RESUMO
Objetivo: elaborar um algoritmo de gestão do cuidado no manejo de vias aéreas superiores com máscara laríngea por enfermeiros que atuam no serviço de atendimento pré-hospitalar.
Método: estudo de implementação de melhorias, com abordagem multimétodos, realizado em serviços de atendimento pré-hospitalar administrados pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro. A pesquisa foi organizada em duas etapas. Na etapa de pré-implementação, foi realizada uma revisão de literatura para identificar as melhores evidências científicas relacionadas ao suporte avançado de vias aéreas. Na etapa de implementação, os participantes responderam a um instrumento sobre a gestão do cuidado no manejo de vias aéreas com o uso da máscara laríngea. Os dados foram analisados pelo software SPSS 22.0. A distribuição de variáveis quantitativas foi sintetizada em proporções de interesse média, mediana, mínimo, máximo e desvio padrão. Por fim, o algoritmo foi avaliado por enfermeiros experts através de um workshop utilizando a técnica de brainstorming.
Resultados: a maioria dos profissionais é do sexo feminino (63,9%), com tempo de formação 16,8 anos e experiência em atendimento pré-hospitalar maior que 10 anos (80,6%). Como resultados do estudo, foram confeccionados 2 mapas mentais apresentando as evidências selecionadas para a estruturação dos inputs de tomada de decisão do algoritmo, estratificando os dados em uma sequência finita de instruções de cuidados, direcionados para a abordagem de vias aéreas.
Conclusão: a proposta de implementação de melhoria considera utilizar o algoritmo como estratégia de sistematização de uma assistência de enfermagem diferenciada e otimizadora, capaz de estabelecer adequadamente prioridades no cuidado.
DESCRITORES:
Assistência pré-hospitalar; Manejo das vias aéreas; Máscaras laríngeas; Tomada de decisões gerenciais; Técnicas de apoio para a decisão; Algoritmo
ABSTRACT
Objective: to develop a care management algorithm for upper airway management with laryngeal masks by nurses working in prehospital care services.
Method: a multi-method implementation improvement study conducted in prehospital care services administered by the Rio de Janeiro State Health Department. The study was organized in two stages. A literature review was conducted in the pre-implementation stage to identify the best scientific evidence related to advanced airway support. The participants completed an instrument in the implementation stage on care management for upper airways with laryngeal masks. Data were analyzed using SPSS 22.0 software. The distribution of quantitative variables was summarized into proportions of interest: mean, median, minimum, maximum, and standard deviation. Finally, the algorithm was evaluated by expert nurses through a workshop using the brainstorming technique.
Results: the majority of professionals were female (63.9%), with 16.8 years of training and more than 10 years of experience in prehospital care (80.6%). As a result of the study, two mind maps were created presenting the evidence selected for structuring the algorithm’s decision-making inputs, stratifying the data into a finite sequence of care instructions focused on upper airway management.
Conclusion: the proposed improvement implementation considers using the algorithm as a strategy for systematizing differentiated and optimal nursing care, capable of appropriately prioritizing care.
DESCRIPTORS:
Prehospital care; Upper airway management; Laryngeal masks; Management decision making; Decision support techniques; Algorithm
RESUMEN
Objetivo: desarrollar un algoritmo de gestión de cuidados para el manejo de la vía aérea superior con mascarilla laríngea por parte de enfermeras que trabajan en servicios de atención prehospitalaria.
Método: estudio multimétodo de mejora de la implementación, realizado en servicios de atención prehospitalaria de la Secretaría de Salud del Estado de Río de Janeiro. La investigación se organizó en dos etapas. En la etapa de preimplementación, se realizó una revisión bibliográfica para identificar la mejor evidencia científica relacionada con el soporte avanzado de la vía aérea. En la etapa de implementación, los participantes completaron un instrumento sobre gestión de cuidados para el manejo de la vía aérea con mascarilla laríngea. Los datos se analizaron con el programa SPSS 22.0. La distribución de las variables cuantitativas se resumió en proporciones de interés: media, mediana, mínimo, máximo y desviación estándar. Finalmente, el algoritmo fue evaluado por enfermeras expertas mediante un taller utilizando la técnica de lluvia de ideas.
Resultados: la mayoría de los profesionales eran mujeres (63,9%), con 16,8 años de formación y más de 10 años de experiencia en atención prehospitalaria (80,6%). Como resultado del estudio, se crearon dos mapas mentales que presentan la evidencia seleccionada para estructurar los datos de entrada del algoritmo para la toma de decisiones, estratificando los datos en una secuencia finita de instrucciones de cuidado, centradas en el manejo de la vía aérea.
Conclusión: la implementación de la mejora propuesta considera el uso del algoritmo como estrategia para sistematizar una atención de enfermería diferenciada y óptima, capaz de priorizar adecuadamente la atención.
DESCRIPTORES:
Atención prehospitalaria; Manejo de la vía aérea; Vías aéreas con mascarilla laríngea; Toma de decisiones de manejo; Técnicas de apoyo a la toma de decisiones; Algoritmo
INTRODUÇÃO
O serviço de Atendimento Pré-Hospitalar (APH), importante campo de atuação para o enfermeiro1, é o atendimento que procura chegar precocemente à vítima no ambiente extra-hospitalar, após ter ocorrido um agravo à saúde, que pode levá-la a deficiência física ou ao risco de morte2. No contexto que envolve o APH, os enfermeiros que atuam no suporte intermediário de vida, têm como atribuições a gestão do cuidado direto e indireto em saúde, e para que esse processo de gestão não seja empírico faz-se necessário o planejamento de todo o processo de cuidado2.
Dentre os diversos quadros clínicos em que atuam os enfermeiros do APH, tem-se a Insuficiência Respiratória Aguda (IRpA) tipificada como a incapacidade em se manter um estado eficiente de trocas gasosas entre o organismo e a atmosfera. Essa insuficiência apresenta como sintoma mais relevante a dispneia, em que a maioria dos pacientes necessitam de O², ofertado de maneira invasiva ou não invasiva3. O dispositivo invasivo recomendado para utilização pelo enfermeiro, durante a IRpA no manejo de Vias Aéreas Superiores (VAS), é a Máscara Laríngea (ML), a qual consiste em um tubo semelhante ao endotraqueal, com uma máscara inflável na extremidade distal apropriada para adaptação à faringe posterior, selando a região da base da língua e da abertura laríngea4.
Este estudo aborda a gestão do cuidado na prática avançada do manejo de VAS, através da intubação com o dispositivo supraglótico ML, em pacientes em IRpA com sinais clínicos de Escala de Glasgow <8* no ambiente extra-hospitalar.5 Nessa perspectiva, vislumbra-se a implementação de melhoria na gestão do cuidado no manejo de VAS com ML por enfermeiros que atuam no serviço de APH, se alinhando a Ciência da Melhoria do Cuidado de Saúde. A ciência da melhoria pressupõe que toda melhoria advém do desenvolvimento, teste e implementação de mudanças, e que a estruturação de processos, com base na ciência, potencializa a obtenção de resultados mais efetivos6. Compreende-se que a proposta de um algoritmo para tomada de decisão torna-se necessário como uma ferramenta balizadora, otimizadora e clinicamente aplicável, capaz de nortear e uniformizar as ações de gestão do cuidado, sobretudo, no que tange à segurança do paciente. Os algoritmos são constituídos por uma sequência finita de instruções realizadas sistematicamente, avaliando diversas variáveis em um curto espaço de tempo. Eles são empregados como instrumentos simples, objetivos e de fácil acesso, que conferem uma visão completa do processo assistencial, além de consistir em uma ferramenta de padronização de técnicas e gestão, servindo de guia para a tomada de decisões7.
Nesse contexto, emergiu o seguinte questionamento: quais as ações de gestão do cuidado os enfermeiros consideram relevantes, para compor um algoritmo para o manejo de VAS com ML, na intubação de pacientes com IRpA? Para tanto, o objetivo deste estudo consistiu em elaborar um algoritmo de gestão do cuidado no manejo de vias aéreas superiores com máscara laríngea, por enfermeiros que atuam no serviço de atendimento pré-hospitalar. A intencionalidade desse algoritmo é produzir um instrumento viável e factível, que torne a assistência ao cliente portador de IRpA um processo mais ágil, acurado e resolutivo.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de implementação de melhorias, com abordagem multimétodos, realizado de março de 2021 a abril de 2025. A pesquisa foi organizada em duas etapas, pré-implementação e implementação, cada uma dividida em duas fases distintas, totalizando quatro fases. Na etapa de pré-implementação, foi realizada uma revisão de escopo para identificar as melhores evidências disponíveis, além da aplicação de um instrumento de coleta de dados para elaboração de um diagnóstico inicial. Na etapa de implementação, desenvolveu-se um protótipo do algoritmo de tomada de decisão, o qual foi avaliado por profissionais experts. Essa avaliação permitiu a finalização e validação do produto final8.
Para a busca na literatura, utilizou-se os seguintes descritores em português: Máscara Laríngea, Insuficiência Respiratória, Gestão em Saúde, Algoritmo, Gestão do Cuidado, Gerenciamento do Cuidado, Assistência Pré-Hospitalar, Atendimento de Emergência Pré-Hospitalar e Serviços Pré-Hospitalares. A partir destes elementos realizou-se o mapeamento dos termos nos vocabulários controlados: Descritores em Ciências da Saúde (DECS), Medical Subject Healding (MESH) e Emtree (Embase subject headings). Não foram aplicados filtros de idioma. Foi realizado o recorte temporal de 2015 a 2025. O protocolo desta revisão de escopo foi registrado no Open Science Framework (OSF) com o Doi 10.17605 (disponível em: https://doi.org/10.17605/OSF.IO/Z8CP6).
Com o objetivo de garantir que a revisão de escopo refletisse o estado atual das evidências científicas sobre o uso da ML no APH, foi realizada uma atualização da estratégia de busca. Esta atualização manteve os mesmos descritores e critérios do modelo PCC (População, Conceito, Contexto) e os critérios de inclusão utilizados na fase inicial do estudo. Essa ampliação da coleta de dados conferiu à revisão maior robustez metodológica e atualidade científica.
Prosseguindo as etapas do estudo, foi criado e aplicado um instrumento para direcionar a coleta de dados no campo de pesquisa, a fim de identificar como o enfermeiro realiza a gestão do cuidado direto e indireto no manejo de VAS com a ML no APH.
O cenário de estudo é o atendimento pré-hospitalar de urgência e emergência. O APH selecionado é administrado pela Secretaria Estadual de Saúde, este serviço acontece em vias e logradouros públicos em todo o Estado do Rio de Janeiro, sendo selecionadas ambulâncias definidas como Suporte Intermediário de Vida com equipe formada por um enfermeiro, um técnico de enfermagem e um condutor. A amostra foi composta por 36 participantes. Os critérios de elegibilidade dos participantes foram: exercer o cargo de oficial enfermeiro do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro; possuir mínimo de 10 anos de atuação como enfermeiro, ser enfermeiro líder de equipe em APH intermediário por no mínimo 5 anos; ter realizado curso de manejo de VAS com ML, desenvolver atividade de gestão do uso da ML para manejo de VAS na assistência de enfermagem a pacientes com IRpA e/ou PCR. Os dados coletados no Google Forms foram exportados para uma planilha do Microsoft Excel 2007 e analisados pelo programa SPSS 22.0.
O algoritmo foi elaborado tendo por base as evidências científicas sintetizadas em 2 mapas mentais. O primeiro apresenta o conteúdo fornecido pelo mapeamento da literatura onde foram selecionadas as melhores práticas de cuidado direto e indireto no manejo de VAS com ML, no segundo mapa mental foram articulados os achados da pesquisa de campo, que buscou identificar como os enfermeiros realizam a gestão desse cuidado no APH. Para iniciar a estruturação do futuro algoritmo, utilizou-se o Lucidchart, um aplicativo de diagramação inteligente com interface intuitiva, que possibilitou criar o fluxograma do algoritmo e seus inputs de tomada de decisões. Por conseguinte, o algoritmo foi submetido à última etapa, que inclui a avaliação de conteúdo e seu design final.
O processo de avaliação do algoritmo foi realizado através de videoconferência por meio da plataforma Google Meet, que possibilitou otimizar a presença dos participantes, potencializar a troca de informações e gravar a reunião, permitindo rever todas as contribuições para aperfeiçoar o algoritmo. Através de seleção intencional do pesquisador, participaram da oficina cinco enfermeiros (líderes de equipe) de APH, que atuaram na emergência pré-hospitalar por no mínimo 10 anos e que tiveram pós-graduação na área de atuação. A oficina foi realizada em um único encontro em que foram atendidas as expectativas de avaliação do algoritmo. Para desenvolver e padronizar as informações obtidas na oficina foram utilizadas as seguintes etapas: apresentação da oportunidade de melhoria (algoritmo), avaliação do conteúdo do algoritmo como proposta de implementação de melhoria, técnica de brainstorm, seleção das melhores propostas para síntese final do algoritmo e padronização do produto para possível uso na prática.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Os oartucuoabtes assinaram o Termo de Consentimento e a pesquisa seguiu todas as resoluções pertinentes.
RESULTADOS
Os registros incluídos no estudo, após o levantamento na literatura, são dos anos de 2015 a 2025, sendo 15 estudos previamente incluídos e sete novos estudos (revisão ampliada) publicados de 2023 a 2025.
A análise dos 22 estudos selecionados permitiu mapear evidências atualizadas sobre o uso da ML em atendimentos de emergência, com ênfase na atuação de profissionais de enfermagem, treinamento técnico e desfechos clínicos favoráveis à inserção do dispositivo em protocolos pré-hospitalares. Essas evidências reforçam a importância de formação contínua, protocolos padronizados e articulação entre ciência e prática assistencial. Os 22 estudos inclusos nesta revisão apresentam recomendações de cuidados diretos e indiretos para a gestão do cuidado no manejo de VAS (Quadro 1).
Recomendações de cuidados diretos e indiretos dos estudos incluídos na revisão, Niterói, RJ, Brasil, 2025.
Como estratégia para construção do conhecimento e síntese dos achados da revisão, foi gerado um mapa mental (Figura 1) estratificando as evidências científicas mapeadas na literatura, permitindo uma visão geral, isto é, a visualização de todo o conteúdo gerado na condução do processo de investigação e a conexão das melhores práticas de cuidado indireto e direto do manejo de VAS com ML, selecionadas na literatura.
Referente à pesquisa de campo, foi realizada uma análise descritiva das respostas de 36 enfermeiros experientes que prestam serviço de APH no CBMERJ, acerca do atendimento de emergência que necessite de suporte avançado de vias aéreas, com uso de ML.
Inicialmente, a pesquisa de campo traçou o perfil dos participantes, apresentando as principais variáveis quantitativas do estudo (tabela 1). Em termos médios, o enfermeiro tinha 40,4 anos, 16,8 anos de formação, atribui nível 9,3 à importância dos materiais e equipamentos para a segurança na assistência, atribui nível 8,4 ao seu preparo teórico para manusear a ML, atribui nível 7,8 à sua experiência prática em manusear a ML, atribuí nível 8,6 à sua facilidade para manusear a ML, atribui nível 8,4 ao nível de Segurança para instalar a ML e tem taxa de sucesso de 86,5% nas tentativas de intubação com máscara laríngea.
A pesquisa de campo também forneceu informações sobre: as estratégias dos enfermeiros para evitar perigos ao paciente/equipe do APH, quais recursos e materiais na ambulância de APH proporcionam eficiência no atendimento de pacientes em IRpA/PCR e os recursos que faltaram para manusear ML no APH, quais as ações realizadas para melhora da saturação do paciente no cenário de APH, os fatores que provocam insegurança nos enfermeiros ao realizarem o manejo da ML, as dificuldades citadas pelos enfermeiros no manejo e instalação da ML, propostas de melhorias referentes à qualidade do atendimento relacionado ao suporte avançado de vias aéreas e quais as orientações que os enfermeiros dariam a um profissional inexperiente a manusear ML no APH. Dentre as 50 orientações que os enfermeiros dariam a um profissional inexperiente a manusear a ML no APH, 39 forneceram dados para gerar inputs do algoritmo proposto.
Para estruturação visual e armazenamento do conhecimento foi construído um mapa mental (Figura 2) que apresenta o conteúdo da pesquisa de campo.
Mapa mental da pesquisa de campo sobre como o enfermeiro do APH realiza a gestão do manejo de VAS. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2025.
Por fim, sob a perspectiva teórica e prática dos enfermeiros experts no serviço de APH, o algoritmo foi avaliado sobre a ótica desses profissionais em seu campo de atuação, por meio de um worshop onde o algoritmo foi apresentado como oportunidade de implementação de melhoria no cuidado, logo após foi realizado um brainstorming, os participantes fizeram uma análise do algoritmo proposto, apresentando recomendações de melhorias nos inputs, posteriormente avaliadas sob o ponto de vista da viabilidade e usabilidade, sendo selecionadas as melhores propostas para síntese final do algoritmo.
Dentre as recomendações de melhorias que compõem o produto final, podem ser citadas: alteração do título do passo 1 do algoritmo de “Gerenciar vias aéreas” para “Planejamento da abordagem de vias aéreas”; inclusão de comando de ação “promover biossegurança” na figura retangular de gerenciamento do processo; troca do input de tomada de decisão (segunda figura em losango) “paciente respira espontaneamente?” por “paciente em esforço respiratório?”; inclusão de figura retangular com os sinais de IRpA “dispneia, taquipneia, bradipneia e apneia”; inclusão do terceiro input de tomada de decisão “Escala de Coma de Glasgow < 8?”.
Para viabilizar e facilitar a replicação do produto foi utilizado o aplicativo Super QR Code Reader Generator, para desenvolver um QR Code que possibilite a qualquer pessoa o fácil acesso ao algoritmo de tomada de decisão, através da câmera de um celular.
Na Figura 3, apresenta-se a versão final do algoritmo de gestão do manejo de vias aéreas com máscara laríngea por enfermeiros do APH.
Algoritmo de gestão do manejo e vias aéreas com máscara laríngea por enfermeiros do APH. Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2025.
O algoritmo proposto é constituído por uma sequência finita de instruções bem definidas, realizadas de forma sistemática, avaliando as diversas variáveis para o manejo de VAS em pacientes com IRpA, conferindo uma visão completa do processo assistencial, padronizando as técnicas de inserção da ML e servindo de guia para a tomada de decisão. O conteúdo do algoritmo foi estruturado e sistematizado articulando 3 eixos da pesquisa: o mapeamento da literatura para seleção de conteúdo relacionado às melhores práticas de cuidados no manejo de VAS com ML, representados no quadro 1 e no mapa mental 1; os achados da pesquisa de campo, que identificou como os enfermeiros realizam a gestão desse cuidado no APH representado pelo mapa mental 2 e as contribuições da etapa de avaliação do algoritmo, realizada na oficina com os enfermeiros do APH.
Do ponto de vista de estruturação, o algoritmo foi desenvolvido seguindo 4 passos: o primeiro passo faz um levantamento direcionado à gestão dos cuidados indiretos, apresentando itens de gerenciamento estrutural e gerenciamento do processo assistencial a ser desenvolvido, assim como a figura oval de entrada que constitui o problema a ser enfrentado (Insuficiência Respiratória Aguda); o segundo passo se detém à avaliação das vias aéreas, apresentando quatro losangos com as propostas de intervenção e avaliações complementares de enfermagem, que de forma independente discorrem os caminhos para: uso da máscara facial; uso da BVM; abertura de vias aéreas; se a medida invasiva de vias aéreas é realmente necessária, tendo por base a avaliação do nível de consciência do paciente e itens para avaliar as chances de sucesso na intubação com a ML; o terceiro passo apresenta as etapas a serem seguidas para a inserção da ML, com a indicação de realizar no máximo duas tentativas; a quarta e última etapa discorre sobre a gestão do cuidado após a inserção da ML.
DISCUSSÃO
A gestão do cuidado no suporte avançado de vias aéreas no APH é essencial para a segurança do paciente, especialmente em emergências, onde a tomada de decisão rápida e embasada impacta diretamente os desfechos clínicos. Os dados obtidos corroboram a relevância do uso de algoritmos como ferramenta de padronização e otimização do processo assistencial, promovendo maior segurança e eficiência na atuação dos enfermeiros do APH.
Os estudos demonstraram que o manejo de vias aéreas é fundamental, pois pequenas mudanças no desempenho podem ser altamente relevantes para o desfecho clínico. Esse manejo envolve o uso de técnicas e habilidades apropriadas, planejamento cuidadoso e resposta eficaz às dificuldades. Um processo coordenado, otimização das condições ambientais e comunicação eficiente são cruciais para atuar em emergências9-11,13-15,17-30.
A literatura indica que o uso de dispositivos supraglóticos é uma estratégia recomendada para o manejo de vias aéreas em emergências, especialmente quando a intubação não é viável. Entretanto, o manejo das vias aéreas no trauma apresenta desafios adicionais, devido às condições de intubação abaixo do ideal e ao risco aumentado de hipóxia, obstrução, hipoventilação, hipotensão e aspiração. A adaptação do algoritmo de via aérea para esses casos pode melhorar a segurança do procedimento9-30.
O fornecimento e uso regular de ferramentas de gestão, como algoritmos, são altamente recomendados. Um estudo que avalia a aplicação de um algoritmo institucional de via aérea difícil concluiu que esse instrumento melhora os processos, padroniza e otimiza o manejo, tornando a tomada de decisões mais compreensível e eficaz9,13,16-18,23-24,27,29-30.
A familiaridade e a habilidade no uso da ML aumentam com a prática contínua20-21. Para a gestão bem-sucedida de vias aéreas difíceis, a implementação de treinamentos regulares e um algoritmo adaptado ao ambiente clínico são essenciais. Estudos indicam que o treinamento contínuo não apenas ensina novas habilidades, mas aprimora aquelas já praticadas pelos enfermeiros do APH9-13,19-21,23-24,29-30.
Além disso, a avaliação e gestão dos riscos no uso da ML envolvem a otimização das condições ambientais, incluindo restrições de espaço interno da ambulância, iluminação inadequada e condições climáticas adversas9-11,29. Estratégias como checar as condições da ambulância e manter uma base de suporte dinâmica e estável foram incorporadas ao algoritmo proposto para garantir a segurança da equipe e do paciente.
A literatura também recomenda a adequação da infraestrutura, para o manejo de VAS, incluindo a disponibilização de todos os tamanhos da ML, uso de equipamentos de proteção individual (EPI) e padronização dos instrumentos necessários11,13. A coordenação do manejo das VAS deve ocorrer por meio de comunicação clara e registro detalhado do atendimento, para futuras melhorias na prática assistencial9-11,19-20,25.
O Suporte Avançado de Vida no Trauma (ATLS) orienta que, dentro do protocolo XABCDE para avaliação primária de risco iminente de morte, a execução deve seguir uma ordem de prioridades: X - hemorragias exsanguinantes; A - vias aéreas e controle da coluna cervical; B - respiração e ventilação; C - circulação com controle de hemorragias; D - estado neurológico; E - exposição e controle de temperatura. Cada etapa visa identificar e tratar rapidamente as condições que ameaçam a vida do paciente, garantindo uma abordagem sistemática e eficaz no manejo do trauma31. Ao concluir as etapas A e B, o suporte de oxigênio deve ser estabelecido imediatamente e mantido durante toda a fase de tratamento do trauma10,12,15-17,24,26,29.
A análise das respostas dos enfermeiros participantes revelou que a maioria reconhece a importância do planejamento estruturado na gestão das VAS, mas apontam desafios quanto às decisões clínicas e ao manejo ML no contexto pré-hospitalar. A ausência de protocolos padronizados para a seleção e inserção do dispositivo supraglótico foi identificada como um fator de insegurança, destacando a necessidade de diretrizes baseadas em evidências científicas.
Os dados também apontam que a tomada de decisão no APH está diretamente influenciada pelo tempo de resposta e pela dinâmica do ambiente. Em situações de IRpA, a capacidade de identificar rapidamente a necessidade de intervenção invasiva e realizar o manejo adequado das VAS pode ser determinante para a sobrevida do paciente. O algoritmo proposto busca suprir essa necessidade, oferecendo um guia sistematizado para apoiar a atuação do enfermeiro em cenários complexos.
As informações da pesquisa de campo reforçam a necessidade de treinamento contínuo para os enfermeiros desenvolverem confiança na decisão de utilizar a ML. Apenas 44,4% dos enfermeiros afirmaram que a estrutura interna da ambulância permite a circulação adequada da equipe, para assistência a pacientes em IRpA. Essa limitação levou à inclusão no algoritmo da recomendação de manter-se próximo ao paciente, para garantir uma base de suporte dinâmica e estável.
A sistematização da técnica do manejo da ML foi apontada como uma necessidade pelos enfermeiros participantes. Além disso, estratégias para minimizar riscos no APH foram identificadas, incluindo avaliação da cena, uso correto de EPIs, comunicação eficiente entre a equipe e verificação dos equipamentos de socorro antes do atendimento. Esses elementos foram incorporados ao algoritmo, para padronizar e otimizar a assistência.
Dessa forma, a análise dos resultados evidencia que a implementação do algoritmo de tomada de decisão tem potencial para impactar positivamente a prática assistencial, promovendo maior segurança ao paciente e conferindo maior autonomia ao enfermeiro, na gestão do cuidado em emergências. A padronização das ações por meio do algoritmo reduz a variabilidade nas intervenções, favorecendo a uniformidade dos atendimentos e contribuindo para a melhoria da qualidade da assistência pré-hospitalar.
As limitações deste estudo estão no campo do aprofundamento do processo de validação, uma vez que contou apenas com uma primeira etapa de avaliação do algoritmo pelos enfermeiros do APH. Considera-se a validação direta em cenários diretos de cuidado com a utilização do algoritmo pelos enfermeiros, no atendimento direto aos pacientes em IRpA que venham a fazer uso da ML.
Pesquisas como esta, de propositura intervencionista, apontam para uma perspectiva consistente para pensarmos e discutirmos o avanço da Prática Baseada em Evidências e a evolução da Enfermagem em Práticas Avançadas, bem como para a possibilidade de prósperos caminhos para a implementação de melhorias do cuidado.
CONCLUSÃO
O algoritmo propõe um impacto real na gestão do manejo de VAS, na segurança do paciente e da equipe de saúde envolvida no processo assistencial no cuidado de suporte avançado às VAS. O produto desenvolvido é de fácil replicabilidade por meio físico ou digital e apresenta uma interpretação de média complexidade.
A proposta de implementação de um algoritmo de gestão do cuidado, no suporte avançado de vias aéreas no atendimento pré-hospitalar, representa um avanço significativo na otimização das práticas assistenciais, oferecendo uma abordagem sistematizada e baseada em evidências para o manejo da máscara laríngea. Os achados deste estudo reforçam a necessidade de padronização dos procedimentos e de capacitação contínua dos enfermeiros, visando aprimorar a qualidade e a segurança da assistência prestada.
O algoritmo propõe um impacto positivo na tomada de decisão clínica, permitindo intervenções mais ágeis e precisas, essenciais para a estabilização de pacientes em insuficiência respiratória aguda. Além disso, a sua aplicação contribui para a uniformização dos protocolos assistenciais, reduzindo a variabilidade das abordagens e promovendo uma assistência mais eficiente e segura.
Diante dos desafios identificados, ressalta-se a importância do investimento na qualificação profissional e na estruturação adequada dos serviços de APH, garantindo que os enfermeiros tenham acesso a ferramentas e treinamentos que os capacitem a atuar com segurança e eficácia. Assim, a adoção do algoritmo não apenas fortalece a atuação do enfermeiro como protagonista na gestão do cuidado, mas também eleva os padrões de atendimento, promovendo melhores desfechos clínicos e maior segurança para os pacientes e para a equipe de saúde envolvida no processo assistencial.
Ademais, o produto proposto busca alcançar impacto de abrangência local, mas que pode atingir proporções a níveis internacionais, visto que, na ampla revisão de escopo realizada em 11 bases de dados, não foi observado nenhum algoritmo ou similar direcionado especificamente ao manejo de VAS com ML para enfermeiros, o que mostra um alto grau de inovação. O mais próximo encontrado foram algoritmos que indicavam o dispositivo supraglótico para vias aéreas difíceis, em situações de “intuba não intuba” ou falha após 2ª tentativa na intubação endotraqueal ou orotraqueal.
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NOTAS
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ORIGEM DO ARTIGO
Extraído da dissertação - Gestão do cuidado durante o suporte avançado de vias aéreas no atendimento pré-hospitalar: algoritmo para tomada de decisão, apresentada ao Programa de Mestrado Profissional de Enfermagem Assistencial, da Universidade Federal Fluminense, em 2022.
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FINANCIAMENTO
PDPG-COFEN/Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação - Área de Enfermagem - Edital nº 28/2019. Número 88887.477308/2020-00 - Formação Profissional Especializada em Gestão e Processo de Enfermagem.
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa sob o parecer de número: 5.155.288 e registro: CAAE 52835821.8.0000.5243.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente Welliton Pestana Faria. O conjunto de dados não está publicamente disponível em virtude do seu extenso volume, que ultrapassa os limites editoriais estabelecidos para artigos científicos. A disponibilização integral poderá ser realizada mediante solicitação direta, garantindo a transparência e a reprodutibilidade dos achados.
Editado por
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente Welliton Pestana Faria. O conjunto de dados não está publicamente disponível em virtude do seu extenso volume, que ultrapassa os limites editoriais estabelecidos para artigos científicos. A disponibilização integral poderá ser realizada mediante solicitação direta, garantindo a transparência e a reprodutibilidade dos achados.






