Resumo
Objetivo Analisar a associação entre jornada laboral, carga de trabalho percebida e cultura de segurança em profissionais da Atenção Primária à Saúde.
Métodos Estudo transversal, com coleta de dados on-line e amostra não probabilística, realizado em 2023, em uma capital do Centro-Oeste do Brasil. Aplicou-se o National Aeronautics and Space Administration - Task Load Index para aferir a carga de trabalho e o Medical Office Survey on Patient Safety Culture para avaliar a cultura de segurança.
Resultados Participaram 355 trabalhadores, 77,7% do sexo feminino. As 12 dimensões da cultura de segurança foram avaliadas como fracas (< 75%) e 73,8% referiram alta carga de trabalho. Verificou-se associação entre respostas positivas da cultura de segurança e carga semanal até 40h nas dimensões “Apoio dos gestores na segurança do paciente” e “Questões relacionadas à segurança do paciente e qualidade” (p < 0,001). Observou-se associação entre menor carga de trabalho percebida e melhor avaliação da cultura de segurança nas dimensões “Processo de trabalho e padronização” (p = 0,01), “Apoio dos gestores na segurança do paciente” (p = 0,03) e “Avaliação geral de segurança e qualidade”.
Conclusão Os profissionais que trabalhavam menos horas e percebiam menor carga de trabalho avaliaram mais positivamente a cultura de segurança do paciente.
Carga de Trabalho; Segurança do Paciente; Atenção Primária à Saúde; Cultura Organizacional; Pessoal de Saúde; Saúde do Trabalhador
Abstract
bjective To verify the association between working hours, perceived workload, and safety culture among Primary Care professionals.
Methods Survey-type research, carried out between January and July 2023, with Primary Care professionals (n = 355) from a capital city in the Central-West of Brazil. The National Aeronautics and Space Administration - Task Load Index was applied to measure workload and the Medical Office Survey on Patient Safety Culture to assess safety culture. The data were subjected to statistical analysis.
Results The 12 dimensions of the safety culture were evaluated as weak (< 75%), and 73.8% reported a high workload. A significant association was found between a higher prevalence of positive responses regarding the safety culture and a weekly workload of up to 40 hours in the dimensions “Management support for patient safety” and “Issues related to patient safety and quality” (p < 0.001). An association was also observed between a lower perceived workload and a better evaluation of the safety culture in the dimensions “Work process and standardization” (p = 0.01), “Management support for patient safety” (p = 0.03), and in the overall assessment of safety and quality.
Conclusion Primary care professionals who worked fewer hours and perceived lower workload evaluated it more positively.
Workload; Patient Safety; Primary Health Care; Organizational Culture; Health Personnel; Occupacional Health
Introdução
A cultura de segurança pode ser compreendida como um conjunto de valores e comportamentos relacionados à segurança e compartilhados entre membros de uma organização. Para tanto, deve ser apoiada em tecnologias capazes de minimizar os riscos de forma constante e sustentada, a fim de prevenir danos evitáveis e mitigá-los, quando na sua ocorrência1,2.
Avaliar a cultura de segurança possibilita entender quão envolvidos os profissionais e as instituições de saúde estão na realização de um cuidado de fato seguro2. Apesar de a temática estar continuamente sendo abordada em pesquisas realizadas em âmbito de média e alta complexidade, nota-se incipiência quando o assunto remonta à Atenção Primária à Saúde (APS)3. Isso é uma lacuna importante, porque este nível de atenção não está isento de erros e eventos adversos associados à prestação de cuidados, conforme já relatado por revisão sistemática que analisou 33 estudos primários4. A ocorrência destes incidentes na APS está relacionada majoritariamente a falhas na comunicação das equipes de trabalho4, artefato elementar da cultura de segurança1,2.
Ao reconhecer que a cultura de segurança do paciente ainda se apresenta como tema a ser discutido no âmbito da APS3, pode-se inferir que para o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) ser efetivado no cenário brasileiro, torna-se necessário envolver toda a rede de atenção, em especial a Estratégia Saúde da Família (ESF), eixo orientador do modelo assistencial brasileiro5.
Notoriamente, a consolidação do modelo assistencial e do sistema de saúde, e, consequentemente, a própria segurança do cuidado por ele produzido estão intimamente relacionadas com a gestão do trabalho, inclusive na APS6. Pesquisas recentes atestam que o contexto da gestão do trabalho na APS em diferentes regiões brasileiras é marcado por problemas como a precarização dos vínculos trabalhistas6, o baixo incentivo à educação permanente7, a extensa cobrança por produtividade e a sobrecarga de trabalho8.
Isto posto, dentre algumas das características da APS, destacam-se inúmeras situações geradoras de riscos, como subdimensionamento de recursos humanos, carência de insumos ou materiais insuficientes, além da necessidade de realizar atendimentos a uma gama de usuários em pouco tempo, atividades múltiplas e repetitivas, por vezes sem a autonomia necessária, bem como atividades administrativas9,10, situações estas que podem aumentar a carga de trabalho.
A carga de trabalho pode se apresentar de maneira unidimensional (exemplo: tempo de trabalho dedicado, por regime contratual) ou se inter-relacionar com outras dimensões, pois o dinamismo laboral pode acarretar mais de um tipo de carga11. Sob o prisma da saúde do trabalhador, a carga de trabalho pode ser classificada em grupos de acordo com suas características: carga biológica, química, física, mecânica, psíquica e fisiológica12.
Somando esta premissa às características da APS já mencionadas, tem-se a hipótese de que a carga de trabalho influencia na segurança do paciente atendido nesse nível de atenção, inclusive de forma “indireta”, como na cultura de segurança. Logo, conhecer a carga de trabalho dos profissionais da APS pode permitir a elucidação acerca da percepção e adaptação ao trabalho nesse ambiente, visto que esta é fator inerente tanto do processo, quanto do ambiente de trabalho, sendo intimamente ligada à saúde do trabalhador13.
Conjetura-se que a carga de trabalho deve ser considerada diante de sua possível influência na cultura de segurança adotada pelos serviços de saúde e profissionais da APS e, por isso, cabe a necessidade de analisá-la, bem como os fatores associados. Frente aos fatos apresentados, questiona-se: “quais as relações existentes entre a cultura de segurança, a jornada e a carga de trabalho percebida por profissionais que atuam na APS?”.
Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar a associação entre a jornada laboral, a carga de trabalho percebida e a cultura de segurança em profissionais da APS.
Métodos
Desenho do estudo e contexto
Estudo transversal, com coleta de dados on-line, desenvolvido em uma capital da região Centro-Oeste do Brasil, com amostra de conveniência de profissionais da APS. O estudo norteou-se pela ferramenta Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)14.
O município onde a pesquisa foi desenvolvida abrigava, à época, 897.938 habitantes15. A rede da APS composta de 60 Unidades de Saúde da Família (USF), 11 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e três Clínicas da Família (CF), distribuídas em sete distritos sanitários. Essas unidades eram mistas, possuindo desde uma, até cinco equipes. Acrescenta-se a essas unidades, três policlínicas odontológicas, três Unidades Móvel de Atendimento Odontológico (Odontomóvel), uma Unidade Móvel de Prevenção em Saúde Bucal, 16 equipes do Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Primária à Saúde (NASF-AP), uma Equipe de Consultório na Rua (eCR) e seis Equipes de Atenção Primária para a População Prisional (eAPP)16,17. Logo, a rede de atenção primária do município pesquisado dispunha de 101 pontos de atendimento de atenção primária17.
Tamanho do estudo
A população correspondeu a profissionais atuantes nas equipes das USF, UBS e CF, e totalizava 4.231 trabalhadores à época. Embora não tenha sido empregada amostragem probabilística, o tamanho do estudo foi definido a partir de cálculo amostral, no qual foi considerada a população finita (n = 4.231), nível de confiança em 95% e margem de erro de 5%, e obteve-se um tamanho de 353 participantes. A coleta de dados foi interrompida com o alcance da amostra dimensionada.
Participantes
Foram convidados a participar todos os profissionais atuantes na rede da APS municipal. Foram incluídos profissionais que tinham um tempo de atuação mínimo de três meses no cargo, independente do regime contratual, por se entender como necessário para o profissional já estar ambientado com a rotina de sua unidade de lotação, além de compreender e vivenciar o trabalho no serviço investigado.
Entre as categorias profissionais, incluíram-se médicos, enfermeiros, técnicos ou auxiliares de enfermagem, odontólogos, auxiliares em saúde bucal (ASB), assistentes sociais, farmacêuticos, agentes comunitários de saúde (ACS) e aqueles de serviços administrativos da unidade.
Foram excluídos os profissionais que, no momento da coleta de dados, estavam de licença de qualquer espécie (maternidade, doença, para tratamento de interesse pessoal), ou em férias e, ainda, preceptores e estagiários por não integrarem permanentemente as equipes.
Coleta de dados
Trata-se de uma pesquisa fechada. Os dados foram coletados no período de janeiro a julho de 2023, inicialmente de forma online, via plataforma digital Google Forms®, com um link para permitir o registro eletrônico. Semanalmente, o link foi enviado aos endereços de e-mail das unidades, bem como dos distritos sanitários, e, no aplicativo de mensagens WhatsApp® dos gerentes das unidades, com a solicitação de compartilhamento nos grupos, de modo a reforçar o convite para participação da pesquisa. Para evitar duplicidade de participação, a plataforma informava automaticamente que o e-mail a ser utilizado no momento do acesso já havia sido utilizado, impedindo que fossem respondidos os formulários mais de uma vez por pessoa.
Nos meses de maio a julho, com o intuito de atingir a amostra, foram realizadas visitas presenciais em algumas unidades sorteadas de maneira aleatória. Reforça-se que, embora a abordagem e o convite fossem realizados presencialmente, a coleta se manteve digital durante todo o período de coleta.
Não houve perdas por preenchimento inadequado ou incompleto.
Instrumentos
Foram utilizados três instrumentos para a coleta dos dados da pesquisa, a saber: I) questionário de caracterização sociodemográfica, econômica e funcional do trabalhador desenvolvido pela autora principal; II) o National Aeronautics and Space Administration - Task Load Index (NASA-TLX)18, traduzido e validado para o contexto brasileiro12, que objetiva avaliar a carga de trabalho percebida; e III) o instrumento Medical Office Survey on Patient Safety Culture (MOSPSC), que avalia a cultura de segurança do paciente nos ambientes de cuidados primários, desenvolvido pela Agency for Healthcare Research and Quality19, também adaptado à realidade brasileira20.
O instrumento de caracterização contava com questões sobre a categoria profissional, regime contratual, carga horária semanal e de formação.
O método NASA-TLX evidencia a carga percebida de trabalho, compreendendo em sua pontuação a ponderação da média avaliada por suas seis dimensões, a saber: I) exigência mental, II) exigência física, III) exigência de tempo, IV) performance, V) nível de esforço, VI) nível de frustração. A análise do NASA-TLX se dá em duas fases: pontuação e ponderação. Na pontuação, é apresentada uma espécie de régua métrica, na qual há 20 intervalos com o peso de cinco pontos cada, totalizando 100 pontos e o entrevistado deve apontar, em cada dimensão, qual o ponto considerado como a intensidade percebida em seu trabalho. Os valores maiores de 75 equivalem a uma elevada carga de trabalho e os valores abaixo de 75 apresentam baixo índice de carga de trabalho12,18. Em razão de o Google Forms® não permitir régua métrica até a numeração 100, esta foi adaptada de zero a dez. Logo, para o cálculo, considerou-se que valores maiores de 7,5 equivalem a alta carga de trabalho e os valores abaixo de 7,5 apresentam baixa carga de trabalho.
Por sua vez, o instrumento MOSPSC é estruturado por 51 perguntas distribuídas em nove seções (A, B, C, D, E, F, G, H, I) que avaliam 12 dimensões, com questões voltadas à segurança do paciente e à qualidade dos serviços de saúde, a saber: (I) comunicação aberta; (II) comunicação sobre o erro; (III) troca de informações com outros setores; (IV) processo de trabalho e padronização; (V) aprendizagem organizacional; (VI) percepção geral da segurança do paciente e qualidade; (VII) apoio dos gestores na segurança do paciente; (VIII) seguimento da assistência ao paciente; (IX) questões relacionadas à segurança do paciente e qualidade; (X) treinamento da equipe; (XI) trabalho em equipe; e (XII) pressão no trabalho e ritmo20.
Os questionários on-line eram contínuos, compostos de oito seções, contendo 27 perguntas fechadas, sendo todas obrigatórias, sendo que o tempo médio para os responder era de 20 minutos.
Variáveis
Foram utilizados no estudo as seguintes variáveis demográficas e laborais: cor da pele (branca, parda, preta, amarela, indígena), idade (em anos, categorizada em: 20 a 39, 40 a 59, 60 e mais), sexo (feminino, masculino), estado civil (casado ou em relacionamento, sem companheiro), cargo (enfermeiro, ACS ou ACE, odontólogo, administrativo/assessora governamental/guarda civil municipal/assistente de serviços em saúde/auxiliar de saúde bucal, fisioterapeuta/fonoaudiólogo/nutricionista/terapeuta ocupacional/farmacêutico/educador físico/assistente social, médico, gerente, técnico ou auxiliar de enfermagem), tempo de atuação na atenção primária (até cinco anos, de cinco a dez anos, mais de dez anos), carga horária semanal exercida (até 40h, 48 a 60h), plantonista (sim, não), escolaridade/formação acadêmica (ensino fundamental/médio, ensino superior/pós-graduação, tempo de formação, até cinco anos, de cinco a dez anos).
Para a análise da variável cultura de segurança, verificou-se o percentual das respostas e foram considerados “pontos fortes” quando a média obtida pelos entrevistados era igual ou maior que 75% enquanto “concordo totalmente/concordo ou frequentemente/sempre” para as perguntas delineadas positivamente, e “discordo totalmente/discordo ou nunca/raramente” para aquelas perguntas delineadas negativamente ; e “pontos fracos” quando a média foi menor que 50% enquanto respostas “discordo totalmente/discordo ou nunca/raramente” para as perguntas delineadas positivamente, e “concordo totalmente/concordo, sempre/ frequentemente” para perguntas delineadas negativamente19,20.
Análise dos dados
Os dados foram tabulados em planilha Microsoft Excel® e submetidos à análise estatística descritiva e inferencial por meio do software BioEstat 5.3. As variáveis nominais foram expressas em frequência relativa (%) e absoluta (n) e suas associações analisadas por meio do teste Exato de Fisher e as de maiores contingências analisadas por meio do teste qui-quadrado de Pearson, com correção de Bonferroni para identificar de modo pareado a diferença entre proporções.
A análise multivariável por meio de regressão logística incluiu as variáveis que apresentaram associação ao evento estudado na análise bruta com valor p < 0,20.
Aspectos éticos
Todos os princípios éticos foram respeitados e a proposta dessa investigação foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) envolvendo seres humanos da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), sob parecer nº 5.837.387/2022 e registrada sob CAAE: 66030522.2.0000.0021, em 29 de novembro de 2022.
Consentimento on-line
Todos os participantes tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado pela pesquisadora principal disponível para download logo ao abrir o link com os questionários. Caso o profissional aceitasse participar da pesquisa, abria-se uma segunda página com o início dos questionários; caso não aceitasse a participação, o formulário se encerrava automaticamente. Desta forma, garantiu-se a confidencialidade e não obrigatoriedade no estudo.
Resultados
Participaram 355 profissionais, sendo a maioria do sexo feminino (n = 279; 77,75%), com idade entre 20 e 39 anos (n = 202; 56,90%), autodeclarados de cor branca (n = 201; 56,62%), vivendo com companheiro(a) (n = 191; 53,8%), com ensino superior ou pós-graduação (n = 281; 79,20%), tempo de formação superior a dez anos (n = 179; 50,40%). Parte dos trabalhadores realizava plantões além do turno de trabalho desenvolvido regularmente na APS (n = 137; 38,60%), com jornadas superiores a 40h semanais. Quanto à profissão, a categoria enfermeiros se apresentou em maior proporção (n = 112; 31,60%); seguido dos ACS ou agentes de combate a endemias (ACE) (n = 63; 17,70%) (Tabela 1).
Nenhuma das dimensões avaliadas pelo instrumento MOSPSC obteve porcentagens de respostas positivas classificadas como “pontos fortes” (acima de 75%) (Tabela 2).
Em relação à carga de trabalho, avaliada pelo método NASA-TLX, ao todo, 73,8% (n = 262) dos profissionais foram classificados com alta carga de trabalho. Identificou-se associação significativa e positiva entre baixa carga de trabalho pela pontuação geral do método NASA-TLX e respostas “Excelente/Muito bom/Bom” nas cinco dimensões da avaliação geral do instrumento MOSPSC, correspondentes às melhores pontuações relacionadas à cultura de segurança do paciente (p < 0,05) (Tabela 3).
Foi identificada associação entre respostas positivas (concordo totalmente/concordo/sempre/frequentemente) e carga horária semanal de até 40h nas dimensões descritas no instrumento MOSPSC: “Troca de informações com outros setores” (p = 0,03), “Apoio dos gestores na segurança do paciente” (p < 0,01) e “Questões relacionadas à segurança do paciente e qualidade” (p < 0,01) (Tabela 4).
A associação entre a alta carga de trabalho e a cultura de segurança negativa relacionada ao “Processo de trabalho e padronização” e, consequentemente, baixa carga de trabalho e percepção de segurança positiva na referida dimensão (p = 0,01), assim como a dimensão “Apoio dos gestores na segurança do paciente” (p = 0,03), também se mostrou significativa. As demais associações não foram estatisticamente significativas (p ≥ 0,05) (Tabela 5).
Discussão
O presente estudo evidenciou que nenhuma das 12 dimensões da cultura de segurança obteve porcentagens de respostas positivas classificadas como pontos fortes (acima de 75,0%) e a maior parte dos profissionais relataram alta carga de trabalho (73,8%). Houve associação entre alta carga de trabalho e pior percepção da cultura de segurança do paciente entre os profissionais que atuam na APS, o que corrobora com o resultado de outros estudos que não evidenciaram dimensões fortes da cultura de segurança21-23.
Desta maneira, verifica-se a fragilidade no estabelecimento da cultura da segurança no ambiente da APS e infere-se que o seu fortalecimento também perpassa por mitigar a carga de trabalho dos profissionais. Além da necessidade de recursos humanos, destaca-se a avaliação constante do processo de trabalho, a fim de gerar subsídios para ações de planejamento e a definição de papéis entre os membros da equipe.
A dimensão da cultura de segurança mais bem avaliada neste estudo foi “Seguimento da assistência ao paciente”, com quase dois terços dos profissionais sugerindo que a rede procura seguir programas preconizados. Tal resultado pode ser influenciado pelos diversos programas de acompanhamento e atenção em saúde que acontecem na APS, como o HIPERDIA (controle da hipertensão e diabetes), imunização, saúde bucal, Rede Cegonha (acompanhamento de pré-natal de baixo risco e puerpério), tuberculose e hanseníase24, entre outros. Dessa forma, por ser o vínculo uma característica principal do cuidado prestado na unidade de saúde, espera-se que o acompanhamento seja uma preocupação dos profissionais.
Obteve-se associação significativa entre maior frequência de baixa carga de trabalho e maior prevalência de respostas “Excelente/Muito bom/Bom” nas cinco dimensões da avaliação geral da segurança do paciente e qualidade do serviço de saúde, que classifica o serviço quanto a ser centrado no paciente, efetivo, pontual, eficiente e imparcial (quanto à etnia, ao gênero, ao status socioeconômico) evidenciando que as melhores pontuações relacionadas à cultura segurança do paciente estão associadas às maiores prevalências de baixa carga de trabalho (p < 0,05). Este achado corrobora a hipótese de que menores cargas de trabalho resultam em assistência mais segura na percepção dos profissionais. Isso porque, para ocorrer o cuidado efetivo e/ou eficiente ao paciente, há a necessidade de gestão da força de trabalho em saúde e recursos no ambiente de trabalho25, que permitam a qualificação profissional.
O cuidado centrado no paciente favorece ações de promoção e proteção da saúde26, permitindo a coprodução do cuidado entre profissionais, usuários dos serviços e famílias, pautado no respeito e promove a superação de barreiras para a promoção da qualidade do cuidado27. No âmbito da APS, a assistência à saúde não está restrita às paredes estruturais das unidades, pois os profissionais ali lotados ofertam ações e cuidados nas residências, nas escolas, em instituições permanentes, entre outros23,24,28.
Estudo evidenciou que altas cargas de trabalho influenciam diretamente na capacidade de atenção do trabalhador, dificultando o autocuidado e, assim, aumentando o risco na assistência ao paciente10. Quando confrontadas as dimensões da cultura de segurança com a jornada semanal de trabalho, a dimensão “Troca de informações com outros setores” (41,7%) foi avaliada como um ponto fraco pelos trabalhadores e associada a carga horária superior a 40h semanais. A revisão de literatura apontou que longas jornadas de trabalho refletem em situações de insegurança do paciente29.
A troca de informações entre as unidades através de referência e contrarreferência se mostra primordial entre as equipes de saúde24, atividade importante à APS, visto ser ordenadora do cuidado em redes. Tal atribuição pode ser prejudicada por uma jornada de trabalho desgastante, visto que os trabalhadores da APS estão inseridos em um contexto de sobrecarga de trabalho e condições de trabalho desgastantes30 em razão das diversas atividades de cunho assistencial e administrativas9,10, estrutura física inadequada das unidades, falta de manutenção, falta de insumos básicos como medicação e leitos, que pode elevar a carga de trabalho dos profissionais.
Verificou-se associação entre uma maior prevalência de respostas positivas e a carga horária semanal de até 40h nas dimensões “Apoio dos gestores na segurança do paciente” (p < 0, 01) e “Questões relacionadas à segurança do paciente e qualidade” (p < 0,01). Resultados semelhantes foram percebidos em estudo realizado na região Sul do país23, fato que leva a questionamentos quanto à exaustão percebida pelos profissionais, visto que o suporte da gestão é imprescindível aos trabalhadores da APS29,31, pois os programas e protocolos desenvolvidos são, muitas vezes, complexos.
A padronização no serviço em saúde é imprescindível para que se possa lidar com questões assistenciais e de gestão32, facilitando a organização e o fluxo do serviço25. Dito isto, o “Processo de trabalho e padronização” mostrou-se, em sua maioria, negativa (n = 159, 60,7%) para aqueles profissionais expostos à alta carga de trabalho. É imprescindível a padronização no que tange ao serviço de saúde, tendo em vista que, ao se nortear pela organização de protocolos, procedimentos operacionais padrão, fluxos de atendimento aos ciclos de vida, é possível aplicar novas tecnologias trazendo maior robustez no cuidado, pautado nos princípios do Sistema Único de Saúde31 e fortalecendo a cultura de segurança.
Outra dimensão que resultou em associação de alta carga de trabalho com cultura de segurança negativa foi a “Apoio dos gestores na segurança do paciente” (p = 0,03). A falta de apoio dos gestores também foi obtida em outros estudos que avaliaram a cultura de segurança do paciente na atenção primária no Sul23,33e no Norte do país34. Desta maneira, verifica-se que essa necessidade não é exclusiva da região Centro-Oeste investigada, mas talvez seja do território nacional, e exige uma mudança postural dos gestores em saúde. Nesta perspectiva, infere-se que a cultura justa perpassa a comunicação aberta e notificação de incidentes na busca de melhoria assistencial, o que pode ser obtido com o apoio dos gestores e ações de educação permanente e continuada.
O presente estudo está sujeito a viés de seleção, devido à amostragem ter sido não probabilística. Além disso, o tamanho da amostra foi insuficiente para alcançar tamanho mínimo em subgrupos definidos por categorias profissionais e vínculos trabalhistas, por exemplo, o que impediu a realização de análises estratificadas. Apesar disso, os achados desta pesquisa podem contribuir com discussões sobre a temática da carga de trabalho no âmbito da APS, de modo a refletir os fatores desencadeantes da carga de trabalho e fortalecer a cultura de segurança neste âmbito da rede de atenção.
Conclusão
Conclui-se que, embora a cultura de segurança do paciente tenha sido globalmente frágil no cenário de APS investigado, há evidências de que profissionais com menor jornada semanal e percepção de carga de trabalho mais baixa avaliam melhor a cultura de segurança, visto que estão mais descansados e, consequentemente, atentos e dispostos a seguir com os atendimentos e serviços.
E, para que seja efetivada tanto a cultura de segurança, como o cuidado ao paciente de forma segura, torna-se necessária a análise do processo de gestão da força de trabalho, bem como dos recursos utilizados em saúde. Assim, há de se refletir o quanto os profissionais da atenção primária estão sobrecarregados, tendo em vista que a APS é a base do sistema único de saúde público e, despende de grande parte da força de trabalho da saúde.
Desta maneira, pode-se inferir que uma carga de trabalho melhor equacionada pode resultar em uma cultura de segurança do paciente mais bem consolidada entre os profissionais, pois estando menos sobrecarregados, estes tendem a praticar a assistência com mais propriedade e confiança.
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Informações sobre trabalho acadêmico:
Os autores informam que o trabalho foi baseado na dissertação de mestrado de Cynthia Fernanda Teles Machado, intitulada “Cultura de segurança e carga de trabalho de profissionais da Atenção Primária à Saúde”, apresentada em 2023 ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
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Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação à autora correspondente.
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Apresentação do estudo em evento científico:
Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado.
Editado por
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Editora-Chefe:
Leila Posenato Garcia
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação à autora correspondente.
