Resumo
Introdução O cálcio é um mineral essencial para inúmeras funções do organismo, não obstante, fatores associados à sua ingestão por adultos e idosos ainda não foram suficientemente estudados.
Objetivo Estimar a ingestão média de cálcio tanto em adultos quanto em idosos, identificando os fatores associados a sua ingestão e as principais fontes alimentares deste mineral.
Método Foram analisados os dados de uma amostra composta por 1.643 indivíduos, utilizando o inquérito do Inquérito Domiciliar de Consumo Alimentar e Estado Nutricional (ISACamp-Nutri) realizado em 2015 em Campinas, SP. A ingestão de cálcio foi avaliada por meio do Recordatório Alimentar de 24 horas (R24h). As diferenças entre as médias foram estimadas por meio de regressão linear de acordo com as variáveis sociodemográficas, o estado de saúde, o estilo de vida e a frequência de refeições dos participantes.
Resultados A média de ingestão de cálcio foi de 542,5 mg/dia. O modelo final indicou que as médias foram inferiores nos homens, nos negros, naqueles com menores níveis de renda e de escolaridade, nos indivíduos com sobrepeso/obesidade e naqueles que faziam café da manhã e lanches com menos frequência. Ademais, demonstrou-se que os produtos lácteos contribuíram com apenas 40,6% da ingestão deste mineral.
Conclusão Os resultados da presente pesquisa apontam que a ingestão de cálcio se encontra muito abaixo do recomendado, sendo ainda menor nos grupos populacionais supramencionados, enfatizando a necessidade de implementar políticas voltadas para a redução dos preços de alimentos ricos em cálcio, em conjunto com orientações para aumentar o seu consumo.
Palavras-chave:
cálcio na dieta; adultos; idosos; consumo alimentar; inquéritos de saúde
Abstract
Background Calcium is an essential mineral for numerous body functions, nevertheless, the factors associated with its intake in adults and in the elderly population have not been sufficiently studied thus far.
Objective To estimate the mean calcium intake in individuals aged 20 years and over, in order to identify the factors associated with its intake, as well as the main dietary sources of this mineral.
Method The analyzed data was collected from a sample of 1,643 individuals using the ISACamp-Nutri, a health and nutrition survey conducted in 2015 in Campinas, SP, Brazil. Calcium intake was assessed using the 24-hour dietary recall (24HR), and the differences between means were estimated by linear regression, according to sociodemographic variables, health status, lifestyle and meal frequency.
Results The mean calcium intake found was 542.5 mg/day. The final model indicated that the means were lower in men, in Black individuals, in those with lower levels of income and schooling, in the overweight/obese population and in those who had breakfast and snacks less frequently. Furthermore, it was observed that dairy products contributed with only 40.6% of the intake of this mineral.
Conclusion Results demonstrate that the general calcium intake is currently far below the recommended, being even lower in the abovementioned population groups, indicating the demand of politics aimed at reducing the price of calcium-rich foods, along with the dissemination of information and guidance to increase its consumption.
Keywords:
calcium in the diet; adults; elderly; food consumption; health surveys
INTRODUÇÃO
O cálcio é um mineral essencial para o organismo humano, exercendo múltiplas funções como a formação e manutenção do esqueleto, a contração muscular, a regulação da função neuronal, e atuando também como mensageiro nas células do sistema imunológico1. Estudos têm evidenciado que a ingestão adequada de cálcio está relacionada a um risco menor de desenvolvimento de câncer de ovário2, mama3, esôfago4, além de cólon e reto5. Ademais, é comprovado que a ingestão deste mineral dentro dos níveis recomendados está inversamente associada ao risco de osteoporose6,7, sobrepeso e obesidade8,9, bem como de doenças cardiovasculares10,11.
A baixa ingestão de cálcio é considerada um dos fatores de risco nutricional para morte e anos de vida perdidos ajustados por incapacidade12. Em 2017, a ingestão média de cálcio no mundo foi estimada em aproximadamente 400 mg/dia, variando de 200 mg/dia em países da África Subsaariana a 600-800 mg/dia em países de alta renda12. No Brasil, de acordo com as duas edições do Inquérito Nacional sobre Alimentação (INA 2008-09 e 2017-18)13,14, as médias de consumo ficaram abaixo de 500 mg em todos os segmentos etários da população, e as médias em 2017-18 se mostraram inferiores às observadas na pesquisa prévia, resultando no aumento da prevalência de inadequação de cálcio na população brasileira. Em adultos e idosos de ambos os sexos, a prevalência de inadequação ultrapassou 90% em 2017-1814.
A ingestão insuficiente de cálcio decorre, em parte, de mudanças nos hábitos alimentares dos brasileiros, que vem substituindo o consumo de alimentos básicos e de melhor qualidade nutricional, por alimentos pobres em nutrientes e com elevadas concentrações de açúcares, gorduras e sódio15. Uma pesquisa brasileira mostrou que dietas com níveis recomendados de cálcio são mais caras, afetando especialmente os segmentos economicamente menos favorecidos16, paralelamente, demais estudos brasileiros verificaram que os custos de alimentos de melhor qualidade nutricional estão progressivamente aumentando, quando comparados com os alimentos de baixo valor nutricional17.
Prevalências mais elevadas de ingestão inadequada de cálcio também foram constatadas nos segmentos de menor nível socioeconômico em outros estudos brasileiros13,14, entretanto, a correlação entre a ingestão de cálcio e a raça/cor da pele18, o Índice de Massa Corporal (IMC)19-21, os comportamentos de saúde e as práticas alimentares22 ainda são pouco estudadas no Brasil.
Considerando a importância do cálcio para a manutenção da saúde dentro do contexto de escassez de pesquisas que investigam os fatores associados ao consumo deste mineral pela população adulta e idosa, os objetivos do presente estudo foram: avaliar a ingestão de cálcio em indivíduos de 20 anos ou mais segundo as condições socioeconômicas, a raça/cor da pele autodeclarada, o estado de saúde, o estilo de vida e a frequência de refeições, identificando as principais fontes alimentares deste mineral na dieta da população aqui estudada. O conhecimento sobre as características associadas ao consumo desse mineral pode fornecer subsídios para apoiar intervenções e políticas públicas que incentivem a sua ingestão adequada.
MÉTODO
Desenho amostral e população de estudo
Trata-se de um estudo transversal de base populacional utilizando os dados do Inquérito Domiciliar de Saúde de Campinas (ISACamp, 2015) e do Inquérito Domiciliar de Consumo Alimentar e Estado Nutricional (ISACamp-Nutri, 2015). Campinas é um município localizado no estado de São Paulo (sudeste do Brasil), com uma população estimada em 1.164.098 habitantes em 201523, tendo registrado um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,80523 em 2010.
Os inquéritos aqui utilizados coletaram informações de indivíduos não institucionalizados, residentes da área urbana de Campinas, contemplando três faixas etárias: adolescentes (10-19 anos), adultos (20-59 anos) e idosos (60 anos ou mais), sendo analisados no presente estudo os dados de indivíduos com 20 anos ou mais que responderam ao Recordatório Alimentar de 24 horas (R24h).
A amostra foi obtida por procedimentos de amostragem probabilística, estratificada por conglomerados e tomada em dois estágios. No primeiro estágio, 70 setores censitários foram sorteados e, no segundo, os domicílios foram sorteados de acordo com os setores previamente selecionados. A definição do tamanho da amostra considerou a estimativa de uma proporção de 50% (p = 0,50) com nível de confiança de 95% (z = 1,96), erro amostral entre 4 e 5 pontos percentuais e um efeito de delineamento de 2.
Foram definidos tamanhos mínimos de amostras de 1.400 para adultos e 1.000 para idosos. Esperando-se uma taxa de 78% e 80% de resposta entre adultos e idosos, respectivamente, foram sorteados 929 domicílios para entrevistas com adultos e 2.853 para idosos, em cada caso foram entrevistados todos os moradores dentro da faixa etária para o qual o domicílio havia sido sorteado24.
As informações foram coletadas por entrevistadores treinados e supervisionados diretamente do indivíduo selecionado pelo processo amostral. O inquérito ISACamp-Nutri de 2015 foi realizado em sequência, com a mesma amostra do ISACamp de 2015. O ISACamp-Nutri consiste em uma pesquisa sobre consumo alimentar e estado nutricional que inclui um R24h, um questionário sobre frequência de consumo de 20 alimentos com questões sobre autoavaliação da qualidade da dieta, percepção do peso corporal, práticas desenvolvidas para a perda de peso, entre outros tópicos. Dos 1.999 adultos entrevistados com o ISACamp de 2015, 281 não aceitaram participar do ISACamp-Nutri de 2015, o que correspondeu a 14% de perdas, e outros 49 participantes não aceitaram responder o R24h. Dos 1.669 indivíduos que forneceram dados para o R24h, 26 foram excluídos por apresentarem um valor energético total considerado implausível: inferior a 500 kcal/dia e superior a 4.000 kcal/dia25. Portanto, neste estudo, foram analisados os dados de 1.643 indivíduos.
Dados de consumo alimentar
Os dados de consumo alimentar foram obtidos através do R24h. O R24h foi conduzido por meio do método de múltiplos passos (multiple-pass method), que visa a estimular a memória do respondente e aumentar a precisão da informação, incluindo cinco etapas: lista rápida, alimentos esquecidos, hora e ocasião da refeição, detalhes de cada item e checagem final26. Nutricionistas treinados fizeram a revisão e posteriormente a quantificação dos R24h, convertendo as quantidades de alimentos e preparações que haviam sido referidas em medidas caseiras ou unidades para gramas ou mililitros. Para isto, foram utilizadas tabelas de medidas caseiras27,28, rótulos de alimentos e serviços de atendimento ao consumidor. As informações de ingestão foram inseridas na base de dados do software NDS-R (Nutrition Data System for Research, versão 2015, Universidade def Minnesota, EUA). As entrevistas foram conduzidas em diferentes dias da semana, inclusive aos sábados e domingos, ao longo de diferentes meses do ano, para detectar e incorporar a variabilidade da dieta.
Por fim, as informações dos questionários do ISACamp Nutri de 2015 foram imputados em um banco de dados desenvolvido com o programa EpiData 3.1 (EpiData Assoc., Odense, Dinamarca).
Variáveis do estudo
As médias de ingestão de cálcio (mg/dia) ajustadas por energia (kcal/dia)25 foram calculadas de acordo com as categorias das seguintes variáveis independentes:
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Demográficas e socioeconômicas: Sexo (masculino, feminino), faixa etária em anos (20-39, 40-59, e 60 anos ou mais), raça/cor da pele autodeclarada (branca, preta/parda), renda familiar mensal per capita em salários mínimos (≤ 0,5, > 0,5 e ≤ 2, > 2) e escolaridade em anos de estudo (0-3 anos, 4-8 anos, 9-11, e 12 anos ou mais).
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Índice de Massa Corporal (IMC): Calculado com informações referidas de peso e estatura. Foram utilizados os pontos de corte recomendados para adultos29 e para idosos30, sendo categorizados como baixo peso, eutrofia, sobrepeso ou obesidade.
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Estado de saúde e morbidades: Autoavaliação da saúde (excelente/muito boa, boa, regular/ruim/muito ruim); número de doenças crônicas diagnosticadas por médicos, considerando a checklist - hipertensão arterial, diabetes, angina, infarto do miocárdio, arritmia cardíaca e demais doenças do coração, câncer, reumatismo/artrite/artrose, osteoporose, asma/bronquite/enfisema, rinite/sinusite, tendinite/LER/DORT e problemas vasculares. O número de doenças crônicas foi categorizado como 0, 1-3, e 4 ou mais. O diagnóstico médico de doenças cardiovasculares e osteoporose foi analisado individualmente (não, sim).
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Estilo de vida e frequência de refeições: Atividade física em contexto de lazer, avaliada pela versão longa do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ), sendo os indivíduos categorizados como ativos (praticavam ao menos 150 minutos por semana, distribuídos, no mínimo, por três dias), insuficientemente ativos (os que não atingiam os requisitos dos ativos) e inativos (os que não praticam qualquer tipo de atividade física em contexto de lazer)31, ademais, considerou-se o tabagismo (ser ou não fumante) e a frequência semanal do consumo de álcool (nunca, 1-2 e ≥ 3 vezes), avaliada segundo o Teste para Identificação de Problemas Relacionados ao Uso de Álcool (AUDIT - Alcohol Use Disorders Identification Test), além do consumo regular (≥ 5 vezes na semana) das refeições café da manhã, almoço, jantar e lanches intermediários (agrupamento das variáveis “lanche da manhã”, “lanche da tarde” e “lanche da noite”).
Para identificar as principais fontes alimentares de cálcio, foram considerados e organizados todos os alimentos relatados no R24h que apresentavam alguma quantidade desse mineral em grupos alimentares ou apresentados isoladamente. Os 24 grupos foram organizados segundo semelhanças nutricionais e incluíram, entre outros: “leite”, “derivados do leite”, “pães”, “leguminosas”, “frutas”, “sanduíches, salgados e pizzas”, “cereais”, “bolo, pães doces e doces”, “carnes”, “vegetais” e “massas”, sendo subsequentemente calculadas as contribuições relativas (em %) de cada alimento/grupo alimentar no total de cálcio da dieta.
Análises estatísticas
Inicialmente, foi realizada uma análise exploratória por meio de medidas descritivas e gráficos utilizando o método de máxima verossimilhança, com o objetivo de selecionar a distribuição mais adequada para ajustar os dados de ingestão de cálcio. Os resultados apontaram a distribuição lognormal como adequada para modelar a ingestão de cálcio.
Em seguida, foram calculadas as médias de ingestão de cálcio ajustadas por energia (kcal/dia) por meio do método de resíduos25, segundo as categorias das variáveis independentes. As diferenças entre as médias e seus respectivos intervalos de confiança de 95% foram estimados pelo uso do Modelo de Regressão Linear Generalizado (MLG). Posteriormente, foi construído um modelo de regressão linear generalizado múltiplo em modelagem backward, inserindo todas as variáveis independentes que apresentaram valor de p < 0,20 na análise univariada, mantendo no modelo final aquelas com valor de p < 0,05 (avaliado pelo teste de Wald). O modelo final foi ajustado conforme a energia da dieta (kcal), de acordo com a recomendação de Willett et al.25. O MLG permite assumir outras distribuições para a variável dependente além da normal, proporcionando mais flexibilidade para o cálculo da relação funcional entre a média da variável resposta e o preditor linear32.
As análises estatísticas foram feitas com o comando survey do programa Stata 14.0 (Stata Corp., College Station, Estados Unidos), que permite considerar o delineamento e os pesos de amostragem do estudo, além dos pesos de pós-estratificação.
Os inquéritos aqui utilizados (ISACamp e ISACamp-Nutri) foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas e o presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNICAMP, sob o parecer nº 4.629.740.
RESULTADOS
Na população aqui estudada, 45,1% apresentava idade entre 20-39 anos, 54,0% era composta por mulheres, 68,0% por brancos, aproximadamente 32,0% por pessoas com níveis mais elevados de escolaridade (12 anos ou mais) e 56,6% por indivíduos com renda familiar mensal per capita entre 0,5 e 2 salários mínimos (Tabela 1). A média de ingestão diária de cálcio da população foi de 542,5 mg (IC95%: 517,4-567,6) e a prevalência de inadequação foi de 81,8% (IC95%: 78,7-84,5%).
Médias (mg/dia) de ingestão diária de cálcio entre indivíduos de 20 anos ou mais, segundo as características demográficas e socioeconômicas (ISACamp-Nutri, 2015)
A média de ingestão diária de cálcio foi significativamente menor no sexo masculino, nos indivíduos que se autodeclararam pardos ou pretos, e naqueles que apresentavam menores níveis tanto de escolaridade (< 12 anos de estudo) quanto de renda (< 2 salários mínimos) (Tabela 1).
Em relação ao estado de saúde e morbidades, a ingestão de cálcio foi significativamente menor em indivíduos com sobrepeso ou obesidade (Tabela 2). Complementarmente, a ingestão média de cálcio se mostrou menor nos indivíduos que não praticavam atividade física no lazer, nos fumantes e ex-fumantes, naqueles que ingeriam bebida alcoólica 3 vezes ou mais na semana e em indivíduos que consumiam café da manhã e lanches intermediários com menos frequência (< 5 vezes na semana) e o jantar com mais frequência (≥ 5 vezes na semana) (Tabela 3).
Médias (mg/dia) de ingestão diária de cálcio entre indivíduos de 20 anos ou mais, segundo o estado de saúde e morbidades (ISACamp-Nutri, 2015)
Médias (mg/dia) de ingestão diária de cálcio entre indivíduos com 20 anos ou mais, segundo o estilo de vida e frequência de refeições (ISACamp-Nutri, 2015)
Os resultados do modelo final de regressão linear múltipla estão apresentados na Tabela 4. Os segmentos com a menor ingestão de cálcio observada foram o sexo masculino, os autodeclarados pretos ou pardos, os que estudaram até 8 anos vs. 12 anos ou mais, os que possuíam renda familiar per capita inferior a 2 salários mínimos, os que estavam com sobrepeso ou obesidade, e os que consumiam café da manhã e lanches intermediários com menos frequência.
Modelo final da regressão linear generalizada do consumo de cálcio em indivíduos com 20 anos ou mais (ISACamp-Nutri, 2015)
Em relação à contribuição dos alimentos para a ingestão de cálcio, os grupos de leite e derivados do leite contribuíram com 26,0% e 14,6%, respectivamente, da ingestão total diária de cálcio, seguido dos grupos dos pães (10%), leguminosas (9,9%), frutas (6,6%), sanduíches, salgados e pizzas (6,1%), cereais (5,2%), bolos, pães e doces (5,2%), carnes (4,6%) e vegetais (4,1%). Os demais grupos contribuíram cada um com menos de 1% (dados não apresentados em tabela).
DISCUSSÃO
Os resultados do presente estudo revelam que a ingestão de cálcio da população estudada foi baixa, sendo significativamente menor nos homens, nos indivíduos de cor da pele autodeclarada como preta e parda, naqueles com baixas escolaridade e renda per capita, naqueles com sobrepeso/obesidade e nos indivíduos que consumiam o café da manhã e os lanches intermediários menos frequentemente durante a semana.
A média diária de ingestão de cálcio da população foi de 542,5 mg, bem inferior aos valores recomendados pela Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos (IOM - Institute of Medicine), que estabelece 1.000 mg/dia para adultos e 1.200 mg/dia para idosos33. Uma revisão sistemática avaliando a ingestão global de cálcio revelou uma grande diversidade entre os países34, indicando que países com uma ingestão muito baixa de cálcio (inferior a 400 mg/dia) tendem a estar localizados na região Ásia-Pacífico, enquanto aqueles com uma ingestão entre 400 e 600 mg/dia estão, na sua maioria, localizados na América do Sul, espalhados por todo Extremo Oriente ou no Norte da África.
Países como os Estados Unidos, México e Austrália apresentam um consumo de cálcio entre 800 e 1.000 mg por dia, ao passo que a Alemanha e a Finlândia atingem valores superiores a 1.000 mg/dia34. No Brasil, segundo a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017-2018), a média de ingestão de cálcio da população brasileira foi inferior a 500 mg14. As grandes diferenças observadas entre regiões e países quanto às médias de ingestão de cálcio podem decorrer de diversidades culturais, alimentares e econômicas35. No presente artigo, a média de ingestão diária de cálcio não atingiu o nível recomendado nem nos grupos de melhor posição socioeconômica.
Estudos realizados no Brasil18,20 e em outros países35-37 têm indicado uma menor ingestão de cálcio entre indivíduos do sexo feminino, não obstante, no presente estudo, a ingestão de cálcio ajustada por energia se mostrou maior no sexo feminino do que no masculino, assim como observado em estudos realizados na Tunísia38, Áustria, Portugal, Polônia e República Checa34. Portanto, as disparidades entre os países quanto à associação da ingestão de cálcio e o sexo do indivíduo ainda precisam ser mais bem estudadas e entendidas34.
A ingestão de cálcio foi significativamente menor em indivíduos de cor da pele autodeclarada como preta e parda, quando comparada aos indivíduos brancos. No Brasil, estudos que avaliaram a relação entre consumo de cálcio e cor da pele são escassos, tendo sido possível encontrar apenas um estudo de base populacional realizado no município de São Paulo - SP, no qual não foi realizado um ajuste por nível socioeconômico18, estudo este que também constatou uma menor ingestão de cálcio entre indivíduos negros. Um resultado similar foi igualmente encontrado em estudos realizados na população norte-americana39,40. Isto porque indivíduos de cor de pele parda e preta são mais sujeitos à insegurança alimentar por fazerem parte, com maior frequência, dos estratos de menor nível socioeconômico41 e, desta forma, estarem mais propensos a não cumprir as diretrizes dietéticas recomendadas42.
No presente estudo, entretanto, mesmo depois de ajustada pelo nível de escolaridade e de renda, a média de ingestão foi menor na população negra. Além da questão econômica, um estudo realizado por Bovell-Benjamin et al.43 mostrou que indivíduos afrodescendentes possuem escolhas alimentares diferentes dos brancos, sendo o consumo de produtos lácteos menor entre afrodescendentes43. Tal escolha alimentar com menos ingestão de cálcio poderia decorrer da prevalência de lactase não persistente, que é mais elevada entre as populações afrodescendentes (20%) em comparação com a população branca (8%), o que poderia levar a um menor consumo de leite e seus derivados44.
Além disso, a ingestão de cálcio foi menor na população com níveis de escolaridade inferiores, achado similar ao reportado na maioria dos estudos18,20,35 pertinentes ao tema aqui pesquisado A literatura sugere que indivíduos com um maior nível de escolaridade usualmente apresentam padrões melhores de consumo e de práticas alimentares45, bem como um consumo maior de leite e seus derivados46, que são os grupos alimentares que constituem a principal fonte de cálcio. O baixo consumo de cálcio pela população de menor renda também foi constatado em outras pesquisas conduzidas com populações americana40, mexicana47, chinesa35 e costa-riquenha45 e em um estudo realizado no município de São Paulo18.
Micronutrientes, como o cálcio, estão presentes em maior quantidade em alimentos como laticínios, cereais integrais, frutas, verduras, sementes ou oleaginosas, e muitos desses produtos são de custo mais elevado, estando menos acessíveis aos indivíduos de baixa renda46. De fato, o INA 2017-201814 detectou uma maior ingestão de leite e seus derivados no segmento populacional de maior nível socioeconômico no Brasil, determinando que 10,6% das despesas familiares com a alimentação é destinada à compra de leite e seus derivados13.
Apesar da baixa ingestão de cálcio ter sido identificada neste estudo entre adultos com sobrepeso ou obesidade, resultado condizente com os achados de estudos realizados em outros países9,40,48,49, no Brasil, tal associação ainda é controversa. De quatro estudos brasileiros que analisaram a associação entre excesso de peso e ingestão de cálcio18-21, apenas um encontrou uma correlação significativa, observando um consumo menor de cálcio entre indivíduos com valores maiores de IMC19.
A literatura traz evidências de que o cálcio dietético apresenta efeitos de antiobesidade ao atuar por meio de diferentes mecanismos fisiológicos, como: aumento do gasto energético e termogênese; aumento da oxidação da gordura corporal; aumento da lipólise; redução da absorção de gordura; e diminuição do apetite50. Zemel et al.51 argumentam que a ingestão adequada de cálcio diminui a concentração tanto do hormônio paratireóideo quanto da 1,25-di-hidroxi vitamina D no sangue, causando o aumento da lipólise51. Diante de tais achados, indivíduos com excesso de peso precisam ser melhor orientandos sobre a importância de consumir alimentos ricos em cálcio para o controle de peso corporal e a manutenção da saúde.
Os resultados do presente estudo indicam que a ingestão de cálcio foi menor entre os indivíduos que consomem o café da manhã e os lanches intermediários com uma frequência inferior a cinco dias por semana. Estudos realizados no Equador52, Irlanda53, Canadá54 e no município de São Paulo22 também encontraram uma menor ingestão de cálcio entre os indivíduos que não consumiam regularmente o café da manhã22. Porém, apenas um estudo, realizado nos Estados Unidos, que analisou o papel dos lanches intermediários e a ingestão de cálcio, foi capaz de demonstrar um consumo maior deste mineral entre indivíduos que realizavam lanches intermediários55.
Estudos indicam que o consumo de leite e seus derivados costuma ser maior no café da manhã e nos lanches intermediários56,57. O Guia Alimentar para a população brasileira não especifica a quantidade de alimentos ou nutrientes recomendados para o café da manhã e lanches, porém, traz exemplos de refeições de qualidade segundo os hábitos da população brasileira, incentivando o consumo de alimentos in natura ou minimamente processados como frutas, café, leite e preparações culinárias baseadas em cereais ou tubérculos58.
Sabe-se que os produtos lácteos são os alimentos que mais contribuem para atingir a ingestão adequada de cálcio1. No presente estudo, o leite e seus derivados contribuíram para 40,6% da ingestão diária de cálcio, valor que é inferior ao observado por Olza et al.36 na população espanhola (53,0%) e por Salas et al.59 na população costa-riquenha (84,9%), sendo superior ao encontrado por Huang et al.35 na população chinesa (6,7%). Um estudo que avaliou a contribuição dos alimentos para a ingestão de cálcio na população brasileira20 registrou uma contribuição nutricional dos produtos lácteos um pouco superior (45,0%) à encontrada na presente pesquisa. Estudos que avaliaram a contribuição dos produtos lácteos na ingestão de cálcio demonstram que o consumo de até 3 porções por dia de leite e/ou seus derivados (1 porção de leite = 240 ml) seriam suficientes para atingir a necessidade diária desse mineral35,44.
Por fim, a análise dos dados do presente estudo precisa considerar algumas de suas limitações: todas as informações coletadas foram baseadas em relatos dos entrevistados, estando, portanto, sujeitas ao viés de informação; e a aplicação de um único recordatório de 24 horas não representa o consumo habitual de um indivíduo. No entanto, se aplicado em diferentes dias da semana e meses do ano em uma amostra representativa da população, é possível utilizar o R24h para estimar uma média de ingestão para a população avaliada60.
A relevância do presente estudo consiste em avaliar os fatores associados à ingestão de cálcio em indivíduos de 20 anos ou mais, não apenas segundo variáveis sociodemográficas, como também segundo variáveis relacionadas ao estado de saúde, estilo de vida e frequência de refeições, fatores pouco analisados e discutidos na literatura, além de identificar os grupos alimentares que mais contribuem para a ingestão de cálcio. Outra força deste estudo consiste em ter sido desenvolvido com uma amostra de 1.643 respondentes do questionário R24h, representando a população de um dos maiores municípios do estado de São Paulo.
Os achados do presente estudo evidenciam que a ingestão de cálcio pela população aqui estudada se encontra muito abaixo do recomendado, neste contexto, pesquisas têm mostrado que um consumo inadequado deste mineral está associado a um risco maior de desenvolvimento de inúmeras doenças crônicas como neoplasias2-5, osteoporose6,7, sobrepeso/obesidade8-9 e doenças cardiovasculares10,11, enfermidades estas que representam uma carga importante para os sistemas de saúde. Ademais, a ingestão deste nutriente foi ainda mais baixa nos indivíduos de menor renda e escolaridade entre os quais, notoriamente, a situação de insegurança alimentar tende a levar a uma alimentação de baixa qualidade61.
Em outras palavras, a baixa ingestão deste mineral pode ser explicada pelo baixo consumo de leite e seus derivados, que são os alimentos que constituem as principais fontes de cálcio. Sabe-se que o preço dos alimentos é um dos determinantes das escolhas alimentares, principalmente para a população de menor nível socioeconômico62 e, como mencionado anteriormente, as dietas que atingem os níveis recomendados de cálcio são mais caras16.
Além disso, o atual modelo de produção incentiva as grandes indústrias de produtos ultraprocessados, tornando os alimentos de pior qualidade nutricional mais baratos e acessíveis63,64. Outro aspecto que afeta o consumo de leite e seus derivados é a preocupação com o risco de doenças crônicas provocadas pela gordura saturada presente nesses alimentos62. Entretanto, estudos recentes mostram que não existem evidências de que a gordura saturada presente em tais produtos sejam fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares65.
Portanto, diante dos achados do presente estudo e frente aos fatores que tem provocado a redução do consumo de leite e seus derivados, recomenda-se a implementação de políticas públicas que visem ampliar o acesso da população socialmente mais vulnerável aos alimentos de melhor qualidade nutricional, entre eles os que são fontes de cálcio. Adicionalmente, sugere-se a realização de intervenções que estimulem o consumo de alimentos ricos em cálcio, em especial o leite e seus derivados, principalmente nos segmentos populacionais de menor ingestão como os pretos/pardos, bem como indivíduos com sobrepeso e obesidade, sempre lembrando a importância da prática de ingestão de um café da manhã e lanches intermediários balanceados. Outra estratégia que tem sido adotada em alguns países é a fortificação de alimentos com cálcio como uma opção complementar para atingir as quantidades recomendadas66,67.
CONCLUSÃO
Os resultados do presente estudo indicam uma baixa ingestão de cálcio pela população estudada, sendo significativamente inferior em homens, em indivíduos de menor nível socioeconômico, na população negra, em indivíduos com excesso de peso, e indivíduos com práticas alimentares que incluem uma frequência menor de café da manhã e lanches intermediários. Ademais, foi demonstrado que o grupo “leite e seus derivados” teve a maior contribuição na ingestão de cálcio, apesar de em quantidade inferior à observada em outros países. Portanto, a implementação de políticas de redução dos preços de alimentos com reconhecido valor nutricional para famílias de baixo nível socioeconômico, intervenções educacionais e orientação nutricional são essenciais para promover a melhoria do padrão alimentar da população, o que inclui o aumento da ingestão de cálcio.
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Como citar: Luz R, Barros MBA, Assumpção D, Fontanelli MM, Barros Filho AA. Fatores associados à ingestão de cálcio em adultos e idosos de um município do sudeste brasileiro. Cad Saúde Colet, 2024;32(4):e32040459. https://doi.org/10.1590/1414-462X202432040459
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Fonte de financiamento: Esta pesquisa foi apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo Ministério da Saúde do Brasil através da Secretaria de Saúde de Campinas, SP. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e o Ministério da Saúde do Brasil não tiveram nenhum papel no desenho, análise ou redação do artigo. Luz R foi apoiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Barros MBA pela bolsa de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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