Resumo
Introdução: O câncer de mama é o tumor maligno mais incidente e principal causa de morte por câncer em mulheres no mundo, e o consumo de álcool é um de seus fatores de risco modificáveis.
Objetivo: Avaliar a magnitude do câncer de mama feminino e o risco atribuível ao uso de álcool na América Latina e no Caribe.
Método: Foram analisadas as taxas de mortalidade, incidência e anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (DALY) por câncer de mama, total e atribuíveis ao uso de álcool, para os países da América Latina e do Caribe em 1990 e 2017.
Resultados: A maioria dos países apresentou aumento da incidência entre 1990 e 2017. Houve redução na taxa de mortalidade no Brasil, Chile, Uruguai e na Colômbia, e aumento na República Dominicana, em El Salvador, Paraguai, Equador e México. Foram verificadas altas taxas de mortalidade e DALY por câncer de mama atribuíveis ao uso de álcool.
Conclusão: Os países da América Latina e do Caribe apresentam uma carga elevada de câncer de mama, e o crescente consumo do álcool pelas mulheres representa um desafio a ser enfrentado na redução da morbimortalidade pela doença.
Palavras-chave:
neoplasias da mama; carga global da doença; consumo de bebidas alcoólicas; indicadores de morbimortalidade; América Latina
Abstract
Background: Breast cancer is the most incident malignant tumor and the main cause of cancer death in women worldwide, and alcohol consumption is one of its modifiable risk factors.
Objective: To assess the magnitude of female breast cancer and risk attributable to alcohol use in Latin America and the Caribbean.
Method: We analyzed breast cancer mortality, incidence and disability-adjusted life years (DALY) rates, total and attributable to alcohol use, in addition to the mortality-incidence ratio (MIR) for Latin American and Caribbean countries in 1990 and 2017.
Results: Most countries showed an increase in incidence between 1990 and 2017. There was a reduction in mortality rate in Brazil, Chile, Colombia and Uruguay and an increase in the Dominican Republic, El Salvador, Paraguay, Ecuador and Mexico. High breast cancer mortality and DALY rates attributable to alcohol use were observed.
Conclusion: Latin American and Caribbean countries have a high burden of breast cancer, and the increasing consumption of alcohol by women represents a challenge to be faced in reducing morbidity and mortality from the disease.
Keywords:
breast neoplasms; global burden of disease; alcohol drinking; indicators of morbidity and mortality; Latin America
INTRODUÇÃO
O câncer de mama é o tumor maligno mais incidente e a principal causa de morte por câncer em mulheres no mundo. Apresenta incidência 1,7 vezes mais alta nos países com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) alto/muito alto em relação àqueles com IDH baixo/médio, enquanto a mortalidade apresenta um comportamento inverso, sendo 1,3 vezes maior nos países com IDH baixo/médio1.
O câncer de mama foi a principal causa, dentre os cânceres, de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (DALY – disability-adjusted life years), mortes e anos perdidos precocemente (YLLs – years of life lost) entre mulheres em todo o mundo em 2019. A maioria da carga global de câncer de mama ocorreu para as mulheres, com 20,3 milhões (95% UI, 18,7–21,9 milhões) de 20,6 milhões (95% IU, 19,0–22,2 milhões) totais de DALY relacionados ao câncer de mama em 2019, sendo 93,3% (95% IU, 91,1–95,2%) de YLLs e 6,7% (95% UI, 4,8–8,9%) de YLDs (years lived with disability). Destaca-se que menos de 1% dos casos incidentes e das mortes por câncer de mama ocorreram em homens2.
A região da América Latina e do Caribe é formada por 31 países e concentra aproximadamente 10% da população mundial, que convivem com um contexto de iniquidades sociais e escassez de recursos voltados para o desenvolvimento socioeconômico3-5. Houve incremento, entre 2011 e 2014, de 21% para 67% de abrangência de países no mundo que dispunham de registros de câncer de base populacional. Contudo, a maioria dos dados epidemiológicos oncológicos na região ainda são obtidos através de registros de mortalidade, visto que apenas 8% da região possui cobertura de registros de câncer de base populacional de alta qualidade6.
Estudo utilizando dados do Carga Global da Doença (Global Burden Disease – GBD) para os anos 1990 e 2017 apontou aumento global dos casos incidentes de câncer de mama da ordem de 123%, com crescimento de 16% da taxa de incidência padronizada7. Já no período 2010 a 2019, o aumento de casos foi de 26,3%. Da mesma forma, houve aumento da taxa de mortalidade em todas as regiões do mundo, exceto daquelas de mais alta renda. A maior tendência de aumento foi identificada na América Latina e no Caribe2.
O desenvolvimento do câncer de mama está associado a uma interação entre diversos fatores de risco que não podem ser alterados — tais como idade, história familiar, história de menarca precoce, menopausa tardia, primeira gravidez após os 30 anos, nuliparidade etc. — e aqueles passíveis de modificação e evitáveis — como sobrepeso e obesidade pós-menopausa, não amamentar ou fazê-lo por pouco tempo, terapia de reposição hormonal ou uso de contraceptivos orais por mais de cinco anos, uso de bebidas alcoólicas, tabagismo e inatividade física —, que devem ser valorizados na elaboração de programas de controle8.
O risco de mortalidade por todas as causas, especificamente por câncer, cresce com o aumento dos níveis de consumo de álcool, não existindo nível mínimo seguro de consumo que possa trazer algum benefício para a saúde. Para populações com 50 anos ou mais, o câncer foi responsável por 27,1% do total de mortes femininas atribuíveis ao álcool e 18,9% das mortes masculinas em 20169. No nível global, a dependência de álcool é o mais prevalente entre os transtornos causados pelo uso de substâncias químicas10.
O consumo de álcool é um fator de risco já estabelecido para o câncer de mama, embora os mecanismos biológicos subjacentes a essa associação não sejam completamente conhecidos11,12. Estudos mostram que o consumo de álcool, além de aumentar o risco, associa-se também à agressividade dos tumores da mama, influenciando, portanto, o seu prognóstico. Há múltiplos e complexos mecanismos potencialmente envolvidos na progressão estimulada pelo álcool13,14.
O presente trabalho objetivou avaliar a magnitude do câncer de mama feminino e o risco atribuível ao uso de álcool na América Latina e no Caribe, em 1990 e 2017.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo descritivo que analisou a magnitude do câncer de mama feminino, por meio das estimativas das taxas de mortalidade, de incidência e de DALY, assim como a relação destas com o Índice Sociodemográfico (SDI), para os 20 países mais populosos da América Latina e do Caribe nos anos de 1990 e 2017. Também foram avaliadas as taxas de mortalidade e de DALY por câncer de mama, atribuíveis ao uso de álcool, relativas aos anos considerados.
Os dados foram extraídos, em 13 de dezembro de 2019, do Estudo de Carga Global de Doença – GBD, do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), por meio da ferramenta do GBD Results tool (http://ghdx.healthdata.org/gbd-results-tool). Todas as estimativas foram padronizadas por idade, utilizando a população mundial padrão do GBD, e com as variações percentuais entre os anos de 1990 e 2017, assim como os intervalos de incerteza de 95% (II 95%).
Para a mortalidade por câncer de mama, o GBD utilizou os seguintes códigos da Classificação Internacional de Doenças — décima versão (CID10): C50–C50.9, D05–D05.92, D24–D24.9, D48.6–D48.62, D49.3, N60–N60.99. Já para a incidência, foram utilizados os códigos da CID10 C50-C50.915, com a adoção da ferramenta Bayesiana de meta-regressão DisMod-MR 2.1 como principal método da estimativa, para garantir consistência entre as taxas16. Para a estimativa das taxas de incidência, o GBD utiliza os dados disponíveis dos registros de câncer de base populacional e a razão mortalidade-incidência para as regiões e/ou períodos com dados não disponíveis ou incompletos.
O risco atribuível avaliado neste estudo foi para o uso de álcool, apontado como principal fator de risco modificável para o câncer de mama17.
Foi obtido o SDI para todos os países em 1990 e 2017, possibilitando sua classificação no espectro do desenvolvimento. O SDI é a média geométrica dos índices de zero (0) a um (1), referente à taxa de fecundidade total abaixo dos 25 anos de idade, à média de escolaridade para pessoas com 15 anos ou mais e à renda per capita distribuída. Como exemplo, um local com um SDI de zero teria um nível mínimo teórico de desenvolvimento relevante para a saúde, enquanto um local com um SDI de um teria um nível máximo teórico.
Para avaliar a associação do SDI com as estimativas para o câncer da mama consideradas foram feitos modelos de regressão linear. Os resíduos desses modelos foram testados para seus pressupostos — normalidade, homocedasticidade e ausência de correlação espacial.
O Projeto "Carga Global de Doenças – GBD no Brasil" foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob o número 62803316.7.0000.5149.
RESULTADOS
Para a América Latina e o Caribe, as maiores taxas de incidência para o câncer de mama em 2017 foram observadas no Uruguai, em Cuba e Costa Rica, e as menores, na Guatemala e no Equador. A maioria dos países (85%) apresentou aumento em suas taxas, quando comparados 1990 e 2017. Os países que tiveram os maiores aumentos indicados pela variação percentual foram os que tinham as menores taxas de incidência em 1990 (Tabela 1 e Figura 1).
Taxas padronizadas por idade de incidência, mortalidade e DALY por câncer de mama por 100 mil mulheres, em países da América Latina e do Caribe, 1990 e 2017.
Taxas padronizadas por idade de incidência, mortalidade, DALY, mortalidade e DALY atribuíveis ao uso de álcool por 100 mil mulheres, e Índice Sociodemográfico, 1990 e 2017, em países da América Latina e Caribe.
As maiores taxas de mortalidade para o câncer de mama em 2017 foram observadas no Uruguai e Haiti, e as menores, na Guatemala e no Nicarágua. Apenas 9 países apresentaram alteração em suas taxas, quando comparados 1990 e 2017. Brasil (-4,45%), Chile (-16,78%), Colômbia (-21,14%) e Uruguai (-17,22%) apresentaram redução de suas taxas de mortalidade, enquanto República Dominicana (69,23%), El Salvador (38,72%), Paraguai (33,34%), Equador (25,52%) e México (8,06%) apresentaram aumento (Tabela 1 e Figura 1).
No Brasil e no Chile, o aumento da incidência de câncer de mama entre 1990 e 2017 foi maior do que a redução da mortalidade, enquanto na Colômbia e no Uruguai os percentuais de aumento da incidência foram similares aos da redução da mortalidade. Na República Dominicana, em El Salvador, Equador, Paraguai e México, observou-se aumentos significativos e expressivos tanto na incidência quanto na mortalidade (Tabela 1).
As maiores taxas de DALY para o câncer de mama em 2017 também foram observadas no Uruguai e Haiti, e as menores na Guatemala e no Nicarágua. Sete países apresentaram alteração em suas taxas de DALY, quando comparados 1990 e 2017: Uruguai (-20,64%), Chile (-18,70%) e Colômbia (-18,09%) indicaram redução; já República Dominicana (76,90%), El Salvador (36,78%), Equador (21,66%) e México (8,62%) apresentaram aumento. O Brasil não teve alteração significativa entre 1990 e 2017 (Tabela 1 e Figura 1).
As maiores taxas de mortalidade atribuíveis ao uso de álcool em 2017 foram observadas na Argentina e no Uruguai, e as menores, em Nicarágua e Honduras. De 1990 para 2017, quatro países apresentaram alteração nas suas taxas, com redução na Argentina (-28,65%) e Colômbia (-27,05%) e aumento na República Dominicana (96,74%) e em El Salvador (72,31%) (Tabela 2 e Figura 1).
Taxas padronizadas por idade de mortalidade e DALY por câncer de mama por 100 mil mulheres, atribuível ao uso de álcool, em países da América Latina e do Caribe, 1990 e 2017.
As maiores taxas de DALY atribuíveis ao uso de álcool em 2017 também foram observadas na Argentina e no Chile e as menores, em Nicarágua e Honduras. Nesse caso, seis países apresentaram alteração em suas taxas: foram observadas reduções na Argentina (-29,94%), Colômbia (-24,71%), no Uruguai (-24,43%) e Chile (-22,38%), e aumento na República Dominicana (102,72%) e em El Salvador (71,47%) (Tabela 2 e Figura 1).
Com relação ao SDI, observou-se aumento expressivo em todos os países entre 1990 e 2017. O maior aumento do SDI foi observado na Guatemala (+67,37%) e o menor, em Cuba (+16,17%). Em 2017, os maiores SDIs foram observados no Chile (0,7481), na Argentina (0,7102) e no Uruguai (0,7068), e o menor, no Haiti (0,4417) (Tabela 3 e Figura 1).
A regressão linear simples mostrou que o SDI esteve associado a quase todas as estimativas para o câncer de mama nos anos considerados (p<0,05), exceto para a mortalidade e DALY em 2017. Isso significa dizer que, por exemplo, no ano de 2017, cada aumento de 0,1 no SDI esteve associado a um aumento de 11,42 na taxa de incidência, de 0,60 na taxa de mortalidade atribuível ao uso de álcool e de 16,86 nos DALY atribuíveis ao álcool (Tabela 4).
Medidas de associação (coeficientes de regressão linear) entre o índice sociodemográfico (exposição) e os desfechos taxas padronizadas por idade de incidência, mortalidade, DALY, mortalidade atribuível ao álcool e DALY atribuível ao álcool entre os países da América Latina e do Caribe, 1990 e 2017.
DISCUSSÃO
O incremento observado nas taxas de incidência do câncer de mama feminino na maioria dos países da América Latina e do Caribe, entre 1990 e 2017, pode estar relacionado ao aumento na prevalência de hábitos de vida cada vez mais comuns ao mundo ocidental, tais como idade tardia na primeira gravidez, baixo número de gestações, curto ou nenhum período de amamentação, uso de contraceptivos orais de estrogênio/progesterona ou de terapia de reposição hormonal, assim como aumento da obesidade, do sedentarismo e do consumo de álcool18. Outro aspecto que também pode explicar, pelo menos em parte, o aumento da incidência da doença na região é a melhoria na capacidade de diagnóstico e registro da doença ao longo do tempo1.
A mortalidade por câncer de mama tem diminuído nos países desenvolvidos, especialmente em função do rastreio mamográfico e do avanço das modalidades terapêuticas. Na América Latina e no Caribe, entretanto, a mortalidade por câncer de mama tem aumentado nas últimas décadas, exceto na Costa Rica, no Chile e Uruguai, sendo observada uma sobrevida inferior àquelas obtidas nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, indicando que as ações de detecção precoce e tratamento na região necessitam de aprimoramentos19.
De forma geral as taxas de mortalidade por câncer de mama na América Latina e no Caribe poderiam ser explicadas pela combinação entre aumento da incidência da doença e diagnósticos realizados em estadiamentos mais avançados da doença (III e IV), muito comuns em países em desenvolvimento. Estudo realizado com base em dados dos registros hospitalares de câncer no Brasil mostrou que cerca de 40% dos casos de câncer de mama foram diagnosticados nos estágios III e IV, no período de 2001 a 2014, sinalizando para o fato de que as estratégias adotadas para a detecção precoce ainda não têm funcionado a contento no país20,21. Nos outros países da América Latina e do Caribe, isto também ocorre para 30 a 40% dos pacientes, enquanto no México, na Colômbia e no Peru essas proporções são mais altas, em torno de 40 a 50%22.
Interessante notar que, embora Cuba tenha apresentado a segunda maior taxa de incidência para o câncer de mama, o país não esteve entre as maiores taxas de mortalidade da região. Vale comentar que Cuba tem um dos mais altos investimentos em saúde pública na América Latina e Caribe, de cerca de 9,7% do PIB, apresentando sistema de saúde organizado e equipado e a maior relação médico por habitante no mundo, com um médico para cada 147 pessoas23.
Vários passos foram dados na América Latina e no Caribe para se incrementar a detecção precoce do câncer de mama, incluindo a formulação de diretrizes, capacitação de profissionais, educação da comunidade e programas de garantia de qualidade em mamografia. Muitos países da região têm elaborado recomendações nacionais para o rastreamento do câncer de mama, tais como a Argentina, com o Programa de Detecção Precoce de Câncer Gênito-Mamário (PROGEMA) desenvolvido em 2009; o Brasil, com os Cadernos de Atenção Básica disponibilizados em 2006 e com o documento de Consenso para o Controle do Câncer de Mama elaborado em 2004 e, posteriormente, com as Diretrizes para a Detecção Precoce do Câncer de Mama publicadas em 2015; e o Uruguai, com o Programa de Detecção Precoce de Câncer de Mama para Mulheres de 40 anos ou mais, elaborado em 200924.
A Argentina foi o país que apresentou a maior taxa de mortalidade e DALY por câncer de mama atribuível ao uso de álcool em 2017, mesmo tendo obtido as maiores reduções, tanto para a mortalidade (-28,65%) quanto para DALY (-29,94%) nos anos analisados. Neste mesmo período, apresentou aumento significativo da incidência de câncer de mama. Vale assinalar que a maior prevalência de consumo de álcool em mulheres entre os países da América Latina e do Caribe em 2016 ocorreu na Argentina9, país que apresentou a maior taxa de mortalidade feminina atribuída ao consumo de álcool (21,1 por 100.000 habitantes) entre os países da América em 2012. No entanto, o percentual de mulheres abstêmias desde sempre passou de 4,6% em 2005 para 29,7% em 2010, o que poderá trazer impacto futuro nos indicadores apresentados25.
Na República Dominicana, em El Salvador, no Equador e México, observou-se aumento significativo na incidência e mortalidade por câncer de mama feminino entre 1990 e 2017, assim como para os DALY por câncer de mama atribuído ao uso de álcool, mas a mortalidade atribuída a esse fator mostrou aumento significativo apenas na República Dominicana e em El Salvador. Cabe assinalar que o México apresentou, em 2012, a menor taxa de mortalidade geral atribuível ao consumo de álcool (3,1 por 100.000) e que a proporção de episódios de consumo excessivo de álcool por mulheres — ao menos em uma ocasião nos últimos 30 dias —, em 2010, na República Dominicana (18,0%), em El Salvador (13,5%) e México (11,4%) foram superiores à média mundial (5,7%), enquanto no Equador observou-se 1,5%25.
O risco de desenvolver câncer de mama associa-se ao consumo de álcool, aumentando 7,1% para cada 10 g de álcool ingerida ao dia. Dessa forma, as variações geográficas nas taxas de câncer de mama podem, em parte, ser explicadas pelo padrão de consumo de álcool entre as mulheres nos diferentes países18.
Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgada em 2014 revelou que do primeiro levantamento nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira (I LENAD), realizado em 2006, para o segundo (II LENAD), realizado em 2012, houve um aumento de 27% para 38% de mulheres brasileiras que ingerem álcool pelo menos uma vez por semana, representando um aumento de 11 pontos percentuais. Além do aumento da frequência, houve também o aumento da quantidade habitual de doses entre as mulheres que declararam consumir 5 doses ou mais, representando um crescimento de 17% em 2006 para 27% em 201226. Em 2015, o terceiro levantamento nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira (LNUD) apontou uma prevalência do consumo de bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses de 35% entre as mulheres27. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com 60.202 pessoas com 18 anos ou mais de idade — sendo 51,7% do feminino e 48,3% do sexo masculino —, observou uma prevalência do consumo abusivo de álcool — pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores à pesquisa — de 13,7%. Tal prevalência foi de 6,6% entre as mulheres e de 21,6% entre os homens28.
Tradicionalmente o consumo de álcool é maior em homens, e a razão entre homens e mulheres manteve-se estável entre 1990 (1,42) e 2017 (1,40) no mundo. As estimativas apontam que essa diferença diminuirá lentamente, atingindo 1,37 em 203029. O consumo de álcool por mulheres nas Américas tem aumentado em volume e frequência e tende a igualar-se ao dos homens em vários países. Essa equiparação no consumo significa, porém, uma maior desigualdade de gênero nos desfechos de saúde, pois as mulheres são mais vulneráveis aos efeitos do álcool, apresentando maior prevalência de transtornos por uso de álcool com níveis menores de consumo e em idade mais precoce do que os homens30,31.
Análise sistemática do estudo GBD 2016, que incluiu 195 países e territórios entre 1990 e 2016, demonstrou claramente a contribuição, substancial e maior do que a previamente estimada, do álcool para a morte, invalidez e problemas de saúde globalmente. O uso de álcool foi o sétimo fator de risco principal para óbitos e anos de vida ajustados por incapacidade DALY, apresentando-se como responsável por 2,2% (1,5–3,0) dos óbitos femininos e 6,8% (5,8–8,0) dos óbitos masculinos em 20169.
De modo geral, o uso de álcool foi o mais importante fator associado aos DALY na maioria das regiões cobertas pelo GBD7. Com relação a essa exposição, nota-se um aumento global da taxa de variação anual do excesso de risco, mais expressiva em países de médio ou baixo-médio SDI32.
A prevenção primária do câncer de mama propõe-se a diminuir o risco de as mulheres apresentarem a doença durante toda a sua vida. Poorolajal et al. destacam como os principais fatores de risco para o câncer de mama: o uso de estrogênio/progesterona; gravidez tardia; uso de terapia de reposição hormonal; sobrepeso/obesidade pós-menopausa; nuliparidade; consumo de álcool; consumo de tabaco; consumo de carne vermelha. Como fatores de proteção, destacam o consumo adequado de frutas e vegetais; atividade física suficiente e amamentação. Ressaltam, ainda, a importância desses resultados para classificar e priorizar fatores de risco modificáveis, valorizando tanto a força da associação quanto a prevalência dos fatores na comunidade, visando planejar e implementar programas eficazes de prevenção do câncer de mama33.
Com relação às limitações metodológicas do estudo, destaca-se a extensão da base territorial de cada unidade geográfica no caso da América Latina e do Caribe, que é constituída por um grande número de populações rurais, indígenas e aquelas estabelecidas em áreas remotas, onde o acesso à saúde é dificultado. Essa heterogeneidade, presente em cada país, pode ser melhor avaliada por pesquisas com menor abrangência geográfica e com maior aprofundamento na análise dos fatores e contextos locais, complementando a presente abordagem.
Os dados existentes sobre a compreensão do público da América Latina e do Caribe acerca do câncer de mama e de fatores associados são preocupantes. Por exemplo, uma pesquisa envolvendo alunas universitárias na Colômbia em 2014, que deveriam estar mais bem informadas do que a população como um todo, revelou que menos de 10% reconheciam álcool, falta de exercícios físicos ou tabagismo como fatores associados a um maior risco de câncer de mama; esse valor foi notadamente menor do que a média para suas colegas nos 24 países de baixa e média renda estudados nas regiões da Ásia, África e das Américas34. Destaca-se que uma população bem-informada é a ferramenta mais eficiente para prevenir o câncer e aumentar a detecção precoce da doença35.
Na América Latina e no Caribe, ainda estão presentes muitos desafios para o controle do câncer de mama e, entre alguns dos fatores apontados, sobressaem-se os custos médicos, fatores socioeconômicos e culturais, a baixa qualidade laboratorial e os atrasos no diagnóstico e tratamento. Além disso, muitas mulheres latino-americanas não têm acesso ao serviço de saúde por estarem em áreas remotas, rurais e indígenas19.
CONCLUSÃO
Os países da América Latina e do Caribe apresentam uma carga elevada de câncer de mama. Para sua redução, as políticas públicas devem estar centradas na detecção precoce da doença, por meio do rastreamento e diagnóstico precoce; assim como na redução de fatores de risco que são potencialmente modificáveis, como uso de álcool, sobrepeso e obesidade, e na utilização mais racional de contraceptivos orais e terapia de reposição hormonal pós-menopausa36. Deve-se também melhorar o acesso das mulheres diagnosticadas com a doença ao tratamento adequado em tempo oportuno, principalmente àquelas que estão em áreas de menor acesso aos serviços de saúde.
Das estratégias de prevenção primária do câncer de mama já identificadas, devem ser priorizadas aquelas que são aplicáveis a todas as mulheres, como controle de peso, atividade física regular, amamentação e abandono do álcool37.
As associações entre o consumo de álcool e o aumento do risco e da agressividade do câncer de mama são bem descritos na literatura. Logo, o estímulo à redução do consumo de álcool pelas mulheres deve ser considerado nas campanhas e políticas públicas direcionadas à saúde da mulher.
Os desafios aqui apresentados são muitos e requerem grande esforço e atenção das autoridades de saúde, dos profissionais e da população na construção e no monitoramento de uma política de controle do câncer de mama que garanta equidade de acesso à informação, ao rastreamento, ao diagnóstico e ao tratamento eficaz para os países da América Latina e do Caribe.
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