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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.2 no.1 Rio de Janeiro Mar./June 1995

https://doi.org/10.1590/S0104-59701995000200014 

LIVROS, ARTIGOS & REDES

 

País jovem com cabelos branco: a saúde do idoso no Brasil

 

 

Kenneth R. de Camargo Jr.

Coordenador técnico da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati/UERJ)

 

 

Renato Veras
Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1994. 224 p.

É parte do senso comum a idéia de que a estrutura etária da população brasileira situa-nos como um 'país jovem'. Ao contrário desta suposição ingênua, contudo, a queda da mortalidade infantil e a progressiva diminuição da fecundidade em nosso meio já nos garantem uma considerável população de idosos, que, projetada para 2025, nos colocará àquela altura como o sexto país do mundo em número de idosos. Este aparente paradoxo é uma questão central do livro de Renato Veras, indicada já na escolha mesmo de seu título. Assim como com outros indicadores sócio-demográficos, pouco a pouco a estrutura etária da população brasileira aproxima-se do perfil dos países centrais (ainda que vários indicadores, como por exemplo a mortalidade infantil, continuem mostrando a gravidade da questão social do Brasil) sem que se produzam alterações correspondentes na qualidade de vida da população, colocando-nos frente aos problemas gerados por um contingente crescente de idosos sem que haja adequada provisão de fundos sociais para fazer frente às suas demandas.

Os impactos desta transição nas políticas públicas já se fazem sentir, com a virtual inviabilização da seguridade social pela situação de 'cobertor curto' criada pelo sistema de financiamento em bases correntes da previdência pública associado à iníqua distribuição de renda que se agrava cada vez mais. Não equacionamos a desnutrição e as verminoses e nos vimos frente ao crescimento das doenças cardiovasculares e das neoplasias; da mesma forma, não logramos dar conta das necessidades de crianças e adolescentes e já não temos, com os recursos ora disponíveis, como enfrentar adequadamente o desafio de uma população em processo de envelhecimento. Ainda temos tempo — não muito — para equacionar as demandas que certamente surgirão e/ou se ampliarão a partir deste novo quadro populacional.

A questão do idoso carece de visibilidade. Um dos desafios colocados para a área da saúde coletiva é precisamente a produção de conhecimento sobre as especificidades da terceira idade em nosso meio, lacuna que começa agora a ser preenchida, num movimento que tem no livro de Renato Veras um marco importante. País jovem com cabelos brancos, versão, com pequenas modificações, da tese de doutorado apresentada na Universidade de Londres, traz ao leitor interessado (ainda que não especializado) um texto claro, sem concessões à banalização, mas que não foge ao rigor esperado em uma tese acadêmica. A revisão bibliográfica abrangente e atualizada, em particular, fornece um roteiro de estudo bastante rico.

Um outro aspecto relevante é dado pela cuidadosa descrição da metodologia adotada no estudo empírico. O inquérito domiciliar aplicado em uma ampla amostra da população de idosos da cidade do Rio de Janeiro — diga-se de passagem, a maior do país —, baseado num questionário multidimensional desenvolvido para o próprio estudo (Brazil Old Age Schedule — BOAS), é um guia prático para a elaboração e execução de pesquisas com perfil semelhante, mesmo que não se atenham ao mesmo tema. A descrição minuciosa, quase obsessiva, de procedimentos de amostragem, elaboração e validação de instrumentos, análises estatísticas e mesmo o relato dos pequenos contratempos e surpresas do trabalho de campo compõem uma fonte de referência essencial para a elaboração de investigações epidemiológicas.

Como decorrência do apuro metodológico, os resultados da pesquisa fornecem um retrato importante das condições de vida da população idosa desta cidade. É óbvio que, tratando-se de um estudo transversal baseado num questionário, o nível de detalhamento é necessariamente restrito. Reconhecer este fato não representa, contudo, uma crítica ao estudo: a aparente limitação é uma contrapartida necessária para a abrangência, ao mesmo tempo que aponta a necessidade de estudos posteriores, focalizando problemas e/ou subpopulações mais restritos, para a obtenção de dados com maior profundidade. O mapeamento inicial já está feito, aguardando os próximos pesquisadores.

Mesmo no nível de detalhe proposto, há parâmetros importantes para o planejamento de políticas públicas — em especial na área de saúde — que tenham o idoso como meta. Neste item reside outro dos pontos altos do livro: um de seus capítulos dedica-se precisamente a descrever um conjunto de propostas elaborado a partir da revisão da literatura e dos dados da pesquisa, com o intuito de fornecer subsídios para a formulação de políticas específicas para o segmento etário em questão. Ganha ares de denúncia, por exemplo, a constatação de que o fosso existente entre segmentos sociais no Brasil também implica um sobrepreço para nossos idosos: os mais pobres adoecem mais, têm maiores dificuldades para dar conta de suas necessidades de subsistência — veja-se, por exemplo, a questão do transporte público, pleno de barreiras econômicas e/ou arquitetônicas —, estando, em suma, em piores condições. Estas dificuldades reduplicam-se no caso das mulheres: uma vez que sua expectativa de vida é, em média, bem maior do que a dos homens, nas faixas etárias mais elevadas aumenta o número de mulheres que, além de todas as dificuldades mencionadas, ainda têm que se haver com a solidão e com a queda do padrão de vida subseqüente ao falecimento do companheiro.

Ainda no que diz respeito aos resultados da pesquisa, os dados referentes à saúde mental da população idosa — avaliados a partir das seções do questionário voltadas para o estudo da deficiência cognitiva e depressão — mereceram um destaque importante no texto. Ainda que com todas as ressalvas de praxe, de resto presentes no texto, as altas taxas de positividade observadas para ambos os distúrbios chamam a atenção. É claro que o que foi detectado pelo instrumento não é um diagnóstico, no sentido estritamente médico, e diferenças no grau de instrução dos respondentes podem exagerar a prevalência destes distúrbios, especialmente nos locais com menor nível sócio-econômico. Ainda assim, a presença na amostra de Santa Cruz, por exemplo, de mais de dez por cento de casos de depressão considerados graves merece um cuidado especial, principalmente sabendo-se, como o próprio autor aponta, da importância do suicídio como causa de mortalidade nesta faixa etária.

Para que algum problema possa ser enfrentado, é preciso antes de mais nada que seja identificado como tal. As demandas específicas da terceira idade começam a ser claramente identificadas, e a trilha aberta pelo livro de Renato Veras deixa um número considerável de questões para pesquisadores, planejadores e agentes de saúde. A partir do seu enfrentamento, talvez possamos dar aos cidadãos da terceira idade uma perspectiva de vida à altura da contribuição que já deram à sociedade.

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