RESUMO
Objetivo: analisar a estrutura da rede social de puérperas com transtorno por uso de substâncias.
Método: estudo qualitativo, fundamentado no referencial teórico de Rede Social de Sanicola, realizado com 21 puérperas que apresentavam resultado positivo no teste de rastreamento para maconha e/ou cocaína no primeiro semestre de 2023 em uma instituição de saúde no Sul do Brasil. Os dados foram coletados por entrevista semiestruturada e elaboração do mapa da rede social.
Resultados: puérperas usuárias de substâncias, como por exemplo: maconha e/ou cocaína, apresentaram redes sociais primárias de média amplitude e laços fortes predominantemente familiares, enquanto as redes secundárias foram de baixa amplitude e densidade, indicando fragilidade no apoio institucional. Apesar da presença de vínculos fortes com profissionais de saúde na atenção primária, com destaque à figura da Enfermeira, a busca por ajuda formal para cessar o uso de substâncias foi limitada, revelando a necessidade de intervenções direcionadas para fortalecer o suporte social e institucional.
Conclusão: a importância da rede social reside na criação de espaços de cuidado/apoio à mulher que transcenda o momento pontual do parto/nascimento e que a acompanhe no seu processo de vida ante as necessidades sociais e de saúde mental.
DESCRITORES:
Rede social; Puerpério; Transtornos por uso de substâncias; Enfermagem; Saúde mental
ABSTRACT
Objective: to analyze the social network structure of puerperal women with substance use disorder.
Method: this is a qualitative study based on Sanicola’s Social Network theoretical framework, conducted with 21 puerperal women who had a positive result in the screening test for marijuana and/or cocaine in the first half of 2023 in a health institution in southern Brazil. Data were collected through semi-structured interviews and by creation of a social network map.
Results: puerperal women who use substances, such as marijuana and/or cocaine, presented primary social networks of medium amplitude and strong predominantly family ties, while secondary networks were of low amplitude and density, indicating weak institutional support. Despite the presence of strong ties with health professionals in primary healthcare, especially in the form of the Nurse, the search for formal help to stop substance use was limited, revealing the need for targeted interventions to strengthen social and institutional support.
Conclusion: the importance of the social network lies in creating spaces of care/support for women that transcend the specific moment of labor/birth and that accompany them in their life process in facing social and mental health needs.
DESCRIPTORS:
Social network; Puerperium; Substance use disorders; Nursing; Mental health
RESUMEN
Objetivo: analizar la estructura de la red social de mujeres posparto con trastorno por consumo de sustancias.
Método: estudio cualitativo, basado en el marco teórico de la Red Social de Sanicola, realizado con 21 mujeres en posparto que presentaron resultado positivo en la prueba de detección de marihuana y/o cocaína en el primer semestre de 2023 en una institución de salud el sur de Brasil. Los datos se recolectaron mediante entrevistas semiestructuradas y la creación de un mapa de redes sociales.
Resultados: las mujeres posparto que consumieron sustancias, como marihuana y/o cocaína, mostraron redes sociales primarias de mediana amplitud y fuertes lazos predominantemente familiares, mientras que las redes secundarias tenían de baja amplitud y densidad, indicando fragilidad en el apoyo institucional. A pesar de la presencia de fuertes vínculos con profesionales de la salud en la atención primaria, con énfasis en el papel de las enfermeras, la búsqueda de ayuda formal para detener el consumo de sustancias fue limitada, revelando la necesidad de intervenciones específicas para fortalecer el apoyo social e institucional.
Conclusión: la importancia de la red social radica en la creación de espacios de cuidado/apoyo a las mujeres que trasciendan el momento específico del parto/nacimiento y que las acompañen en todo su proceso de vida frente a las necesidades sociales y de salud mental.
DESCRIPTORES:
Red social; Puerperio; Trastornos por consumo de sustancias; Enfermería; Salud mental
INTRODUÇÃO
Os Transtornos por Uso de Substâncias (TUS`s) são caracterizados por um conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos, os quais são responsáveis pelo padrão patológico e mal adaptativo do uso de uma determinada Substância Psicoativa1 Sabe-se que o uso dessas substâncias é considerado como um grave problema de saúde pública devido a inúmeras consequências, tal como o comprometimento cognitivo, que pode afetar diretamente as relações pessoais, além de causarem prejuízo comportamental e social2, de modo que tal problemática interliga todos os aspectos do desenvolvimento sustentável, revelando interação, transversalização da natureza e dinâmica do problema, no âmbito individual, comunitário e social3.
No que se refere à vida e saúde das mulheres, o puerpério é considerado um período de maior vulnerabilidade e intercorrências quando comparado a outras etapas do ciclo gravídico-puerperal4. Considera-se a gestação o período em que a mulher fica mais frágil e exposta, no momento em que acontecem não só mudanças físicas, mas também psíquicas, podendo, por vezes, comprometer a saúde do binômio5. Fazendo com que muitas dessas mulheres busquem como fuga alternativa da realidade o uso de substâncias ilícitas6, definida por aquela que não pode ser produzida, comercializada ou utilizada, havendo proibição prevista em lei para determinado território2.
A maternidade e o puerpério experimentados por mulheres com uso de substâncias tornam o processo ainda mais complexo, levando em consideração que o uso dessas substâncias em uma população singular, no que tange ao aspecto sociodemográfico e perfil gineco-obstétrico, ante os reflexos que se impõem sobre os cuidados de saúde da mãe e do recém-nascido7.
No ano de 2021, aproximadamente 275 milhões de pessoas usaram algum tipo de substância psicoativa no mundo, sendo que mais de 36 milhões apresentaram algum transtorno associado ao uso dessas substâncias, tornando-se preocupante esses números alarmantes que vêm aumentando a cada ano8.
No que tange ao período gravídico-puerperal, o aumento progressivo de uso de substâncias psicoativas por mulheres tem se configurado como um importante problema de saúde pública. De acordo com a United States Substance Abuse and Mental Health, maior fonte de informação do Reino Unido, no ano de 2018, 5,4% das mulheres relataram usar drogas ilícitas durante a gravidez, observando um aumento substancial quando comparado com a de 2010, com 4,4%9. Na Austrália, um estudo com uma amostra de 104 gestantes revelou que a substância mais consumida foi a cannabis (25%)10. No ano de 2020, estudo sobre a prevalência do uso de drogas ilícitas durante a gestação verificou que os estudos que utilizavam análises toxicológicas apresentaram 12,28%, ou seja, 7,4 vezes maiores comparados aos estudos que utilizaram outros instrumentos, com 1,64%. Sendo que as substâncias ilícitas mais relatadas nos estudos foram a maconha (42,85%), seguida da cocaína (14,29%)11. O que acarretou problemas na saúde dos recém-nascidos expostos a essas substâncias12.
Ressalta-se que o cuidado à saúde de mulheres que fazem uso de substâncias torna-se mais desafiador devido à lacuna de ações intersetoriais das políticas públicas e a restrita rede de apoio social. Tais mulheres possuem frágil rede de apoio emocional e financeiro, condições que não podem ser dissociadas dos marcadores sociais de diferença a citar gênero, raça e classe, marcadores esses inter-relacionados13. Diante desse cenário, é imprescindível que as mulheres com TUS`s no puerpério possuam uma rede de apoio durante essa fase tão delicada da vida de cada uma delas12. Por rede social, podemos conceituar como um conjunto de pessoas, organizações ou instituições sociais que se conectam por algum tipo de relação ou ser caracterizada como um conjunto de relações interpessoais e sociais que fazem parte dessa rede, proporcionando às pessoas que compõem a rede: receber ajuda, apoio emocional, material, de serviços e informações. A rede social também tem por função definir um conjunto de situações nas quais se evidenciam as relações afetivas, de amizade, de trabalho, econômicas e sociais13.
Essa rede pode se dividir em primária ou secundária. A rede primária é construída por laços de família, parentesco, amizade e vínculos focados na reciprocidade e confiança. Por sua vez, a rede secundária é constituída de instituições, sejam elas formais ou informais, públicas ou privadas, de saúde, educação, reclusão, organizações sem fins lucrativos, entre outras14. A estrutura da rede social compreende o conjunto de laços perceptíveis que se estabelecem entre as pessoas e as redes, fazendo com que esses laços, quando acionados, criem conexões que dão forma às redes. Assim, uma rede social bem estruturada em sua extensão e qualidade de relações pode exercer funções de apoio ou contenção em face das diversas demandas pessoais e sociais14.
A apreensão desse referencial por pesquisadores da área da saúde, principalmente da Enfermagem, permite acessar um relevante instrumento para a compreensão da eficiência de suas atitudes na rotina profissional, visando a um olhar mais amplo sobre a situação social e familiar vivenciada pelo indivíduo14.
Essa pesquisa justifica-se pela necessidade de conhecer a constituição das redes sociais das puérperas com TUS`s por meio da sua descrição e análise estrutural, visto que essas relações impactam na vida e saúde dessas mulheres e devem ser valorizadas no planejamento e promoção de ações de saúde. Para tecer novas reflexões e perspectivas de cuidado de Enfermagem, reconhecendo, assim, o papel da enfermeira enquanto membro dessa rede e facilitadora das ações de cuidado e educação frente às necessidades e às especificidades dessa população.
Diante do exposto, a questão norteadora da pesquisa foi: como são configuradas as redes sociais de mulheres no puerpério que fazem uso de substâncias psicoativas? Logo, objetivou-se analisar a estrutura da rede social de puérperas com transtorno por uso de substâncias.
MÉTODO
Estudo exploratório, descritivo, de abordagem qualitativa, fundamentado no referencial teórico-metodológico de rede social de Lia Sanicola14 e norteado pelas orientações do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research.
Pesquisa desenvolvida em uma Unidade de Internação Obstétrica de um Hospital de Ensino do Sul do Brasil. A escolha por realizar o estudo no referido hospital deu-se por possuir um protocolo institucional, desde janeiro de 2021, utilizando os testes rápidos que identificam o uso de cocaína e maconha por meio de uma amostra de urina em todas as gestantes e puérperas internadas, prestando assim um cuidado voltado às especificidades de suas demandas.
A população do estudo foi composta por puérperas que usam substâncias, puérperas internadas no hospital campo de estudo. Foram intencionalmente convidadas 21 puérperas que obtiveram resultados positivos em um ou em ambos os testes de rastreio; todas aceitaram participar da pesquisa.
Foram incluídas no primeiro momento do estudo mulheres no puerpério imediato com resultado positivo no teste de rastreamento para cocaína e/ou maconha assistidas na Unidade de Internação Obstétrica durante o período da coleta de dados do estudo e, no segundo momento, as mesmas participantes no puerpério tardio (no período entre o 10º e 45º dia após o parto). Foram usadas como critério de exclusão aquelas puérperas com resultado negativo no teste de rastreamento para cocaína e/ou maconha e aquelas que apresentaram um diagnóstico de depressão pós-parto. O estudo foi realizado em dois momentos, conforme descrito na coleta de dados. Não houve perda de participantes entre a primeira e a segunda etapa do estudo.
Os dados foram coletados após o aceite das participantes e da anuência do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual foi obtido por meio escrito. A coleta foi conduzida pela pesquisadora principal, enfermeira obstétrica atuante na Unidade de Internação Obstétrica e mestranda. As entrevistas semiestruturadas foram realizadas no primeiro semestre de 2023 durante a internação hospitalar e mediante testes positivos na detecção de substâncias psicoativas. Para o segundo momento, transcorrido um período entre o 10º e 45º dia após o parto, foi realizado por meio de contato telefônico com as puérperas, visando analisar a estrutura da rede social mediante necessidades de cuidado específicas da maternidade e puerpério. O roteiro da entrevista continha informações sobre a caracterização dos participantes, perguntas acerca da descrição da rede social e a seguinte questão norteadora: como são configuradas as redes sociais de mulheres no puerpério que fazem uso de substâncias psicoativas?
A elaboração do mapa da rede permitiu a visualização gráfica da sua dimensão estrutural, sendo utilizadas figuras geométricas para ilustrar os elementos da rede, em diferentes cores, e a representação dos tipos de vínculos estabelecidos como: normal, forte, frágil, conflituoso, rompido, interrompido, descontínuo ou ambivalente. Tais vínculos são simbolizados por traços com diferentes formas e espessuras, seguindo o referencial teórico-metodológico proposto14.
A identificação da rede social ocorreu em dois passos: inicialmente, elaborou-se uma lista de pessoas que poderiam servir de ajuda ou apoio ante a situação apresentada, que pode ser obtida através do cotidiano da pessoa, representando-as graficamente para facilitar a análise e intervenção nas relações. Em seguida, foram descritos os tipos de vínculos, conexões e forças entre os membros da rede, analisando os laços estabelecidos entre os diversos tipos de redes e cada pessoa presente; representando-os nos mapas por meio da Figura 1 14.
Mapa consolidado das redes sociais de 21 puérperas que usam maconha e/ou cocaína, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, 2024.
Assim, a construção dos mapas das redes sociais ocorreu durante a primeira etapa das entrevistas, em colaboração com as participantes. Para compreender as interações das puérperas com suas redes sociais primárias e secundárias, foram realizadas perguntas específicas que auxiliaram na elaboração do mapa. As questões abordaram as pessoas presentes ou relacionadas à vida das participantes (parentes, amigos, vizinhos, colegas, associações, instituições), o grau de proximidade ou distanciamento, os tipos de vínculos estabelecidos, as formas de relacionamento, os tipos de ajuda recebida (material, afetiva, informativa) e como essas interações se estruturam na rede social. Ao final, o mapa foi apresentado às participantes, proporcionando uma percepção dos elementos ativos em sua rede social e das diferentes formas de apoio disponíveis para atender às suas demandas de cuidado.
Os mapas foram inicialmente desenhados manualmente em folha de papel A4, utilizando lápis de cor, com base no modelo adaptado por Soares15. Posteriormente, todos os mapas das 21 participantes foram digitalizados pela pesquisadora principal no software Draw.io®, um editor de diagramas online e gratuito. A partir da análise e interpretação dos dados, foi construído um mapa consolidado, representando as redes sociais individuais de forma integrada.
As entrevistas foram conduzidas exclusivamente pela pesquisadora principal com as participantes, sem a presença de acompanhantes ou outros profissionais. Para viabilizar a realização das mesmas, os convites foram direcionados de forma intencional e as entrevistas ocorreram fora do horário de trabalho da pesquisadora principal, adaptando-se às oportunidades disponíveis. As entrevistas foram gravadas e transcritas pela pesquisadora principal, garantindo o anonimato das participantes, identificadas por números arábicos, assim como os demais membros citados no desenho do mapa de rede foram identificados conforme o grau de parentesco ou sua relação social com a entrevistada.
Para validar as questões do instrumento de coleta, foi efetuado um teste de sensibilidade do instrumento (entrevista semiestruturada) em que a pesquisadora aplicou a duas participantes não elegíveis do estudo, visando à adaptação e melhorias no instrumento, no qual não houve alterações16. Ao fim, totalizaram-se 21 puérperas entrevistadas que atenderam ao critério de saturação teórica dos dados17.
Os resultados foram interpretados à luz do referencial teórico metodológico de Rede Social de Sanicola, seguindo os indicadores para detalhamento da estrutura da rede. Em seguida, digitalizou-se cada desenho elaborado durante as entrevistas, permitindo-se identificar os tipos de vínculos estabelecidos entre o participante e os membros citados por ele. Além disso, possibilitou caracterizar a amplitude da rede de relacionamentos dos participantes, no período da coleta, sendo pequena (até 9 pessoas), média (de 10 a 30) ou grande (com mais de 30 membros). Na análise dos mapas, evidenciou-se a fonte do suporte fornecido pelos membros das redes14.
Posteriormente, a pesquisadora principal realizou uma descrição a respeito do mapa de rede social, explicando a amplitude, densidade, intensidade, proximidade física e frequência de cada uma para compreensão do significado de cada uma das falas expostas pelas puérperas ao responderem às questões durante a elaboração do mapa da rede social. Ainda, a pesquisadora principal realizou a transcrição das entrevistas e, posteriormente, fez uma leitura exaustiva e repetitiva de cada uma das falas, o que possibilitou identificar o membro da rede que assumiu o papel de operador de rede, que atua na solução de problemas. Contribuiu-se, assim, para estabelecer intervenções resolutivas e promover alternativas para apoio às puérperas14.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e foram consideradas as disposições presentes nas Resoluções n.º 466/2012 e n.º 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde.
RESULTADOS
A descrição sociodemográfica e obstétrica das participantes foi feita por meio das variáveis autodeclaradas: idade, raça/cor, escolaridade, renda da mulher (em salários mínimos), relação conjugal, número de filhos, consulta pré-natal, via de parto e amamentação.
Em relação ao uso das substâncias psicoativas, 12 testaram positivo para maconha, 4 para cocaína, 5 para maconha e cocaína e 17 referiram ser tabagistas e usar bebidas alcoólicas. Outro dado importante refere-se à amamentação, em que 13 puérperas continuam amamentando seus bebês após a alta e 8 puérperas não amamentaram, dessas, 3 porque relataram ter descoberto o HIV em gestações anteriores, e as outras 5 porque que relataram dificuldades com a amamentação, por exemplo, com o relato de ter pouco colostro. Das participantes, 18 puérperas referiram que continuam usando substâncias ilícitas e que não procuraram ajuda para parar, sendo que apenas 3 puérperas procuraram ajuda. No que tange aos encaminhamentos para outras redes pós-parto, 15 disseram que não foram encaminhadas conforme Tabela 1.
Na análise das redes primárias individuais, dos 21 mapas de rede social, foram configurados com amplitude média (11 a 24 membros). Em relação ao indicador de densidade das redes primárias, a mais frequente foi a média identificada em (16) redes. Na rede social secundária, foi considerada de pequena amplitude (até 6 membros), como também de baixa densidade devido a poucas interconexões entre as pessoas que fazem parte da rede. Foi possível verificar também uma fragilidade das puérperas em relação às suas redes secundárias.
Na rede primária, destaca-se a construção de vínculos de natureza forte com os familiares (mãe, pai, esposo, companheiro, filhos, irmãos e avós), além de parentes (sogros e tia/tio). Assim, na rede primária predominou o vínculo de normalidade com familiares (companheiro(a), mãe, filho(a), irmão/irmãs e avós), sendo que os vínculos de natureza forte foram motivados e estabelecidos por situações de maior convivência e/ou auxílio nas necessidades, além de maior proximidade física e afetiva. Portanto, a rede social de puérperas com TUS`s é constituída por familiares e parentes.
Dentre as instituições da rede secundária formal de saúde, a atenção primária de saúde foi referida em todas as 21 redes individuais, caracterizada predominantemente por laços de normalidade, principalmente destacando a profissional enfermeira. A vinculação foi caracterizada como um vínculo forte e, em algumas redes individuais, os vínculos foram representados como normal e frágil. Contudo, ressalta-se que, nessas redes, os serviços de casas de apoio também aparecem como vínculos fortes, normal e algumas redes como interrompido, tendo a profissional assistente social mencionada como principal vínculo forte de apoio relatado pelas puérperas.
Levando em consideração que houve diversidade de atores/setores e vínculos na representação das redes sociais de puérperas com TUS`s, a Figura 1 apresenta o mapa consolidado das redes sociais das 21 puérperas, momento em que foram consideradas todas as relações sociais apresentadas nos mapas individuais dos participantes, incluindo todos os membros citados nas redes primárias, assim como todas as instituições compostas pela rede secundária.
DISCUSSÃO
Ao analisar os indicadores da amplitude e densidade das redes primárias das puérperas com TUS`s, revela-se que nessas redes os laços estabelecidos entre os membros não indicam intensidade nas relações, mas são referidos como laços de convivência familiar e social como principal apoio na vida dessas puérperas durante todo o momento do período puerperal no decorrer da internação e perpetuando até após a alta hospitalar.
A dinâmica das relações familiares é o principal marco da estrutura das redes das puérperas com TUS`s, por ser na família que se constrói a primeira experiência de relações profundas, sendo considerado o primeiro e mais importante laço das redes. A família constitui o nó central das redes primárias, já que é nessa rede que aprendemos a viver em relação, sendo reconhecida como o primeiro capital humano e social da pessoa14.
Destaca-se na pesquisa a presença de fortes laços de amizade na rede primária das puérperas com TUS`s. As relações de amizade são constituídas por critérios baseados na proximidade afetiva e, quando acionadas, são importantes fontes de ajuda para atender às necessidades e prover cuidados em prol da saúde dessas puérperas. Estudos mostram que os amigos, familiares e principalmente o companheiro são de extrema importância no suporte social, sendo considerado um forte impacto a ajuda deles durante as instabilidades emocionais e a adaptação dessa puérpera no seu novo papel social, dividindo os cuidados e tarefas com o recém-nascido e reafirmando os vínculos afetivos e emocionais18.
Corroborando os achados da pesquisa, outro estudo concebe a família como rede primária de interação social e provedora de suporte e apoio, sendo indispensável a manutenção da integridade física e psicológica de cada indivíduo19-20 Nesse contexto, é fundamental estabelecer uma rede de apoio para essas puérperas, tendo em vista que necessitam de auxílio de pessoas e instituições para os cuidados com o recém-nascido, mas também em situações e necessidades do seu cotidiano, como acompanhamento durante as consultas, escuta qualificada e divisão nas tarefas domésticas, elementos essenciais nesse momento tão delicado na vida de cada uma delas21.
Dessa forma, as redes sociais constituem significativo recurso no cuidado à saúde, podendo ser caracterizadas como um conjunto de relações interpessoais entre familiares, amigos e instituições. Assim, o indivíduo mantém sua identidade social, recebe apoio, além de ter a possibilidade de desenvolver outras relações sociais14.
Redes primárias são capazes de ocasionar movimentos sutis, resultantes das relações entre seus integrantes, conforme necessidades diárias. Algumas situações positivas ou negativas, conceituadas de eventos críticos, podem impactar a rede, tendo como consequências modificações nas relações, fortalecendo ou fragilizando os laços estabelecidos14. Puérperas que usam substâncias psicoativas sem um acompanhamento gestacional e pré-natal qualificado podem ter marcado como o evento crítico negativo de sua rede social, pois esse evento, por vezes, pode gerar distanciamento nas relações, desfechos e resultados desfavoráveis perinatais, comprometendo a saúde do binômio22-23.
No que se refere às relações estabelecidas com os membros da rede secundária, embora as participantes tenham mencionado a presença da enfermeira e da assistente social, foram identificados vínculos frágeis com os profissionais de saúde. Essa fragilidade pode interferir na adesão às consultas pós-parto e no acolhimento das mulheres que muitas vezes iniciam o consumo de substâncias psicoativas antes ou durante a gestação24.
Neste sentido, a fase gestacional representa o período mais adequado para abordar o consumo de maconha e cocaína, visto que diversas mulheres grávidas interrompem o uso, temerosas em relação à saúde do recém-nascido. Os exames rápidos são fundamentais para a detecção de substâncias durante o pré-natal, possibilitando um atendimento apropriado às gestantes e aprimorando os resultados perinatais25.
Observa-se que a minoria das puérperas entrevistadas expressou desejo de parar com o uso de substâncias psicoativas, enquanto a maioria relatou sobre redes de apoio fragilizadas e dificuldades financeiras para acessar instituições de auxílio, resultando em que apenas algumas delas conseguiram procurar assistência ou suporte. Destaca-se a importância do fortalecimento das redes de apoio no estabelecimento de estratégias de redução e/ou abstinência das substâncias, especialmente no período da gestação e puerpério, considerando-se a singularidade e o período de vida vivenciado25.
Investigação realizada com puérperas apontou que, durante o período gravídico puerperal, a maconha, cocaína e crack se destacaram entre essas puérperas e que elas tiveram dificuldades em manter-se em abstinência, o que, provavelmente, continuaria a ocorrer durante a lactação. Ainda, revelou que aquelas que amamentaram seus filhos continuaram em Aleitamento Materno Exclusivo (AME)26. Tal achado corrobora com esta pesquisa, na qual a grande maioria das puérperas seguiu amamentando seus filhos e não cessou ou diminuiu o uso de substâncias psicoativas.
A Sociedade Americana de Pediatria defende a contraindicação do AME em puérperas que fazem uso de substâncias psicoativas, o tempo de suspensão pode variar de acordo com a substância consumida. Já a Organização Mundial da Saúde não contraindica o AME nessas mulheres, mas recomenda o não uso dessas substâncias27. No Brasil, há dificuldades em encontrar publicações oficiais sobre a suspensão da amamentação ao usar substâncias psicoativas. Conforme as diretrizes do Ministério da Saúde recomenda-se que nutrizes não usem tais substâncias. Se isso não for viável, elas devem suspender a amamentação, ordenhar e descartar o leite por 24 a 36 horas após o uso28.
É essencial que os profissionais de saúde estejam prontos para atender essas puérperas. A transição de cuidados no Brasil ainda está em construção, enquanto Canadá, Portugal e Espanha já avançaram em estudos e estratégias para a atuação da enfermeira nessa área por meio de pesquisas multicêntricas29. Os achados deste estudo indicam que, ao fortalecer/qualificar a transição do cuidado desta puérpera com a especificidade de uma abordagem psicossocial, permitiria promover melhores desfechos perinatais. Esse contexto proporciona melhora para a saúde das mulheres que convivem com as questões do uso de substâncias anteriores à gestação, afetando sua saúde mental e gerando necessidades sociais específicas30.
O referencial da Rede Social de Sanicola permite refletir sobre a importância de um profissional - operador da rede - que atue na articulação, conexão e acompanhamento dessa população entre a rede primária e secundária. Denota-se assim que a enfermeira tem potencial para atuar nesta transição do cuidado e articulação junto aos pontos da rede, uma vez que compõe a rede secundária destas mulheres no nível primário e terciário do setor saúde.
Encontrou-se dificuldade de acessar as mulheres no segundo momento da entrevista por telefone ou redes sociais devido às particularidades do período puerperal e pela modalidade da entrevista via contato telefônico e aplicativo móvel. Apesar das limitações, elas não acarretaram perda das participantes na segunda etapa.
Os resultados da pesquisa, ao empregar o referencial de Sanicola e ao mapear a estrutura da rede de mulheres com TUS’s, revelam-se como uma ferramenta robusta e capaz de contribuir para ampliar a visão e sensibilizar os profissionais de saúde no cuidado à saúde dessa população.
Particularmente às enfermeiras, podem ser um instrumento importante para compreender a relação, o apoio e suporte que essas mulheres têm em suas redes primárias, de modo que os operadores de rede assumam seus papéis, aprimorando os cuidados em saúde. Isso contribuiu para fortalecer as redes e o sistema de saúde primário, nas questões relacionadas à população do estudo.
Além disso, os achados do estudo têm potencial para ampliar a abordagem desta especificidade populacional no ensino, assistência e entre os gestores das áreas para se pensar em novas intervenções e construções de protocolos internos norteados pelas diretrizes do Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde para promoção de um cuidado humanizado, baseado em evidências que possam suprir as necessidades reais dessa população.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A construção dos mapas possibilitou conhecer a rede social das puérperas com TUS’s através dos laços e vínculos formados pelos membros da rede primária e secundária. Estruturalmente, as redes primárias dessas puérperas são constituídas por vínculos variados, determinados pela convivência afetiva e social, tendo a família como o nó central. A rede secundária apresentou variada composição, com laços mais fortalecidos com a Atenção Primária à Saúde, algumas instituições especializadas e outros estabelecimentos de saúde, tendo o papel da enfermeira e da assistente social como essenciais durante o acompanhamento e o tratamento dessas puérperas.
Faz-se relevante reconhecer a importância da rede social secundária na criação de espaços de cuidado/apoio à mulher que transcendam o momento pontual da institucionalização para o nascimento. Para, além disso, que acompanhe no seu processo de vida frente às necessidades sociais e de saúde deste segmento que possui importantes especificidades interfaceadas no campo da saúde das mulheres e da saúde mental.
A utilização deste referencial teórico-metodológico constituiu uma ferramenta de fácil aplicação que deve ser incorporada como uma tecnologia para a garantia do desenvolvimento sustentável e o cuidado interprofissional voltado para as pessoas que fazem uso de substâncias psicoativas. Essa potente ferramenta tem o potencial de orientar os profissionais no planejamento de intervenções e na coordenação de esforços que abrangem os domínios da saúde, aspectos sociais e demandas específicas. Isso possibilita a compreensão aprofundada das dinâmicas das redes primárias e secundárias, bem como o cuidado com a saúde dessa população.
Desempenhando um papel crucial nesse cenário, incentivando, por meio de gestores, a formulação de normativas e portarias que direcionem investimentos adicionais para a melhoria dos sistemas de Saúde Primária. Isso inclui iniciativas como a promoção do aleitamento materno e a prevenção e redução de danos relacionados ao uso de substâncias psicoativas.
Sugere-se a utilização deste referencial para realizar novas pesquisas no âmbito da saúde, principalmente no que está relacionado à saúde das mulheres, e também na utilização durante a prática clínica, favorecendo a busca de melhores resultados e desfechos para a continuidade do cuidado em saúde.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis mediante solicitação à autora correspondente, Valéria Lindner Silva (e-mail: val.lindner@hotmail.com). O conjunto de dados não é de acesso público por conter informações sensíveis que podem comprometer a privacidade e o anonimato dos participantes. A pesquisa envolveu pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo usuários de substâncias psicoativas e indivíduos sob medidas judiciais, o que exige cuidados adicionais de confidencialidade conforme as diretrizes éticas em pesquisa com seres humanos. O compartilhamento, quando solicitado, será avaliado conforme critérios éticos e mediante assinatura de termo de confidencialidade, se necessário.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da dissertação - A rede social de puérperas que fazem uso de substâncias ilícitas: contribuições para o cuidado em saúde, apresentada ao Programa de Pós-Graduação Enfermagem da Escola de Enfermagem e de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2023.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre/RS, parecer n. 65461722.5.0000.5327. Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 5.846.038.


