Open-access Um panorama sobre o campo da educação em diabetes: entre prescrições e empowerment

An overview of the diabetes education field: between prescriptions and empowerment

Resumo

Introdução:  A educação em diabetes institucionalizou-se recentemente, configurando um campo próprio, envolvendo diferentes interesses, agentes e regras.

Objetivo:  Explorar o campo da educação em diabetes, reconhecendo propostas dominantes e esmiuçando possibilidades de inclusão de novas abordagens pedagógicas.

Método:  Com base no conceito de campo de Bourdieu, foram examinados os websites das principais entidades envolvidas na educação em diabetes, além da base de dados Scopus.

Resultados:  Os processos de acreditação de programas de educação em diabetes, realizados pelas entidades investigadas, contribuem para a institucionalização da área, propondo currículos e padrões de qualidade. A participação de indústrias farmacêuticas no campo parece contribuir para o domínio de referências biomédicas na educação em diabetes, com propósitos centrados no controle da doença. Disputando com a hegemonia desse tipo de finalidade, o conceito de empoderamento vem ganhando espaço no campo.

Conclusão:  Com matrizes teóricas híbridas, o campo da educação em diabetes pode abrir-se a novas abordagens pedagógicas, especialmente no Brasil, em consonância com as Políticas de Educação Popular em Saúde e de Educação Permanente, favorecendo a incorporação de outras dimensões do cuidado nos processos de aprendizagem.

Palavras-chave:
diabetes mellitus; campo; métodos pedagógicos

Abstract

Background:  Diabetes education has been recently institutionalized, configuring its own field, which involves different interests, agents, and rules.

Objective:  To explore the field of diabetes education, recognizing dominant proposals and exploring possibilities for the inclusion of new pedagogical approaches.

Method:  Based on Bourdieu's field concept, the websites of the main entities involved in diabetes education, in addition to the Scopus database, were examined.

Results:  The accreditation processes of diabetes education programs carried out by the investigated entities contribute to the institutionalization of the area, proposing curricula and quality standards. Pharmaceutical companies’ participation in this field seems to contribute to the domination of biomedical references in diabetes education, with purposes focused on disease control. Disputing with the hegemony of this kind of purpose, the concept of empowerment has been gaining ground in the field.

Conclusion:  With hybrid theoretical matrices, the field of diabetes education can open up to new pedagogical approaches, especially in Brazil, in line with the Policies of Popular Education in Health and Permanent Education, favoring the incorporation of other dimensions of care in the learning processes.

Keywords:
diabetes mellitus; field; teaching

INTRODUÇÃO

No silêncio dos seus sintomas ou visível nas sérias complicações envolvendo amputação de membros, perda de visão, neuropatias e problemas cardíacos, entre outras, o diabetes figura entre as cinco principais doenças crônicas não transmissíveis no mundo, estimando-se que cerca de 422 milhões de adultos vivem com a doença. Os problemas relacionados ao diabetes ultrapassam aspectos clínicos, epidemiológicos ou econômicos, levando ao sofrimento daqueles acometidos direta ou indiretamente por ela1,2.

Desde as primeiras referências, que remontam à Era Cristã3,4, muitos conhecimentos foram produzidos sobre o diabetes, hoje classificado como uma doença crônica, diagnosticável por exame de sangue. Ainda que não tão impactantes quanto a descoberta da insulina, em 1922, proliferam-se tecnologias que visam atender a diversas finalidades, incluindo a melhora dos resultados clínicos e a qualidade de vida das pessoas vivendo com diabetes.

Mesmo não se incluindo como uma tecnologia convencional, destaca-se, nesse cenário, a educação em diabetes. O uso institucionalizado desse termo é recente, abrigando uma dinâmica própria de funcionamento e sugerindo sua configuração como um campo particular.

A evocação à noção de campo inspira-se na abordagem de Pierre Bourdieu enquanto um microcosmo social cujos limites são indefinidos e porosos e no interior dos quais ocorrem disputas e negociações, conservando ou transformando as estruturas nele existentes5,6.

Pressupõe-se que o modo como a educação e o diabetes são articulados, tecendo redes entre diferentes agentes, instituições, conhecimentos e práticas, delimita os objetos, as metodologias e as prioridades desse campo, contribuindo para reproduzir e/ou confrontar abordagens pedagógicas dominantes. O reconhecimento desse campo permite apreender a sua maior ou menor porosidade a outros tipos de abordagens e finalidades que não se subsumam ao controle metabólico do organismo.

Como etapa preliminar de um projeto de investigação que abordará o potencial do uso de narrativas na educação em diabetes, objetiva-se explorar esse campo, reconhecendo as propostas dominantes e perscrutando as possibilidades de inclusão de novas abordagens pedagógicas.

METODOLOGIA

Nas trilhas do quadro conceitual de Bourdieu5-7, uma primeira consideração acerca da noção de campo é sobre sua dinamicidade, deixando sempre em aberto a possibilidade de transformação do habitus; ou seja, não obstante a importância da estrutura na formação do habitus, a ação dos agentes não é completamente determinada por ela.

Cada campo funciona como um espaço de possibilidades condicionado pelas posições dos agentes, na estrutura desse campo, aos seus capitais e aos objetivos a alcançar. No caso, a exploração do campo da educação em diabetes permitirá reconhecer como são delineadas suas "regras" e como os agentes reagem a elas, seja reproduzindo-as, seja buscando transformá-las ou mesmo confrontá-las.

As primeiras pistas sobre a dinâmica do campo da educação em diabetes foram delineadas a partir de busca livre, que se iniciou com a identificação de artigos e seus respectivos periódicos que tratam sobre o assunto, os quais faziam menção a dados produzidos pela International Diabetes Federation (IDF), em especial, o IDF Diabetes Atlas2. A identificação de outros atores institucionais relevantes foi feita a partir dessa referência, chegando-se a um número considerável de entidades envolvidas com o diabetes, com longa existência, sobretudo nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália.

As entidades longevas não necessariamente pareceram se sobressair no cenário internacional, especialmente em assuntos atinentes à educação em diabetes, como é o caso da Joslin Diabetes Center, fundada em 1898. Foram incluídas a International Diabetes Federation, a American Diabetes Association e a Association of Diabetes Care & Education Specialists (ADCES), entidades relevantes no campo, por suas publicações e/ou atividades concernentes à educação em diabetes e ao alcance internacional de seus discursos, como a Organização Mundial de Saúde (OMS) ou entidades locais, como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

A IDF prevê, em suas finalidades, representar outras instituições locais e regionais voltadas ao diabetes, em nível internacional, e, as demais, embora de abrangência local, têm atuação proeminente na educação em diabetes, propondo padrões de qualidade para essa atividade, periodicamente atualizados. Em relação à ADCES, pesa o fato de que se trata de uma entidade exclusivamente voltada para a educação em diabetes.

A consulta aos respectivos websites foi realizada durante os meses de setembro/novembro de 2020 e atualizada em janeiro/2022, buscando identificar dados gerais sobre a entidade e sobre os conteúdos disponíveis, por meio dos seus links, conforme Quadro 1.

Quadro 1
Perfil das organizações de diabetes que integraram a pesquisa.

Mapeadas as ações e propostas das instituições, procedeu-se à consulta sobre a produção científica sobre o tema, recorrendo-se à base de dados Scopus, pois, além de abrigar literatura revisada por pares, fornece ferramentas bibliométricas úteis para os objetivos em pauta, permitindo uma visualização sobre o estado da arte sobre o tema.

Com chave única para a busca em título, resumo e palavras-chave e utilizando-se o termo "diabetes education", obteve-se 4.852 resultados, cobrindo o período entre 1962 e 2022.

Após o mapeamento, com recurso à ferramenta bibliométrica da base utilizada, foram consultadas publicações que ilustrassem o pressuposto da investigação quanto aos tipos de abordagens pedagógicas utilizadas na educação em diabetes, além daquelas que fornecessem informações pontuais, como as referências teórico-conceituais utilizadas.

O processo, como um todo, seguiu o percurso ilustrado na Figura 1.

Figura 1
Etapas da investigação.

A análise do material consistiu em traçar uma rede de nexos que constituem o campo da educação em diabetes enquanto espaço simbólico5. Como se determinam, legitimam ou disputam as abordagens pedagógicas nesse campo? O que estaria em disputa? Quem são seus agentes? Que interesses e valores estão em pauta? Quais as possibilidades de se confrontar o modelo dominante de educação em diabetes?

RESULTADOS

Um panorama sobre as organizações voltadas para o diabetes

São muitos os assuntos abordados nos websites das entidades consultadas, incluindo desde eleições presidenciais norte-americanas e COVID-19 até possíveis necessidades de pessoas com diabetes, como observado em um link do website da ADA que fornece um contato para o caso de desastres, como furacões, a fim de que os tratamentos não sejam interrompidos.

Os parceiros financeiros que apoiam as atividades das instituições são principalmente empresas e laboratórios farmacêuticos e/ou de produção de insumos para o diabetes, algumas delas presentes nas três entidades, a exemplo da AstraZeneca.

Sobre as propostas das entidades investigadas, a IDF e a ADA têm pautas mais próximas, com ações abrangentes de cuidado e prevenção do diabetes. Um aspecto comum e muito expressivo nas três instituições são as iniciativas de advocacy, visando implementar medidas de saúde pública e lutar contra a discriminação de pessoas que vivem com diabetes.

Em relação às atividades pedagógicas, distinguem-se duas frentes na educação em diabetes. Uma é voltada para os profissionais de saúde, oferecendo cursos em nível de especialização ou de curta duração, abordando temas específicos, como retinopatia diabética ou doenças cardiovasculares; já a outra é dirigida a pacientes, familiares e comunidades, na qual são encontrados guias, vídeos e jogos que tratam de informações acerca de exercícios físicos, alimentação, complicações sobre o diabetes, uso dos medicamentos, entre outros. Alguns dos materiais disponibilizados pela ADA e pela ADCES apresentam versão em espanhol.

Além dessas ofertas, destaca-se a realização de acampamentos reunindo crianças com diabetes tipo 1 em vários pontos dos Estados Unidos. O primeiro acampamento de diabetes foi organizado em 1925, em Michigan, e desde então ele é praticado em outros países do mundo, com diferentes propostas, formatos e durações, mas basicamente envolvem profissionais de saúde, crianças, adolescentes e, eventualmente, seus responsáveis8.

Outra atividade desenvolvida pela ADA e pela ADCES, nos Estados Unidos, é o credenciamento de programas de educação em diabetes. Além das ofertas próprias, ele é responsável pela certificação de outros programas de educação em diabetes e cursos para educadores em diabetes, certificação essa necessária como um dos quesitos para obtenção de reembolso no sistema Medicare & Medicaid9.

Embora a ADA e a ADCES utilizem terminologias diferentes — reconhecimento e acreditação, respectivamente —, as diferenças mais significativas entre os processos residem na documentação exigida, nos custos e nas etapas do processo, bem como nos procedimentos de auditoria. Ambos os processos visam garantir a qualidade da atividade, incluindo os itens que envolvem questões organizacionais, detalhamento dos programas, processos de avaliação, entre outros10.

A IDF também credencia e acompanha programas externos de educação em diabetes, por meio dos Centros de Educação da IDF. Esse processo havia sido suspenso em função da pandemia de COVID-19, mas já foi retomado.

Quanto às publicações, a IDF as apresenta por temas (advocacy, educação, guias, consensos), disponíveis na íntegra no "links e-books", merecendo destaque o Diabetes Atlas, publicado trienalmente desde 2000, e que está em sua 10a edição, de 20212, com dados detalhados e ilustrados sobre o panorama mundial, por região e por país.

Duas publicações são mais diretamente afetas à educação: o International Standards for Education of Diabetes Health Professionals11, destinado a instituições que já oferecem ou desejam fornecer um programa de educação em diabetes para profissionais de saúde, e o International Curriculum for Diabetes Health Professional Education12, que foi originalmente desenvolvido para responder às necessidades dos profissionais de saúde, de treinamento especializado e baseado em evidências em educação em diabetes.

A ADA detém direitos autorais de seis periódicos sobre diabetes, cujo acesso é restrito aos membros associados da entidade. São eles: Diabetes Care, Diabetes®, Diabetes Spectrum, Clinical Diabetes®, BMJ Open Diabetes Research & Care e DiabetesPro Quarterly.

A ADCES é responsável pelas seguintes publicações: ADCES in Practice Journal, Perspectives on Diabetes Care e The Diabetes Educator Journal — este último um dos veículos com maior número de publicações sobre educação em diabetes, conforme apontou a revisão de literatura.

A educação em diabetes nas publicações científicas

Embora a identificação das iniciativas pedagógicas voltadas para o diabetes não esteja restrita ao termo "educação em diabetes", é notável a produção científica que se utiliza dele, especialmente quando comparada àquelas relacionadas a outras patologias, como o câncer ou a hipertensão arterial. Uma busca na mesma base bibliográfica resultou em 1.638 títulos para [cancer education] e em 267 para [hypertension education], contra as 4.852 publicações com o termo [diabetes education].

Na sistematização produzida pela Scopus, o primeiro artigo constante dos resultados da busca data de 1962, observando-se um crescimento no número de publicações, com média de 250 desde 2006 e atingindo 301 em 2020.

Entre os autores, Martha Funnel lidera o ranking, com 43 publicações entre 1988 e 2019. Funnell é pesquisadora emérita e professora adjunta de Enfermagem na Escola Médica da Universidade de Michigan, sendo autora ou editora de três currículos de educação publicados pela ADA, cinco livros para profissionais de saúde e um livro para pessoas com diabetes. Recebeu prêmio de melhor educador em diabetes pela ADA e atuou como chair do Programa Nacional de Educação em Diabetes e presidente da Health Care and Education, da ADA1.

O The Diabetes Educator é o periódico com maior número de publicações sobre o tema. Trata-se do veículo oficial de pesquisas da ADCES, abordando temas sobre educação de pacientes, educação profissional, saúde da população, cardiometabólica e saúde pública2. O acesso ao conteúdo completo dos artigos da revista é restrito a associados da ADCES ou pode ser feito via instituições de ensino, bibliotecas ou empresas associadas3.

Por meio de quatro dos seus periódicos (Diabetes Care, Diabetes Spectrum, Clinical Diabetes e BMJ Open), a ADA responde por 400 artigos publicados, sendo que o acesso aos conteúdos completos é restrito. A propósito, vale mencionar que, dentre as 4.852 publicações que fizeram parte da investigação, apenas 1.782 (36,72%) têm seu acesso aberto.

Quanto aos financiadores das pesquisas, apenas 1.133 (23,35%) das publicações explicitaram as fontes, sobressaindo-se a participação do National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK), mencionado em 283 dos artigos publicados, e o National Institutes of Health (NIH), em 232. Embora o NIDDK seja um órgão governamental que pertence ao NIH, dos Estados Unidos, eles possuem linhas específicas de financiamento de pesquisas. No mais, constam como financiadores instituições acadêmicas, laboratórios farmacêuticos e fundações – algumas delas, inclusive, ligadas a essas empresas.

Múltiplas faces da educação em diabetes

O quadro delineado situa a educação em diabetes majoritariamente no campo biomédico ao privilegiar finalidades ancoradas na busca de evidências ou de probabilidades sobre a eficácia dessa abordagem no controle dos níveis glicêmicos. A dimensão propriamente pedagógica dessa intervenção gira em torno de estratégias visando mudanças comportamentais relativas a hábitos alimentares e à prática de exercícios físicos.

O impacto dos programas de educação em diabetes, expresso nas taxas de glicose ou no comportamento das pessoas, tem sido avaliado em termos do seu alcance e validade, principalmente a partir de parâmetros quantitativos13-17.

Funnel18 também valoriza a construção de medidas válidas e confiáveis para os resultados da educação em diabetes, documentando a sua eficácia, até mesmo como forma de garantir a subsistência dos programas, ameaçados de perder o apoio necessário em muitos lugares do mundo. Entretanto, observa-se a sua preocupação com o cultivo de evidências de outra ordem, que considere a dimensão "arte" da educação em diabetes, especialmente no tocante às relações entre profissionais de saúde e pessoas com diabetes19.

Entre os discursos que defendem a educação em diabetes, é comum emergir a importância do papel do educador em diabetes atrelada ao diagnóstico da insuficiência de profissionais com formação específica frente às necessidades populacionais. Com isso, sustenta-se a importância de fomentar a formação de mais especialistas nesse campo20-23.

Em outra perspectiva, a importância do papel do educador em diabetes é relativizada ou mesmo minimizada, como visto no editorial do Diabetes Medicine24, que, apostando que a qualidade de vida de pessoas vivendo com diabetes reside na disponibilidade de melhores medicamentos e de tecnologia, a educação em diabetes deveria concentrar-se na melhoria da adesão do paciente.

Outra face da educação em diabetes diz respeito à vertente que, em contraste com o foco clínico individual, é centrada na saúde populacional. Nessa perspectiva, um editorial publicado no Diabetes Educator, de 2019, propõe uma nova visão para a educação em diabetes e para o educador em diabetes. São enfatizados os desafios para os educadores em diabetes, no sentido de acompanharem as mudanças no atendimento à saúde, substituindo modelos tradicionais de atendimento por propostas que incluam "atendimento baseado em clínicas comunitárias, telemedicina e gestão da saúde da população"25.

Seguindo essa linha, recomenda-se que os educadores em diabetes se alinhem aos planos estratégicos organizacionais, de modo que seu trabalho agregue valor para as instituições de saúde. Ancorando-se em dados epidemiológicos, o modelo desenhado para a realidade norte-americana deixa clara a preocupação em diminuir os custos com saúde a partir de uma abordagem populacional baseada em classificação de risco; atendimento padronizado, mas individualizado; expansão do papel, incluindo, por exemplo, a gestão; e utilização do atendimento virtual26.

A ampliação do escopo da educação em diabetes refletiu-se, inclusive, na alteração, em 2020, da denominação da entidade American Association of Diabetes Educators para Association of Diabetes Care & Education Specialists, bem como o título que passou de "educador em diabetes" para "especialista em educação e cuidados em diabetes ou em gestão em diabetes"4.

A dimensão pedagógica da educação em diabetes

Um artigo, de 1999, com o sugestivo título "Teoria é a carroça, visão é o cavalo: reflexões sobre pesquisa em educação em diabetes"27, apontava a carência de documentos que aprofundassem os aspectos metodológicos e/ou as referências teórico-conceituais que orientavam as pesquisas e intervenções em educação em diabetes. Esse diagnóstico amparou-se, por exemplo, em painel realizado pela ADCES (então AADE) indicando que 88% dos trabalhos apresentaram tais lacunas. Por conta desse panorama, defendia-se o desenvolvimento de um corpo de conhecimentos que fosse sólido e coerente, contribuindo efetivamente para o campo da educação em diabetes.

Sobre os autores do referido artigo, vale lembrar que Martha Funnel apresenta o maior número de títulos elencados na investigação, e sua parceria com Robert M. Anderson, também pesquisador emérito na Universidade de Michigan, resultou em número considerável de publicações que visibilizam questões teórico-conceituais sobre a educação em diabetes. Foram localizadas 18 publicações conjuntas, evidenciando questões teórico-conceituais e buscando dar consistência ao campo da educação em diabetes.

Os autores, que continuaram a se destacar em produções dessa natureza, problematizam tanto o uso das "técnicas pelas técnicas", ou seja, sem uma reflexão prévia sobre os horizontes que as orientam, quanto a redução da educação em diabetes a um esforço de persuasão. Ao criticarem a tradicional abordagem pedagógica restrita à transmissão de informações técnicas sobre diabetes, lembram que muitos dos pacientes não estariam necessariamente interessados no diabetes enquanto assunto, mas no seu próprio diabetes, em suas experiências de vida27.

Essa visão de educação, centrada no indivíduo, valorizando a sua autonomia e responsabilidade, ancora-se em teorias humanistas do campo da educação de adultos e do aconselhamento psicológico e parece demarcar uma das importantes inflexões do campo, ainda que, na prática, conviva com outras referências, inclusive com o "velho" modelo de obediência às prescrições médicas28.

O mote da liberdade e autonomia do indivíduo, oriundo das abordagens humanistas, foi traduzido a partir de uma vertente atualizada da teoria behaviorista, notadamente no bojo da teoria social cognitiva de Bandura29 e do modelo de crenças em saúde30, no qual se sobressai a ideia de escolha do indivíduo.

Com tal tradução, ganha evidência o uso do termo empowerment, presente em pelo menos 4% do total de publicações examinadas. Funnel et al. foram responsáveis pelas duas primeiras publicações com uso desse termo, em 1991. Com o título "Empowerment: uma ideia que chega na educação em diabetes"31, os autores partem da definição do psicólogo Julian Rappaport, situando o empowerment, na educação em diabetes, como o processo que envolve a "descoberta e o desenvolvimento da inerente capacidade de ser responsável pela própria vida". Nessa visão há preponderância de uma lógica baseada na escolha da pessoa com diabetes, ainda que seja a de transferir a decisão sobre sua saúde para o profissional de saúde.

Não obstante essa apreensão, Anderson e Funnel32 chamam a atenção para os mitos e equívocos em torno do uso do conceito de empowerment, sobretudo quando os profissionais de saúde entendem o empoderamento como algo que se dá a alguém. Nesse manuscrito os autores recorrem à pedagogia de Paulo Freire para situar a noção de empowerment enquanto antítese da obediência. Nesse sentido, o papel da educação em diabetes e do profissional de saúde deixaria de ser o de convencer, persuadir ou mesmo empoderar a pessoa com diabetes, passando a concentrar-se nas funções de facilitar e apoiar as escolhas dos pacientes.

O empowerment, como alternativa às práticas prescritivas, envolve a redefinição de papéis e relações entre profissionais de saúde e pacientes e, consequentemente, o tipo de resultado que fornece, dada a peculiaridade das doenças crônicas, que fogem do modelo adotado para cuidados intensivos. Ao mesmo tempo, é preciso atentar-se para os desafios de assumir esse novo paradigma na prática, dado o enraizamento do modelo tradicional verticalizado que acompanha os profissionais de saúde desde a sua formação33.

Ainda que a referência ao empowerment, em suas diferentes leituras, tenha propiciado a valorização da experiência e da autonomia das pessoas que vivem com diabetes34, vale indicar um debate mais atual acerca dessa referência, que contrasta a lógica da escolha com a lógica do cuidado, conforme abordado pela filósofa Annemarie Mol em estudo envolvendo a atenção à saúde no contexto do diabetes. Ao criticar a lógica da escolha, que posiciona os pacientes como meros consumidores de serviços e produtos, a autora defende o caráter processual, interativo e dinâmico da atenção à saúde, cujos resultados nem sempre são previsíveis35.

Nessa linha, mas sem uma relação explícita com as considerações dessa autora, a exigência de um cuidado contínuo diante da cronicidade da doença, levou à mudança na abordagem proposta para a educação em diabetes. O Diabetes Self-management Education (DSME), processo visando facilitar os conhecimentos, as habilidades e capacidades necessárias para o autocuidado, passou a denominar-se Diabetes Self-management Education and Support22.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O exame dos websites das principais entidades ligadas ao diabetes, bem como do panorama sobre a produção acadêmica em torno da educação em diabetes, reafirmou o domínio da lógica biomédica no campo da educação em diabetes, subsumindo suas finalidades e o êxito das intervenções ao controle da doença, por meio de marcadores metabólicos.

Concorre para essa situação o fato de que campo da educação em diabetes, cujo próprio termo remete a uma patologia que indica uma disfunção metabólica, é protagonizado pela Medicina e pelos médicos, que ocupam lugar social distinto dos demais profissionais da saúde36.

A marcante presença de laboratórios farmacêuticos, por meio de patrocínios ou subsídios a programas e pesquisas concernentes à educação em diabetes, também pode justificar a proeminência da racionalidade biomédica, fragmentada e monetarizada e carreada pelo chamado complexo médico industrial37,38.

Nessa linha, a ADA e a ADCES mostraram ser importantes agentes influenciadores de discursos sobre a formação profissional de educadores em diabetes, abarcando grande parte das publicações sobre o assunto por meio de seus periódicos, cujo acesso é restrito.

Além disso, o papel dessas instituições na acreditação de programas de educação em diabetes e na formulação e atualização dos seus padrões de qualidade confere-lhe poderes no campo, como o de julgar aqueles aptos a pleitear reembolso do sistema de saúde norte-americano.

Ao lado dos sugestivos interesses envolvidos na institucionalização da educação em diabetes, envolvendo dinheiro e poder, foram identificadas as matrizes teóricas e conceituais que disputam esse campo. Diante do domínio de abordagens pedagógicas ancoradas na obediência às prescrições médicas, pesquisadores da Universidade de Chicago se destacaram por questionarem as práticas centradas nesses tipos de abordagens. Em especial, Martha Funnel teve papel marcante em uma inflexão pedagógica no campo ao propor a incorporação do conceito de empowerment nas práticas de educação em diabetes.

Considerando a sua formação em Enfermagem, o que a teria credenciado a operar esse tipo de transformação, em um campo marcado pelo habitus médico? Primeiro, o exame de sua trajetória levou a pressupor a sua ativa participação fora dos muros da academia, ocupando espaços em entidades como a ADA e colaborando com muitas de suas publicações. O modo contemporizador como questionou o modelo tradicional de obediência às prescrições ou mesmo de mudanças comportamentais também pareceu contribuir para que suas ideias tivessem lugar no campo. Ao invés de uma oposição radical ao discurso da obediência, ela acomodou o pensamento de Paulo Freire acerca do empowerment, acentuando mais a liberdade e menos as condições que possam restringi-la.

Ainda que tenha conseguido se inserir nos discursos, a ideia de empowerment não pareceu explorada em suas potencialidades, e a discussão sobre a lógica do cuidado aportou no campo da educação em diabetes por meio de uma única publicação39.

Exemplos como os de Martha Funnel e Robert Anderson mostraram que, embora não tenham operado transformações pedagógicas radicais no campo, serviram para questionar o pensar e o fazer na educação em diabetes, ainda que por meio da contemporização de matrizes teóricas híbridas.

Assume-se as limitações do panorama acima, tanto por restringir-se a uma única base de dados quanto pelo fato de a busca circunscrever-se ao termo "educação em diabetes". Tal restrição, entre outras, não oportunizou a exploração da produção brasileira sobre o tema, possivelmente identificada sob outros descritores.

No contexto nacional, tendo como norte os princípios constitucionais do Sistema Único de Saúde (SUS), das políticas de Educação Popular em Saúde40 e de Educação Permanente em Saúde41, é possível transcender as abordagens restritas ao controle dos níveis glicêmicos de pessoas com diabetes em favor de outras, que valorizem outras dimensões da vida das pessoas, como sugerido por Cyrino et al.34, que defendem a fecundidade da valorização da experiência e autonomia dos pacientes no seu cuidado, a partir de práticas de natureza mais dialógica.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    04 Abr 2022
  • Aceito
    16 Jul 2022
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