Open-access Eventos estressores e fatores associados em estudantes ingressantes de uma universidade pública no sul do Brasila

Stressful events and associated factors in new college students at a public university in southern Brazil

Resumo

Introdução  O estresse é a sensação de desconforto ou opressão causada pela reação do indivíduo a eventos estressores, que podem ser internos ou externos, variando conforme a percepção e a capacidade de enfrentamento de cada pessoa.

Objetivo  Identificar a prevalência e os fatores associados a eventos estressores em universitários.

Métodos  Estudo transversal, com 1.842 estudantes universitários ingressantes, da cidade de Pelotas-RS. A ocorrência dos eventos estressores foi avaliada por meio de um escore. As variáveis independentes foram: sexo, identidade de gênero, orientação sexual, idade, cor da pele, situação conjugal, escolaridade materna, classe socioeconômica, situação ocupacional, local de origem, coabitação, local da moradia e consumo de tabaco, bebida alcoólica e drogas.

Resultados  A prevalência geral de eventos estressores na amostra foi alta (95,3%). Os eventos mais prevalentes foram: sentir-se muito ansioso pela sobrecarga da graduação (83,8%) e pela pressão para ter bom desempenho acadêmico (65,0%). Os fatores associados foram: (a) mulheres: ter entre 18 a 22 anos, ser homossexual/bissexual e ser proveniente de outras cidades do estado ou de outro estado/país; (b) homens: ser homossexual/bissexual, ser proveniente de outro estado/país e consumir bebida alcoólica semanalmente.

Conclusão  A elevada prevalência de eventos estressores demonstra que maior atenção deve ser direcionada à saúde mental da população universitária.

Palavras-chave:
estudos transversais; epidemiologia; estresse psicológico; acontecimentos que mudam a vida; prevalência

Abstract

Background  Stress is the feeling of discomfort or oppression caused by an individual's reaction to stressors, which can be internal or external, varying according to the person's perception and coping ability.

Objective  To evaluate the prevalence and associated factors related to the intensity of stressful events in college students.

Methods  A cross-sectional study with 1,842 new college students of Pelotas, RS. The prevalence of stressful events was evaluated using a score. Exposure variables were sex, gender identity, sexual orientation, age, skin color, marital status, maternal schooling, socioeconomic class, occupation, place of origin, cohabitation, place of residence, tobacco, alcohol, and drug use.

Results  The overall prevalence of stressful events in the sample was high (95.3%). The most prevalent stressful events were feeling very anxious about graduation overload (83,8%) and pressure to perform well (65,0%). The associated factors were: (a) women: age 18 to 22, be homosexual/bisexual, and be from other cities of the state or other state/country; (b) men: being homosexual/bisexual, coming from another state/country, and alcohol consumption at least two to three times a week.

Conclusion  The high prevalence of stressful events indicates that greater attention should be directed to the mental health of college students.

Keywords:
cross-sectional studies; epidemiology; stress, psychological; life change events; prevalence

INTRODUÇÃO

O termo estresse descreve o sentimento de opressão, desconforto ou adversidade vivenciado quando o indivíduo entra em contato com um − ou mais de um − agente capaz de proporcionar uma instabilidade no seu equilíbrio1,2, conhecido como evento de vida estressor. Os eventos estressores podem ter origem interna, decorrentes do modo como o indivíduo percebe o mundo e consegue lidar com suas emoções, ou externa, provocados por diferentes acontecimentos de vida, como dificuldade econômica, problemas de/no relacionamento e pressões institucionais (trabalho, escola)3,4. A resposta a um mesmo evento estressor pode variar de pessoa para pessoa e do momento em que ocorre, pois a percepção do estímulo pelo indivíduo, de sua avaliação sobre a situação estressante e de sua capacidade resolutiva ou de enfrentamento é que poderá gerar certa desorganização que conduz ao estresse4.

Entre as diversas situações de vida que podem ser estressoras, estão as demandas e imposições decorrentes do ingresso no ensino superior5. Universitários ingressantes estão, em sua maioria, em processo de transição da adolescência para a idade adulta, experimentando, portanto, mudanças importantes e concomitantes de vida6. Situações características dessas experiências podem se configurar como eventos estressores relevantes, influindo na capacidade de adaptação/compreensão frente às questões acadêmicas e, consequentemente, na qualidade de vida7. Os eventos estressores mais prevalentes entre universitários, em estudos internacionais, são mudança de cidade ou casa, exigências de maior autonomia e bom desempenho, e conciliação de afazeres acadêmicos com os demais8,9. No Brasil, poucos estudos investigaram a ocorrência de eventos estressores na população universitária e aqueles que o fizeram limitaram-se a estudantes de cursos específicos10-12. Os mais importantes eventos estressores reportados por essa literatura foram: falta de tempo de lazer11,13-16; problemas financeiros17,18; preocupação, ansiedade e tensão frente à sobrecarga de trabalhos acadêmicos11,12,19; falta de suporte da rede social mais próxima11,19; discriminação15; pressão para um bom desempenho acadêmico10,14,19-21; conflito na relação professor-aluno13,19; mudanças de hábitos de vida13,14; agressão física e/ou verbal no meio universitário20, e decepção com o ensino superior10,19,20. Os fatores associados à ocorrência desses eventos na população universitária foram pouco explorados por pesquisadores13-15,17-22.

No Brasil, na época em que o ingresso nas instituições de ensino superior tem aumentado o acesso e a migração de jovens de diferentes situações socioeconômicas, culturais e locais do País, a identificação de eventos estressores em universitários poderá ajudar a alertar as instituições de ensino e auxiliar na adoção de medidas a fim de prevenir a evolução para maiores complicadores à saúde desses indivíduos. Portanto, o objetivo deste estudo é identificar a prevalência e os fatores associados à ocorrência de eventos estressores em universitários.

MÉTODOS

Realizou-se um estudo transversal com os alunos ingressantes no primeiro semestre letivo de 2017 (2017-1) e matriculados no segundo semestre do mesmo ano (2017-2), com 18 ou mais anos de idade, cursando um dos 80 cursos de graduação presenciais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A coleta de dados foi conduzida no segundo semestre de 2017 por estudantes de mestrado do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia, na modalidade de consórcio, descrita detalhadamente em outra população23. O estudo buscou avaliar distintos aspectos da vida e da saúde dos universitários.

A coleta de dados foi realizada entre 6 de novembro de 2017 e 13 de julho de 2018. Todos os ingressantes de 2017-1 que estavam matriculados em 2017-2 foram continuamente procurados em disciplinas que, inicialmente, condensavam o maior número de alunos elegíveis. Posteriormente, aqueles faltantes nos momentos de aplicação do instrumento, foram procurados em diferentes dias e, se necessário, em outras disciplinas do curso por pelo menos três vezes. Os estudantes responderam ao questionário autoaplicado em sala de aula, usando tablets. O instrumento, inserido no sistema REDCap (Research Electronic Data Capture)24, permitiu o autopreenchimento e a pronta exportação dos dados.

Para avaliar a prevalência de eventos estressores, foi elaborado um questionário com base naqueles mais relevantes ao contexto universitário, conforme a literatura nacional10-12 e internacional13-22. Os eventos estressores investigados, abrangendo os últimos 12 meses anteriores à entrevista, foram: falta de tempo de lazer; problemas financeiros; preocupação, ansiedade e tensão frente à sobrecarga de trabalhos acadêmicos; falta de suporte da rede social mais próxima; discriminação; pressão para um bom desempenho acadêmico; conflito na relação professor-aluno; mudanças de hábitos de vida; agressão física e/ou verbal no meio universitário, e decepção com o ensino superior. Para cada evento, foi avaliado se, quando este ocorreu, afetou o investigado, através das seguintes opções de resposta: não aconteceu; aconteceu, mas não afetou; aconteceu e afetou pouco; aconteceu e afetou mais ou menos; aconteceu e afetou muito. Para avaliar a ocorrência de eventos estressores, foi construído um escore. O escore considerou a seguinte pontuação: 0= não aconteceu e/ou aconteceu, mas não afetou; 1= aconteceu e me afetou pouco; 2= aconteceu e me afetou mais ou menos, e 3= aconteceu e me afetou muito. Para cada evento, a pontuação variou de zero a três pontos e o escore total de zero até 30 pontos. A pontuação do escore total foi dividida em tercis, sendo o terceiro tercil, o de mais alta pontuação, indicativo de maior ocorrência de eventos estressores.

As variáveis independentes analisadas foram: sexo (masculino, feminino); identidade de gênero (homem, mulher, homem e mulher, nenhum); orientação sexual (heterossexual, homossexual/bissexual e assexual); idade (18-19 anos, 20-22 anos, >23 anos); cor da pele autorreferida (branca, preta/parda/ outra); situação conjugal [sem companheiro(a), com companheiro(a)]; escolaridade materna (analfabeta/fundamental incompleto, fundamental completo/médio incompleto, médio completo/superior incompleto, superior completo/pós-graduação incompleta/completa); classe socioeconômica, conforme Associação Brasileira de Empresas e Pesquisas25 (A/B mais ricas, C, D/E mais pobres); trabalho nos últimos 30 dias (não/sim); local de origem (Pelotas; outras cidades do Rio Grande do Sul; outro estado/país); coabitação [sozinho, pais/familiares, amigos/colegas, cônjuge/companheiro(a)/namorado(a)]; local da moradia (casa do estudante/ pensionato/ república, casa/apartamento próprio/ cedido, casa/apartamento alugado) e turno de estudo [matutino, vespertino, noturno ou integral (dois turnos concomitantes)]; área de conhecimento do curso, conforme a divisão da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)26 (ciências exatas e da terra/agrárias, ciências da saúde e biológicas, ciências sociais aplicadas e humanas, linguística, letras e artes). Foram avaliadas também variáveis comportamentais, como: consumo de tabaco na vida (nunca fumou, fumante atual, ex-fumante), consumo de bebida alcoólica (nunca, menos de uma vez ao mês, duas a quatro vezes ao mês, duas ou mais vezes por semana) e uso de alguma droga ilícita nos últimos 30 dias, considerando cocaína, solventes e inalantes, ecstasy, alucinógenos ou maconha (não/sim).

A análise dos dados foi conduzida no programa Stata, versão 12.1 (Stata Corporation, College Station, Estados Unidos).27 A associação entre os tercis do escore de eventos estressores e as variáveis independentes foi avaliada por meio de regressão logística ordinal bruta e ajustada para fatores de confusão. A proporcionalidade da razão de odds foi testada através do teste de Brant, o qual não demonstrou violação em seu pressuposto (valores p>0,05).

O ajuste foi realizado em níveis: no primeiro, foram adicionadas as variáveis demográficas e de sexualidade (identidade de gênero e orientação sexual); no segundo, adicionadas as variáveis socioeconômicas e turno do curso; no terceiro nível, foram incluídas as variáveis comportamentais. Optou-se por estratificar as análises, pois foi encontrada evidência de interação da variável sexo com as variáveis idade e consumo de álcool (p<0,10). Foi adotado um nível de significância de 5% para as associações.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da UFPel, sob parecer nº 79250317.0.0000.5317. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi lido e assinado pelos participantes antes da coleta de dados, sendo garantido o sigilo das informações coletadas.

RESULTADOS

Foram identificados 2.706 universitários elegíveis para o estudo, dos quais 49 (1,8%) recusaram-se a participar, 815 (30,1%) foram considerados perdas (nunca localizados em aulas) e 1.842 tinham informação para todos os eventos estressores investigados, constituindo a amostra deste estudo, com taxa de resposta de 68,1%. As perdas e recusas foram maiores entre homens (52,8%), com 23 anos ou mais (46,7%), procedentes de Pelotas (62,8%) e que cursavam ciências exatas e da terra/agrárias, e engenharias (38,3%), sendo esta diferença estatisticamente diferente para todas estas variáveis (p<0,001) (dados não apresentados em tabela).

A amostra deste estudo foi constituída, na sua maioria, por jovens do sexo feminino (55,1%), com cor da pele branca (72%), sem companheiro/a (91,6%), que se identificavam (gênero) como mulher (53,3%), heterossexuais (75,1%), cuja mãe tinha concluído o ensino superior (33,8%), pertencentes às classes econômicas A/B (59,3%) e que não estavam trabalhando (74%) (Tabela 1). A mediana de idade da amostra foi de 20 anos (intervalo interquartil 19-23). Grande parte dos universitários era natural de Pelotas (45,8%), residia em casa/apartamento próprio/cedido (53%) e morava com os pais/familiares (50,3%). Mais da metade dos entrevistados estudava em período integral (60,1%) e cursava as áreas de ciências sociais aplicadas e humanas (34,4%) e ciências exatas e da terra/ agrárias (29,2%). Além disto, aproximadamente 11% eram fumantes e 38,7% reportaram beber bebidas alcoólicas de duas a quatro vezes ao mês. Entre os universitários que usaram drogas ilícitas nos últimos 30 dias, a droga mais consumida foi a maconha (22,7%) (Tabela 1).

Tabela 1
Descrição da amostra de acordo com as variáveis demográficas, socioeconômicas e comportamentais. Pelotas-RS (2018)

A prevalência de eventos estressores foi de 95,3% e os mais relatados foram: sentir-se muito preocupado pela sobrecarga das atividades acadêmicas (83,8%) e pela pressão para ter um bom desempenho na faculdade (65,0%), e ter seus hábitos de vida modificados pelas exigências do curso de graduação (62,1%). As mulheres foram as mais atingidas em relação aos homens (Tabela 2).

Tabela 2
Prevalência dos eventos estressores conforme o sexo. Pelotas-RS (2018) (N=1.842)

A média do escore de eventos foi de 9,42 (DP=5,73). Os eventos estressores com maior pontuação no escore foram aqueles relacionados às exigências acadêmicas, como sentir-se muito preocupado pela sobrecarga das atividades acadêmicas e pressionado a ter um bom desempenho, assim como ter hábitos de vida modificados pelas demandas do curso. Em todos os eventos estressores investigados, as mulheres foram as que se mostraram mais severamente afetadas quando comparadas aos homens (Tabela 3).

Tabela 3
Caracterização dos eventos estressores estratificados por sexo. Pelotas-RS (2018) (N= 1.842)

A Tabela 4 apresenta a análise bruta e ajustada dos tercis do escore de eventos estressores conforme as variáveis independentes em homens. Após ajuste para fatores de confusão, aqueles que se declararam homossexuais ou bissexuais tiveram odds 2,2 vezes maior, em relação aos heterossexuais, de estarem no tercil de maior pontuação no escore de eventos estressores. Os alunos provenientes de outro estado ou país tiveram odds 2,0 vezes maior, em relação aos estudantes de Pelotas, de estarem no tercil de maior pontuação no escore de eventos estressores avaliados. Homens que consumiram bebidas alcoólicas pelo menos duas vezes por semana tiveram odds 2,1 vezes maior, comparados àqueles que nunca consumiram bebida alcoólica, de estarem no tercil de maior pontuação no escore de eventos estressores.

Tabela 4
Odds ratio bruto e ajustado do escore de eventos estressores em homens, de acordo com as variáveis independentes, utilizando regressão logística ordinal. Pelotas-RS (2018) (N=827)

As mulheres que pertenciam às categorias de idade compreendidas entre 18 e 19 anos, e 20 a 22 anos apresentaram, respectivamente, odds 1,4 e 1,5 vez maior de estarem no tercil de maior pontuação no escore de eventos estressores, comparadas às estudantes mais velhas. As universitárias que se declararam homossexuais ou bissexuais tiveram odds 1,7 vezes maior, em relação às heterossexuais, de estarem no tercil de maior pontuação no escore dos eventos estressores avaliados. Aquelas provenientes de outras cidades do Rio Grande do Sul ou de outro estado/país tiveram, respectivamente, odds 1,5 e 2,1 vezes maior de pertencerem ao tercil de maior pontuação no escore de eventos estressores avaliados (Tabela 5).

Tabela 5
Odds ratio bruto e ajustado do escore de eventos estressores em mulheres, de acordo com as variáveis independentes, utilizando regressão logística ordinal. Pelotas-RS (2018) (N=1.015)

DISCUSSÃO

Ao avaliar a prevalência e os fatores associados a eventos estressores, verificou-se que a sobrecarga de tarefas, a pressão pelo bom desempenho e a necessidade de mudança de hábitos de vida foram os estressores mais mencionados. Também são estes os mais relatados em outros estudos nacionais e internacionais realizados com universitários e com estudantes de cursos da área da saúde10,14-17,20.

Entendendo que, para um evento ser notado como estressor, depende do significado e da importância dispensada à situação. Assim, o sentimento de sobrecarga e pressão apontado pelos ingressantes pode estar relacionado à expectativa desses universitários em relação às exigências e às necessidades advindas com o ingresso no ensino superior, o qual requer certa habilidade para conduzir de forma eficiente o tempo e para lidar com as demandas que incluem, principalmente, respostas às novas responsabilidades estudantis e àquelas relacionadas a essa fase da vida10,12. No ingresso em uma instituição de ensino superior, os estudantes deparam-se com didáticas distintas e que exigem maior autonomia e independência17 quando comparadas ao ensino médio, podendo gerar estranhamento e dificuldades no cumprimento da grade curricular de maior exigência nos primeiros semestres12. Somadas a esse contexto, estão as mudanças próprias da vida (entrada na fase adulta) e, com isso, as experiências que podem interferir no gerenciamento das atividades acadêmicas, diárias, entre outras.

Neste estudo, as mulheres foram as mais afetadas por eventos estressores. Ao menos dois aspectos devem ser considerados diante disso: (a) em geral, elas ainda são, desde a infância, mais incentivadas a expressar seus sentimentos, frustrações e vulnerabilidades, fato que, para os homens, pode ser compreendido de outro modo, como, por exemplo, fraqueza12,21,22; (b) mulheres também são cobradas a terem bom desempenho nos estudos. Culturalmente, essas caraterísticas podem permitir e estimular socialmente a compreensão mais frequente de eventos percebidos como estressores17.

Entre as universitárias, as mais jovens (18 a 22 anos) sentiram-se mais afetadas por eventos estressores do que as mais velhas. Os estudos sobre o tema não encontraram essa associação, independente do sexo13-15,17,21. Como a percepção de um evento como estressor ou não depende da capacidade psicológica em reagir a ele4, uma hipótese possível para este achado diz respeito a menor habilidade e estratégias de enfrentamento próprias da juventude para lidar com esses estressores10. No entanto, esperar-se-ia que os homens mais jovens também pudessem apresentar semelhante associação, o que não ocorreu. Questões relativas às exigências sociais diferenciais aos gêneros podem, novamente, esclarecer posturas e percepções diferenciadas.

Em relação ao consumo de substâncias, o estudo demonstrou que apenas o de bebida alcoólica esteve associado a maior ocorrência de eventos estressores e somente nos homens. Entretanto, salienta-se que a informação obtida se refere ao consumo de álcool no último mês; portanto, é necessário ter cautela na interpretação do resultado, uma vez que o consumo de substâncias pode ser uma estratégia de alívio dos desconfortos desencadeados pelos eventos estressores15,28.

A orientação sexual foi um forte preditor da ocorrência dos eventos estressores em homens e mulheres. Mesmo com as mudanças sucedidas nos últimos anos, indivíduos homossexuais/bissexuais sofrem ainda discriminações e violências29, aspectos que podem torná-los mais sensíveis às demandas do ambiente universitário e das interações sociais e suas consequências, contribuindo para se sentirem mais afetados pelos eventos estressores. Não foram encontrados outros estudos avaliando estas associações na população universitária ou de estudantes de outros níveis de ensino.

Outro importante fator preditor do maior relato de eventos estressores, em ambos os sexos, foi ter vindo de outra cidade, estado ou país para estudar. Jovens provenientes de outros locais estão expostos, ao mudarem de cidade, a uma série de adaptações concomitantes àquelas relacionadas ao ingresso no ensino superior, que incluem distância da família, maiores esforços econômicos, o estabelecimento de nova rede de relações e de (re)conhecimento do novo local de moradia (como trajetos, horários, perigos, como fazer). Além disso, podem existir dificuldades decorrentes das diferenças culturais, podendo estas potencializarem outros eventos como estressores. Em paralelo, serem ou se sentirem cobrados a corresponder aos esforços familiares e pessoais de morar em outro local, pois grande parte deles são subsidiados pela família, que espera, em contrapartida, bons resultados17.

Neste estudo, para ambos os sexos, não foi encontrada associação entre o desfecho e as demais variáveis independentes. Essas associações, em sua maioria, não foram exploradas em outros estudos sobre o tema, limitando uma comparação dos resultados desta pesquisa.

Entre os aspectos positivos deste estudo, destaca-se o fato de avaliar a ocorrência de eventos estressores na população universitária, que ainda é pouco explorada em estudos epidemiológicos. Outro diferencial do estudo foi o enfoque nos eventos estressores relacionados ao ambiente acadêmico. É relevante que esta parcela populacional seja investigada no intuito de conhecer suas fragilidades e necessidades para que estas possam ser minimizadas, a fim de prevenir o surgimento de problemas psicológicos e/ou educacionais. Além desse aspecto, a baixa proporção de perdas e recusas, e o grande cuidado metodológico empregado na confecção e execução de todas as etapas do estudo são pontos a serem positivamente considerados. Todavia, algumas possíveis limitações devem ser pontuadas. Por ser uma amostra composta apenas por universitários ingressantes, a extrapolação dos achados desta pesquisa deve ser feita com cautela, podendo ser utilizada como referência para outras populações universitárias que tenham contextos socioeconômicos e culturais semelhantes. A prevalência encontrada pode não representar a população universitária como um todo, visto que o tempo de exposição à universidade pode afetar a maneira com que os jovens percebem e se sentem afetados por dadas situações. A taxa de não respondentes foi maior entre homens, aqueles com 23 anos ou mais, procedentes do município e estudantes da área de ciências exatas e da terra/agrárias, e engenharias; portanto, é necessário cautela na interpretação das prevalências encontradas para esses grupos, em razão da perda diferencial.

Outra limitação do presente estudo se refere ao questionário utilizado para avaliar a ocorrência de eventos estressores. Em razão de não ter sido encontrado na literatura um instrumento validado no Brasil para avaliar a ocorrência de eventos estressores no âmbito acadêmico, o questionário utilizado neste estudo foi desenvolvido pelas próprias autoras e é baseado na literatura sobre estressores mais relevantes no contexto acadêmico. Como não foi submetido à validação, a interpretação dos resultados exige cautela.

Os resultados deste estudo indicam que a prevalência de eventos estressores entre jovens universitárias ingressantes é elevada. Os eventos estressores relacionados às exigências acadêmicas demonstram a necessidade de que maior atenção deve ser direcionada a essa população, visto que poderão desencadear complicadores emocionais e comportamentais, bem como afetar o desempenho na universidade. O estabelecimento de atividades de orientação para os estudantes, abordando estratégias para melhor gerenciar os estressores e as informações acerca de recursos disponíveis para auxiliá-los no enfrentamento dos problemas e estranhamentos com a vida acadêmica, são medidas que podem amenizar a ocorrência e o impacto dos eventos estressores. O desenvolvimento de campanhas que promovam um acolhimento e uma rede de colaboração no âmbito acadêmico, assim como a oferta de serviços de acompanhamento específicos, ainda bastante incipientes para esta população, poderão constituir um apoio importante para favorecer a melhoria da qualidade de vida, do desempenho e da motivação com as atividades da universidade.

  • a
    Trabalho acadêmico: Este artigo é fruto da dissertação de mestrado em Epidemiologia, da Universidade Federal de Pelotas, intitulada: “Eventos estressores em universitários ingressantes de uma instituição pública do Sul do Brasil”, de autoria de Fabiane Neitzke Höfs, defendida em 2018.
  • Como citar:
    Höfs FN, Gomes AP, Gonçalves H. Eventos estressores e fatores associados em estudantes ingressantes de uma universidade pública no sul do Brasil. Cad Saúde Colet, 2024;32(4):e32020074. https://doi.org/10.1590/1414-462X202432040074
  • Fonte de financiamento:
    O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    26 Mar 2020
  • Aceito
    24 Maio 2022
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