RESUMO
Objetivo: analisar a contribuição de intervenção educativa na literacia em saúde e no conhecimento da doença coronariana em adultos no pós-operatório tardio de cirurgia cardíaca; compreender os fatores que afetam a mudança de comportamento baseado num modelo teórico.
Método: estudo de métodos mistos com intervenção educativa baseada no modelo de crenças em saúde, realizado com 25 pessoas submetidas à cirurgia cardíaca residentes do Oeste-Paranaense, Brasil. Os dados foram coletados de junho de 2021 a outubro de 2022. Na etapa quantitativa, utilizou-se um questionário sociodemográfico-clínico e os instrumentos Coronary Artery Disease Education Questionnaire Short-Version e Eight-item Health Literacy Assessment Tool, analisados mediante estatística descritiva e inferencial. Na qualitativa, realizou-se entrevista semiestruturada, investigada por análise de conteúdo. Para a integração dos dados, optou-se por abordagem de exibição conjunta baseada no modelo de crenças.
Resultados: a intervenção possibilitou aumento da literacia em saúde (p=0,035) e conhecimento sobre a doença (p= 0,007). A análise qualitativa gerou as categorias: antes da intervenção: “Susceptibilidade”, “Severidade” e “Gravidade percebida”; após a intervenção: “Benefícios percebidos” e “Barreiras encontradas na reabilitação”. A integração dos dados permitiu identificar percepções antes e após a intervenção, fatores modificadores, benefícios e barreiras encontradas.
Conclusão: Houve aumento do conhecimento sobre a doença e da literacia em saúde mediante desenvolvimento das habilidades para autogestão. O uso de ferramentas para avaliar o conhecimento da doença e literacia em saúde propiciou o planejamento de ações educativas para suprir lacunas existentes.
DESCRITORES:
Doenças cardiovasculares; Educação em saúde; Cirurgia cardíaca; Gerenciamento clínico; Literacia em saúde; Modelo de crenças em saúde; Saúde do adulto
ABSTRACT
Objective: to analyze the contribution of educational intervention to health literacy and knowledge of coronary artery disease in adults in the late postoperative period of cardiac surgery; and to understand the factors which affect behavior change based on a theoretical model.
Methods: this is a mixed-methods study with educational intervention based on the health belief model, conducted with 25 people undergoing cardiac surgery living in Western Paraná, Brazil. Data were collected from June 2021 to October 2022. A sociodemographic-clinical questionnaire and the Coronary Artery Disease Education Questionnaire Short-Version and Eight-item Health Literacy Assessment Tool instruments were used in the quantitative stage, analyzed using descriptive and inferential statistics. Then, a semi-structured interview was conducted in the qualitative stage, investigated by content analysis. A joint display approach based on the belief model was chosen for data integration.
Results: the intervention enabled an increase in health literacy (p=0.035) and knowledge about the disease (p=0.007). The qualitative analysis generated the following categories: before the intervention: “Susceptibility”, “Severity” and “Perceived severity”; after the intervention: “Perceived benefits” and “Barriers encountered in rehabilitation”. Data integration enabled identifying perceptions before and after the intervention, modifying factors, benefits and barriers encountered.
Conclusion: there was an increase in knowledge about the disease and health literacy through developing self-management skills. The use of tools to assess knowledge about the disease and health literacy enabled planning educational actions to fill existing gaps.
DESCRIPTORS:
Cardiovascular diseases; Health education; Cardiac surgery; Clinical management; Health literacy; Health belief model; Adult health
RESUMEN
Objetivo: analizar la contribución de la intervención educativa a la alfabetización en salud y al conocimiento de la enfermedad coronaria en adultos en el postoperatorio tardío de cirugía cardíaca; Comprender los factores que afectan el cambio de comportamiento basándose en un modelo teórico.
Método: estudio de métodos mixtos con intervención educativa basada en el modelo de creencias de salud, realizado con 25 personas sometidas a cirugía cardíaca residentes en el Oeste de Paraná, Brasil. Los datos fueron recolectados de junio de 2021 a octubre de 2022. En la etapa cuantitativa se utilizó un cuestionario sociodemográfico-clínico y los instrumentos Coronary Artery Disease Education Questionnaire Short-Version y Eight-item Health Literacy Assessment Tool, analizados mediante estadística descriptiva e inferencial. En el aspecto cualitativo se realizó una entrevista semiestructurada, investigada mediante análisis de contenido. Para la integración de datos, se eligió un enfoque de visualización conjunta basado en el modelo de creencias.
Resultados: la intervención permitió un aumento de la alfabetización en salud (p=0,035) y del conocimiento sobre la enfermedad (p=0,007). El análisis cualitativo generó las categorías: antes de la intervención: “Susceptibilidad”, “Severidad” y “Severidad percibida”; Después de la intervención: “Beneficios percibidos” y “Barreras encontradas en la rehabilitación”. La integración de datos nos permitió identificar percepciones antes y después de la intervención, factores modificadores, beneficios y barreras encontradas.
Conclusión: hubo un aumento del conocimiento sobre la enfermedad y la alfabetización en salud a través del desarrollo de habilidades de autogestión. El uso de herramientas para evaluar el conocimiento de la enfermedad y la alfabetización en salud permitió planificar acciones educativas para llenar las brechas existentes.
DESCRIPTORES:
Enfermedades cardiovasculares; Educación para la salud; Cirugía cardíaca; Gestión clínica; Alfabetización en salud; Modelo de creencias de salud; Salud del adulto
INTRODUÇÃO
No Brasil, entre 1990 e 2019, a Doença Isquêmica Cardíaca (DIC) foi a primeira causa de morte, aumentando de 1,48 milhões, em 1990, para 4 milhões, em 20191. Um dos tratamentos mais eficazes para a DIC é a cirurgia de revascularização do miocárdio (CRVM). Durante o período pré-pandêmico, em 2019, no Brasil, foram realizadas 20.674 cirurgias de CRVM2.
A CRVM é um procedimento complexo que requer cuidados intensivos para garantir uma boa recuperação3. Então, para evitar complicações decorrentes do procedimento cirúrgico, torna-se necessário que as pessoas tenham uma gestão adequada dos fatores de risco modificáveis relacionados ao estilo de vida4.
Gerir os cuidados requer ações como o gerenciamento de caso conduzido por enfermeiro, com vistas ao planejamento, monitoramento e avaliação de suas necessidades de saúde, e rede de suporte social, objetivando promover o empoderamento individual e familiar no processo de reabilitação. Pode ser utilizado como uma ferramenta que colabora com o cuidado em diversas situações complexas de doença5, como na recuperação de pessoas submetidas à CRVM. No entanto, a sua utilização em pós-operatório de cirurgias complexas ainda carece de mais evidências.
Um dos fatores que colabora para a autonomia dos cuidados é a literacia em saúde ou letramento em saúde (LS) - neste estudo, utilizamos o termo literacia em saúde, conforme a tradução e validação do instrumento aplicado. Entendido como habilidades e competências, circunscritas a diferentes níveis e domínios, utilizadas pelas pessoas para acessar, compreender, avaliar e dar sentido a informações sobre saúde, com objetivo de cuidar da própria saúde ou de terceiros6. A LS inadequada é reconhecida como uma barreira para a manutenção da saúde e prevenção da doença arterial coronariana (DAC); está associado à ausência de comportamentos de autocuidado para o manejo da doença7, pois são construídos ao longo da vida e podem impactar no processo de reabilitação.
A concepção de saúde e os comportamentos relacionados a ela são construídos a partir da experiência pessoal e estão entrelaçados às crenças, valores e sentimentos que podem influenciar na adesão ou não ao tratamento e à mudança do estilo de vida8. Portanto, acredita-se que o Modelo de Crenças em Saúde (MCS) pode auxiliar na identificação de fatores que influenciam o comportamento e a reabilitação.
O MCS é um dos primeiros modelos desenhados para explicar como mudar comportamentos de saúde e os processos psicológicos envolvidos em tais mudanças; é baseado na teoria da expectativa de valor e fornece informações sobre a motivação para comportamentos saudáveis9. Portanto, MCS avalia a percepção e a crença das pessoas com relação às estratégias para reduzir a doença e sua ocorrência. Os benefícios percebidos, barreiras percebidas, suscetibilidade percebida, gravidade percebida e autoeficácia são os principais constructos do MCS10.
O MCS vem sendo utilizado para lidar com desafios de diversos comportamentos de saúde, em diferentes contextos9,11-12. Entretanto, não identificamos a utilização de tal modelo teórico no desenvolvimento de ações de educação em saúde para prevenir e controlar fatores complicadores do processo de reabilitação em CRVM. Considerando a complexidade desses fatores, empregou-se um design de pesquisa de métodos mistos complexos, com a realização de uma pesquisa qualitativa em conjunto à aplicação da intervenção. Isso permite compreender questões de pesquisa complexa de métodos mistos, que engloba a experiência dos participantes sobre determinados aspectos da intervenção proposta, sem inferir subjetivamente sobre os efeitos da intervenção nas variáveis analisadas12-13.
Diante do exposto, este estudo teve como objetivos analisar a contribuição de uma intervenção educativa na literacia em saúde e no conhecimento da doença coronariana em adultos submetidos ao pós-operatório tardio de CRVM e compreender os fatores que afetam a mudança de comportamento com base no MCS.
MÉTODO
Estudo de método misto experimental com intervenção educativa de grupo único, fundamentado no Modelo de Crenças em Saúde, que articula abordagem quantitativa e qualitativa de forma concomitante (QUAN+QUAL)13-14. Em estudos de intervenção ou experimental, com métodos mistos, cabe ao pesquisador definir estrategicamente o momento da coleta qualitativa, que pode ocorrer antes, durante ou após a intervenção, conforme os objetivos exploratórios da pesquisa. A estratégia permite aprofundar a compreensão dos achados quantitativos e conferir maior validade ecológica à intervenção¹⁴.
A coleta de dados qualitativos antes e depois da intervenção foi necessária para conhecer e acompanhar as necessidades dos participantes, bem como identificar possíveis barreiras relacionadas à intervenção proposta, sem interferir na avaliação dos resultados sobre a literacia em saúde e conhecimento sobre a doença14. Foram contemplados os critérios estabelecidos pelo Consolidated Criteria for reporting qualitative research15 (COREQ), Consolidated Standards of Reporting Trials16 (CONSORT) e Mixed Methods Appraisal Toll17 (MMAT), traduzido para o português do Brasil.
O estudo foi conduzido no domicílio dos participantes residentes em um município situado na região Oeste-Paranaense, Brasil, entre junho de 2021 e outubro de 2022. O cálculo amostral foi realizado com base em dados populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)18 referente ao ano de 2019 da cidade de desenvolvimento da pesquisa, e na incidência de CRVM2, considerando o nível de confiança de 95 % e o erro amostral de 10 %. A amostra qualitativa foi composta pelos mesmos participantes da etapa quantitativa.
Os critérios de inclusão foram: ter sido acometido por IAM e submetido à CRVM; idade ≥18 anos; atingir a pontuação mínima no Mini-mental (sendo 13 pontos para não alfabetizados, e 18 baixa e média escolaridade) e residir no município de desenvolvimento da pesquisa. Os critérios de exclusão foram: apresentar comorbidades e/ou complicações que impossibilitassem a comunicação. Foram selecionados 43 participantes, 18 foram excluídos por mudança de município após a alta hospitalar; os 25 restantes compuseram a amostra efetiva. Durante a intervenção, dois participantes foram a óbito e dois desistiram da pesquisa, resultando na amostragem final de 21 participantes.
O protocolo do estudo foi conduzido conforme as seguintes etapas:
1) Seleção dos participantes: realizada em dois hospitais de referência em cardiologia. Foram convidados todos os pacientes internados que atendiam aos critérios de inclusão, independentemente do tipo de convênio. Após a alta, aguardou-se três dias para a primeira visita domiciliar, onde foram avaliadas as condições clínicas e confirmada a elegibilidade. Os participantes que aceitaram integrar o estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
2) Avaliação inicial: realizada no domicílio do paciente, com coleta de dados sociodemográficos e clínicos, aplicação dos instrumentos Coronary Artery Disease Education Questionnaire - Short Version (CADE-Q SV)19 e Health Literacy Assessment Tool (HLAT-8)20, além de entrevista semiestruturada baseada no MCS21. O CADE-Q SV, validado para o português do Brasil, é composto por 20 itens distribuídos em cinco domínios (condição médica, fatores de risco, exercício físico, nutrição e risco psicossocial), com pontuação total de 0 a 20 pontos. Para mensurar o nível de LS, adotou-se a HLAT-8, que é formado por oito questões tipo Likert, com pontuação total de 0 a 37, sendo considerado satisfatório o escore ≥19 pontos.
A coleta de dados qualitativos foi conduzida por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas individualmente, em ambiente reservado, conforme escolha do participante. Os roteiros foram construídos com base no referencial teórico do MCS21, considerando os domínios de percepção de suscetibilidade, gravidade, benefícios, barreiras e autoeficácia.
O primeiro roteiro, composto por 17 questões, foi aplicado no momento pré-intervenção (T0), com a finalidade de explorar a percepção dos participantes sobre sua condição cardíaca, bem como identificar crenças relacionadas à vulnerabilidade à doença e à gravidade percebida. O segundo roteiro, com sete questões, foi aplicado ao final da intervenção (Tfinal), objetivando compreender os benefícios percebidos da cirurgia e as barreiras enfrentadas durante o processo de reabilitação, incluindo aspectos emocionais, sociais e estruturais.
As entrevistas foram gravadas em áudio, mediante consentimento livre e esclarecido, e tiveram duração média de 60 minutos. A abordagem permitiu o levantamento de informações fundamentais para a elaboração de planos de cuidado individualizados, com base nas necessidades expressadas pelos próprios participantes, além de subsidiar a análise integrada dos dados quantitativos e qualitativos. O processo de coleta e análise qualitativa foi conduzido de acordo com os critérios do COREQ15, assegurando rigor metodológico, transparência e validade científica.
3) Intervenção Educativa: com duração de cinco meses, dividida em três etapas: consulta de enfermagem, pactuação de metas de cuidados e acompanhamento domiciliar e remoto. A consulta de enfermagem incluiu exame físico (pressão arterial, oximetria de pulso e frequência cardíaca, circunferência abdominal, índice de massa corporal (IMC), ausculta pulmonar e avaliação da ferida operatória), conforme as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia22 e da Resolução 358/2099, do Conselho Federal de Enfermagem23. A etapa teve duração média de 90 minutos. Os participantes receberam orientações sobre a doença, o tratamento e as complicações.
O acompanhamento ocorreu a cada 30 dias com visitas domiciliares, complementadas por contatos quinzenais, via aplicativo móvel (WhatsApp), para reforço educativo, esclarecimento de dúvidas e monitoramento da evolução clínica. As condutas e variáveis de interesse foram registradas em instrumento próprio da pesquisa (sinais vitais, antropometria, diagnóstico de enfermagem, condutas e metas pactuadas). As informações eram registradas para posterior avaliação dos dados e programação das próximas atividades a serem desenvolvidas.
4) Avaliação final: ao término dos cincos meses foi realizada nova visita domiciliar, com reaplicação dos instrumentos CADE-Q SV e HLAT-8 e nova entrevista semiestruturada (Tfinal), visando avaliar a efetividade da intervenção. Os participantes foram orientados sobre o encerramento da pesquisa e encaminhados para continuidade do cuidado junto à rede de saúde e ao ambulatório de cardiologia do município.
As variáveis numéricas foram analisadas por medidas de tendência central - média e desvio padrão (DP) -, e as variáveis nominais com frequência simples (n) e relativa ( %). A comparação das categorias sociodemográficas com os instrumentos CADE-Q SV e HLAT-8 foi realizada mediante o teste T de Student ou Anova, sendo considerados significativos quando p<0,05.
As diferenças entre T0 e Tfinal no escore do CADE-Q SV foram analisadas por meio do teste de Wilcoxon. O escore do HLAT-8 utilizou o teste t pareado para verificar as diferenças entre T0 e Tfinal. Para análise da relação entre os domínios do HLAT-8 e as áreas do CADE-Q SV, utilizou-se a correlação de Spearmann e, para análise paramétrica linear, a correlação de Pearson. O teste qui-quadrado e o teste de McNemar foram utilizados para a analisar as variáveis qualitativas.
A análise de conteúdo proposta por Creswell e Creswell13 foi empregada para a fase qualitativa. As falas foram lidas e transcritas na íntegra, e inseridas no software Pourles Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ_0.6-alpha3®).
As classes foram identificadas e nominadas por meio da similitude em dois momentos: 1) Antes da intervenção, por meio da análise das percepções individuais dos participantes em relação à susceptibilidade e severidade percebida para o adoecimento, e à gravidade percebida após a realização da cirurgia. 2) Depois da intervenção, em relação às probabilidades de ações em relação aos benefícios percebidos na ação preventiva e barreiras encontradas durante a reabilitação ou que interferiram na adesão terapêutica. A interpretação e compreensão dos dados foram realizadas com base no MCS.
A integração dos dados foi realizada por meio da investigação e interpretação dos resultados quantitativos e qualitativos, apresentados em três momentos distintos: 1) Antes da intervenção - dados qualitativos (percepções individuais). 2) Intervenção - fatores modificadores com base nos dados quantitativos (domínios do HLAT-8 e as áreas do CADE-Q SV). 3) Depois da Intervenção - benefícios percebidos e barreiras encontradas (dados qualitativos). Optou-se pela utilização de uma abordagem de exibição conjunta (Join displays) incluindo a teoria que guiou a pesquisa24, conforme demostra a Figura 1.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, desenvolvido em consonância à Resolução e 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os instrumentos utilizados no estudo foram autorizados por seus respectivos autores. Ao término da entrevista, as informações foram validadas com os participantes, de maneira sumarizada, e solicitado se gostariam de realizar acréscimos aos relatos.
RESULTADOS
Fase quantitativa
Em relação aos dados sociodemográficos e clínicos, prevaleceram participantes do sexo masculino (12; 57,1 %), casados (15; 71,4 %), com um a três filhos (13; 61,9 %), e baixa escolaridade (12; 57,1 %). A média de idade foi de 62,5±11,2 anos. Entre as doenças crônicas, destacou-se a hipertensão arterial (HAS) (12; 57,1 %); entre os principais fatores de risco, o sedentarismo e tabagismo. A renda per capita média foi de R$ 2.977,50.
Na Tabela 1 são apresentados os resultados relacionados à LS e o conhecimento sobre DAC antes e depois da intervenção educativa. Observou-se aumento no escore geral, o que demostra que a intervenção foi eficaz para o aumento da LS (T0-18,4 ± 5,7; Tfinal- 20,8 ± 5,1; p-0,035) e o conhecimento sobre a DAC (T0-39±6,7; Tfinal- 44,7±6,6; p-0,007) entre os participantes.
Ao analisar o escore antes e depois da intervenção, segundo as variáveis sociodemográficas e clínica, observou-se que a intervenção foi eficaz para melhorar o conhecimento sobre DAC, com diferença significativa nas variáveis: sexo masculino; casados ou com união consensual; um a três filhos; escolaridade entre nove e 12 anos; aposentados; ex-tabagistas, sedentários, pessoas com DM associado à HAS e sem comorbidades. Sendo eficaz para melhorar a LS, com diferença significativa nas variáveis sexo masculino, pessoas não portadoras de DM e sem DM associada à HAS, conforme apresenta a Tabela 1.
Quanto ao conhecimento dos participantes sobre a DAC, em relação aos domínios do CADE-Q SV antes e depois da intervenção, verificou-se que houve melhora em quase todos os domínios do CADE-Q SV, porém com significância estatística apenas nas áreas relacionadas ao “exercício” (p-0,008) e “dieta” (p-0,029).
A área “fatores de risco” apresentou o menor escore geral: observou-se aumento do escore médio antes (5±1,7) e depois (6±1,1) da intervenção educativa, porém sem diferença estatística significativa entre os grupos. A área “risco psicossocial” não apresentou modificações expressivas após a intervenção.
Fase qualitativa
A análise qualitativa foi conduzida de maneira indutiva e guiada pelo referencial teórico do MCS21. As categorias foram fundamentadas no próprio referencial teórico que guiou a identificação das narrativas em termos do conteúdo.
A categoria “Susceptibilidade” exemplificou a percepção do risco do adoecimento ou de adoecer, conforme ilustra depoimento em relação ao desconhecimento sobre o processo do adoecimento e dificuldade de entendimento de sua gravidade:
[...] eu nunca tive sintomas, não tive dor de cabeça, não tive cansaço, não tive falta de ar. Eu acho que é devido à idade. Minha mãe morreu de infarto aos 55 anos, pode ser (N1).
Nas categorias “Severidade percebida” e “Barreiras encontradas na reabilitação”, observou-se que a percepção da severidade da doença, de forma intrínseca, estava relacionada a ter uma comorbidade, seja HAS ou DM. A ausência de uma doença crônica interferiu na compreensão dos fatores de risco que desencadearam o adoecimento, conforme evidenciado na fala:
[...] nunca pensei que teria que fazer uma cirurgia. Estive mal várias noites. Adoeci. Não tratava antes da pressão e do colesterol (N9).
A categoria de “Severidade percebida” está relacionada às consequências biológicas, emocionais, sociais e financeiras, que podem interferir na reabilitação. Os fatores podem constituir barreiras para que os pacientes realizem as mudanças necessárias ou, até mesmo, para a redução da gravidade do evento ou incapacidade de tomada de decisões, conforme evidenciado no depoimento de N19:
[...] até que não mudou muito a alimentação. A gente não mudou, porque a gente nem pode estar comprando as coisas, mas a gente diminuiu. Sinto dificuldade, porque não posso estar fazendo as coisas que fazia antes. Eu fazia pão, agora para fazer eu tenho que estar dependendo dos outros para amassar o pão para mim (N19).
A categoria “Benefícios percebidos”, por sua vez, é intrínseca às ações realizadas pelas pessoas; sofre influência das crenças, normas e pressões sociais, tanto em relação à efetividade do conhecimento que possuem ou acreditam quanto na execução das estratégias necessárias ao autogerenciamento da doença. A barreira identificada na fala está relacionada à compreensão do procedimento cirúrgico e à reabilitação, bem como à educação em saúde (LS), que interferiam no entendimento do adoecimento e na adesão a mudanças no estilo de vida:
[...] tinha medo de descer ou subir a escada, um medo muito grande, mas depois que conversamos (pesquisador e paciente/ação educativa), e falou para ir devagar, descer, caminhar, fazer umas caminhadas, então fui perdendo o medo e fiquei mais confiante (N2).
Os resultados são apresentados como oportunidades pragmáticas para abordar a LS e o CADE-Q SV em pessoas submetidas à CRVM baseada no MCS. A Figura 1 ilustra a integração dos dados qualitativos e quantitativos e a correlação com o modelo de MCS.
Relação ao Modelo de Crenças em Saúde antes e depois da intervenção educativa em relação à Health Literacy Assessment Tool -8 e o Coronary Artery Disease Education Questionnaire - Short Version. Curitiba, PR, Brasil, 2023. (n=21)
DISCUSSÃO
Este estudo avaliou pessoas submetidas à CRVM tardia pós-IAM por meio do método misto, e mensurou a LS e o conhecimento sobre a DAC depois da realização de uma intervenção educativa à luz do modelo de crenças em saúde.
Não foram observadas diferenças estatísticas significantes entre a escolaridade, a LS e o conhecimento sobre a DAC. No entanto, o presente estudo demostrou probabilidade significativa de conhecimento sobre as formas de prevenção da DAC em homens que possuem um núcleo de apoio (relação conjugal estável e filhos) e aposentados.
A continuidade do cuidado funciona melhor quando há envolvimento do cuidado em torno do paciente, envolvendo as famílias, tomada de decisão compartilhada e educação e cuidados multidisciplinares personalizados que permitem uma abordagem holística mais coordenada ao cuidado25-26.
Ainda mais, em relação à LS, os participantes do gênero masculino e não portadores de doenças crônicas (DM ou HAS) demostraram melhora significativa após a intervenção das habilidades individuais e sociais para lidar com as modificações no estilo de vida decorrentes da CRVM tardia.
Estudos demonstraram que as intervenções no estilo de vida geralmente causam pequenas alterações nos fatores de risco cardiovascular ou mortalidade total na população. Assim, quando acompanhadas e envolvidas nos programas de educação em saúde, a fim de motivar, apoiar e emponderá-los para o gerenciamento dos sinais e sintomas, melhora a qualidade de vida e retarda as complicações27.
A mixagem dos dados permitiu identificar fatores que podem interferir no cuidado e na adesão terapêutica. Antes da intervenção, os participantes apresentaram a LS insatisfatória e conhecimento sobre a DAC entre aceitável e bom. Tal resultado coaduna com o estudo realizado por Costa e colaboradores7, que também identificou LS inadequada em pacientes com DAC. Outro estudo realizado no Brasil, com 357 pessoas adultas, com e sem hipertensão arterial, também identificou a LS inadequada em 70 % dos hipertensos investigados28.
Entretanto, vale ressaltar que a LS é um conceito multidimensional. Ter conhecimento e compreender as informações em saúde não significa, necessariamente, mudar o estilo de vida e a adesão terapêutica, uma vez que depende de fatores pessoais, familiares e ambientais7. Isso também foi observado em outros estudos que apresentam níveis elevados de LS, porém baixa adesão terapêutica29-30.
Evidências de uma pesquisa realizada no Irã, com base no MCS, com 228 trabalhadores da indústria petrolífera, na prevenção da DCV, mostraram um baixo nível de susceptibilidade e gravidade percebida em relação à doença. Os participantes não reconheciam a DCV como uma doença potencialmente fatal, o que resultava em atitudes e hábitos pouco saudáveis10.
Os participantes demonstram desconhecimento sobre o processo de adoecimento e dificuldade em compreender a gravidade da doença. A percepção da gravidade da doença, de forma intrínseca, estava associada ao fato de terem ou não uma comorbidade (HAS ou DM), isto é, outro aspecto relevante em relação aos “Fatores de Risco”, que apresentaram menores médias mesmo depois da intervenção. No entanto, os participantes sabiam identificar os fatores causadores de adoecimento, como estresses, tabagismo e o sedentarismo, mas minimizavam sua importância para o adoecimento.
E, um estudo experimental de intervenção educacional, com base MCS, no Irã, durante cinco semanas, demonstrou que a intervenção foi eficaz, apesar da curta duração. Observou-se melhoria dos escores fatores de risco, psicológico e comportamental para DCV, tanto em termos de gravidade quanto na identificação dos benefícios e barreiras presentes na implementação de medidas de prevenção e mudança de comportamento9, similar ao presente estudo.
Durante a intervenção educativa foi observado um aumento significativo na LS e no conhecimento sobre a DAC, conforme os depoimentos dos participantes sobre os benefícios percebidos com o tratamento, mudança de hábitos e atividades físicas, em comparação com outras áreas de conhecimento relacionadas à DAC.
Em relação ao CADE-Q SV, apesar de a área de conhecimento sobre “Fatores de Risco” ter um menor escore mesmo depois da intervenção, os participantes relataram mudanças no estilo de vida. A identificação de facilitadores e barreiras (sociais, culturais e epidemiológicas) na elaboração e implementação de estratégias educacionais voltadas para a realidade do indivíduo, com o planejamento e ressignificação de novos métodos assistenciais30, é primordial para a pactuação de metas e adesão terapêutica.
Os participantes percebiam que somente a realização da cirurgia não era eficaz para trazer de volta a saúde no nível anterior à ocorrência do infarto, assim, os níveis de esperança diminuíam. Apesar de o estudo não ter encontrado relação estatística significativa entre o domínio Risco Psicossocial, os participantes relataram, após a intervenção, sentimentos de tristeza, incapacidade e aumento da labilidade emocional, relacionados à ausência de atividade laboral, em alguns casos. Tais percepções podem representar uma barreira à adesão e à mudança dos hábitos de vida. Outros estudos podem ser feitos buscando analisar o Risco Psicossocial, que talvez possibilitem sua demonstração significativa em uma maior amostra de pacientes com as mesmas características.
Enquanto limitações verifica-se, primeiramente, em relação ao tamanho da amostra, decorrente de problemas administrativos (diminuição das cirurgias devido à falência da instituição hospitalar), à pandemia de Covid-19 (redução do número de cirurgias). Também, quanto à complexidade dos participantes da amostra (óbito durante a realização da cirurgia) e mudança de endereço após a alta hospitalar.
CONCLUSÃO
Este estudo demonstrou que a intervenção educativa teve efeito na amostra estudada com melhoria da LS e no conhecimento sobre a DAC, e enfatiza a necessidade do desenvolvimento de habilidades voltadas à autogestão do cuidado, principalmente nos primeiros meses de CRVM.
A intervenção educativa, com base no MCS e no gerenciamento de caso, proporcionou a melhora no conhecimento sobre a DAC e a LS, auxiliou na compreensão dos participantes em relação à percepção do adoecimento e na adesão a um estilo de vida saudável.
A integração dos dados permitiu identificar que o aumento da literacia em saúde e do conhecimento sobre a doença não ocorre de forma automática, estando condicionado à compreensão subjetiva do processo de adoecimento e às barreiras percebidas no cotidiano. Tal apreensão só foi possível mediante articulação entre os resultados quantitativos e as narrativas dos participantes, revelando dimensões emocionais, sociais e contextuais que não seriam captadas exclusivamente por instrumentos padronizados.
Além disso, esta abordagem integrada possibilitou reconhecer fatores modificadores relacionados à suscetibilidade e à gravidade percebida da doença, os quais, quando compreendidos no plano individual, podem favorecer à adesão terapêutica e contribuir para a reabilitação. No entanto, níveis reduzidos de literacia em saúde ainda se apresentam como um obstáculo relevante, interferindo na capacidade de reconhecer os benefícios do tratamento e de modificar comportamentos associados aos fatores de risco e ao risco psicossocial.
Diante disso, a utilização de ferramentas para a mensuração dos níveis de LS e do conhecimento sobre a doença, com base na compreensão das crenças em saúde que permeiam as pessoas, podem auxiliar na elaboração de estratégias de cuidado potencialmente efetivas. Por conseguinte, o gerenciamento de caso realizado pelo enfermeiro durante a consulta de enfermagem, quando planejado e individualizado, fortalece a LS, melhora o autocuidado e contribui para que as pessoas se tornem gestoras do próprio cuidado.
AGRADECIMENTO
Agradecimentos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelas bolsas produtividade 1D.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da tese - O enfermeiro e a Literacia em Saúde na autogestão do cuidado de pessoas pós-cirurgia cardíaca: estudo de métodos mistos, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em enfermagem, da Universidade Federal do Paraná, em 2023.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), parecer n.º 5.048.079/2021, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) n.º 37564720.0,0000.0107.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados que sustentam os achados deste estudo estão disponíveis na tese de doutorado intitulada O enfermeiro e a Literacia em Saúde na autogestão do cuidado de pessoas pós-cirurgia cardíaca: estudo de métodos mistos, depositada no Repositório Digital da Universidade Federal do Paraná (UFPR), disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/88566.
Editado por
Os dados que sustentam os achados deste estudo estão disponíveis na tese de doutorado intitulada O enfermeiro e a Literacia em Saúde na autogestão do cuidado de pessoas pós-cirurgia cardíaca: estudo de métodos mistos, depositada no Repositório Digital da Universidade Federal do Paraná (UFPR), disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/88566.


