Open-access Corpos gordos e corpos obesos em telas digitais: um olhar analítico para imagens propagadas pelo Google

Fat bodies and obese bodies on digital screens: an analytical look at images propagated by Google

Resumo

As associações entre corpo e imagem quanto à produção imagética adquirem contornos incomensuráveis em meios digitais, reforçando a visualidade do corpo em nosso cenário. Este artigo objetiva realizar um estudo das produções imagéticas de corpos gordos e corpos obesos veiculadas no Google imagens, considerando a similaridade de tais corporalidades no imaginário sociocultural. Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório, realizado na plataforma Google, com reflexão inspirada em método de análise semiótica sugerido por Joly (2007). O acervo fotográfico e de acesso público teve como descritores de busca corpo gordo e corpo obeso e abrangeu o período de publicação entre 2019 e 2022. Nas imagens do corpo gordo, evidencia-se a expressão do empoderamento. Em contrapartida, corpos fragmentados vinculam-se a uma produção cultural que associa o corpo gordo, dito obeso, à doença. A análise das imagens revela seu papel na perpetuação de discursos influentes na percepção coletiva dos corpos que podem afetar as práticas de saúde, frequentemente contribuindo para abordagens desumanizantes aos indivíduos com obesidade. Torna-se necessário reavaliar e humanizar como esses corpos patologizados, tidos como incapazes, são representados e tratados no campo da saúde e no contexto social.

Palavras-chave:
Corpo Gordo; Corpo Obeso; Imagem.

Abstract

The associations between body and image in terms of image production take on immeasurable contours in digital media, reinforcing the visuality of the body in our scenario. This article aims to study the image production of fat bodies and obese bodies on Google images, considering the similarity of such corporealities in the sociocultural imaginary. This is a qualitative, exploratory study carried out on the Google platform, with reflection inspired by the method of semiotic analysis suggested by Joly (2007). The photographic and public access collection was searched using the descriptors fat body and obese body, and covered the publication period between 2019 and 2022. The images of the fat body show an expression of empowerment. On the other hand, fragmented bodies are linked to a cultural production that associates the fat, so-called obese, body with disease. Analysis of the images reveals their role in perpetuating influential discourses in the collective perception of bodies that can affect health practices, often contributing to dehumanizing approaches to individuals with obesity. It is necessary to re-evaluate and humanize how these pathologized bodies, seen as incapable, are represented and treated in the field of health and in the social context.

Keywords:
Fat Body; Obese Body; Image.

Introdução

Figura 1
Imagens selecionadas para o descritor corpo gordo no google imagens

Figura 2
Imagens selecionadas para o descritor corpo obeso no google imagens

As associações entre corpo e imagem quanto à produção imagética per si adquirem contornos incomensuráveis quando tratamos dos meios digitais, sobretudo das redes sociais. As redes sociais configuram-se como protagonistas das relações de visualização, pois nelas o corpo em imagem torna-se astro ao dar opiniões, defender ações políticas e exercer estratégias de marketing e propaganda.

O corpo obeso, patologizado pela biomedicina e amparado pela métrica do Índice de Massa Corporal (IMC) provocou, a partir da resistência a tal discurso, a construção de um corpo resistente e ativista, mergulhado em reivindicações quanto à própria existência: o corpo gordo político. Esse discurso corpóreo, entretanto, sofreu um longo processo sociocultural e político de modificação no que tange à sua “aceitação” e conformação.

Dessa forma, este artigo se dedica à reflexão de como se dão as construções imagéticas das corporalidades gordas e obesas a partir de achados disseminados na plataforma Google imagens e, portanto, atravessado por mecanismos algorítmicos, já que no aspecto do imaginário/mental sociocultural do corpo-imagem tais corporalidades se comportam de modo por vezes similar.

A imagem, em seu caráter polissêmico, é um signo de grande influência ao afetar as subjetividades humanas. Assim, em um contexto digital de disseminação, modulado por controle de ordem algorítmica, indagações relativas à origem das imagens e seu comportamento subliminar, suscitando questões de ficção e realidade, também se intensificam.

O corpo é compreendido como ente impressivo e expressivo, dotado de marcas e emanações oriundas de uma construção sociocultural e política. Entretanto, tal estruturação não exclui as agências individuais entrecruzadas às interações sociais e culturais, sendo, dessa forma, o sujeito também um construtor do contexto sociocultural. Na filosofia de corrente fenomenológica, o corpo é um agente (e não um objeto) da sociedade e da cultura, ou seja, é um corpo-pessoa (Flores-Pereira, 2010 apudFlores-Pereira et al., 2017).

Essa perspectiva do corpo defendida por Merleau-Ponty e referida por autores como Csordas (1990) e Crossley (1995) refuta dualidades. Sob esse ponto de vista, consideramos as relações e interações construídas a partir do corpo não somente por um viés biológico, mas atravessado também por outros aspectos relacionais, como os sociais e psicológicos.

Para Csordas (1990, p. 102) “o corpo não é um objeto a ser estudado em relação à cultura, mas é o sujeito da cultura, em outras palavras, a base existencial da cultura”. Assim, em termos de visualidade, é preciso considerar a corporalidade como “uma relação fundamental e inseparável que se estabelece entre corpo e mundo sócio-histórico-cultural” (Flores-Pereira et al., 2017, p. 195) na perspectiva do corpo agente. Ao compreender que tais relações provocam inscrições no corpo, mas também efluem dele, esse corpo passa a ser a existência e manifestação de uma corporalidade.

O corpo-pessoa personificado nos homens e mulheres (Le Breton, 2007, p. 24) configura-se como o sujeito agente que, em constante articulação, experimenta o mundo e manifesta-se nele. Entretanto, a pessoalização dos corpos não refuta o corpo como ponto principal de visualidade, pois, de fato, o que se vê são homens e mulheres, mas o ponto de olhar e julgamento final é o corpo.

A pessoa gorda, condenada primeiro por não seguir valores da moralidade social, como a moderação, passa a ser estigmatizada contemporaneamente por não acompanhar o ideal estético temporal e configurar-se como um risco à própria saúde, especialmente quando a gordura do corpo gordo foi associada à obesidade e doenças diversas (Poulain, 2013). A inserção na década de 1990, da obesidade à Classificação Internacional de Doenças (CID) (Poulain, 2013), e as alterações no discurso médico, com consequente hegemonia do modelo biomédico no cuidado às pessoas, foram condicionantes importantes na demarcação da obesidade, assim como na caracterização de uma corporalidade obesa.

Quando consideramos as corporalidades gordas sob a ótica do corpo agente, as interações do corpo físico com o contexto em uma dinâmica de corporeidade resultam através de uma identificação corporal e manifestação da existência desse corpo, permitindo que ele seja utilizado na narração da própria experiência (Habckost, 2022). Le Breton (2007, p. 78) reforça que “a ação da aparência coloca o ator sob o olhar apreciativo do outro e, principalmente, na tabela do preconceito que o fixa de antemão, numa categoria social ou moral, conforme o aspecto ou o detalhe da vestimenta, conforme também a forma do corpo ou do rosto”.

Nessa perspectiva, a significação perceptual que, para Merleau-Ponty relaciona-se ao ser no mundo do corpo, ao atrelar-se à imagem com seu potencial de enganar, mas também de educar, reforça a visualidade do corpo através da imagem como um aspecto central em nosso cenário. A visualização de tais imagens-corpo conta com a cooperação, por meio da característica de ininterruptividade de disseminação própria da internet, da potencialidade das plataformas de busca que, entretanto, repercutem uma lógica de controle própria da sociedade de controle, ao materializar os resultados de modo não aleatório, de acordo com estratégias de ranqueamento e algoritmo de aprendizado de máquina.

O Google, uma das principais plataformas de busca de informações, desempenha papel fundamental nesse segmento ao atuar na pesquisa de dados, agregando páginas e sites. Como ferramenta de pesquisa, o Google Search utiliza uma série de fatores apoiados em algoritmos complexos, como relevância do conteúdo, considerando o contexto dos termos pesquisados e a qualidade da informação fornecida, além de elementos como o número de acessos ao site, o tempo de permanência na página e a taxa de compartilhamento (Camossi, 2022) para, em constante atualização, fornecer resultados de pesquisa cada vez mais precisos.

A materialização dessa gama de sentidos plataformizados, os resultados imagéticos são, entretanto, centro de um debate quanto ao caráter real ou ficcional de imagens veiculadas digitalmente. Kossoy (2020, p. 102) explica que as imagens reproduzidas digitalmente ocasionam discussões “que giram em torno da fidedignidade dos conteúdos e suas diretas implicações com as referências que se criam sobre a vida social e o mundo […]”.

À vista do explicitado, a investigação imagética das corporalidades gorda e obesa, bem como de seus referentes no meio digital, torna-se ainda mais relevante à luz da realidade dessas imagens, especialmente no que diz respeito aos ditames propagados pelas categorias médico-farmacêuticas e nutricionais. Desse modo, a análise das produções imagéticas digitais relacionadas às duas categorias corporais - corpos gordos e corpos obesos -, considerando seus comportamentos por vezes semelhantes no imaginário sociocultural que reforça um padrão corporal ideal, constitui o fundamento deste trabalho.

O presente artigo objetiva realizar um estudo reflexivo acerca das imagens de corpos gordos e corpos obesos veiculadas no Google imagens.

Percurso metodológico

Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter exploratório, realizado em ambiente digital, que propõe uma reflexão a partir de imagens, tendo inspiração no processo analítico da semiótica, ao atentar para signos visuais que elucidam a mensagem visual. Considera-se, assim, o caráter interdisciplinar do estudo ao empregar campos teóricos distintos. Não obstante, ao conceber tais campos como campos em disputa, é possível referir sua atuação em complementaridade, já que a busca por uma elucidação da mensagem visual por meio da inspiração semiótica resulta em um material empírico para a interpretação das imagens em um contexto sociocultural. Busca-se compreender o signo imagético ao representar o corpo para, posteriormente, esclarecer seus atravessamentos e significados no contexto sociocultural.

Universo empírico e produção de dados

As buscas por imagens, realizadas através de um único dispositivo, resultaram em uma diversidade de naturezas imagéticas: pictóricas, desenhos, fotografias e representações gráficas. Optou-se, então, por um tipo imagético, dado que naturezas imagéticas diversas geram inspirações analíticas distintas. Em vista do exposto e considerando as características da fotografia quanto às relações com a realidade a partir do objeto representado, a escolha das imagens para construção do estudo e composição do material empírico contemplou as de natureza fotográfica reproduzidas digitalmente.

Barbosa e Cunha (2006, p. 12-13) referem que “a ciência, o cinema e a fotografia assumem lugares fundamentais como disciplina e instrumentos privilegiados para a observação da experiência humana”. Portanto, a fotografia, como uma linguagem visual, assume potencial narrativo em si, podendo, de modo subjetivo, suscitar reflexões e favorecer a investigação de fenômenos sociais, como os fenômenos circundantes aos corpos. A construção do corpus empírico ocorreu mediante investigação exploratória na plataforma de buscas Google imagens, no dia 10 de outubro de 2022. As buscas realizadas utilizaram os seguintes descritores analíticos: corpo gordo e corpo obeso, tendo em vista a construção social que permeia o primeiro termo, o aspecto nosologizante do segundo e os atravessamentos quanto ao imaginário/mental sociocultural de tais corpos.

O Google imagens é um recurso de busca associado ao Google. A criação do serviço de pesquisa dedicado a imagens, em 2001, deve-se à demanda não suprida pela busca de uma imagem do vestido de uma marca de moda de luxo usado por uma artista musical americana durante uma premiação. Com acervo imagético considerável, o Google imagens, por meio de intrincadas estratégias algorítmicas de ranqueamento e de mapeamento de tendências (Google Trends), permite que resultados imagéticos de diferentes endereços eletrônicos em uma determinada ordem de visualização, sejam encontrados.

Esse mecanismo complexo gira em torno dos rastros que deixamos em nosso movimento digital. Os rastros digitais (Bruno, 2012), algumas vezes fornecidos voluntariamente, passam a fazer parte de um sistema de vigilância/monitoramento preditivo sobre os interesses das pessoas. Assim, o algoritmo de aprendizado de máquina consegue estruturar processos de modulação (Souza; Silveira; Avelino, 2021, p. 43). A escolha do Google imagens considera o seu protagonismo quanto à utilização habitual por diferentes usuários, assim como a elevada propagação de imagens de endereços digitais distintos.

Composição do corpus empírico

Foi delimitado um quantitativo de imagens para observação. Logo, priorizaram-se imagens publicadas entre 2019 e 2022, ano da construção empírica deste estudo. É relevante atentar que o intervalo de tempo referido foi atravessado pela pandemia da COVID-19. Portanto, a utilização de tal período justifica-se pela necessidade em captar a amplificação na web do movimento antigordofobia, tendo em vista as vinculações entre obesidade e COVID-19 assim como a disseminação e possíveis repercussões do relatório da revista The Lancet “The Global Syndemic of Obesity, Undernutrition and Climate Change: The Lancet Commission Report1.

Dessa maneira, considerou-se que as imagens fossem oriundas de páginas públicas, como sites de entretenimento, blogs, jornais e páginas de serviços de saúde e/ou de profissionais de saúde, nas quais fossem visualizadas imagens de pessoas identificadas nas categorias “gorda” e “obesa”. As imagens selecionadas para análise seguiram os seguintes critérios de inclusão: serem fotografias, não veiculassem conteúdo publicitário de produtos e marcas e estarem relacionadas à temática do corpo, retratando, dessa forma, corpos e silhuetas de corpos humanos. Como critérios de exclusão, foram adotadas imagens pictóricas, desenhos e outros tipos de representações gráficas, incluindo representações gráficas de corpos e imagens com marcas d’água.

As buscas para os descritores “corpo gordo” e “corpo obeso” inicialmente geraram mais de mil imagens para cada descritor, o que, após a análise dos critérios de inclusão, a recorrência de imagens, bem como a incidência de imagens fora da temática, originou 48 imagens para o “corpo gordo” e 46 imagens para o “corpo obeso”.

Diante do número elevado de resultados, procedeu-se à análise preliminar dos dados produzidos. A escolha do total de imagens formando o corpus da pesquisa foi estabelecida conforme a relevância dos primeiros resultados do Google Imagens. Os principais critérios foram: amplitude de materiais (no caso das imagens, uma recorrência/saturação temática) e homogeneidade (Glaser; Strauss, 1967 apudMinayo, 2017), contemplada a partir da similaridade de conteúdo das imagens fotográficas de corpos. Logo, foram selecionadas para o descritor “corpo gordo” um total de 17 imagens, e para o descritor “corpo obeso” um total de 14 imagens.

Imagens pessoais ou de acervo privado das redes sociais dos sujeitos, mesmo veiculadas por outras páginas, foram excluídas. Desse modo, um quantitativo de quatro imagens para o descritor “corpo gordo” e três imagens para o descritor “corpo obeso” foram utilizadas (Figuras 1 e 2). A opção por imagens de domínio público explica-se pela incidência de aspectos éticos e legais que permeiam imagens pessoais, implicando na necessidade de consentimento para uso.

A incursão semiótica

Ao buscar um método de análise semiótica como inspiração à reflexão, este trabalho pretende aproximar-se de uma significação imagética e não apenas contemplar a imagem ao nível sensório-descritivo e/ou de prazer estético. Joly (2007, p. 30) explica que “abordar ou estudar certos fenômenos sob o seu aspecto semiótico é considerar o seu modo de produção de sentido, por outras palavras, a maneira como eles suscitam significados, ou seja, interpretações”.

Neste estudo, foi realizada uma reflexão analítica inspirada pelo método de análise semiótica sugerido por Martine Joly (2007). A proposta de Joly (2007) segue um roteiro de investigação para produtos publicitários. Entretanto, tal proposição foi adaptada ao contemplar apenas aspectos que evidenciassem os sentidos da composição das imagens. Além disso, algumas características do corpus empírico e do processo analítico, respectivamente, a presença de imagens que apesar de publicizarem uma ideia e/ou estilo de vida, não se caracterizavam inteiramente como imagens voltadas à publicidade e a reflexão analítica de um grupo de imagens ao invés de uma única imagem justificam o ajuste.

O roteiro proposto por Joly (2007) considera os signos plásticos relativos à composição visual (cores, formas, proporções, dentre outros), os signos icônicos (elementos retratados) que traçam relações de iconicidade com os outros elementos da imagem e os signos linguísticos (tipografia, cores, dentre outros) em análises individuais para posterior construção das relações. A observação deste corpus empírico, porém, considerou os signos icônicos em uma interpretação conjunta aos signos plásticos para o grupo de imagens, a fim de elucidar a significação ou a mensagem implícita.

Resultados e Discussão

Os resultados a seguir concentram-se inicialmente na elucidação da mensagem implícita e, posteriormente, nos atravessamentos socioculturais que corroboram ou destoam dos discursos visuais sobre os corpos gordos e corpos obesos, assim como na potencialidade ficcional das imagens de tais corpos em nossa realidade.

Imagens que falam: a mensagem por trás das imagens dos corpos gordos e obesos

O grupo de imagens da Figura 1 retrata mulheres gordas em diferentes conformações, como ocorre em todo o acervo imagético da pesquisa. Na fotografia de J. R. Duran, da Uol, (Imagem 1, Figura 1), encontramos a figura da atleta Maria Suelen Altheman, uma mulher preta e gorda em pose descontraída e com uma expressão de alegria usando roupa de ginástica. Na imagem 2, uma reprodução por Andreza Pinheiro, temos a figura de Naiara, uma mulher preta e gorda que sorri em pose sensual enquanto traja lingerie (conjunto de sutiã e calcinha).

Ulteriormente com créditos da divulgação, a imagem traz a influenciadora digital Alexandra Gurgel, uma mulher branca e gorda vestindo biquíni amarelo brilhante. A quarta imagem, uma reprodução do Universa Uol no Twitter, exibe mais uma vez a influenciadora digital Alexandra Gurgel sorridente enquanto usa um biquíni rosa-claro.

O grupo de imagens da Figura 2 revela silhuetas de corpos categorizados como obesos. A primeira imagem traz a região entre o tórax e o quadril de um homem branco vestindo uma blusa e uma calça ajustada abaixo do abdômen. Existe destaque acentuado: a região abdominal parcialmente despida, sendo contornada pela própria figura masculina com uma fita métrica.

A fotografia seguinte exibe a região entre tórax e coxas de uma mulher branca trajando roupas de ginástica em frente a um espelho. A região abdominal é destacada por fita métrica contornada pela própria figura feminina. Em foco, a presença do espelho, elemento simbólico relevante quanto às associações a questões sobre beleza e padrões, alude a uma reflexão quanto aos próprios sentimentos e desejos ou à revelação de uma determinada realidade vinculada às características corporais. Na terceira imagem é observada a região entre o pescoço e o quadril de duas mulheres brancas. Uma profissional de saúde realiza a medição da circunferência abdominal da outra mulher que traja blusa e calça de ginástica.

Neste trabalho, não foi adotado um recorte de gênero na seleção das imagens. Ainda assim, observou-se uma predominância de representações de corpos femininos nas buscas por corporalidades gordas e obesas, o que evidencia a centralidade da figura feminina nos discursos e nas disputas em torno dos padrões corporais. A presença de mulheres em roupas de ginástica, lingerie preta e roupas de banho nas imagens para o corpo gordo manifesta sentidos frequentemente apartados e negados ao corpo gordo. Tais peças de vestuário, ao pensarmos imageticamente na categoria do corpo gordo, sugerem relações em direção à feminilidade, à sensualidade e autoestima da mulher gorda, além da ideia de movimento, o que contraria percepções imaginárias ou limitadas referentes ao corpo gordo. As percepções supracitadas são favorecidas pela composição imagética das figuras femininas, descontraídas, alegres, transparecendo sensualidade, dominância, orgulho e confiança em si mesmas.

Por outro lado, em todas as imagens para o corpo obeso, nota-se a presença de figuras humanas, masculinas ou femininas, gordas, sem os rostos, sendo retratadas entre o pescoço e o quadril. São corpos fragmentados e despersonalizados, sem expressões faciais, que expõem uma centralidade em torno da região abdominal, metrificada pelas pessoas ou por profissional de saúde. A evidência é o abdômen ou as barrigas avantajadas, sob o símbolo do artefato métrico rígido e estável. A fita associada à presença das roupas de ginástica, por vezes pretas, a cor “que emagrece”, alude ao emagrecimento e vincula-se indiretamente à busca por um ideal corporal.

O corpo gordo nas imagens: o contradiscurso visual aos corpos gordos fragmentados

Ao se observar a síntese geral (Quadro 1), percebe-se que os discursos relativos às mensagens visuais para ambos os grupos são dotados de contrastes. Enquanto as imagens para o “corpo gordo” reforçam aspectos de enaltecimento deste corpo, visto a evocação da autoestima e sensualidade das mulheres gordas em seus trajes íntimos ou de banho, as imagens para o “corpo obeso” não parecem pensar este como um corpo em sua totalidade. A existência do corpo fragmentado é impactante. A fragmentação do corpo obeso, um aspecto representativo de uma imagem construída e veiculada por outro, neste caso organismos médico-farmacêuticos, remete a um corpo-ação que caminha, ou melhor, precisa caminhar em direção a uma norma corporal, neste caso a um corpo magro ou dentro dos padrões, caso deseje possuir um futuro.

Quadro 1
Descrição do corpus empírico e síntese geral para as imagens do corpo gordo e do corpo obeso

Nessa perspectiva, a fragmentação do corpo obeso presente nas imagens remete à temporalidade do corpo gordo, ponto referido por diversos estudiosos dos fat Studies (Cooper, 2007; Haney; Sitter, 2021). A representação dos corpos fragmentados sem a cabeça extingue simbolicamente este corpo de um presente-futuro mantendo-os no passado (Haney; Sitter, 2021). É um corpo que não pode prosseguir. Assim, tais corpos gordos em fragmentação, espraiados por meio de materiais imagéticos por páginas relacionadas à área médico-farmacêutica propiciam significados alarmistas quanto à gordura, que, por vezes, são utilizados para “alertar” quanto aos perigos da obesidade. Entretanto, acabam por, contraditoriamente, suprimir a existência da pessoa gorda (Haney; Sitter, 2021).

Ainda que existam discursos e práticas no campo da saúde contrários à abordagem biomédica hegemônica do “corpo obeso”, em razão das imagens desse corpus empírico majoritariamente serem difundidas por organismos voltados à saúde e ostentarem corpos fragmentados, é necessário que se reflita sobre questões referentes à “biometria da saúde”, como também da humanização da saúde. A aplicação crescente da biometria da saúde na área médica, ao utilizar biomarcadores “mensuráveis” para monitorar pacientes, ao se concentrar em características físicas como o tamanho e quantidade de gordura corporal ou comportamentais, pode reduzir a complexidade do estado de saúde das pessoas.

Rinaldi et al. (2019), ao abordarem o ódio pela gordura como afeto em um olhar interseccional, relata inúmeras ocorrências de ódio direcionadas à pessoa gorda em atendimentos médicos que percorrem sempre o caminho da presunção sobre à saúde e hábitos de vida atrelada ao risco de doença e à recusa em tratar caso o conselho médico ocasionalmente emagrecedor não fosse acolhido. É a manifestação da gordofobia estrutural e institucional que reflete valores socioculturais e segrega pessoas gordas direta ou indiretamente (Melo, 2021, p. 2).

Os “conselhos” médicos de extinção, extermínio, aniquilação da gordura e os efeitos de tais comportamentos como ansiedade, vergonha e desconforto pessoal na saúde, reforçados também pela retórica visual, são infindáveis e reforçam a representação aniquiladora do gordo fragmentado, materializado nas imagens do “corpo obeso”. É a expulsão do corpo gordo do espaço social (Jimenez-Jimenez; Abonizio, 2018), um espaço de saúde, sendo a própria eliminação da vida gorda (Rinaldi et al., 2019) materializada por instituições personificadas por sujeitos que deveriam acolher o humano.

Nesse sentido, o trabalho de Gurrieri (2013) sobre o ativismo visual gordo e a necessidade de contestação às imagens convencionais, emerge a retórica de realidade para o senso comum inerente às representações imagéticas, o que adquire grandes proporções em um mundo digitalizado. A representação reclamada por Gurrieri (2013) é o contradiscurso em materialidade aos corpos gordos em fragmentação exibidos nas imagens dos “corpos obesos” e fundamenta-se no ativismo gordo manifestado por imagens presentes, porém não contempladas no corpus empírico deste artigo. É a fuga de um discurso patologizado que se centra na “obesidade”.

O ativismo visual reivindica uma temporalidade presente aos corpos gordos que se ampara na construção de uma identidade gorda. A identidade dos corpos categorizados como obesos a partir do aspecto da fragmentação é negada em uma clara estratégia de despessoalização (Gurrieri, 2013). Nesse sentido, Lévinas (1982), ao tratar das relações de alteridade na perspectiva eu-outro, aponta que o vestígio se inscreve - ou se apaga - no rosto, evidenciando o apagamento da subjetividade desses corpos.

O corpo é inconscientemente assujeitado, pois a captura de suas imagens, com posterior omissão da cabeça e membros, é normalmente feita sem consentimento (Cooper, 2007) com o argumento de proteção identitária e tem em seu abdômen marcado um meio de identificação. Não se trata da pessoa gorda, mas sim da gordura. Em todas as imagens do corpo obeso, a figura masculina, a feminina e a profissional de saúde com a figura feminina, o abdômen é destacado com um instrumento que, dentre outras coisas, auxilia na medição de gordura. O apelo para a “saúde” nas figuras dos corpos obesos toca também em um elemento de fragilidade especial das mulheres: o incômodo com o tamanho da barriga.

A identidade negada às figuras do corpo obeso explode no orgulho à corporalidade gorda das imagens do “corpo gordo”. Nas imagens da influenciadora Alexandra Gurgel, por exemplo, a felicidade e o orgulho emanam na perspectiva do corpo agente, protagonista na construção de sua própria imagem material, visto sensualmente através do body positive ou em nuances de protesto por meio do ativismo e demais movimentos, configurando-se como um corpo político. Um corpo feminino político.

As figuras humanas de maioria feminina representadas nas imagens encontram-se inteiras algo que afeta a construção do corpo obeso, fragmentado e traz de volta simbolicamente, a voz e a opinião das pessoas gordas (Cooper, 2007). Esses corpos passam a ocupar um espaço presente e incluem a identidade da pessoa gorda (Melo, 2021), contemporaneamente e com perspectivas de futuro. Os aspectos da temporalidade do corpo gordo, assim, perpassam a divulgação digital das imagens em meios midiáticos distintos, como páginas jornalísticas e de entretenimento, que se movimentam constantemente em uma relação entre passado, presente e futuro. O corpo da pessoa gorda ocupa um espaço onde ele é visível, vivo e existe personificado em suas subjetividades.

Igualmente, ainda tratando das representações empoderadoras e políticas, o corpus imagético apresenta imagens sugestivas de movimento literal, como um passo de ginástica, mas também sugerido por meio de uma pose fotográfica. O corpo não é imóvel como nas figuras obesas, ele se movimenta seja qual objetivo manifeste. O movimento é um aspecto relevante ao questionarmos a temporalidade desses corpos, visto a imobilidade imputada socialmente aos corpos gordos e funciona acertadamente em resposta às imagens mentais e materiais do corpo obeso inativo. Diante disso, Haney e Sitter (2021, p. 5) explicitam que o movimento do corpo gordo o atrela ao espaço, criando uma temporalidade onde a gordura é desejada, não estando resumida à métrica do IMC.

Potenciais da ficção imagética na realidade dos corpos gordos e obesos

É relevante compreendermos que tratamos de materializações de concepções mediante imagens digitais que se disseminam continuamente. Nesse sentido, as relações de temporalidade associadas ao corpo gordo estão intrinsecamente ligadas aos sentidos de temporalidade das próprias imagens. Ao analisar as imagens que compõem este corpus empírico e suas correlações com a conjuntura social, ou seja, com a realidade temporal em que estão inseridas, torna-se necessário considerar aspectos que envolvem a interseção entre realidade e ficção nessas representações.

Neste seguimento, o consumo rotineiro de imagens e seu caráter persuasivo inflige uma percepção de realidade a estas, fazendo com que a imagem seja admitida como uma representação do real para o senso comum; contudo, é amplamente reconhecido que as imagens podem ser construídas inclusive através de fabulações autorrepresentativas.

As construções imagéticas para o corpo obeso, amparadas pelo senso comum, configuram materialmente o que Foucault (2014) descreve como regime de verdade. Um regime aqui imposto por organizações vinculadas à saúde, que propagam suas próprias narrativas biomédicas quanto ao que é saúde e doença. Tal regime, sustentado em estratégias de biopoder (Foucault, 2014), destitui a identidade da pessoa nas imagens do corpo obeso.

Ao discorrer sobre novos modos de representação do outro, Gonçalves e Head (2009) refletem sobre o conceito de fabulação e seus impactos na representação, inclusive da imagem material. A fabulação surge de um processo imaginativo quanto ao que se quer representar. Assim, ela atravessa a perspectiva do idealizador da representação. Nesse sentido, as imagens do corpo obeso são permeadas por um imaginário oriundo de um repertório cultural do que é um corpo obeso, o qual se atrela a uma concepção de saúde e doença perpetuada por algumas instituições que normatizam essas condições e outras tantas que corroboram tal discurso, como a indústria e a publicidade.

Similarmente, a fabulação está explicitada nas imagens do corpo gordo, porém amparada pelo aspecto da autorrepresentação, em que a fabulação de si cria um personagem pertencente a um determinado mundo cultural (Gonçalves; Head, 2009). Dessa maneira, a narrativa do direito de existir e da identidade legítima da pessoa gorda, não mandatoriamente doente, influenciada pelas bases do movimento body positive2 e health at every size3, emerge como um confronto discursivo ao aludido nas imagens do corpo obeso. A personagem torna-se tão real que essa realidade é sugerida imageticamente.

Nenhuma das duas construções imagéticas, entretanto, são consideradas reais, pois existe algum grau de ficcionalização fabulada. Nessa perspectiva, a imagem poderia funcionar como uma “pseudorrealidade” ou uma ficção propriamente dita. No ambiente plataformizado do Google imagens, onde existe disseminação acelerada de imagens, atravessado pelo processo de modulação algorítmica, esse caráter da imagem em meio à intencionalidade do instrumento poderia difundir mensagens visuais ficcionais em larga escala, com impactos na compreensão e fabricação de identidades como as corporais.

Nesse aspecto, a construção social do corpo gordo à luz das imagens situa-se de modo ambíguo em nosso contexto. São construções ficcionais ou pseudorreais, dado que sustentam realidades distintas, coexistentes. Em uma delas, através de relações traçadas consigo mesmo e com os outros, encontramos um sujeito agente que exprime seu corpo gordo, vive-o, apresenta-se a partir dele, inclusive imageticamente, e expõe-se como quer ser visto: sensual, ativo e feliz, como nas imagens da atleta Maria Suelen, da modelo Naiara e da influenciadora digital Alexandra.

A partir de uma visão externa amparada pelo discurso do risco à saúde de certos veículos de saúde que constantemente propagam tal ideia em uma espécie de estratégia para o medo, temos o sujeito não personalizado em sua ação, que reflete uma produção cultural do que é ser gordo, incidindo no estigma da doença e da gordofobia. Tais representações, entretanto, não suportam inteiramente a realidade do que é o corpo gordo, apresentando visões opostas e extremas, sendo estas a da pessoa gorda, sempre feliz e confortável com a sua forma corporal, ou da doente, sugestionada pela categoria métrica do IMC, à vista do foco nas fitas métricas e no abdômen marcado das imagens para o corpo obeso.

Heilmair e Baitello Junior (2019), ao citar a perspectiva de Dietmar Kamper sobre a realidade das representações, expõem a visão de que as imagens altamente reprodutíveis dos dispositivos digitais perdem a sua capacidade de conexão com a realidade ao transparecer apenas um aspecto da natureza dual da imagem, ou seja, elas não são suportadas na realidade e não se fixam a uma realidade temporal presente. Essa ausência de ligação ao real sobrepõe características que unem a imagem apenas ao mundo ficcional, o que não comprovaria fatos, solidificando o aspecto de irrealidade de tais representações dos corpos.

Sob outro enfoque, Soares (2016, p. 17) aponta que é no imaginário que incide o poder das imagens. Para ele, esse poder faz com que as imagens sirvam “[…] como estatuto de autenticidade e veracidade para demonstrar e comprovar os fatos, mesmo hoje, em tempos de mídias digitais, dispositivos móveis e pontos de vista múltiplos” (Soares, 2016, p. 17). Logo, as imagens dos corpos gordos e obesos em sua ficção carregam uma potência, não se comportando necessariamente como modelos (Gonçalves; Head, 2009, p. 23).

A potencialidade da ficção imagética, assim, reside na reflexão quanto às representações propagadas em torno desses corpos e à consequente perspectiva de novas formas de construção. A mensagem visual propagada pelas imagens do corpo gordo, mesmo ficcionalizada, adquire nuances de pioneirismo ao despontar a reflexão quanto a novos olhares para este corpo. Embora as principais produções imagéticas deste corpus empírico sejam oriundas do movimento body positive, outros movimentos como o ativismo gordo repercutem influência nas imagens e na conquista do espaço de visualidade dos meios digitais.

Implicitamente, ao ocupar as mídias e plataformas digitais, a reivindicação do direito de existir é manifesto visualmente, irrompendo a nuance política da corporalidade gorda em determinadas páginas digitais, contrapondo a mensagem imagética das páginas relacionadas à saúde quanto ao reconhecimento da própria gordura e à manifestação e expressão da subjetividade gorda. Nesse sentido, as imagens veiculadas pelos dispositivos de saúde carregam o potencial de confrontar os corpos fragmentados (Cooper, 2007) e as ficções imagéticas contemporâneas enrijecidas em uma realidade estigmatizante ao modificarem sua forma de retratar o corpo obeso.

As imagens “médicas” deste artigo, por exemplo, aliam a figura do profissional de saúde da fita métrica e da circunferência abdominal, refletindo uma concepção de saúde atrelada à forma corporal assentida pela maior parte da sociedade e capitalizada cotidianamente, inclusive em plataformas digitais, pela vultosa indústria da saúde e doença. Destarte a alteração de tais formas corporais nas imagens e propagandas de saúde e médico-farmacêuticas ou mesmo a desvinculação direta do corpo gordo da doença poderia gerar, no mínimo, alguma ponderação.

Tal medida, ainda que insatisfatoriamente e mesmo colidindo com diversas disputas antecedentes à disseminação imagética no campo da saúde e posteriores no campo digital dos algoritmos e tecnologias digitais, já foi observada. A tentativa de “humanizar” o obeso através de imagens de pessoas gordas sem a característica do corpo fragmentado, a fita métrica ou a balança, com rostos, emoções e capacidade ativa é uma estratégia de redes sociais de organismos de saúde, observada, por exemplo, na página da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) (2024). Todavia, a maioria dos posts se referem à obesidade, atrelando a corporalidade gorda à doença e seu tratamento.

Apesar de ficcionais, essas representações seguem caminhos que se situam incompletamente em direção a novas perspectivas de representação da pessoa gorda e obesa. Sob a ótica enaltecedora do body positive e a antipatologização do movimento ativista, tem-se um modo de representação que não contempla, por exemplo, a singularidade diária do ser gordo em um contexto habitual. Em contrapartida, desvincular a forma corporal da doença, mesmo ao considerar o indivíduo gordo sem fragmentações em algumas representações, ainda não é uma realidade para o campo da saúde.

Importante referir que existem avanços como as novas diretrizes para o diagnóstico da obesidade4 do ano de 2025, porém a necessidade de refletir quanto às representações, tencionando as dinâmicas de disseminação em plataformas digitais e os seus impactos socioculturais nas subjetividades das pessoas e relações de saúde das pessoas gordas ainda é imperativa.

Considerações finais

As imagens constituem-se como representações parciais da corporalidade gorda e obesa. Há um certo grau de ficcionalização envolvido, seja pela fabulação do próprio sujeito ou do outro, no processo de construção imagética. O componente mercadológico das construções visuais, bem como as disputas de poder médico-farmacológico e estético na forma das páginas de saúde, torna a disseminação imagética dos corpos obesos, mesmo em irrealidade, suscetível a reflexões. No corpus empírico analisado, as imagens de enaltecimento dos corpos gordos, vinculadas ao movimento body positive, disseminadas digitalmente a partir do espaço conquistado pelo ativismo gordo, confrontam o senso comum que patologiza o corpo obeso metrificado e submetido ao discurso do risco à saúde, ao mesmo tempo em que reproduzem uma estratégia pioneira de resistência.

O ineditismo e a inovação do trabalho residem na utilização metodológica dos signos imagéticos, plásticos e icônicos como inspiração para a elucidação da mensagem visual e posterior reflexão diante das imagens dos corpos gordos e sobretudo dos corpos obesos no campo da saúde. Desse modo, as representações do corpo obeso funcionam como uma reprodução do que é imaginado pelo senso comum. Tendo em vista outros discursos de saúde que não se atrelam a concepções biomédicas hegemônicas, em muito evocando o aspecto humanizador da saúde, a alteração de tais representações torna-se pungente. A transformação dessas imagens significa também um desequilíbrio de bases de poder, bem como percepções de saúde e doença atreladas à forma corporal.

A necessidade de representações, especialmente no campo da saúde, que transformem as ficções imagéticas em potencialidades para uma nova realidade, alude a uma reflexão interpretativa das imagens em direção a novas formas de ver e tratar o corpo gordo e obeso, não amparada por julgamentos, mas por cuidados e que considere também a pluralidade de corpos gordos e obesos e os diferentes ativismos antigordofobia que por vezes não convergem.

Em se tratando dos desafios metodológicos implicados neste estudo, não foram considerados marcadores identitários relevantes, como raça e gênero, como também não houve aprofundamento quanto ao período pandêmico e à conformação de outros modos de uso da internet e redes.

Além disso, outro aspecto relevante consiste nas métricas utilizadas por plataformas como Google e a transparência insuficiente desses critérios em termos de classificação dos resultados gerados nas pesquisas. É possível que as imagens recomendadas sejam impulsionadas por monetização, vieses algorítmicos, interesses de grandes mídias e empresas que adotam tecnologias de otimização das pesquisas SEO (Search Engine Optimization) aplicadas para aumentar a visibilidade de páginas da web, melhorando seu posicionamento nos resultados de busca. Tais aspectos deveriam se tornar mais claros para os usuários.

Por fim, é fundamental pontuar a importância deste estudo para o campo da saúde e da nutrição, ao trazer reflexões sobre a produção imagética de corpos gordos e corpos obesos, sobretudo as veiculadas por organizações promotoras de saúde. Suas implicações em um contexto de visualidades destacam a necessidade de reavaliar e humanizar como esses corpos são representados e tratados no campo da saúde e também no contexto social, enquanto corpos incapazes e patologizados, promovendo uma mudança de paradigma que valorize a dignidade e o respeito por todos os indivíduos, independentemente de sua aparência física.

  • 1
    Relatório que aponta a sindemia global como a coexistência em interação de três pandemias: de obesidade, desnutrição e mudanças climáticas (Swinburn et al., 2019).
  • 2
    Movimento que foca em todos os corpos e na quebra do padrão único de beleza. Suas ações englobam moda, autoestima, belezas diversas, dentre outros (Jimenez-Jimenez, 2020, p. 174).
  • 3
    Movimento que prega saúde em todos os tamanhos (Burgard, 2009).
  • 4
    Trazem inovações referentes às relações entre forma corporal e doença, como a utilização de instrumentos diagnósticos para além do IMC (Rubino et al., 2025).

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Referências

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Editado por

  • Editores:
    Ivia Maksud, Marcos Castro Carvalho

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    14 Jan 2025
  • Recebido
    13 Maio 2025
  • Aceito
    24 Jun 2025
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