Open-access Avaliação da dependência do autocuidado em pessoas com amputações dos membros inferiores: um estudo exploratório

Objetivo: identificar as características sociodemográficas e clínicas de pessoas com amputação maior de membro inferior, de origem vascular, e avaliar o nível de dependência e autonomia nas atividades de autocuidado, no domicilio.

Método: estudo quantitativo, exploratório, transversal e descritivo. A amostra por conveniência foi constituída por 40 participantes. Para a coleta de dados utilizou-se um questionário sociodemográfico e a versão curta do Formulário de Avaliação de Dependência de Autocuidado.

Resultados: dos 40 (100%) participantes a maioria era do sexo masculino; 75% tinham idade superior a 65 anos de idade e 77,5% foram submetidos a amputação transfemoral. Em relação ao nível de dependência predominavam as atividades relacionadas ao autocuidado: “andar”, “tomar banho”, “vestir-se e despir-se”, “usar o banheiro” e “transferir-se” e quanto a autonomia, 72,5% estavam confinados a uma cadeira de rodas.

Conclusão: o domínio de autocuidado com maior nível de dependência é “andar”, e o menor , “alimentar-se”. Maior autonomia no uso do banheiro, deambulação e transferência da cama para a cadeira mostraram-se atividades de autocuidado com melhor capacidade de predizer a autonomia do paciente.

Descritores:
Atividades Diárias; Amputação; Pessoa com Deficiência; Membro Inferior; Autocuidado; Doença Vascular


Destaques:

(1) A amputação maior de membro inferior de causa vascular interfere nas atividades da vida diária.

(2) Autocuidado com maior nível de dependência é “andar” .

(3) Autocuidado menor nível de dependência é “alimentar-se” .

(4) Desenvolver futuras intervenções sobre o nível de dependência de indivíduos com amputação de causa vascular.

Objective: to identify the sociodemographic and clinical characteristics of the person with dysvascular major lower limb amputation and to assess their degree of dependence and autonomy in self-care activities at home.

Method: quantitative, exploratory, cross-sectional and descriptive study. The convenience sample consisted of 40 participants. A sociodemographic questionnaire and the short version of the Self-Care Dependence Assessment Form were used for data collection.

Results: of the 40 (100%) participants, the majority were male; 75% were over 65 years of age, 77.5% had a transfemoral amputation, and 72.5% were confined to a wheelchair. The higher levels of dependency predominated in self-care: “walking”, “bathing”, “dressing and undressing”, “using the toilet” and “transferring”.

Conclusion: this study showed that the self-care domain with the highest level of dependence is “walking” self-care, and the lowest is “feeding”. Greater autonomy in using the toilet, walking and transferring from bed to chair were shown to be self-care activities with the best ability to predict patient autonomy.

Descriptors:
Activities of Daily Living; Amputation; Disabled Person; Lower Limb; Self-care; Vascular Disease


Highlights:

(1) Dysvascular major lower limb amputation interferes with activities of daily living.

(2) Self-care with the highest level of dependency is “walking”.

(3) Self-care with the lowest level of dependency is “feeding”.

(4) Develop future interventions on the degree of dependency of patients with dysvascular amputation.

Objetivo: identificar las características sociodemográficas y clínicas de personas con amputación mayor de miembro inferior de origen vascular y evaluar su nivel de dependencia y autonomía en las actividades de autocuidado en el hogar.

Métodos: estudio cuantitativo, exploratorio, transversal y descriptivo. La muestra por conveniencia estuvo compuesta por 40 participantes. Para la recolección de datos se utilizó un cuestionario sociodemográfico y la versión corta del Formulario de Evaluación de Dependencia de Autocuidado.

Resultados: de los 40 (100%) participantes, la mayoría eran hombres; el 75% tenía más de 65 años y el 77,5% fue sometido a amputación transfemoral. En relación al nivel de dependencia predominaron las actividades relacionadas con el autocuidado: “caminar”, “bañarse”, “vestirse y desvestirse”, “ir al baño” y “trasladarse” y en cuanto a la autonomía el 72,5 % se limitó a un silla de ruedas.

Conclusión: el dominio del autocuidado con mayor nivel de dependencia es “caminar” y el más bajo es el “alimentarse”. Una mayor autonomía en el uso del baño, caminar y pasar de la cama a la silla resultaron ser actividades de autocuidado con mayor capacidad para predecir la autonomía del paciente.


Actividades Cotidianas; Amputación; Persona con Discapacidad; Miembro Inferior; Autocuidado; Enfermedad Vascular


Destacados:

(1) La amputación disvascular mayor del miembro inferior interfiere con las actividades de la vida diaria.

(2) El autocuidado con mayor nivel de dependencia es “caminar”.

(3) El nivel más bajo de dependencia del autocuidado es “alimentarse”.

(4) Desarrollar futuras intervenciones sobre el grado de dependencia de los pacientes con amputación disvascular.

Introdução

A amputação de membro inferior (AMI) altera e afeta vários aspectos da vida da pessoa amputada e apresenta desafios para ela, mostrando, sobretudo, um impacto global e significativo na morbidade dos amputados ( 1 ) . A causa mais comum de amputação de membro inferior (AMI) é a amputação de causa vascular, definida como secundária às complicações de doença arterial periférica, diabetes mellitus (DM) ou ambas, com mais de 80% das amputações de membro inferior devido à etiologia vascular ( 2 - 3 ) . A doença arterial periférica (DAP) ocorre em pessoas com DM. Ela geralmente é assintomática, com prevalência estimada de 10% a 20%. Além disso, a presença do DM leva à inflamação crônica e ao estresse oxidativo, que exacerbam ainda mais a DAP e retardam a capacidade do corpo de reparar o tecido isquêmico. A presença desses processos patológicos pode levar a uma maior incidência de complicações, incluindo dor, redução da funcionalidade e aumento do risco de morte ( 4 ) .

Uma amputação de membro inferior é um evento que muda a vida e pode ter repercussão negativa na saúde física e mental de uma pessoa ( 2 ) . Apenas dois terços dos pacientes são encaminhados a centros de adaptação de membros após a amputação, sendo que somente 40% desses pacientes acabam recebendo um membro protético. Como resultado, a maioria dos pacientes permanece dependente de cadeira de rodas após a amputação ( 5 - 6 ) . Estudos observacionais mostram que a capacidade funcional, 12 meses após a AMI de causa vascular, compromete a função física e que apenas 39% dos pacientes retornam aos níveis anteriores de mobilidade ( 7 ) . Os resultados da reabilitação após a amputação de causa vascular são ruins, com os pacientes apresentando maior incapacidade do que 95% da população em geral ( 8 ) .

Pessoas com DAP e DM que sofrem amputação geralmente têm problemas de saúde pré-existentes e podem apresentar comprometimento cognitivo ( 9 ) . A perda de membros de causa vascular está associada a alta prevalência de múltiplos problemas de saúde que podem afetar negativamente o bem-estar geral e a capacidade funcional de um indivíduo ( 10 ) . As amputações de membros inferiores (AMIs) de causa vascular submetidos à amputação transfemoral têm um risco maior de mortalidade no primeiro ano após a cirurgia, indicando a presença de doença vascular mais grave. A fragilidade dessa população se reflete em uma taxa de mortalidade mais alta na maioria dos pacientes idosos ( 11 ) .

A mortalidade é particularmente alta em pacientes submetidos à amputação transfemoral no primeiro ano após a cirurgia. As taxas de mortalidade mais altas observadas em idosos, especialmente entre aqueles com doença cardíaca grave e submetidos à hemodiálise, indicam a vulnerabilidade dessa população. A amputação de causa vascular do membro inferior surgiu como um dos principais contribuintes para a prevalência global de incapacidade ( 11 - 12 ) . Pessoas com amputações de membros inferiores de causa vascular enfrentam desafios para participar de atividades físicas devido a doenças crônicas, deficiência grave e fatores psicológicos e sociais não abordados ( 13 ) . Amputados de membros inferiores (MI) com condições vasculares relatam um declínio em suas habilidades funcionais, levando a uma percepção de capacidade física e independência reduzidas ( 14 ) .

A AMI é responsável por deficiências físicas que podem limitar a capacidade de um amputado de desenvolver as atividades na vida diária. É possível que os pacientes sofram uma perda debilitante de independência, ocasionando, eventualmente, mudanças físicas, comportamentais e psicológicas. A mobilidade é alterada em todos os amputados, a atividade física é reduzida e é difícil para os pacientes permanecerem ativos devido ao aumento do gasto de energia ( 1 ) . Os amputados de membros inferiores enfrentam um problema funcional fundamental, além da limitação do movimento independente na vida diária, levando ao aumento da dependência ( 1 ) .

Uma pessoa dependente é definida como aquela que tem a capacidade limitada ou a incapacidade de iniciar e desenvolver atividades importantes para o próprio bem-estar, para a saúde e a manutenção da vida sem a assistência de outra pessoa ( 15 ) . Isso inclui atividades da vida diária, como tomar banho, higiene pessoal, transferir-se, ir ao banheiro, caminhar, comer e se posicionar ( 16 ) . Para entender as verdadeiras necessidades de uma pessoa, não basta dizer que ela é dependente de outras pessoas para o autocuidado. Também o tipo, a quantidade e a natureza do apoio necessário podem variar conforme a área de dependência da pessoa e das habilidades do cuidador ( 17 ) . O uso de uma ferramenta de avaliação robusta e confiável que possa avaliar o nível de dependência de acordo com as diferentes áreas de autocuidado é muito importante para que os profissionais de saúde possam elaborar um plano de alta que seja centrado no paciente ( 17 ) .

Este estudo faz parte de um projeto de pesquisa de doutorado mais amplo que identifica e reconhece o perfil da pessoa com amputação maior de membro inferior de causa vascular. Os objetivos deste estudo foram: identificar as características sociodemográficas e clínicas de pessoas com amputação de membro inferior maior, de origem vascular, e avaliar o nível de dependência e autonomia nas atividades de autocuidado, no domicílio.

Este estudo pode contribuir para o desenvolvimento de intervenções e programas para a capacitação de pessoas amputadas e cuidadores em relação à dependência do autocuidado relacionado à deficiência de uma amputação maior de membro inferior por doença arterial periférica na transição para o domicílio.

Método

Tipo e local do estudo

Estudo quantitativo, exploratório, transversal e descritivo, conduzido de acordo com as diretrizes do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) para estudos observacionais, com o objetivo de avaliar a dependência do autocuidado nas atividades de vida diária da pessoa com amputação maior de membro inferior de origem vascular. A pesquisa faz parte de um estudo maior, exploratório, transversal e de métodos mistos, com um paradigma predominantemente qualitativo, como parte de um projeto de doutorado em enfermagem. O estudo foi realizado em uma consulta de hemodinâmica para acompanhamento de doenças vasculares no serviço de cirurgia vascular de uma unidade hospitalar do norte de Portugal. A coleta de dados ocorreu entre maio de 2022 e junho de 2023.

População e amostra

A população da amostra deste estudo foi selecionada entre os pacientes que compareceram à consulta de hemodinâmica para doença vascular em um serviço de cirurgia vascular em um hospital no norte de Portugal, onde o estudo foi realizado. Os pacientes com amputação maior de membro inferior de causa vascular e que compareceram à consulta foram recrutados para o estudo de acordo com os seguintes critérios de inclusão: (1) amputados com idade igual ou superior a 18 anos, (2) amputação maior de membro inferior devido à etiologia vascular, (3) que moravam em casa, (4) que recebiam assistência de um cuidador familiar para as atividades de vida diária (AVDs) em casa e (5) com capacidade cognitiva para entender. Os critérios de exclusão foram os seguintes: (1) recusa em assinar o termo de consentimento livre e esclarecido, (2) independência em todas as AVDs e (3) morar em casas de repouso e instituições.

A amostra por conveniência foi constituída por 40 pacientes com amputação maior de membro inferior maior de causa vascular recrutados para o estudo. Todos os participantes do estudo estavam morando em casa no momento da coleta de dados. A coleta de dados foi planejada para um período de um ano, com um total de 13 meses de coleta de dados, para entrar em contato com toda a população hospitalizada com amputação maior de membro inferior devido à DAP que estava sendo acompanhada na clínica. Novos pacientes sem consulta marcada foram identificados e incluídos no estudo. Da população acessível, cinco amputados morreram, cinco se recusaram a participar, sete não atenderam aos critérios de inclusão e oito faltaram às consultas e não remarcaram.

Instrumentos de coleta de dados

O estudo utilizou dois instrumentos:

  1. a)

    Questionário sobre variáveis sociodemográficas e clínicas: o instrumento foi desenvolvido para este estudo e consiste em duas partes, uma relacionada às variáveis sociodemográficas tais como sexo, idade, nível de escolaridade, status de emprego no momento da cirurgia, domicílio, destino após a alta, e quem o apoiou após a alta). As variáveis clínicas incluídas no instrumento foram: antecedentes clínicos, data da cirurgia, nível da amputação, data da alta e amputação contralateral anterior.

  2. b)

    Self-Care Dependency Evaluation Form (SCDEF) Short Version ( 18 ): Esse instrumento permite determinar as habilidades de autocuidado de pacientes com dependências. O instrumento contém 27 itens que relatam atividades de avaliação de autocuidado atribuídas a 10 domínios de autocuidado: andar, transferir-se, virar-se, levantar, ir ao banheiro, alimentar-se, arrumar-se, vestir-se e despir-se, tomar banho e tomar medicamentos. Cada atividade de autocuidado é pontuada em uma escala Likert de quatro pontos: (1) dependente, não participa, (2) precisa de ajuda de outra pessoa, (3) precisa de dispositivos de assistência e (4) totalmente independente, permitindo uma avaliação geral da dependência de autocuidado por domínio e atividade. Tal instrumento tem sido amplamente utilizado na avaliação da deficiência do autocuidado e apresenta boas propriedades métricas ( 18 ) .

Aspectos éticos

As premissas deontológicas recomendadas pela ética aplicada à pesquisa com seres humanos foram seguidas durante o processo metodológico; o estudo foi aprovado pelo comitê de ética do hospital onde se realizou a coleta de dados, de acordo com a Declaração de Helsinki. Cada formulário foi codificado com um número para garantir a confidencialidade. Os participantes que concordaram em participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Análise de dados

As análises estatísticas foram realizadas com o software IBM SPSS (versão 29). As variáveis contínuas são expressas como média ± desvio-padrão, e as variáveis categóricas são expressas como porcentagens ou número de observações. Elaborou-se uma análise de agrupamento em duas etapas para identificar grupos distintos dentro da amostra com base nos níveis de dependência de autocuidado. O processo de fusão foi baseado no Critério Bayesiano de Schwarz (CBS), que ajudou a determinar a estrutura ideal de agrupamento. A qualidade e a validade dos agrupamentos foram avaliadas por meio de pontuações de silhueta que variam de -1 a 1. Valores mais altos de silhueta indicam agrupamentos mais bem definidos. Além disso, os valores de BIC foram analisados para confirmar o número ideal de clusters . Os agrupamentos resultantes foram interpretados por meio da análise das médias e distribuições das pontuações de dependência de autocuidado em cada agrupamento.

Resultados

Características sociodemográficas e clínicas dos participantes

Dos 40 (100%) indivíduos com amputação maior de membros inferiores de origem vascular, a maioria eram homens (80%) e 20%, mulheres. A distribuição etária foi intervalada, sendo a faixa etária mais frequente entre 76 e 80 anos (27,5%) e a menos, entre 46 e 50 anos (2,5%) e 51 e 50 anos (2,5%). Em relação ao nível de escolaridade, 70% tinham quatro anos de educação básica, enquanto apenas 2,5% tinham educação universitária. Um total de 21% dos amputados estavam aposentados no dia da cirurgia e 5%, empregados. Em termos de situação de vida, 70% dos amputados viviam em uma casa com outra pessoa e 5%, sozinhos. Após a cirurgia de amputação, 85% dos indivíduos voltaram para casa após a alta hospitalar e 24% receberam apoio de um cônjuge ou parceiro após voltarem para casa com uma amputação. A Tabela 1 mostra as características sociodemográficas dos participantes investigados.

A Tabela 2 mostra as variáveis clínicas dos 40 (100%) indivíduos amputados. A totalidade dos indivíduos tinham DAP e 57,5% também tinham DM associada à DAP. Com relação ao número de comorbidades, 32,5% dos indivíduos tinham três comorbidades, 32,5%, duas, e apenas 12,5%, uma comorbidade (DAP). Um total de 77,5% dos amputados tinham uma amputação acima do joelho, 22,5%, abaixo do joelho, 7,5% uma amputação contralateral anterior do dedo e 7,5%, uma amputação transmetatarsal contralateral anterior. Cabe ressaltar que 15% dos participantes sofreram a amputação há menos de um ano, 50%, de um a cinco anos e 14%, por mais de cinco anos. Em termos de dispositivos de assistência usados para mobilidade, 72,5% dos amputados usavam apenas uma cadeira de rodas para mobilidade, 10% tinham uma prótese, mas continuavam a usar uma cadeira de rodas para mobilidade, 7,5% tinham uma prótese, mas precisavam usar muletas, 5% tinham uma prótese e outros 5% usavam cadeira de rodas e muletas para mobilidade.

Tabela 1 -
Distribuição numérica e porcentual dos participantes, segundo as variáveis sociodemográficas (n = 40). Vila Nova de Gaia, VNG, Portugal, 2022-2023

Tabela 2 -
Distribuição numérica e porcentual dos participantes, segundo as variáveis clínicas (n = 40). Vila Nova de Gaia, VNG, Portugal, 2022-2023

Grau de dependência por domínio de autocuidado

A avaliação da dependência da AMI no autocuidado foi realizada de acordo com os 10 domínios incluídos na versão curta do SCDEF, ou seja, “andar”, “transferir-se”, “virar-se”, “levantar”, “usar o banheiro”, “alimentar-se”, “arrumar-se”, “vestir-se e despir-se”, “tomar banho” e “tomar medicamento”. O autocuidado é classificado por meio de uma escala Likert de quatro pontos em cada domínio de autocuidado: (1) dependente não participa, (2) precisa de ajuda de outra pessoa, (3) precisa de dispositivos de assistência e (4) totalmente independente, o que ajuda a avaliar o nível de dependência e as necessidades do amputado de MI em relação às atividades da vida diária.

Em relação ao autocuidado “andar”, três atividades foram incluídas nesse domínio para avaliar o autocuidado, ou seja, manter o corpo em uma posição ereta, ficar de pé sem qualquer tipo de ajuda de dispositivos de assistência ou de outra pessoa, usar dispositivos de assistência que incluem muletas ou prótese. Quanto aos três domínios incluídos, 5% dos amputados de MI conseguem ficar de pé sem qualquer tipo de ajuda de dispositivos de assistência ou de outra pessoa, 70% precisam usar dispositivos de assistência que incluem muletas ou prótese e 12,5% não conseguem ficar de pé, respectivamente.

Com relação à atividade de subir e descer escadas, 70% dos amputados de MI são incapazes de fazê-lo, 22,5% sobem e descem escadas usando muletas e prótese e 7,5% podem subir e descer escadas com a ajuda de uma pessoa. Na atividade de caminhar distâncias médias, 72,5% dos amputados de MI conseguem fazê-lo com a ajuda de muletas, prótese ou cadeira de rodas; 7,5% dos participantes não conseguiram caminhar distâncias, mesmo com ajuda ou dispositivos de assistência.

No autocuidado “Transferir-se”, que avalia a capacidade dos amputados de MI de se transferirem da cama para a cadeira/cadeira de braços e da cadeira/cadeira de braços para a cama, 62,5% exigem o uso de dispositivos de assistência para realizar a transferência, 27,5% não conseguem realizar a transferência de forma independente ou com o uso de dispositivos de assistência e exigem a ajuda de outra pessoa para realizar a transferência. Apenas 10% dos amputados de MI conseguiram transferir-se da cama para a cadeira/cadeira de braços e da cadeira para a cadeira de braços de forma independente, sem o uso de dispositivos de assistência ou ajuda de outra pessoa.

Em relação ao domínio de autocuidado “virar-se”, o qual avalia se a pessoa com amputação de membro inferior move o corpo de um lado para o outro, os resultados mostram que 65% dos amputados precisam de dispositivos de assistência, 7,5% conseguem se virar somente com a ajuda de outra pessoa e 27,5% são totalmente independentes nesse domínio. No que se refere ao autocuidado “levantar”, que consiste na capacidade de levantar uma parte do corpo, a maioria dos participantes, 52,5% dos amputados, é independente, 40,0% precisam de dispositivos de assistência e 7,5% precisam da ajuda de outra pessoa.

No autocuidado “usar o banheiro”, em relação à atividade de posição no vaso sanitário ou na arrastadeira, 77,5% dos amputados de MI precisam de dispositivos de assistência; na habilidade de levantar-se do vaso sanitário, 72,5% dos participantes precisam de dispositivos de assistência; em relação à atividade de arrumar as roupas após a higiene pessoal, 27,5% precisam de dispositivos de assistência e 45% são completamente independentes.

Em relação ao autocuidado “alimentar-se”, a maioria dos amputados de MI (92,5%) são independentes para abertura dos recipientes, 97,5% são independentes para segurar um copo ou uma xícara, mas 87,5% precisam da ajuda de outra pessoa para preparar alimentos para comer.

O cuidado com as unhas é a atividade relacionada ao autocuidado “arrumar-se” com maior dependência, com 97,5% precisando da ajuda de outra pessoa; em relação às atividades pentear o cabelo, aplicar desodorante e manter a higiene bucal, a maioria dos participantes é independente.

O autocuidado “vestir-se e despir-se” inclui cinco atividades; nelas, 67,5% dos amputados de MI precisam da ajuda de outra pessoa para amarrar os sapatos e 65% precisam da ajuda de outra pessoa para calçar as meias. Um total de 82,5% eram totalmente independentes para se vestir, 52,5% precisavam da ajuda de outra pessoa para escolher roupas e 47,5% precisavam da ajuda de outra pessoa para vestir a parte inferior do corpo.

Uma das atividades de autocuidado com maior nível de dependência na pessoa com AMI é a atividade de autocuidado “tomar banho”, relacionada à obtenção de itens para o banho; 92,5% dos amputados de MI precisam da ajuda de outra pessoa, na capacidade de lavar o corpo, um total de 85,0% precisa da ajuda de outra pessoa. Um total de 55% dos amputados de MI eram completamente independentes na abertura da torneira para o banho. Com relação à atividade de autocuidado “tomar remédio”, 85,0% dos amputados de MI precisam da ajuda de outra pessoa para preparar a medicação, e com relação à atividade “tomar remédio”, 82,5% são independentes.

Para criar uma variável geral, os itens de cada domínio foram combinados. A Tabela 3 mostra a conversão das dez variáveis calculadas relacionadas a diferentes atividades de autocuidado em uma única variável composta chamada de nível de dependência geral.

A Tabela 3 mostra que o domínio de autocuidado com alto nível de dependência é o autocuidado “andar”, com média de 2,28 e desvio-padrão de 0,59. A seguir encontrou-se o autocuidado “tomar banho”, com média de 2,41 e desvio-padrão de 0,47; autocuidado “vestir-se e despir-se” com média de 2,81 e desvio-padrão de 0,61%; autocuidado “usar o banheiro” com média de 2,83 e desvio-padrão de 0,65; e autocuidado “transferir-se” com média de 2,83 e desvio-padrão de 0,56%.

Tabela 3 -
Média, desvio-padrão, mínimo e máximo para cada domínio do autocuidado. Vila Nova de Gaia, VNG, Portugal, 2022-2023

Ao considerar os domínios de autocuidado com menores níveis de dependência, o autocuidado “alimentar-se” mostrou-se com o menor nível de dependência, com média de 3,45% e desvio-padrão de 0,32%, seguido pelo autocuidado “levantar” com média de 3,45% e desvio-padrão de 0,64%; autocuidado “vestir” com média de 3,37% e desvio-padrão de 0,48%; autocuidado “virar-se” com média de 3,20% e desvio-padrão de 0,56%; e autocuidado “tomar medicamentos” com média de 3,19% e desvio-padrão de 0,75%.

O nível global de dependência de autocuidado dos amputados de MI, neste estudo, apresentou média de 2,99% com desvio-padrão de 0,43%, e quase todos os participantes necessitaram de assistência nos domínios de autocuidado avaliados. Os tipos de dispositivos de assistência usados por amputados de MI para auxiliar nas atividades de autocuidado incluíam dispositivos ambulatoriais, como cadeiras de rodas, muletas e prótese. Os amputados de MI usavam bancos de banho, barras de apoio e cadeiras de banho como dispositivos de assistência para ajudar no banheiro. No quarto, eles usavam a cabeceira e as bordas da cama para auxiliar na virada, elevação e transferência, e não usavam dispositivo de assistência para se adaptar à cama e auxiliar nas atividades de autocuidado.

A análise de cluster em duas etapas identificou dois clusters distintos dentro da amostra de indivíduos com amputação maior de membro inferior maior de causa vascular, com altas pontuações de silhueta indicando boa coesão e separação entre os clusters . O cluster 1 incluiu uma proporção maior de pacientes mais velhos, frágeis e dependentes. A Tabela 4 fornece uma descrição detalhada dos clusters formados, incluindo suas características sociodemográficas e clínicas, bem como seu nível de dependência no autocuidado.

Maior autonomia no uso do banheiro, deambulação e transferência da cama para a cadeira mostraram-se atividades de autocuidado com melhor capacidade de predizer a autonomia desse tipo de paciente ( Figura 1 ).

Tabela 4 -
Características do cluster . Vila Nova de Gaia, VNG, Portugal, 2023

Discussão

Este estudo é o primeiro a examinar o nível de dependência de autocuidado nas atividades de vida diária, em indivíduos que sofreram uma amputação de membro inferior maior de origem vascular. Para este estudo utilizou-se um instrumento que permite uma avaliação priorizada e operacional das competências de autocuidado em indivíduos com amputações maiores de membros inferiores, divididas em 10 domínios.

Ao analisar os indivíduos que sofreram uma amputação maior de membro inferior de causa vascular obteve-se, além de informações valiosas sobre as suas características sociodemográficas e clínicas, o nível de dependência de assistência para as atividades da vida diária. Em relação ao sexo, 40 (80%) dos participantes eram homens, e 20%, mulheres. Estudos anteriores mostram que os homens têm um risco maior de amputação de membros inferiores do que as mulheres ( 19 ) , o que pode ser explicado por taxas mais altas de doença arterial periférica, neuropatia periférica e tabagismo em homens do que em mulheres ( 20 - 21 ) . A menor incidência de amputação de membros inferiores em mulheres com doença vascular pode ser explicada pelo efeito do estrogênio na redução da patologia vascular ( 22 ) .

Quanto à idade dos amputados de membros inferiores, a faixa etária mais frequente foi entre 76 e 80 anos, representando 27,5% da amostra, e a faixa etária menos comum foi entre 46 e 50 anos, representando apenas 2,5% dos participantes. Evidências anteriores sugerem que a maioria das amputações atuais é secundária a doenças de causa vascular e a prevalência de DAP aumenta significativamente com a idade, tanto em homens quanto em mulheres. Em pessoas com idade inferior a 50 anos, a prevalência é de 15% a 20%, aumentando para 15% a 20% aos 80 anos de idade ( 23 - 24 ) .

Figura 1
- Preditores de cluster

No presente estudo, 40% dos amputados de membros inferiores com disfunção vascular encontravam-se aposentados precocemente antes da amputação. Estudos anteriores relataram que a claudicação intermitente é uma manifestação de doença arterial periférica, resultando em mobilidade e qualidade de vida reduzidas ( 25 ) . Mesmo em pacientes com doença arterial periférica com ou sem sintomas atípicos, o comprometimento funcional está presente; a fragilidade é comum em pacientes com DAP sintomática e está associada ao comprometimento da marcha ( 25 - 26 ) .

Os pacientes mais velhos têm menor probabilidade de locomoção com prótese do que os mais jovens. Isso ocorre devido ao nível de amputação dos pacientes com amputação transtibial, pois eles têm duas vezes mais probabilidade de locomoção com prótese do que os pacientes com amputação transfemoral ( 27 ) . Na amostra do estudo, 72,5% dos amputados de membros inferiores tinham idade superior a 65 anos de idade, 77,5% tinham amputação transfemoral e 72,5% estavam confinados a uma cadeira de rodas. Pesquisadores ( 28 ) relataram que, em um período de três meses após a amputação, todos os grupos etários de amputados de membros inferiores apresentaram pontuações mais baixas para as funções físicas e que, após 12 meses de amputação, há uma diferença entre os grupos etários em nível funcional, com uma perda óbvia de função nos pacientes mais velhos. Esses pacientes precisam de um foco especial que requer reabilitação diária para recuperar suas funções físicas básicas. A função física em amputados de membros inferiores também pode ser afetada pelo número de comorbidades presentes.

Nossos resultados mostraram que 65% dos amputados de membros inferiores tinham pelo menos duas ou três comorbidades. Adultos que sofreram amputação de membros inferiores devido a doenças vasculares geralmente têm vários problemas de saúde ( 29 ) . A presença de múltiplas comorbidades em pacientes com doença vascular periférica avançada geralmente resulta em níveis elevados de fragilidade ( 30 ) .

Resultados da função física ruim, incluindo problemas de equilíbrio, diminuição da força e mobilidade limitada ou capacidade de andar, são comumente observados em pacientes com amputações de membros inferiores de causa vascular. As pessoas com amputações de membros inferiores de causa vascular geralmente apresentam uma série de problemas de saúde que afetam seu bem-estar físico e sua capacidade de realizar tarefas diárias ( 10 , 31 ) . Nosso estudo constatou que, estatisticamente, os domínios de autocuidado com maior dependência em amputados de membros inferiores maiores com disfunção vascular foram “caminhar”, “tomar banho”, “vestir-se e despir-se”, “usar o banheiro”, “transferir-se”, sendo o autocuidado de caminhar o de maior dependência em nossos participantes. Caminhar e subir escadas são as atividades mais difíceis para indivíduos que sofreram amputação de membros inferiores. Os indivíduos com amputações transfemorais são particularmente afetados e não conseguem recuperar a capacidade de realizar atividades básicas e instrumentais da vida diária ( 32 ) .

Em relação às áreas de autocuidado com maior dependência de AVDs identificadas em nosso estudo, a literatura indica que os pacientes com mais de 12 meses após a amputação precisam de melhor assistência com higiene pessoal, tomar banho, vestir-se e despir-se e ir ao banheiro ( 28 ) . O declínio mais significativo na mobilidade, particularmente na marcha independente, foi observado 12 meses após a amputação. A capacidade do paciente de andar sem ajuda depende da presença de um membro protético ( 28 ) . De todos os participantes de nosso estudo, apenas 5% conseguiram andar usando apenas prótese. Doze meses após a amputação, a maioria dos amputados de membros inferiores ainda não consegue recuperar o mesmo nível de independência em suas atividades diárias ( 28 ) .

Os enfermeiros desempenham um papel importante no incentivo aos amputados de membros inferiores com disfunção vascular para que recuperem a independência nas atividades de autocuidado. De acordo com nossa análise de agrupamento, uma maior autonomia de autocuidado no uso do banheiro, na caminhada e na transferência da cama para a cadeira pode prever a autonomia nesse tipo de paciente. Estudos anteriores mostraram que a caminhada ajuda na recuperação da independência na realização de habilidades básicas e atividades da vida diária ( 33 ) . Intervenções de reabilitação domiciliar para amputados de membros inferiores de causa vascular com exercícios para melhorar o equilíbrio em pé, a capacidade de sentar e ficar em pé, as transferências e a mobilidade ajudam esses indivíduos a recuperar a mobilidade e a independência funcional mais cedo, contribuindo para melhorar a mobilidade e a qualidade de vida ( 34 ) .

Este estudo tem algumas limitações, como o tamanho da amostra não probabilística de pacientes de um único hospital no norte de Portugal. Portanto, deve-se ter cautela ao generalizar os resultados. Para aprimorar estudos futuros, recomenda-se aumentar o tamanho da amostra e estender a duração do estudo. Apesar das limitações, este estudo lança luz sobre o impacto da amputação de membros inferiores com disfunção vascular grave nas atividades da vida diária. Essas descobertas podem fornecer subsídios para o planejamento de pesquisas futuras sobre a dependência de uma pessoa com amputação maior de membro inferior de causa vascular em atividades da vida diária e para o desenvolvimento de intervenções e programas para ajudar no treinamento de pacientes, cuidadores e familiares.

Conclusão

Este estudo mostrou que o domínio de autocuidado com maior nível de dependência é “andar”, e o menor , “alimentar-se”. Maior autonomia no uso do banheiro, deambulação e transferência da cama para a cadeira mostraram-se atividades de autocuidado com melhor capacidade de predizer a autonomia de indivíduos com amputação de causa vascular. Os indivíduos com esse tipo de amputação têm idade superior a 65 anos de idade; apenas 5% são capazes de deambular com prótese e têm algum nível de dependência nos domínios de autocuidado relacionados às atividades da vida diária.

Uma ferramenta de avaliação confiável para avaliar o nível de dependência nos diferentes domínios de autocuidado de uma pessoa com amputação maior de membro inferior de causa vascular, ajuda a identificar as necessidades em relação às atividades de autocuidado. Identificar as necessidades pode contribuir para a compreensão da limitação funcional e incapacidade de uma amputação de causa vascular e o suporte de que o paciente necessita para realizar as suas atividades diárias.

Atualmente, há uma tendência de alta precoce com retorno antecipado à comunidade/casa quando o amputado ainda é totalmente dependente de outras pessoas. Nesse sentido, é essencial avaliar a dependência de uma pessoa com uma amputação maior de membro inferior de causa vascular nas atividades da vida diária, para, dessa forma, projetar intervenções e programas educacionais e melhorar sua capacidade de realizar atividades básicas da vida diária. As intervenções de reabilitação devem continuar após a alta com exercícios para melhorar a capacidade funcional e a independência nas atividades de autocuidado. Os cuidadores familiares devem estar envolvidos desde o início dessas intervenções e programas para apoiar o paciente que foi submetido a amputação de membro inferior a recuperar algum nível de independência na realização de atividades da vida diária, contribuindo assim para a sua autonomia.

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  • Como citar este artigo
    Rodrigues DF, Machado PAP, Martins T, Carvalho ALRF, Pinto CMCB. Self-care dependency assessment of person with lower limb amputation: an exploratory study. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2024;32:e4332 [cited]. Available from: . https://doi.org10.1590/1518-8345.7424.4332
  • Todos os autores aprovaram a versão final do texto.

Editado por

  • Editor Associado:
    Juan Manuel Carmona Torres

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2024
  • Aceito
    05 Maio 2024
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