Open-access Saúde Mental e Carreira de Trabalhadores Desempregados

Mental Health and Career of Unemployed Workers

Salud Mental y Carrera de Trabajadores Desempleados

Resumo

Esta pesquisa teve como objetivo avaliar as implicações do desemprego para a carreira e a saúde mental de trabalhadores brasileiros. Participaram 234 trabalhadores desempregados. Foram utilizados um questionário demográfico, a Escala de Adaptabilidade de Carreira, a Escala de Satisfação com a Vida, a Escala de Esperança de Herth e a Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse. Os resultados indicaram que o desenvolvimento da adaptabilidade de carreira está associado a maior satisfação com a vida e esperança. Os trabalhadores que estão mais satisfeitos com suas carreiras apresentaram maior satisfação com a própria vida. Por meio da path analysis, identificou-se que a adaptabilidade de carreira explica de forma significativa e negativa os níveis de depressão, e que a satisfação com a vida e com a carreira explicam de maneira significativa e negativa os níveis de depressão, ansiedade e estresse. Os resultados apontam possibilidades de intervenção com trabalhadores que se encontram desempregados.

Palavras-chave:
desemprego; saúde mental; orientação vocacional; psicologia positiva; adaptabilidade

Abstract

This research aimed to evaluate the implications of unemployment for the career and mental health of Brazilian workers. The sample consisted of 234 unemployed workers. Participants responded to a demographic questionnaire, the Career Adaptability Scale, the Satisfaction with Life Scale, the Herth’s Hope Scale, and the Depression, Stress, and Anxiety Scale. The results indicated that the development of career adaptability is associated with greater life satisfaction and hope. Workers who are more satisfied with their careers also showed greater satisfaction with their own lives. Using path analysis, we identified that career adaptability significantly and negatively explains the levels of depression and that life and career satisfaction significantly and negatively explain the levels of depression, anxiety, and stress. The results indicate possible interventions with unemployed workers.

Keywords:
Unemployment; Mental health; Vocational guidance; Positive psychology; Adaptability

Resumen

Esta investigación pretende evaluar las consecuencias del desempleo para la carrera y la salud mental de los trabajadores brasileños. Participaron 234 trabajadores desempleados. Los instrumentos utilizados fueron un cuestionario demográfico, la Escala de Adaptabilidad de Carrera, la Escala de Satisfacción con la Vida, la Escala de Esperanza de Herth y la Escala de Depresión, Ansiedad y Estrés. Los resultados indicaron que el desarrollo de la adaptabilidad de carrera está asociado con mayor satisfacción con la vida y esperanza. Los trabajadores que están más satisfechos con sus carreras presentaron una mayor satisfacción con su propia vida. A través de un path analysis, se identificó que la adaptabilidad de carrera explica de forma significativa y negativa los niveles de depresión y que la satisfacción con la vida y la carrera explican de manera significativa y negativa los niveles de depresión, ansiedad y estrés. Los resultados demostraron posibilidades de intervención con trabajadores desempleados.

Palabras clave:
Desempleo; Salud mental; Orientación vocacional; Psicología positiva; Adaptabilidad

Introdução

Em 2022, o desemprego atingiu mais de 10 milhões de brasileiros no segundo trimestre de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de desalentados - pessoas que também estão desocupadas, mas que não estão procurando por trabalho - manteve-se acima de quatro milhões (IBGE, 2022a). Ainda que os dados indiquem uma melhora com relação ao cenário do ano anterior, observa-se simultaneamente um crescimento significativo da informalidade (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômico [DIEESE], 2022a). Além disso, o desemprego continua atingindo em maior intensidade moradores da região Nordeste, mulheres e pessoas pretas e pardas (IBGE, 2022b), denunciando a permanência de desigualdades no mercado de trabalho (Blustein & Guarino, 2020).

Como no cenário global, em 2020, o crescimento do desemprego no país foi impulsionado pela pandemia de COVID-19 (IBGE, 2021; Organização Internacional do Trabalho [OIT], 2021). Com a adoção das medidas necessárias para controlar a disseminação da doença, a economia e o mundo do trabalho foram profundamente impactados (OIT, 2021). De modo geral, observou-se uma deterioração das condições do mercado, contudo, os trabalhadores que já enfrentavam desvantagens previamente foram também os mais atingidos - a exemplo dos trabalhadores informais (OIT, 2021). Nesse período, os índices de desemprego no país atingiram níveis recordes continuamente, conforme registros da série histórica mantida pelo IBGE desde 2012 (IBGE, 2021). A partir de 2021, com a produção das vacinas e a adoção de medidas governamentais, percebe-se uma recuperação gradual e desigual da economia e do mercado de trabalho, que ocorre num ritmo mais lento nos países em desenvolvimento marcados por desigualdades socioeconômicas (OIT, 2022). Nesse contexto de instabilidade, existe uma maior dificuldade para a criação de postos de trabalho decentes (OIT, 2022), como no Brasil, em que parte considerável das vagas ofertadas para recuperação não oferecem proteção trabalhista ou previdenciária (DIEESE, 2022b).

Diante desse panorama, Blustein et al. (2020) apontam para a necessidade de investigações em Orientação Profissional de Carreira (OPC) voltarem-se para a questão do desemprego no contexto pandêmico, a fim de embasar práticas que possam apoiar esses trabalhadores, tendo em vista as condições do cenário apresentado e, principalmente, os distintos impactos já conhecidos associados à perda de emprego.

A relação entre desemprego e saúde mental tem sido analisada por um extenso corpo de estudos internacionais, que remetem à década de 1930 do século passado e explicada por uma variedade de teorias (Arena et al., 2023; Bartelink, Zay Ya, Guldbrandsson, & Bremberg, 2020; Estramiana, Gondim, Luque, Luna, & Dessen, 2010; Paul & Moser, 2009; Wanberg, 2012). No Brasil, trata-se também de uma temática de interesse, embora os estudos sejam mais pontuais e contemporâneos (Barreto & Souza, 2021; Cavalcante, Leal, & Feijão, 2020; Coelho-Lima, Freire Costa, & Bendassolli, 2013; Máximo, Barros, & Lhuilier, 2023; Silva, Albuquerque, & Lopes, 2021).

Estudos de metanálise (McKee-Ryan, Song, Wanberg, & Kinicki, 2005; Paul & Moser, 2009) puderam sintetizar esses achados e apresentar resultados mais contundentes. Tais pesquisas indicaram que os níveis de saúde mental, avaliado por meio de uma série de variáveis (por exemplo, sintomas de depressão, ansiedade e estresse, bem-estar subjetivo, autoestima) de trabalhadores desempregados são menores que em indivíduos empregados, assim como os de satisfação com a vida. É importante destacar que a experiência do desemprego não é homogênea (Estramiana et al., 2010). Os efeitos negativos são maiores, por exemplo, para trabalhadores que estão desempregados há longo prazo (mais de seis meses) e que habitam em países economicamente menos desenvolvidos, caracterizados por uma distribuição desigual de renda e com sistema de proteção ao desemprego mais fragilizados (McKee-Ryan et al., 2005; Paul & Moser, 2009).

Além disso, McKee-Ryan, Song, Wanberg e Kinicki, (2005) chamam atenção para a importância de recursos de enfrentamento diante dessa situação. Destaca-se, portanto, a relevância da adaptabilidade de carreira durante o período de desemprego. Esta pode ser definida como “a prontidão e os recursos de um indivíduo para lidar com as tarefas de desenvolvimento profissional atuais e iminentes, transições ocupacionais e traumas pessoais” (Savickas, 2005, p. 51). Trata-se de um construto psicossocial, pois se desenvolve por meio da interação entre o mundo interno e externo do indivíduo, sendo influenciada pela cultura e pelo contexto que está inserido. O construto é formado por quatro dimensões: Preocupação quanto ao futuro profissional; Controle sobre as decisões relativas à própria carreira; Curiosidade para explorar a si mesmo e cenários futuros; e Confiança para buscar seus objetivos (Savickas, 2023).

Observa-se, então, que a adequabilidade de carreira está associada significativamente a resultados adaptativos, como indicado por um estudo de metanálise (Rudolph, Lavigne, & Zacher, 2017). Com relação à saúde mental, a adaptabilidade de carreira foi apontada como um fator preditivo negativo para problemas de saúde mental (Xu et al., 2020) e relacionada negativamente à ansiedade (Pouyand, Vignoli, Dosnon, & Lallemand, 2012). Com o público desempregado, a adaptabilidade foi associada a níveis mais altos de bem-estar psicológico (Konstam, Celen-Demirtas, Tomek, & Sweeney, 2015), além de ser considerada um fator de influência sobre as estratégias de busca por emprego utilizadas e sobre as implicações do reemprego (Koen, Klehe,Van Vianen, Zikic, & Nauta, 2010).

Um outro construto que tem se mostrado relevante no campo de OPC é a esperança, especialmente diante da imprevisibilidade do mercado de trabalho atual (Alves, Oliveira, Dias, & Teixeira, 2017). Nesse cenário, a esperança pode auxiliar os indivíduos no gerenciamento de suas carreiras (Niles, 2011), pois caracteriza-se pela capacidade de estabelecer metas e caminhos para atingi-las, bem como motivar-se nessa busca (Snyder, 2002; Snyder et al., 1991). A esperança tem sido relacionada positivamente à adaptabilidade de carreira em diferentes públicos (Rivera, Shapova, & Medeiros, 2021; Santilli, Marionete, Rochat, Rossier, & Nota, 2017; Santilli, Nota, Ginevra, & Soresi, 2014; Wilkins et al., 2014). E mais especificamente, ao comportamento exploratório (Hirschi, 2014; Hirschi, Abessolo, & Froidevaux, 2015; Sung, Turner, & Kaewchinda, 2013), que constitui a dimensão Curiosidade do construto.

Diante disso, esta pesquisa teve como objetivo avaliar as implicações do desemprego para a carreira e a saúde mental de trabalhadores brasileiros. De maneira mais específica, buscou-se analisar correlações entre a adaptabilidade de carreira e variáveis de saúde mental (satisfação com a vida, esperança, estresse, ansiedade e depressão). Além disso, foram analisadas possíveis diferenças nos construtos em função do nível de escolaridade, momento de desemprego e do nível de satisfação com a carreira. Por fim, objetivou-se analisar o potencial explicativo das variáveis de saúde mental sobre os níveis de adaptabilidade de carreira.

Método

Participantes

Participaram deste estudo 234 trabalhadores desempregados, com idades entre 18 e 63 anos (M=30,25; DP=10,22) e que, em sua maior parte (85,5%; n=200), identificou-se como mulheres. Dos respondentes, 40,2% (n=94) declararam-se brancos; 38,5% (n=90), pardos; 19,2% (n=45), pretos; e 2,1% (n=5), amarelos. Quanto à região, 115 (49,1%) residiam no Nordeste; 66 (28,2%), no Sudeste; 20 (8,5%), no Sul; 18 (7,7%), no Norte; e 15 (6,4%), no Centro-Oeste do país. Acerca da escolaridade, 1,3% (n=3) cursaram até o ensino fundamental, 50% (n=117) completaram apenas o ensino médio e 48,7% (114) concluíram o ensino superior.

Ao avaliarem o grau de satisfação com a própria carreira, as pessoas atribuíram, em média, 4,25 (DP=2,40) como nota em uma escala que variava de um a cinco. Com relação ao período de desemprego, 121 (51,7%) ficaram desempregadas antes do início da pandemia de COVID-19 e 113 (48,3%), durante a pandemia. Sobre o tempo de desemprego, 27,8% (n=65) encontravam-se desempregadas há no máximo seis meses; 14,5% (n=34), de seis meses a um ano; 17,1% (n=40), de um ano a um ano e meio; e 40,6% (n=95), há mais de um ano e meio. A respeito da busca por trabalho, 203 (86,8%) estavam procurando por uma vaga, enquanto 31 (13,2%) afirmaram ter desistido. A maioria (80,8%, n=185) não estava recebendo nenhum tipo de auxílio governamental.

Quanto ao histórico de saúde mental, os participantes predominantemente (73,5%; n=172) disseram não ter recebido um diagnóstico de transtorno mental no último ano. No período da coleta, 85,9% (n=201) não estavam fazendo tratamento psiquiátrico com uso de medicação e 78,2% (n=183) não estavam fazendo tratamento psicológico. A maior parte (70,5%, n=165) não declarou tentativa prévia de suicídio.

Instrumentos

Questionário demográfico (elaborado pelos autores). Continha questões sobre idade, gênero, raça/cor, região do Brasil em que reside, escolaridade, situação do desemprego e histórico de saúde mental. A satisfação com a própria carreira foi avaliada em uma escala Likert variando entre 1 (totalmente insatisfeito/a) e 5 (totalmente satisfeito/a).

Escala de Adaptabilidade de Carreira (EAC) (Audibert & Teixeira, 2015). Avalia a percepção do indivíduo quanto às suas habilidades para a construção de carreira. Constituída por 24 itens, que são respondidos em uma escala Likert de cinco pontos, variando entre 1 (muito pouco) e 5 (plenamente). Possui quatro dimensões: Preocupação, Controle, Curiosidade e Confiança. Na presente pesquisa, a escala apresentou os seguintes índices de precisão: Preocupação (α=0,87), Controle (α=0,87), Curiosidade (α=0,91) e Confiança (α=0,91).

Escala de Satisfação com a Vida (SWLS) (Gouveia, Milfont, Fonseca, & Coelho 2009). Permite que o respondente faça um julgamento geral de satisfação com a própria vida. Trata-se de um instrumento unidimensional, com cinco itens, avaliados em uma escala Likert de cinco pontos e que variam de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). A escala apresentou precisão de 0,81 (alfa de Cronbach) neste estudo.

Escala de Esperança de Herth (EEH) (Sartore & Grossi, 2008). Mensura o nível de esperança de vida por meio de 12 itens, avaliados em uma escala Likert de quatro pontos, variando entre 1 (discordo completamente) e 4 (concordo completamente). A precisão no presente estudo foi de 0,93 (alfa de Cronbach).

Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS-21) (Vignola & Tucci, 2014). Mapeia sintomas de depressão, ansiedade e estresse, tomando como referência a semana anterior. Possui 21 itens, que são respondidos em uma escala Likert de quatro pontos e variam de 0 (não ocorreu de maneira alguma) a 3 (na maioria do tempo). Divide-se em três dimensões: Depressão, Ansiedade e Estresse que apresentaram precisão (alfa de Cronbach) de 0,93, 0,91 e 0,91, respectivamente.

Procedimentos

O projeto foi autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (CAAE: 41480620.4.0000.5686). A coleta de dados ocorreu de forma on-line, por meio da ferramenta Google Forms. O convite para participar da pesquisa foi divulgado em redes sociais, aceitando respostas entre março e agosto de 2021. Para acessarem os instrumentos, os respondentes deveriam ter 18 anos ou mais, estar desempregados e concordar com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo a participação voluntária e anônima.

Análise de Dados

Os dados foram analisados por meio do software SPSS (versão 23). Foram empregadas estatísticas descritivas para caracterização da amostra. A normalidade dos dados foi testada por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov. A relação entre os construtos foi analisada por meio da correlação de Pearson.

Para a path analysis, considerando a ausência de normalidade dos dados, utilizou-se o estimador Maximum Likelihood Robusto (MLR). Foi testado um modelo irrestrito no qual a adaptabilidade de carreira, a esperança, a satisfação com a vida e a satisfação com a carreira foram preditores dos níveis de depressão, ansiedade e estresse. Além da análise do qui-quadrado, foram considerados os índices de ajuste Comparative Fit Index (CFI) e Tucker-Lewis Index (TLI), que devem ser iguais ou superiores a 0,95; bem como o Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA) que deve ser igual ou menor do que 0,08 (Hu & Bentler, 1999). A path analysis foi realizada no software MPlus 7 (Muthén & Muthén, 2011).

Resultados

Inicialmente, foram realizados testes de normalidade dos dados para os construtos abordados na pesquisa e não foi encontrada distribuição normal para nenhuma das variáveis analisadas, a saber: Preocupação (KS=0,107; p=0,00); Controle (KS=0,085; p=0,00); Curiosidade (KS=0,086; p=0,00); Confiança (KS=0,111; p=0,00); Satisfação com a vida (KS=0,132; p=0,00); Esperança (KS=0,105; p=0,00); Estresse (KS=0,104; p=0,00); Ansiedade (KS=0,103; p=0,00) e Depressão (KS=0,112; p=0,00). Na sequência, buscou-se analisar as correlações entre os construtos e os resultados são apresentados na Tabela 1 juntamente com as estatísticas descritivas (média e desvio padrão).

Tabela 1
Correlações entre os Construtos e Estatísticas Descritivas

As dimensões Preocupação, Controle, Curiosidade e Confiança apresentaram correlações positivas e significativas com Satisfação com a vida e Esperança, variando em magnitude de baixa à moderada. Também foram encontradas correlações significativas e negativas entre os quatro fatores da EAC e Depressão, com variação de magnitudes baixa à moderada. Quanto à Ansiedade e ao Estresse, estes apresentaram correlações significativas apenas com as dimensões Controle e Confiança, em sentido negativo e magnitude baixa. Além disso, Satisfação com a vida e Esperança correlacionaram-se de forma significativa e negativa com Depressão, Ansiedade e Estresse, com magnitudes de baixas a altas.

Na sequência, buscou-se analisar possíveis diferenças de médias em função do nível de escolaridade e do momento de desemprego (antes do início da pandemia ou após o início da pandemia). Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nos construtos em função do momento do desemprego. No que se refere aos níveis de escolaridade, foram encontradas diferenças estatisticamente significativas apenas para a dimensão preocupação da adaptabilidade de carreira (t(232)=-2,080; p=0,03) e para a ansiedade (t(232)=2,117; p=0,02). De tal modo, os participantes com ensino superior apresentaram maiores médias (M=23,88; DP=4,93) em preocupação quando comparados com aqueles que cursaram até o ensino médio (M=22,48; DP=5,31), porém com tamanho de efeito pequeno (d=0,27). Por sua vez, o nível de ansiedade dos participantes que estudaram até o ensino médio (M=10,53; DP=6, 93) foi maior do que as pessoas com nível superior (M=8,71; DP=6,09) também com efeito pequeno (d=0,27).

Ainda nas comparações de média, foi realizada a ANOVA para identificar se os participantes apresentariam diferenças nos níveis dos construtos em função do nível de satisfação com a própria carreira. Para isso, a variável foi recodificada a partir dos quartis da seguinte forma: baixa satisfação (Percentil 25=até dois pontos), média satisfação (Percentil 50=entre três e cinto pontos) e alta satisfação (Percentil 75=de seis a 10 pontos). Os resultados que apresentaram significância estatística são apresentados na Tabela 2.

Tabela 2
Análise de Variância das Pontuações nos Instrumentos em Função dos Níveis de Satisfação com a Carreira

Observa-se que maiores níveis de satisfação com a carreira estiveram associados a maiores pontuações em controle, satisfação com a vida e esperança. Por sua vez, participantes com menores níveis de satisfação com a carreira apresentaram maiores médias de estresse, ansiedade e depressão, diferenciando-se daqueles mais satisfeitos com a própria carreira. Na sequência, visando entender o potencial explicativo da adaptabilidade de carreira, satisfação com a vida e esperança nos níveis de depressão, ansiedade e estresse, foi realizada uma path analysis. O modelo é apresentado na Figura 1.

Figura 1
Modelo explicativo de variáveis de carreira e positivas sobre a saúde mental.

Os índices de ajustes foram adequados: CFI=1,00; TLI=1,00; RMSEA=0,000 [I.C. 0,000 até 0,000]; SRMR=0,000. No que tange a capacidade explicativa do modelo, estas variaram de 0,23 para estresse, 0,20 para ansiedade e 0,39 para depressão.

Discussão

Considerando que o desemprego tem afetado uma parcela significativa da população brasileira, resultando em prejuízos para a saúde mental dos trabalhadores (Estramiana et al., 2010; Paul & Moser, 2009; Wanberg, 2012), o presente estudo teve por objetivo principal analisar as implicações do desemprego para a carreira e a saúde mental de trabalhadores brasileiros a partir dos níveis de adaptabilidade de carreira, satisfação com a vida, esperança, estresse, ansiedade e depressão. Este estudo justifica-se pela necessidade de pensar em como promover recursos psíquicos ou estratégias que possam ajudar os trabalhadores frente ao adoecimento psicológico decorrente do desemprego, bem como pela necessidade de pautar a temática como meio de reconhecimento dos trabalhadores em momentos em que estes estejam relegados do mercado de trabalho (Barros-Júnior & Ribeiro, 2020).

A partir dos resultados encontrados, percebe-se que o desenvolvimento da adaptabilidade de carreira está associado a maiores níveis de satisfação com a vida e de esperança para a amostra de trabalhadores desempregados estudada. Tal relação já tinha sido apontada para diferentes populações (Akkermans, Paradniké, Van der Heijden, & De Vos, 2018; Di Maggio, Montenegro, Little, Nota, & Ginevra, 2022; Ginevra et al., 2018) e mais especificamente, para outro grupo de trabalhadores também em situação de risco ou vulnerabilidade no mercado de trabalho (Santilli et al., 2014) e torna-se relevante ao considerar que, para pessoas desempregadas, os níveis de satisfação com a vida são menores (McKee-Ryan et al., 2005). De tal maneira, as associações encontradas dão indicativos iniciais de que a promoção de níveis adequados de adaptabilidade de carreira pode resultar em benefícios para os indivíduos, interferindo na sua percepção geral de satisfação geral com a vida e até mesmo na necessidade e vontade de retomar o trabalho.

Complementarmente, a maior percepção de controle e confiança quanto ao desenvolvimento da própria carreira pelos indivíduos está relacionada a menos sintomas de ansiedade e estresse. Tanto o estresse quanto a ansiedade são estados emocionais suscetíveis à avaliação individual do evento experienciado (Vignola & Tucci, 2014), portanto, tais habilidades, enquanto potenciais recursos para enfrentar desafios de carreira (Savickas, 2005), afetam a percepção desses trabalhadores quanto às implicações do desemprego. Assim, o desenvolvimento das habilidades de antecipação de demandas, planejamento e a crença na própria capacidade de lidar com situações de crise na carreira podem reduzir a vivência de emoções deletérias aos trabalhadores em situação de desemprego.

Quanto às diferenças em função das variáveis demográficas, observa-se que não foram encontrados resultados estatisticamente significativos para o período em que as pessoas perderam o emprego (antes ou após o início da pandemia de COVID-19). Nesse sentido, é importante considerar que, mesmo antes da pandemia, o mercado de trabalho brasileiro já apresentava indicativos expressivos de precariedade, incluindo taxas consideráveis de desemprego e desalento (IBGE, 2021; Pires, Ribeiro, & Andrade, 2020). Com relação ao nível de escolaridade, indivíduos com ensino superior demonstraram maior preocupação sobre o futuro profissional quando comparados aos que concluíram apenas o ensino médio. De tal modo, entende-se que pessoas com maior nível de escolaridade têm acesso a maiores possibilidades exploratórias sobre a própria carreira resultando em estratégias mais efetivas para lidar com as transições de trabalho (Salvador & Ambiel, 2019; Zacher, 2014).

Cabe destacar que no Brasil a renda está correlacionada positivamente à escolaridade (IBGE, 2018), de modo que a possibilidade de acesso a níveis escolares maiores, torna-se um meio de favorecimento tanto para a adaptabilidade de carreira como para a inserção em trabalhos decentes e com melhores remunerações. É possível que esses trabalhadores experienciem uma sensação de maior risco associada ao desemprego, tendo em vista que as taxas de desemprego no país são maiores para esse nível de escolaridade do que para aqueles que completaram o ensino superior (IBGE, 2021).

Sobre as diferenças em função da satisfação com a carreira, participantes mais satisfeitos com a própria carreira, também demonstraram estar mais satisfeitos com suas vidas. Esse achado reforça a ideia da carreira como eixo estruturador da vida (Savickas et al., 2009), ou seja, esta constitui-se como uma variável com implicações diretas sobre diferentes domínios da vida das pessoas não restrita apenas ao contexto laboral. Esse resultado também permite refletir sobre o desemprego enquanto uma etapa da carreira, não sendo meramente um período vacante ou de exclusão laboral, uma vez que, mesmo em situação de desemprego as pessoas conseguem ter uma perspectiva ampla de carreira (Wanberg, 2012). Nesse sentido, intervenções do campo da OPC nesse período poderiam contribuir para que os trabalhadores em situação de desemprego consigam se valer de percepções positivas frente à vida como estratégia de enfrentamento, favorecendo a inserção em tarefas de reinserção no mercado laboral.

Por meio do modelo testado, verificou-se que a adaptabilidade de carreira explica de forma significativa e negativa o nível de depressão, mas não teve potencial preditivo em relação ao estresse e a ansiedade. Assim, considerando que o desemprego pode constituir-se como uma fonte de adoecimento (McKee-Ryan et al., 2005; Paul & Moser, 2009), reforça-se o entendimento de que o desenvolvimento de habilidades relacionadas a esse construto pode atuar de forma protetiva quanto à saúde mental (Pouyand et al., 2012; Xu et al., 2020). Por sua vez, a satisfação com a vida e com a satisfação com a carreira explicam de maneira significativa e negativa os níveis das três variáveis de saúde mental analisadas (depressão, ansiedade e estresse).

A partir desse achado, é possível refletir que, embora a adaptabilidade de carreira atue também como fator protetivo, outras variáveis precisam ser consideradas na promoção de níveis adequados de saúde mental de trabalhadores em situação de desemprego. A identificação da satisfação com a vida e com a carreira como variáveis de maior potencial preditivo frente ao estresse, ansiedade e depressão indica a necessidade de pensar em modificações não apenas no nível individual (agência humana). A satisfação com a vida é decorrente de uma avaliação que engloba as múltiplas esferas da vida humana (Diener, Emmons, Larsen, & Griffin, 1985), o que implica que a possibilidade de exercer plena e livremente uma vida laboral, ter condições de suprir necessidades básicas e participar ativamente da dinâmica social são meios de promoção de saúde mental.

O presente estudo permitiu identificar que a adaptabilidade de carreira atua como fator protetivo para a depressão, mas que a percepção e satisfação com a vida e a carreira além de minimizarem os níveis de sintomatologia depressiva também são preditores negativos da ansiedade e do estresse. Tais achados reforçam a importância de compreender a carreira como um dos elementos centrais na vida humana, bem como da importância de entender o desemprego como uma etapa própria da carreira. Nessa direção, as intervenções em orientação profissional e de carreira podem também contemplar os trabalhadores em situação de desemprego, contribuindo para o processo de desenvolvimento laboral, para a reinserção no mundo do trabalho e para a saúde mental.

Ainda que os resultados sejam promissores e com potenciais contribuições científicas e práticas, é importante ponderar que o estudo foi realizado com uma amostra de conveniência e com predominância de uma única região e gênero. De tal maneira, futuros estudos podem ter um bom equilíbrio regional para que sejam analisados possíveis impactos locais nos desfechos encontrados. Além disso, seriam importantes estudos de intervenção que testem a validade consequencial desses achados, tornando possível identificar sob quais circunstâncias e por quanto tempo a adaptabilidade de carreira, a satisfação com a vida e com a carreira podem auxiliar os trabalhadores em situação de desemprego.

Referências

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Editado por

  • Editor: Ana Paula Porto Noronha

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    28 Jun 2023
  • Revisado
    24 Mar 2024
  • Aceito
    12 Abr 2024
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