Open-access “A cozinha é a base da religião”: a culinária ritual no batuque do Rio Grande do Sul*

Resumo

Batuque é uma religião afro-brasileira característica do Rio Grande do Sul. Presente no Estado há talvez um século e meio, assimilou diversos elementos da cultura regional. Tal como muitas outras divindades das também muitas outras religiões do mundo, as do Batuque “comem”. E o mesmo ocorre com os espíritos dos mortos. A comida sagrada, aqui, é a moeda principal na economia das trocas simbólicas entre estes seres sobrenaturais e os homens. Mas ela também permeia o grande quadro de relações humanas que o culto envolve, que extrapola a “comunidade batuqueira” e se espraia pela sociedade rio-grandense. O trabalho enfoca as principais dimensões que a culinária sagrada do Batuque ocupa, tanto no culto em si como na sociedade inclusiva.

Abstract

Batuque is an Afro-Brazilian religion characteristic of Rio Grande do Sul. Present in this state for the past century and a half, it has assimilated diverse elements of the regional culture. Just as in many other parts of the world, the divinities of Batuque “eat”. The same thing happens with the spirits of the dead. The sacred food, here, is the principal coin in the economy of symbolic exchanges between supernatural beings and people. But it also permeates the greater scheme of human relations which the cult involves, which extrapolates the batuque community and spreads throughout the society rio-grandense. This article focuses on the principal dimensions that the sacred culinary of Batuque occupies, in the cult as well as in the surrounding society.

A colonização portuguesa oficial do Rio Grande do Sul, no Extremo-Sul brasileiro, iniciou-se nas primeiras décadas do século XVIII. Anteriormente a região era habitada por índios. Os colonos portugueses trazem, já, consigo, escravos negros. Na segunda década dos anos 1800 começa a imigração alemã, e nos finais deles a italiana.

Quanto aos pratos típicos da culinária regional, deve-se aos índios a invenção do típico dos típicos, o churrasco - carne assada nas brasas - além da farinha de mandioca, que sempre acompanha o primeiro. E igualmente uma bebida, o chimarrão, infusão feita com as folhas de um arbusto. Os portugueses contribuíram com a maioria dos pratos, destacando-se o feijão e o arroz. Os alemães encarregaram-se de popularizar a batata, enquanto que os italianos trouxeram a polenta.1

A culinária rio-grandense de origem africana tem uma característica especial: uma parte dela é muito popularizada e foi adotada também pelos não-descendentes de africanos. Esta parece ser mais de origem banto, justamente os primeiros escravos que chegaram, a partir do século XVIII. Outro segmento desta culinária é de natureza exclusivamente ritual, sagrada, sendo utilizada no Batuque, religião de origem africana (sudanesa) característica do Rio Grande do Sul e semelhante ao Candomblé da Bahia ou o Xangô do Recife. Seus filiados, em sua maciça maioria, são negros urbanos pobres, moradores das periferias das cidades. Tais alimentos assumem importância crucial, neste culto, porque os deuses afro-brasileiros (afro-brasileiros) como tantos outros de tantas religiões, “comem”.2 Ao contrário da culinária de origem banto, o conhecimento tanto do preparo quanto das características destas comidas rituais é mantido no espaço intra-muros dos templos de Batuque. Talvez tanto por serem sagradas como pelo considerável fechamento que o culto mantém. Tais fatores permitem que elas assumam uma conotação étnica, tal qual Peter Fry (1982) refere quanto à feijoada.

Apesar de ser uma numericamente muito expressiva, entre iniciados, frequentadores, simpatizantes, a comunidade das religiões afro-rio-grandenses, compõe uma espécie de rede subterrânea na sociedade gaúcha.

Os assim chamados brancos sabem perfeitamente da existência destas religiões, porque muitos ali vão buscar a intercessão das divindades para resolverem problemas de toda a sorte.

Destes, a maioria só tem acesso às salas onde os chefes consultam os búzios (jogo adivinhatório) e aos pejis, onde ficam os implementos rituais, com sua penumbra, os cheiros dos alimentos sagrados depositados no chão, a profusão de alguidares, quartinhas de barro, as cortinas que ocultam certos objetos a olhos curiosos. Mas outros só conhecem de mais concreto os abundantes e temidos despachos (oferendas alimentares) colocados nas ruas, praças, praias, cemitérios, gaúchos. Para uns e outros, entretanto, este é um mundo praticamente hermético, cheio de mistérios, mas percebido sobretudo como perigoso. E perigoso, como diz Mary Douglas (1976), porque reconhecido como fonte de poder. Tudo isto produz, sem dúvida, um grande medo branco do feitiço negro.

O objetivo do trabalho é examinar alguns aspectos da presença do alimento nesta religião e do papel que desempenha na relação humanos/humanos e entre estes e as entidades sobrenaturais. Vários dos dados aqui utilizados foram veiculados em outro local (Corrêa, 1992), e dizem respeito a pesquisas efetuadas junto a diversos templos de Batuque, de 1969 até 1989.

As comidas no Batuque

Os primeiros templos de Batuque possivelmente foram fundados nos inícios do século XIX. Mais tarde apareceram outras formas rituais, como a Umbanda, na década de 1930, e a Linha Cruzada, nos anos 1940-50. Esta última forma reúne no mesmo templo as entidades das duas outras. Sem estatísticas mais precisas, estima-se que podem existir hoje entre 80 a 100.000 casas de culto destas três modalidades.

As divindades cultuadas no Batuque, chamadas “orixás”, têm características muito humanas, cada um possuindo suas preferências e idiossincrasias. Em seu conjunto formam uma sociedade onde há famílias, amor, ódio, intrigas, lutas, amizade, etc. Da instância sobrenatural fazem parte ainda os eguns (mortos), tidos como extremamente perigosos pois podem causar muitos prejuízos aos humanos, inclusive a morte.

Os orixás principais são 12: Bará, homem que “manda” nas ruas e encruzilhadas; Ogum, ferreiro, guerreiro e padroeiro dos artesãos. Oiá ou Iansã, mulher guerreira e sensual e “dona” dos raios; Xangô, guerreiro que comanda o trovão; Odé, o caçador; Otim, mulher de Odé; Obá, mulher guerreira; Ossanhe, o “orixá médico”, dono das folhas; Xapanã, um velho feiticeiro que comanda as doenças; Oxum, deusa da beleza e riqueza, dona das águas doces; Iemanjá, da água salgada; Oxalá, o mais velho de todos. Cada um deles, entretanto, divide-se em vários outros da mesma categoria com nomes e idades diversas. Eles possuem também cores e símbolos próprios.

Cada templo possui uma chefia, o “pai (ou”mãe”)-de-santo”, que tem a autoridade suprema em sua casa, e é o proprietário legal desta. O conjunto de templos compõe uma comunidade na medida que seus dirigentes e filiados comungam de uma visão-de-mundo comum (que chamo de “batuqueira”), sendo que todos os principais chefes se conhecem e visitam.

Como referi, deuses e eguns “comem”, sendo o alimento o principal bem simbólico que os humanos lhes oferecem. Ele surge, assim, como fator mediador por excelência das relações entre o mundo dos homens e o sobrenatural. Alimento, entretanto, deve ser entendido numa dimensão ampla, pois além das comidas rituais propriamente ditas há ingredientes como o sal, açúcar, pimenta, vinagre, mel, óleos comestíveis, água, bebidas alcoólicas ou não, hortaliças, frutas, ervas e folhas diversas, que compõem a culinária batuqueira. Mas para os seres sobrenaturais o de maior valor é o sangue dos animais sacrificados nos rituais.

A iniciação corresponde a um pacto estabelecido entre o homem e os orixás. O que os humanos esperam deles, antes de mais nada, é proteção. Para proteger os humanos, porém, eles precisam estar fortes, e para tanto é necessário mantê-los sempre bem alimentados. Este é justamente o principal dever dos iniciados, e é por isto que as comidas rituais do Batuque chamam-se “comidas de obrigação”. Não alimentar o orixá - ou seja, não cumprir o pacto - é não apenas perder sua proteção mas sobretudo ficar exposto a riscos (incluindo-se castigos por parte do próprio orixá, mesmo) que não raro podem resultar na morte. Entende-se que o deus, ao ser feita a iniciação de um fiel, passa a “cuidar” deste - mais especificamente de sua cabeça, onde “mora”. Existem vários graus de iniciação, e cada um deles, progressivamente, corresponde ao sacrifício de animais com maior volume de sangue: vai do “bori”, em que se sacrifica uma pomba, até graus maiores, em que a vítima pode ser um touro. A iniciação final é chamada de “aprontamento”, e firma o pacto com a divindade. Assinale-se que ele implica, entre outros aspectos, na proibição quanto à pessoa comer certos alimentos, o que é chamado de “quizila”.

A cerimônia da iniciação consiste, primeiramente, em entronizar o deus em uma pedra (“ocutá”) ou objeto especial, que compõem sua representação material. Após, o animal é decapitado, e seu sangue vertido simultaneamente no ocutá e na cabeça do iniciando, onde deverá permanecer 3 dias. Diz-se então que o orixá “está comendo”. Nestas ocasiões, no instante exato em que o sangue toca o crente, o orixá deste “baixa” (ocorre a possessão). Então, demonstrando sua fome, não é raro que este tome o corpo da vítima nas mãos e beba o sangue diretamente em seu pescoço. O ato é visto, também, como prova de verdadeira possessão, pois entende-se que é muito nojento, e apenas uma divindade poderia fazê-lo. Aliás, várias outras provas de possessão incluem substâncias a serem ingeridas pelo possuído: tomar um copo de vinagre com sal e pimenta (vomitório eficaz, caso não haja a presença do orixá); comer mechas de algodão incandescentes embebidas em dendê; beber o mesmo dendê fervendo. Certos chefes são acusados de obrigar os possuídos a ingerirem excrementos humanos para saber se não é uma simples burla. Há, ainda, o caso dos “axerés”, espécie de estado intermediário, na possessão, entre o santo e o normal, em que a pessoa assume comportamento infantil. Eles costumam sair catando insetos, como baratas, ou certas lesmas que, com grandes manifestações de regozijo, disputam e ingerem vivos na frente dos humanos, muitos dos quais não suportam a cena e vomitam. Tal como nos outros casos isto também é considerado prova de possessão.

Cabe dizer que tudo aquilo que é consumido pelos deuses nos testes oficiais da possessão ou no estado de axeré, não deixa de ser alimento - tanto que é ingerido por eles. Mas seriam “anti-alimentos” para os homens, seja por prejudiciais, nojentos, comidos crus, e quanto mais vivos, como no caso das lesmas e baratas. Assim, o alimento ocupa uma posição-chave também como elemento divisor de águas entre categorias de seres do mundo natural e sobrenatural do Batuque, caracterizando-as e acentuando suas fronteiras.

Cada orixá só aceita o sangue de determinados animais - aves, caprinos, ovinos, suínos, bovinos, peixes - considerando-se o sexo, idade, cor, além de algumas outras características físicas destes. Tanto orixás como mortos recebem também algumas partes especiais do animal, como as patas, a cabeça, alguns órgãos internos e testículos. Alguns dos alimentos dos mortos são específicos, mas outros são muito semelhantes aos dos deuses, exceção feita a certos ingredientes especiais. Há pratos rituais oferecidos apenas às divindades, outros apenas aos eguns e outros, enfim, que podem ser compartilhados entre deuses e homens ou mortos e homens.

Aqui é interessante abrir um parêntese. Anteriormente fiz referência à Umbanda e à Linha Cruzada. A primeira modalidade, chamada Umbanda Branca, cultua “caboclos” e “pretos-velhos” (espíritos de índios e africanos velhos), além de certa categoria de orixás. A Linha Cruzada cultua estes, os orixás do Batuque e mais o Exu e a Pombagira. As entidades da Umbanda Branca são consideradas como de menor eficácia ritual do que todas as demais, justamente por sua alimentação: recebem apenas mel e frutas, enquanto que as das outras modalidades recebem sangue.

Os fundadores do Batuque e seus descendentes não encontraram obviamente tudo o que existia na África para sua prática ritual, tendo de aproveitar os ingredientes aqui disponíveis, seguidamente combinando-os de forma diferente, de modo a elaborar uma cozinha ritual própria. Da contribuição indígena, Ogum apropriou-se do churrasco (e com farinha de mandioca, tal como é servido na mesa rio-grandense), sendo que a erva-mate é oferecida aos eguns. A batata “inglesa”, popularizada pela colônia alemã, é uma das comidas preferidas do Bará, enquanto que Oxum gosta da italiana polenta.

Quanto à contribuição portuguesa, os mesmos eguns gostam de arroz (cozido com galinha). Ao Bará e ao Ossanha se oferece também lingüiça, e certos templos acrescentam feijões pretos crus ao opeté - um bolinho de batata cozida - apreciado por Xangô. Outros pratos vão entretanto aparecer, como o sarrabulho (um guisado de vísceras), oferecido a todos os orixás. Mas cabem uns comentários.

O primeiro, é que se pode observar que no universo da cozinha ritual batuqueira há uma espécie de amostra da culinária de cada uma das chamadas etnias formadoras principais da população gaúcha, como que uma radiografia desta. Isto, de um lado, ajuda a assinalar o caráter regional do Batuque face a outras religiões congêneres, como o Candomblé. E de outro, denuncia a considerável integração de seus devotos (conseqüentemente, da religião que praticam) no ambiente sócio-cultural rio-grandense. O segundo, é que os deuses Ogum, Bará (sob o nome de Elegbara ou Legba), Oxum, ou os eguns (mortos) são conhecidos e cultuados em praticamente todos os locais de influência nagô: África, Américas. Mas o único lugar no mundo, exatamente, onde estas entidades comem tais alimentos é no Rio Grande do Sul.

O alimento e seu consumo

O filiado ao Batuque classifica os alimentos em duas categorias: as comidas de obrigação e as comidas brasileiras. Brasileiras são todas as que não se preparam com fins rituais, mesmo que possam ser usadas no culto, como é o caso do churrasco. Esta ideia de brasileiro e não-brasileiro aparece em outras expressões, remetendo para a questão da identidade do grupo: dizem-se pertencer à religião “africana”; o termo “festa” significa, automaticamente, cerimônia litúrgica, enquanto que uma festividade qualquer, “civil”, é chamada de “festa brasileira”. Isto é, parece indicar que representam-se a si mesmos como não-brasileiros ou estrangeiros, talvez reflexo do status de exclusão da cidadania que o negro continua tendo até hoje no Brasil.

A necessidade de confeccionar um grande volume de comidas determina que seja reservado um bom espaço para as instalações da cozinha. E ali certamente encontraremos panelões, fogões a lenha de grande porte, dúzias e dúzias de pratos. Casas, como a da mãe-de-santo Santinha do Ogum, possuem duas cozinhas, uma para “a religião” e outra para o dia a dia.

A responsabilidade na confecção das comidas de obrigação é muito grande, razão pela qual cada casa de religião tem uma cozinheira especializada, sempre uma velha.3 Com efeito, a elaboração de um simples prato implica numa infinidade de detalhes, que têm de ser respeitados. Ocorre que nas solenidades rituais de certas casas o número de animais sacrificados, entre quadrupedes e aves, pode chegar a centenas. Como foi dito, o orixá exige animais de certas cores. Fica fácil saber qual animal deve ser preparado para tal orixá enquanto está com a pele, mas sem esta as coisas ficam difíceis. A cozinheira, então, tem de estar muito atenta no sentido de não trocá-los. Como veremos, dar uma vítima trocada para um santo pode ser entendido por este como um grande desaforo, provocando sua vingança não apenas contra o ofertante do animal como também sobre o dono do templo.

Conquanto seja uma religião de pobres, o ritual do Batuque tem alto custo de manutenção justamente pela necessidade de sacrificar muitos animais e confeccionar dezenas de pratos rituais. Nas cidades gaúchas há um mercado de animais destinados especialmente ao culto, sendo comum estabelecimentos colocarem placas como “vendem-se bichos para a religião” ou similares. Os comerciantes do ramo, que conhecem bem tais detalhes, cobram alto preço por estes animais, acima do valor normal do quilo. Um pai-de-santo, assim, tem de fazer muita economia ao longo do ano para poder promover as solenidades rituais de seu templo. Os respectivos filiados também contribuem, mas sua parte invariavelmente é menor. É muito comum que os chefes ajudem seus “filhos” mais pobres a darem de comer a seus santos. No dia da festa todos comem, visitas, seja quem for, sem pagar um tostão, sendo que casas de porte maior podem reunir mais de 400 pessoas em uma única cerimônia. Como se não bastasse, cada uma leva para casa um pacote - o mercado - onde há pequenas porções das principais comidas preparadas. Comer destas comidas é sacralizar-se, e o mercado permite estender tais benefícios aos familiares que ficaram em casa. A lógica que comanda a ação, aqui, é oposta à ocidental-capitalista: nesta, tem prestígio quem acumula bens. Na visão batuqueira é o contrário: tem prestígio quem distribui, porque se o faz é porque pode. Por trás desta lógica há uma razão mística: o êxito de um templo e de seu dirigente é atribuído ao seu orixá protetor. Ter condições de dar uma grande festa com muita comida, então, é algo percebido pelos seguidores do Batuque como demonstração cabal de poder por parte do orixá; e simultaneamente da excelência e eficácia do dono da casa, que tem habilidade para utilizar tal poder para satisfazer a clientela, que lhe paga bem. E este prestígio, é claro, projeta-se também para os freqüentadores do templo. Pois, pergunta-se, qual o iniciado que não se orgulhará em pertencer a um templo destes? É válido supor, então, que este jogo que tem por base a confecção e distribuição suntuosa de comidas, nas festas públicas do Batuque, está inscrito nos vetores de prestígio e poder que marcam as relações sociais no culto.

O momento principal de consumir os alimentos, nestas festas, é uma cerimônia coletiva e pública chamada “mesa-dos-prontos” (iniciados em grau maior). Uma grande toalha é colocada no chão e sobre ela depositam-se pratos com todos os tipos de comidas rituais confeccionadas. Os prontos, ajoelhados à sua volta, devem comer um pouco de cada uma delas. Pessoas não iniciadas ficam apenas assistindo. Come-se com a mão. Uma rápida incursão por uma antropologia do alimento vai nos levar a pensar, quanto a um prato específico, sobre o quem o faz, como faz, com quê, para quem, como e quando é consumido. No caso, estamos em presença de pratos étnicos, digamos, que devem ser consumidos de forma também étnica, sem talheres, e por certo tipo de pessoas. Consumir, assim, determinado alimento, e de certa forma especial, corresponde também a uma expressão simbólica que identifica categorias sociais, não apenas quanto ao interior do templo (prontos/não-prontos) como em relação à sociedade inclusiva: batuqueiro/não-batuqueiro.

Encerrada a mesa, começam, ao som de cânticos e tambores, as danças rituais. A coreografia expressa as características místicas atribuídas aos orixás, e duas destas danças fazem referência à culinária. Uma delas é a da Oxum Docô, uma velha, cujos gestos sugerem alguém que, tendo um alguidar num braço, faz como se misturasse massa de farinha com as mãos: “é a Oxum, mexendo o fubá dela”. Outra, de Obá, imita uma pessoa que, em pé, batesse um pilão. Um aspecto importante destas danças é que colocam frente aos olhos dos humanos, via dramatização, o universo mítico batuqueiro. Esta visualização constante, a cada festa, permite que tais representações coletivas sejam, também constantemente, reforçadas a nível individual. Em outras palavras, contribuem para a persistência da tradição, elemento em torno do qual, em última análise, o grupo se perpetua e reproduz. E neste contexto, mais uma vez, observa-se a presença do alimento.

A comida no culto dos mortos

As cerimônias de culto aos mortos, chamadas “aressum” ou “missa-de-eguns” também implicam num grande consumo ritual de comida. Os espíritos são especialmente chamados para o festim, que compartilham com os humanos, apenas. Esta participação, entretanto, não é total, como entre homens e orixás, pois, embora seja o mesmo alimento que ambos comem, os respectivos recipientes são rigorosamente separados. Isto se deve ao extremo perigo representado pelo egum, que sentindo-se solitário, tenta levar consigo tantos quantos possa de seus antigos companheiros de religião. E ele detém poder para tanto, especialmente nestas ocasiões em que valem oficialmente as suas regras. Partilhar efetivamente com o morto uma mesma porção de alimento seria apagar a fronteira morto/vivo, assumindo a condição de seu igual, o suficiente para ser “levado”. É importante, então, conservar bem viva a separação entre as duas categorias, mas, por questão tática, manter uma aparência de comunhão.

A “missa” é um anti-ritual em relação ao dos deuses, como que uma imagem deste no espelho: reversa. A diferença se traduz pela existência de uma infinidade de detalhes em que as oposições simbólicas entre ambos são diametrais e bem explicitadas. Graças ao perigo representado pelo egum (que é ademais muito exigente) detalhes mínimos são obsessiva e rigorosamente seguidos.4 Tal detalhamento funciona como balizas que mapeiam os territórios não apenas quanto ao mundo dos orixás e o dos mortos, mas também o destes e o dos homens. E o alimento aparece, aí, novamente, como um importante fator no estabelecimento de tais diferenças.

Tal como nas cerimônias para os orixás, sacrificam-se vários animais para os eguns. O sangue, entretanto, é vertido em um buraco feito sob uma casinha - o balé - nos fundos do templo de Batuque. A carne dos animais também é cozida, e com ela, além de outros ingredientes, são confeccionados alimentos próprios para a ocasião. Muitos destes pratos são quase idênticos aos dos deuses, não fora a troca de certos elementos. Diferentemente das festas de orixás, as carcaças das vítimas são seccionadas longitudinalmente, sendo a metade direita reservada para os humanos, e a esquerda para os mortos.

Prepara-se “tudo o que a boca come”, o que inclui as mais variadas comidas “brasileiras”, especialmente aquelas de que o morto mais gostava. Os pratos rituais - indispensáveis, pois marcam o caráter específico das cerimônias - são o “fervido” e o arroz-com-galinha, feitos apenas nestes momentos e evitados em outros, pois considerados “comidas de egum”.5

Os alimentos da mesa de eguns, colocados diretamente no pavimento do salão das cerimônias, são acompanhados por pratos e talheres, para que o morto possa comer. Embora, como disse, se usem apenas as mãos nas refeições cerimoniais do Batuque, aqui há comidas brasileiras - e aí a razão dos talheres.

As comidas dos vivos são idênticas às oferecidas aos mortos, mas colocadas em outros recipientes e em locais mais elevados, a separação espacial simbolizando as diferenças. Se em vez do ritual anual de eguns for um enterro, um prato de arroz com galinha ou fervido é colocado sob o caixão, que permanece no salão de cerimônias do templo. Na visão do culto, comer, mesmo por distração qualquer porção dos alimentos destinados ao egum, como referi antes, é se expor a uma morte certa. Contam-se vários casos de gente que morreu subitamente por ter cometido tais infrações, como o da menina que, por ter comido “só uma pipoquinha do egum, não viu o clarear do dia”.

Na missa são servidas bebidas alcoólicas, rigorosamente proibidas em rituais para os orixás. O ápice da cerimônia é o “café”, um café com leite acompanhado por sanduíches, bolinhos, goiabada, pão, biscoitos, o que se quiser. No centro da mesa, oferecidos ao morto, são colocados pequenos pratos com porções dos mesmos alimentos destinados às pessoas. Estes ficam ao redor. Cada participante, ombros tocando nos dos vizinhos, fica de pé frente à xícara que lhe é destinada, podendo comer com calma, até fartar-se. Mas não pode deixar restos, pois o egum imediatamente irá comê-los, isto significando automaticamente a morte do dono dos restos. O oficiante espera que cada um termine e, a um sinal seu, todos afastam-se subitamente da mesa. O ato faz parte de uma série de procedimentos simbólicos correlatos, no aressum, que objetivam fazer o morto entender que não pertence mais a este mundo e que deve se juntar a seus iguais. Aí estão, por exemplo, o significado de todos ficarem apertados à volta da mesa, e do pulo: impedir, primeiramente, que o egum se junte aos que estão nela (porque não há espaço). E depois, deixarem-no sozinho. Negam-lhe, assim, o direito e a alegria de compartilhar, com seus antigos companheiros, das refeições litúrgicas comunais.

Terminada esta parte do ritual, faz-se uma limpeza mística nas pessoas e na casa mortuária, o que consiste em esfregá-las com aves vivas e um pacote contendo milho torrado (do Bará), entre outros materiais. Aqui temos, novamente, a presença de certos alimentos que, por pertencerem a orixás, têm o poder de eliminar o contágio do morto. Em seguida, tudo o que não foi consumido é colocado em sacos e levado para a água corrente.

É possível fazer-se, ainda, outras observações. Uma delas é que a comida, tanto é fator-chave para atrair o morto como para afastá-lo, remetendo-o à comunidade de seus pares. Mas sendo lhes oferecida anualmente - isto é, trazendo-os novamente de volta - permite que participem da sociedade dos vivos. Sendo a chave da rejeição e da atração, ela em última análise também exorciza a morte-extinção, pois mostra que há uma continuidade depois dela, a sociedade dos mortos.

As comidas sagradas

Os principais pratos rituais do Batuque são:

Acaçá - Oferecido a Oxalá. Coloca-se o milho de canjica branco de molho. Ao amolecer é ralado em uma pedra até transformar-se em pasta. A massa é enrolada em folhas de bananeira e cozida no vapor. Só os orixás comem.

Acarajé - É um bolinho de feijão “miúdo” frito em azeite de dendê. Para a Oxum é necessário descascar o feijão, bastando, para que solte a casca, deixá-lo de molho por alguns dias. Para a Iansã é preparado com casca. Ralam-se os grãos em uma pedra. Podem ser oferecidos tanto aos humanos quanto aos orixás. Um aspecto interessante é que as pessoas ocultam-se dos olhares alheios enquanto batem o acarajé, pois acredita-se que a massa pode “desandar” se outros “botarem os olhos em cima”.

Alelé (ou olelé) - É a mesma massa do acarajé posta a cozinhar no vapor e enrolada em folhas de bananeira. É oferecido à Oxum, sendo que os humanos não o comem.

Amalá - O amalá é um delicioso pirão de farinha de mandioca sobre o qual se coloca um ensopado de carne bovina picada com folhas de mostarda e todos os temperos que se quiser. Pode ser feito também com camarão ou galinha, substituindo-se a mostarda por quiabo, dependendo do orixá a que se oferece. Se se coloca repolho torna-se prato de egum. Tradicionalmente, por um castigo que recebeu de Oxalá, o pai de todos os orixás, Xangô Aganju, o moço, recebe o amalá numa gamela. Nas bordas do prato colocam-se seis bananas semi-descascadas com as pontas molhadas em azeite de dendê. Pode-se homenagear, ao mesmo tempo, a Iansã, uma das mulheres de Xangô, acrescentando-se maçãs, que pertencem “prá” ela.

O amalá pode ser tanto oferecido para os deuses como para os humanos. É prato obrigatório em qualquer solenidade ritual por duas razões. Em primeiro lugar porque Xangô é o “dono do barulho”, os instrumentos musicais sagrados, que só funcionarão adequadamente se seu dono estiver satisfeito, alimentado. E em segundo lugar é porque, se a presença de Xangô (que também “comanda os mortos”) estiver garantida, estes não terão oportunidade de intrometer-se na festa, causando problemas. Os Bêjis, (gêmeos) recebem amalá idêntico, mas com caruru, outro vegetal.

Aorô - Massa de acarajé sem casca que se leva ao forno em forma de bolinhos. Depois de assados são moídos, a eles se adicionando dendê, sal e, por cima, folhas de couve picadas. Há pessoas que oferecem-no para a Oxum, enquanto que outros dizem que é para eguns.

Atã - Há dois tipos de atã. O primeiro se oferece apenas para os orixás, sendo água com algumas gotas de limão em garrafinhas decoradas com franjas de papel colorido. Atualmente já se observam refrigerantes industriais de limão. O outro tipo de atã é uma salada de frutas, todas as que se quiser, com xarope de framboesa, água e açúcar, servida em grandes potes de barro, no final das festas rituais, para todas as pessoas que comparecem. Pertencente a Ogum, esta bebida centra uma das mais importantes dramatizações dos mitos do grupo religioso. A dramatização se baseia numa estória mítica que envolve vários orixás. Conta-se que o Xangô era comprometido com a Iansã, deusa muito sensual. Ele era também servo de Oxalá, o Velho, pai de todos os orixás, e como tal encarregado de transportar Oxalá nas costas, cargo muito honroso. Certo dia todos os orixás dirigiam-se a uma festa. Ao passar num pontilhão, Xangô vê ao longe a Iansã, belíssima e, como se não bastasse, com um prato de amalá nas mãos - a comida preferida do orixá. Perturbado, ele desanda a correr, deixando Oxalá caído no barro. Os outros orixás vêm em grupo, conversando, e nem ouvem os gemidos do velho. Mas Ogum, que vinha mais atrás, recolhe Oxalá e coloca-o às costas. O pai de todos está furioso! Como primeira medida elege imediatamente Ogum como seu servo e, ainda mais, tira a Iansã do Xangô e entrega-a para o primeiro. Finalmente condena Xangô a comer em uma gamela - uma humilhação, visto que todos os demais orixás comem em pratos de barro. Ogum, guerreiro e ferreiro, leva Iansã para a sua casa, no mato, onde tem sua ferraria. Mas Xangô, que mora numa pedreira próxima, de forma alguma se conforma com a situação. Então, do alto da pedreira ele canta, chamando Iansã e dizendo-lhe que embebede Ogum para fugir com ele, Xangô. Mas a fuga é descoberta, os fujões são perseguidos e há lutas, pois todos os três são guerreiros.

O embebedamento de Ogum por Iansã é dramatizado nos finais das festas por ocasião da “dança do atã”, quando as garrafinhas, juntamente com pequenas espadas, são retiradas do quarto-de-santo para a encenação. Garrafas são entregues a possuídos por Iansã, e as espadas para os oguns. Ao som dos cânticos e tambores, então, as Iansãs, com atitude disfarçadas, vão levando as garrafas à boca dos parceiros, mas elas bebem também. Enquanto isto estes esgrimem com as espadas. A cerimônia termina com a simulação de uma bebedeira coletiva entre os orixás que dançam.

Axoxó - Milho amarelo comum cozido na água com sal. Sobre o milho colocam-se rodelas de coco. Há pessoas que dizem pertencer a Oxalá, outros a Obá e outros, enfim, a Xapanã. Comem orixás e pessoas.

Batata-doce frita - É oferecida em rodelas, para a Iansã, podendo ser saboreada também pelos humanos.

Canjica - Milho cozido em água. Para a Iemanjá deve ser canjica branca refogada na banha e com sal, cebola e tempero verde. Se for para a Oxum passa pelo mesmo processo e leva ainda dendê. Para Oxalá deve ser branca e sem sal. A canjica servida para as pessoas é branca, com açúcar e coco.

Churrasco - Tal como se prepara no Rio Grande do Sul: carne (de preferência costela) assada na brasa. Acompanha farinha de mandioca crua ou cozida (farofa). É comida de Ogum.

Cocada branca - Para a Iemanjá e Oxalá.

Ecó - Há vários tipos de ecó e para várias entidades, nenhum deles oferecido às pessoas. Muitas vezes o que é chamado ecó é um conjunto de pratos com ingredientes diversos. O mais comum é o ecó do Bará, um alguidar com água salgada sobre a qual se colocam 3 ou 7 pingos de azeite de dendê, acompanhado de outro com milho comum torrado, 3 ou 7 batatas sapecadas, dendê e 3 ou 7 balas de mel. Há pessoas que o fazem, para o mesmo Bará, com pirão de acaçá (referido anteriormente) ou farinha de mandioca temperado com sal e salsa. Segundo o pai-de-santo Ayrton do Xangô, outros orixás recebem ecó: Xapanã: água com carvão, 7 pimentas-da-costa e dendê. Para a Iemanjá, água com 8 pipocas. Oxalá: água mel e acaçá desmanchado. Oxum: água com mel e 8 pipocas. Iansã: água com cinza. Xangô: banana desmanchada em água, farinha de mandioca e dendê. Tive ocasião de observar ecós para eguns com sangue de aves, farinha de milho e mandioca, azeite de mesa, pó de café e erva-mate.

Farofa com ovo e lingüiça - É para o Bará. Vi ser servido, no templo da babalôa Laudelina do Bará, para as pessoas presentes.

Farinha-de-Xapanã - Farinha de mandioca pilada com amendoim torrado e açúcar. Comem os orixás e as pessoas. Esta é uma comida que, no passado, as escravas vendiam nas ruas de Porto Alegre com o nome de “farinha-de-cachorro”.

Feijão-miúdo com canjica - É servido para a Obá, sendo que as pessoas não comem.

Frutas em geral - Vários orixás recebem frutas. De maneira geral as frutas pertencem a Oxum, pois “é a dona da quitanda”. As laranjas e frutas amarelas a ela pertencem, especialmente. Xangô é o dono das bananas, Iansã, da maçã e da pitanga, Obá, do abacaxi.

Guisado de lingüiça ou carne de tartaruga - Faz-se um ensopado e serve-se com farofa. Podem comer orixás e humanos. Se se quiser pode servir dentro do casco da própria tartaruga. É comida de Ossanha.

Milho torrado - Torra-se o milho, adiciona dendê e um pouco de sal. Acompanham 7 batatas inglesas sapecadas e igual número de balas de mel. É para o Bará Lodê, da rua, e exclusivo do orixá.

Milho com feijão miúdo quase torrados - Xapanã. Não é oferecido às pessoas.

Minhã-minhã - Farinha de mandioca com dendê. Pertence a Ogum, e só o orixá come.

Molocum - Feijão miúdo cozido e depois temperado com dendê, sal, cebola. Vai tempero verde em cima. Serve-se para a Oxum, e é prato exclusivo dos orixás.

Nhálas ou nhélas - Comidas exclusivas dos orixás e eguns. Fritam-se as asas e pernas das aves sacrificadas. Acompanha uma bolinha de pirão de farinha de mandioca. Em caso de orixá do sexo masculino incluem-se, crus, os testículos dos animais abatidos. Nas nhálas de egum colocam-se apenas os membros esquerdos das aves.

Odum - Torra-se farinha de milho no forno. Se é oferenda para a Oxum vai açúcar, dendê e sal, mas se é para Oxalá não leva dendê. É prato destinado apenas aos orixás.

Opeté, apeté ou peté - Pasta de batata inglesa cozida à qual se dá a forma que se deseja, de acordo com o orixá. As pessoas não comem. Observei em forma redonda ou piriforme para o Bará Jelu (de dentro de casa) e também piriforme para o Bará Lodê, da rua. O do Ossanha tem a forma de cabaça, tartaruga ou do órgão humano do qual se pede cura. Algumas pessoas dizem que a Iansã come opeté de batata-doce. Opeté de Xangô é piriforme e leva feijões pretos fincados nas laterais.

Orufá - É um opeté especial para Oxum. Faz-se de batata inglesa e colocam-se duas miniaturas semelhantes ao lado, que são os Bêjis (gêmeos). Só o orixá degusta.

Pão - Para Xapanã Velho associado ao Cristo das Chagas

Pipocas - Para Xapanã e Ogum.

Quindim - Oxum.

Sarrabulho - Guisado cozido e temperado de miúdos dos animais sacrificados. Prepara-se para todos os orixás e os humanos.

Fervido - Sopão grosso com farinha de mandioca e pedaços de carne e hortaliças. É comida de eguns, servida também para os humanos por ocasião das solenidades dedicadas aos primeiros.

Arroz com galinha - É igualmente comida de eguns e servida nas ocasiões referidas acima.

Alimento e feitiçaria

Na vida do fiel muitas vezes há a necessidade de curar-se de doenças, livrar-se de malefícios e problemas causados ou não por outrem, remover empecilhos que surgem em seu caminho. Mas a defesa muitas vezes implica num contra-ataque. Outras vezes é necessário um ataque-surpresa ao adversário para neutralizar suas ações. Em qualquer destes casos estamos, já, nos limites pouco nítidos do campo que se costuma chamar de feitiçaria. É nestas ocasiões que tanto os orixás como os eguns são convocados a intervir, sendo que tais intervenções são pagas com oferendas alimentares. Dependendo da maneira que tais alimentos são feitos e oferecidos, tanto uma como outra entidade podem encarregar-se de tais tarefas. São nestes aspectos que se percebe que na sociedade batuqueira conhecimento ritual significa poder, e é por isto que certos segredos - e a feitiçaria é o maior deles - são cuidadosamente escondidos de possíveis concorrentes no mercado religioso.

Os seguidores do Batuque são unânimes em dizer que os orixás jamais fazem mal aos humanos, mas o mais correto seria dizer que não o fazem conscientemente, pois em última análise participam no mínimo indiretamente da feitiçaria. Isto ocorre porque a, digamos, personalidade atribuída aos orixás é marcada por uma contradição: de um lado, tal como o deus cristão, eles vêem tudo, são extremamente justos em suas ações, conhecem o futuro, dispõem de grande poder, etc. Mas por outro lado são suficientemente ingênuos ao ponto de se deixar facilmente enganar pelos homens.

A comida tem papel fundamental no feitiço, funcionando como uma pedra de toque que determina uma inversão na ordem natural das coisas. A oferenda comum, para o “bem”, compõe-se de elementos que o orixá aprecia, e é apresentada juntamente com certos símbolos - vasilhas papéis coloridos, etc. - que servem para que este identifique-a como sua. Na feitiçaria ela é alterada propositalmente quanto à forma de preparo, ingredientes, aparência, buscando-se uma oposição o mais diametralmente possível à outra. Desta maneira pode-se, por exemplo, colocar sal em vez de açúcar ou mel, farta dose de pimentas para um orixá que as detesta, azeite de cozinha ao invés de dendê. Ou materiais perigosos, como vidro moído ou cacos de vidro, e assim por diante. O oficiante chama o orixá pelo nome e menciona que tal pessoa - a vítima - foi quem enviou a oferenda, sendo que seu nome, para que não pairem dúvidas, vai em um bilhetinho que acompanha o despacho. A raiva do deus é extrema - pois acredita-se que ele poderá até se “cortar”, como um humano, com os cacos de vidro - e então ele vinga-se violentamente do suposto ofertante.

Um dos feitiços mais comuns é o opeté preto. Trata-se de um bolinho piramidal de batata-inglesa cozida oferecido ao Bará, tendo a cor natural do tubérculo. Para fazer o “mal” confecciona-se um bolinho idêntico, levado à encruzilhada sobre um papel vermelho, tal como se faz normalmente. Mas desta vez o bolinho é rolado em pó de carvão para que fique preto. Uma vez encontrei um abacaxi (que pertence à deusa Obá) cravado de lâminas de gilete e com o nome da vítima em seu interior. Tal como no caso do vidro, supõe-se que ela irá cortar-se ao tentar experimentar o abacaxi. Outro feitiço é feito com carne crua enrolada em um boneco “batizado” com o nome da pessoa visada, sendo o conjunto colocado ao ar livre, no sol. A crença diz que à medida que a carne vai apodrecendo, o mesmo ocorrerá com a pessoa. Outro, ainda, é colocar sal no “bori” de alguém, conjunto de objetos sagrados que representam a cabeça dos iniciados, o que pode provocar-lhes a loucura.

Oferendas de comida também são feitas aos eguns, para que saiam em perseguição de alguém.

Alimento e saúde

Na visão-de-mundo do Batuque, a doença pode ser “do corpo” - e aí cabe encaminhamento a médico - ou “do espírito”, com causas variadas. Entre as principais temos a desproteção e/ou castigo, por parte do orixá, quanto a seu iniciado que não o alimenta convenientemente. Ou em casos de não-iniciados, manifestação de um possível orixá, que deseja que este cumpra a iniciação. No primeiro caso a solução é o restabelecimento do pacto; e no segundo, o estabelecimento. Como foi visto, ambos implicam na oferta de alimentos. Mas a doença pode ser causada, também, por alguém ser vítima da inveja, do “olho-grande” ou mesmo da feitiçaria. Nesta última hipótese o motivo poderá ser um egum, que “se encosta e como que chupa o sangue da pessoa, que vai ficando fraca”. Para inveja, olho-grande ou feitiçarias menores, pequenos rituais bastam.

No templo do pai-de-santo Ayrton do Xangô, por exemplo, se houver necessidade destes serviços o consulente é encaminhado ao quarto-de-santo, onde ficam os objetos sagrados. Ali há uma fila de pratos rituais como os citados antes, que o pai-de-santo vai passando de cima a baixo, ao longo do corpo do cliente - braços, pernas, girando-lhe à volta da cabeça. Se for o caso de egum faz-se uma cerimônia chamada “troca”. Parte-se do princípio que o egum, por ser “cego, burro e tapado”, pode ser enganado. O que ele deseja, em última instância, é o sangue da pessoa, mas, como “não percebe bem as coisas”, é convencido a trocar este pelo de uma galinha, tanto mais que a ave lhe será entregue no cemitério, onde eles “moram”. Em casos extremos tem de se oferecer ao egum um animal maior, que pode ser até mesmo um touro. Mas sempre será indispensável a limpeza mística, o passar no doente os alimentos sagrados dos orixás, cujo poder afastará o egum e permitirá o restabelecimento da saúde de sua vítima.

Conclusão

Assim, me parece que uma simples vista de olhos na culinária ritual do Batuque é suficiente para permitir algumas conclusões. Uma delas, é que o fato de Ogum, Oxum, Bará e os eguns receberem respectivamente churrasco, polenta, batatas e erva-mate, já sugere que se trata de uma religião do Extremo-Sul brasileiro. Outra, que a culinária batuqueira expressa uma espécie de radiografia da sociedade rio-grandense, com suas várias influências culturais. Uma terceira conclusão é que o alimento não delimita apenas territórios geográficos-físicos, mas também do social e do imaginário: conhecer ou não tal universo culinário específico significa pertencer ou não a certas categorias da sociedade rio-grandense (não-batuqueiro/batuqueiro). Mas, do mesmo modo que espelha tais diferenças, simultaneamente promove igualdades: a identidade batuqueira se realiza também por consumir tais alimentos. Já no espaço intra-muros dos templos, distingue quem é vivo, morto ou divindade. Ou seja, o alimento é símbolo de categorias da sociedade humana e sobrenatural. Uma quarta conclusão é que ele atua como uma espécie de chave-mestra reguladora no quadro geral de relações sociais e trocas simbólicas entre indivíduos, grupos e instâncias do mundo do Batuque - por sua vez inscrito na sociedade gaúcha: humanos/humanos (sejam filiados ou clientes) e entre eles e as entidades sobrenaturais. Isto é, à própria essência e existência do Batuque, como um todo, subjaz o alimento. De fato, nele se ocultam os mistérios da natureza humana e divina, o poder e o perigo, os segredos do bem e do mal, da saúde e da doença, da vida e da morte.

Por tudo isto, só posso dar total razão à saudosa Mãe Estér da Iemanjá,6 quando me confidenciou, literalmente, que “a cozinha é a base da religião”.

Referências

  • CORRÊA, N. O Batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. Porto Alegre: EDUFRGS, 1992.
  • COSTA LIMA, V. da. A família-de-santo nos candomblés Jêje-nagôs da Bahia: um estudo de relações inter-grupais. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1977.
  • DOUGLAS, M. Pureza e perigo São Paulo: Perspectiva, 1976.
  • FRY, P. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
  • *
    O presente trabalho foi apresentado no GT “Comida e Simbolismo”, coordenado pelo Prof. Sergio Teixeira, na XX Reunião da ABA em 1996, em Salvador, BA. As observações dizem respeito a pesquisas de campo que realizei, de 1969 a 1989, em templos de Batuque porto-alegrenses. Procuro reproduzir diretamente, aqui, as representações próprias dos filiados da religião quanto às entidades sobrenaturais, suas características, “personalidade”, modo de agir, etc.
  • 1
    A batata e a polenta são alimentos emblemáticos das populações de ascendência alemão e italiana do Rio Grande do Sul, respectivamente. Esta relação se expressa nas xingações padronizadas de que são vítimas: “alemão batata, come queijo com barata”; e “gringo polenteiro”.
  • 2
    Basta pensar na religião judaica, em que se ofereciam produtos agrícolas e animais a Javé. Ou no Catolicismo, em que Cristo, o “cordeiro de Deus”, é oferecido ao Deus-Pai e tem o sangue e a carne ingeridos simbolicamente pelos fiéis.
  • 3
    Costa Lima (1977, p. 83-84), referindo-se ao Candomblé baiano, assinala, entre outras importantes observações, que a cozinheira, lá denominada de “iabassê”, tem de ser velha o suficiente para não mais menstruar. Tanto na religião baiana como na gaúcha, uma mulher menstruada de forma alguma pode preparar alimentos rituais.
  • 4
    Um chefe me relatou caso em que os integrantes de um templo resolveram “despachar” (mandar embora), junto com os demais restos, alimentos não cozidos - arroz, feijão, etc. - que tinham sido comprados para a ocasião mas não preparados. Disse achar aquilo uma “loucura”, pois tinha certeza de que o morto iria logo manifestar-se, irritadíssimo (e portanto ainda mais perigoso) exigindo fogões, botijões de gás, panelas, fósforos, para poder preparar os gêneros alimentícios que lhes foram enviados indevidamente crus.
  • 5
    Batuqueiros mais ortodoxos recusam-se taxativamente, fora das Ocasiões prescritas, a comer rizotto de galinha, prato de origem italiana muito popular no Rio Grande do Sul, pois mistura arroz e a carne desta ave, tal como a comida dos eguns.
  • 6
    Mãe Estér da Iemanjá é uma figura respeitada na comunidade do Batuque, conhecida por sua sabedoria e experiência nas tradições e rituais da religião.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1996
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