Resumo
Introdução O comportamento sedentário (CS) tem sido apontado como fator de risco para doenças crônicas e mortalidade por todas as causas.
Objetivo Estimar a prevalência de CS e fatores associados em universitários da área da saúde de uma universidade da região Centro-Oeste brasileira.
Método Estudo transversal com acadêmicos da saúde, de ambos os sexos, de 18 a 59 anos. Coletaram-se os dados por meio de questionário e o CS foi estabelecido pelo tempo assistindo à televisão, usando computador, jogando videogame e utilizando transporte. O ponto de corte considerado como elevado CS foi de seis horas ou mais por dia. A análise ajustada foi realizada por meio de Regressão de Poisson.
Resultados Entre os 2.287 participantes, a prevalência de CS foi de 50,4% (IC 95% 48,3 - 52,5), sendo que ser do sexo masculino (RP=1,18; IC95% 1,04-1,35; p<0,010), cursar medicina (RP=1,16; IC95% 1,00-1,34; p<0,047) e não praticar atividade física (RP=1,55; IC95% 1,28-1,87; p<0,001) estiveram associados ao desfecho.
Conclusão Cerca de metade dos acadêmicos apresentou CS, estando essa condição associada a sexo masculino, curso de medicina e baixo nível de atividade física. Ressalta-se a importância de políticas públicas para redução do CS com recomendações a universitários a fim de se evitarem prejuízos futuros à saúde.
Palavras-chave:
comportamento sedentário; saúde do estudante; educação superior; epidemiologia
Abstract
Background Sedentary behaviour (SC) has been identified as a risk factor for chronic diseases and all-cause mortality.
Objective To estimate the prevalence of SC and associated factors in university students in the health area of a university in the Brazilian Midwest.
Method Cross-sectional study with health academics, of both sexes, aged between 18 and 59 years. Data were collected through a questionnaire and the SC was established by time watching television, using a computer, playing video games and using transportation. The cut-off point considered as high SC was 6 hours or more per day. The adjusted analysis was performed using Poisson regression.
Results Among the 2,287 participants, the prevalence of SC was 50.4% (95%CI 48.3 - 52.5), being male (PR=1.18; 95%CI 1.04-1, 35; p < 0.010), studying medicine (PR=1.16; 95%CI 1.00-1.34; p< 0.047) and not practicing physical activity (PR=1.55; 95%CI 1.28-1, 87; p<0.001), were associated with the outcome.
Conclusion About half of the students had SC, this condition being associated with being male, having a medical course and having a low level of physical activity. It was emphasized the importance of public policies to reduce the SC with recommendations to university students to avoid future damage to health.
Keywords:
sedentary behaviour; student health; education higher; epidemiology
INTRODUÇÃO
Comportamento sedentário (CS) é o termo que designa qualquer comportamento realizado no período de vigília caracterizado por um gasto energético igual ou inferior a 1,5 equivalente metabólico (MET), na posição sentada, reclinada ou deitada1. Podem-se citar como CS aquelas atividades que envolvem a posição sentada, como assistir à televisão; jogar videogame (VG); estudar, trabalhar ou momentos de lazer em bares e restaurantes; andar de carro; assistir às aulas; usar o computador, entre outras2.
O CS representa fator de risco para vários desfechos, como incidência de doença cardiovascular, mortalidade por todas as causas, mortalidade por doença cardiovascular, mortalidade por câncer, incidência de câncer e incidência de diabetes tipo 23. Além disso, recente estudo com dados de 62.754 japoneses entre 35 e 69 anos demonstrou que os indivíduos mais expostos ao CS (≥ 5 horas/dia sentado) tendiam a ter níveis aumentados de índice de massa corporal (IMC), pressão arterial sistólica, pressão arterial diastólica, triglicerídeos e colesterol não-HDL, além de níveis diminuídos de HDL-colesterol, especialmente na faixa etária entre 60 e 69 anos4.
O público universitário representa um subgrupo populacional com risco de apresentar alto CS, visto que parte significativa do seu tempo é gasta estudando ou em sala de aula5. Estudo canadense com universitários apontou uma média de 11,65 horas por dia de tempo sedentário autorrelatado, com a maioria das horas dedicada a comportamentos sedentários relacionados às atividades exigidas pela universidade6. Uma revisão sistemática sobre CS em universitários de vários países apontou que as prevalências variaram de 14,8% a 90,2%7. No Brasil, onde poucas pesquisas sobre essa população foram realizadas, considerando a diferença metodológica entre os estudos em relação a definição de pontos de corte, instrumentos de medição e tipo de CS, as prevalências variaram de 3,8% a 94,6%8-10.
Alguns fatores podem aparecer associados ao CS entre universitários, como ser do sexo feminino11, apresentar faixa etária mais jovem9 ou ser fisicamente inativo12. As relações entre os determinantes do comportamento sedentário de estudantes universitários parecem ser moderadas por características da universidade, da residência, do estilo de vida e da pressão durante a vida acadêmica13.
Considerando universitários da área da saúde, presume-se que indivíduos que se dedicam a cuidar da saúde da população e que passam, em média, de 4 a 6 anos em formação no Ensino Superior, tenham hábitos de vida saudáveis coerentes com o fundamento teórico que abarcam. No entanto, ao ingressar na universidade, os jovens tendem a mudar o estilo de vida, adotando comportamentos de risco à saúde justificados pela dinâmica da vida acadêmica14.
Por se tratar de um público cujo tamanho tem sido crescente no Brasil15, torna-se relevante considerar investigações direcionadas a conhecer o perfil dos universitários sob os mais diferentes aspectos. Dessa forma, estudos que busquem identificar a magnitude e as características associadas ao CS podem apoiar a implementação de programas e políticas de saúde direcionados aos grupos de maior risco, nos diferentes contextos. Além disso, os estudos voltados para esse público são escassos em algumas regiões do País, como a região Centro-Oeste16. Assim, o objetivo deste estudo foi estimar a prevalência de CS e fatores associados em universitários da área da saúde de uma universidade do Centro-Oeste brasileiro.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo transversal de base escolar universitária, com amostra do tipo censo, constituída por universitários vinculados aos cursos da área da saúde de uma fundação pública municipal do estado de Goiás. Os dados deste estudo constituíram parte de projeto de pesquisa maior cujo objetivo foi avaliar as condições de saúde de universitários da Universidade de Rio Verde, no ano de 2018.
Considerou-se como critério de inclusão todos os 2.658 acadêmicos da área da saúde vinculados aos cursos de Enfermagem, Odontologia, Medicina, Fisioterapia, Farmácia e Educação Física, distribuídos nos campi Rio Verde, Aparecida de Goiânia e Goianésia, com idade igual ou superior a 18 anos. Foram excluídos aqueles que possuíam algum tipo de deficiência física e os com idade igual ou superior a 60 anos.
Foi realizado um estudo-piloto com acadêmicos do curso de Direito, selecionados por conveniência, a fim de testar a logística do trabalho de campo, avaliar a qualidade e compreensibilidade do instrumento, melhorar o planejamento e organização, e para suprir qualquer necessidade de alteração e/ou adequação dos procedimentos antes da coleta definitiva de dados.
A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário impresso, pré-testado, padronizado e autoaplicável, em sala de aula, com apoio de professores e equipe de pesquisa, durante o mês de novembro de 2018. Ao término, os questionários foram depositados em urna lacrada, impedindo a identificação dos estudantes.
Foi contabilizado um total de 363 perdas e recusas em virtude de: 342 acadêmicos ausentes na coleta de dados, 11 questionários incompletos, oito recusas e duas desistências. Após aplicação dos critérios de exclusão do estudo, as análises foram conduzidas com os dados de 2.287 participantes.
A variável dependente foi o comportamento sedentário (CS), mensurada por meio das seguintes perguntas: 1. Em um dia de semana normal, quanto tempo por dia você passa assistindo à televisão? 2. Em um dia de semana normal, quanto tempo por dia você passa usando o computador para trabalho, estudos ou lazer? 3. Em um dia de semana normal, quanto tempo por dia você passa jogando videogame? 4. Em um dia de semana normal, quanto tempo por dia você permanece sentado no carro, moto ou ônibus? Foi solicitado que o respondente escrevesse o número de horas e minutos gastos ao dia com a atividade.
Um escore do comportamento sedentário total foi construído mediante a soma das horas e minutos despendidos em todos os tipos de CS avaliados. O ponto de corte considerado como elevado CS foi de seis horas ou mais por dia17.
Como variáveis independentes, foram coletadas informações demográficas, socioeconômicas, relacionadas às características discentes, hábitos de vida e saúde. As variáveis demográficas incluíram sexo (feminino; masculino); idade (18-19 anos; 20-24 anos; 25-29 anos; 30 anos ou mais), cor da pele autorreferida (branca; parda; preta; outras) e situação conjugal (com companheiro; sem companheiro). A variável socioeconômica foi coletada de acordo com os critérios da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), estratificando a população em classes econômicas, a partir da posse e quantidade de bens de consumo, escolaridade do chefe da família e acesso a serviços públicos, sendo tipificada em categorias (A; B; C/D/E).
As variáveis relacionadas às características discentes foram o curso (Medicina; outros) e período (1º ao 6º; 7º ao 12º). Os hábitos de vida foram tabagismo (não fumantes; ex-fumantes; fumante atual); uso de drogas ilícitas nos últimos 30 dias (uso; não uso); uso de álcool nos últimos 12 meses (uso; não uso), e a prática de atividade física (AF), coletada por meio do International Physical Activity Questionnaire (IPAQ)18, e categorizada da seguinte forma:
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Sedentário - não realiza nenhuma atividade física por pelo menos 10 minutos contínuos durante a semana;
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Insuficientemente Ativo - pratica atividade física por pelo menos 10 minutos contínuos por semana, porém de maneira insuficiente para ser classificado como ativo;
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Ativo - cumpre as seguintes recomendações: a) atividade física vigorosa – ≥ 3 dias/semana e ≥ 20 minutos/sessão; b) moderada ou caminhada – ≥ 5 dias/semana e ≥ 30 minutos/sessão; c) qualquer atividade somada: ≥ 5 dias/semana e ≥ 150 min/semana);
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Muito Ativo - cumpre as seguintes recomendações: a) vigorosa – ≥ 5 dias/semana e ≥ 30 min/sessão; b) vigorosa – ≥ 3 dias/semana e ≥ 20 min/sessão + moderada e/ou caminhada ≥ 5 dias/semana e ≥ 30 min/sessão.
Por fim, a variável relacionada à saúde foi o Índice de Massa Corporal (IMC), calculado a partir do peso e da altura referidos pelo entrevistado, e categorizado de acordo com os pontos de corte recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), sendo IMC até 24,99 (peso adequado); >25,00 e < 29,99 (sobrepeso), e ≥30 (obesidade).
A entrada dos dados foi realizada por meio do software EpiData 3.1, em dupla entrada, com posterior comparação para se eliminar a possibilidade de erros de digitação. A consistência e a análise dos dados foram realizadas no software Stata.
A análise dos dados foi conduzida nos programas Statistical Package for Social Sciences (SPSS versão 22.0) e Stata versão 11.0. Inicialmente, foram descritas as características da amostra por meio das frequências absolutas e relativas, e das medidas de tendência central e de dispersão. Na análise bivariada, foi realizado o Teste Qui-quadrado de Pearson (variáveis categóricas) com p<0,05. A medida de associação utilizada foi a Razão de Prevalência (RP), estimada pela regressão de Poisson, com variância robusta, nas análises brutas e ajustadas.
A análise ajustada foi conduzida com base em um modelo hierárquico19 adaptado dos estudos de Franco8 e Lourenço et al.9, permitindo verificar, simultaneamente, os efeitos das variáveis independentes sobre o desfecho. O modelo foi construído com quatro níveis, organizados da seguinte forma: 1º nível (variáveis demográficas e variável socioeconômica); 2º nível (características discentes); 3º nível (variáveis relacionadas aos hábitos de vida), e 4º nível (IMC). Todas as variáveis determinando o desfecho, sendo o nível 1 mais distal e o nível 4 mais proximal. Ingressaram na análise ajustada as variáveis independentes que apresentaram valor de p do teste Wald <0,20, permanecendo no modelo aquelas que alcançaram p-valor <0,05.
O estudo obedeceu ao disposto na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, tendo sido submetido e aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale dos Sinos, sob o parecer nº 2.892.764 e da Universidade de Rio Verde, sob o parecer nº 2.905.704. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
RESULTADOS
Participaram do estudo, 2.287 acadêmicos entre 18 e 59 anos, média de idade de 22,7 anos (DP ± 3,85). A faixa etária que agrupou a maior parte dos participantes situava-se entre 20 e 24 anos (69,5%).
A Tabela 1 apresenta os valores médios e o desvio padrão do tempo gasto em minutos pelos universitários em cada tipo de CS avaliado. Foi possível observar que o CS mais vivenciado pelos universitários foi referente ao uso do computador para estudos ou lazer, com média de 239,53 minutos, o que correspondeu a quase quatro horas por dia nesta atividade.
Valores médios e o desvio padrão do tempo em minutos gasto para cada tipo de comportamento sedentário entre universitários. Goiás (2018)
A maioria dos acadêmicos era do sexo feminino (69,5%), de cor da pele referida como branca (57,7%), sem companheiro (88,4%) e pertencente à classe econômica A (44,8%). Quanto ao curso, 71,1% eram graduandos em Medicina e estavam entre o 1º e o 6º período (65,0%) (Tabela 2).
Prevalência de comportamento sedentário total segundo as características dos universitários. Goiás (2018)
No tocante aos hábitos de vida, 85,7% eram não fumantes, 76,0% faziam uso de bebida alcoólica e 84,1% não consumiam drogas ilícitas. Cerca de 42,2% foram classificados como ativos e 73,9% classificados dentro do peso considerado normal (Tabela 2).
A prevalência de comportamento sedentário (CS) foi de 50,4% (IC 95% 48,3 - 52,5). Maiores prevalências de CS foram verificadas entre os universitários do sexo masculino, na faixa etária entre 20 e 24 anos, que pertenciam à classe econômica A e cursavam Medicina. Os indivíduos considerados sedentários também apresentaram maior prevalência de CS (61,2%) que os demais (Tabela 2).
Na análise bruta, constatou-se que ser do sexo masculino, cursar Medicina, ser ativo fisicamente ou ser sedentário estava associado ao desfecho (Tabela 3). Após a análise ajustada, essas associações permaneceram. Os homens apresentaram uma prevalência de CS 18% maior que as mulheres (RP=1,18; IC95% 1,04-1,35) e os estudantes de Medicina apresentaram uma prevalência de CS 16% maior que os universitários dos demais cursos (RP=1,16; IC95% 1,00-1,34).
Razões de prevalência (RP) brutas e ajustadas e IC95% para comportamento sedentário total segundo características demográficas, socioeconômicas e comportamentais de universitários. Goiás (2018)
Quando considerado o nível de atividade física dos universitários, constatou-se que a prevalência de CS aumentava à medida que a prática de AF diminuía. Entre os indivíduos ativos, a prevalência do desfecho foi 25% maior (RP=1,25; IC95% 1,05-1,48) do que aqueles considerados muito ativos; entre os insuficientemente ativos, foi 30% maior (RP=1,30; IC95% 1,05-1,61), e entre os sedentários, 55% maior do que a categoria de referência (RP=1,55; IC95% 1,28-1,87).
DISCUSSÃO
Este estudo identificou elevada prevalência de CS entre os universitários. Mais da metade dos participantes passou cerca de seis horas ou mais por dia em CS, o que pode acarretar vários prejuízos à saúde. Estudo com 8.451 participantes que examinou a correlação entre o tempo assistindo à televisão e a mortalidade por todas as causas, apontou que as pessoas que assistiam à televisão por tempo igual ou maior que seis horas por dia tiveram um aumento de duas vezes no risco de mortalidade por todas as causas em comparação com aquelas que assistiram à televisão por menos que duas horas por dia20.
Grande parte do tempo gasto em atividades sedentárias desta amostra correspondeu ao uso do computador para estudos, trabalho ou lazer, concordando com outras investigações que relataram maior exposição dos universitários a este comportamento9,21. Isso se justifica na medida em que a rotina dos universitários exige o uso dessa ferramenta para assistir às aulas e realizar atividades, pesquisas on-line, relatórios e outras tarefas que facilitam o processo de ensino-aprendizagem.
Os homens apresentaram maiores prevalências de CS, o que diferiu de outros estudos na literatura com universitários. Pesquisa envolvendo 94 estudantes universitários nos EUA encontrou uma maior prevalência de CS (tempo sentado maior que seis horas por dia) entre as mulheres do que em homens11. No Brasil, estudo transversal que avaliou o CS em 1.110 universitários em Minas Gerais observou uma associação do sexo feminino com o elevado tempo sentado (≥ 6 horas/dia)8. No entanto, dados de um estudo realizado em países latino-americanos demonstraram que os homens, independentemente da idade, apresentaram CS maior do que as mulheres em várias atividades, como uso de computador, videogame, leitura e deslocamento no transporte22. Na média, eles passam mais tempo sentados do que as mulheres23-24. Além disso, em termos gerais, mulheres são mais envolvidas nos trabalhos domésticos, reduzindo seu tempo disponível para atividades sedentárias25.
Outro ponto observado no presente estudo diz respeito a uma maior prevalência de CS entre os acadêmicos do curso de Medicina. O período da graduação configura-se como momento de grandes desafios, mudanças e dificuldades para os universitários, exigindo que os estudantes desenvolvam uma série de características e habilidades não utilizadas anteriormente26. Destaca-se, em relação ao curso de Medicina, a carga horária extensa, integral, com amplo conteúdo teórico, que resulta numa exposição ao CS durante muitas horas no decorrer do dia, para que os acadêmicos acompanhem todas as atividades do curso. Estudo transversal realizado na Holanda com 317 universitários apontou que aqueles que frequentavam as aulas por períodos mais extensos se envolviam em sessões mais longas de CS27.
No tocante à realidade dos universitários do presente estudo, a carga horária do curso de medicina (7.590 horas) é quase o dobro da carga horária dos demais cursos, que giram em média de 3.900 horas, o que pode justificar uma maior exposição ao CS. Ademais, as variações na quantidade de tempo em que o indivíduo permanece sentado, com predominância de maior tempo entre acadêmicos de Medicina, podem refletir também as diferenças socioeconômicas, uma vez que estudos apontam uma relação positiva entre renda e CS, com uso mais frequente de carros, maior acesso a dispositivos eletrônicos e itens de conforto em casa entre indivíduos com maior poder aquisitivo28-30.
A prática de AF mostrou-se associada ao desfecho, apontando que os acadêmicos sedentários apresentavam maior probabilidade de vivenciar o CS do que aqueles ativos fisicamente, corroborando estudo realizado no Chile com 358 universitários, segundo o qual os indivíduos com CS elevado (≥ 4 horas/dia) tinham o dobro de chance de serem fisicamente inativos12. Ademais, o relatório do Physical Acitivity Guidelines Advisory Committee Report (2018) apontou fortes evidências de que os efeitos perigosos do CS foram mais pronunciados em pessoas fisicamente inativas31.
Em uma revisão sistemática sobre os correlatos do CS em universitários, todos os estudos incluídos mostraram uma associação negativa entre o tempo sentado e a AF32. Abordagem longitudinal com 395 universitários de Bangladesh constatou que os participantes que mantinham níveis de AF insuficiente (<150 min/semana) e alto CS (≥ 480 min/dia) apresentaram mais sofrimento psicológico do que aqueles que apresentavam AF suficiente e baixo CS33.
As consequências metabólicas em longo prazo para a saúde, em função do excesso de CS, são diferentes daquelas associadas à falta de AF recomendada pela Organização Mundial da Saúde34. Embora vários estudos demonstrem os efeitos deletérios do CS para a saúde, existem informações de que altos níveis de AF (60 a 75 minutos diários) parecem eliminar o risco de morte associado ao tempo em que se permanece sentado. Contudo, essa atividade atenua, mas não elimina os riscos associados a assistir muito à televisão35. Posto isso, a combinação encontrada no presente estudo de baixo nível de AF e alto CS é preocupante.
Os achados relacionados à AF podem refletir a dinâmica dos cursos em saúde, em que a carga horária é ampla, ocupando grande parte do dia com atividades, sejam estas aulas, estágios, atividades de pesquisa ou extensão. Além disso, predomina no senso comum a ideia de que, nos momentos de descanso, necessariamente deveríamos ficar sem fazer nada. Note-se que nem todos os indivíduos associam a prática de AF ao prazer e sim a uma obrigação, além de imaginarem que adotar algumas atividades sedentárias seria o correto nos momentos de descanso, como ficar deitado sem fazer nada, assistir à televisão ou ler um livro.
Algumas limitações devem ser consideradas na interpretação dos resultados do presente estudo. Inicialmente, por se tratar de um delineamento transversal, existe a impossibilidade de atribuir causalidade ou consequência às associações encontradas, já que analisam desfecho e exposição simultaneamente. Outra limitação diz respeito ao uso de questionário para mensuração do CS, que se baseou em medidas de autorrelato, podendo este ter sido sub ou superestimado, apesar de este método ser amplamente utilizado em estudos epidemiológicos. Outro ponto que vale ressaltar diz respeito a não inclusão do tempo isolado utilizando o celular/smartphone na avaliação do CS, embora seja mais frequente a avaliação a partir do tempo de tela e tempo sentado7,32.
Um ponto forte deste estudo foi a inserção do tempo despendido no domínio transporte, pois poucos estudos com esse público contemplaram tal medida, além de ser o primeiro estudo avaliando o CS em universitários no estado de Goiás e na região Centro-Oeste. Destacaram-se também o elevado tamanho amostral e o rigor na condução do estudo de campo.
Esta pesquisa pode contribuir na compreensão acerca do CS em universitários e apoiar a elaboração de políticas institucionais com o objetivo de incentivar a redução do tempo despendido em CS, e assim evitar futuros problemas de saúde decorrentes deste comportamento. Ademais, conhecer a exposição de certos grupos populacionais em relação a determinados comportamentos é fundamental para o planejamento de intervenções e políticas em saúde pública.
Além de estimular que os universitários sejam mais ativos no dia a dia, o ideal é desestimular os longos períodos de CS nesse público. Assim, ajustar o ambiente da sala de aula e diminuir o tempo sentado, com estratégias, como a escrivaninha ereta, podem ser eficazes na redução do CS e na prevenção de doenças cardiometabólicas36.
Outra sugestão seria incluir no currículo uma disciplina dedicada à AF e/ou ao esporte, funcionando como método para superar a falta de tempo, uma das barreiras apontadas para justificar a inatividade física. Um ponto importante também seria esclarecer os universitários acerca do construto CS, visto se tratar de um conceito desconhecido para a maioria, confundido muitas vezes com o sedentarismo, sendo necessário abordar o tema, bem como suas implicações para a saúde geral13.
A universidade apresenta-se como espaço privilegiado para adoção de melhores comportamentos considerados dentro do espectro de estilo de vida saudável. A construção de ambientes favoráveis para a prática de atividade física, como academias, pistas de caminhada e corrida, e locais apropriados para a prática de esportes, são ações viáveis que poderiam impactar justamente nas principais barreiras apontadas por universitários para justificar a inatividade física: a falta de tempo, dinheiro e local adequado para o exercício13.
Promover a interrupção do CS, inserindo pausas ativas, pode ser uma boa maneira de reduzir, como consequência, o CS em estudantes universitários. Atuar com foco na redução do componente CS pode ser mais efetivo na diminuição do tempo sedentário total37.
As diretrizes mais recentes apoiam a implementação de programas e políticas de saúde pública que estimulem o aumento da prática de atividade física moderada a vigorosa e a limitação do CS, a fim de se evitarem malefícios para a saúde38. Assim, limitar o tempo gasto em comportamentos, como assistir à televisão, jogar videogame, usar dispositivos eletrônicos, inclusive os celulares, e outras atividades sedentárias, é recomendado39. O lema “sentar-se menos e mover-se mais” parece ser o mais adequado atualmente40.
CONCLUSÃO
Este estudo permitiu determinar a prevalência e identificar universitários com maiores riscos de apresentar excesso de CS, como ser do sexo masculino, cursar Medicina e praticar pouca ou nenhuma atividade física. As informações aqui contidas podem colaborar para a compreensão da ocorrência do CS neste grupo e pautar ações voltadas à redução deste comportamento entre os acadêmicos, evitando prejuízos futuros.
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Como citar:
Guerra HS, Brugnoli AVM, Stahnke DN, Pattussi MP, Costa JSD. Prevalência e fatores associados ao comportamento sedentário em universitários da área da saúde de uma instituição goiana. Cad Saúde Colet, 2024;32(4):e32040534. https://doi.org/10.1590/1414-462X202432040534
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Fonte de financiamento:
nenhuma.
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