Resumo
O objetivo é analisar as tendências das prevalências das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), dos seus fatores de risco e de proteção entre 2006 e 2023, segundo escolaridade. Estudo de série temporal com dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). Utilizou-se o modelo de regressão linear para análise de tendência e Regressão de Poisson a fim de verificar diferenças em 2023. Houve tendência de declínio das prevalências de tabagismo e do consumo de feijão e tendência de aumento da prática de atividade física no lazer, do excesso de peso, da obesidade, hipertensão e diabetes em todos os níveis de escolaridade. O consumo abusivo de álcool, de frutas e hortaliças, de alimentos protetores e a prática de atividade física foram maiores entre os mais escolarizados; em contrapartida, populações mais escolarizadas apresentaram menores prevalências de tabagismo, consumo de feijão, prática insuficiente de atividade física, de hipertensão e diabetes.
Palavras-chave:
Fatores de risco; Fatores de proteção; Doenças não transmissíveis; Escolaridade
Abstract
The aim is to analyze the trends in the prevalence of selected indicators of morbidity and risk and protective factors for non-communicable diseases (NCDs) in the Brazilian adult population between 2006 and 2023, according to education levels. This is a time-series study using data from the Risk and Protective Factors Surveillance System for Chronic Diseases by Telephone Survey. A linear regression model was used for trend analysis, and Poisson regression was applied to assess differences in 2023. A declining trend was observed in the prevalence of smoking and bean consumption, while an increasing trend was found in leisure-time physical activity, overweight, obesity, hypertension, and diabetes across all educational levels. Excessive alcohol consumption, intake of fruits and vegetables, consumption of protective foods, and physical activity were higher among those with higher education levels. Conversely, more educated populations presented lower prevalence rates of smoking, bean consumption, insufficient physical activity, hypertension, and diabetes were observed in this group.
Keywords:
Noncommunicable diseases; Risk Factors; Protective Factors; Educational Status
Resumen
El objetivo es analizar las tendencias de prevalencia de indicadores seleccionados de morbilidad y factores de riesgo y protección para enfermedades no transmisibles (ENT) en la población adulta brasileña entre 2006 y 2023, por nivel de escolaridad. Este estudio de series temporales utilizó datos del Sistema de Vigilancia de Factores de Riesgo y Protección para Enfermedades Crónicas por Encuesta Telefónica. Se adoptó un modelo de regresión lineal para el análisis de tendencias y se aplicó la regresión de Poisson para evaluar las diferencias en 2023. Se observó una tendencia decreciente en la prevalencia de tabaquismo y consumo de frijoles, mientras que se encontró una tendencia creciente en actividad física en el tiempo libre, sobrepeso, obesidad, hipertensión y diabetes en todos los niveles de escolaridad. El abuso de alcohol, la ingesta de frutas y verduras, el consumo de alimentos protectores y la actividad física fueron mayores entre aquellos con niveles de escolaridad más altos. Por el contrario, las poblaciones con mayor nivel educativo presentaron tasas de prevalencia más bajas de tabaquismo, consumo de frijoles, actividad física insuficiente, hipertensión y diabetes.
Palabras clave:
Enfermedades no transmisibles; Factores de riesgo; Factores de protección; Nivel educativo
Introdução
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) constituem um problema de saúde global e nacional de grande magnitude de morbimortalidade. Os quatro principais grupos (doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias crônicas e diabetes) compartilham fatores de riscos comportamentais comuns e modificáveis, como o tabagismo, o consumo abusivo de bebidas alcoólicas, a inatividade física e a alimentação inadequada1-3.
Essas doenças e os seus fatores de risco se distribuem de forma distinta, afetando e causando mais incapacidades entre os indivíduos socialmente desfavorecidos ou marginalizadas, de baixa renda e escolaridade4. Devido ao acesso reduzido aos serviços de saúde, essas populações têm menos oportunidades para prevenção de doenças e agravos e de promoção da saúde5,6.
A escolaridade é um indicador frequentemente utilizado em epidemiologia para medir desigualdades. Como a educação formal é em geral concluída na idade adulta jovem e fortemente determinada pelas características parentais, esta medida pode ser conceituada como um indicador que, em parte, mede a posição socioeconômica no início da vida7,8. Embora a escolaridade seja com frequência usada como uma medida genérica de posição socioeconômica, interpretações específicas explicam sua associação com resultados de saúde9,10.
Geralmente, maior escolaridade constitui uma proxy de maior renda e melhores empregos e, portanto, resulta em melhores indicadores em saúde. Indivíduos com menor nível de escolaridade apresentam maiores prevalências de DCNT, dos fatores de risco e de incapacidades causadas por essas doenças. O baixo nível de escolaridade pode limitar o acesso às informações e aos hábitos de vida mais saudáveis, dificultar a compreensão sobre a gravidade da doença e a adesão ao tratamento11,12.
Portanto, monitorar as DCNT e seus fatores de risco na perspectiva da escolaridade pode ajudar a compreender as desigualdades sociais e assim apoiar estratégias de vigilância, prevenção e controle das DCNT, além de contribuir com as agendas políticas e regulatórias, que visem à redução das iniquidades.
Diante do exposto, este estudo teve como objetivo analisar as tendências das prevalências das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) na população adulta brasileira entre 2006 e 2023, segundo os níveis de escolaridade.
Métodos
Desenho do estudo
Estudo transversal, que utilizou dados do sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2006 a 2023. O Vigitel, realizado anualmente pelo Ministério da Saúde, coleta informações sobre as DCNT e os principais fatores de risco e de proteção para essas doenças13.
Até 2021, os procedimentos amostrais utilizados pelo Vigitel visavam obter amostras probabilísticas da população de adultos (≥18 anos) residentes em domicílios com pelo menos uma linha telefônica fixa em cada uma das capitais dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal. Em 2022, não houve coleta de dados do Vigitel, razão pela qual não são apresentados os dados desse ano. Em 2023, houve a inclusão de entrevista por meio de telefones celulares. Nas edições realizadas entre 2006 e 2019, foi estabelecido um tamanho amostral mínimo de cerca de 2.000 indivíduos em cada cidade. Em 2020 e 2021, devido à pandemia de Covid-19, foi estabelecida uma amostra reduzida de cerca de 1.000 indivíduos em cada cidade. Em 2023, os dados foram coletados entre 26 de dezembro de 2022 e 24 de abril de 2023, sendo necessária uma redução adicional que estabeleceu um mínimo de 800 entrevistas em cada localidade13. Mesmo assim, o tamanho de amostra permite estimar, com nível de confiança de 95% e erro máximo de quatro pontos percentuais, a frequência dos fatores de risco e de proteção na população adulta de cada capital13,14. As entrevistas realizadas são ponderadas para serem representativas da população adulta total de cada capital.
Variáveis
Uso de tabaco: uso atual de produtos derivados do tabaco, independentemente do número, da frequência e da duração do tabagismo.
Consumo abusivo de bebida alcóolica: consumo de cinco ou mais doses (homem) ou quatro ou mais doses (mulher) de bebidas alcóolicas em uma única ocasião, pelo menos uma vez nos últimos 30 dias.
Consumo recomendado de Frutas e Hortaliças (FH): consumo de frutas e hortaliças em pelo menos cinco dias da semana e quando a soma das porções consumidas diariamente totalizava pelo menos cinco.
Consumo regular de feijão: consumo de feijão em cinco ou mais dias por semana.
Consumo de alimentos protetores: consumo de cinco ou mais grupos de alimentos não ou minimamente processados, protetores de doenças crônicas no dia anterior à entrevista. Consideraram-se alimentos naturais ou básicos: alface, couve, brócolis, agrião ou espinafre; abóbora, cenoura, batata-doce ou quiabo/caruru; mamão, manga, melão amarelo ou pequi; tomate, pepino, abobrinha, berinjela, chuchu ou beterraba; laranja, banana, maçã ou abacaxi; feijão, ervilha, lentilha ou grão-de-bico; amendoim, castanha-de-caju ou castanha-do-brasil/pará.
Consumo de alimentos ultraprocessados: consumo de cinco ou mais grupos de alimentos ultraprocessados no dia anterior à entrevista. Consideraram-se alimentos ou produtos industrializados: refrigerante; suco de fruta em caixa, caixinha ou lata; refresco em pó; bebida achocolatada; iogurte com sabor; salgadinho de pacote (ou chips) ou biscoito/bolacha salgado; biscoito/bolacha doce, biscoito recheado ou bolinho de pacote; chocolate, sorvete, gelatina, flan ou outra sobremesa industrializada; salsicha, linguiça, mortadela ou presunto; pão de fôrma, de cachorro-quente ou de hambúrguer; maionese, ketchup ou mostarda; margarina; macarrão instantâneo, sopa de pacote, lasanha congelada ou outro prato pronto comprado congelado.
Prática suficiente de Atividade Física (AF) no lazer: prática de pelo menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada ou pelo menos 75 minutos semanais de intensidade vigorosa no lazer, independentemente do número de dias que pratica AF por semana.
Prática insuficiente de AF: prática de menos de 150 minutos semanais de atividade física moderada ou de 75 minutos semanais de atividades de intensidade vigorosa, considerando-se o lazer, o trabalho e o deslocamento.
Excesso de peso: índice de massa corporal (IMC) ≥25 kg/m2, cuja altura e peso foram autorreferidos.
Obesidade: índice de massa corporal (IMC) ≥30 kg/m2, cuja altura e peso foram autorreferidos.
Hipertensão: diagnóstico médico de hipertensão a partir da resposta positiva à questão: “Algum médico já lhe disse que o(a) Sr.(a) tem hipertensão arterial (pressão alta)?”
Diabetes: diagnóstico médico de diabetes a partir da resposta afirmativa à questão: “Algum médico já lhe disse que o(a) Sr.(a) tem diabetes?”.
Maiores detalhes acerca do questionário, incluindo a definição e as perguntas utilizadas na construção dos indicadores, são fornecidos no relatório do Vigitel16.
Para nível de escolaridade, utilizaram-se as estratificações: 0 a 8 anos, 9 a 11 anos e 12 anos ou mais de estudos.
Análise dos dados
As prevalências de todos os indicadores foram apresentadas juntamente com seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Primeiramente, realizou-se análise de série temporal (2006 a 2023), por meio do modelo de regressão linear dos indicadores estratificada por nível de escolaridade. Considerou-se a existência de tendência significativa quando o coeficiente angular da regressão (β) do modelo foi diferente de zero e o valor p ≤0,05. Assim, considerou-se aumento quando o β foi positivo, redução se negativo e estacionária quando não foi identificada diferença estatisticamente significativa (p>0,05).
Em seguida, foi analisada a existência de diferenças segundo escolaridade, considerando-se o último ano da pesquisa (2023), sendo estimadas as razões de prevalências (RP) brutas e ajustadas por sexo, idade e raça/cor, utilizando o modelo de Regressão de Poisson com variância robusta. O nível de significância adotado foi de 5%. Procedeu-se também às análises das prevalências estratificadas por sexo.
Todas as análises foram realizadas levando em conta os fatores de ponderação, ou seja, a probabilidade desigual que os indivíduos residentes em domicílios com maior número de linhas telefônicas ou menor número de moradores tiveram em participar da amostra. A aplicação desses fatores corrige possíveis vieses de super ou subestimação da amostra do Vigitel, resultantes da cobertura desigual da telefonia fixa no Brasil15.
Para análise dos dados, utilizou-se o Software for Statistics and Data Science (StataCorp LP, College Station, Texas, United States), versão 14.0, por meio do módulosurvey, que considera efeitos do plano amostral.
Aspectos éticos
O consentimento livre e esclarecido foi obtido verbalmente durante o contato telefônico com os entrevistados, pela empresa responsável pela realização da pesquisa. O Vigitel foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa para Seres Humanos do Ministério da Saúde (CAAE: 65610017.1.0000.0008), parecer número 4324071.
Resultados
A Tabela 1 apresenta as tendências das prevalências dos fatores de risco, de proteção para as DCNT e de hipertensão e diabetes segundo escolaridade. Verifica-se tendência de redução da prevalência de tabagismo em todos os estratos de escolaridade, tendo o mesmo ocorrido em relação ao consumo regular de feijão. A tendência foi de aumento da prevalência do consumo abusivo de bebidas alcóolicas entre os mais escolarizados (9 a 11 anos: 17% para 22,1% e 12 anos e mais: 17,9% para 24,0%), a prática de atividade física no lazer, do excesso de peso e a obesidade em todos os níveis de escolaridade. Quanto aos indicadores de morbidade, houve tendência de aumento da prevalência de hipertensão e de diabetes em todos os níveis de escolaridade; contudo, o crescimento ocorreu de maneira mais intensa entre aqueles com 0 a 8 anos de estudo (β = 0,6 e 0,5), respectivamente. Para os demais indicadores a tendência foi de estabilidade (Tabela 1).
A prevalência do consumo abusivo de bebidas alcoólicas (24,01%; RPaj: 1,24; IC95%: 1,03 - 1,48) , bem como o consumo de frutas e hortaliças (27,24%; RPaj: 1,71; IC95%: 1,40 - 2,09), de alimentos protetores (36,93%; RPaj: 1,66; IC95%: 1,46 - 1,88) e da prática de atividade física no lazer (51,88%; RPaj: 1,76; IC95%: 1,54 - 2,00) foi maior entre os indivíduos de maior escolaridade. Por outro lado, observam-se menores prevalências de tabagismo (7,41%; RPaj: 0,56; IC95%: 0,44 - 0,73), consumo de feijão (48,84%; RPaj: 0,73; IC95%: 0,69 - 0,79), da prática insuficiente de atividade física (32,96%; RPaj: 0,80; IC95%: 0,72 - 0,89), de hipertensão (19,0%; RPaj: 0,66; IC95%: 0,59 - 0,76) e diabetes (5,5%; RPaj: 0,51; IC95%: 0,42 - 0,63) entre os indivíduos de maior escolaridade (Tabela 2).
Os mesmos indicadores foram estratificados, segundo sexo masculino e feminino, e os resultados encontram-se na Tabela 3. Destaca-se que, para ambos os sexos, o tabagismo e o consumo de feijão são menos prevalentes entre os mais escolarizados. O consumo de frutas e hortaliças e de alimentos protetores, bem como a prática de atividade física, foi mais prevalente entre homens e mulheres com 12 anos ou mais de estudos. O consumo de alimentos ultraprocessados foi mais prevalente apenas entre os homens com 9 a 11 anos de estudos. As prevalências de excesso de peso e obesidade foram menores entre mulheres mais escolarizadas, sendo que entre os homens a prevalência de excesso de peso foi maior entre os mais escolarizados. Quanto aos indicadores de morbidade, observa-se que as diferenças ocorreram apenas entre mulheres, com menores prevalências entre as mais escolarizadas (Tabela 3).
Discussão
Ao longo dos anos foram observadas em todos os níveis de escolaridade tendências de redução das prevalências de tabagismo e do consumo de feijão, com tendência de aumento em relação à prática de atividade física no lazer, excesso de peso, obesidade, hipertensão e diabetes. Para o consumo de bebidas alcoólicas, a tendência de aumento ocorreu para aqueles com 9 anos ou mais de estudos. De modo geral, observou-se que os indivíduos com maior nível de escolaridade apresentaram menores prevalências de fatores de risco e maiores prevalências de fatores de proteção. As prevalências de hipertensão e diabetes também foram menores entre aqueles com 12 anos ou mais de estudo.
A educação está intrinsecamente vinculada à expectativa de vida, à morbidade e aos comportamentos relacionados à saúde. O nível de escolaridade exerce um papel crucial na saúde, influenciando oportunidades, emprego e renda16. Frequentemente utilizada para indicar a posição socioeconômica, a educação está associada à ocorrência de multimorbidade17 e mortalidade18, sendo maiores em pessoas com menor escolaridade. indivíduos com maior grau de escolaridade tendem a ter rendas mais elevadas19, o que resulta em maior acesso a serviços de saúde18, melhores condições de moradia e vizinhança20, trabalho21 e hábitos de vida mais saudáveis19, que também integram o processo de determinantes sociais da saúde, o qual envolve a compreensão de que fatores econômicos, sociais, culturais e ambientais exercem influência direta sobre a saúde das pessoas e das populações, indo além das causas biológicas ou comportamentais. Esses fatores se relacionam e tendem a se acumular ao longo da vida, impactando a saúde, e não se distribuem de forma igual na população, gerando iniquidades em saúde que afetam principalmente minorias e indivíduos em situação de vulnerabilidade social22. Além disso, a maior escolaridade está associada a um maior letramento em saúde23, que implica melhor compreensão de informações em saúde, bem como motivação e capacidade de tomar decisões informadas para o autocuidado e ações de promoção e prevenção à saúde24. Portanto, políticas públicas voltadas para a redução das desigualdades sociais, como a ampliação do acesso à educação e políticas de renda, são essenciais para a promoção de uma saúde mais equitativa e de qualidade de vida ampliada, que abrange não só a ausência de doenças, mas o bem-estar físico, mental e social.
Os resultados das tendências, segundo escolaridade, ocorreram de forma semelhante para a população total. Estudos mostram redução do tabagismo em todo o Brasil, visto que o controle de tabaco no país tem sido efetivo ao longo dos anos, porém, ainda assim as desigualdades persistem. O grupo menos escolarizado ainda é o que apresenta os maiores percentuais de tabagismo, ou seja, um grupo menos favorecido mostra piores indicadores do que os grupos mais favorecidos socialmente25,26. Provavelmente, há um acesso desigual às práticas de promoção da saúde e da cessação do tabagismo27. Essa desigualdade já é observada desde a adolescência, sendo aqueles com piores condições socioeconômicas mais propensos a fumar28. Tais achados direcionam para a necessidade de políticas de controle do tabaco focadas na população mais afetada25.
Apesar da tendência de redução do consumo de feijão, a sua prevalência foi maior entre os menos escolarizados. Um estudo verificou que, em relação à renda, as categorias mais pobres revelaram prevalências mais adequadas de consumo de feijão, bem como aqueles sem escolaridade e com ensino fundamental incompleto29. Destaca-se que o feijão, junto com o arroz, constitui a base da alimentação do brasileiro por seus aspectos culturais e por conferir mais saciedade, pelo elevado teor de fibras, sendo mais consumido pela população de menor escolaridade30,31.
A prática de atividade física no lazer aumentou no Brasil ao longo dos anos, mas ainda se apresenta desigual. Indivíduos com maior grau de instrução foram, em média, três vezes mais ativos que os participantes com menor grau de instrução32. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) também evidenciou desigualdades na prática esportiva e de atividade, as quais foram maiores entre as pessoas que relataram ter pelo menos ensino superior completo, reduzindo para as demais categorias de escolaridade33. Relaciona-se a isso a maior compreensão dos mais escolarizados em relação aos benefícios da atividade física e ao lazer, além do acesso a locais privados34. Frente a isso, a maior disponibilização de espaços públicos abertos de qualidade35 e o aprimoramento de programas governamentais, como a Academia da Saúde no provimento de acesso às práticas de promoção à saúde36, podem contribuir para amenizar tais desigualdades.
Entretanto, essa dinâmica envolve múltiplas facetas para além da disponibilidade de locais para praticar atividade física. Como já mencionado, a maior escolaridade relaciona-se a melhores condições gerais de vida, incluindo melhores condições de trabalho e deslocamento. Neste contexto, destaca-se a prática insuficiente de atividade física que, apesar de considerar também deslocamentos e prática laboral, ainda foi maior no grupo menos escolarizado. Embora os indivíduos com menor escolaridade, menor renda e/ou pior qualificação profissional estejam sujeitos aos maiores níveis de atividade física nos domínios do deslocamento e/ou ocupacional, o grupo social de maior renda, maior escolaridade e com melhor status profissional ainda está mais propenso a se engajar em atividades físicas no lazer32,37.
O aumento do excesso de peso e da obesidade evidencia o grande desafio no controle das DCNT, uma tendência observada tanto no Brasil38,39 quanto no mundo40. O incremento do peso pode ser explicado à maior disponibilidade de alimentos ultraprocessados, ricos em calorias, açúcares e gorduras, que são mais acessíveis e atraentes para os consumidores. Soma-se a isso a inatividade física que, apesar de ter apresentado melhora neste estudo, ainda está aquém do desejável, podendo ser impulsionada pelo crescente uso da tecnologia41.
De forma semelhante ocorre com a hipertensão e diabetes, que apresentaram aumento na população, sendo mais prevalentes entre os menos escolarizados. A relação entre as prevalências de hipertensão e diabetes com a escolaridade pode ser explicada pela maior exposição aos fatores de risco e às condições socioeconômicas adversas, tais como falta de acesso aos serviços de saúde e menor acesso a orientações sobre estilos de vida saudáveis, bem como reduzidas oportunidades para acesso aos fatores de proteção para as DCNT e menor compreensão sobre o plano terapêutico e de cuidados42. Ademais, o indivíduo em pior situação econômica, quando doente, além da maior dificuldade de acesso a serviços de saúde, também encontra mais obstáculos no que se refere a cuidados médicos e tratamentos necessários para a sua reabilitação43. Estudos mostram maiores prevalências de hipertensão44 e diabetes em pessoas com menor escolaridade, o que evidencia o olhar para as iniquidades em saúde e o direcionamento de esforços assistenciais para a população mais vulnerável45.
Quanto ao consumo abusivo de bebidas alcóolicas, a tendência foi de aumento entre aqueles com 9 anos ou mais de estudo e de estabilidade entre 0 a 8 anos. O consumo de álcool apresenta determinantes diversos, incluindo fatores de risco individuais, como sexo e idade, e ambientais, como disponibilidade de acesso ao álcool, existência e grau de regulação, como restrição da publicidade e a tributação onerosa, e situação econômica de um país46. Em todo o mundo tem se observado um aumento no consumo abusivo de álcool. Esse consumo também tende a ser maior entre aqueles com maior nível socioeconômico; entretanto, os efeitos adversos do uso abusivo de álcool são maiores entre os indivíduos com menor nível socioeconômico47. Outros estudos ainda identificaram um maior consumo abusivo de álcool entre os mais escolarizados48. Destaca-se que esse indicador mede o álcool consumido em uma única ocasião de forma abusiva, comum em populações jovens e de maior escolaridade, em momentos de celebração25.
Em relação ao consumo regular de frutas e hortaliças, a tendência foi de estabilidade ao longo dos anos para todas as faixas de escolaridade. Um estudo evidenciou que entre a população total do Brasil a tendência desse consumo estava em crescimento até 2014; contudo, a partir de 2015, inverteram-se as tendências, com redução significativa desse consumo para população total, sexo masculino e feminino e indivíduos com 0 a 8 anos de estudo e 9 a 11 anos, mantendo-se estável entre os mais escolarizados39. Outro estudo com dados da PNS evidenciou que a porcentagem de pessoas dos níveis de renda mais altos consumidoras de frutas e vegetais é quase o dobro do das pessoas de níveis mais baixos, bem como aqueles com maior escolaridade29. O consumo de alimentos saudáveis também está associado a melhores condições socioeconômicas e poder aquisitivo para compra, devido ao elevado custo, sendo fatores que afetam diretamente o acesso e determinantes para o consumo de alimentos saudáveis49-52, estando as maiores prevalências entre os mais escolarizados. Além disso, cenários de crise econômica, políticas e de saúde impactam nesse consumo, devido ao aumento do desemprego e das desigualdades, o que consequentemente reduz a renda e aumenta os preços desses alimentos39,53.
Pode-se ainda discutir sobre mudanças no consumo alimentar e no estilo de vida da população que aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Os brasileiros reduziram consumo de alimentos saudáveis e aumentaram o consumo de ultraprocessados54,55, o que reforça a importância da continuidade do monitoramento desses indicadores para verificar as mudanças que poderão ocorrer ao longo dos anos em um contexto pós-pandemia.
Algumas limitações devem ser consideradas. Os dados foram coletados de forma autorreferida, o que pode resultar na sub ou superestimação das prevalências reais e gerar estimativas menos precisas; contudo, o questionário foi validado e apresentou resultados satisfatórios nas análises reprodutibilidade e validade56-58. O fato de a amostra do Vigitel ser composta apenas por indivíduos residentes nas capitais dos estados brasileiros e no Distrito Federal, que residiam em domicílios com telefone fixo até 2021, representa um risco potencial à representatividade da amostra. Porém, essa questão é minimizada pelo uso de fatores de ponderação dos dados. Ademais, a diminuição do tamanho da amostra em 2021 implica a redução da precisão das estimativas que, portanto, devem ser confirmadas em investigações futuras do Vigitel.
Os resultados mostraram tendências de redução das prevalências de tabagismo e do consumo de feijão e de aumento no que se refere à prática de atividade física no lazer, excesso de peso, obesidade, hipertensão e diabetes para todos os níveis de escolaridade. Os indivíduos mais escolarizados apresentaram maiores prevalências dos fatores de proteção para as DCNT, como consumo de frutas e hortaliças, prática de atividade física e menores prevalências de tabagismo, da prática insuficiente de atividade física de hipertensão e diabetes. Em contrapartida, revelaram maiores prevalências do consumo abusivo de bebidas alcoólicas e menor consumo de feijão ao comparar com aqueles de menor escolaridade. Isso evidencia as desigualdades em saúde que ainda persistem no Brasil.
O combate às desigualdades se configura em um dos eixos centrais da Agenda 2030. Isso porque as desigualdades presentes no cotidiano das pessoas influenciam a relação com sua própria saúde. Poder de acesso, propriedade de bens, serviços, educação e riqueza determinarão a sua capacidade de se manterem ou não saudáveis59. Macrodeterminantes como gastos com habitação, alimentação e custo de vida regionais atuam nos diferenciais de bem-estar locais60, inclusive no acesso à educação e progressão acadêmica. Por isso, a importância de políticas públicas intersetoriais que atuam além da melhoria do acesso aos serviços e ações de promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos, mas também na redução das desigualdades e da pobreza, para que indivíduos mais vulneráveis tenham acesso a uma alimentação saudável, à prática de atividade física, com redução do tabagismo e outros fatores de risco para as DCNT.
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