Resumo
Introdução A população idosa vem aumentando no Brasil devido ao aumento da expectativa de vida e à diminuição da taxa de fecundidade.
Objetivo Analisar a qualidade de vida (QV) e a associação com fatores demográficos, socioeconômicos, comportamentais, relacionados ao estado de saúde e autopercepção de saúde entre idosos da área de abrangência de uma Unidade de Saúde de Colombo/PR.
Método A QV foi investigada por meio da Escala de Autorrelato da QV (CASP-16). A associação entre o desfecho e as variáveis foi testada empregando modelos de equações de estimativas generalizadas, com cálculo de coeficientes (betas) e intervalos de confiança de 95% (IC95%).
Resultados Participaram do estudo 198 idosos, 54% do sexo feminino, idade entre 65 e 90 anos. O escore médio de QV foi de 31,9 (IC95% 30,7; 33,1). Após análises ajustadas, a QV foi maior entre idosos: viúvos (3,68; IC95% 1,16;6,21), que referiram praticar atividade física (3,48; IC95% 1,51;5,46); por outro lado, foi menor entre os não participantes de atividades externas (-3,76; IC95% -5,82;-1,70), que relataram dificuldade em realizar atividades básicas da vida diária (-7,45; IC95% -10,64;-4,25), e com autoavaliação ruim da saúde (-4,32; IC95% -7,48;-1,15).
Conclusão As características ligadas ao envelhecimento ativo foram determinantes da QV entre os idosos avaliados.
Palavras-chave:
qualidade de vida; idosos; saúde da família; estudos transversais
ABSTRACT
Background The elderly population has been increasing in Brazil due to the increase in life expectancy and the decrease in the fertility rate.
Objective To analyze QoL and to associate demographic, socioeconomic and behavioral factors related to health status and self-perceived health among elderly people in the coverage area of a Health Unit in Colombo/PR, Brazil.
Method QoL was investigated through CASP-16 through a semi-structured questionnaire. The association between QoL and variables was tested using generalized estimation equation models (significance level of 5%).
Results 198 elderly participated in the study, 54% female, between 65 and 90 years. The mean QoL score was 31.9 (95% CI 30.7; 33.1). After adjusted analyses, the QoL score was higher among the elderly: widowed (3.68 95% CI 1.16; 6.21) and who reported practicing physical activity (3.48 (95% CI 1.51; 5.46); on the other hand, lower for non-participants in external activities (-3.76; 95% CI -5.82; -1.70), with difficulty in performing basic activities of daily living (-7.45; 95% CI -10,64; -4.25), and with negative self-rated health (-4.32; 95% CI -7.48; -1.15).
Conclusion Characteristics related to active aging were determinants of QoL among the elderly evaluated.
Keywords:
quality of life; elderly; family health; cross-sectional studies
INTRODUÇÃO
A proporção da população idosa vem aumentando no Brasil devido ao incremento da expectativa de vida e à diminuição da taxa de fecundidade. No Brasil, a proporção de idosos de 60 anos ou mais era de 9,8% em 2005 e 14,3% em 2015. Estima-se que em 2028 serão 38,5 milhões de idosos no país1.
Os avanços na área da saúde e melhoria das condições de vida também estão relacionados à maior expectativa de vida. A velhice é uma etapa da vida, parte integrante de um ciclo natural, contudo, condições de vulnerabilidade devido aos riscos sociais, biológicos e psicológicos são comumente vivenciadas pelos idosos2 e podem impactar em sua QV (qualidade de vida)1.
A QV inclui um largo espectro de áreas da vida. Os modelos de QV no envelhecimento vão desde a “satisfação com a vida” ou “bem-estar social”, àqueles baseados em conceitos de independência, controle, competências sociais e cognitivas. Na última década, incorporou aspectos como sentido de segurança, dignidade pessoal, oportunidades de atingir objetivos pessoais, satisfação com a vida, alegria e sentido positivo de si2.
Diferentes instrumentos foram criados para mensurar QV nas últimas décadas. Na população idosa, os instrumentos mais empregados são o World Health Organization Quality of Life for Older Persons (WHOQOL-OLD) e o Formulário Abreviado da Avaliação de Saúde 36 (SF-36)3,4. O CASP-19 é o acrônimo que denomina uma escala com 19 itens destinado à avaliação de QV percebida em pessoas com 55 anos ou mais5. O instrumento está relacionado aos construtos psicológicos: 1) controle, definido como a capacidade de intervir ativamente no ambiente; 2) autonomia, como o direito de um indivíduo de ser livre de interferências indesejáveis por parte de outrem; 3) autorrealização; e 4) prazer, como manifestações de agência e atividade, fundamentais à livre participação do indivíduo na vida social.
Estudos têm associado diferentes fatores à QV entre idosos. Fatores como a presença de depressão, doença limitante, desemprego e número reduzidos de amigos impactam negativamente na QV6. As mulheres apresentam pior QV do que os homens7,8. Além disso, piores escores de QV são observados entre os idosos mais velhos, que usam maior número de medicamentos e com menor grau de autonomia9.
A vulnerabilidade social dos idosos no Brasil é um fator que pode contribuir para pior QV. Alguns estudos8,9 têm revelado que a maioria dos idosos brasileiros ainda possui renda igual ou inferior a um salário mínimo e tem aproximadamente um quarto da renda comprometida com medicamentos. As condições de saúde da população idosa também podem ser determinadas pelos perfis de morbidade e de mortalidade, presença de déficits físicos e cognitivos e frequência na utilização de serviços de saúde. A investigação da capacidade funcional é um dos grandes marcadores da saúde do idoso e vem emergindo como componente-chave para a avaliação da saúde dessa população e a QV10.
Um estudo com a população idosa de um município de Minas Gerais11 concluiu que o conceito de envelhecimento saudável engloba: boa percepção de saúde, independência para praticar atividades da vida diária, ausência de déficit cognitivo, estilo e hábitos de vida saudáveis (não fumar nem beber e consumir poucos medicamentos), boa mobilidade e ausência de morbidades. A QV também foi relacionada ao estado nutricional do idoso, sendo que aqueles eutróficos e em sobrepeso indicaram melhor QV do que os obesos e desnutridos12.
Avaliar a QV dos idosos é de grande valia porque permite a intervenção tanto em programas geriátricos, quanto em políticas públicas, a fim de promover o bem-estar dessas pessoas, especialmente na atenção básica6. No Brasil, a Estratégia Saúde da Família (ESF) foi planejada para reorientar a atenção à saúde da população, fomentando a QV, por exemplo, mediante a promoção do envelhecimento saudável13. Tendo em vista a importância do conceito de QV, com o propósito de orientar as políticas para um envelhecimento bem-sucedido, parece imprescindível conhecer o que, para a maioria dos idosos, está relacionado ao bem-estar, à felicidade, à realização pessoal e à saúde nessa faixa etária14.
Apesar do número crescente de estudos sobre QV, ainda é necessário a exploração sobre o tema, sobretudo com utilização de instrumentos como o CASP-1915, capazes de avaliar os aspectos quali e quantitativos da vida idosa, e auxiliar na programação das ações de saúde para este grupo.
Dessa forma, o objetivo do presente trabalho foi analisar a QV e a associação com fatores socioeconômicos, demográficos, comportamentais, relacionados ao estado de saúde e autopercepção de saúde entre idosos da área de abrangência de uma Unidade de Saúde de Colombo/PR.
METODOLOGIA
Tratou-se de um estudo transversal, com população constituída por idosos listados à área de abrangência de uma unidade de saúde (US). A coleta de dados ocorreu no período de fevereiro até novembro de 2017.
A US Moinho Velho localiza-se no bairro Roça Grande, município de Colombo/PR, pertencente à Região Metropolitana de Curitiba. Colombo possuía em 2017 uma população estimada de 237.402 habitantes (sendo 9.728 idosos), um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,733 e uma esperança de vida ao nascer de 77 anos15. A US foi inaugurada em outubro de 2015 e, em outubro de 2017, estimou-se que atendia cerca de 23 mil habitantes da região, distribuídos em quatro áreas de abrangências, segundo dados fornecidos pela Secretaria de Saúde de Colombo16.
A coordenação da US informou em outubro de 2016 que 300 idosos frequentavam o local para realização de consultas com profissionais de saúde, participação de grupos e dispensação de medicamentos.
Para cálculo do tamanho da amostra, considerou-se o número de idosos com cadastro ativo na Unidade de Saúde (n=300), e os seguintes parâmetros: prevalência de 50% do desfecho, margem de erro de 5 pontos percentuais, nível de confiança de 95%, totalizando amostra mínima de 169 idosos. Para considerar perdas e recusas, o percentual de 20% foi acrescentado, resultando em amostra de 201 idosos a serem convidados para participar da pesquisa. Os cálculos foram realizados no programa OpenEpi versão 3.01 de acesso livre.
A listagem de idosos foi identificada e eles foram convidados a participar da pesquisa nas idas à US para retirada de medicamentos, participação de grupos e consultas. Foram encaminhados convites por meio dos Agentes Comunitários de Saúde. Idosos acamados ou com dificuldades de locomoção foram avaliados em domicílio. Adicionalmente, a equipe de pesquisa realizou busca ativa de idosos da área de abrangência da US, no Centro de Convivência localizado nas proximidades da US.
Como critérios de inclusão, foram adotados: idosos inseridos na área de abrangência da Unidade de Saúde Moinho Velho e moradores do município de Colombo. Os idosos com déficit cognitivo tiveram os questionários respondidos pelo cuidador principal (proxy).
Foi aplicado questionário ao idoso ou ao cuidador incluindo variáveis: 1) demográficas: sexo (feminino, masculino), idade (jovem idoso – 65 a 74 anos, idoso – 75 a 84 anos, muito idoso – acima de 85 anos), estado civil (com companheiro, solteiro, viúvo), se mora ou não sozinho e cor da pele (brancos e amarelos/negros, pardos, indígenas); 2) socioeconômicas: morar sozinho (não, sim), remuneração própria (sim, não), escolaridade (sem estudo, 1 a 8 anos de estudo, mais que 9 anos de estudo); 3) comportamentais: se faz uso de cigarro (não, sim) e bebidas alcoólicas (não, sim), participação em atividades físicas (não, sim) e/ou atividades externas (não, sim), sendo estas atividades Igreja, Centro de Convivências, caminhadas, academias e outras atividades; 4) estado de saúde: cuidador (não, sim), Índice de Massa Corpórea (magreza, eutrofia, excesso de peso), presença de uma ou mais doenças crônicas autorreferidas (multimorbidade) (não, sim), dificuldade para realização das atividades básicas da vida diária, e atividades instrumentais da vida diária (ABVD e AIVD – classificadas em nenhuma ou pouca dificuldade, muita dificuldade ou não realiza); e 5) autopercepção de saúde [autoavaliação de saúde (ótima/boa, regular, ruim/péssima)].
As questões sociodemográficas e de acesso à US foram baseadas no material do Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ)17. Descritivamente, os idosos foram classificados em relação à sua procedência em municípios constantes ou não da Região Metropolitana de Curitiba (RMC).
A QV foi investigada por meio da Escala de Autorrelato da Qualidade de Vida (CASP-19). Os quatro domínios estão distribuídos em 19 itens: controle (4 itens), autonomia (5 itens), realização pessoal (5 itens) e prazer (5 itens). Na sua versão para a língua portuguesa do Brasil, o instrumento foi traduzido, retraduzido e submetido à análise de equivalência por um comitê de juízes (adaptação transcultural). Os domínios de controle e prazer exibiram boa consistência interna, e ao remover três itens dos domínios, autonomia e realização pessoal, a consistência interna foi melhorada, o que resultou em 16 itens (CASP-16 Brasil)18. Dessa forma, para as análises foi empregada a versão com 16 questões, CASP-16.
Para a avaliação da capacidade funcional do idoso, foi utilizada a dimensão relacionada ao desempenho nas ABVD e AIVD proveniente do Older Americans Resources and Service (OARS) Multidimensional Functional Assessment Questionnaire (OMFAQ), questionário multidimensional concebido nos Estados Unidos, traduzido e adaptado para o português BOMFAQ (Brazilian version of BOMFAQ)19. A partir do número de atividades nas quais os idosos apresentavam muita dificuldade ou declararam não conseguir realizar a atividade, os instrumentos foram classificados em três categorias: nenhuma atividade; 1-3 atividades; e 4-8 atividades.
A presença de doença crônica foi autorreferida pelo idoso ou cuidador a partir do diagnóstico médico ou de profissional da saúde, com base na listagem empregada na Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD) de 201316: hipertensão, diabetes, câncer, doença de coluna, artrite ou reumatismo, bronquite ou asma, doença cardíaca, doença renal crônica, depressão, tuberculose, tendinite e/ou cirrose. A multimorbidade foi definida com presença de duas ou mais das doenças crônicas listadas20.
Medidas antropométricas de peso e altura foram referidas pelos respondentes, além de ser questionado sobre perda de peso nos últimos seis meses. Os resultados foram classificados conforme o Índice de Massa Corporal (IMC), segundo os pontos de corte de Nutrition Screening Initiative (NSI)21. O IMC é a relação entre o peso e altura, sendo calculado por peso/altura ao quadrado. Os indivíduos foram classificados como baixo peso o IMC < 22kg/m2; eutrofia, IMC entre 22kg/m2 e 27kg/m2; e sobrepeso IMC > 27kg/m2.
Para descrever as variáveis contínuas foram empregadas médias, desvios-padrão, valores mínimo, mediano e máximo. Para variáveis categóricas foram calculadas as frequências absolutas (n) e relativas (%). A associação entre os escores de qualidade de vida e as variáveis foi testada empregando modelos de equações de estimativas generalizadas (gee), considerando família normal, função identidade e correlação permutável, que permitiram incorporar o nível do domicílio nas análises (alguns idosos avaliados residiam em um mesmo domicílio). Foram estimados coeficientes da regressão (betas) e intervalos de confiança de 95% (IC95%). As estimativas de percentuais e IC95% foram corrigidas usando o comando survey no Stata, considerando o nível domiciliar.
O modelo hierárquico foi empregado para análise ajustada dos dados. Inicialmente, foram introduzidas as variáveis demográficas, seguidas das socioeconômicas, comportamentais, de estado de saúde e autopercepção de saúde (Figura 1). O critério para introdução das variáveis no modelo ajustado foi o nível de significância de 0,25, ou ao menos uma variável para cada bloco de variáveis. O nível de significância de 5% foi considerado nas análises. As análises foram realizadas no programa Stata 12 (StataCorp, Texas, EUA).
Modelo teórico conceitual da associação das variáveis investigadas e qualidade de vida em idosos em uma Unidade de Saúde de Colombo/PR, 2017
A coleta de dados foi iniciada após aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Paraná, no dia 22 de dezembro de 2016. As condutas éticas indicadas na resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde foram seguidas em todas as etapas da pesquisa.
RESULTADOS
No fim da coleta houve 26 recusas, sendo 16 homens e 10 mulheres, 2 óbitos e um total de 198 idosos entrevistados. Questionários respondidos por cuidador proxy corresponderam a 9,3% (n=17), e os acamados entrevistados em domicílio totalizaram 6,1% (n=12). Considerando as perdas por falta de preenchimento em variáveis que permaneceram no modelo final, restaram 191 idosos distribuídos em 143 domicílios.
Verificou-se que 54,0% eram mulheres, 50,5% provenientes da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), 77,3% com idade entre 65 e 75 anos, 19,2% não estudaram em escola. Dois terços dos idosos (67,2%) referiram duas ou mais doenças crônicas (multimorbidade). As mais citadas foram: hipertensão (46,5%), diabetes (35,9%) e doenças de coluna (28,8%); 56,9% estavam em eutrofia e 32,3% com excesso de peso (Tabela 1).
Análise descritiva e da média do escore de qualidade de vida segundo características demográficas, socioeconômicas, comportamentais, estado de saúde e autopercepção de saúde dos idosos de Colombo/PR 2017
A média do escore de QV dos idosos foi de 31,9 (IC95% 30,7; 33,1) pontos. A Figura 2, mostra os escores de QV das pessoas idosas entrevistadas segundo os quatro domínios de QV do CASP-16. Os escores médios observados para os domínios “controle”, “autonomia”, “prazer” e “realização pessoal” foram de 7,4; 8,7; 7,3 e 8,4 de um máximo possível de 12; 15; 9 e 12 pontos, respectivamente. Em números relativos, os domínios “prazer” e “realização pessoal” obtiveram as melhores pontuações (81,0% e 70,0% do escore máximo), enquanto “autonomia” e “controle” obtiveram as piores pontuações (58,0% e 61,7% do máximo).
Distribuição média com IC95% das respostas dos idosos entre os quatro domínios da qualidade de vida Colombo/PR, 2017
Idosos que não tinham baixo peso e que referiram praticar atividade física apresentaram maiores escores de QV. Por outro lado, apresentaram piores escores de QV: idosos entre 76 e 84 anos de idade, com cor de pele negra, parda, indígena ou ignorada, com presença de cuidador, que não praticavam atividade física, com perda grave de peso, que não realizavam atividades externas, que apresentavam dificuldade de realizar ou não realizavam mais de quatro ABVD, ou dificuldades de realizar quatro ou mais AIVD, e com autoavaliação regular ou ruim da própria saúde (Tabela 2).
Análise bruta da qualidade de vida segundo variáveis demográficas, socioeconômicas, comportamentais, estado de saúde e autopercepção de saúde (N= 191) dos idosos em Colombo, 2017
Na análise ajustada observaram-se maiores escores para QV entre idosos: viúvos (coeficiente 3,68 IC95% 1,16; 6,21) e que referiram prática de atividade física no lazer (3,48 IC95% 1,51; 5,46); e menores escores de QV entre os idosos de cor branca/amarela (coeficiente -2,35 IC95% -4,45; -0,15), não participantes de atividades externas (-2,58 IC95% -5,82; -0,67), que referiram dificuldade em realizar ABVD (-2,38 IC95% -4,48; -0,27), e autoavaliação de saúde ruim (-4,48 IC95% -8,23; -3,22) (Tabela 3).
Análise ajustada da qualidade de vida segundo variáveis demográficas, socioeconômicas, comportamentais, estado de saúde e autopercepção de saúde (N= 191) dos idosos em Colombo, 2017
DISCUSSÃO
No presente estudo, foi possível observar maiores escores de QV entre os idosos viúvos, e que referiram a prática de atividade física no lazer. Por outro lado, ser de cor branca/amarela, não participar de atividades externas, ter dificuldade em realizar ABVD e autoavaliação de saúde ruim foram associados a menores escores de qualidade de vida.
Em um estudo longitudinal, de base populacional e domiciliar, denominado EpiFloripa Idoso, com residentes na área urbana de Florianópolis (SC), de idade igual ou superior a 60 anos selecionados aleatoriamente, em domicílios, foram obtidos valores superiores do escore de QV (37,6), usando o mesmo instrumento CASP-1622, do que aquele identificado entre os idosos da US de Colombo (31,9 IC95% 30,7; 33,1). A diferença entre os escores pode estar relacionada às condições de vida nos municípios e o perfil dos idosos. Florianópolis possui o terceiro melhor IDH entre os municípios brasileiros (0,847), em comparação com o de Colombo (0,733), classificado em 940º no ranking nacional16. Além disso, a proporção de idosos sem estudo foi mais que o dobro em Colombo (19,2%), quando comparada com Florianópolis (7,1%)22.
A comparabilidade com outros estudos pode estar limitada pelas modificações realizadas na versão brasileira do instrumento (CASP-16 Brasil). Entre idosos do English Longitudinal Study of Aging (estudo ELSA)23, com 11.234 pessoas maiores de 50 anos e representativo da Inglaterra, a média do escore de QV, avaliado pelo CASP-19, foi de 42,5 (IC95% 42,3;42,7), considerando que o escore poderia variar de 0 a 57. No CASP-16, o maior escore possível é de 48 pontos.
Os domínios “prazer” e “realização pessoal” foram aqueles mais bem avaliados pelos idosos participantes. Da mesma forma, com idosos de cidades paulistas24, os dois domínios apresentaram elevadas pontuações. Esta associação também se faz presente em outros estudos25,26 em que altos níveis de satisfação com a vida, ausência de depressão e baixa sobrecarga no papel familiar estão diretamente associadas a uma maior QV24.
De acordo com as variáveis demográficas, no presente estudo, observou-se que, mesmo após ajustes, os idosos viúvos apresentaram melhor QV. Entre os idosos que vivem com companheiro, o papel da família pode ser relevante, pois costuma ser a principal atuante nos momentos de adoecimento e necessidade do idoso. Por outro lado, pode ser considerada uma situação estressante para os envolvidos, que podem proporcionar a sensação de dependência, redução da autoestima e pior QV do idoso26. Além disso, é comum que os idosos com companheiros sejam responsáveis pelos cuidados do cônjuge, representando em muitos casos os principais cuidadores27, o que gera mudanças na saúde e QV pela sobrecarga tanto física quanto emocional advindas do cuidar do outro. O cuidar da pessoa idosa normalmente é estressante e pode gerar problemas emocionais, físicos, interpessoais e ocupacionais28.
Entre os idosos avaliados, não foram encontradas diferenças no escore de QV entre homens e mulheres, resultado diferente daquele observado em outros estudos com idosos29,30. Pesquisa realizada em Foz do Iguaçu (PR) com 192 idosos observou que aqueles do sexo masculino apresentaram melhores escores de QV do que as idosas29; em outro estudo31, os autores observaram que, embora os homens tenham apresentado melhores escores de QV, também revelaram a maior prevalência de comportamentos considerados prejudiciais à saúde, como tabagismo, alcoolismo e má alimentação, podendo impactar na interação social e comprometer a QV dos idosos ao longo do tempo.
Entretanto, a renda também não foi associada com a QV entre os idosos avaliados, confirmando achados anteriores30 e, por outro, contrariando outros estudos32. É provável que, no caso da presente pesquisa, de corte transversal, a renda atual não seja capaz de refletir os níveis de renda alcançados ao longo da vida do idoso e o seu impacto na capacidade funcional na fase final da vida. Ainda a relativa homogeneidade socioeconômica da amostra, idosos adstritos a uma Unidade de Saúde, pode ter influenciado os resultados. No estudo de Freitas et al. (2017)33, verificou-se que os idosos que tinham renda própria apresentaram escore de QV maior do que aqueles que não recebiam. E em outro estudo com idosos34, a independência financeira, vinculada a atividades físicas e ausência de comorbidades, foi estatisticamente significativa para uma melhor QV34.
A prática de atividade física e seus benefícios sobre a saúde e QV são amplamente preconizados, independentemente da forma como a QV é avaliada. A inserção do idoso em atividades físicas resulta em maior autonomia e capacidade funcional, o que, por sua vez, pode melhorar a QV, devido ao fato também de o idoso estar vivendo em comunidade35. Por outro lado, a inatividade física regular pode antecipar e agravar uma série de declínios funcionais decorrente do envelhecimento, transformando-se em fator determinante para uma velhice mais complexa e prejudicando, assim, a QV. Por consequência, isso também contribui para a redução da sua capacidade para a realização das atividades da vida diária (AVDs)36,37, outro fator associado à QV em outras populações38-40.
A funcionalidade física, medida neste estudo pelo ABVD e AIDV, esteve associada à QV na análise não ajustada, e após ajuste para demais variáveis a ABDV permaneceu associada. Esta associação tem sido observada em diferentes estudos38,41. A capacidade funcional é um aspecto central da QV do idoso, que sofre influência do aumento da idade e do número de doenças crônicas, conforme demonstrado em outros estudos42,43.
No presente estudo, a multimorbidade esteve associada à pior QV na análise bruta e deixou de ser significativa após ajuste para variáveis demográficas e socioeconômicas. Em estudo na Unidade com Estratégia Saúde da Família no Acre, houve associação entre a presença de multimorbidade e menor escore nos domínios da qualidade de vida, em que a presença de multimorbidade decaiu em quatro pontos o escore de QV (34,7 versus 30,7)43.
Um estudo com idosos cearenses da área urbana31 mostrou que a maioria dos idosos avaliados percebeu como “boa” tanto a saúde (76,3%) quanto a QV (45,7%), valores superiores àqueles observados entre os idosos avaliados no presente estudo. A maioria dos idosos avaliou positivamente sua saúde (59,6%). A autopercepção de saúde é ligada, principalmente, à capacidade funcional44 e à ausência de doenças crônicas45.
Entre 2008 e 2009, em estudo com 1.432 idosos de Campinas46, 10,9% deles (95% IC 8,9; 13,2) avaliaram sua saúde negativamente, além de ter sido observada uma associação desta condição subjetiva com indicadores de saúde física e mental, com sentimento de felicidade e com variáveis socioeconômicas. A partir disso, pode-se inferir que a percepção da saúde é caracterizada não só por aptidão física, mas da mesma forma por um bem-estar positivo subjetivo, indicado pelo sentimento de felicidade.
O baixo peso também foi associado a um menor escore de QV entre os idosos avaliados47,48. Este achado tem sido referido em outros estudos com idosos49-51. O baixo peso está associado à maior mortalidade entre idosos50, e, por outro lado, o sobrepeso pode ser fator de proteção51. Entre idosos comunitários, a associação do baixo peso com doenças infecciosas, hospitalizações e baixa renda familiar, pode refletir perda de peso relacionada a doenças e privação social49. A utilização do CASP-16 Brasil permitiu medir QV, o que possibilitou distinguir entre QV e os fatores que a influenciam. O instrumento foi de fácil aplicação, assim como a compreensão e interpretação pelos idosos, além disso, o instrumento foca-se em benefícios e aspectos agradáveis da faixa etária, ao contrário da associação negativa que outros métodos fazem com o envelhecimento46,52.
Como limitações do estudo, ressalta-se que a seleção dos idosos não foi probabilística, contudo, os pesquisadores entraram em contato com os ACS para avaliar os idosos em domicílio que não conseguiram ser contatados anteriormente na unidade de saúde ou nos espaços de convivência.
Como as informações foram autorreferidas pelos idosos ou por seus cuidadores, estão sujeitas aos diferentes referenciais que cada um emprega ao classificar os aspectos questionados. Contudo, é importante conhecer a autopercepção do entrevistado quanto à sua QV. Deve-se considerar a limitação em comparar o escore final de QV entre os estudos, dada a diferença de estrutura do CASP, em decorrência das validações nos países. Por ser um estudo transversal, não é possível determinar se os idosos avaliaram pior sua QV em função de dificuldades em ABVD, ou se a menor QV ao longo da vida levou a maior dificuldade na realização das ABVD, por exemplo.
Os achados do presente estudo destacam melhor QV de acordo com características demográficas, socioeconômicas, estado de saúde e autopercepção da saúde. Destaca-se o crescimento da importância da QV como medida de saúde e necessidade de reflexão do papel dos serviços de saúde como agentes de planejamento e implementação de ações de promoção à saúde, para dar mais oportunidade aos idosos de melhorar sua condição de vida. Assegurar um envelhecimento com saúde é o desafio para as políticas públicas brasileiras, e os profissionais de saúde devem estar dispostos a priorizar essa condição humana, visto que as demandas aumentam a cada ano. Como o envelhecimento não é um processo homogêneo, necessidades e demandas dos idosos variam, sendo preciso fortalecer o trabalho em rede para contemplar a atenção aos idosos saudáveis e atender aqueles com diferentes graus de incapacidade ou enfermidade, inclusive nos domicílios. Assim, o adequado cuidado ao idoso demanda um sistema de saúde coordenado, com cada instância contribuindo para as ações das demais.
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Como citar:
Acacio EO, Legey ALC, Höfelmann DA. Qualidade de vida entre idosos: associação com características demográficas, comportamentais e estado de saúde. Cad Saúde Colet, 2024;32(4):e32040114. https://doi.org/10.1590/1414-462X202432040114
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Trabalho realizado na Unidade de Saúde (US) Moinho Velho no bairro Roça Grande situado no município de Colombo (PR), Brasil.
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Fonte de financiamento:
nenhuma.
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