Open-access A RELAÇÃO ENTRE A ANSIEDADE E OS TRAÇOS DE PERSONALIDADE EM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

Resumo

O objetivo deste trabalho é analisar a relação entre o grau de ansiedade dos estudantes de uma Universidade Pública Estadual e os fatores de personalidade, mensurados com base em cinco fatores de acordo com o questionário “Big Five Inventory”. Destaca-se que a compreensão aprofundada dos impactos da ansiedade, especialmente em contextos acadêmicos, é fundamental para o desenvolvimento de estratégias eficazes de intervenção e suporte, visando mitigar os efeitos negativos sobre a saúde mental e o desempenho acadêmico dos estudantes. Para atingir o objetivo proposto, foram utilizados dados primários coletados de 451 estudantes da instituição. Como procedimento metodológico, utilizou-se análise descritiva de dados e o teste qui-quadrado. Os resultados revelam uma associação significativa entre traços de personalidade e ansiedade. Estudantes com altos níveis de Neuroticismo mostraram maior propensão à ansiedade, enfatizando a importância de intervenções que aumentem a resiliência emocional. Nesse sentido, o estudo também reforça a necessidade de estratégias pedagógicas e políticas educacionais inclusivas que favoreçam o suporte acadêmico e emocional aos estudantes. Além disso, a introversão foi associada a níveis mais elevados de ansiedade, sugerindo a necessidade de ambientes sociais mais inclusivos. A Afabilidade também foi impactada pela ansiedade, indicando que intervenções que promovam comportamentos sociais adaptativos podem melhorar o bem-estar emocional dos estudantes.

Palavras-chave:
ansiedade; traços de personalidade; estudantes universitários.

Abstract

The objective of this study is to analyze the relationship between the level of anxiety among students at a State Public University and personality traits, measured across five dimensions using the “Big Five Inventory (BFI)”. A deeper understanding of the impacts of anxiety, especially in academic contexts, is essential for the development of effective intervention and support strategies aimed at mitigating the negative effects on students’ mental health and academic performance. To achieve the proposed objective, primary data were collected from 451 students of the institution. As a methodological procedure, descriptive data analysis and the chi-square test were employed. The results reveal a significant association between personality traits and anxiety. Students with high levels of Neuroticism showed greater susceptibility to anxiety, emphasizing the importance of interventions that enhance emotional resilience. In this sense, the study also reinforces the need for inclusive pedagogical strategies and educational policies that foster both academic and emotional support for students. Moreover, introversion was associated with higher levels of anxiety, suggesting the need for more inclusive social environments. Agreeableness was also impacted by anxiety, indicating that interventions promoting adaptive social behaviors can improve students’ emotional well-being.

Keywords:
anxiety; personality traits; university students.

Resumen

El objetivo de este trabajo es analizar la relación entre el grado de ansiedad de los estudiantes de una Universidad Pública Estatal y los rasgos de personalidad, medidos en base a los cinco factores del cuestionario “Big Five Inventory”. Una comprensión profunda de los impactos de la ansiedad, especialmente en contextos académicos, resulta esencial para el desarrollo de estrategias efectivas de intervención y apoyo, con el fin de mitigar los efectos negativos sobre la salud mental y el rendimiento académico de los estudiantes. Para alcanzar el objetivo propuesto se utilizaron datos primarios recolectados de 451 estudiantes de la institución. Como procedimiento metodológico, se empleó el análisis descriptivo de datos y la prueba de chi cuadrado. Los resultados revelan una asociación significativa entre los rasgos de personalidad y la ansiedad. Los estudiantes con altos niveles de Neuroticismo mostraron una mayor propensión a la ansiedad, lo que resalta la importancia de intervenciones que fortalezcan la resiliencia emocional. En este sentido, el estudio también refuerza la necesidad de estrategias pedagógicas y políticas educativas inclusivas que favorezcan el apoyo académico y emocional a los estudiantes. Además, la introversión se asoció con mayores niveles de ansiedad, lo que sugiere la necesidad de entornos sociales más inclusivos. La amabilidad también se vio afectada por la ansiedad, lo que indica que intervenciones que promuevan conductas sociales adaptativas pueden mejorar el bienestar emocional de los estudiantes.

Palabras clave:
ansiedad; rasgos de personalidad; estudiantes universitarios.

1 INTRODUÇÃO

A proporção de pessoas com distúrbios de ansiedade tem aumentado globalmente. Estima-se que 4,05% da população global tenha transtorno de ansiedade, o que significa 301 milhões de pessoas (Javaid et al., 2023). Depois de Portugal, o Brasil é o país com maior prevalência de ansiedade no mundo. Além disso, a pandemia de COVID-19 provocou um aumento significativo na prevalência de ansiedade e depressão em todo o mundo, com um aumento de 25% no primeiro ano da pandemia (WHO, 2022). A ansiedade é um estado emocional caracterizado por sentimentos de tensão, preocupação e pensamentos intrusivos relacionados a possíveis perigos futuros. É uma reação normal a situações estressantes, mas pode se tornar um distúrbio quando é desproporcional à situação e interfere na vida cotidiana. Os transtornos de ansiedade podem prejudicar a vida familiar, social, escolar ou profissional de um indivíduo (WHO, 2022). Portanto, é evidente que os transtornos de ansiedade têm um impacto significativo na deterioração da saúde, sendo potencialmente a segunda maior causa de incapacidade no mundo.

Nesse sentido, o ambiente universitário é particularmente propenso a incertezas, exacerbando os problemas emocionais dos estudantes, que são muitas vezes mais intensos do que os observados na população em geral (Ibrahim et al., 2013). Diversos estudantes universitários manifestam sintomas de ansiedade ao longo de seus cursos, em decorrência de múltiplos fatores, como a discrepância entre as expectativas formadas no início do curso e a realidade encontrada ao longo da formação acadêmica (Igue; Bariani; Milanesi, 2008). Esse fenômeno é igualmente observado entre estudantes no último ano, que enfrentam a difícil transição entre o ambiente universitário e o mercado de trabalho (Del Prette; Del Prette, 2003). A gravidade desse problema é evidenciada por estudos, como o de Baldassin et al. (2008), que identificaram que 38,2% dos alunos do curso de Medicina apresentavam distúrbios psicológicos. No estudo de Ahmed et al. (2023), foi realizada uma revisão sistemática com meta-análise sobre a prevalência de ansiedade em universitários, e os achados apontaram que um terço dos estudantes de graduação está com níveis elevados de ansiedade.

A compreensão aprofundada dos impactos da ansiedade, especialmente em contextos acadêmicos, é fundamental para o desenvolvimento de estratégias eficazes de intervenção e suporte, visando mitigar os efeitos negativos sobre a saúde mental e o desempenho acadêmico dos estudantes. Assim, compreender a relação entre a ansiedade e os fatores de personalidade se torna essencial. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é verificar a relação entre o nível de ansiedade dos estudantes de uma Universidade Pública Estadual e os fatores de personalidade, mensurados com base em cinco fatores de acordo com o questionário “Big Five Inventory”.

Para atingir o objetivo proposto, o trabalho está dividido em cinco seções, contando com esta introdução. A segunda seção apresentará o referencial teórico, que tem por base as teorias da economia comportamental. Os procedimentos metodológicos e a apresentação do objeto de estudo (Universidade Estadual do Norte do Paraná - UENP) são descritos na terceira seção. Na seção seguinte, os resultados serão analisados e discutidos à luz da literatura. Por fim, a última seção é destinada às considerações finais.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Escolhas e economia comportamental

Os estudantes universitários enfrentam uma fase crítica de transição, em que são desafiados não apenas academicamente, mas também emocionalmente. Problemas emocionais intensos são frequentemente observados nesta população, exigindo uma compreensão mais profunda de como fatores psicológicos influenciam suas decisões e comportamentos econômicos no presente e no futuro (Ahmed et al., 2023). Assim, a avaliação dos traços de personalidade desempenha um papel fundamental na compreensão dos seus comportamentos individuais e, também, nas decisões econômicas ao longo da vida. Um dos instrumentos mais utilizados para essa avaliação é o já citado Questionário Big Five Inventory (BFI), baseado nas cinco dimensões da personalidade: Extroversão, Afabilidade, Conscienciosidade, Neuroticismo e Abertura à experiência (John; Donahue; Kentle, 1991).

Vale lembrar que a economia comportamental, um campo interdisciplinar que emergiu com as contribuições de Kahneman e Tversky (1979) e Thaler (1980), oferece uma perspectiva inovadora ao reconhecer que fatores emocionais e psicológicos desempenham um papel crucial nas decisões econômicas. No contexto dos estudantes universitários, traços de personalidade como baixa Estabilidade Emocional (ou alto Neuroticismo) têm sido associados a uma maior propensão a problemas emocionais, como ansiedade e depressão (Roberts et al., 2007). Contudo, esses traços não apenas moldam o bem-estar dos estudantes, mas também suas escolhas econômicas e carreiras futuras. Dito de outra forma, a economia comportamental, que combina insights da psicologia com teorias econômicas, reconhece a importância dos traços de personalidade na formação de preferências, tomadas de decisão e comportamentos econômicos, em que o BFI se destaca por sua capacidade de captar nuances da personalidade que influenciam diretamente as escolhas econômicas dos indivíduos (Thaler; Sunstein, 2008).

Segundo John e Srivastava (1999, p. 295), "o BFI oferece uma estrutura robusta para avaliar os traços de personalidade que moldam as preferências e o comportamento econômico dos indivíduos". Traços como Conscienciosidade podem influenciar a propensão ao planejamento econômico e à gestão prudente dos recursos, enquanto o Neuroticismo pode estar associado a uma maior aversão ao risco e a comportamentos de consumo mais cautelosos.

Pesquisas têm mostrado que os Cinco Grandes Fatores da personalidade podem prever comportamentos econômicos importantes, como poupança, investimento e até mesmo escolhas de carreira (Roberts et al., 2007). Esses insights são essenciais não apenas para pesquisas acadêmicas, mas também para políticas públicas que visam promover decisões financeiramente saudáveis e bem-estar econômico, apoiando, por exemplo, as decisões e as perspectivas futuras dos estudantes.

Pelo exposto, o Questionário Big Five Inventory representa uma ferramenta valiosa para pesquisadores e profissionais interessados em entender como os traços de personalidade moldam as decisões econômicas individuais sendo que, integrar a economia comportamental com a avaliação da personalidade oferece uma abordagem holística para compreender o comportamento humano e melhorar a eficácia das intervenções escolhidas.

2.2 Ansiedade e traços de personalidade

A ansiedade é um estado emocional prevalente que pode ser influenciado por diversos fatores, incluindo traços de personalidade. Segundo a American Psychiatric Association (2013), a ansiedade é caracterizada por sentimentos de apreensão e preocupação intensa, muitas vezes acompanhados por sintomas físicos. Por outro lado, traços de personalidade se referem a características duradouras e estáveis que descrevem padrões de pensamento, emoção e comportamento de uma pessoa ao longo do tempo e em diferentes situações.

Os traços de personalidade, como os descritos no Modelo dos Cinco Grandes (Big Five), têm uma relação significativa com a ansiedade. Estudantes com altos níveis de Neuroticismo são mais propensos a experimentar ansiedade e depressão (Costa Junior; McCrae, 1992; Roberts et al., 2007). A interação entre traços de personalidade e ansiedade afeta não apenas o bem-estar emocional, mas também o desempenho acadêmico e a adaptação social dos estudantes (Kotov et al., 2010). A alta taxa de transtornos de ansiedade entre estudantes universitários pode ser parcialmente atribuída à fase de desenvolvimento de alto risco do final da adolescência e início da idade adulta, período em que muitos jovens ingressam na universidade (Arnett, 2000). No entanto, fatores socioeconômicos também desempenham um papel crucial. Estudantes de menor status socioeconômico, minorias étnicas e aqueles com necessidades adicionais de apoio são particularmente vulneráveis a problemas de saúde mental, exacerbados por ambientes acadêmicos competitivos e expectativas sociais elevadas (Twenge, 2000).

Estudos indicam que estudantes com altos níveis de perfeccionismo podem estar mais propensos a experienciar ansiedade relacionada ao desempenho acadêmico, devido à sua busca por altos padrões e preocupações com erros (Flett; Hewitt, 2002). Da mesma forma, a sensibilidade ao estresse, que se refere à resposta emocional intensa diante de estressores, pode amplificar os níveis de ansiedade em situações acadêmicas exigentes (Kotov et al., 2010).

A interação entre a economia comportamental e os traços de personalidade oferece uma lente útil para entender como esses fatores influenciam as decisões econômicas e acadêmicas dos estudantes universitários. A autoeficácia, por exemplo, pode servir como um recurso protetor contra a ansiedade, permitindo que estudantes com maior confiança em suas capacidades enfrentem desafios acadêmicos com resiliência emocional (Bandura, 1997). Desta forma, ao reconhecermos a diversidade de traços de personalidade que podem influenciar a experiência de ansiedade no ambiente universitário, educadores e profissionais que atuam nas universidades podem adotar abordagens mais individualizadas e eficazes para promover um ambiente de aprendizagem positivo e inclusivo.

2.3 Traços de personalidade e projetos pedagógicos

Como definidos os traços de personalidade, são características estáveis que moldam padrões de pensamento, emoção e comportamento ao longo do tempo. No contexto universitário, esses traços certamente influenciam, de forma relevante, a maneira como os estudantes enfrentam desafios acadêmicos, interagem com colegas e participam de atividades extracurriculares.

Vale lembrar que, no Brasil, os estudantes que ingressam na universidade em idades bastante jovens podem enfrentar uma ansiedade adicional devido à transição abrupta do ambiente escolar (com turmas pequenas, orientação pedagógica e, normalmente, relacionamentos já consolidados com seus colegas) para o universitário, exigindo adaptação rápida às novas responsabilidades acadêmicas e sociais. A ansiedade pode ser exacerbada por traços de personalidade, que tendem a aumentar a sensibilidade ao estresse e a preocupação com o desempenho (Flett; Hewitt, 2002; Kotov et al., 2010).

Levar em conta a integração dos traços de personalidade e da ansiedade dos estudantes nos projetos pedagógicos universitários pode ser uma estratégia facilitada pela implementação de práticas educacionais sensíveis ao desenvolvimento emocional dos estudantes. Programas de orientação acadêmica e suporte psicológico podem ajudar a mitigar os efeitos negativos da ansiedade, promovendo um ambiente mais acolhedor e inclusivo para estudantes jovens. Assim, ao reconhecerem e valorizarem os traços de personalidade individuais e os desafios específicos enfrentados por estudantes ainda muito jovens, os projetos pedagógicos permitem que as instituições de ensino superior implementem intervenções eficazes que promovam um ajuste saudável e sustentável ao ambiente universitário.

Ao adotar um projeto pedagógico universitário que considere os traços de personalidade e, principalmente, a alta ansiedade (natural em jovens que estão migrando para sua fase adulta), a universidade não apenas fortalece a eficácia do ensino e aprendizagem, mas também contribui para o desenvolvimento integral dos estudantes. Ao aceitar abordagens educacionais que respeitem a diversidade de experiências e características individuais, as universidades podem cultivar um ambiente educacional mais inclusivo e propício ao crescimento acadêmico e pessoal.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O objetivo deste estudo é verificar a relação entre a ansiedade e os traços de personalidade de alunos de uma Universidade Pública Estadual. Para alcançar este objetivo, foi aplicado um questionário abrangente, composto por 38 perguntas, além de itens destinados à caracterização sociodemográfica dos alunos. É importante ressaltar que este instrumento de pesquisa foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética n° 8123 da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), conforme registrado no Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) n° 97657018.3.0000.8123.

A pesquisa foi realizada na Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), criada em setembro de 2006. A Reitoria está localizada na cidade de Jacarezinho, com câmpus nos municípios de Bandeirantes, Cornélio Procópio e Jacarezinho. A UENP tem suas raízes na história e resulta da integração de cinco faculdades tradicionais, com mais de 50 anos de experiência e excelência em ensino. Desde sua fundação, a Universidade tem a responsabilidade de contribuir para o desenvolvimento do Estado do Paraná e do Brasil (UENP, 2024).

O Estado do Paraná possui 7 Universidades Estaduais espalhadas por toda Unidade Federativa. A UENP está localizada no Norte Pioneiro do Estado, possuindo três Campi, nas cidades de Jacarezinho, Bandeirantes e Cornélio Procópio. A pesquisa foi realizada no Câmpus de Cornélio Procópio, mais especificamente, no Centro de Ciências Sociais Aplicadas. O questionário de coleta de dados primários foi meticulosamente elaborado para avaliar múltiplas dimensões: perfil de consumo dos estudantes (perguntas 1 a 8), percepção do aluno em relação ao curso e ao mercado de trabalho (perguntas 9 a 14), habilidades sociais dos discentes (perguntas 15 a 21), nível de ansiedade dos alunos (perguntas 22 a 28) e características da personalidade (perguntas 29 a 38). Todas essas questões foram aplicadas em um ambiente de tempo controlado, assegurando a uniformidade das condições de resposta.

Este estudo faz parte de uma pesquisa maior que relaciona outros fatores com o nível de ansiedade dos discentes. Por exemplo, Bernardelli et al. (2022) investigaram o nível de ansiedade em estudantes universitários e sua relação com habilidades sociais, concluindo que a ansiedade no meio universitário pode afetar de forma considerável o desempenho acadêmico; ações em sala de aula podem mitigar as consequências desse problema, cada vez mais comum nas universidades brasileiras. Outros estudos poderão ser elaborados de modo a trazer mais elementos sobre essa temática de tamanha relevância ao Ensino Superior no Brasil. Portanto, o presente artigo focou especificamente nas questões relativas às habilidades sociais e ao nível de ansiedade dos alunos (perguntas 22 a 38), além de coletar dados demográficos como idade, curso, sexo, período do curso e se o aluno já possui alguma formação superior prévia. A aplicação do questionário abrangeu 451 alunos dos cursos de Ciências Econômicas, Administração e Ciências Contábeis, dentro de um universo total de 816 alunos matriculados nesses cursos em 2018. O questionário foi aplicado presencialmente, em formato digital, nas salas de aula dos respectivos cursos e na presença dos professores, garantindo o sigilo das respostas dos alunos, uma vez que o questionário não permitia a identificação dos respondentes. As instruções para a aplicação do questionário foram padronizadas, seguindo um protocolo rigoroso de orientação e aplicação.

As questões relacionadas à ansiedade foram formuladas para permitir a construção de um indicador de sinalização de ansiedade, que categoriza os alunos em termos de ansiedade improvável, possível ou provável. Este indicador foi desenvolvido utilizando a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (Hospital Anxiety and Depression Scale - HADS), traduzida e validada por Botega et al. (1995). A HADS foi originalmente concebida para detectar graus leves de transtornos afetivos em ambientes não psiquiátricos (Bergerot; Laros; Araujo, 2014), e desde então tem sido aplicada em diversos contextos, incluindo pacientes de hospitais não psiquiátricos (Brady et al., 2005), pacientes não internados (Brandberg et al., 2004) e indivíduos sem doenças (Andrews; Hejdenberg; Wilding, 2006). A escala consiste em 14 itens de múltipla escolha, com sete itens voltados para a avaliação da ansiedade (HADS-A) e sete para a depressão (HADS-D). Cada item é pontuado de 0 a 3, permitindo um máximo de 21 pontos em cada subescala (Bergerot; Laros; Araujo, 2014). Zigmond e Snaith (1983) recomendaram dois pontos de corte: pontuações superiores a 8 indicam casos possíveis e superiores a 11 indicam casos prováveis, com um terceiro ponto de corte para distúrbios graves sendo pontuações acima de 15 pontos. Um aspecto distinto da HADS é a exclusão de sintomas somáticos, prevenindo a interferência de distúrbios físicos na avaliação de ansiedade e depressão. Dessa forma, sintomas como perda de peso, anorexia, insônia, fadiga, pessimismo sobre o futuro, dor de cabeça e tontura são excluídos da escala (Marcolino et al., 2007). Neste estudo, apenas as questões relacionadas à ansiedade foram consideradas, classificando como casos prováveis os discentes que obtiveram pontuações superiores a 11.

Já as questões sobre os traços de personalidade foram construídas com base no questionário Big-Five Inventory (BFI), que é um modelo de traços de personalidade com cinco fatores amplos, que representam a personalidade no nível mais geral de abstração. Cada fator bipolar (por exemplo, Extroversão vs. Introversão), resume várias características mais específicas (por exemplo, Sociabilidade), que, por sua vez, englobam muitos traços ainda mais específicos (por exemplo, falante, extrovertido) (Gosling; Rentfrow; Swann Jr., 2003). Trata-se de uma avaliação de personalidade recorrentemente utilizada na literatura econômica, pois afeta o comportamento dos agentes econômicos (Borghans et al., 2008). Os traços de personalidade são: (i) Extroversão; (ii) Afabilidade; (iii) Conscienciosidade; (iv) Neuroticismo e (v) Abertura à experiência. O Quadro 1 explica cada um desses fatores.

Quadro 1
Definição dos fatores do questionário Big Five Inventory

O Quadro 1 apresenta as cinco dimensões do modelo Big Five de personalidade, detalhando cada uma delas. A Extroversão refere-se ao grau de necessidade de atenção e interação social de uma pessoa. A Afabilidade indica a necessidade de relações agradáveis e harmoniosas. A Conscienciosidade mostra a disposição para cumprir regras e normas convencionais. O Neuroticismo mede a tendência de ver o mundo como ameaçador e fora de controle. Por fim, a Abertura à experiência descreve a necessidade de estimulação intelectual, mudança e variedade. Esses fatores ajudam a categorizar e entender diferentes aspectos da personalidade humana, conforme adaptado de Borghans et al. (2008).

O Big Five Inventory (BFI) foi desenvolvido no final da década de 1980 (John; Donahue; Kentle, 1991) como um instrumento conciso. Naquela época, pareceu bastante radical sugerir que 44 itens de frases curtas, respondidos em cerca de 5 minutos, eram suficientes para medir as cinco grandes dimensões de personalidade (Rammstedt; John, 2007). No entanto, que então parecia extremamente curto, nos tempos atuais parece tediosamente longo, pois os pesquisadores enfrentam um tempo de avaliação limitado. De fato, houve uma tendência crescente para o desenvolvimento de instrumentos de personalidade cada vez mais curtos (Rammstedt; John, 2007). O Big Five Inventory-10 (BFI-10) foi desenvolvido com o objetivo de captar as características da personalidade em contextos em que o tempo de aplicação é limitado. O BFI-10 foi criado nas línguas inglesa e alemã, facilitando sua utilização em pesquisas que envolvem diferentes culturas e amostras (Bortoli, 2016). Com base no trabalho de Bortoli (2016), este estudo utiliza o questionário traduzido por ele. As questões utilizadas para analisar as cinco dimensões do questionário Big Five podem ser obtidas com base nas pontuações retratadas no Quadro 2.

Quadro 2
Dimensões da personalidade e pontuação

O Quadro 2 apresenta itens do inventário de personalidade BFI-10, que mede as cinco dimensões do modelo Big Five em escala Likert de 1 (“nunca”) a 5 (“sempre”). Para Extroversão, itens como "É reservado" indicam baixa Extroversão, enquanto "É sociável, extrovertido" indicam alta Extroversão. Em Afabilidade, "Geralmente confia nas pessoas" sugere alta Afabilidade, e "Tende a ser crítico com os outros" sugere baixa Afabilidade. Na Conscienciosidade, "Tende a ser preguiçoso" indica baixa Conscienciosidade, e "Insiste até concluir a tarefa" indica alta Conscienciosidade. Para Neuroticismo, "É relaxado, controla bem o estresse" reflete baixo Neuroticismo, enquanto "Fica nervoso facilmente" reflete alto Neuroticismo. Finalmente, em Abertura à experiência, "Tem poucos interesses artísticos" indica baixa abertura, e "Tem uma imaginação fértil" indica alta abertura. Esses itens ajudam a criar um perfil abrangente de personalidade. A partir das respostas dos alunos, é possível categorizá-los com base no Quadro 3.

Quadro 3
Características de personalidade por escore

O Quadro 3 classifica as dimensões do modelo Big Five em níveis baixos, moderados e altos, associando cada nível a características específicas. Embora os autores tenham introduzido na versão original desta categorização um nível intermediário de personalidade, atribuído aos respondentes que alcançassem 5 pontos, por questões metodológicas, decidiu-se utilizar duas categorias apenas para cada categorização.

Para Extroversão, escores baixos (1-4) indicam independência e reserva, escores moderados (5) indicam introversão, e escores altos (6-10) indicam assertividade e sociabilidade. Em Afabilidade, escores baixos denotam ceticismo e agressividade, moderados indicam negociadores e adaptadores (5), enquanto escores altos sugerem confiança e humildade. Em Conscienciosidade, escores baixos indicam espontaneidade e desorganização, moderados refletem flexibilidade e equilíbrio, e altos mostram confiabilidade e organização. Para Neuroticismo, escores baixos indicam segurança e racionalidade, moderados mostram resiliência e responsividade, e altos indicam preocupação e reatividade. Por fim, na Abertura à experiência, escores baixos denotam conservadorismo e eficiência, moderados refletem um equilíbrio entre preservação e exploração, e escores altos indicam interesse por novidades.

Dessa forma, foi desenvolvido um indicador para identificar a provável ansiedade dos alunos, analisado por meio de técnicas quantitativas e correlacionado com as habilidades sociais dos estudantes, utilizando o coeficiente de correlação de Pearson. O coeficiente de Pearson é uma medida de associação linear entre variáveis, variando de -1 a 1, em que o sinal indica a direção do relacionamento (positiva ou negativa) e o valor absoluto representa a força da relação. Conforme Figueiredo Filho e Silva Júnior (2009), uma correlação perfeita (valores de -1 ou 1) “indica que o escore de uma variável pode ser determinado exatamente ao se saber o escore da outra”. Em contraste, uma correlação igual a zero indica ausência de relação linear entre as variáveis. Esta abordagem é essencial para compreender o impacto da ansiedade nas habilidades sociais dos alunos, oferecendo uma visão detalhada das interações entre essas dimensões psicológicas.

Também foi utilizado, como procedimento metodológico, o teste qui-quadrado, que é um procedimento estatístico não paramétrico amplamente utilizado para avaliar se a distribuição observada de uma variável categórica difere de uma distribuição teórica previamente estabelecida. Conforme exposto por Fávero (2017), o teste é aplicado a uma única amostra em que a variável em estudo assume duas ou mais categorias, possibilitando a comparação entre as frequências observadas e as frequências esperadas em cada categoria. Nesse contexto, as hipóteses estatísticas formuladas são: H0: não há diferença significativa entre as frequências observadas e as frequências esperadas; e H₁: há diferença significativa entre as frequências observadas e as frequências esperadas. A decisão estatística é baseada no valor da estatística quiquadrado, calculada a partir da soma dos quadrados das diferenças entre frequências observadas e esperadas, ponderadas pelas frequências esperadas. Se o valor-p associado à estatística calculada for inferior ao nível de significância adotado, rejeitase H₀, indicando que a distribuição empírica difere significativamente da distribuição teórica considerada.

4 RESULTADOS

Nesta seção, apresentam-se os resultados obtidos na pesquisa. O objetivo principal foi analisar a relação entre o nível de ansiedade dos estudantes de uma universidade pública estadual e os fatores de personalidade, medidos com base nos cinco fatores do questionário "Big Five Inventory". A Tabela 1 apresenta as médias e o teste qui-quadrado para a Extroversão dos discentes.

Tabela 1
Médias e teste qui-quadrado para a variável Extroversão

A Tabela 1 apresenta os percentuais de introversão e Extroversão entre diferentes grupos, além dos resultados do teste qui-quadrado que avalia a significância estatística das diferenças observadas. Na amostra geral, 37% dos estudantes foram categorizados como introvertidos e 63% como extrovertidos. Entre os estudantes com ansiedade, 44% foram introvertidos e 56% extrovertidos, com um p-valor < 0,001, indicando diferença estatisticamente significativa e rejeição da hipótese nula de que não há associação entre as duas variáveis. As demais variáveis analisadas não apresentaram diferenças estatisticamente significativas.

Esses resultados sugerem que a ansiedade pode estar associada a comportamentos mais reservados e menos sociáveis em relação à média geral. Pessoas introvertidas geralmente preferem interações sociais menos intensas e podem se sentir sobrecarregadas em situações sociais, o que pode aumentar os níveis de ansiedade. A presença de ansiedade pode intensificar esses comportamentos, levando os indivíduos a evitar situações sociais e a buscar mais tempo sozinhos, perpetuando sentimentos de isolamento e estresse. A teoria de personalidade de Eysenck propõe que os introvertidos têm uma maior reatividade emocional, contribuindo para níveis mais altos de ansiedade (Eysenck; Eysenck, 1985). Além disso, o modelo dos Cinco Grandes fatores de personalidade de Costa Junior e McCrae (1992) identifica uma correlação entre baixa Extroversão (introversão) e maior Neuroticismo, um traço fortemente associado à ansiedade (Costa Junior; McCrae, 1992). Outro estudo de Noya e Vernon (2019) também confirmou que indivíduos introvertidos são mais propensos a experimentar ansiedade social, especialmente em ambientes que favorecem características extrovertidas. Estes estudos sugerem que a maneira como as personalidades introvertidas processam estímulos sociais e estressores pode aumentar a vulnerabilidade à ansiedade. Por outro lado, entre os estudantes ansiosos, 56% foram extrovertidos (comparados a 63% na média geral). Pessoas extrovertidas geralmente buscam interações sociais como uma forma de aliviar o estresse, mas, quando essas interações não são positivas ou são percebidas como ameaçadoras, também podem experimentar níveis elevados de ansiedade. A busca constante por validação social e aceitação pode tornar os extrovertidos vulneráveis ao estresse social e à rejeição. A necessidade de interação social e a validação externa dos extrovertidos podem leválos a maiores níveis de ansiedade quando essas não são atendidas. Evidências durante a pandemia de COVID-19 mostraram que altos níveis de Extroversão se associaram a menor ansiedade e depressão quando as interações sociais foram positivas; porém, a escassez de interações ou experiências negativas elevou significativamente os níveis de ansiedade entre extrovertidos (Bellingtier; Mund; Wrzus, 2023). Portanto, tanto introvertidos quanto extrovertidos podem ser afetados pela ansiedade, ainda que por mecanismos distintos: introvertidos tendem a evitar situações sociais (o que pode reforçar o isolamento), enquanto extrovertidos podem elevar a ansiedade diante de interações sociais negativas.

Outra questão importante a ser analisada diz respeito à capacidade dos indivíduos de serem cooperativos e terem interações com outros. A Tabela 2 apresenta as médias e o teste qui-quadrado para a Afabilidade dos discentes.

Tabela 2
Médias e teste qui-quadrado para a variável Afabilidade.

A Tabela 2 mostra os percentuais de desafiadores e adaptadores entre diferentes grupos, bem como os resultados do teste qui-quadrado para verificar a significância estatística das diferenças observadas. Na amostra geral, 31% dos estudantes foram categorizados como desafiadores e 69% como adaptadores. Entre os estudantes com ansiedade, 37% foram desafiadores e 63% foram adaptadores, com um p-valor de 0,02, indicando uma diferença estatisticamente significativa e rejeição da hipótese nula de independência entre as variáveis. As demais variáveis analisadas não apresentaram diferenças estatisticamente significativas. Esses resultados sugerem que há uma associação significativa entre ansiedade e Afabilidade.

A relação entre ansiedade e Afabilidade é complexa e relevante, como indicado pela Tabela 2. Estudantes com ansiedade apresentaram maior proporção de desafiadores (37%) em comparação com a média geral (31%), indicando que a ansiedade pode impactar negativamente a capacidade de manter interações sociais harmoniosas e cooperativas. No estudo de Wu et al. (2024), os resultados encontrados mostram uma correlação negativa com ansiedade, indicando que pessoas mais ansiosas são mais desafiadoras, o que vai de encontro aos resultados deste estudo. A ansiedade elevada frequentemente resulta em comportamentos defensivos, irritabilidade e dificuldades em confiar nos outros, características típicas de indivíduos com baixa Afabilidade. Tais padrões podem alimentar um círculo vicioso, em que a ansiedade favorece conflitos e desconfiança, levando a interações sociais negativas que, por sua vez, aumentam os níveis de ansiedade. Embora os adaptadores tenham constituído 63% dos ansiosos, esse proporção foi inferior à média geral (69%), sugerindo menor adaptação social entre os estudantes com ansiedade. Estudos recentes confirmam a relação entre Afabilidade e ansiedade. De acordo com a análise de rede apresentada por Yang et al. (2023), a Afabilidade está negativamente correlacionada com a ansiedade, sugerindo que indivíduos mais afáveis tendem a experimentar menos ansiedade devido à sua propensão a manter relações harmoniosas e evitar conflitos. Além disso, esses autores defendem a ideia de que a Afabilidade é um traço central que protege contra sintomas de ansiedade e depressão.

A Tabela 3 apresenta percentuais de indivíduos flexíveis e focados entre diferentes grupos, bem como os resultados do teste qui-quadrado para verificar a significância estatística das diferenças observadas. Na amostra geral, 16% dos estudantes foram classificados como flexíveis e 84% como focados. Entre os estudantes com ansiedade, 19% foram flexíveis e 81% foram focados, com um p-valor de 0,056, indicando uma diferença estatisticamente significativa a um nível de 10%, rejeitando a hipótese nula de que não há associação entre as duas variáveis. As demais variáveis analisadas não apresentaram diferenças estatisticamente significativas. Esses resultados sugerem que pode haver uma associação entre ansiedade e Conscienciosidade, especialmente em termos de flexibilidade e foco.

Tabela 3
Médias e teste qui-quadrado para a variável Conscienciosidade.

A relação entre ansiedade e Conscienciosidade é intrigante, conforme evidenciado pelos resultados da Tabela 3. Estudantes com ansiedade apresentaram uma proporção ligeiramente maior de flexibilidade (19%) em comparação com a média geral (16%), enquanto a maioria permaneceu focada (81%). A diferença sugere que a ansiedade pode influenciar a distribuição entre flexibilidade e foco, embora essa relação não seja fortemente significativa. Indivíduos focados tendem a ser organizados, disciplinados e menos impulsivos, características que podem ajudar a mitigar a ansiedade ao proporcionar uma sensação de controle e previsibilidade (Costa Junior; Mccre, 1992); Flesia et al., 2020). Nikčević et al. (2021) indicam em seu estudo que a Conscienciosidade é um fator protetor contra ansiedade e o estresse. No entanto, a alta demanda por perfeição e rigor também pode gerar estresse, potencialmente exacerbando a ansiedade. Por outro lado, indivíduos mais flexíveis podem lidar melhor com a incerteza e mudanças, o que pode ser uma vantagem em situações estressantes, mas sua menor rigidez pode também levar a sentimentos de desorganização e falta de controle, aumentando a ansiedade (Flesia et al., 2020).

A Tabela 4 apresenta percentuais de indivíduos resilientes e reativos entre diferentes grupos, além dos resultados do teste qui-quadrado. Na amostra geral, 35% foram resilientes e 65% foram reativos. Entre os estudantes com ansiedade, 15% foram resilientes e 85% foram reativos, com um p-valor < 0,001, indicando diferença estatisticamente significativa a um nível de 1% e rejeição da hipótese nula de que não há associação entre as duas variáveis. Esses resultados sugerem que há uma associação robusta entre ansiedade e Neuroticismo. Estudantes com ansiedade apresentaram muito mais reatividade (85% vs. 65%) e menos resiliência (15% contra 35% na média geral), sugerindo maior instabilidade emocional e respostas emocionais intensas. Nikčević et al. (2021) observaram que o Neuroticismo está positivamente associado à ansiedade generalizada e sintomas depressivos, sugerindo que a instabilidade emocional desempenha um papel central no desenvolvimento desses sintomas. Da mesma forma, Prince et al. (2021) identificaram que altos níveis de Neuroticismo em jovens adultos são preditores significativos de primeiros episódios de transtornos de ansiedade e depressão.

Tabela 4
Médias e teste qui-quadrado para a variável Neuroticismo.

Além disso, a pesquisa de Yang et al. (2023), utilizando análise de redes, destacou o Neuroticismo como o traço de personalidade mais crucial para os sintomas de depressão e ansiedade entre estudantes universitários chineses, corroborando a importância desse traço como fator de risco significativo. Esses resultados são consistentes com a literatura, que frequentemente identifica o Neuroticismo como um forte preditor de experiências emocionais negativas, incluindo ansiedade e depressão. Por outro lado, indivíduos resilientes tendem a ser mais estáveis emocionalmente e capazes de gerenciar o estresse de maneira eficaz, o que pode proteger contra a ansiedade. Segundo Flesia et al. (2020), a estabilidade emocional é um fator protetor importante, pois pessoas com alta estabilidade emocional permanecem calmas em resposta a situações estressantes e tendem a ver os problemas de forma proporcional à sua importância, preocupando-se menos com problemas do que pessoas com baixa estabilidade emocional.

A Tabela 5 apresenta percentuais de baixa e alta Abertura à experiência, bem como os resultados do teste qui-quadrado. Na amostra geral, 14% dos estudantes foram categorizados como preservados e 86% como exploradores. Entre os estudantes com ansiedade, 12% foram preservados e 88% foram exploradores, com um p-valor de 0,31, indicando que não há uma diferença estatisticamente significativa e que a hipótese nula de que não há associação entre as duas variáveis não pode ser rejeitada. Esses resultados sugerem que não há uma associação significativa entre ansiedade e Abertura à experiência na amostra. Nikčević et al. (2021) relataram uma descoberta interessante: uma associação positiva entre altos escores de Abertura à experiência e ansiedade específica relacionada à COVID-19. Pode-se argumentar que pessoas com alta abertura a novas experiências (e, portanto, mais propensas a assumir riscos sociosanitários durante este período) também são mais inclinadas a se preocupar e monitorar as ameaças decorrentes desses comportamentos.

Tabela 5
Médias e teste qui-quadrado para a variável Abertura à experiência

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho investigou a relação entre o nível de ansiedade dos estudantes de uma universidade pública estadual e os fatores de personalidade, conforme medidos pelo questionário "Big Five Inventory". Os resultados indicaram associações significativas entre certos traços de personalidade e níveis de ansiedade. Notavelmente, estudantes com altos níveis de Neuroticismo apresentaram maior vulnerabilidade à ansiedade, o que evidencia a importância de intervenções voltadas ao fortalecimento da resiliência emocional. A introversão também esteve associada a níveis mais elevados de ansiedade, sinalizando a necessidade de ambientes sociais mais inclusivos e confortáveis tanto para introvertidos quanto para extrovertidos. A Afabilidade, ou a capacidade de manter interações sociais harmoniosas, foi outra dimensão afetada pela ansiedade, sugerindo que estratégias de intervenção devem promover comportamentos adaptativos e afáveis para melhorar o bem-estar emocional dos estudantes.

A associação entre ansiedade e Conscienciosidade, especialmente em termos de flexibilidade e foco, aponta para a necessidade de estratégias que equilibrem adaptabilidade e organização. Estudantes focados, caracterizados por serem organizados e disciplinados, tendem a mitigar a ansiedade ao proporcionar uma sensação de controle e previsibilidade, enquanto a flexibilidade pode ser uma vantagem em situações estressantes. No entanto, a elevada exigência por perfeição e rigor também pode induzir estresse, exacerbando a ansiedade. Embora a relação entre Abertura à experiência e ansiedade não tenha se mostrado estatisticamente significativa neste estudo, é crucial continuar explorando como diferentes traços de personalidade podem influenciar a saúde mental dos estudantes. A análise dos resultados sugere que abordagens individualizadas, que considerem os traços de personalidade dos estudantes, podem ser mais eficazes na promoção do bem-estar mental e do desempenho acadêmico.

Esses achados ressaltam a importância de programas de orientação e suporte psicológico que integrem a avaliação de personalidade, oferecendo intervenções mais direcionadas e eficazes. Políticas educacionais que reconheçam a diversidade de experiências e características individuais podem contribuir para a criação de um ambiente de aprendizagem mais inclusivo e acolhedor. Entre as limitações do estudo, destaca-se a utilização de um questionário autoaplicável em sala de aula. Embora as instruções tenham seguido um protocolo rigoroso e a confidencialidade das respostas tenha sido assegurada, não se pode descartar totalmente a possibilidade de que alguns estudantes tenham sentido certo grau de pressão pelo contexto da aplicação, ainda que a participação tenha sido explicitamente voluntária. Essa limitação deve ser considerada na interpretação dos resultados e na generalização dos achados. Para concluir, recomenda-se a realização de estudos futuros que aprofundem a investigação das interações entre personalidade e ansiedade em diferentes contextos acadêmicos, ampliando a compreensão e eficácia das estratégias de intervenção. A aplicação dessas recomendações pode não apenas fortalecer a eficácia do ensino e da aprendizagem, mas também contribuir para o desenvolvimento integral dos estudantes.

Disponibilidade de Dados

Os dados que embasam este estudo podem ser solicitados ao(à) autor(a), mediante justificativa, em razão de restrições de caráter ético, de segurança e/ou financeiras.

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  • Editor de Seção:
    Milena Pavan Serafim, André Pires | Editora de Layout: Silmara Pereira da Silva Martins

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    12 Set 2024
  • Aceito
    06 Set 2025
  • Revisado
    08 Out 2025
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