo que eu consigo fazer é assim, vivi de TPM nesse período. [...] com a testosterona, pra mim isso foi uma coisa que pegou bastante. Qualquer coisa, tipo, argh! Perdia a linha assim de... lógico, não de ir pras vias de fato nem nada, mas sabe assim... qualquer argumentação... me sentia assim, bem mais à flor da pele!

Chama atenção nessa fala de Mateus a aproximação de uma noção de agressividade, considerada do campo do masculino, com uma das características mais estigmatizadas da feminilidade, a tensão pré-menstrual, símbolo do suposto desequilíbrio emocional (e hormonal) das mulheres no modelo binário da diferença sexual. Mateus falava abertamente sobre sua intensa relação com o hormônio, e é notável que ele falasse do seu pênis (ereto ou não), da sua força, dos seus 50 cm de bíceps e toda uma sequência de atributos ultramasculinos com a mesma tranquilidade com que se descreve “à flor da pele”, sem medo de uma possível feminilização. Essa aparente contradição lança luz sobre algumas características da masculinidade hegemônica que são mutuamente excludentes. Como pode um homem ser agressivo, e responder violentamente em defesa de sua honra, se ele precisa, antes de tudo, demonstrar autocontrole e uma alta contenção de emoções? Não seria o recurso à violência física uma “explosão” de sentimentos interdita ao homem segundo as normas de gênero?

Por outro lado, uma certa agressividade é imprescindível para a masculinidade. O self-made man, um dos maiores estereótipos da masculinidade para Michael Kimmel (1998, p. 111), é retratado como um homem ansioso, estressado, que passa muito tempo no ambiente de trabalho com outros homens. A competitividade, outra característica marcante de masculinidade, é constante em sua vida, e, por isso, faz-se necessária uma postura mais agressiva - inclusive, essa palavra é utilizada positivamente em treinamentos de recursos humanos. Um homem precisa saber se impor, e aquele que não o faz será taxado de passivo, “frouxo”, e perderá a disputa para outros homens, mais proativos, relegando-o a um lugar subordinado no espectro da masculinidade, como coloca Connell (2005). No esporte, a agressividade também será enaltecida; ninguém ganha uma competição com uma postura apática. Não à toa, o trabalho e o esporte são espaços idealmente masculinos no binarismo de gênero. No fim das contas, o que irá diferenciar a “boa” agressividade, que enaltece o homem, da “má”, motivo de vergonha, será o autocontrole.

Considerações finais

A partir dos relatos, percebemos que três atributos constitutivos da imagem do homem moderno são vistos como efeitos diretos da testosterona e apresentados em corpos muito diferentes entre si, o que poderia nos levar a supor uma homogeneidade da masculinidade que apagaria a interseccionalidade de marcadores que forma o corpo e o lugar social desses homens. Porém, me parece mais adequado argumentar no sentido de um efeito de looping effect, conforme definido por Hacking (1995): ao exibir características do padrão mais hegemônico e tradicional da masculinidade, esses homens acabam por expandir, forçosamente, o conceito de masculinidade, exigindo um alargamento da categoria. Determinados atributos, como a força de um corpo musculoso, a predação sexual e a violência pressuposta deixam de ser marcas do homem branco cis heterossexual, e estarão disponíveis também em corpos considerados desviantes em diferentes eixos.

Exemplos como a intercambialidade entre o pênis e o clitóris, a vontade de ser penetrado ao usar testosterona ou se sentir “de TPM”, simultaneamente ao auge da força física, confundem o que seriam efeitos anatômicos/comportamentais do hormônio que a ciência, num modelo binário de sexo/gênero, historicamente construiu. Inversamente, homens que seriam descritos como desviantes ou subordinados na tipologia de Raewyn Connell (2005) exibem atributos típicos do que seria o homem “macho”, hegemônico. Encerro essa reflexão com um último exemplo: Rubens, um homem gay considerado “afeminado”, descreve que sofria violência homofóbica ao passear com sua cachorrinha. Porém, após a testosterona, ele, agora bastante musculoso, passou a intimidar: “Há um certo respeito que o corpo impõe. [...] Não sou mais a bichinha que andava com uma poodle”, afirma, apesar de continuar andando com a poodle nos mesmos espaços onde antes sofria homofobia. A diferença é que agora ninguém irá desafiá-lo; seu corpo expõe o potencial da violência de que falava Vale de Almeida (2000). Assim, certos pressupostos muito rígidos do binarismo de gênero tornam-se insustentáveis; a imagem do “macho”, da “bicha”, do cis ou do trans não é tão autoevidente, escapando aos estereótipos. O que pude perceber em campo, e busquei apresentar aqui, é que o binarismo de gênero não dá conta de explicar a multiplicidade de possibilidades de construção de masculinidades, permitindo a homens “subordinados” a exibição de atributos “hegemônicos” e vice-versa.

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  • VALE DE ALMEIDA, Miguel. Senhores de si: uma interpretação antropológica da masculinidade Lisboa: Fim de Século, 2000.
  • 1
    Nas citações de entrevistas, utilizo a fonte em itálico para diferenciar de citações de referências bibliográficas.
  • 2
    Refere-se à porcentagem de hemácias no volume total do sangue, que tem valores médios diferentes em corpos masculinos e femininos.
  • 3
    Nas academias de ginástica, é comum que os halteres menores (de 1 a 10kg) venham com uma cobertura emborrachada de diferentes cores. Já os pesos maiores, a partir de 12kg, ou não têm cobertura, aparecendo diretamente o metal, ou a cobertura é preta, o que passa uma ideia de rusticidade, que confere simbolicamente virilidade a quem consegue realizar os exercícios com eles.
  • 4
    O ator e político austro-americano Arnold Schwarzenegger é um dos mais famosos fisiculturistas da história, muito responsável pela disseminação do esporte. Schwarzenegger ganhou inúmeros campeonatos, manteve recordes por longos períodos e se tornou uma referência para atletas profissionais e amadores. Sua rotina de exercícios segue sendo reproduzida em revistas especializadas, nas quais é frequentemente referido apenas como “The King”. Vale ressaltar que “o Rei” admitia publicamente o uso de esteroides anabolizantes, porém, apenas enquanto eram legalizados.
  • Como citar esse artigo de acordo com as normas da revista:
    TRAMONTANO, Lucas. “‘Força, explosão e libido’: efeitos da testosterona sob a ótica de homens usuários”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 31, n. 3, 91870, 2024
  • Financiamento:
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001
  • Consentimento de uso de imagem:
    Não se aplica
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa:
    A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética em Pesquisa, registrada na Plataforma Brasil sob o número CAAE 48725515.8.0000.5260

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    22 Nov 2022
  • Revisado
    20 Mar 2024
  • Aceito
    20 Jun 2024
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