Open-access A sociologia da saúde na Terra Brasilis: pequena genealogia de um campo de conhecimento

Resumo

A sociologia da saúde é um fruto recente de uma árvore de conhecimentos antiga que remonta a milênios. O objetivo deste estudo foi elaborar um ensaio sobre o campo da sociologia da medicina e da saúde no Brasil. A abordagem foi qualitativa e pesquisou-se a bibliografia existente sobre a sociologia da medicina e da saúde, especialmente no Brasil, por meio de uma revisão narrativa. A base de dados utilizada foi a Scientific Electronic Library Online (SciELO), por meio de descritores “sociologia médica” OR “sociologia da saúde”. Foram analisados 36 artigos dos 165 encontrados. Estabeleceu-se que os estudos se dividem em quatro vertentes principais, origens e fundamentos, sociologias e medicinas no mundo; sociologias, formação e educação em saúde e sociologia da saúde. Conclui-se que a substituição dos atuais intelectuais da saúde que ocupam posições institucionais, formados na pós-graduação, pelos novos agentes da saúde, apagará e borrará a distinção da/na e já produz intelectuais com um novo habitus. Além disso, os futuros professores dos bacharéis em Saúde Coletiva não terão sido formados em disciplinas de campos específicos, o que pode diminuir a profundidade do conhecimento naquelas disciplinas, mas permitirá uma maior aproximação com o campo da saúde.

Palavras-chave:
Sociologia da Saúde; Sociologia Médica; Sociologia da Medicina; Saúde Coletiva.

Abstract

The sociology of health is a recent fruit of an ancient tree of knowledge that goes back millennia. This study aimed to write an essay on the field of sociology of medicine and health in Brazil. The approach was qualitative, and the existing bibliography on the sociology of medicine and health was researched, especially in Brazil, by means of a narrative review. The database used was the Scientific Electronic Library Online (SciELO), using the descriptors “medical sociology” OR “sociology of health”. Thirty-six articles were analyzed out of the 165 found. It was established that the studies are divided into four main strands, origins and foundations, sociologies and medicine in the world; sociologies, training and education in health and sociology of health. The conclusion is that the replacement of current health intellectuals who occupy institutional positions, trained in postgraduate studies, by new health agents, will erase and blur the distinction of/within and already produces intellectuals with a new habitus. In addition, the future teachers of public health bachelor’s will not have been trained in disciplines in specific fields, which may reduce the depth of knowledge in those disciplines but will allow them to get closer to the field of health.

Keywords:
Sociology of Health; Medical Sociology; Sociology of Medicine; Collective Health.

Introdução

A genealogia de um conhecimento específico, ou mais apropriadamente, de um campo de conhecimento, não é uma tarefa simples. No entanto, de tempos em tempos, essa tarefa se coloca como uma forma de autocompreensão dos limites do próprio campo e das perspectivas correntes sobre o ofício. É o que ocorre neste momento com a sociologia da saúde no Brasil. O momento é deveras apropriado por conta de alguns eventos que julgamos importantes.

Em 2024, um cargo de professor adjunto na Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde da Universidade de Brasília, campus Ceilândia, do curso de Saúde Coletiva, criado em 2008 e pioneiro no Brasil, foi preenchido por uma aluna egressa da formação em bacharelado. Em meados do mesmo ano, o primeiro autor deste artigo torna-se o primeiro Professor Titular (de muitos outros que seguirão), tendo começado sua carreira como professor nesta mesma graduação em agosto de 2008 - graduação pioneira no Brasil, em conjunto com a Universidade Federal do Acre, mostrando um sinal de culminância na carreira acadêmica. Ambos os fatos apontam para algo que mostra a maturidade e a autonomia relativa prática do campo da Saúde Coletiva. Ainda mais, demonstram outras questões que discutiremos neste ensaio, cuja temática tomamos a liberdade de centrar na gênese histórica da sociologia da saúde.

A história da determinação da saúde e da doença caminhou por concepções diversas em diferentes épocas. Na antiguidade, o contexto religioso-mitológico explicava o adoecer com base na cosmologia dos deuses e dos espíritos. No tratado “Da Natureza do Homem” de Hipócrates, encontra-se a doutrina humoral que serviu como base para toda prática médica ocidental por quase dois milênios, na qual a doença seria o resultado do desequilíbrio dos humores corporais, os quais afetariam o funcionamento do corpo e cada um dos humores estaria associado a um dos quatro elementos primordiais (água, terra, fogo e ar) e a um órgão interno específico (Castro; Landeira-Fernandez, 2011).

No contexto judaico-cristão, o cuidado com a saúde é atravessado pelo imperativo religioso de preservação do corpo, concebido como receptáculo da alma. Assim se pode considerar os livros do Levítico da Bíblia Sagrada, conjunto de regras e ensinamentos direcionados à pureza do ser e à preservação de ensinamentos, analisado de forma profunda por Mary Douglas (2002).

Na Era Moderna, a medicina racionaliza-se e torna-se uma ciência com abordagem baseada na razão instrumental. Nesse momento, começa a se desenvolver a Medicina Social, concebida como uma forma de intervenção na sociedade com o fim de eliminar tanto os males físicos quanto sociais. Do século XIX em diante, os elementos sociais, ambientais e o comportamento do indivíduo ganharam gradativamente proeminência como condicionadores do processo de adoecimento (Montagner, 2008b).

No final do século XX, com o advento da hipermodernidade, a saúde foi sendo compreendida a partir das conjunturas macro e microssociais relacionadas às situações de vulnerabilidade e desigualdades sociais. Essa nova perspectiva permite a irrupção de aspectos relacionados à estrutura social, pautando-se nas questões de desigualdade, iniquidade e vulnerabilidade. Dessarte, a abordagem e a compreensão da saúde devem priorizar a multidimensionalidade do sujeito, abarcando desde as condições de vida macrossociais, do grupo e da subjetividade individual (Montagner; Montagner, 2018).

Como esboçado alhures (Montagner, 2008b), realizar uma genealogia estrutural do campo da sociologia da saúde no Brasil é um exercício fundamental. Nesse ensaio, retoma-se essa garatuja anterior e busca-se delinear um tipo ideal da nossa sociologia da saúde. Encampamos neste ensaio o conceito de campo social como o definia Pierre Bourdieu: “[...] o cosmos social é constituído do conjunto de microcosmos sociais relativamente autônomos, espaços de relações objetivas que são o lugar de uma lógica e de uma necessidade específicas e irredutíveis àquelas que regem os outros campos” (Bourdieu; Wacquant, 1992, p. 72, tradução própria).

Portanto, o objetivo deste artigo foi escrever um ensaio sobre o campo da sociologia da medicina e da saúde no Brasil, especialmente a gênese da última, a partir dos artigos publicados pelos pesquisadores da área.

Métodos

A abordagem desta pesquisa é qualitativa. O método empregado foi a realização de uma revisão narrativa, que possibilita uma perspectiva abrangente e descritiva sobre o que tem sido investigado sobre um determinado fenômeno. Desse modo, ela é adequada para discutir o desenvolvimento ou o “estado da arte” de um determinado campo de conhecimento (Rother, 2007).

A pesquisa foi realizada na Scientific Electronic Library Online (SciELO) (<scielo.org>), plataforma da BVS, por ser o repositório que engloba países da África, do Brasil e da América Latina, em 14/12/2024.

Usou-se a frase booleana “sociologia médica” OR “sociologia da saúde”. Foram encontrados 165 registros. Foram eliminadas 63 duplicatas, totalizando 102 artigos restantes para análise inicial dos títulos, palavras-chave e resumos, e após a leitura foram excluídas 66 referências que não atendiam os critérios. Permaneceram na análise final 36 artigos.

Os critérios de inclusão aplicados foram: artigos completos que discutem a medicina social, a sociologia da saúde ou a sociologia médica, tanto no mundo como na América Latina e no Brasil; relacionados ao campo da saúde; em português ou espanhol. Compuseram os critérios de exclusão: artigos comemorativos ou de elegia de evento; artigos de resenha, que tematizem somente o campo médico; que tratem exclusivamente do campo da Saúde Coletiva; que tratem exclusivamente de metodologia de pesquisa e ensino, cujo assunto foge da discussão pretendida. Do total de 102, pela leitura dos resumos e descrição dos artigos, foram descartados 66, sobre os seguintes temas, conforme o Quadro 1:

Quadro 1
Resultado da aplicação dos critérios de exclusão, com critérios e frequência.

Na discussão dos 36 artigos, todos foram analisados e divididos em três categorias: Origens e Fundamentos (da sociologia da saúde), Sociologias e Medicinas no mundo e Sociologia da Saúde.

Discussão dos artigos

Origens e fundamentos

Uma abordagem inicial, e que sempre foi frutífera, toca na divisão entre sociologia da e na medicina. No material analisado, percebe-se que essa discussão é recorrente e gira sempre em torno da clássica colocação de Robert Straus em palestra realizada em um encontro da American Sociological Society, em 19551. Nesse encontro, o autor relata os resultados de uma enquete levada a cabo pelo Committee on Medical Sociology junto aos então 110 sociólogos que atuavam no campo.

Straus definia como sociologia da (of) medicina àquela referente ao estudo das estruturas organizacionais, relações entre papéis, sistemas de valores, rituais e funções da medicina enquanto sistema de comportamento, estudos esses realizados por profissionais exteriores ao espaço médico. Por outro lado, a sociologia na (in) medicina seria aquela que une, nas pesquisas ou no ensino, conceitos, técnicas e pessoal oriundos de várias disciplinas (Straus, 1957; 1999). Esses dois tipos seriam incompatíveis, pois a primeira tenderia a perder objetividade se chegar a se tornar interna ao campo e a segunda poderia perder aceitação se insistisse em investigar os colegas de ofício.

De acordo com Straus, para o sociólogo na medicina, normalmente envolvido no ensino dentro da escola médica, este tipo de atividade leva o sociólogo médico a assumir um papel de camaleão, pois “provê um grande teste para a aplicabilidade dos conteúdos e dos conceitos sociológicos aos processos e problemas da medicina e requer grande flexibilidade e adaptabilidade por parte do sociólogo” (Straus, 1957, p. 203).

Alguns autores desta revisão debruçaram-se sobre essa dicotomia (Castro, 2016; Montagner, 2008b; Nunes, 2007c). Para Castro, a dualidade é útil até certo ponto, pois ele a usa em sua pesquisa para discutir conceitos mais recentes na Saúde Coletiva como o de determinantes da saúde-doença. O autor conclui que a Saúde Coletiva já reconheceu o potencial crítico das ciências sociais e percebe as consequências nefastas se forem aplicadas sem um horizonte emancipatório (Castro, 2016).

Naquele estágio das demandas em saúde, em consonância com muitos outros sociólogos, as fronteiras entre a sociologia da e na medicina deviam ser apagadas, pois os objetivos da medicina e da sociologia convergiam (Levine, 1987). Essa foi a proposta de Michael Bury (1986), Horobin (1985) e outros colegas de realizar uma sociologia com (with) a medicina. Proposta que o próprio Straus (1999) já havia encampado, ao reconhecer as mudanças atuais na sociologia médica americana. No entanto, urge lembrar que ainda se tratava da sociologia da/na medicina substituída pela sociologia com a medicina, pois ainda não se concebia claramente a ideia da sociologia da saúde.

A maioria dos artigos desta revisão versa sobre a história, seja da sociologia médica/da medicina, seja da sociologia da saúde/sociologia médica e, em geral, os autores buscavam delinear o papel da sociologia no campo da saúde.

Após a publicação por Gilberto Freyre de seu livro fundante, “Sociologia da Medicina”, em 1967, pode-se declarar inaugurada a sociologia médica, com este nome explícito, no Brasil.

Bertolli Filho (2003) apresenta e avalia as propostas de Gilberto Freyre tanto no campo da sociologia da medicina como para as iniciativas voltadas para a educação para a saúde. A obra “Sociologia da Medicina” (1967) de Freyre tem como mote descrever o cotidiano das pessoas, contando os vários aspectos da saúde no Brasil, tais como alimentação, vestimenta, hábitos de dormir e defecar, unindo a cultura e a biologia. Segundo Bertolli Filho (2003), em Freyre, podemos constatar a confluência entre o conhecimento médico e as Ciências Humanas. De fato, como Freyre define em seu livro, “a Sociologia da Medicina é Sociologia: é a aplicação de critérios e de métodos sociológicos de análise e interpretação de processos sociais, de relações interpessoais e de relações intergrupais” (Freyre, 1967, p. 25).

Na mesma perspectiva, opera Carlos Fiúza Moreira (2019), retomando uma tese de Gilberto Freyre, presente em “Sociologia da Medicina” e a formação no campo da saúde, a de que a formação dos médicos deve ser orientada pela sociologia, dado que a saúde está imersa no mundo sociocultural e sua causalidade é múltipla. A partir deste fundamento, o autor discute as formações em relação à graduação em saúde.

Outra pioneira foi Nelly Candeias (1971), com seu artigo “Sociologia e Medicina”. Uspiana, representa um movimento de interpenetração dos cientistas sociais nas escolas médicas, como ocorreu na Unicamp e algumas outras universidades. Nesta mesma USP, Maria Cecília Donnangelo defenderia sua tese e publicaria seus clássicos livros (Donnangelo, 1975; Donnangelo; Pereira, 1976), marcos da integração do pensamento marxista na Saúde Coletiva.

Candeias (1971) procura discutir o estágio em que se encontrava a Sociologia Médica na Grã-Bretanha, apontar algumas destas contribuições à medicina, propor uma categorização das áreas de pesquisa na Sociologia Médica e assim justificar a presença do sociólogo dentro do campo da Medicina. Ela analisou os programas pedagógicos, as pesquisas e o ensino, incluindo as publicações de autoria de médicos e sociólogos.

Nesse sentido, observa-se que Everardo Duarte Nunes, desde os primórdios, mais que um teórico, empenhou-se no papel, ainda que não explícito, de historiador do campo e formador de quadros na saúde, apresentando ao leitor brasileiro vários autores relevantes na sociologia médica norte-americana e sobre o ensino nas escolas médicas. Nunes (2007c) também discorreu sobre os artigos de Straus. Os artigos de Nunes completam cerca de dez sobre o tema dos autores e obras.

No mais antigo deles, Nunes (2003b) apresenta a Sra. Tomasetti, Bloom e um projeto de ensino pioneiro, resenhando criticamente o livro de Samuel W. Bloom2. Nunes comenta a biografia do autor e, ao final, faz apontamentos sobre as formas de ensino das ciências sociais propostas na obra. Mantendo a linha de análise, Nunes (2007b) resenha outro livro3 no qual Bloom narra a história da Sociologia Médica nos Estados Unidos no pós-guerra, com o desenvolvimento das ciências sociais e das pesquisas que envolviam os temas saúde, doença, e doença mental.

A sociologia médica de Merton também foi objeto de apresentação por Nunes (2007a), ao narrar a história de vida do sociólogo e suas principais contribuições, sob a égide do estrutural-funcionalismo parsoniano. Nunes discorre sobre o livro4 de Merton no qual ele demonstra como a escola médica modela o estudante, a fim de que ele construa o status profissional e os valores de seu grupo, para ser reconhecido entre pares e principalmente pela sociedade.

Uma discussão sobre os pesquisadores August de Belmont Hollingshead (1907-1980) e Frederick Carl Redlich (1910-2004) é o tema do artigo seguinte de Nunes (2010), no qual se analisa o livro dos autores e a importância daquelas pesquisas para a sociologia e a psiquiatria, com destaque para os estudos sobre classe social5. Neste livro, descreve-se um estudo empírico sobre a doença mental e sua relação com a estrutura de classe, abrindo novos campos de conhecimento como psiquiatria social, sociologia médica e epidemiologia psiquiátrica.

No ano subsequente, a intelectual apresentada foi Margot Jefferys (Nunes, 2011), pesquisadora e professora de ciências sociais em saúde, na London School of Hygiene and Tropical Medicine. O autor destaca dois textos: sobre as relações entre a epidemiologia e a sociologia e sobre o campo da sociologia médica. Um aspecto inovador em suas pesquisas foi a incorporação das críticas das feministas à sociologia médica, por acreditarem que ela ajudava na perpetuação da dominação masculina sobre as experiências de saúde das mulheres.

Roger Bastide (1898-1974), antropólogo conhecido no Brasil pelos seus estudos de religião, foi tema de pesquisa sobre suas discussões em saúde por Nunes (2015b), que descreve a sua biografia e suas contribuições para o campo da sociologia geral. Ainda que não interno ao campo da saúde, trabalhou com psiquiatria social, antropologia cultural e psiquiátrica, mentalidade mágica e consciência mórbida, imigração e doenças mentais.

Por fim, Nunes (2019b) apresenta mais um pioneiro, Jack Elinson, por meio da análise de sua formação e carreira profissional. Elinson era de origem russa e judaica e propugnou o termo ciências “sociomédicas”, nome do departamento - Department of Sociomedical Sciences - que ele criou na Universidade de Columbia. Segundo Nunes, Elinson criou um método amplamente conhecido para avaliar a qualidade de vida, denominado “Five Ds: death, disease, disability, discomfort and dissatisfaction” (2019b, p. 612).

Nesta vertente historicista, André Pereira Neto (2009) realiza uma análise biográfica de Eliot Freidson, coincidentemente pesquisador de origem russa e judaica, considerado um fundador da sociologia médica, com seu livro Profession of medicine, cujo conteúdo teve o mérito de propor uma abordagem da sociologia médica que mudou as perspectivas e as formas de explicação das questões de saúde e doença.

Freidson é um autor central e contemporâneo na discussão da sociologia das profissões, realizada por Marie Jaisson (2018). Talcott Parsons estabeleceu essa sociologia ao publicar um capítulo específico (décimo) sobre a profissão médica, entendida como modelo de profissão, em seu famoso livro The social system. Em contraposição, Everett C. Hughes e Howard Becker, na Universidade de Chicago, desenvolveram pesquisas que iriam desafiar o modelo parsoniano. Eliot Freidson, formado na Universidade de Chicago, muda a perspectiva dos estudos sobre as profissões, procurando realizar uma síntese destas duas correntes dominantes.

Erving Goffman, sociólogo externo ao campo médico, muito reconhecido, é apresentado por Nunes (2009a): sua biografia, suas principais obras e contribuições teóricas ao campo da sociologia da medicina ou da saúde, como os estudos da doença e do paciente, da instituição total, da interação estratégica e das organizações formais instrumentais.

Por fim, a obra de Pierre Bourdieu foi discutida por Montagner (2008a) por meio das pesquisas sobre sociologia da saúde, médica ou do corpo que foram publicadas em sua revista Actes de la recherche en sciences Sociales. O autor mapeou o aparecimento do tema da saúde e da medicina nas obras de Bourdieu e nos estudos daqueles que trabalharam sob sua orientação ou publicaram na sua revista. O autor discute como a problemática do corpo e da sociologia da saúde foi entremeada aos conceitos teóricos de Bourdieu, especialmente por meio da sociologia do corpo.

Sociologias e Medicinas no mundo

Neste ponto, pretendemos elucidar como se constitui a sociologia médica ou da saúde em diferentes países. Para Balarezo-López (2018), o processo de construção deste campo começa com a utilização original, pelo médico norte-americano Charles MacIntire, do termo Sociologia Médica, em 1893, em conferência na Academia de Medicina de Milwaukee (Estados Unidos). Segundo Balarezo-López, o momento crucial de florescimento de pesquisas e publicações sobre a sociologia médica norte-americana acontece nos anos 1970. Para o autor, parece irreversível que a sociologia da medicina se institucionalize, seja nas escolas ou nos departamentos médicos, seja no campo da sociologia (Balarezo-López, 2018).

Antunes e Correia (2009) apontam que a primeira investigação sobre Sociologia da Saúde, em Portugal, foi a tese de doutoramento em 1989, de Graça Carapinheiro, pelo ISCTE: “Saberes e Poderes no Hospital. Uma Sociologia dos Serviços Hospitalares”. Segundo os autores, o termo sociologia da saúde é inaugurado em Portugal, ainda que tardiamente, por Carapinheiro. Os autores realizaram uma análise acadêmica da produção da sociologia da saúde e concluíram que “o domínio da sociologia da saúde encontra-se num processo claro de diferenciação na sua relação com o campo sociológico em Portugal [...], evidenciando uma implantação consistente no território institucional acadêmico nacional” (Antunes; Correia, 2009, p. 118).

No México, Roberto Castro (2003) faz uma análise das três principais correntes de estudos com o tema saúde: a antropologia médica, a medicina social e a sociologia da saúde pública. A primeira, de longa tradição no México, buscava elucidar a lógica e as características da medicina pré-hispânica, os diferentes modelos de medicina, a medicalização e questionavam a centralidade das explicações nos conceitos médicos. Por seu turno, a medicina social foi desenvolvida nos meados da década de 1970, com grande influência da análise marxista proposta por Asa Laurell6, demonstrando a forma específica como o capitalismo determina a ocorrência do processo saúde-doença.

Outro artigo do próprio Roberto Castro e Mario Bronfman (1993) trabalha a perspectiva da ciência feminista, analisando conceitos como patriarcado, gênero e sistema sexo/gênero, e procura desenvolver novos conhecimentos na sociologia médica. O autor conclui que, nos últimos anos, os debates entre as diferentes escolas diminuíram, mas isso também pode ser um alerta para um possível abandono do espírito de discussão, sob pena de estarmos “condenando os nossos esforços a uma mediocridade que a nossa disciplina e a nossa realidade social não merecem [tradução própria]” (Castro, 2003, p. 57).

Sobre a França, Claudine Herzlich (2004) desenvolveu um ensaio sobre como as ciências sociais estudaram e analisaram a experiência pessoal da doença, ao mesmo tempo em que delineia como este tema foi explorado especialmente na sociologia francesa. Para Claudine, até os anos 1970, os sociólogos estudaram a saúde do ponto de vista médico. A partir dos anos 1970, a crítica se volta à medicalização e ao controle social da medicina, colocando em tela a “voz do paciente”, girando em torno de temas como gênero, corpo e emoções. O discurso do paciente passa a ser explorado, como relação entre indivíduo e, grupo social, de certo modo contrapondo-se à visão marxista holística. Já nos anos 1980, os estudos sociológicos voltaram-se para a experiência da doença de pessoas leigas, com maior ênfase à prevalência de doenças crônicas e “degenerativas” na sociedade moderna, umbilicalmente ligadas ao corpo e ao estigma social. Finalmente, nos 1990, os sociológicos da doença voltaram sua atenção para o novo tema da narrativa em primeira pessoa (diários, cartas, depoimentos pessoais e romances em torno da doença), tomados não apenas como testemunhos, mas como documentos.

Um panorama parecido foi delineado por Miguel Montagner e Everardo Nunes (2004) sobre a produção da revista Actes de la recherche en sciences sociales, especialmente centrando a análise do número 143, especial de junho de 2002, intitulado Médecines, patients et politiques de santé, quando a revista voltava a conceder espaço especial à saúde, fato que ocorrera uma única vez, em 1987.

Sobre os Estados Unidos, Cockerham (2014) analisava as tendências da sociologia da saúde, considerando que o campo atingiu a maturidade e a moderna sociologia da saúde utiliza teorias de médio alcance e aborda temas, como: causa fundamental, medicalização, capital social, desvantagens locais e o estilo de vida em saúde. Essas novas perspectivas teóricas tendem a assumir um caráter de neoestruturas, assinalando assim um regresso às explicações dos efeitos das entidades estruturais na saúde.

Moschkovich (2024), em estudo de mesma inspiração, procura articular Sociologia e Saúde no Brasil, propondo uma reflexão sobre a maneira como o conhecimento pode avançar na interseção entre essas duas áreas relativas aos novos problemas sociológicos; examina algumas contribuições da Sociologia da Saúde, sobretudo na segunda metade do século XX, partindo de um olhar característico da Sociologia da Saúde. Conclui propondo novas perguntas para pensar a saúde como problema sociológico contemporâneo no contexto político atual.

Por fim, retomando o artigo de Candeias (1971) como base, Nunes e Felice (2009) analisam a sociologia médica britânica e o ensino e a pesquisa nos dois países. Segundo Russell (apudBarros; Nunes, 2009), os principais temas desenvolvidos no ensino das ciências sociais na graduação de medicina no Reino Unido foram desigualdade social, categorias sociais, modelos de saúde, diferentes formas de conhecimento e a construção social do senso comum, cultura popular e médica, as diferentes compreensões do social e a medicina baseada em evidência.

Por fim, o mesmo tipo de análise foi realizada sobre os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França (Nunes, 2003a), delineando um panorama geral e os marcos dos grandes autores e publicações sobre os termos sociologia médica/da saúde, entendidas como sinônimas.

Sociologias, formação e educação em saúde

Outra linha de estudos tradicional da sociologia médica é a da formação e educação em saúde, como no citado estudo pioneiro de Nelly Candeias. Nesta linha, Nunes (2000) é autor constante, com foco em contar a história do curso de ciências sociais aplicadas à medicina na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), durante os anos de 1965 e 1990. O autor define esta história em três períodos: as primeiras experiências de 1965 a 1969, almejando um projeto social em saúde nos anos 1970 e consolidação do projeto social nos anos 1990.

Sobre a experiência mais recente de ensino, Nunes e colaboradores (2003) construíram um estudo sobre o ensino das ciências sociais em diversos países, no período de 1960 a 2000, com a técnica da análise documental de estudos sobre o tema nas bases de dados Lilacs, Medline e Sociological Abstracts. Concluiu-se que neste ensino procurou-se estabelecer uma interação entre os conhecimentos biomédicos e sociomédicos, situa-se nos anos iniciais dos cursos de medicina e busca aplicar as teorias das ciências sociais às diferentes situações como a clínica ou na comunidade.

Uma análise em relação à pós-graduação em Saúde Coletiva/Pública foi realizada por Nunes e Costa (1997), com os currículos de 17 cursos de Mestrado e 9 de Doutorado, apresentando: áreas de concentração, o local, a instituição, a data de início, o número de disciplinas obrigatórias, a clientela, a duração mínima e máxima para conclusão. Destacaram-se as subáreas de conhecimento: Epidemiologia, Planejamento e Administração em Saúde e Bioestatística, Metodologia, Sociologia da Saúde e Epistemologia.

Relacionado ao ensino, Nunes (2016) empreendeu um estudo sobre 11 manuais clássicos da sociologia médica/saúde, do período de 1900-2012, produzidos nos Estados Unidos e na Inglaterra, e os classificou como médico-centrados; interdisciplinares; pedagógicos; analíticos; quase-autobiográficos; críticos e sintéticos-reflexivos. O autor conclui que os manuais podem ajudar no processo de ensino, pois apresentam o conhecimento acumulado dos pesquisadores que são referência e dão identidade ao campo.

Outra ferramenta de apoio ao ensino das ciências humanas em saúde pode ser a utilização dos clássicos literários, como demonstrado por Nunes (2015a), ao discutir o conceito de clássicos a partir da literatura, traz o tema para dentro da sociologia e termina por expandir a discussão para o campo da sociologia médica/saúde, concluindo que os chamados clássicos têm um papel importante no campo interdisciplinar da saúde coletiva e da sociologia da saúde.

A narrativa, como um dispositivo heurístico, passou a ser um instrumento útil tanto no campo da sociologia como no campo da saúde, conforme aponta Nunes (2019a), em um artigo que analisa dois textos dos anos 1980 em suas próprias construções narrativas: no primeiro, de José Carlos M. Pereira, “A explicação sociológica em medicina social” , tese de livre docência defendida em novembro de 1983 (publicação em 2006), a utilização das teorias sociológicas no campo da medicina social; no segundo, de Maria Cecília Minayo, “O desafio do conhecimento. Pesquisa qualitativa em saúde”. O autor conclui ressaltando a importância da sociologia das narrativas na saúde.

Sociologia da Saúde

A Saúde Coletiva no Brasil é um campo desenvolvido a partir dos anos 1960 e pode-se afirmar que conclui seu estabelecimento com o sucesso do movimento sanitário, a inclusão do direito à saúde na Constituição Federal e a constituição do SUS. Movimento parecido aconteceu com as ciências sociais em saúde, particularmente a sociologia da saúde. Até o advento da politização da saúde nos anos 1960 e 1970, a sociologia se apresentava eminentemente como sociologia médica ou da/na medicina. É o que fica demonstrado nos artigos discutidos até aqui sobre essas nuances: ela se concentra no estudo histórico dos autores clássicos e fundadores da sociologia médica ou na formação e no ensino da sociologia médica nas instituições do campo médico, como se institucionaliza essa presença nas escolas de medicina e enfermagem.

Defendemos a tese que, a sociologia da saúde, especialmente, passa a se constituir de fato, como heurística específica, nesse movimento de transformação da saúde pública em Saúde Coletiva, por várias razões elencadas a seguir.

Primeira: é o momento em que o perfil epidemiológico das populações mundiais já se constituiu prevalentemente em doenças crônicas em relação às doenças infecciosas, ainda que o Brasil apresente, para muitos autores, um modelo misto. Essa mudança demanda e exige o uso de instrumentos mais finos de análise, mais precisos e que levem em conta a experiência e a percepção dos indivíduos, em suma, métodos qualitativos em substituição/integração dos métodos quantitativos somente.

Segunda: o modelo biomédico da etiologia e da História Natural da Doença, de Leavell e Clark, como diria Thomas Kuhn, apresentou progressivamente anomalias irredutíveis, pois deixa de ser capaz de explicar os adoecimentos crônicos, que para as ciências humanas tomam a forma de enfermidades (illness) e não de doenças (disease). Passamos assim ao modelo da História Social da Doença, no qual os aspectos socioculturais predominam ou são relevantes na prevenção e no tratamento das enfermidades, ou ainda mais importante, na promoção da saúde.

Terceira: na transição para a pós-modernidade, os aspectos subjetivos e individuais, em especial aqueles de construção identitária, crescentemente tem um papel cada vez mais amplo e completo na vida das pessoas, o que leva a exaltar as experiências subjetivas individuais com o corpo como um fator importante na práxis social e na relação com a saúde, além da construção identitária.

Por esses motivos, analisamos nesta seção os artigos que trataram especialmente da sociologia da saúde, e como este conceito é entendido ou subentendido. Acreditamos que, até recentemente, a sociologia da medicina/médica era confundida, ou tomada como equivalente, à sociologia da saúde e, no entanto, esta não seria a melhor abordagem.

O primeiro artigo sobre a relação entre sociologia médica e da saúde, que trata dos conceitos de forma não equivalente nem sinônima, é o de Montagner (2008b). Nele se constatava a ausência de uma definição clara entre as duas sociologias, ao contrário do que acontecia nos países de língua inglesa. Nos outros países, havia uma flutuação constante entre os termos sociologia médica/saúde, o que indicava uma incapacidade dessa dualidade teórica em dar conta das atividades reais dos pesquisadores (Montagner, 2008b, p. 206-207). Para isso, era necessário ampliar a definição da sociologia da saúde e apagar essa dicotomia ultrapassada:

A sociologia da saúde ultrapassa a ideia estrita de saúde como ausência de doença e também o ponto de vista médico ou de outros profissionais da saúde; ela abarca além do corpo biológico e o interpreta como um espaço e um meio para a obtenção de um bem-estar que permita ao indivíduo expressar todas as suas potencialidades. A sociologia da saúde extrapola o ambiente médico e incorpora as racionalidades sobre a cura e os modelos cognitivos de explicação do adoecimento alternativos ao modelo hegemônico, logo, seus estudos englobam todas as instâncias que interferem e promovem o bem-estar humano, tais como as ONGs, os grupos terapêuticos, as entidades de adoecidos crônicos e entidades sociais diversas que atuam na promoção da saúde (Montagner, 2008b, p. 207).

Esta definição era corroborada pela constatação de Timmermans e Haas (2008), que defendiam que “renomear a sociologia médica como sociologia da saúde e da doença manifestou, portanto, o reconhecimento de que as experiências de doença se estendiam à família, ao trabalho, à escola e a outras áreas da vida” (Timmermans; Haas, 2008, p. 661, tradução própria). Neste mesmo artigo, os autores defendem a constituição de uma sociologia da saúde, da enfermidade (illness) e da doença (disease).

Essa proposta foi abordada por Nunes (2009b) quando resenhou tanto o artigo de Timmermans e Haas como o de Clive Seale, ambos publicados na edição comemorativa da Sociology of Health and Illnes, em 2008, na qual se tematiza a sociologia médica, seja em sua história pregressa no caso de Seale, seja em seu futuro, como em Timmermans.

A partir de 2014, Nunes busca retomar a temática da Sociologia da Saúde, ensaiando uma melhor distinção dos termos, como proposto anteriormente. Discute as contribuições teóricas das ciências sociais (Nunes, 2014a) ao que ele reconhece nomear como sociologia da saúde, concluindo que a construção teórica se conseguirá com a interdisciplinaridade dada diversidade das propostas de pesquisas na área da saúde; e procura demonstrar a construção deste campo e sua identidade (Nunes, 2014b).

Considerações finais

De início, cabe lembrar que este artigo possui a limitação de não discutir a medicina social e suas ramificações, por questões de espaço. Isso inviabiliza confrontar esse pensamento de linha europeia e com ramificações latino-americanas, com a vertente da sociologia médica de gênese anglófila e seu fruto, da qual deriva a Sociologia da Saúde. Vale lembrar que a medicina social foi encampada por inúmeros médicos e outros profissionais da saúde, com grande influência na saúde pública e coletiva no Brasil e América Latina. O mesmo se aplica à antropologia médica e da saúde. Seria necessário um estudo futuro sobre essas relações entre os campos.

Começamos este artigo citando duas situações novas no campo da Saúde Coletiva. A primeira, a substituição dos produtores de bens simbólicos da saúde, antigos sanitaristas formados na pós-graduação, pelos novos intelectuais da saúde, formados na graduação por aqueles. Essa mudança apaga e borra a distinção da e na e coloca os novos intelectuais com um novo habitus, com novas disposições para compreender a saúde e sua promoção como um objeto da Saúde Coletiva, independente das escolas médicas e suas instituições. A formação dos novos quadros se delineia nas faculdades de saúde, em um espaço muito mais amplo que o campo somente médico. Assim, todo bacharel em Saúde Coletiva se torna um pesquisador de ciências humanas e sociais em saúde por definição.

Outra consequência: os futuros formadores dos intelectuais da saúde não terão sido formados em disciplinas específicas como sociologia, antropologia, comunicação social, psicologia e tantas outras, em suma, não trarão de base um habitus de seu campo de origem, o que pode diminuir a profundidade do conhecimento naquelas disciplinas, mas isso permitirá uma maior aproximação com o campo da saúde, dentro de um paradigma, nos termos de Kuhn, mais amplo sobre a saúde, enfermidade e doença, logo, pós-revolucionário, e com novos “quebra-cabeças” a serem resolvidos.

Como diria Weber, com essas mudanças podemos incorrer na racionalização do carisma original das formações de base, com uma burocratização do conhecimento específico e a promoção de um outro mais geral e consensual no campo da Saúde Coletiva. A ironia seria que, o trabalho original de politização do campo, com a introdução crescente das ciências sociais em saúde e de início o pensamento marxista, de tão bem-sucedida e aceita, com tantos frutos positivos na expansão do pensamento biomédico no campo da antiga saúde pública, ao constituir a Saúde Coletiva e o nível da graduação em 2008, feriu de morte sua própria existência e sua presença neste campo no futuro, enquanto ciências autônomas e portadoras de um habitus próprio (Montagner; Montagner, 2016). Seremos os últimos ancestrais e imigrantes oriundos de outros campos disciplinares, que deram descendência frutífera na Saúde Coletiva.

Nesse sentido, a utilização do termo sanitarista para caracterizar o formado na graduação em Saúde Coletiva parece um rescaldo do pensamento sanitário, seja o campanhista ou o desenvolvimentista, colocando uma marca no coração deste novo profissional, pois o termo, tão caro aos médicos e aos antigos profissionais que atuavam naquelas lógicas, renasce dentro do campo da Saúde Coletiva como um fantasma que ainda nos assombra.

Agradecimentos

A publicação desta pesquisa somente foi possível graças ao Edital n 001/2025 DPI/BCE/UnB - Apoio à execução de projetos de pesquisas científicas, tecnológicas e de inovação.

  • 1
    Straus, R. “The Development of a Social Science Teaching and Research Program in a Medical Center”. O próprio autor retoma e cita essa discussão no artigo “The Nature and Status of Medical Sociology” (Straus, 1957).
  • 2
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  • 3
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Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

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  • Editores: Carinne Magnago, Aurea Ianni

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    08 Mar 2025
  • Aceito
    28 Maio 2025
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