RESUMO
Objetivo: avaliar o uso da tecnologia educacional “Descomplicando a Amamentação” na construção do conhecimento de familiares de recém-nascidos prematuros sobre o aleitamento materno no preparo de alta da unidade neonatal.
Método: estudo de métodos mistos incorporados, com notação QUAN (qual), realizado em cinco etapas: entrevista inicial; pré-teste; intervenção (aplicativo móvel); pós-teste; entrevista final. Foi conduzido entre dezembro de 2022 e julho de 2023, na Unidade Neonatal de um Hospital Universitário do Rio de Janeiro, com participação de 15 familiares. Processaram-se os dados textuais da etapa 1 no Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires, enquanto na etapa 5 utilizou-se a marcação colorimétrica, ambas interpretadas segundo a Análise Temática de Conteúdo. Analisaram-se os dados de caracterização e das etapas 2 e 4 quantitativamente com estatística descritiva simples.
Resultados: o preparo de alta na unidade neonatal sobre o aleitamento materno, antes da intervenção, era voltado principalmente para as mães durante cada mamada, com orientação dos profissionais sobre o posicionamento e a pega do bebê. Essa abordagem ocorria de forma pontual, sem padronização, não envolvia todos os familiares e não eram utilizadas tecnologias educacionais. Após o uso do aplicativo "Descomplicando a Amamentação" houve um aumento de 28,9% no número total de respostas corretas, destacando sua importância no preparo de alta, aspecto reforçado pelas entrevistas.
Conclusão: o aplicativo auxiliou positivamente na construção do conhecimento de familiares de recém-nascidos prematuros. Sugere-se envolver os membros da família no preparo de alta ao longo da internação, incluindo o uso de tecnologias educacionais.
DESCRITORES:
Família; Alta do paciente; Recém-nascido prematuro; Aleitamento materno; Tecnologia educacional
ABSTRACT
Objective: to evaluate the use of the educational technology “Descomplicando a Amamentação” in the knowledge construction of family members of premature newborns about breastfeeding in preparation for discharge from the neonatal unit.
Method: an incorporated mixed methods study with QUAN notation (qual), conducted in five stages: initial interview; pre-test; intervention (mobile application); post-test; final interview. The study was conducted between December 2022 and July 2023, at the Neonatal Unit of a University Hospital in Rio de Janeiro, with the participation of 15 family members. The textual data from stage 1 were processed in the R Interface pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires, while colorimetric marking was used in stage 5, both interpreted according to Thematic Content Analysis. The characterization data and data from stages 2 and 4 were quantitatively analyzed with simple descriptive statistics.
Results: preparation for discharge in the neonatal unit regarding breastfeeding before the intervention was mainly focused on the mothers during each feeding, with guidance from professionals on the baby’s positioning and latch. This approach was ad hoc, without standardization, did not involve all family members, and educational technologies were not used. After using the “Descomplicando a Amamentação” application, there was a 28.9% increase in the total number of correct answers, highlighting its importance in preparing for discharge, with this aspect being reinforced by the interviews.
Conclusion: the application positively helped in the knowledge construction of family members of premature newborns. It is suggested that family members be involved in preparing for discharge throughout hospitalization, including the use of educational technologies.
DESCRIPTORS:
Family; Patient discharge; Infant premature; Breastfeeding; Educational technology
RESUMEN
Objetivo: evaluar el uso de la tecnología educativa “Descomplicando a Amamentação” en la construcción de conocimientos de las familias de recién nacidos prematuros sobre la lactancia materna en la preparación al alta de la unidad neonatal.
Método: estudio incorporado de métodos mixtos, con notación QUAN (qual), realizado en cinco etapas: entrevista inicial; prueba previa; intervención (aplicación móvil); prueba posterior; entrevista final. Se realizó entre diciembre de 2022 y julio de 2023, en la Unidad Neonatal de un Hospital Universitario de Río de Janeiro, con la participación de 15 familiares. Los datos textuales de la etapa 1 fueron procesados en la Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires, mientras que en la etapa 5 se utilizó el marcaje colorimétrico, ambos interpretados según el Análisis de Contenido Temático. Los datos de caracterización y los datos de los pasos 2 y 4 se analizaron cuantitativamente con estadística descriptiva simple.
Resultados: la preparación al alta de la unidad neonatal en cuanto a la lactancia materna, antes de la intervención, estuvo dirigida principalmente a las madres durante cada toma, con orientación de los profesionales sobre el posicionamiento y el agarre del bebé. Este abordaje se produjo de forma puntual, sin estandarización, no involucró a todos los miembros de la familia y no se utilizaron tecnologías educativas. Después de utilizar la aplicación "Simplificando la Lactancia Materna", hubo un aumento del 28,9% en el número total de respuestas correctas, destacando su importancia en la preparación para el alta, aspecto reforzado por las entrevistas.
Conclusión: la aplicación ayudó positivamente en la construcción de conocimientos de los familiares de recién nacidos prematuros. Se sugiere involucrar a los familiares en la preparación para el alta durante la hospitalización, incluido el uso de tecnologías educativas.
DESCRIPTORES:
Familia; Alta del paciente; Recien nacido prematuro; Lactancia Materna; Tecnología educacional
INTRODUÇÃO
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a prematuridade como o nascimento que ocorre antes de 37 semanas completas de gestação. Essa condição implica na imaturidade dos órgãos e na necessidade de cuidados prolongados em unidades neonatais, especialmente no que diz respeito à alimentação. O leite materno destaca-se como o alimento ideal para promover o crescimento e o desenvolvimento saudável desses bebês prematuros, dada a sua maior vulnerabilidade aos diversos problemas de saúde, em comparação com os bebês nascidos a termo1.
O estímulo ao aleitamento materno e a orientação sobre essa prática pelos profissionais de saúde tornam-se elementos cruciais a serem enfatizados junto aos familiares de recém-nascidos prematuros, visando aumentar essas taxas, desde a internação na unidade neonatal até a alta hospitalar. Para tal, é preciso incentivar o contato ‘pele a pele’ precoce e a ordenha do leite materno, proporcionando apoio e informações adequadas para sua realização, mesmo antes do recém-nascido ter condições de mamar diretamente no peito2.
O processo de alta deve incluir o preparo das famílias desde a admissão, por meio de diversas estratégias educativas adequadas às reais necessidades de cada família3. As ideias-força freireanas têm sido integradas às práticas educativas em saúde realizadas pelos enfermeiros, os quais, ao empregarem a educação para transformar a realidade e promover a autonomia do educando, precisam assumir o papel de aprendizes junto aos familiares dos recém-nascidos prematuros. Essa abordagem resulta em uma prática educativa libertadora e crítica, que valoriza o conhecimento prévio da família4.
As seis ideias-força citadas do processo educativo são as seguintes: 1) A ação educativa deve começar com uma reflexão sobre o ser humano e a análise do contexto do educando; 2) O indivíduo torna-se sujeito ao refletir sobre sua situação e ambiente; 3) Ao refletir e comprometer-se com seu contexto, o ser humano constrói sua identidade e é capaz de transformar a realidade por meio das relações com os outros; 4) Compreender e responder aos desafios do contexto permite ao indivíduo adquirir uma experiência crítica e criadora e não, apenas, acumular informações; 5) O ser humano é criador de cultura e construtor da história e 6) A educação deve possibilitar que o indivíduo transforme o mundo e relacione-se com outros, fazendo cultura e história4.
O uso de tecnologias educacionais emerge como uma ferramenta adicional e facilitadora para promover a educação em saúde entre familiares e profissionais, contribuindo para a promoção do aleitamento materno e para a construção do conhecimento de forma individual e coletiva no preparo de alta5-6. À vista disso, recentemente, foi desenvolvido um aplicativo para dispositivos móveis, denominado "Descomplicando a Amamentação", validado e avaliado de forma satisfatória por juízes-especialistas na área da enfermagem pediátrica, neonatal e obstétrica, bem como pelo público-alvo, no que diz respeito à semântica, aparência e usabilidade7-8. O aplicativo está disponível para download gratuito para dispositivos Android® no Google Play Store®.
Este aplicativo busca promover a autonomia de gestantes, puérperas e familiares de recém-nascidos e lactentes em relação ao aleitamento materno. Por meio de diferentes abas com informações relevantes, incluindo uma cartilha digital e um quiz interativo, essa tecnologia educacional tem potencial para estimular o pensamento crítico e a autonomia dos usuários, considerando a facilidade de acesso às informações7. Contudo, ainda era necessário compreender se o aplicativo realmente consegue promover a construção do conhecimento de familiares em diferentes contextos.
A escassez de literatura sobre avaliação de aplicativos móveis no preparo de alta em unidades neonatais pode dificultar a tomada de decisões informadas pelos profissionais de saúde sobre a adoção dessas ferramentas tecnológicas em suas práticas diárias. Assim, surgiu a questão norteadora: a tecnologia educacional "Descomplicando a Amamentação" facilita a construção do conhecimento de familiares de recém-nascidos prematuros sobre aleitamento materno durante o preparo de alta da unidade neonatal? Logo, objetivou-se avaliar o uso da tecnologia educacional “Descomplicando a Amamentação” na construção do conhecimento de familiares de recém-nascidos prematuros sobre o aleitamento materno no preparo de alta da unidade neonatal.
MÉTODO
Estudo de métodos mistos incorporados, com notação QUAN (qual)9, realizado entre dezembro/2022 a julho/2023 na Unidade Neonatal, composta pela Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) e pela Unidade Intermediária (UI), de um Hospital Universitário no município do Rio de Janeiro, Brasil. A pesquisa foi desenvolvida em cinco etapas, a saber: 1ª: entrevista inicial; 2ª: pré-teste; 3ª: intervenção (aplicativo móvel); 4ª: pós-teste; 5ª: entrevista final. Empregou-se uma combinação de métodos quantitativos e qualitativos para proporcionar uma compreensão mais abrangente do objeto estudado, com ênfase principal na abordagem quantitativa para mensurar a mudança no conhecimento dos familiares em relação à intervenção utilizada. O método qualitativo foi incorporado para complementar a análise quantitativa, visando compreender as experiências dos familiares no preparo de alta antes e após a intervenção.
A população foi composta por familiares cuidadores de recém-nascidos prematuros e a amostra selecionada por conveniência e disponibilidade durante o período do estudo10. Os critérios de inclusão foram: mães, pais e familiares de recém-nascidos prematuros, maiores de 18 anos, com bebês internados na unidade neonatal. Os critérios de exclusão foram: mães, pais e familiares de recém-nascidos prematuros, com dificuldades em participar do estudo pela existência de algum tipo de comprometimento no seu estado de saúde físico ou mental e/ou mulheres infectadas pelo HIV e/ou pelo HTLV1 e HTLV2 (infecções maternas em que o aleitamento materno não é recomendado). Foram abordados 17 familiares, dos quais dois foram excluídos por não terem completado as etapas 4 e 5 devido à alta hospitalar no dia seguinte às etapas 1, 2 e 3, totalizando, assim, 15 participantes, sem desistências.
Os potenciais participantes foram convidados a participar do estudo diretamente na Unidade Neonatal, devido à facilidade de encontrá-los constantemente no local. Diante do aceite, inicialmente, procedeu-se à sua caracterização questionando-os sobre o grau de parentesco com o recém-nascido, idade, sexo, profissão, atividade profissional e escolaridade. Esse levantamento foi realizado por meio do preenchimento da primeira parte dos instrumentos pela primeira autora. O roteiro da entrevista individual da primeira etapa foi composto por perguntas abertas iniciais orientadoras dessa etapa: 1) Como você tem sido preparada(o) durante essa internação do seu bebê em relação ao aleitamento materno?; 2) Em que momento acontece este preparo?; 3) De que forma acontece esse preparo?; 4) Quem tem realizado este preparo com você?; 5) Quais facilidades você tem encontrado?; 6) E quais as dificuldades?; 7) Quais são as suas dúvidas sobre o aleitamento materno?
Na segunda etapa, o conhecimento dos familiares de recém-nascidos prematuros, antes da intervenção, foi avaliado por meio de um formulário individual impresso de pré-teste. Este formulário, criado pelas autoras, continha perguntas relacionadas às informações do aplicativo, utilizando uma linguagem acessível e de fácil compreensão e apresentava 15 questões no formato de afirmações (Quadro 1). Os participantes assinalaram a resposta desejada com um “X”, escolhendo entre as opções (V) para Verdadeiro, (F) para Falso e (NS) para Não Sei.
Perguntas e respostas corretas do instrumento de coleta de dados, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024.
Na terceira etapa, da intervenção, apresentou-se aos participantes o aplicativo "Descomplicando a Amamentação", em um aparelho celular fornecido pela primeira autora. Eles também foram convidados a instalar o aplicativo em seus próprios dispositivos móveis, procurando pelo nome do aplicativo na Google Play ou usando o QR Code de acesso (Figura 1), permitindo assim seu uso pessoal após a alta hospitalar.
Menu principal e QR Code de acesso ao aplicativo “Descomplicando a Amamentação”. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024.
Na quarta etapa, durante o pós-teste, os participantes foram solicitados a responder a um novo formulário individual impresso, que continha as mesmas perguntas utilizadas na segunda etapa. Nesta fase, foi concedida a oportunidade para que os participantes escolhessem respostas diferentes daquelas selecionadas no pré-teste. A realização do pós-teste ocorreu no mesmo dia da intervenção ou no dia seguinte, variando de acordo com a disponibilidade e/ou escolha de cada familiar, com o objetivo de identificar os seus conhecimentos sobre os recém-nascidos prematuros, após a intervenção no preparo de alta.
Na quinta etapa, os participantes responderam a um novo roteiro de entrevista individual, composto por duas perguntas abertas: 1) De que forma este aplicativo contribuiu para o seu conhecimento em relação à amamentação do seu bebê durante esse preparo? e 2) Você considera que este aplicativo ajudou a tirar suas dúvidas sobre a amamentação? As entrevistas realizadas durante a primeira e quinta etapa foram gravadas em dispositivo celular e posteriormente transcritas na íntegra, compondo o corpus textual para a análise qualitativa. Os participantes assinaram o termo de autorização para utilização de som de voz para fins de pesquisa.
Todas as etapas ocorreram em salas reservadas, conforme a disponibilidade do setor durante a pesquisa, apenas na presença da primeira autora. Essa abordagem foi adotada para garantir o sigilo dos participantes e evitar a consulta a fontes externas e/ou ao aplicativo móvel durante o preenchimento dos formulários de pré e pós-teste, minimizando possíveis vieses. Tal estratégia permitiu uma análise mais precisa do uso desta tecnologia educacional na construção do conhecimento sobre aleitamento materno, possibilitando verificar alterações no número de respostas corretas antes e após a intervenção com o aplicativo.
Estimou-se um tempo médio total de 45 minutos para participação nas etapas 1, 2 e 3, e um tempo médio de 25 minutos nas etapas 4 e 5. Para promover a reflexão e a construção do conhecimento, os participantes receberam o tempo necessário para realizar tanto o pré-teste quanto o pós-teste, com a duração variando para cada pessoa. Esse tempo foi fundamental para uma análise crítica das informações já conhecidas e recém-apreendidas. O encerramento da coleta de dados foi determinado pela saturação teórica dos dados, momento em que as respostas na fase qualitativa tornaram-se recorrentes e a adição de novas informações não contribuiu, significativamente, para a compreensão do objeto de estudo11.
No entanto, ao término das entrevistas na etapa 5, mesmo após encerrar as gravações, quando necessário ou solicitado, algumas dúvidas foram esclarecidas a respeito das questões do pré-teste e pós-teste e houve troca de saberes entre o familiar e a entrevistadora (primeira autora). Essas trocas intensificavam-se, especialmente quando os participantes aceitavam realizar a correção do pré-teste e do pós-teste, permitindo que o próprio educando refletisse o que havia aprendido com a utilização da tecnologia, comparando suas vivências, realidades ou conhecimentos prévios com a literatura científica apresentada no aplicativo. No entanto, esses momentos de esclarecimentos e trocas de saberes não foram incluídos na análise, pois estavam além do escopo do estudo, que visava compreender o uso da tecnologia educacional na construção do conhecimento.
A etapa qualitativa foi fundamentada no referencial teórico freireano4. Portanto, para a análise das transcrições oriundas da etapa 1, processaram-se os dados textuais no software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ). A Estatística Textual Clássica foi empregada para uma análise inicial do corpus textual, revelando a relação entre a frequência e o número de unidades léxicas do texto. A Nuvem de Palavras organizou as palavras em formato de nuvem, destacando as mais frequentes de forma centralizada e em tamanho maior. No processamento, foi utilizada a lematização, que envolve a redução das palavras às suas formas básicas ou raízes e foram consideradas como formas ativas os substantivos, os verbos, os adjetivos e as formas não reconhecidas.
Para a análise da etapa 5, também de abordagem qualitativa, os dados foram submetidos à Análise Temática em suas etapas básicas12, sem o uso de um software de processamento de dados textuais. Assim, inicialmente, na pré-análise, o conteúdo transcrito foi submetido à leitura flutuante, que envolveu um contato intenso das pesquisadoras com o material para uma classificação primária, utilizando a marcação colorimétrica no editor de texto Microsoft Word. Na exploração do material, categorizou-se o conteúdo, segregando fragmentos textuais e frases com núcleos de sentido semelhantes em quatro cores distintas, que foram organizadas em um quadro analítico. Posteriormente, os diferentes núcleos de sentido foram reagrupados e resultaram na formação de três categorias temáticas para a etapa 5.
Ressalta-se que tanto os achados da etapa 1 quanto os da etapa 5 foram interpretados conforme a Análise Temática12, para a identificação e compreensão dos núcleos de sentido presentes nos segmentos de texto, com base no marco teórico do estudo, mediante o processo inferencial e interpretativo dos dados. Portanto, o referencial teórico utilizado guiou a interpretação dos dados em ambas as etapas, assegurando que a análise fosse alinhada com os princípios educativos e críticos propostos pelo autor4.
A caracterização dos participantes na etapa 1 e as etapas 2 e 4 foram analisadas quantitativamente por meio de estatística descritiva simples. Os dados coletados foram tabulados em planilha no Microsoft Excel e analisados com base na frequência absoluta e relativa. A estatística descritiva permitiu a análise do número de acertos nas questões do pré-teste e do pós-teste, bem como das variáveis de caracterização. Para calcular os percentuais, foram considerados os acertos entre o pré-teste e o pós-teste, com as respostas “não sei” sendo classificadas na categoria de erros.
A integração dos dados no estudo ocorreu por meio da conexão entre as abordagens quantitativa e qualitativa9, permitindo uma avaliação mais completa do conhecimento dos familiares antes e após a intervenção. Os dados quantitativos, obtidos por meio dos pré e pós-testes, avaliaram a mudança no conhecimento dos familiares sobre o aleitamento materno. Esses achados foram complementados pelos dados qualitativos, obtidos através das entrevistas, que aprofundaram a compreensão das experiências dos familiares no preparo de alta antes e após o uso do aplicativo. A combinação dos resultados permitiu correlacionar as mudanças no conhecimento com as vivências relatadas, proporcionando uma análise mais aprofundada do impacto da intervenção. No Quadro 2 apresenta-se a síntese do desenho metodológico bem como a forma de integração dos resultados do estudo.
Síntese do desenho metodológico por etapas, procedimentos e produtos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com as Resoluções 466/2012 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Os dados foram coletados após a assinatura do Termo de Consentimento Livre Esclarecido e do Termo de Autorização para Utilização de Som de Voz para Fins de Pesquisa. Foram garantidos o sigilo e o anonimato dos participantes, com o uso de um código alfanumérico.
RESULTADOS
Entre os 15 familiares de recém-nascidos prematuros (100,0%), 14 (93,3%) eram do sexo feminino. Quanto ao parentesco, 12 (80,0%) mães, um (6,7%) pai, uma (6,7%) avó e uma (6,7%) tia. Quanto à faixa etária, nove participantes (60,0%) tinham entre 18 e 30 anos, cinco (33,3%) estavam entre 31 e 40 anos e um (6,7%) apresentava mais de 41 anos. Em relação à profissão, três (20,0%) afirmaram ser "do lar", enquanto outras ocupações incluíram duas (13,3%) vendedoras, uma (6,7%) técnica de exame, um (6,7%) vigia noturno, um (6,7%) auxiliar de dentista, uma (6,7%) enfermeira, uma (6,7%) técnica administrativa, uma (6,7%) estudante, uma (6,7%) diarista, uma (6,7%) diarista e vendedora, um (6,7%) fisioterapeuta e personal trainer e um (6,7%) que não relatou profissão ou ocupação; oito (53,3%) trabalhavam. No que diz respeito ao nível de escolaridade, a maioria dos participantes tinha ensino médio (66,6%), enquanto três (20,0%) ensino fundamental e dois (13,3%) ensino superior.
Em relação ao setor de permanência, foram identificados 13 recém-nascidos prematuros na UI, enquanto dois estavam na UTIN. Predominantemente, eram recém-nascidos prematuros tardios e moderados, que estavam hospitalizados principalmente para permanecerem na incubadora devido à icterícia, ganho de peso, apneia ou em transição para o aleitamento diretamente ao seio materno, para os que estavam com alimentação por gavagem ou copinho com leite ordenhado da própria mãe ou fórmula.
Após o processamento das entrevistas iniciais pelo IRAMUTEQ, utilizando a Estatística Textual Clássica, o corpus textual foi constituído por 15 textos, totalizando 5.576 ocorrências de palavras, das quais 634 eram palavras distintas e 297 palavras apresentaram apenas uma ocorrência (hápax). Pelo método Nuvem de Palavras, foi possível identificar as palavras com maior frequência, representadas graficamente, com cada palavra tendo seu tamanho proporcional ao número de vezes que foi repetida. Dessa maneira, foram identificadas palavras com maior importância nas declarações dos familiares, destacadas por seu tamanho e posição central na nuvem (Figura 2).
Deste modo, os dez vocábulos mais recorrentes foram: "estar" (f=108), "ficar" (f=59), "só" (f=50), "peito" (f=45), "ajudar" (f=41), "mamar" (f=39), "dar" (f=38), "leite" (f=38), "pegar" (f=38), "gente" (f=34). Nessa perspectiva, foi possível identificar a recorrência do vocábulo "estar" 108 vezes, evidenciando como esse termo foi importante nas falas dos depoentes, ao descreverem em que momento e de que maneira acontecia o preparo para o aleitamento materno antes da intervenção.
O preparo tem acontecido quando eu vou dar o peito, que aí vocês começam a me ajudar, fica todo mundo observando e a minha filha fica franzindo a testa porque está todo mundo olhando (P5). Eu não estou amamentando de fato, mas eu estou ordenhando (P8).
Verificou-se que o preparo para a alta ocorria tanto no contexto direto do ato de amamentar o bebê no seio materno, quanto por meio da prática da ordenha, segundo os familiares. Porém, a construção do conhecimento sobre o aleitamento materno ocorria principalmente durante o momento da amamentação, de forma pontual, sem o uso de nenhum tipo de tecnologia educacional.
Ele tem a hora certa pra mamar, então quando está chegando esse momento as meninas (equipe de enfermagem) já ficam em volta, ajudam a pegar ele, ajudam a botar ele na posição correta (P10). O preparo tem acontecido quando eu vou dar o peito (P5).
Contudo, foi identificado um cenário oposto, no qual dois dos familiares relataram que não estavam sendo preparados em relação à amamentação durante a internação e que não houve conversa com nenhum profissional sobre o assunto. Ademais, P3 destacou que, mesmo antes da internação, não havia sido preparada para amamentar.
Ninguém nunca falou nada não. Aqui no hospital não aconteceu e nem em casa ninguém nunca falou e nem pesquisei sobre (P3).
A partir das palavras que aparecem na nuvem, como "ensinar", "mamar", "peito", "ajudar" e "pegar", pode-se inferir que o cuidado estava sendo ofertado à medida que os profissionais do setor ensinavam as mães a posicionar o bebê para a amamentação ou auxiliavam na criação de um ambiente tranquilo para a mamada. Contudo, nenhum familiar citou a utilização de tecnologias educacionais por parte da equipe de saúde para apoiar o preparo de alta no que tange o aleitamento materno.
Ensinaram que tem que botar ele de frente pra mim, posicionar meu peito (P9). Ajudam a botar ele na posição correta (P10). Quando vou amamentar sempre tem alguém perto, perguntando se estou conseguindo, se quero ajuda. Não é só na conversa, quando eu preciso, eles (equipe de enfermagem) pegam ele no berço e me dão, me ajudam ficar mais confortável, seguraram na mama pra ajudar ele abocanhar o peito melhor (P13).
O termo "ficar", que aparece na nuvem de palavras, é frequentemente mencionado pelos familiares, sugerindo conexões com o estado emocional e as incertezas e preocupações das mães em relação ao aleitamento materno.
Porque se ele não consegue mamar, eu fico nervosa e começo a chorar, aí tudo desanda. Eu fico receosa em amamentar sozinha sem ninguém por perto e não conseguir fazer ele mamar direito (P12). Fico com medo dela ir pro peito quando a médica liberar essa semana e a gente não conseguir, ela não pegar no peito, ficar com dificuldade de mamar e não ser o suficiente que ela precisa (P11).
Diante dos achados qualitativos na etapa 1, constatou-se ausência do uso de tecnologias educacionais no preparo de alta de familiares de recém-nascidos prematuros no que tange ao aleitamento materno. Nessa perspectiva, os dados quantitativos nas etapas 2 e 4, evidenciaram a mudança no conhecimento dos familiares após a intervenção (aplicativo móvel) utilizada na etapa 3. Desse modo, ao avaliar a quantidade de acertos no uso da tecnologia educacional “Descomplicando a Amamentação” na construção do conhecimento de familiares de recém-nascidos prematuros sobre o aleitamento materno durante o preparo de alta da unidade neonatal, observou-se que, após a utilização do aplicativo, o número total de respostas corretas, em um universo de 225 (100%) acertos possíveis, aumentou de 152 para 196, representando um aumento percentual de 28,9%.
Na comparação entre os acertos em cada questão sobre aleitamento materno antes e depois do uso da tecnologia educacional, constatou-se aumento no número de acertos na maioria delas (n=12; 80,0%). Em duas questões, o número de acertos permaneceu inalterado (n=2; 13,3%) e em uma houve redução (n=1; 6,7%) (Tabela 1).
Acertos dos familiares de recém-nascidos prematuros sobre o aleitamento materno nos testes pré-intervenção e pós-intervenção educativa (n=15), Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2024.
As cinco maiores variações nas respostas corretas no pós-teste foram sobre ‘aleitamento materno complementado (20,0% para 73,3%)’, ‘oferta do leite em copo, xícara ou colher quando não for possível amamentar diretamente no seio materno, evitando o uso de mamadeiras (53,3% para 100,0%’, ‘Semana Mundial do Aleitamento Materno (53,3% para 100,0%)’, ‘composição do leite final da mamada (33,3% para 73,3%)’ e ‘o leite materno não deve ser fervido ou aquecido (60,0% para 93,3%)’.
Observou-se que 40% das questões (questões 1, 4, 8, 9, 13 e 15) no pós-teste apresentaram um aumento percentual, chegando até 100% de acertos. Essas questões abordam aleitamento materno exclusivo, o papel do apoio familiar na amamentação, a promoção do bem-estar da mãe e do bebê, os benefícios da amamentação para a mãe, a oferta de leite materno em copo, xícara ou colher, e a Semana Mundial do Aleitamento Materno. Ressalta-se que apenas a questão 10, sobre a informação que é necessário amamentar o bebê de três em três horas porque o leite materno é fraco, com resposta correta ‘(F) Falso’, apresentou uma redução de 13,3% na quantidade de acertos.
Complementando os dados numéricos apresentados, a análise qualitativa das entrevistas finais ratificou que os familiares se sentiram mais preparados para a amamentação após o uso do aplicativo. Assim, os dados qualitativos adicionaram-se aos achados quantitativos, ao revelar que o aumento de acertos no pós-teste foi sustentado por mudanças na confiança dos familiares em relação ao aleitamento materno. Desse modo, a análise das respostas da entrevista final revelou três categorias analíticas que ajudam a entender a contribuição do aplicativo "Descomplicando a Amamentação" na construção do conhecimento dos familiares de recém-nascidos prematuros no preparo de alta, em relação ao aleitamento materno mediante seu uso pelos participantes.
Contribuição do aplicativo para os familiares de recém-nascidos prematuros
A utilização da tecnologia educacional "Descomplicando a Amamentação" pelos participantes da pesquisa mostrou que ela contribuiu positivamente para a construção do conhecimento de todos os familiares. A maioria dos participantes destacou que o aprendizado foi útil, especialmente porque as dúvidas podem surgir a qualquer momento, principalmente em casa, e o aplicativo oferece uma fonte de informações prontamente acessível, sem a necessidade de assistência profissional.
Um ponto importante observado foi o uso de recursos visuais e uma linguagem acessível, que facilitaram a compreensão e a apreensão das informações. Além disso, a conveniência de ter informações confiáveis prontamente disponíveis foi ressaltada pelos usuários como um benefício significativo desta ferramenta.
Contribuiu muito, eu não gosto de ficar atrapalhando as meninas, porque elas têm muita coisa para fazer, poder ficar pesquisando no meu celular para tirar minhas dúvidas é muito bom (P14). Eu gostei que tem as imagens, não é só texto e é fácil de entender, não são palavras difíceis, vem falando a nossa língua, então é bem mais fácil de absorver as orientações, porque vou ser sincera, às vezes o povo fala aqui umas palavras difíceis, que eu nem sei o que é, mas fico com vergonha de perguntar (P12).
Os participantes consideraram o aplicativo muito interessante e útil para as famílias, especialmente devido à forma interativa de aprendizado proporcionada pelo ‘quis’ (jogo de perguntas e respostas) do “Descomplicando a Amamentação”.
Contribuiu muito. Eu gostei muito daquele joguinho, porque a gente acha que já sabe tudo, que é óbvio e chega na hora não sabe nada (P10). Eu achei o aplicativo de vocês muito interessante, acho que vai ajudar muitas famílias. Até esse joguinho de respostas, é muito legal (P2).
Retirada de dúvidas de familiares de recém-nascidos prematuros com uso do aplicativo
A utilização do "Descomplicando a Amamentação" permitiu aos participantes esclarecer diversas dúvidas importantes. Entre os temas mais destacados, estavam a pega adequada do bebê durante a amamentação, o congelamento do leite materno, a desconstrução do mito de que o leite materno é fraco e a correção da crença de que consumir canjica e cerveja preta ajuda a aumentar a produção de leite.
Tirei a dúvida sobre o congelamento do leite (P1). Achei que com certeza me ajudou, principalmente a questão do leite fraco e a da pega que toda hora vocês ficam me alertando, mas quando a gente vê a foto é mais fácil. Questão também de cerveja preta, canjica, eu não sabia que era mito, porque lá no Ceará todo mundo faz essas coisas, então para mim isso ajudava também, é coisa da roça, mas funcionava (P5).
Aquisição do aplicativo pelos familiares de recém-nascidos prematuros
Os participantes expressaram interesse em baixar o aplicativo "Descomplicando a Amamentação" em seus dispositivos móveis para uso pessoal, além de demonstrarem vontade de apresentá-lo a outros membros da família. Entenderam-no como uma ferramenta útil para ajudar no aleitamento materno e compartilharam o desejo de disseminar as informações obtidas com o aplicativo para auxiliar outros familiares na jornada de amamentação. Uma mãe relatou ainda o desejo dele ser disponibilizado na loja de aplicativos App Store, para iOS e não apenas para Android®.
Quero apresentar para minha filha (P2). Eu quero ter ele no meu celular para sempre dar uma estudada, para fazer tudo certinho em casa (P12). Eu gostei bastante do aplicativo, agora tem que transformar ele em iOS também para poder divulgar mais (P8).
Em síntese, os resultados do estudo demonstram que a utilização da tecnologia educacional "Descomplicando a Amamentação" contribuiu significativamente para a construção do conhecimento de familiares de recém-nascidos prematuros sobre o aleitamento materno no preparo de alta da unidade neonatal. A integração dos achados quantitativos e qualitativos reforça essa conclusão, evidenciando tanto o crescimento no número de acertos nas questões relacionadas ao tema, quanto os relatos positivos dos participantes sobre a importância, clareza e utilidade do aplicativo.
DISCUSSÃO
Este estudo constatou que, durante o preparo de alta na unidade neonatal, as orientações voltadas para a construção do conhecimento sobre o aleitamento materno ocorreram predominantemente no exato momento da amamentação, sem o uso de tecnologias educacionais. No entanto, outra pesquisa destacou que a preparação dos familiares responsáveis para o cuidado domiciliar do recém-nascido não deve se limitar apenas ao período próximo à alta, como evidenciado neste estudo. Pelo contrário, a preparação deve ser gradual e abranger todo o período de internação do recém-nascido prematuro13. Além disso, o uso de tecnologias educacionais é recomendado por auxiliar no empoderamento dos familiares durante a permanência hospitalar, bem como no processo de transição do recém-nascido para o ambiente domiciliar.5
Investigação mostrou que, no contexto das atividades educativas voltadas para o preparo dos familiares de recém-nascidos prematuros na unidade neonatal, destacou-se a abordagem que envolve a explicação dos procedimentos aos pais, seguida pela execução - por eles - desses procedimentos, enquanto são observados e orientados pelo enfermeiro responsável, o que é compatível com os achados atuais, no que se refere ao ensino de ações práticas. O envolvimento da família no cuidado do recém-nascido prematuro não apenas visa promover o estabelecimento de vínculos, mas também tem o objetivo de reduzir o medo dos pais após a alta hospitalar14. De maneira similar, no presente estudo os familiares expressaram a importância da assistência profissional para posicionar o bebê corretamente e receber orientações sobre a técnica adequada de amamentação, evidenciando a relevância do suporte profissional para alcançar o êxito na amamentação.
Entretanto, também foram identificados casos em que o oposto ocorreu, com familiares relatando que não estavam recebendo preparação adequada em relação à amamentação de seus filhos durante o período de internação. Em concordância com essas descobertas, uma pesquisa realizada em um município brasileiro localizado em uma região de tríplice fronteira aborda que, mesmo dentro do ambiente hospitalar, nem todas as mães receberam orientações ou tiveram oportunidades para dialogar quando seus filhos estavam hospitalizados. Ademais, algumas mães não tiveram a chance de vivenciar o processo de cuidar de seus filhos prematuros antes da alta hospitalar15. A falta de comunicação da equipe com a família lança sobre os familiares do recém-nascido prematuro a responsabilidade para assimilar todas as informações que lhe são fornecidas para amamentar seu bebê de forma solitária, seja por meio de evidências científicas ou crenças culturais, podendo gerar inseguranças para cuidar do filho em casa14-15.
A partir dos achados na etapa qualitativa, supõe-se que o cuidado vem acontecendo à medida que os profissionais do setor ensinam a mãe a colocar o bebê no peito para mamar, com o foco do preparo centrado na mãe, no momento de cada mamada, quando ela aprende com o profissional de saúde a posicionar o bebê no peito. Todavia, apesar da equipe de enfermagem exercitar a comunicação com os familiares do prematuro durante as mamadas, percebe-se que o cuidado ainda é realizado de forma fragmentada, uma vez que a equipe atua e a família, muitas vezes, acaba sendo somente expectadora do cuidado com seu bebê, o que também corrobora com os achados da literatura16, e com as lacunas no conhecimento verificadas pelos resultados no pré-teste.
O termo "ficar" referiu-se à realização da prática de amamentar de forma independente, sem a assistência de um profissional para proporcionar segurança, bem como ao medo e ao nervosismo em relação à capacidade de amamentar suficientemente, uma vez que não estão habituadas a essa prática. Nesse contexto, o estado emocional das mães durante a hospitalização do prematuro é identificado em outro estudo como um fator que dificulta o aleitamento materno, destacando a experiência assustadora de ter um filho prematuro17, e que precisa ser considerado e trabalhado no preparo de alta.
A análise quantitativa e qualitativa entre o pré e o pós-teste demonstrou que a utilização do aplicativo "Descomplicando a Amamentação" pelos participantes teve uma contribuição significativa para a construção do conhecimento dos familiares de recém-nascidos prematuros sobre o aleitamento materno, evidenciada pelo aumento percentual considerável de acertos e pelos próprios depoimentos dos participantes após o uso. Nessa diretiva, os resultados encontrados neste estudo compartilham semelhanças com uma pesquisa peruana que avaliou o impacto de vídeos educativos na melhoria das habilidades práticas e do conhecimento de cuidadores informais de pacientes com Acidente Vascular Cerebral. Essa intervenção resultou em um aumento na pontuação das habilidades de 21,6 para 56,1 pontos e do conhecimento de 11,6 para 21,6 pontos18. Além disso, em consonância com os achados atuais, uma oficina educativa para avaliar o conhecimento de gestantes sobre o aleitamento materno alcançou aumento no número de acertos na maioria dos quesitos tanto no pós-teste imediato quanto no pós-teste tardio19.
Os resultados convergem com estudo realizado em Pernambuco, onde perguntas sobre a técnica de ordenha, conservação e administração do leite ordenhado obtiveram médias mais altas de acertos. Isso possibilitou avaliar a construção do conhecimento das mães, uma vez que apresentaram acréscimos estatisticamente significativos na média de pontos no pós-teste, em sete das quinze questões20. Os achados também estão em concordância com outra pesquisa brasileira que utilizou um vídeo educativo como intervenção para contribuir com a autopercepção dos sinais de trabalho de parto e de risco obstétrico, alcançando um percentual de 100% de acertos no pós-teste21.
O público-alvo de outro estudo avaliou positivamente um protótipo de aplicativo móvel sobre amamentação para profissionais de saúde, recebendo feedbacks predominantemente positivos, conforme a pesquisa atual, com a maioria das avaliações classificadas como ótimas ou boas22. Embora o estudo citado não se dirija diretamente ao público-alvo da presente pesquisa, que são os familiares, sua relevância persiste, pois fornece uma base sobre a aceitação e eficácia de tecnologias educacionais na mesma temática. Esse tipo de recurso visa, portanto, auxiliar no processo de ensino-aprendizagem individual, sendo considerado de grande importância para a prática profissional na assistência à amamentação, visando melhorar a qualidade da assistência baseada nas melhores evidências, conforme o propósito do aplicativo ora avaliado.
A presença de imagens e linguagem acessível nesta ferramenta educacional facilitou a compreensão das informações, oferecendo uma fonte segura de conhecimento. Corroborando essas constatações, uma investigação similar buscou criar e validar uma tecnologia educacional sobre amamentação em formato de cartilha. As ilustrações foram desenvolvidas para refletir a diversidade da população brasileira, representando diferentes etnias para que o público-alvo pudesse se identificar e se sentir representado23. As imagens interativas e atraentes desempenham um papel crucial na sensibilização, motivação, reafirmação e educação, traduzindo informações complexas de forma mais eficaz do que o texto isolado24.
O desenvolvimento e a validação de um jogo educacional surgem como uma alternativa eficaz para estimular o interesse e a curiosidade dos usuários em relação ao conteúdo, tornando-os participantes ativos e críticos na construção de seu próprio conhecimento25. Nesse contexto, o interesse manifestado pelos participantes no "quiz" do aplicativo "Descomplicando a Amamentação" evidencia sua eficácia como uma ferramenta de aprendizado e reforço de conhecimentos, o que se reflete nos dados quantitativos e é complementado pelas informações obtidas na etapa qualitativa. De acordo com os depoimentos dos familiares, eles conseguiram tirar suas dúvidas por meio da tecnologia, sem auxílio de um profissional e, por sua vez, expressaram o desejo de continuar utilizando-a após a alta em seu domicílio e compartilhá-la entre seus familiares.
Os resultados destacaram quatro temas principais em que esta tecnologia educacional o aplicativo permitiu esclarecer dúvidas: a pega adequada, o congelamento do leite materno, o mito da fraqueza do leite materno e o mito sobre a inclusão de canjica e cerveja preta na alimentação materna para aumentar a produção de leite. Essa descoberta está alinhada com outro estudo que enfatizou as dúvidas em relação à pega e à posição adequada, assim como à oferta de leite suplementar, relacionada à preocupação de ter leite suficiente26. Portanto, esclarecer dúvidas sobre mitos relacionados à fraqueza do leite materno e à inclusão de alimentos para aumentar a produção de leite é crucial, pois essas questões podem influenciar diretamente a introdução de fórmulas para complementar ou substituir o aleitamento materno, se não forem esclarecidas.
Estudo sobre a covid-19 destacou que o uso de aplicativos em dispositivos móveis é uma das principais estratégias nas ações de educação em saúde direcionadas aos pacientes e seus familiares27. Assim, a manifestação do interesse em baixar o “Descomplicando a Amamentação” para uso pessoal e compartilhá-lo com outros membros da família reforça a percepção positiva sobre a efetividade do aplicativo, evidenciada pela integração dos dados. A sugestão de disponibilização na App Store para iOS indica a necessidade de ampliar a sua acessibilidade entre os usuários, para auxiliar na educação em saúde e, consequentemente, contribuir para a construção do conhecimento de cada indivíduo.
A pesquisa foi realizada em uma única unidade neonatal no estado do Rio de Janeiro, limitando a generalização dos resultados. Recomendam-se novos estudos em outros contextos para identificar possíveis diferenças no preparo de alta de familiares de recém-nascidos prematuros e avaliar a aplicabilidade do aplicativo em diferentes cenários.
Espera-se que este estudo incentive o uso de tecnologias educacionais, como o aplicativo "Descomplicando a Amamentação," no preparo de alta de familiares de recém-nascidos prematuros. Ele apresenta grande potencial para melhorar a assistência de enfermeiros e equipes multiprofissionais, além de ajudar na construção do conhecimento das famílias sobre aleitamento materno, visando reduzir a morbimortalidade neonatal e promover o aleitamento materno continuado no domicílio após a alta hospitalar.
CONCLUSÃO
O estudo revelou que o preparo de alta na unidade neonatal sobre o aleitamento materno, antes da intervenção, era voltado principalmente para as mães durante cada mamada, com orientação dos profissionais sobre o posicionamento e a pega correta do bebê, de forma pontual. Contudo, não havia uma padronização nessa preparação na unidade neonatal, nem sempre envolvia todos os familiares e não eram utilizadas tecnologias educacionais.
A integração dos resultados quantitativos e qualitativos indicou que o aplicativo "Descomplicando a Amamentação" auxiliou positivamente na construção do conhecimento de familiares de recém-nascidos prematuros, fornecendo informações claras e recursos visuais úteis. O aumento nas taxas de acertos sobre aleitamento materno após a intervenção, juntamente com os depoimentos dos participantes, destacou sua importância no preparo de alta. Sugere-se, assim, envolver os membros da família no preparo de alta ao longo da internação, incluindo o uso de tecnologias educacionais no formato de aplicativos móveis no processo educativo em saúde.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da Dissertação - Preparo de alta de familiares de recém-nascidos prematuros acerca do aleitamento materno antes e depois da utilização de uma tecnologia educacional, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, em 2024.
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FINANCIAMENTO
Essa pesquisa recebeu apoio financeiro do Programa Emergencial de Consolidação Estratégica dos programas de Pós-Graduação Stricto-sensu Acadêmicos - CAPES 2022, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - Processo 302140/2023-9.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle/ Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, parecer n.º 5.735.022, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 63613822.2.0000.5258.




