Resumo
Introdução: A maioria das condições crônicas é diretamente influenciada pelos fatores relacionados ao estilo de vida, que são passíveis de modificação.
Objetivo: Avaliar a associação entre fatores relacionados às características sociodemográficas, estilo de vida e diabesidade em idosos residentes no município de Ibicuí-Bahia
Método: Trata-se de um estudo epidemiológico de corte transversal, de base populacional, com amostra probabilística de idosos residentes em Ibicuí na Bahia. Os dados foram coletados por meio de um questionário aplicado em forma de entrevista individual. Foram incluídas informações sociodemográficas e estilo de vida (sexo, idade, nível de escolaridade, raça/cor, inatividade física, consumo de álcool e tabagismo, presença de diabetes auto referida, medida da massa corporal e da estatura). Na análise dos dados foram utilizados procedimentos da estatística descritiva e inferencial (modelo hierárquico).
Resultados: A amostra do estudo compreendeu 310 idosos, sendo 40,3% (n=135) homens e 52,3 % (n=175) mulheres. A idade variou de 60-108 anos (média de 63,0±79,0 anos). A prevalência geral de diabesidade foi de 32,2%. Após a análise multivariada a variável raça/cor manteve-se associada à diabesidade.
Conclusão: Observou-se uma elevada presença de diabesidade e apenas a raça esteve relacionada à maior ocorrência de diabesidade. Neste estudo, os indivíduos de pele branca apresentaram maior probabilidade de apresentar essa condição.
Palavras-chave:
estilo de vida; idoso, estilo de vida; diabetes mellitus; obesidade.
Abstract
Background: Most chronic conditions are directly influenced by lifestyle factors, which are subject to modification.
Objective: Evaluate the factors related to the sociodemographic characteristics, lifestyle, and diabesity of elderly patients residing in Ibicuí/Bahia
Method: This population-based, cross-sectional, epidemiological study was conducted in Ibicuí, Bahia. The data (pertaining to sociodemographic measures, lifestyle attributes, diabetes, body mass, and height) were collected via a questionnaire queried through individual interviews. Socio-demographic and lifestyle information (sex, age, education level, race, physical inactivity, alcohol consumption and smoking, presence of self-reported diabetes, body mass and height measures) were included. Standard descriptive and inferential analyses (hierarchical model) were used.
Results: The 310 individuals (n=135; 40.3% male and n=175; 52.3% female) had ages ranging from 60-108 years (mean: 63.0±79.0 years). The overall prevalence of diabesity (association between diabetes and obesity) was 32.2%. After a multivariate analysis, a race research was associated with diabesity.
Conclusion: We observed a high presence of diabesity, and only race was related to the greater occurrence of diabesity. In this study, we found that Caucasian individuals were more likely to exhibit diabesity.
Keywords:
life style; aged, life style; diabetes mellitus; obesity.
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, ocorreram mudanças significativas no perfil demográfico e epidemiológico brasileiro, traduzidas pelas alterações na pirâmide etária populacional. Essas modificações foram resultado da queda da fecundidade e do aumento da longevidade1. Em concomitância com esse processo, foram observadas transformações no perfil de morbimortalidade, com a sobreposição da carga de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como diabetes mellitus (DM), hipertensão arterial, câncer, entre outras2. A exposição às DCNTs, relacionadas aos fatores de risco, como, por exemplo, a obesidade e a inatividade física, pode intensificar o adoecimento e a mortalidade da população3.
A coexistência entre DM e obesidade é conhecida como uma condição denominada como Diabesidade4. A presença dessas duas patologias estão entre as principais causas de adoecimento por doenças crônicas e de mortalidade no mundo5. Ademais, são responsáveis pelo consumo de 14 e 5,7%, respectivamente, da despesa total de investimento em saúde nos Estados Unidos6.
Esse cenário demonstra a relevância de compreender melhor essa condição, considerando sua ocorrência e os fatores de risco relacionados, como estilo de vida, predisposição genética, sexo, idade e raça, que podem, por sua vez, intensificar a ocorrência da diabesidade7. Em estudos populacionais, essas variáveis se associam ao excesso de peso e/ou DM, assim como reafirmam a associação, por si só, entre essas duas afecções. De fato, parece que existe uma cadeia de determinantes hierarquizados envolvidos entre o desfecho e variáveis sociodemográficas, comportamentais, e o estado e a avaliação da saúde8-10.
Dentre os fatores de risco relacionados à diabesidade destacam-se, principalmente, a má ingestão nutricional e a inatividade física, que levam em conjunto à resistência insulínica, hiperinsulinemia, dislipidemia aterogênica, hipertrigliceridemia com níveis baixos de HDL-C (lipoproteína de alta densidade - colesterol) e aumento de LDL-C (lipoproteína de baixa densidade - colesterol)11. Além disso, outras repercussões sistêmicas também se associam de modo intrínseco à diabesidade, como a hipertensão arterial, inflamação vascular e apneia obstrutiva do sono, que, por conseguinte, geram predisposição à manifestação de doenças cardiovasculares e aumento no número de óbitos11.
Na literatura, ainda são escassas as investigações, principalmente no cenário brasileiro, que visam estudar essa condição com o objetivo de mostrar o panorama em diferentes regiões e entre populações específicas, como crianças, adolescentes, adultos e idosos. Com o intuito de conhecer a prevalência da diabesidade com base na associação de fatores desencadeadores desta condição, a elaboração deste estudo incluiu idosos residentes em um município rural do interior da Bahia, onde são escassas ou inexistentes as investigações com essa característica.
Nesse sentido, o propósito da presente pesquisa foi avaliar a prevalência da diabesidade em idosos nesse município baiano e sua associação com os fatores relacionados ao estilo de vida e características sociodemográficas relacionadas a esta condição.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de corte transversal, que utilizou dados do inquérito populacional intitulado “MONIDI: monitoramento das condições de saúde de idosos de um município de pequeno porte”, realizado no ano de 2014, no município de Ibicuí-BA, pertencente à região de Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao ano de 2010, o município de Ibicuí possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) municipal de 0,584 e um PIB per capita de 9.030,79 reais. Em relação à população total, estimada no período, o município contava com 15.785 habitantes, sendo que 2.125 desses eram idosos, dentre os quais 525 estavam cadastrados na Estratégia de Saúde da Família (ESF), durante o período do estudo10. A expectativa de vida, medida em anos, foi estimada em cerca de 71,7 anos, segundo o último censo realizado em 2010.
Para determinar o tamanho da amostra foram adotados os seguintes parâmetros: Prevalência do desfecho desconhecida (50%), nível de significância de 5%, intervalo de confiança de 95% e erro tolerável de 3 p.p.. Foram adicionados 10% a mais para possíveis perdas e recusas. Após a contabilização das perdas e recusas, a taxa de resposta foi de 91,2% com 8,8% (n=31) de recusas e 9,2% (n=29) de exclusão, visto que a amostra final foi composta por 310 idosos.
Os critérios de inclusão do estudo foram: idosos com idade igual ou superior a 60 anos, residentes de zona rural e urbana do município de Ibicuí-BA e que estivessem cadastrados na Estratégia de Saúde da Família (ESF). Os critérios de exclusão foram a presença do diagnóstico de demência, ou qualquer outro tipo de alteração cognitiva, que comprometesse a veracidade das informações obtidas12 (registrados nos prontuários das Unidades de Saúde da Família).
Foram incluídas as informações sociodemográficas (sexo: masculino e feminino, idade: em anos, nível de escolaridade: alfabetizado e não alfabetizado, raça/cor: branca e não-branca e renda média mensal: em reais), inatividade física no lazer: foram considerados inativos aqueles que declararam não participar de nenhuma atividade física no tempo livre. O consumo de bebidas alcoólicas e tabagismo foram avaliados por meio de questão dicotômica(sim/não) sobre o consumo regular dessas substâncias12.
A incapacidade funcional foi avaliada através da autopercepção dos indivíduos quanto às atividades instrumentais de vida diária (AIVD) , utilizando índice de Lawton: utilizar o telefone, utilizar meios de transportes para deslocamento a lugares distantes, fazer compras, preparar as próprias refeições, manutenção da casa, administração de medicamentos e sua contabilidade. Os idosos foram classificados como dependentes quando necessitavam de auxílio em pelo menos uma das atividades listadas12.
O estado de saúde foi avaliado por meio da questão sobre a percepção da sua saúde. Foi considerada percepção negativa do estado de saúde quando o participante relatou sua saúde como regular, ruim ou muito ruim. A presença de diabetes foi avaliada por meio do método autorreferido com confirmação de diagnóstico em consulta aos prontuários das Unidades de Saúde da Família12.
O Índice de Massa Corporal (IMC) foi avaliado com base na mensuração do peso com uma balança digital portátil (OMRON®) e a estatura foi mensurada através de um estadiômetro (Sanny®), ambos calibrados. Com base nessas medidas, o índice de massa corporal foi determinado através da Equação 1:
na medida em que os pontos de corte utilizados foram: baixo peso (<22kg/m2), peso normal (22,1-27kg/m2), sobrepeso/obesidade (>27kg/m2)12.
A diabesidade foi classificada como uma condição simultânea de diabetes autorreferida, com confirmação em prontuário médico da Unidade de Saúde, e IMC>27 kg/m2.
O controle da qualidade de dados foi realizado por pesquisadores e técnicos treinados, que supervisionaram todos os questionários aplicados logo após a entrevista e antes de sua inserção no banco de dados.
Na análise descritiva, foi realizado cálculo da média e desvio-padrão e prevalência. Em seguida, avaliou-se a associação entre as variáveis independentes e a diabesidade com análise bruta e ajustada por meio do modelo de regressão de Poisson.
Na análise bruta, analisou-se a prevalência de diabesidade segundo as variáveis independentes, através do teste de Wald. Na análise ajustada, foram incluídas as variáveis que apresentaram p≤0,20 na análise bruta, utilizando o modelo hierárquico de entrada13 conforme Figura 1. No processo de seleção das variáveis em cada nível, utilizou-se o método Backward. As variáveis do primeiro nível foram ajustadas entre si e as que apresentaram p≤0,20 foram mantidas no modelo, para ajuste das variáveis nos próximos níveis. Em seguida, inseriu-se as variáveis do nível dois (p≤0,20 na análise bruta). Posteriormente, as variáveis que mantiveram significância estatística de pelo menos 20% permaneceram inseridas nos modelos, conjuntamente as variáveis do nível um para ajuste pelas variáveis do nível três, incluindo-se também as variáveis com p≤0,20 nas análises brutas.
RESULTADOS
No estudo, foram incluídos 310 idosos, sendo 40,3% (n=135) homens e 52,3% (n=175) mulheres. A idade variou de 60-108 anos (63±79) anos. Do total da amostra, 96,8% responderam simultaneamente as questões sobre a presença de diabetes e fizeram avaliação da estatura e da massa corporal.
A prevalência geral de diabesidade foi de 32,0% e não aumentou significativamente com o avançar da idade (p=0,12). Entre os indivíduos de cor de pele branca (p<0,05) identificou-se maior prevalência de diabesidade quando comparado aos seus pares (Tabela 1).
Na Tabela 2, apresenta-se a análise da associação entre as variáveis independentes e a prevalência de diabesidade bruta e ajustada. Após realizado o ajuste, os resultados mostraram aumento da probabilidade de diabesidade entre indivíduos com cor de pele branca (RP=3,01; IC95% 1,23-7,33) (Tabela 2).
Prevalência, análise bruta e ajustada, da associação dos fatores associados a diabesidade. Ibicuí-Bahia, 2014
DISCUSSÃO
O objetivo do presente estudo foi avaliar a prevalência de diabesidade em idosos e sua associação com os fatores relacionados ao estilo de vida e às características sociodemográficas associadas a essa condição. Os resultados mostraram uma prevalência elevada de diabesidade entre os sujeitos investigados e essa condição foi maior entre os idosos que se autodeclararam brancos.
Aproximadamente um terço da população investigada apresentou diabesidade. Evidências na literatura atestam que essa patologia, reconhecida pela associação entre diabetes e obesidade, seja resultado da interação do estilo de vida moderno ocidental. Esse é caracterizado pela inatividade física combinada com toxinas dietéticas e ambientais, micronutrientes deficientes, estresse crônico e microflora intestinal modificada, associada ainda com suscetibilidades genéticas individuais5. A combinação desses fatores reflete na deterioração da homeostase dos indivíduos e aumenta a probabilidade de desenvolvimento da diabesidade5.
No presente estudo, essa afecção foi mais acentuada entre os indivíduos de cor de pele branca. Contrastando com os resultados encontrados, o estudo de Pappachan e Viswanath14 evidenciou que em mulheres idosas com diabetes autorrelatado e aqueles que se autodeclararam pretos apresentaram maior ocorrência de obesidade geral (IMC) e Central (CC)9.
Por outro lado, Moretto et al.15, ao avaliarem a distribuição de gordura abdominal em indivíduos com idade entre 20 a 69 anos, identificaram que apenas os homens mais velhos, de cor branca e renda elevada (p<0,001) apresentaram maiores médias de perímetro abdominal quando comparados aos de cor de pele preta. Em contrapartida, um outro estudo epidemiológico, que avaliou o excesso de peso (IMC≥25 kg / m2) na faixa etária acima de 60 anos de idade, mostrou que tanto os adultos brancos como também pretos apresentam uma maior prevalência de sobrepeso em relação aos pardos16.
Com relação aos resultados encontrados, que indicaram maior prevalência da diabesidade em homens brancos, presume-se que as melhores condições de vida, representadas pela renda e escolaridade, podem levar a um estilo de vida mais sedentário e com menos gasto energético15. Nesse sentido, o desenvolvimento econômico tem sido vinculado às características consideradas obesogênicas, tais como atividades sedentárias (assistir televisão e uso de computador), hábitos alimentares (a exemplo do alto consumo de alimentos processados), prática insuficiente de atividade física e estresse17. Além disso, as melhores condições laborais estão associadas a menos atividades informais e menor dispêndio calórico, no que se refere ao trabalho e deslocamento, quando comparadas aos idosos de cor de pele não-branca16.
Compreende-se que a cor/ raça reflete as condições socioeconômicas, que por sua vez, atuam como um importante determinador do estado de saúde das populações16. Portanto, a raça, posição socioeconômica e gênero exercem influência na saúde e a avaliação desses fatores em conjunto deve ser fomentada, visando atingir especialmente os grupos de maior vulnerabilidade15.
Entre as limitações do presente estudo, pode-se destacar o fato da informação sobre diabetes mellitus ter sido obtida de forma autorreferida. Essa situação pode ser passível de viés de memória, uma vez que idosos podem apresentar relativa dificuldade em recordar e interpretar certas informações. Outra limitação está relacionada ao desenho transversal, que impede a determinação de uma relação causal entre os fatores.
Por outro lado, a confirmação do diagnóstico nos prontuários aperfeiçoaram a informação obtida de forma autorrelatada. Além disso, o estudo reflete uma problemática relevante e cada vez mais prevalente. Em virtude disso, a detecção precoce da diabesidade é fundamental para que medidas preventivas sejam tomadas. A mitigação do cenário pode gerar a redução dos custos de tratamento, diminuindo assim a incapacidade funcional e aumentando a expectativa de vida nesses indivíduos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados demonstraram uma elevada prevalência de diabesidade entre a população investigada, sendo essa condição mais acentuada entre os idosos de cor de pele branca. Nesse sentido, os achados obtidos ressaltam a importância do rastreamento e monitoramento das características antropométricas e condições crônicas, principalmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde. Ademais, demonstra que é imprescindível a realização de políticas públicas visando identificar os principais fatores de riscos entre as populações mais vulneráveis, considerando-se as diferentes regiões e populações existentes no país.
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Como citar:
Rocha SV, Pinheiro CM, Rodrigues CC, Souza MS, Vasconcelos LRC, Silva CF, et al. Estilo de vida, fatores sociodemográficos e diabesidade entre idosos residentes no município de Ibicuí-Bahia: estudo de base populacional. Cad Saúde Coletiva. 2024; 32(2):e32020375. https://doi.org/10.1590/1414-462X202432020375
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Fonte de financiamento:
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia.
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