Diferentes órgãos e pesquisadores têm recomendado um olhar mais cauteloso dos gestores para o ambiente de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho reconhece a importância de um emprego digno, compreendido como aquele que oferece salários justos, ambientes seguros, oportunidades para o desenvolvimento pessoal, integração e proteção social, liberdade de expressão e participação significativa na tomada de decisões. Este entendimento se destaca como elemento essencial para o alcance efetivo da globalização e da redução da pobreza em escala mundial ( 1 ) .
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reconhecem a importância da relação entre as características dos ambientes de trabalho e os mais variados desfechos. Por isso, para o decênio 2015-2025, recomendam que as instituições implementem iniciativas voltadas para ambientes de trabalho saudáveis e respeitosos a fim de fomentar o bem-estar geral e a qualidade de vida dos trabalhadores ( 2 ) .
A Agenda de Saúde Sustentável para as Américas 2018-2030 enfatiza que os gestores precisam ter como meta a promoção de ambientes de trabalho saudáveis, seguros e sem riscos para os trabalhadores ( 3 ) , assim como a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, publicada pelo Ministério da Saúde do Brasil em 2012. As Nações Unidas, ao abordarem os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, declaram a relevância do oitavo objetivo – Trabalho decente e crescimento econômico, em decorrência dele estar amplamente enraizado nas metas de muitos dos outros 16 objetivos ( 4 ) .
No que diz respeito ao tema, importante reforçar que o advento da pandemia COVID-19 trouxe um paradoxo, pois, ao mesmo tempo em que o valor dos profissionais de enfermagem se tornou mais evidente, a insatisfação, o burnout , a intenção de deixar o emprego ou até mesmo a profissão tornaram-se mais frequentes, em todos os países.
Os profissionais de enfermagem foram solicitados a atuar em ambientes de elevada complexidade e incerteza, onde todos os recursos individuais tiveram que ser mobilizados, no sentido de uma adaptação rápida às inúmeras mudanças. Nessa sequência, como em qualquer processo de recuperação/reconstrução, é ainda mais fundamental atuar para assegurar melhores condições de trabalho e fortalecimentos das equipes, que durante ao menos dois anos estiveram submetidas a um desgaste profissional inédito, com consequentes repercussões pessoais.
O investimento no ambiente no qual a enfermagem desenvolve seus processos de trabalho é fundamental, pois há evidências de que características como habilidade da liderança, fundamentos dirigidos para a qualidade do cuidado, participação da enfermagem na tomada de decisão, relações amistosas entre as equipes, adequação de recursos, autonomia, controle sobre o ambiente, suporte da organização, habilidades de comunicação, colaboração verdadeira e reconhecimento significativo têm relação positiva com diferentes resultados organizacionais ( 5 ) .
Esses resultados organizacionais estão descritos na literatura como melhoria da qualidade e da segurança da assistência recebida pelos pacientes, redução das taxas de mortalidade, maiores níveis de satisfação profissional, menores níveis de burnout, exaustão emocional e bullying , além de menores taxas de absenteísmo e intenção dos profissionais em se desligar do emprego.
Para que transformações no ambiente possam se tornar uma realidade, as prioridades de pesquisadores e gestores devem estar voltadas para o mapeamento da presença dessas características, com posterior implementação e avaliação de estratégias que redefinam o ambiente.
O foco central dos investimentos incide na viabilidade financeira das organizações. Em última análise, ao priorizar a reconfiguração dos ambientes, os gestores não apenas fortalecem a prática da enfermagem, mas também cultivam um ambiente que propicia benefícios abrangentes para todos os envolvidos no processo.
Ao somar as preocupações dos órgãos internacionais estratégicos às pesquisas promovidas na área da enfermagem, é premente destacar que as intervenções preventivas requerem ações colaborativas e coordenadas com todos os setores produtivos com o intuito de proteger e resguardar a saúde e a vida dos trabalhadores, além de fortalecer as políticas públicas e a implementação de novas regulamentações que protejam sua saúde.
Importa ressaltar, contudo, que o caminho para a (re)construção dos ambientes de trabalho nem sempre é sinônimo de investimento financeiro. Mudanças de atitudes e comportamentos e envolvimento de todos frente ao compromisso de construir ambientes de trabalho justos, seguros e dignos, que além de promoverem melhores resultados para os pacientes/usuários, garantam harmonia entre o bem-estar social, pessoal e organizacional, são essenciais.
A par da qualidade e segurança dos cuidados prestados às pessoas e da otimização do desempenho institucional, é fundamental que as características dos ambientes de trabalho promovam a conciliação entre a vida pessoal, familiar, profissional e científica dos trabalhadores de enfermagem, que face à diversidade geracional, embora partilhem os mesmos ambientes de trabalho, não têm necessariamente as mesmas necessidades.
A complexidade dos contextos, o avanço tecnológico e científico, o crescente aumento das demandas de cuidados da população e a constante rotatividade das equipes de enfermagem evidenciam a necessidade de ações contínuas ao longo do tempo, que não apenas enfrentem os desafios impostos por um ambiente dinâmico e exigente, mas também reconheçam a importância da manutenção da qualidade e eficácia dos serviços de enfermagem. Ao assegurar um comprometimento constante, os enfermeiros e as organizações podem contribuir significativamente para a melhoria contínua dos cuidados de saúde, fortalecendo os resultados positivos.
Referências bibliográficas
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1. International Labour Organization. Decent work [Internet]. Geneva: ILO; [s.d.] [cited 2023 Sep 30]. Available from: https://www.ilo.org/global/topics/decent-work/lang\--en/index.htm
» https://www.ilo.org/global/topics/decent-work/lang\--en/index.htm -
2. Organização Pan-Americana da Saúde; Organização Mundial da Saúde. Plano de ação sobre a saúde dos trabalhadores 2015-2025. Washington, D.C.: PAHO; 2015 [cited 2023 Sep 30]. Available from: https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/33985/CD54_10Rev.1-por.pdf?sequence=1&isAllowed=y
» https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/33985/CD54_10Rev.1-por.pdf?sequence=1&isAllowed=y -
3. Organização Pan-Americana da Saúde. Agenda de saúde sustentável para as Américas 2018-2030: um chamado à ação para a saúde e o bem-estar na região. Washington. D.C.: PAHO; 2017 [cited 2023 Sep 30]. Available from: https://iris.paho.org/handle/10665.2/49172
» https://iris.paho.org/handle/10665.2/49172 -
4. United Nations, Department of Economic and Social Affairs. The 17 goals [Internet]. New York, NY: UN; 2015 [cited 2023 Sep 30]. Available from: https://sdgs.un.org/goals
» https://sdgs.un.org/goals -
5. Connor J, Ziniel S, Porter C, Doherty D, Moonan M, Dwyer P, et al. Interprofessional use and validation of the AACN Healthy Work Environment Assessment Tool. Am J Crit Care [Internet]. 2018 [cited 2023 Sep 30];27(5):363-71. Available from: https://doi.org/10.4037/ajcc2018179
» https://doi.org/10.4037/ajcc2018179
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Como citar este artigo
Gasparino RC, Ribeiro OMPL, Santos JLG, Bernardes A. Investing in the future of Nursing.Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2024;32:e4128 [cited ano mês dia]. Available from: URL . https://doi.org/10.1590/1518-8345.0000.4128




