Open-access Associação entre estado nutricional e estado funcional de idosos residentes em comunidade: uma revisão sistemática

Association between the nutritional status and functional state of elderly residents in community: a systematic review

Resumo

Introdução:  O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial que vem acontecendo de forma progressiva e exponencial nos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

Objetivo:  Avaliar a associação entre estado nutricional e estado funcional de idosos residentes em comunidade presente em estudos epidemiológicos analíticos.

Método:  Revisão sistemática utilizando as bases de dados Lilacs, Pubmed, Web of Science e Embase, com os seguintes descritores: "idoso", "idoso de 80 anos ou mais", "estado nutricional", "desnutrição", "obesidade" e "atividades cotidianas". Foram identificados 4.411 artigos, selecionados por pares em duas fases: leitura de resumos e leitura de textos completos. Ao final foram incluídos 30 estudos.

Resultados:  Foram incluídos 15 estudos transversais e 15 coortes. Quanto à medida do estado nutricional, foram identificados 28 artigos que utilizaram o IMC e dois a MAN®. Para a medida da funcionalidade, as principais atividades avaliadas foram: Atividades Básicas da Vida Diária (ABVD), Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) e Atividades Avançadas da Vida Diária (AAVD), com maior frequência das ABVD. Duas classificações do estado nutricional apresentaram associação com a estado funcional: desnutrição e obesidade, sendo a obesidade a classificação do estado nutricional mais frequente.

Conclusões:  a maioria dos estudos mostrou associação significativa entre obesidade e dependência funcional para as ABVD, AIVD e AAVD. Quanto à desnutrição, esta demonstrou associação significativa com dependência funcional para as ABVD e AIVD.

Palavras-chave:
estado nutricional; desnutrição; obesidade; atividades cotidianas; idoso

Abstract

Background:  Population aging is a global phenomenon that has been occurring progressively and exponentially in developed and developing countries.

Objective:  To evaluate the association between the nutritional status and functional dependence of elderly residents in a community present in analytical epidemiological studies.

Method:  Systematic review using the Latin American and Caribbean Health Sciences Literature (Lilacs), United States National Library of Medicine (PubMed), Web of Science and Embase databases, with the following descriptors: "aged", "aged, 80 and over", "nutritional status", "malnutrition", "obesity" and "activities of daily living". Selected by peers, 4,411 articles were identified in two phases: abstract reading and full text reading. At the end, 30 studies were included.

Results:  Fifteen cross-sectional studies and 15 cohorts were included. As for the measurement of nutritional status, 28 articles identified used the body mass index and two the Mini Nutritional Assessment — MNA®. For the measurement of functionality, the main activities evaluated were: basic activities of daily living (BADL), instrumental activities of daily life (IADL) and advanced activities of daily living (AADL), with a higher frequency of BADL. Two classifications of nutritional status were associated with functional dependence: obesity and malnutrition, with obesity being the most frequent classification of nutritional status.

Conclusions:  Most studies showed a significant association between obesity and dependence for BADL, IADL and AADL. As for malnutrition, there was a significant association with dependence for BADL and IADL.

Keywords:
nutritional status; malnutrition; obesity; activities of daily living; aged

INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial que vem acontecendo de forma progressiva e exponencial nos países desenvolvidos e em desenvolvimento1. Estudos apontam que, em 2012, a prevalência mundial de pessoas com 60 anos ou mais era de 11,5%, correspondendo a 810 milhões de idosos. Estima-se que em 2050 essa prevalência chegue ao valor de 22% de pessoas velhas no mundo2. Esse fenômeno demográfico é substancialmente responsável pela crescente busca de entendimento sobre as suas consequências para as sociedades3.

Logo, um dos efeitos do processo de envelhecer está relacionado às mudanças morfológicas, funcionais, bioquímicas e psicológicas pelas quais o corpo humano passa e que podem repercutir diretamente no estado funcional dos idosos e, consequentemente, na sua qualidade de vida4.

O estado funcional adequado é compreendido como a capacidade de o indivíduo realizar atividades de autocuidado e as que estão relacionadas com o convívio em comunidade5, sendo mensuradas por meio da realização das Atividades da Vida Diária (AVD), que é um componente-chave para se avaliar a saúde dos idosos. Quando o idoso necessita de auxílio ou não consegue fazer qualquer tipo de AVD, há a necessidade de uma demanda pelo suporte familiar e da comunidade para que tarefas cotidianas simples ou complexas possam ser efetuadas6.

A dependência funcional está associada à senescência fisiológica e a uma rede complexa de fatores de risco, aos quais o idoso pode ter sido exposto ao longo da sua vida5. A literatura aponta que fatores demográficos, socioeconômicos, de condições de saúde e comportamentais podem estar associados a maiores chances de redução na autonomia e independência funcional dos idosos7.

Dentro dessa complexa rede de fatores, o estado nutricional é um fator presente e excepcionalmente avaliado nos estudos epidemiológicos8, tendo sua inadequação (desnutrição ou obesidade) como um problema comum no envelhecimento humano.

Além disso, a desnutrição ou a obesidade estão associadas ao desequilíbrio entre a ingestão de nutrientes e as necessidades nutricionais, como também às mudanças psicossociais pela solidão, condições socioeconômicas, polimedicação e ao surgimento de doenças crônicas9-11.

Nesse contexto, o estado nutricional assume um papel de destaque na avalição funcional, na saúde e na qualidade de vida da população idosa. A desnutrição e a obesidade são agravos nutricionais comuns de saúde pública nos idosos e estão associadas ao aumento da incidência e à prevalência de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e de doenças infecciosas, devido à redução da capacidade imunológica, ao maior tempo de internação e a complicações hospitalares, dependência do estado funcional e morbimortalidade11,12.

O estado nutricional é um dos fatores que está associado a dependência do estado funcional em idosos hospitalizados ou que vivem em Instituições de Longa Permanência para Idoso (ILPI)13. Estudos internacionais9,14-18 também têm estabelecido claramente a associação entre o estado nutricional e o estado funcional de idosos que vivem em comunidade, entretanto, é necessário conhecer essa associação entre os idosos brasileiros, tendo em vista as diferenças socioeconômicas, culturais e de estilo de vida.

Dessa forma, torna-se necessário o conhecimento dessa associação, no sentido de subsidiar a elaboração de políticas públicas de saúde voltadas ao cuidado nutricional e ao estado funcional de idosos brasileiros que vivem em comunidade.

Portanto, o objetivo dessa revisão sistemática foi avaliar a associação entre estado nutricional e estado funcional de idosos residentes em comunidade.

METODOLOGIA

A presente revisão sistemática foi realizada de acordo com as diretrizes dos itens de relatório preferenciais para análises sistemáticas e meta-análises (PRISMA)19 e dos itens da meta-análise de estudos observacionais em epidemiologia (MOOSE)20.

O protocolo desta revisão sistemática está cadastrado na PROSPERO e pode ser consultado pelo registro: PROSPERO CRD 42020150847.

A seguinte pergunta de pesquisa, elaborada a partir da estratégia PICO, foi utilizada para o desenvolvimento desta revisão sistemática: qual a associação entre o estado nutricional e o estado funcional de idosos residentes em comunidade, publicada em estudos epidemiológicos analíticos?

A busca bibliográfica foi realizada em quatro bases de dados eletrônicas em setembro de 2019: Lilacs, Pubmed, Web of Science e Embase. Para a busca dos artigos não foram aplicados filtros para idioma e ano de publicação.

Os seguintes descritores foram utilizados na busca de artigos científicos: "idoso", "idoso de 80 anos ou mais", "estado nutricional", "desnutrição", "obesidade" e "atividades cotidianas".

Para a busca na base Lilacs, os termos presentes no modelo foram localizados na lista de Descritores em Ciências da Saúde, disponível no portal da Biblioteca Virtual em Saúde (http://decs.bvs.br). A expressão de busca utilizada foi: "IDOSO" or "IDOSO de 80 anos ou mais" [Descritor de assunto] and "ESTADO NUTRICIONAL" or "DESNUTRIÇÃO or "OBESIDADE" [escritor de assunto] and "ATIVIDADES COTIDIANAS" [escritor de assunto].

Para a pesquisa nas bases Pubmed e Web of Science os descritores foram identificados no Medical Subject Headings (Mesh), disponível na U.S. National Library of Medicine (http://www.nlm.nih.gov/mesh/). A expressão de busca utilizada na base Pubmed foi: (Aged[MeSH Terms] OR Aged, 80 and over[MeSH Terms]) AND (Nutritional Status[MeSH Terms] OR Malnutrition[MeSH Terms] OR Obesity[MeSH Terms]) AND ("Activities of Daily Living"[MeSH Terms]). Na base Web of Science: (TS=((aged) OR (aged, 80 and over))) AND (TS=((nutritional status) OR (malnutrition) OR (obesity))) AND (TS=(activities of daily living)). Para a base de dados Embase, foram utilizados termos do Emtree, com a seguinte expressão de busca: "aged"/exp OR "very elderly"/exp) AND "nutritional status"/exp OR "malnutrition"/exp OR "obesity"/exp) AND "daily life activity"/exp.

Os critérios de elegibilidade aplicados a esta revisão sistemática foram: critérios de inclusão (estudos com idosos com 60 anos ou mais, idosos residentes em comunidade, estudos cuja exposição fosse o estado nutricional e o desfecho fosse o estado funcional, estudos observacionais analíticos de corte transversal, caso-controle e coorte) e critérios de exclusão, incluindo estudos com populações especiais (idosos residentes em instituições de longa permanência, população carcerária, idosos hospitalizados com doenças específicas) e estudos sem medidas de associação resultantes de análise multivariada).

A pesquisa nas bases de dados identificou um total de 4.411 artigos (Figura 1) potenciais para inclusão na seleção inicial. Após a busca nas bases, os artigos foram avaliados por meio da leitura dos títulos e resumos por dois leitores (SILVA, GA e MEDEIROS, GC) de forma independente. Os leitores independentes foram calibrados de acordo com os critérios de inclusão/exclusão, utilizando uma amostra de 100 estudos recuperados, e a concordância entre os leitores foi substancial (Kappa de Cohen=0,71). Os critérios de inclusão e exclusão foram aplicados independentemente do restante dos estudos, e qualquer desacordo foi resolvido em reunião de consenso com um terceiro leitor (SILVA, ALF).

Figura 1
Fluxograma do processo de seleção dos artigos incluídos

Um total de 4.200 estudos foram excluídos pelos critérios de elegibilidade, e, após a análise do título/resumo, houve consenso entre os leitores para a inclusão de 112 estudos na análise de texto completo e discordância para 99 estudos. Após reunião de consenso, 51 estudos seguiram para análise de texto completo e 48 foram excluídos. Portanto, um total de 163 estudos foram elegíveis para a leitura completa.

Após a leitura completa dos estudos, 63 artigos foram excluídos (17 sem análise multivariada e 46 duplicados), 23 foram incluídos na revisão, em concordância pelos dois leitores, e 31 passaram por reunião de consenso com o terceiro leitor. Ao final da seleção, 30 artigos foram incluídos nesta revisão sistemática.

Para a extração de dados, foram apanhados dados descritivos e metodológicos, como: título do estudo, idioma, país, objetivo do estudo, população e idade estudada, desenho e período de estudo, tamanho amostral, medidas de avaliação do estado nutricional e do estado funcional, resultados e conclusão dos estudos.

A avaliação do risco de viés dos estudos incluídos (Quadro 1) foi realizada por meio da Escala de Newcastle-Ottawa (NOS)21, para estudos de coorte, e JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cross Sectional Studies22, para estudos de desenho transversal.

Quadro 1
Avaliação da qualidade dos estudos incluídos

A escala NOS foi desenvolvida para avaliar a qualidade dos estudos de coorte e caso-contole e contém oito tópicos que analisam três dimensões: seleção, comparabilidade e resultado (em caso de estudo de coorte) ou exposição (caso-controle). Para cada item existe uma série de opções em que aquela que reflete melhor a qualidade é pontuada por uma estrela, e quanto maior a quantidade de estrelas, mais elevada é a qualidade do estudo23. O objetivo da JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cross Sectional Studies é avaliar a qualidade metodológica de estudos de desenho transversal. Ela contém oito perguntas com quatro opções de respostas (Sim/Não/Pouco claro/Não aplicável).

Os resultados da avaliação do risco de viés de cada estudo que utilizou a escala NOS mostraram um baixo risco de viés para os artigos avaliados. Para os estudos que abordaram a JBI Critical Appraisal Checklist for Analytical Cross Sectional Studies, o risco de viés foi considerado médio.

Os resultados dos estudos foram agrupados por análise de subgrupo em dois quadros, conforme a exposição IMC/MAN®-SF e o desfecho ABVD e a exposição MAN®/IMC e os desfechos AIVD, AAVD e ABVD/AIVD. A medida de associação identificada em todos os resultados foi o Odds Ratio (OR).

RESULTADOS

Foram incluídos nesta revisão sistemática 30 estudos, com amostragem homogênea quanto ao desenho de estudo, sendo 15 transversais e 15 coortes. A distribuição dos estudos por países foi heterogênea, em que o Estados Unidos da América (EUA) foi o país mais frequente (nove estudos). O estudo mais antigo datou de 2002 e o mais recente foi publicado em 2019, com maior frequência de publicações em 2014 (seis estudos, conforme apresentado no Quadro 2.

Quadro 2
Características dos estudos incluídos na revisão sistemática

A idade da população dos estudos variou entre 60 e 90 anos ou mais. Com relação ao tamanho amostral dos estudos avaliados, observou-se uma variação entre 126 e 22.328 idosos. Desses, 29 estudos envolveram idosos de ambos os sexos e apenas 1 avaliou mulheres idosas (Quadro 2).

Quanto à medida do estado nutricional (exposição) utilizada nos estudos, foram identificados 28 artigos que utilizaram o Índice de Massa Corporal (IMC), um a Mini Avaliação do Estado Nutricional (MAN®) e um a Mini Avaliação do Estado Nutricional-versão curta (MAN®-SF), conforme consta no Quadro 2.

Dos 28 estudos que aplicaram o IMC, apenas quatro empregaram a classificação de IMC para idosos: os realizados por Lipchitz49 (um estudo) ou OPAS50 (três estudos). Os 24 restantes usaram a classificação da Organização Mundial de Saúde (OMS)51. Também foi verificado que, nos dois estudos que aplicaram a MAN®, duas versões diferentes (versão longa e curta) foram utilizadas para o diagnóstico do estado nutricional.

Para a medida da funcionalidade (desfecho), observou-se que as principais atividades avaliadas foram: Atividades Básicas da Vida Diária (ABVD), Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) e Atividades Avançadas da Vida Diária (AAVD), com maior frequência das ABVD, presente em 28 estudos. Dois analisaram, de forma isolada, as AIVD.

De 21 estudos que analisaram apenas a associação entre IMC e ABVD, oito encontraram associação significativa entre desnutrição e dependência funcional para as ABVD. Os estudos mostraram que idosos com IMC<18,5 kg/m2, OR variando entre 1,22 (IC95% 1,05–1,41) e 2.29 (IC95% 1,27–4,11) e IMC<23 kg/m2 (OR=1,67, p=0,032), têm maiores chances de apresentar dependência funcional para as ABVD (Quadro 3).

Quadro 3
Características dos estudos incluídos de acordo com o IMC e as MAN-SF e as ABVD

Dez estudos verificaram associação entre obesidade (IMC>30,0 kg/m2 ou >35 kg/m2) e dependência funcional para as ABVD, com uma OR variando entre 1,29 (IC95% 1,14–1,46) e 10.2 (IC95% 4,2–24,7) p=<0,0001. Além disso, foi observado que quanto maior o valor de IMC, maiores as chances de o idoso desenvolver dependência funcional para a realização das ABVD. Também foi observada associação significativa entre a MAN®-SF (escore de desnutrição≤11) e ABVD, com uma OR=3,22 (IC95% 1,13–9,16) p=0,029 (Quadro 3).

Os escores da MAN®, quanto ao "risco de desnutrição" (OR=2,64, IC95% 1,03–6,76) e "desnutrição" (OR=5,36, IC95% 1,02–56,94), se associaram significativamente com a dependência funcional para as AIVD, mostrando que quanto menor o escore da MAN®, maiores são as chances de o indivíduo idoso desenvolver dependência funcional (Quadro 4).

Quadro 4
Características dos estudos incluídos de acordo com a MAN e o IMC e as AIVD, AAVD e ABVD/AIVD

De 11 estudos que verificaram a associação entre IMC e AIVD, seis encontraram associação significativa entre desnutrição e dependência funcional para as AIVD com OR entre 1.59 (1,16–2,18) e 2,03 (p=0,034). No entanto, Deschamps et al.15 mostraram que o IMC<23,0 kg/m2 (OR=0,31, 0,10–0,93) é um fator de proteção para o desenvolvimento de dependência funcional para a realização das AIVD (Quadro 4).

Quanto à obesidade, oito estudos mostram associação entre obesidade e dependência funcional para as AIVD com a OR variando entre 1,19 (1,06–1,35) e 4,56 (1,51–13,77). Para os dois estudos que avaliaram a associação entre IMC e AAVD, apenas um identificou associação significativa entre a obesidade e dependência funcional para as AAVD. Em relação à associação entre IMC e ABVD/AIVD, três estudos encontraram significativa associação entre a obesidade e a dependência funcional para essas atividades (Quadro 4).

Quando associado o estado nutricional ao estado funcional, verificou-se, nos estudos, que idosos com dependência funcional para a realização de algum tipo de AVD apresentaram maiores prevalências e incidências de desnutrição e obesidade. De maneira geral, a maioria dos estudos incluídos nesta revisão sistemática encontrou associação entre estado nutricional e dependência funcional de idosos residentes em comunidade.

Duas classificações do estado nutricional apresentaram associação com a dependência funcional: desnutrição e obesidade. A obesidade foi a medida de classificação do estado nutricional mais observada nos estudos avaliados e associada, principalmente, com a dependência funcional para a realização das ABVD, se comparado com as AIVD e AAVD, sugerindo que, a depender do estado nutricional em que o idoso residente em comunidade se encontre, a sua capacidade em realizar atividades complexas e simples pode ser comprometida pela desnutrição e, principalmente, pela obesidade.

DISCUSSÃO

Os resultados desta revisão sistemática evidenciaram que o estado nutricional de idosos que vivem em comunidade está significativamente associado ao estado funcional. Já o comprometimento do estado funcional está associado a uma rede de fatores inerente às alterações fisiológicas do indivíduo e aos fatores aos quais o idoso foi exposto ao longo da vida7. Nos estudos de coorte, os indivíduos são acompanhados por um determinado período de tempo para investigar o surgimento da doença ou da condição relacionada à saúde entre expostos e não expostos. Logo, produzem evidências mais fortes para inferência causal relacionada à dependência funcional em idosos52.

Na presente revisão, verificou-se que a maioria dos estudos encontrados foram conduzidos nos EUA. A literatura científica já demonstra que a nutrição adequada está associada ao envelhecimento saudável. Contudo, a população idosa americana apresenta alto risco de desenvolver um mal estado nutricional devido à falta de acesso aos alimentos adequados. Desde 1965, o Congresso dos EUA aprovou a Lei dos Americanos Mais Velhos (OAA), que objetiva ofertar serviços de saúde aos idosos americanos, incluindo o acompanhamento nutricional53.

A mortalidade nos EUA está associada principalmente a doenças crônicas não transmissíveis, doenças cardíacas, câncer e acidente vascular encefálico, todas atreladas aos maus hábitos de vida e à má nutrição. Além disso, a alta taxa de obesidade entre os idosos americanos da comunidade ilustra bem a situação de saúde do país e a busca constante dos pesquisadores por estudos que demonstrem os riscos do inadequado estado nutricional associado ao envelhecimento.

O conceito de saúde para o idoso está intimamente associado à capacidade de cuidar de si próprio e de gerir a própria vida, portanto, o idoso é considerado capaz (robusto), mesmo que tenha doenças, quando está apto a fazer sozinho as suas atividades diárias. Em vista disso, para que o idoso seja considerado capaz, é necessário um funcionamento equilibrado entre os sistemas do corpo, incluindo o estado nutricional preservado, visto que, tanto o baixo peso quanto o seu excesso são prejudiciais para a saúde do idoso e para a capacidade de cuidar de si próprio e de fazer as atividades diárias54.

Vinte e oito estudos avaliados nesta revisão sistemática utilizaram as ABVD como medida do estado funcional. A OMS aborda o conceito de estado funcional para o idoso dentro de um panorama que compõe um modelo multidimensional, multidirecional e dinâmico que está inserido na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF)55. As ABVD fazem parte desse contexto e são as principais medidas utilizadas para a averiguação do estado funcional nos estudos epidemiológicos. Além disso, a aptidão do idoso para a execução das ABVD é uma medida importante, utilizada na saúde pública, para avaliar a demanda por assistência, cuidados e apoio56.

A maioria dos estudos (Quadro 2) incluídos nesta revisão sistemática utilizou o IMC como medida para a avaliação do estado nutricional. Não existe um método único e eficaz para a mensuração do estado nutricional de idosos, devido às alterações físicas e corporais decorrentes da idade. Durante a avaliação nutricional do idoso, recomenda-se a realização da triagem nutricional com a aplicação da MAN, seguida da antropometria (aferição de peso, altura, IMC e circunferências e dobras corporais)31,45. Além de o IMC ser um índice de fácil aplicação, a OMS recomenda o seu uso na avaliação nutricional de idosos, portanto, tal recomendação explicaria os achados desta revisão12,50.

Em todos os estudos que investigaram a associação entre estado nutricional e estado funcional, pelo menos, desnutrição e/ou obesidade foram associadas a dependência funcional.

Recentemente, uma revisão sistemática57 que investigou a incapacidade funcional em pessoas idosas encontrou que o IMC<18,5 kg/m2 (desnutrição) está associado a dependência funcional para a realização das AIVD e ABVD. Esses resultados concordam com os achados desta revisão sistemática, que também identificou associação significante entre o IMC<18,5 kg/m2 e dependência funcional para ABVD e AIVD. Essa associação pode ser explicada pelo fato de a desnutrição energético-proteica em idosos ser responsável por reduzir a massa óssea, a capacidade imunológica, bem como a mobilidade e, consequentemente, o estado funcional. Além disso, a deterioração gradual e progressiva das funções físicas e funcionais, em combinação com a presença da desnutrição, acelera a dependência do estado funcional da população idosa58.

Com o objetivo de determinar a relação entre diferentes medidas de composição corporal e medidas de força muscular e dependência funcional em homens e mulheres idosos, uma meta-análise de 50 estudos longitudinais59 revelou que o IMC> 0 kg/m2 e a baixa força muscular estavam associados às limitações funcionais para as atividades cotidianas, corroborando com os achados desta revisão sistemática, onde o IMC>30 kg/m2 também foi associado à redução do estado funcional, tanto nas ABVD quanto nas AIVD e AAVD. Uma possível explicação para essa associação deve-se ao fato de a obesidade exacerbar a dependência funcional relacionada à idade, levando ao comprometimento da função física, à redução da mobilidade, ao surgimento de morbidades crônicas, à diminuição da qualidade de vida e à institucionalização com dependência funcional para as atividades cotidianas60.

É sabido que durante o envelhecimento ocorre perda progressiva do músculo esquelético e redistribuição da gordura corporal, contudo, a fisiopatologia da obesidade em idosos é complexa e abrange uma rede de fatores com o envolvimento, principalmente, dos sistemas endócrino e imunológico e do estilo de vida (dieta, atividade física, tabagismo e consumo de álcool). Consequentemente, essas alterações da fisiologia do envelhecimento, em associação com a obesidade, levam a reduções no desempenho físico e no estado funcional61.

Uma revisão sistemática de 15 estudos longitudinais e 13 transversais, que investigou sistematicamente as evidências científicas sobre qual estimativa de adiposidade melhor previa a incapacidade de mobilidade nos idosos62, relatou que o IMC elevado aumenta a tensão muscular nas articulações e dificulta os movimentos de flexão e extensão do joelho, com consequências para a mobilidade e realização de atividades de forma independente. Além disso, a obesidade no idoso pode promover a instabilidade postural e aumentar o risco de quedas da própria altura. Essa revisão também relatou que um IMC entre 30-35 kg/m2 pode ser um indicativo da dependência funcional para realização das atividades diárias.

Portanto, sugere-se que o IMC>30 kg/m2 (classificação: obesidade) em idosos pode ser preditivo da redução do estado funcional e de uma incapacidade futura.

Contudo, esses dados devem ser interpretados com cautela, já que os estudos encontrados nesta revisão sistemática trazem diferentes pontos de corte para o IMC de idosos, nos quais se observa que classificações de IMC de adultos para desnutrição e obesidade foram utilizadas para classificar o IMC de idosos. Além disso, as limitações relacionadas ao uso do IMC, como não diferenciar tecido adiposo e massa livre de gordura, podem comprometer a interpretação dos resultados, sugerindo a utilização desse índice em associação com outros indicadores antropométricos. Outro ponto a ser apreciado diz respeito à MAN® (versão longa e curta), já que ela não traz a obesidade em seu diagnóstico, inviabilizando, portanto, o emprego dessa ferramenta de forma isolada, com o intuito de avaliar o diagnóstico de obesidade em idosos e sua associação com o estado funcional.

CONCLUSÃO

As evidências científicas analisadas mostraram que o estado nutricional de idosos que vivem em comunidade está significativamente associado à dependência do estado funcional. A obesidade e a desnutrição foram as principais classificações do estado nutricional associadas a dependência funcional para a realização das atividades diárias.

No presente estudo foi identificada associação significativa entre obesidade e dependência funcional para as atividades da vida diária básicas, instrumentais e avançadas. Quanto à desnutrição, esta demonstrou associação significativa com dependência funcional para as atividades básicas e instrumentais da vida diária, quando mensurada pelo IMC. Quando mensurada pela MAN® e MAN®-SF, foi identificada associação com a dependência funcional para as atividades da vida diária básicas e instrumentais.

Embora a classificação ideal do IMC para idosos, nos estudos avaliados, não possa ser determinada na presente revisão sistemática, a manutenção do adequado estado nutricional (IMC 18,5 – 30,0 kg/m2) deve ser incentivada com o auxílio de políticas públicas específicas para o cuidado nutricional do idoso que vive em comunidade.

Sugere-se que estudos prospectivos de coorte com acompanhamento desde a idade adulta, que utilizem o IMC específico para idosos e com controle de fatores de confusão, sejam realizados para determinar o IMC relacionado a dependência funcional.

  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    13 Out 2020
  • Aceito
    19 Fev 2022
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