Resumo
Este estudo realizou uma revisão descritiva e exploratória da literatura com o objetivo de descrever como a disponibilidade, o acesso e o consumo de alimentos são permeados e relacionados a questões de gênero. A partir de uma pesquisa em bases de dados e de busca manual, foram encontrados 833 resumos, dos quais foram selecionados 37 textos completos com base nos critérios de inclusão. Os resultados mostram que há acentuadas diferenças de gênero em diferentes dimensões da segurança alimentar. As mulheres estão particularmente suscetíveis à insegurança alimentar, sendo os domicílios chefiados por mulheres os mais expostos a essa condição (n=4). Entre as mulheres em insegurança alimentar há maior prevalência de obesidade quando comparadas àquelas com segurança alimentar (n=8). Por sua vez, os estudos indicam que na alimentação as mulheres subordinam suas próprias necessidades a de seus filhos e parceiros (n=5). Em relação ao acesso aos alimentos consumidos no domicílio, os estudos corroboram a importância do papel das mulheres (n=3). As diferenças de género identificadas mostram a pertinência de abordagem e análise das questões relacionadas à alimentação e nutrição em diferentes contextos, bem como a formulação e implementação de políticas e intervenções de saúde pública.
Palavras-chave:
Equidade de Gênero; Alimentação Saudável; Insegurança Alimentar
Resumen
En este estudio se llevó a cabo una revisión de la literatura, de tipo descriptivo y exploratorio con el objetivo de describir cómo la disponibilidad, el acceso y el consumo de alimentos se ven atravesados y vinculados al género. A partir de la búsqueda en bases de datos y de la búsqueda manual, se recuperaron 833 resúmenes, de los cuales finalmente se seleccionaron 37 textos completos con base en los criterios de inclusión. Los resultados muestran que existen marcadas diferencias de género en diferentes aspectos de la seguridad alimentaria. Las mujeres constituyen una población particularmente susceptible a la inseguridad alimentaria, siendo los hogares encabezados por mujeres los más expuestos a dicha situación (n=4). A su vez, entre las mujeres con inseguridad alimentaria existe una mayor prevalencia de obesidad en comparación con aquellas que estuvieron en condición de seguridad alimentaria (n=8). Por su parte, estudios indican que, al momento de alimentarse, las mujeres subordinan sus propias necesidades a las de sus hijos y parejas (n=5). En relación al acceso a los alimentos que se consumen en el hogar, las investigaciones coinciden acerca de la importancia del rol de las mujeres (n=3). Las diferencias de género identificadas son un valioso aporte al momento de abordar y analizar los temas alimentarios y nutricionales en diferentes entornos, así como al momento de diseñar e implementar políticas e intervenciones de salud pública.
Palabras clave:
Equidad de Género; Dieta Saludable; Inseguridad Alimentaria
Abstract
In the present study, a descriptive and exploratory literature review was conducted, aimed at describing how food availability, access and consumption are crossed and linked to gender. From the database search strategy and manual search, 833 abstracts were retrieved from which 37 full texts were finally selected based on the inclusion criteria. The results show that there are marked gender differences in different aspects of food security. Women constitute a population particularly susceptible to food insecurity, with female-headed households being the most exposed to food insecurity (n=4). In turn, among food insecure women there is a higher prevalence of obesity compared to those who were food secure (n=8). Studies indicate that women subordinate their own needs to those of their children and partners when feeding themselves (n=5). In relation to access to food consumed within the household, the studies coincide on the importance of the role of women (n=3). The gender differences identified are a valuable contribution when addressing and analyzing food and nutrition issues in different settings, as well as when designing and implementing public health policies and interventions.
Keywords:
Gender Identity; Healthy Diet; Food insecurity
Introdução
A alimentação é um fenômeno multidimensional e complexo que envolve processos fisiológicos, mas também práticas, conhecimentos e representações que estruturam - e são estruturados por - o que é considerado “comida” em um determinado lugar e tempo. Cada sociedade define como os alimentos são obtidos, conservados e preparados, quais podem ser ingeridos, como, quando, com quem e por quem podem ser consumidos (Aguirre, 2004; Contreras; Arnaíz, 2005). A aquisição, o preparo e o consumo de alimentos são permeados por papéis de gênero que remetem às diferenças impostas aos indivíduos com base em seu sexo. Essas diferenças se manifestam em desigualdades de comportamentos, papéis e tarefas que são atribuídos a homens e mulheres em relação à alimentação. Além disso, elas respondem a imaginários sobre as tarefas que correspondem a diferentes gêneros e estruturas de poder ocorridas nos domicílios e na sociedade. Nesse contexto, para compreender melhor os impactos de gênero nos comportamentos alimentares, é necessário considerar o tempo e o espaço onde a análise é realizada e a noção de gênero na qual se baseia. (Gil-Romo; Coria, 2007; Rodrigues; Goméz-Corona; Valentin, 2020).
Nas últimas décadas ocorreu uma transformação radical no processo de alimentação e nutrição denominada transição nutricional (Blanco; Carmona, 2005), que se caracteriza pela substituição da dieta rural “tradicional” por uma dieta moderna, opulenta, “ocidental” (rica em gorduras - especialmente saturadas - açúcares, alimentos processados e pobres em fibras e carboidratos complexos). Esse processo surgiu nos países mais desenvolvidos, mas atualmente está atingindo grande parte dos países de renda média (Baker et al., 2020). Não se trata de uma simples mudança alimentar, mas de um processo multifatorial de mudanças comportamentais socioculturais, econômicas e individuais, que têm contribuído para o aumento da obesidade e da incidência de doenças não transmissíveis no perfil epidemiológico global (Popkin, 2015; Popkin; Adair; Ng, 2012).
As evidências disponíveis indicam que as decisões sobre quem produz, fornece e consome alimentos geralmente se baseiam nas desigualdades de gênero que atingem mais as mulheres e as meninas. Da mesma forma, em consonância com a transição nutricional citada, observa-se que o sobrepeso e a obesidade afetam mais as mulheres (15,1%) do que os homens (11,1%) em todo o mundo. Especialmente na região da América Latina e do Caribe, a prevalência de obesidade tem a mesma tendência, com as mulheres ultrapassando os homens em pelo menos 10 pontos percentuais (Gunewardena, 2014).
Tanto pelo papel fundamental das mulheres no fornecimento de alimentos quanto pelas desigualdades existentes em relação à sua nutrição, é necessário e urgente incorporar uma perspectiva de gênero nos estudos sobre alimentação. A perspectiva de gênero é definida como uma abordagem que considera o gênero como uma construção social, cultural e psicológica das características atribuídas a homens e mulheres, que envolve relações de poder e que busca abranger os fatores culturais, econômicos e sociais que explicam as desigualdades entre os gêneros, superando as visões sobre as diferenças entre homens e mulheres baseadas apenas em aspectos biológicos, genéticos ou metabólicos (Oliva, 2013). Dessa maneira, o conceito de “gênero” busca abranger a construção sociocultural do que é considerado feminino ou masculino, sua posição na estrutura social, as expectativas sociais e os comportamentos esperados que são construídos para cada sexo (Scott, 1996). Apesar da distinção entre os conceitos de sexo e de gênero, observa-se que a literatura sobre alimentação emprega tais termos como intercambiáveis (Rodrigues; Goméz-Corona; Valentin, 2020, pp. 157).
As mulheres enfrentam várias limitações no acesso a alimentos saudáveis, incluindo a feminização da pobreza, o aumento da urbanização, a sobrecarga de tarefas domésticas, a valorização social excessiva das imagens femininas e a desigualdade de gênero nos sistemas alimentares (FAO et al., 2018; Patel, 2012). Essa situação deve ser entendida no âmbito de estruturas de poder desiguais que se perpetuaram ao longo do tempo e que estão inseridas em contextos culturais específicos (Rodrigues; Goméz-Corona; Valentin, 2020). A ausência de uma perspectiva de gênero na concepção das políticas públicas contribui para naturalizar e perpetuar as desigualdades existentes nos sistemas alimentares. Por isso, considera-se necessário analisar os fenômenos alimentares e a distinção de gênero na alimentação a partir de uma perspectiva que permita abranger a multidimensionalidade do fenômeno e compreender as desigualdades no campo alimentar-nutricional para fornecer ferramentas de enfrentamento dessa condição (Hassim; Razavi, 2006).
Este trabalho utilizou o referencial conceitual de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) (FAO, 2011), desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 1996. A SAN é definida como um estado alcançado “quando todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso físico e econômico a uma alimentação que seja suficiente, segura, nutritiva e que atenda às necessidades nutricionais e preferências alimentares de modo a propiciar vida ativa e saudável” (FAO, 2011, p. 1). O conceito é composto por diferentes dimensões, incluindo: a) Disponibilidade, que se define como a oferta de alimentos, produção e comércio de alimentos a nível local ou nacional. Isso inclui a produção, bem como a importação, o armazenamento e a distribuição de alimentos; b) Acesso - engloba a capacidade das famílias/indivíduos de adquirir uma quantidade suficiente de alimentos, seja por um e/ou vários meios, como produção própria, coleta, compra de alimentos a preços atuais de mercado, troca ou permuta, recebimento ou doação, entre outros; c) Utilização, quando os alimentos utilizados pelas famílias satisfazem às necessidades nutricionais, diversidade, cultura e preferências alimentares.
Com base nas dimensões citadas, esta revisão teve como objetivo explorar o estado atual da literatura em âmbito global sobre a disponibilidade, consumo e/ou utilização de alimentos desde a perspectiva de gênero. Esta pesquisa faz parte de um projeto maior intitulado Improving diet quality through affordability and accessibility in Argentina.
Material e métodos
Desenho do estudo
Foi realizada uma revisão da literatura, descritiva e exploratória (Green; Johnson; Adams, 2006; Kable; Pich; Maslin-Prothero, 2012; Rother, 2007), com o objetivo de analisar como a disponibilidade, o acesso e a utilização de alimentos são permeados e relacionados a questões de gênero.
Neste trabalho foram consideradas as dimensões da Segurança Alimentar e Nutricional propostas pela FAO (2011). Para a dimensão da disponibilidade, o contexto de análise foram os pontos de venda de alimentos, uma vez que foi pertinente analisar essa dimensão em ambientes urbanos, onde a oferta está concentrada principalmente em lojas de varejo.
Unidades de análise
As unidades de análise foram todos os textos que atendiam aos critérios de inclusão da pesquisa e aos objetivos estabelecidos. Para a busca no Medline foi utilizada a seguinte estratégia: (Food Supply[Mesh] OR Food Insecurit*[tiab] OR Food Securit*[tiab]) AND (Sex[Mesh] OR Sex[tiab] OR Gender[tiab]), e para a busca no Lilacs foram utilizados os seguintes termos de pesquisa: MH Food Supply AND (gender OR genero). Foram incluídas revisões sistemáticas, meta-análises, revisões narrativas, estudos experimentais, estudos quase-experimentais, estudos observacionais, ensaios e estudos qualitativos.
Foram incluídos textos publicados nos últimos 15 anos (2004-2019) em inglês, espanhol e/ou português e que atendiam parcial ou totalmente aos objetivos da pesquisa. O recorte de tempo dos últimos 15 anos é baseado em um critério para incluir artigos que abrangem a discussão atual.
Foram excluídos estudos que se concentraram em populações com patologias específicas (HIV, doenças mentais, doenças crônicas, anemia, desnutrição etc.); aqueles que se enfocaram em populações específicas, como gestantes, mulheres vítimas de violência, comunidades indígenas, ou que se concentraram na autoprodução de alimentos. Optou-se por não incluir estudos que tratassem de populações com patologias específicas, porque a inclusão desse tipo de trabalho ampliava significativamente o corpus a ser estudado e não abrangia o foco do estudo (o caráter geral).
A coleta de dados foi realizada durante o segundo semestre de 2018 e início de 2019. Foi realizada uma estratégia de busca nas bases de dados Cochrane, Medline, Embase, Lilacs e Redalyc a partir de palavras-chave. Os critérios de busca foram discutidos em reuniões com a equipe formada por três revisores com o apoio de um especialista em estratégias de busca, para identificar os descritores mais adequados e definir a estratégia.
Além disso, foi realizada uma busca manual, a partir da qual foram incluídos textos citados em artigos resultantes da estratégia de busca inicial/primária e outros artigos recuperados no Google Acadêmico e Lilacs. A busca manual foi realizada para complementar a pesquisa a partir das palavras-chave, a fim de garantir a inclusão de todos os artigos relacionados ao tema.
Análise dos dados
Os artigos que atenderam aos critérios de inclusão passaram por uma revisão completa e foram sistematizados em uma matriz de análise elaborada a partir das dimensões da SAN e das subcategorias de análise identificadas na leitura. Nessa sistematização constam os dados de cada artigo (título, ano, autor, país, tipo de desenho) e os resultados mais relevantes. Durante as reuniões semanais, as revisoras discutiram a relevância da inclusão final de cada artigo. As decisões quanto à inclusão dos artigos foram tomadas por consenso levando em consideração os critérios de inclusão estabelecidos.
Aspectos éticos
Por ser uma revisão de textos publicados em bases de dados científicas, sites de acesso aberto e público, a pesquisa não precisou da aprovação de um comitê de ética.
Resultados
A partir da estratégia de busca nas bases de dados e da busca manual, foram encontrados 833 resumos. Foram selecionados 136 artigos para revisão completa, dos quais 99 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão do estudo (Figura 1).
Dos estudos incluídos (n=37), 17 foram realizados em países de renda baixa e média; dos quais 12 eram estudos da América Latina e do Caribe. Por sua vez, 17 artigos utilizaram metodologia quantitativa, 11 metodologia qualitativa, 2 metodologia mista, 4 foram revisões de literatura e 3 ensaios. Do total dos artigos, 5 abordaram a dimensão de disponibilidade (Tabela 1), 7 a dimensão de acesso (Tabela 2) e 25 a dimensão da utilização (Tabela 3).
Descrição dos estudos selecionados na revisão da literatura segundo a dimensão disponibilidade da SAN
Descrição dos estudos selecionados na revisão da literatura de acordo com a dimensão acesso da SAN
Descrição dos estudos selecionados na revisão de literatura de acordo com a dimensão utilização da SAN
Disponibilidade
Foram encontrados cinco estudos que destacaram a existência de diferenças de gênero em múltiplos aspectos que poderiam estar associados à disponibilidade de alimentos. Identificou-se um eixo central a partir do qual essas diferenças são analisadas, que está atrelado às percepções relacionadas às características dos supermercados e aos diferentes comportamentos de compra nas lojas varejistas de alimentos. Os estudos utilizaram metodologia quantitativa (n=4) ou mista (n=1) e constataram que homens e mulheres utilizam diferentes aspectos para orientar a decisão de compra nos supermercados. Por exemplo, em uma amostra de 280 compradores, Mortimer e Clarke (Mortimer; Clarke, 2011) observaram que os homens valorizam positivamente a rapidez e a comodidade, enquanto as mulheres atribuem maior importância aos preços dos produtos, à limpeza e à qualidade das ofertas dos supermercados. Resultados semelhantes foram relatados por Ceribeli e Merlo (2012) em estudo realizado no Brasil que apontou que as mulheres valorizam a qualidade dos produtos e a segurança do supermercado, enquanto os homens estavam mais preocupados com o tempo envolvido nessa atividade. Em quanto aos comportamentos de compra de mulheres de baixa renda com filhos, o estudo de Wiig e Smith (2009) mostrou que esse aspecto é influenciado pelas preferências individuais e familiares e pela situação econômica e ambiental, sendo o transporte e a acessibilidade aos pontos de venda como determinantes na frequência das compras.
Acesso
Foram encontrados sete artigos associados à dimensão de acesso. Nesse subgrupo, foram identificados dois eixos principais que problematizam como os alimentos são obtidos a partir da perspectiva de gênero: a) insegurança alimentar e a liderança feminina; b) o papel das mulheres no acesso à alimentação.
Os estudos que analisam a relação entre insegurança alimentar e liderança feminina (n=4) identificaram que as mulheres constituem uma população particularmente suscetível à insegurança alimentar, sendo os domicílios chefiados por mulheres os mais expostos a essa situação. Esses estudos utilizaram metodologia quantitativa, incluindo uma meta-análise (n=3) e estudos qualitativos (n=1).
Os estudos identificados (n=3) utilizaram o método qualitativo (n=1), quantitativo (n=1) e revisões de literatura (n=1), destacando a importância do papel da mulher no acesso aos alimentos consumidos no domicílio. Esses estudos indicam que são as mulheres que tomam decisões relacionadas à alimentação e ressaltam que, quando administram os recursos, a probabilidade de insegurança alimentar para a família é reduzida. Da mesma forma, a revisão da literatura explora a relação entre a globalização e os resultados nutricionais como um indicador da saúde da mulher na África Subsaariana (Loewenson; Nolen; Wamala, 2010). Destaca-se que o aumento do comércio global de produtos alimentares implicou mudanças na disponibilidade, acessibilidade e preço dos alimentos, afetando tanto as mulheres que vivem no campo quanto as mulheres que vivem em contextos urbanos. Quanto ao primeiro grupo, o estudo observou que houve um aumento na dependência de alimentos comprados e na participação das mulheres em produções comerciais nas quais elas não administram a renda. Por outro lado, as mulheres em empregos não agrícolas também tiveram maior insegurança alimentar devido à insegurança no emprego e na renda, ao maior custo dos alimentos e às limitadas possibilidades que tiveram para produzir alimentos em ambientes urbanos. As disparidades existentes no sistema alimentar e as assimetrias no acesso à alimentação entre os gêneros também são refletidas de forma mais ampla.
Consumo de alimentos
Quanto ao consumo alimentar por domicílio, foram encontrados 25 artigos. Por domicílio, foram identificados três eixos de análise nos quais podem ser observadas as desigualdades de gênero: a) a relação entre gênero, sobrepeso e insegurança alimentar; b) a distribuição desigual de alimentos por domicílio; e c) os papéis de gênero na alimentação familiar. Dos 25 artigos revisados, 23 abordam exclusivamente um dos eixos mencionados, enquanto os demais tratam de dois eixos ao mesmo tempo (Tabela 3).
Nesta revisão observou-se que 12 estudos abordaram o primeiro eixo que, como mencionamos, abrange as diferenças de gênero quanto à segurança/insegurança alimentar (no nível domiciliar e individual) e sobrepeso/obesidade; nove utilizaram metodologia quantitativa; um empregou metodologia qualitativa e dois estudos realizaram revisões de literatura. Os estudos encontrados foram consistentes em seus resultados, que apontam uma maior prevalência de obesidade em mulheres com insegurança alimentar em comparação com aquelas em segurança alimentar. Destaca-se aqui que essas diferenças não foram observadas no grupo dos homens.
Em relação ao segundo eixo, relacionado à distribuição desigual de alimentos por domicílio, foram identificados sete estudos, que incluem metodologia qualitativa (n=4), quantitativa (n=1) e mista (n=2). Os estudos envolvem países de diferentes níveis de desenvolvimento, e seus resultados coincidem em apontar que as mulheres cuidadoras se alimentam de forma diferente do restante do grupo familiar e distribuem os alimentos de forma desigual, subordinando suas próprias necessidades às de seus filhos e parceiros.
Por fim, em relação ao terceiro eixo, foram identificados oito estudos que discutem e refletem sobre a divisão sexual de tarefas e a participação social das mulheres no domicílio, dos quais três consistiram em ensaios e cinco em estudos qualitativos. Esses estudos concluem que os construtos sociais e os valores culturais estão embutidos nos papéis atribuídos às mulheres cuidadoras em relação à alimentação no domicílio e elas são as principais responsáveis pela alimentação familiar.
Discussão
A partir da revisão realizada, observamos que existem acentuadas diferenças de gênero nas dimensões da SAN revisadas (FAO, 2011), que precisam ser consideradas ao abordar e analisar questões alimentares e nutricionais em diferentes âmbitos, como o domicílio e as lojas de varejo. Essas diferenças também devem ser consideradas ao formular e implementar políticas e intervenções de saúde pública.
Em relação ao acesso à alimentação, os estudos identificados evidenciam uma relação entre os domicílios chefiados por mulheres e a insegurança alimentar. Essa relação aponta uma situação de vulnerabilidade em domicílios chefiados por mulheres. Ao analisar essa relação, é importante considerar que as desigualdades identificadas entre os domicílios chefiados por mulheres e os chefiados por homens não dizem respeito a decisões individuais, mas devem ser entendidas em um contexto de desigualdade onde essa população está exposta a diferentes oportunidades e restrições.
Uma dimensão relevante quando se analisa o consumo alimentar refere-se à divisão de papéis por domicílio, em que o gênero aparece como fator determinante na compreensão das práticas alimentares. As evidências analisadas indicam que as mulheres gerenciam os alimentos e assumem a provisão, organização, processamento e distribuição dos alimentos no domicílio. Observou-se também que, em contextos de privação econômica, as mulheres são as mais desfavorecidas, uma vez que dão prioridade à nutrição de outros membros da família em detrimento da sua própria alimentação.
Os estudos incluídos na revisão corroboram ao apontar que no grupo de mulheres com insegurança alimentar há situações de risco à sua saúde, como maior prevalência de obesidade, cenário que não ocorre no grupo dos homens, tanto em crianças quanto em adultos.
Além das contribuições indicadas, a revisão realizada possibilitou identificar áreas ou abordagens relevantes para se aprofundar em novas linhas de pesquisa e detectar lacunas de conhecimento. Em primeiro lugar, a análise da alimentação com base na perspectiva de gênero é um campo pouco desenvolvido na região da América Latina e do Caribe. São necessários mais estudos nessa linha que permitam compreender o contexto regional, descrevendo as possíveis diferenças existentes no território, tanto entre áreas urbanas quanto rurais, comportamentos em domicílios com diferentes níveis de renda, bem como diferenciar entre população crioula e nativa, residente e migrante etc. É fundamental incluir uma perspectiva interseccional que permita analisar a dimensão de gênero em interação com classe, etnia e outros aspectos estruturais de modo a ter uma compreensão mais abrangente das desigualdades existentes.
Em segundo lugar, em relação ao tipo de metodologia utilizada, é fundamental realizar estudos que abordem a complexidade do fenômeno utilizando metodologias mistas, incluindo métodos qualitativos e quantitativos e sua combinação, a fim de abranger os padrões existentes e promover a compreensão dos significantes e processos que atravessam as práticas de utilização, acesso e disponibilidade de alimentos em relação à perspectiva de gênero. Também são necessários mais estudos que abordem as mudanças ao longo do tempo para analisar possíveis convergências na distribuição de tarefas, responsabilidades e direitos à alimentação saudável por domicílio, compreender possíveis variações e identificar outros padrões de estereótipos de gênero e as influências de possíveis regulamentações nesse campo.
Nos estudos encontrados observou-se uma definição binária de gênero, ou seja, mulher-homem, sendo necessário e urgente incorporar um olhar que englobe os processos alimentares de outras identidades de gênero em estudos futuros. Os estudos identificados também utilizam uma abordagem biológica que não inclui a dimensão cultural da identidade de gênero nem promove discussões sobre conceitos como masculinidades e feminilidades de forma mais ampla. É importante destacar que os estudos incluídos não têm, em sua maioria, uma perspectiva de gênero no desenho de seu estudo. Esta revisão é considerada pertinente para enfatizar a necessidade de estudos que permitam uma compreensão mais complexa das relações de gênero de forma mais completa a partir de uma abordagem de gênero transformadora, sendo capaz de abranger as desigualdades existentes em termos de papéis, normas e relações. Além disso, este estudo propicia identificar que a interação entre papéis de gênero e alimentação na literatura é mais acentuada nas mulheres por estar permeada por relações patriarcais que se traduzem em diferentes práticas e condicionantes. Por fim, considera-se relevante o uso da interseccionalidade como arcabouço para abranger as diferenças de poder reproduzidas e invisibilizadas em determinadas práticas e compreender as relações não apenas de gênero, mas também de etnia, classe, idade e outras identidades (Rotz et al., 2022).
A principal contribuição deste trabalho consiste na inovação em abordar de maneira reflexiva o impacto do gênero na disponibilidade, acesso e utilização de alimentos, no entanto, também apresenta limitações. O uso do referencial teórico para segurança alimentar e nutricional (SAN) desenvolvido pela FAO (2011) também tem algumas ambiguidades conceituais e complexidades relacionadas à sua mensuração (Ebadi-Vanestanagh et al., 2019; Pérez-Escamilla; Segall-Corrêa, 2008), por isso representa uma limitação ao comparar os resultados de diferentes estudos. Observou-se nos estudos analisados que existem diferentes formas de operacionalizar o conceito, o que explica diferentes usos e significados atribuídos. No entanto, uma comparação sistemática das definições utilizadas em cada estudo não foi objeto deste trabalho.
Apesar dessas limitações, considera-se que o uso desse conceito foi adequado, uma vez que identificou estudos associados à disponibilidade, acesso e utilização de alimentos nas diferentes bases de dados científicas. Assim, diante da necessidade de realizar um recorte no estudo, optou-se por não incluir na busca os estudos que realizaram análises macrossociais, como as políticas públicas de alimentação e nutrição na perspectiva de gênero. Embora essas políticas sejam decisivas em muitos casos no acesso à alimentação e possam ser consideradas uma limitação deste estudo, enfocou-se em estudos que partem do domicílio como unidade de análise.
Os responsáveis pela implementação de políticas, acadêmicos e atores da sociedade civil precisam incorporar uma perspectiva de gênero para visualizar as desigualdades existentes no campo da alimentação. Isso poderia ocorrer tanto em pesquisas nacionais de nutrição quanto nos programas de prevenção e promoção, bem como na proteção social com uma componente nutricional.
Por fim, recomenda-se que as pesquisas no campo da nutrição incluam essa perspectiva de modo a fornecer subsídios para a elaboração, implementação e avaliação de políticas de alimentação sensíveis e inclusivas à temática de gênero. É fundamental que as políticas implementadas não perpetuem as desigualdades existentes, fornecendo justificativas e evidências para superá-las.
Conclui-se que esta revisão de literatura possibilitou identificar diferenças no acesso, utilização e disponibilidade de alimentos entre diferentes sexos que abrangem papéis e relações atravessadas pelas relações de gênero. Há também evidências da ausência de um corpus de estudos realizados a partir de uma abordagem real de gênero que forneça ferramentas para visualizar e transformar as relações existentes. Este estudo pode ser um ponto de partida relevante para identificar lacunas na literatura e desenvolver um campo de pesquisas de gênero sobre alimentação.
Agradecimentos
Agradecemos à Lorena Allemandi por sua colaboração na elaboração do manuscrito e à Marita Pizarro e Gabriela Lozano pelo apoio institucional da FIC Argentina. Da mesma forma, somos gratos à Clara Trebucq pela edição do documento e a Daniel Comandé por sua colaboração no processo de pesquisa bibliográfica. Por último, agradecemos ao International and Development Research Centre (IDRC) pelo financiamento concedido em 2018 ao projeto intitulado Improving diet quality through affordability and accessibility in Argentina (grant #108643-001).
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