Open-access “PrEP = Autonomia”: comunicação para prevenção ao HIV entre jovens na lógica da racionalidade neoliberal

Resumo

O objetivo deste artigo é analisar as dinâmicas da “virada biomédica” na prevenção da Aids no Brasil, destacando as interpelações culturais e políticas, geradas pelo processo de biomedicalização, particularmente no que diz respeito aos jovens. Atenta-se, em especial, para o modo pelo qual uma “racionalidade neoliberal” permeia e compõe tais processos. Utilizou-se a análise de conteúdo temática para explorar a disponibilização e os usos da profilaxia pré-exposição (PrEP) para prevenção ao HIV entre essa população, baseando-se nas publicações de um perfil de rede social em diálogo com a bibliografia acerca dessa questão. O cruzamento dessas fontes, aliado à análise do processo macropolítico de neoliberalização da prevenção ao HIV e da resposta brasileira à Aids, permitiu identificar dinâmicas complexas. Por um lado, essas dinâmicas revelam a produção de estigmas e discriminações. Por outro, apontam para a emergência de novos modos de pensar e viver a sexualidade e os afetos, especialmente em um cenário onde o preservativo perde centralidade. Além disso, observa-se a amplificação da noção de “indivíduo empreendedor de si”, característica marcante da subjetividade neoliberal, que reforça comportamentos individualistas e promove uma cidadania mediada pelo consumo de medicamentos.

Palavras-chave:
HIV/Aids; PrEP; Jovens; Prevenção; Racionalidade Neoliberal.

Abstract

This study examines the “biomedical turn” in Aids prevention in Brazil, focusing on the cultural and political dimensions of biomedicalization, particularly among young people. Special attention is given to how a “neoliberal rationality” permeates and shapes these processes. Thematic content analysis was used to explore the availability and use of pre-exposure prophylaxis (PrEP) for HIV prevention among this population, based on posts from a social media profile in dialogue with the bibliography on this issue. Cross-referencing these sources with an analysis of the macro-political process of neoliberalizing HIV prevention and Brazil’s Aids response revealed dynamics that affect young people in this context. Findings highlight the emergence of new stigmas and discrimination, as well as shifts in how sexuality and affectivity are perceived and experienced, particularly in a context where condoms are losing prominence. Furthermore, the study identifies an amplification of neoliberal subjectivity, characterized by the notion of the “self-entrepreneur,” which fosters individualistic behaviors and promotes a form of citizenship shaped by medication consumption.

Keywords:
HIV/Aids; PrEP; Prevention; Youth; Neoliberal Rationality.

Introdução

Nas últimas décadas, houve uma redução significativa no número de novas infecções pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e casos de síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids) em escala global (UNAIDS - The Joint United Nations Programme on HIV/AIDS, 2024), mesmo diante das desigualdades estruturais que impactam desproporcionalmente os países mais pobres (Parker, 2002). Um dos principais desafios contemporâneos é o aumento de infecções entre jovens, especialmente na faixa etária de 15 a 24 anos, em comparação com outros grupos etários. Estima-se que, em 2019, cerca de 2 em cada 7 novas infecções por HIV, globalmente, ocorreram neste grupo etário, representando aproximadamente 28% do total de casos (UNAIDS - The Joint United Nations Programme on HIV/AIDS, 2021).

No Brasil, entre os 489.594 casos de HIV notificados, de 2007 a 2023, o grupo de 15 a 24 anos representou 23,4% do total, com 25% entre os homens e 19,6% entre as mulheres. Entre 2012 e 2022, 52.415 jovens vivendo com HIV evoluíram para Aids, evidenciando a relevância do desenvolvimento da doença nessa faixa etária e a urgência de esforços para promover a vinculação aos serviços de saúde e a adesão à terapia antirretroviral (Brasil, 2023). Nesse grupo, os homens destacam-se como os mais vulneráveis, com a maior proporção de casos não diagnosticados e altas taxas de crescimento na incidência. Eles apresentaram o maior aumento anual na incidência de HIV, com uma taxa de crescimento de 3,7% ao ano, entre 2000 e 2018 (Szwarcwald et al., 2022).

Desde os anos 1980, a maior vulnerabilidade de adolescentes ao HIV tem sido associada às características dessa fase da vida, marcada pelo início das relações sexuais em meio a transições biológicas, sociais e psicológicas, em um cenário de precariedade laboral e dificuldade em traçar planos de vida futura. Esses jovens frequentemente formam redes de parcerias sexuais diversificadas e enfrentam acesso limitado a serviços de saúde integral. Fatores, como identidade de gênero, orientação sexual, classe social e raça/cor da pele, amplificam as desigualdades no risco de infecção, impactando de forma desproporcional jovens lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexo, assexuais, pansexuais e pessoas não binárias (LGBTQIAPN+) e negros, que frequentemente enfrentam violência, estigma e preconceito desde a infância (Grangeiro et al., 2023).

A crescente incidênciade HIV entre jovens também reflete mudanças sociais e culturais a partir dos anos 2000, incluindo a ressignificação de identidades de gênero, novos arranjos afetivo-sexuais, o uso de tecnologias para encontros sexuais e o consumo sexualizado de substâncias. Tais mudanças coincidiram com um período de fortalecimento das políticas de inclusão social no Brasil e do reconhecimento dos direitos da população LGBTQIAPN+. Portanto, compreender esses fatores é essencial para abordar os novos desafios da epidemia (Grangeiro et al., 2023).

Este artigo insere-se em um contexto marcado pela interseção de diversas dimensões: a longa trajetória de respostas nacionais e globais à epidemia de Aids; a chamada “virada biomédica” no campo da prevenção; a implementação progressiva da Profilaxia Pré-Exposição para prevenção ao HIV (PrEP); as tensas negociações entre os discursos de prevenção à Aids e as questões de gênero e sexualidade, especialmente no que se refere às culturas juvenis; e as complexas articulações que envolvem o desfrute dos prazeres sexuais em combinação com o uso de tecnologias biomédicas, um cenário particularmente desafiador no caso dos jovens. Tendo em vista esse cenário, analisou-se as dinâmicas da “virada biomédica” na prevenção da Aids no Brasil, destacando as interpelações culturais e políticas geradas pelo processo de biomedicalização, enfatizando postagens realizadas em um perfil no Instagram gerido por jovens.

Todos esses processos ocorrem no interior do que se denomina de ordem neoliberal, portadora de uma determinada racionalidade, a racionalidade neoliberal (Dardot; Laval, 2016). Uma marca decisiva da racionalidade neoliberal é aquela do empreendedorismo individual ou empreendedorismo de si. Sob a lógica empreendedora, todos e todas devem converter-se em empresários de si mesmos, o que pode também ser definido pelo seu revés, empregados de si mesmos (Ortega; Zorzanelli, 2010). Pensada esta marca no campo das políticas de PrEP, o medicamento, enquanto bem público disponibilizado a alguém, poderá ser consumido sob essa racionalidade empreendedora. Explorar os principais elementos que estruturam a racionalidade neoliberal é necessário para entender de que modo isso modula as respostas à Aids no atual contexto.

Foucault (2008) foi pioneiro ao mostrar que o neoliberalismo não pode ser tomado como simples sistema econômico. O autor define o neoliberalismo como uma racionalidade política, que busca reorganizar a sociedade em torno das relações de mercado. Tal racionalidade implica na consideração do outro como um concorrente, um competidor e, no limite, um inimigo. Situado no interior da lógica capitalista, o sujeito está sempre pressionado a deixar de ser reconhecido como cidadão, e passar a ser reconhecido como consumidor, ganhando acesso a reconhecimento pela via do seu nível de consumo. Na órbita da racionalidade neoliberal, o deslocamento se acentua, para obter o reconhecimento pelo seu ingresso na condição de entidade econômica empreendedora.

É ao abrigo desse quadro político mais amplo, e com o uso desta gramática da qual se pinçam algumas categorias conceituais essenciais, que se produz a chamada “virada biomédica” no campo da prevenção à Aids. Por virada biomédica entende-se o deslocamento produzido nas estratégias de prevenção à Aids, de uma ênfase em procedimentos que envolvem o diálogo e as negociações - como oficinas de sexo seguro, estratégias para uso do preservativo, necessidade de discussão da equidade de gênero, campanhas de educação sexual, abordagens educativas em gênero e sexualidade e direitos reprodutivos, conexão da prevenção à Aids com o campo dos direitos humanos - para uma ênfase pautada em estratégias de uso intensivo de medicamentos.

As estratégias que marcam esse contexto biomedicalizado são a PrEP, a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) e o Tratamento como Prevenção (TcP), todas inseridas em um modelo de gestão do risco e controle biomédico ao HIV e à Aids. Essas intervenções não apenas representam avanços no enfrentamento da epidemia, mas também redefinem a experiência de prevenção e os modos de subjetivação dos indivíduos que as incorporam (Silva Junior; Brigeiro; Monteiro, 2023). Nosso esforço é o de analisar os impactos sociais, culturais e de registro simbólico que se produzem após tais encontros.

O conceito de “biomedicalização”, conforme proposto por Adele Clarke et al. (2003), permite compreender como a prevenção e o próprio tratamento da Aids não se restringem a práticas médicas, mas constituem processos que reconfiguram subjetividades e relações sociais. Esses processos vão além da incorporação de novas tecnologias biomédicas, pois também envolvem a produção de normatividades em torno da saúde, do risco e do cuidado de si. O medicamento, nesse sentido, deve ser entendido como um artefato cultural, carregando consigo pedagogias culturais, isto é, estratégias de ensinamento e modos de subjetivação (Rose, 2013). O medicamento não apenas trata uma condição biomédica, mas orienta práticas e expectativas sobre o corpo, a sexualidade e a prevenção. Essas pedagogias operam como formas de governamento de indivíduos e populações, inserindo os sujeitos em redes de vigilância, adesão e monitoramento contínuo (Foucault, 2008).

Pensadas dessa forma, as políticas públicas de PrEP operam para produzir sujeitos capazes de se prevenir do HIV (Sierra; Meyer, 2020). Mais do que um acesso ampliado à profilaxia, essas políticas envolvem um conjunto de práticas discursivas e institucionais que modelam comportamentos, criam perfis de risco e estabelecem normativas sobre a gestão da saúde sexual. Essa fabricação de sujeitos que se previnem do HIV ocorre no interior deste complexo arcabouço de relações de poder, materialidades simbólicas, produção de identidades, jogos de interpelações, desejo de ampliação de seu capital humano, dinâmicas de reconhecimento e redistribuição. Além disso, essa produção de subjetividades não ocorre de forma homogênea, mas atravessa marcadores sociais, como classe, raça, gênero e orientação sexual (Oliveira et al., 2024), influenciando a forma como diferentes grupos acessam, internalizam e ressignificam essas tecnologias biomédicas. Em outros termos, as políticas de PrEP compõem a arquitetura de poder-saber-subjetivação do “dispositivo da Aids” (Pelúcio; Miskolci, 2009).

A PrEP se configura como um exemplo paradigmático da interseção entre o empreendedorismo de si e a farmacologização da prevenção, associando o indivíduo a dinâmicas de gestão de risco, autocuidado e aprimoramento da saúde (Silva Junior; Brigeiro; Monteiro, 2023). Para Rose (2013), a biomedicina contemporânea inaugura um modelo de cidadania biológica, no qual os indivíduos tornam-se responsáveis pela administração de seus corpos em saúde e performance. Assim, a adesão à PrEP transcende a esfera da escolha individual, configurando-se como um imperativo social e político que opera em nível molecular, moldado pelo mercado farmacêutico e pelas políticas de saúde pública.

Nesse sentido, não se trata apenas de uma transformação nos métodos de prevenção, mas da emergência de uma nova forma de subjetivação, na qual a prevenção do HIV se alinha às lógicas neoliberais e à concepção da saúde como bem de consumo. Esse fenômeno é ilustrado por Davis (2020) que, ao analisar protocolos e modalidades de recrutamento de voluntários para estudos sobre a PrEP e ao entrevistar lideranças e ativistas, cunhou a figura do Homo adhaerens, ou o “sujeito que adere”. Esse conceito descreve o candidato ideal para a indústria farmacêutica: um indivíduo simultaneamente exposto a alto risco (neste caso, o risco de infecção pelo HIV) e disposto ao disciplinamento exigido pela prevenção contínua.

Conforme Davis (2020), o Homo adhaerens é produzido por processos disciplinares para manter a imunidade corporal e, ao mesmo tempo, maximizar a saúde da população em geral, e está comprometido com uma adesão de larga duração ao medicamento. Dessa forma, não se pede que ele seja apenas um consumidor da medicação, mas que revele características disciplinares de empresário de si mesmo, em sintonia com a gramática da ordem neoliberal. Essa figura é o candidato ideal tanto da indústria farmacêutica, pelo potencial consumo de medicação, quanto das políticas públicas, uma vez que assume para si a gestão completa das situações a serem enfrentadas, chave de análise que se utilizou mais adiante no exame do perfil do Instagram.

Na atualidade, as mídias sociais desempenham um papel central na construção de si, influenciando a maneira como cada sujeito pensa, se relaciona e age no/com o mundo. Além de funcionarem como espaços de interação, também operam como potentes ferramentas de educação e difusão de saberes. No entanto, criticamente reflexão crítica sobre os discursos que circulam nesses ambientes - especialmente aqueles relacionados ao sexo, diversidade, inclusão e prazer - não significa rejeitá-los ou desqualificá-los, mas compreender os contextos em que foram produzidos, os interesses que mobilizam e as dinâmicas de poder que os sustentam (Sales; Carvalho, 2024). Nenhuma narrativa sobre corpo e sexualidade é neutra; todas estão imbricadas em relações de saber e poder, como apontou Foucault (1999), constituindo percepções, normativas e modos de subjetivação.

Nesse cenário, o papel das mídias sociais na disseminação de informações sobre HIV/Aids tem se tornado cada vez mais relevante. Conforme analisado por Sales e Carvalho (2024), espaços digitais, como a página no Instagram do médico infectologista Vinícius Borges (@doutormaravilha), operam em uma interseção entre saber-poder biomédico e resistência. Ao mesmo tempo que divulgam informações sobre prevenção biomédica, como a PrEP, essas plataformas também criam pedagogias alternativas que questionam normatividades sexuais e médicas, possibilitando novas formas de subjetivação para jovens LGBTQIAPN+. Essa dinâmica evidencia como as redes sociais tornaram-se não apenas canais de informação, mas também territórios de disputa política e cultural sobre saúde, desejo e prevenção.

Tendo em vista os objetivos deste artigo, realizou-se uma análise de conteúdo temática (Minayo, 2007) em um perfil na rede social Instagram voltado à comunicação de PrEP entre jovens, em diálogo com a produção acadêmica sobre o tema, presente na base bibliográfica construída no projeto de pesquisa PrEP América do Sul (2025). Embora já existam estudos que analisaram publicações sobre PrEP em diferentes redes sociais, ainda são escassas as pesquisas que abordam especificamente o tema em sites populares de compartilhamento de imagens, como o Instagram (Walsh-Buhi et al., 2021) Por fim, serão apresentadas algumas considerações sobre as pedagogias e os modos de compreensão sobre o cuidado de si e o exercício da vida sexual.

Método

Atentou-se para o perfil no Instagram PrEPara Salvador (@preparasalvador). Trata-se de um ambiente virtual voltado para seleção e engajamento de adolescentes, entre 15 e 1 anos, que se identificam como gays, bissexuais, pessoas trans ou pessoas não binárias registradas como do gênero masculino para participarem do projeto PrEP1519. O estudo PrEP1519 (2025), sediado no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), tem como objetivo avaliar a efetividade da PrEP entre adolescentes de 15 a 19 anos. A pesquisa é conduzida em três capitais brasileiras: Salvador (BA), Belo Horizonte (MG) e São Paulo (SP), com financiamento da Unitaid, organização internacional criada em 2006 pelo Brasil, Chile, França, Noruega e Reino Unido.

Cada uma dessas capitais mantém um perfil ativo no Instagram (@vcprepsp, em São Paulo, e @nodeumatch, em Belo Horizonte), utilizado como ferramenta de divulgação do projeto, disseminação de informações sobre a PrEP e recrutamento de novos participantes. O @preparasalvador, foco deste artigo, foi analisado como um espaço de produção discursiva e prática. As postagens do perfil foram examinadas a partir das estratégias de engajamento e das “pedagogias dos prazeres” (Euzébio, 2023) que nelas se manifestam. Tais práticas englobam tanto a disseminação de informações sobre saúde sexual quanto a construção de narrativas e formas de subjetivação mediadas pelo ambiente digital.

Utilizou-se a análise de conteúdo temática em saúde (Minayo, 2007) como técnica principal para a análise dos dados. Essa técnica de análise permitiu categorizar, de forma sistemática, as publicações no Instagram em temas recorrentes e realizar uma análise interpretativa. Foram examinadas as publicações na página do Instagram para compreender como se constroem literacia em saúde e desenvolvem práticas preventivas. A síntese dos resultados obtidos nesse processo pode ser visualizada no Quadro 1, apresentado adiante.

Quadro 1
Publicações selecionadas do perfil PrEPara Salvador no Instagram (@preparasalvador).

Este procedimento metodológico seguiu as três etapas propostas na análise de conteúdo temática (Minayo, 2007). A primeira etapa consistiu na pré-análise, com a realização de uma observação exploratória de perfis em redes sociais voltados à comunicação sobre a PrEP como estratégia de prevenção ao HIV. A partir dessa etapa, foi selecionado o perfil PrEPara Salvador (2024), por apresentar uma comunicação direcionada ao público jovem, com conteúdos originais e elevado nível de engajamento. Em seguida, realizaram-se leituras flutuantes das postagens com o objetivo de familiarização com o material e formulação preliminar de questões, hipóteses e objetivos analíticos.

Na segunda etapa, correspondente à exploração do material, foram selecionadas 30 publicações que expressavam quatro categorias temáticas recorrentes ao longo do perfil. A categorização foi realizada por um pesquisador em diálogo com outros dois pesquisadores integrantes deste artigo. Por fim, na terceira etapa, referente ao tratamento dos resultados e à interpretação, procedeu-se à análise das publicações com base no conceito de neoliberalização da prevenção (Seffner; Parker, 2016a), buscando compreender como discursos e práticas relacionados à PrEP são mobilizados e articulados a noções de responsabilidade individual, performance e autocuidado.

O estudo foi informado pelo conceito de neoliberalização da prevenção, conforme proposto por Seffner e Parker (2016a), para investigar os tensionamentos macropolíticos que permeiam as iniciativas de prevenção ao HIV na atualidade. Essa perspectiva considera como as dinâmicas neoliberais reconfiguram práticas de cuidado, deslocando a responsabilidade para os indivíduos e incentivando soluções baseadas no consumo de tecnologias biomédicas. Essa abordagem permitiu integrar múltiplas dimensões - micro e macropolíticas - e revelar como o digital potencializa a criação de novas formas de cuidado, interação e articulação entre sujeitos, instituições e práticas no campo da saúde, ampliando os horizontes da prevenção e das políticas públicas.

Em suma, todas as ações aqui analisadas se desenvolvem em um perfil no Instagram, uma rede social e plataforma de compartilhamento de fotos e vídeos, criada em 2010, e adquirida pela empresa de tecnologia multinacional Meta, em 2012. Pode-se apreender este espaço digital como um artefato com dimensões políticas (opera com relações de poder), culturais (portador e produtor de registros simbólicos próprios dos campos das culturas juvenis e de saúde) e pedagógico (move-se com uma clara intencionalidade de educação em saúde, valendo-se, para isso, de pedagogias do gênero e da sexualidade, em parte por conta de a Aids ser uma infecção sexualmente transmissível). Trata-se de um dos incontáveis artefatos que dão corpo à esfera pública técnico-midiatizada, conforme discutido em Miskolci (2021).

Logo, a plataforma digital Instagram não é um artefato politicamente neutro. Ao contrário, está situada na confluência entre novas tecnologias, midiatização e mercantilização da política. Esta, por sua vez, foi desenvolvida para operar na produção de sujeitos empreendedores de si, estimulando interpretações de cunho individualista e moralizante de problemas coletivos. É um artefato que não estimula os diálogos entre participantes, operando com ferramentas ao estilo “gostei” ou “não gostei”, reforçando binarismos e a busca por aprovação individual. Opera criando, ou reforçando, no campo conservador, “empreendedores morais” e, no progressista, “empreendedores de si” (Miskolci, 2021). Trata-se, claramente, de um artefato concebido para reforçar os valores do neoliberalismo, que moldam os principais contornos do cenário político em que vivemos.

Este artigo não tem como objetivo discutir a escolha dos idealizadores do @preparasalvador pelo uso do Instagram como plataforma para divulgar sua ação de educação em saúde. No entanto, é possível reconhecer que plataformas mais voltadas ao debate e à reflexão sobre os múltiplos determinantes da saúde e da doença dificilmente teriam o mesmo alcance que um perfil no Instagram proporciona. Nosso foco aqui está na análise das publicações já realizadas. Compreende-se que a própria escolha da plataforma carrega uma intencionalidade política e pedagógica, mas, dentro dos limites deste artigo, não será possível explorar todas essas dimensões em profundidade.

Prevenção no @preparasalvador

O perfil PrEPara Salvador (2024), no Instagram (@preparasalvador), apresentava, em 14 de novembro de 2024, 5.402 seguidores e 471 publicações, dirigidas prioritariamente a pessoas residentes na área metropolitana de Salvador. A oferta de PrEP nas ações do projeto tem, por objetivo, avaliar a efetividade dessa modalidade de prevenção entre a população jovem. O perfil convida homens gays, bissexuais, pessoas trans e pessoas não binárias registradas no masculino de 15 a 19 anos a se integrar na pesquisa. O passo inicial ocorre via questionário online. No endereço físico do projeto, são ofertadas testagens, aconselhamentos e consultas médicas. Embora oferte prioritariamente a PrEP, o projeto divulga a camisinha, o gel lubrificante, a PEP, bem como informações acerca de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), configurando um painel de cuidados em saúde sexual.

O exame das postagens no perfil permite perceber a importância do eixo que denominamos “conhecer a população”, e empreende uma linguagem que privilegia a gíria juvenil. É comum observar termos, como “se liga”, “mana”, “mina”, “mano”, “mona”. Um segundo eixo, denominamos de “disseminação de informação de qualidade em torno da PrEP”, com posts baseados em dúvidas sobre a adesão a esta modalidade de prevenção. É visível o investimento no recrutamento e na formação de educadores de pares para realizar as ações do projeto, em outro eixo que denominamos de “formação”.

Chama a atenção a pergunta que organiza a primeira postagem, em 2018, que inaugura o convite a quem se interessar: “Tá PrEParadx, novinhx?”. Um exame analítico do conjunto de postagens permitiu organizar os conteúdos em quatro categorias temáticas, cujas denominações indicam o vetor conceitual predominante, aquele que desejamos destacar na análise. Entretanto, os vetores destacados aparecem nas postagens sempre em associação com os demais, jamais isolados. Dessa forma, empreendedorismo de si, virada biomédica, farmacologização de si, ativismo, juventudes, pedagogias dos prazeres, educação em saúde, cuidado de si e cuidado do outro, marcas do pensamento neoliberal aparecem sempre articulados na cena descrita, na orientação dada, no episódio relatado, na informação prescrita ou em qualquer outra modalidade narrativa escolhida para tratar da PrEP no já citado perfil do Instagram.

De modo particular, a biomedicalização, promovida pela “virada biomédica” no campo da prevenção e do cuidado ao HIV, se articula de modo transversal nas quatro categorias temáticas do Quadro 1, embora apareça com mais ou menos vigor a cada material analisado. Um grande esforço pedagógico feito pelas postagens do perfil é a produção de um estilo de viver a juventude que conjugue o intenso aproveitamento das oportunidades de prazer com a garantia de prevenção ao HIV. Tal estilo de vida é produzido de modo praticamente indissociável à biomedicalização, que lhe fornece conteúdo, forma e possibilidade, e dá um forte indício de quanto os modos de ser e viver a juventude no contemporâneo se articulam de modo potente com o campo dos fármacos e de outros aparatos da saúde.

Ativismo e a adesão à PrEP na relação com Organizações da Sociedade Civil Organizada

O perfil divulga a participação em eventos, como a Marcha do Orgulho Trans de Salvador. Esse conteúdo contextualiza a prevenção do HIV como prática comunitária e politizada, associada à proteção e cuidado entre pessoas LGBTQIAPN+. De modo articulado, tem-se a exibição da bandeira do arco-íris, criando acolhimento ao movimento. Esse simbolismo de identidade e visibilidade contribui para que o projeto seja compreendido como rede de apoio coletiva, podendo ser compreendido como uma pesquisa engajada (Grossi; Fernandes; Cardozo, 2017)

Nessa direção, grande número de postagens no perfil celebra a pertença ao movimento LGBTQIAPN+, e fala de suas lutas, ajudando a construir dessa forma um sujeito coletivo. São lembrados, em vários posts, eventos, como marchas do orgulho, manifestações contra a homofobia, dia da visibilidade trans, explicações acerca do laço vermelho, significado das bandeiras do movimento LGBTQIAPN+ e o 8 de março (por exemplo, conforme a Figura 1). Entretanto, os esforços de construção de um sujeito coletivo ficam normalmente ausentes quando as postagens tratam de cenas da vida sexual. Aí prevalece o discurso do empreendedorismo de si, a demonstrar certo apartamento entre “as lutas” e “a vida sexual”.

Figura 1
“Janeiro: Mês da Visibilidade Trans”.

Ao mesmo tempo que mostra caminhos criativos para integração de métodos, contextos e procedimentos da realização do estudo, esses pontos aproximam a discussão do papel das organizações e do ativismo na criação de uma narrativa coletiva sobre o uso da PrEP. Os jovens são incentivados a ver a prevenção biomédica como uma prática que transcende a saúde individual, enfatizando a interseção entre saúde, identidade e cidadania.

Marcas da noção de empreendedorismo de si

Uma análise da “virada biomédica” no contexto da prevenção ao HIV no Brasil, especialmente à luz da noção de neoliberalização, sugere uma crítica ao papel das políticas de saúde como promotoras de práticas individualistas. Observa-se como essas políticas transferem a responsabilidade pelo cuidado e pela prevenção às pessoas, moldando-as como empreendedores de si (Lermen; Mora; Neves, 2020). Desse modo, frases como “Faça onde quiser. Faça quando quiser” e “PrEP = autonomia” sugerem que a prevenção ao HIV é uma escolha e responsabilidade individual (por exemplo, conforme a Figura 2). Essas mensagens acionam a ideia de que a adesão à PrEP e ao autoteste é um ato de autogestão de saúde. Deslocam a responsabilidade pelo cuidado preventivo para o indivíduo. Nesse discurso de autonomia, a ideia parece ser que o jovem seja encorajado a gerenciar sua saúde como um projeto pessoal, minimizando o papel das estruturas de apoio coletivo e público (Ortega; Zorzanelli, 2010).

Figura 2
“PrEP = autonomia”.

A resposta à Aids precisa ir além da visão biomédica das chamadas “balas mágicas”, que aposta em soluções técnicas e rápidas, muitas vezes desvinculadas dos contextos sociais e culturais nos quais as pessoas vivem. É necessário, portanto, estar disposto a reinventar o que se entende por prevenção, incorporando não apenas as novas formulações farmacêuticas e os conhecimentos atualizados sobre os riscos de transmissão do HIV, mas também recuperando os antigos preceitos que envolvem o diálogo com as diferentes culturas e as redes de solidariedade coletiva. Isso implica considerar que, na vida em sociedade, as estratégias de gestão do risco e as apostas na vida são profundamente afetadas por desigualdades estruturais, que não podem ser eclipsadas por discursos individualizantes centrados no “empreendedor de si” (Seffner; Parker, 2016a).

É o que se verifica na postagem que mostra o personagem Bob Esponja, representado em um despertar claramente atordoado, com os dizeres: “Eu acordando bêbad@ no quarto do boy sem lembrar de nada. TAVA DOIDONA NÉ?? Acontece... nesse caso o recomendado é você fazer a PEP, mas dá pra garantir sua proteção contra o HIV de uma forma muito simples. Usando #PrEP!” Os relatos de violência da situação devido ao consumo excessivo de álcool, por vezes e inclusive provocado pelo parceiro eventual para obter algum benefício, o roubo, por exemplo, ou então a ocorrência de modos violentos de práticas sexuais pela relativa incapacidade do outro ou da outra devido ao estado de bebedeira não são trazidos a esta cena. A abordagem se foca na proteção à infecção pelo HIV, e com isso resume a cena de vida sexual, deixando de lado um conjunto de bandeiras do sujeito coletivo LGBTQIAPN+, que lidam com as violências praticadas na intimidade da cena sexual.

A noção individualista é reforçada na postagem: “Namoro fechado e confiança não são itens de prevenção amore. E digo mais, prevenção é individual! Não existe prevenção em casal. #prep1519 #prevençãocombinada #gay #trans #travesti #adolescente”. Aqui desaparece toda uma história de esforços pedagógicos em prol de negociações em torno do sexo seguro, presentes desde o início da luta contra a Aids, configurando verdadeiro desperdício da experiência, conforme se discute em Seffner e Parker (2016b).

Esse histórico de esforços se ocupou do contexto conjugal em que duas pessoas mantêm uma relação estável, afetiva e sexual, ao mesmo tempo que se dispõem a encontros casuais com outros parceiros. A necessidade de estabelecer acordos e regras no âmbito de tal relação, aprofundando o diálogo em torno dos desejos, não apenas para a prevenção da Aids, é substituída pela afirmação de que “prevenção é individual”. A construção de uma resposta efetiva à Aids não é fruto de somatório de esforços individuais, por mais bem-intencionados que sejam, mas da construção simultânea de um sujeito coletivo e do estabelecimento de certa gramática do comum. Não existe o comum sem um sujeito coletivo e sem um conjunto de práticas cotidianamente acordadas e repetidas que o sustentam, como se discute em Dardot e Laval (2017).

A noção de sujeito coletivo que se advoga aqui guarda estreita relação com a proposição de Butler (2015) em torno da noção de precariedade. A precariedade vincula-se às noções de interdependência e vulnerabilidade, vistas como inerentes à condição humana. A vida humana é tomada como intrinsecamente frágil e dependente de estruturas sociais e políticas. Tais estruturas têm o poder de estabelecer quais vidas são valorizadas e protegidas e quais são ignoradas ou tornadas abjetas. A vulnerabilidade pode ser tomada como um acréscimo de precariedade, uma vez que determinados grupos, em função de marcadores, como raça, classe, gênero, orientação sexual, geração, origem regional e mesmo nacionalidade, encontram-se mais expostos ao estigma e ao preconceito e, por decorrência, à violência, exclusão e marginalização.

Tais situações podem ocorrer em qualquer contexto, inclusive na intimidade de uma relação sexual. Não haverá uma sociedade de sujeitos preparados para realizar a prevenção da Aids, se ela igualmente não for uma sociedade antirracista, que busca a equidade de gênero, que respeita e estimula a expressão da diversidade sexual, que luta contra a desigualdade econômica e em favor da noção de democracia como o regime que estimula o direito a ter direitos, sendo esses direitos tanto individuais quanto sociais e coletivos, uns a moderar os outros (Chauí, 2018).

Com slogans, como “Presente pra você, bee!!! Autoteste para HIV grátis”, o perfil promove a testagem como acessível e disponível a qualquer momento. Essa abordagem coloca a saúde em um modelo de consumo, no qual o autoteste e a PrEP são produtos de prevenção (Mora; Nelvo; Monteiro, 2022). A linguagem descontraída e o tom amigável ajudam a normalizar a testagem e o uso da PrEP, entretanto, inseridas no quadro da racionalidade neoliberal, podem transformar essas práticas em marcas de “responsabilidade individual”, contribuindo para a narrativa de autovigilância, um deslocamento do Estado como responsável pelos procedimentos de saúde sobre o indivíduo e a coletividade para uma autogestão da saúde (Ortega; Zorzanelli, 2010).

Ao destacar slogans, como “Mix de sucesso! #protegidah” e “Autoteste bb!! Faça onde quiser, faça quando quiser”, o perfil promove a PrEP e o autoteste como o tipo ideal de autocuidado, podendo gerar novos estigmas para aqueles que não utilizam esses métodos. Na lógica neoliberal, aqueles que não aderem a essas práticas podem ser vistos como irresponsáveis ou negligentes, promovendo uma forma de exclusão baseada em práticas de consumo médico (Ferreira, 2023).

Dinâmica cultural e social da PrEP entre jovens na ótica da virada biomédica

Pensando nas dinâmicas culturais e sociais entre jovens, observa-se como o uso de memes e referências culturais ajudam a integrar a PrEP e outras práticas de prevenção a este universo, tornando a saúde sexual um tema que se insere na gramática do cotidiano. Memes que brincam com situações, como o rompimento da camisinha (Figura 3), contrastando a “tranquilidade” de quem usa PrEP com o “desespero” de quem não usa, ajudam a normalizar o uso da PrEP, e a tornam uma prática inserida na rotina, próxima das experiências cotidianas e das incertezas da vida sexual. O meme “indetectável = intransmissível” reforça informação importante para a saúde sexual com um tom leve e acolhedor. A presença de humor e intervalo cômico em torno de um tema sério ajuda a reduzir o estigma, estimula o diálogo, enquanto educa sobre questões importantes, como a eficácia do tratamento de HIV para pessoas indetectáveis. Isso facilita a disseminação de informações sobre saúde sexual e contribui para uma compreensão mais ampla e menos moralista sobre a PrEP e o HIV.

Figura 3
“Quando a camisinha rompe”.

A introdução de produtos, como a “chuca descartável” em envios educativos, mostra uma adaptação dos conteúdos do perfil às práticas de autocuidado e higiene sexual relevantes para a comunidade jovem LGBTQIAPN+. Ao divulgar tais produtos de maneira natural e informativa, o perfil legitima essas práticas como parte de um repertório de autocuidado, ampliando a concepção de saúde sexual para além da prevenção biomédica. Embora conteúdos de caráter institucional, acadêmico, empresarial e de saúde tenham adquirido relevância nessa nova fase da internet, percebe-se que aqueles relacionados à intimidade do dia a dia atraem visibilidade. Nesse cenário, o antigo sujeito espectador torna-se agora protagonista de sua própria narrativa, seja em vídeos, blogs ou transmissões ao vivo, exibindo-se em verdadeiro espetáculo de si, como é o caso da chuca descartável.

O meme que fala sobre o “cérebro pensando no Carnaval de Salvador” com a PrEP destaca a conexão entre saúde sexual e eventos culturais populares. Essa associação sugere que a PrEP é uma preparação essencial para participar de eventos de grande interação social, alinhando o cuidado preventivo aos momentos festivos. Esse tipo de post ajuda a reforçar a importância de ser cuidadoso sem perder o tom leve e a diversão. Também situa a vida sexual no terreno dos prazeres, evitando a captura por discursos que a tomam na pauta moralizante. Esses elementos demonstram como a PrEP está situada em um tecido social em que prevenção, cultura e humor se entrelaçam. Ao incorporar referências culturais e memes, o perfil torna a PrEP e outras práticas de saúde sexual parte da linguagem e das experiências diárias dos jovens que acessam o Instagram.

Estratégias pedagógicas de educação em saúde e percursos de cuidado em sintonia com a biomedicalização

Os conteúdos compõem um currículo cultural, à moda do currículo escolar. A página do Instagram apresenta-se compondo elementos da paisagem de uma sala de aula, na qual não faltam as brincadeiras. Postagens, como “Dicas para não esquecer de tomar sua PrEP” e a diferenciação entre “HIV e Aids: não são a mesma coisa”, mostram que o perfil tem ênfase educativa vigorosa, embora o endereçamento dos conteúdos seja quase unidirecional entre quem ensina e quem é ensinado (por exemplo, Figura 4). O espaço para diálogo, representado pela área de comentários, na maior parte das vezes, não enseja debates mais substanciais, não indo muito além de manifestações isoladas. A tradicional relação de poder entre profissional de saúde e usuário experimenta quebra de monopólio, e outras vozes se destacam, especialmente na educação por pares. Desse modo, o ambiente digital atua como mediador da vida diária.

Figura 4
“Não se divide PrEP!!”.

Desenvolve-se um empreendimento para que a PrEP funcione como uma ferramenta de sociabilidade digital. O bate-papo sobre LGBTQIAPN+ e redes de amizade destaca o apoio social nas trajetórias de cuidado. Com postagens, como “Dei um tempo de sexo: Pra que PrEP?”, o perfil contextualiza o uso da PrEP em momentos específicos, como o isolamento social. Nesse contexto, a sociabilidade envolve dispositivos da vida cotidiana que fogem às restrições da sociabilidade ocidental, geralmente centradas em princípios, como o individualismo, e nas normas morais que regulam as associações entre indivíduos, e possibilitam abrir uma brecha na racionalidade neoliberal. Em contrapartida, apresenta uma socialidade valorizada por arranjos afetivos e intersubjetivos (Deslandes; Coutinho, 2020).

O uso de avatares para responder perguntas comuns, como “A PrEP é recomendada para algum grupo específico?”, ajuda a tornar a informação mais acessível e amigável. Essa estratégia aproxima os jovens das práticas de prevenção e cuidado, permitindo que eles se sintam à vontade para exposição de dúvidas e aprendam em um ambiente virtual acolhedor. Esses elementos mostram como o perfil constrói um “currículo de autocuidado”, em que o uso da PrEP e a saúde sexual são moldados por práticas informativas e interativas. Essa estratégia curricular tem como foco produzir a autonomia dos jovens, estimulando um percurso de cuidado contínuo que se adapta a diferentes contextos e situações pessoais.

Considerações finais

O propósito deste artigo foi analisar as dinâmicas da virada biomédica na prevenção à Aids no Brasil, tomando como caso a comunicação digital acerca do uso da PrEP por jovens. A análise das dinâmicas sobre a prevenção biomédica do HIV entre jovens mostrou como as tecnologias de saúde são mediadas por marcadores sociais, culturais e subjetivos que escapam da dimensão biomédica. Mediante um olhar socioantropológico acerca das atividades de um perfil de rede social voltado à PrEP entre jovens em diálogo com a bibliografia sobre o tema, observou-se a centralidade da racionalidade neoliberal na organização das respostas à epidemia de HIV/Aids. Esse cenário promove uma visão individualizada da prevenção, conformando os sujeitos como empreendedores de si e deslocando a responsabilidade coletiva para estratégias individuais de autocuidado.

A análise das publicações também aponta para as possibilidades de que as mídias digitais e as práticas comunitárias em redes sociais se configuram como espaços de ressignificação e pedagogia dos prazeres. Essas iniciativas criam narrativas que integram saúde sexual, identidade e cidadania, especialmente ao dialogar com jovens marcados por desigualdades estruturais de gênero, raça e classe. Nesse contexto, emergem oportunidades para que noções de coletividade e comum entrem em disputa com abordagens marcadas pela ênfase na autonomia individual. Observa-se uma tensão persistente entre o fortalecimento de redes coletivas e a valorização de práticas individualistas, destacando a necessidade de um equilíbrio entre intervenções biomédicas e abordagens que priorizam as dimensões sociais e as políticas da saúde.

Nessa linha, as tecnologias biomédicas para o HIV e a Aids, como a PrEP e a testagem, são reconhecidas por Ayres (2023) como ferramentas valiosas que se destacam significativamente para a promoção e proteção dos direitos sexuais e reprodutivos, além de reduzirem a vulnerabilidade ao HIV/Aids. No entanto, é ilusório acreditar que a simples disponibilidade desses recursos resolverá uma epidemia. Essa visão ignora fatores essenciais, como acesso, aceitabilidade e efetividade no cotidiano diverso e desigual das populações. Na lógica neoliberal, essas tecnologias buscam reconfigurar o autocuidado, transformando-o em uma responsabilidade individual, impulsionando os jovens a aderirem a práticas preventivas em busca de uma cidadania associada ao consumo de medicamentos e ao empreendedorismo.

A adesão à PrEP não deve ser reduzida a um simples ato de consumo medicamentoso, mas como parte de trajetórias de cuidado que situam o sujeito no interior de pedagogias do gênero e da sexualidade, pedagogias do cuidado, jogos de poder e dinâmicas de reconhecimento. É essencial que políticas públicas, pesquisas nos campos das ciências humanas e sociais e iniciativas comunitárias continuem explorando formas de ampliar o acesso e a aceitabilidade das novas tecnologias de prevenção, promovendo o diálogo crítico e inclusivo que se articule com os marcadores sociais das diferenças.

  • Financiamento
    Fernando Seffner, Bolsa Produtividade PQ-2 (CNPq, processo nº 309670/2021-7, 2022 a 2025). Projeto de pesquisa “Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) para prevenção ao HIV na América do Sul: etnografia das experiências de acesso, uso e gestão” (CNPq e Decit/SECTICS/MS, processo nº 445070/2023-4). Para mais informações, acesse: https://prepamericadosul.uea.edu.br/.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

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  • Editores: Ivia Maksud, Simone Monteiro

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    17 Dez 2024
  • Revisado
    21 Abr 2025
  • Aceito
    21 Abr 2025
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