Resumo
Introdução: Desenvolvido entre 1990 e 1993, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) passou a incluir, a partir de 2006, os registros de violência interpessoal e autoprovocada. No entanto, para que os dados subsidiem ações efetivas de enfrentamento, é fundamental assegurar sua completude, consistência, validade e ausência de duplicidades.
Objetivo: Analisar a qualidade das notificações de violência interpessoal e autoprovocada registradas em Fortaleza, no período de 2015 a 2018.
Método: Estudo transversal, no qual a qualidade dos dados extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação foi avaliada quanto à adequação ao objeto de notificação, duplicidade, completude e consistência, com o cálculo da variação percentual para o período estudado.
Resultados: Foram analisados 10.969 registros, dos quais 976 (8,9%) apresentaram duplicidade e não adequação ao objeto de estudo. A completude apresentou aumento da variação percentual em 84% dos campos, sendo a "ocupação" o campo com menor completude (28,4%). Na análise de consistência apenas a relação entre "Lesão autoprovocada" e "Número de envolvidos" apresentou classificação regular, com 79,3%.
Conclusão: Houve melhora da adequação ao objeto de notificação, duplicidade de registros e consistência. Apontar as fragilidades presentes nos dados é fundamental para o planejamento de novas ações que visem a melhora dos bancos de dados, ação que impacta diretamente na construção de políticas públicas voltadas ao tema.
Palavras-chave:
vigilância em saúde pública; epidemiologia; violência; sistemas de informação em saúde; estudos transversais
Abstract
Background: Developed between 1990 and 1993, the Notifiable Diseases Information System began incorporating records of interpersonal and self-inflicted violence in 2006. However, to ensure that the data effectively support intervention strategies, it is essential to guarantee their completeness, consistency, validity, and absence of duplication.
Objective: To analyze the quality of notifications of interpersonal and self-inflicted violence registered in Fortaleza, from 2015 to 2018.
Method: Cross-sectional study, in which the quality of the data extracted from the Notifiable Diseases Information System was assessed for suitability for the notification’s object, duplicity, completeness and consistency, with the calculation of the percentage variation for the period studied.
Results: Of the 10,969 records analyzed, 976 (8.9%) showed duplicity and inadequacy to the object of study. Completeness showed an increase in the percentage variation in 84% of the fields, "occupation" being the field with the lowest completeness (28.4%). In the consistency analysis, only the relationship between "self-harm" and "number of people involved" had a regular classification, with 79.3%.
Conclusion: There was an improvement in the adequacy of the notification object, duplication of records and consistency. Pointing out the weaknesses present in the data is fundamental for planning new actions aimed at improving the databases, an action that directly impacts the construction of public policies focused on the theme.
Keywords:
public health surveillance; epidemiology; violence; health information systems; cross-sectional studies
INTRODUÇÃO
A consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) tornou possível a integração das informações em saúde. A análise dessas informações permite selecionar problemas-chaves e indicar ações governamentais para a sua resolução. Ademais, a análise de informações em saúde funciona como avaliação da efetividade e eficiência de intervenções e programas implementados, o que possibilita propor alterações para fortalecer as estratégias de governo1-3.
O atual Sistema de Informação em Saúde (SIS) tem como objetivo facilitar o acesso às informações e a elaboração de políticas e ações no âmbito da saúde. O SIS reúne informações de vários subsistemas, que incluem dados sobre natalidade, morbidade, mortalidade, informações hospitalares e ambulatoriais e dados referentes à atenção básica1.
Nesse cenário, entre 1990 e 1993, foi desenvolvido o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que coleta e processa os dados acerca dos agravos de notificação em todo o território nacional1. Para registrar as notificações de violência, foi instituído, em 2006, o Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva), sendo implementado inicialmente em serviços de referência e em seguida passando a integrar o Sinan4.
A utilização do Viva tornou-se necessária devido à urgência em tratar o assunto no âmbito da saúde. A violência configura-se como grave problema de saúde pública e, mesmo não sendo parte de sua gênese, uma parcela considerável dos encargos resultantes da violência incidem sobre o setor saúde5.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) conceitua a violência como o uso intencional de força física ou poder, ameaçados ou reais, contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo ou uma comunidade, que resultem ou tenham grande probabilidade de resultar em ferimento, morte, dano psicológico, mau desenvolvimento ou privação6. A violência traz repercussões biopsicossociais na vida das pessoas que a vivenciam. Os impactos vão desde lesões corporais a distúrbios de comportamento e adoecimento mental, afetando de modo direto a saúde e o bem-estar dos indivíduos7-9.
Em 2001, o Brasil passa a reconhecer oficialmente a necessidade de tratar a violência como uma questão de saúde pública a partir da aprovação da Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências10,11. Essa aprovação teve grande relevância diante da escalada de casos de violência no país. O Ceará, por exemplo, apresentou um crescimento expressivo de homicídios de adolescentes em 2020 — foram registrados 409, o que superou todo o acumulado de 2019, que foi de 355 casos. A capital, Fortaleza, foi a principal responsável por esse aumento12.
No cenário nacional, Fortaleza se destaca como a capital com maior densidade demográfica. Essa informação deve ser levada em consideração quando o assunto é violência, pois os dois são diretamente proporcionais13,14. O município foi citado no Atlas da Violência de 2019, onde apresentou elevado crescimento na taxa de homicídio em 201715. Esse aumento também foi observado nos registros do Sinan, embora aborde outros tipos de violência. Contudo, ele não deve ser atribuído somente à alta nos casos de violência, mas também à ampliação do número de unidades notificadoras. A notificação ainda não contempla a rotina de trabalho de muitos profissionais e, por isso, não se pode descartar a histórica subnotificação dos casos de violência, especialmente quando consideradas as violências mais sutis16.
Para que o Sinan possa gerar dados que subsidiem ações de enfrentamento à violência, em todas as esferas de governo torna-se essencial investir na eficiência, na qualidade e na fidedignidade das informações registradas17. O conceito de "qualidade da informação" é extenso e multidimensional, no entanto, é consenso o uso de algumas dimensões como a completude, a consistência, a não duplicidade e a validade dos dados18.
Analisar a qualidade das notificações é um processo dispendioso, porém necessário. Em Fortaleza, estudos anteriores, que se propuseram a avaliar as notificações, identificaram problemas como a ausência de informações no preenchimento das fichas de notificação de violência contra a mulher e problemas relacionados a divergências de informações entre o sistema local de informação e o Sinan19,20. A maior parte dos estudos é direcionada para análise do perfil epidemiológico e não para análise da qualidade. Contudo, os autores identificam falhas comuns no preenchimento das fichas de notificação, como: itens em branco; uso frequente da opção "ignorado"; e informações contraditórias21. Essas ocorrências reforçam a necessidade de avaliação mais criteriosa da qualidade das notificações, processo que pode permitir a correção das informações antes do registro final da notificação. Além disso, mostram a urgente necessidade de sensibilizar os atores envolvidos nesse processo para a importância do preenchimento adequado da ficha de notificação.
Diante disso, o presente estudo visa identificar as fragilidades presentes nos registros de violência interpessoal e autoprovocada do município. Sendo a violência interpessoal aquela na qual um ou mais agressores causam lesões em uma ou mais vítimas; e a violência autoprovocada quando a própria pessoa provoca lesões em si mesma.
A partir dessa análise é possível estabelecer novas estratégias para a qualificação do banco de dados municipal, fortalecendo a notificação com qualidade e aproximando do diálogo todos os atores envolvidos neste processo, como: os usuários, profissionais, gestores dos serviços de saúde, técnicos de vigilância em saúde, equipamentos sociais dos territórios e toda a rede de proteção social em articulação com o cuidado em saúde.
O objetivo do estudo foi analisar a qualidade das notificações de violência interpessoal e autoprovocada registradas em Fortaleza, no período de 2015 a 2018.
MÉTODOS
Estudo transversal acerca da qualidade das informações de violência interpessoal e autoprovocada notificadas no município de Fortaleza e registradas no Sinan nos anos de 2015 a 2018.
O local do estudo foi o município de Fortaleza, Ceará, situado na região Nordeste do Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) Cidades, em 2020 a capital cearense tinha população estimada de 2.686.612 habitantes e densidade demográfica de 7.786,44 habitantes por km2, correspondendo a maior densidade entre as capitais brasileiras. A rede pública de saúde do município conta com 115 unidades de Atenção Primária a Saúde (APS), 15 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), 10 hospitais, policlínica, centro de referência e atendimento à mulher em situação de violência, entre outras unidades, todas habilitadas para realização das notificações.
Os dados inseridos no estudo foram extraídos do Sinan local, por solicitação direta à Secretaria de Saúde Municipal, em 13 março de 2020. O estudo analisou as notificações que ocorreram entre 1o de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2018. O período selecionado para análise levou em consideração a atualização da ficha de notificações, que ocorreu em 2015, e o ano de 2018 por corresponder, até então, ao último ano de base consolidada, que se refere aos dados transferidos do Sinan local para a esfera superior.
O estudo foi dividido em duas etapas, nas quais foram avaliadas quatro dimensões da qualidade: adequação ao objeto de notificação e duplicidade dos registros, na primeira etapa; e completude das informações e consistência dos dados, na segunda etapa (Figura 1).
Fluxograma das etapas da avaliação da qualidade das notificações de violência interpessoal e autoprovocada registradas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação, Fortaleza, 2015 a 2018.
Primeira etapa
Adequação ao objeto de notificação
Os aspectos a serem considerados na análise do fenômeno da violência interpessoal e autoprovocada registradas pelo Sinan são de ordens como violência sexual, doméstica, de gênero, lgbtfóbica; contra crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência e demais públicos vulneráveis especificados nos manuais do Ministério da Saúde (MS)17,22. Foram excluídas as notificações que não estavam em concordância com a definição de caso de violência.
Registro de óbito;
Palavras feto, natimorto e aborto na variável "nome do paciente";
Homens adultos — homens de 20 a 59 anos — que "não" sofreram: violência sexual, tráfico de seres humanos, violência por tortura, violência legal, violência homofóbica ou lesão autoprovocada; quando o indivíduo não era indígena, pessoa com deficiência, gay, bissexual, travesti ou transexual; quando o autor da agressão não incluiu: pai, mãe, padrasto, madrasta, cônjuge, ex-cônjuge, namorado, ex-namorado, filho, irmão, própria pessoa, policial ou agente da lei; quando a descrição do campo "outros tipos de agressores" não incluiu autores com vínculo íntimo ou familiar;
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Registros com a opção "tipos de violência — outros" assinalados com: 1-sim e sem nenhum outro tipo de violência preenchido e com 1-sim, que apresentavam como especificação em (VIOL_ESPEC) as palavras:
Acidentes: acidentes de trânsito, atropelamento, trânsito, colisão, moto, carro, acidente, capotamento;
Uso abusivo de substâncias tóxicas: drogadição, uso de droga (s), drogas;
Situação de rua;
Sem especificação ou com uso de termos como: ignorado, numerais, sem informação.
Registros que não informavam o tipo da violência; fichas que apresentaram marcação em branco ou com as opções "2 – não" ou "9 – ignorado" para todos os tipos de violência e não se tratavam de lesão autoprovocada.
A adequação foi avaliada no software Excel com o auxílio de fórmulas para identificação dos critérios. Após a análise automática os itens foram conferidos manualmente.
Duplicidade
A caracterização dos casos de duplicidade seguiu a orientação do MS e ocorreu quando o mesmo usuário foi notificado mais de uma vez pela mesma ou por outra unidade de saúde, para o mesmo caso17.
Ocorreu a partir da análise de variáveis específicas: nome e sobrenome; data de nascimento; data da ocorrência; nome da mãe. Após a análise automática no software Excel, os casos prováveis, que poderiam incluir divergência ou possíveis erros de digitação, foram separados e analisados manualmente. Nessa revisão foram comparados os itens: hora da ocorrência, número do cartão do SUS, endereço, tipo de violência, provável autor da agressão e o conteúdo presente no campo observações adicionais.
Na análise desse critério, alguns erros de digitação dificultam a confirmação de duplicidades e podem interferir nas análises com a consequente redução do número de achados de duplicidade. Para reduzir esse viés, a análise de duplicidades foi realizada de forma manual, a fim de confirmar ou não os casos de duplicidade nas fichas que apresentavam alguma similaridade.
Em caso de confirmação da duplicidade, o registro mais completo foi selecionado, sendo os demais excluídos da base de dados. Para o banco de dados ser considerado aceitável, o número de duplicidade não deve ultrapassar o percentual de 5% dos casos23,24.
Segunda etapa
Completude
A completude foi avaliada pelo percentual de registros com informação ignorada ou em branco, sendo classificada em: excelente (≥95%), bom (90–95%), regular (70–90%), ruim (50–70%) e muito ruim (<50%)22. A base de dados inclui campos de preenchimento obrigatório e campos essenciais. Segundo o MS, campos obrigatórios são aqueles cuja ausência impossibilitam o cadastro da notificação e dificultam o processo de investigação; já os campos essenciais são aqueles que registram dados necessários à investigação do caso e auxiliam o cálculo de indicadores epidemiológicos11.
Ao todo foram avaliados 19 campos da ficha, divididos em campos obrigatórios — data de nascimento; gestante; município de ocorrência; local de ocorrência; essa violência foi motivada por; e sexo do provável autor da violência — e campos essenciais — raça/cor; escolaridade; nome da mãe; ocupação; situação conjugal/estado civil; orientação sexual; identidade de gênero; possui algum tipo de deficiência/transtorno; bairro; hora da ocorrência; ocorreu outras vezes; número de envolvidos; e suspeita de uso de álcool.
Consistência
Consistência refere-se à coerência entre as categorias assinaladas em dois ou mais campos relacionados12. Os resultados obtidos foram classificados em: excelente (>90%), regular (70–89%) e baixa (<70%)23.
Resposta positiva para "violência sexual" e negativa ou ignorada para "tipo de violência sexual";
Resposta positiva para "tipo de violência sexual: pornografia infantil" e "idade maior que 19 anos";
Sexo do autor da agressão: "masculino" e "vínculo com a pessoa agredida: mãe/madrasta"; ou "sexo do autor da agressão: feminino" e "vínculo com a pessoa agredida: pai/padrasto";
Resposta positiva para "gestante" e para "sexo: masculino" ou "idade menor que 9 anos";
Resposta positiva para "lesão autoprovocada" e para "vínculo/grau de parentesco com a pessoa atendida" (exceto "própria pessoa") e sem outro tipo de violência informado;
Resposta positiva para "lesão autoprovocada" e "número de envolvidos: dois ou mais ou ignorado".
As informações foram coletadas no Sinan local por meio do TabWin, sendo processadas e analisadas no software Excel. Os dados foram apresentados em forma de tabelas com a frequência e a respectiva categorização, segundo os critérios mencionados para cada dimensão. O período foi analisado a partir do cálculo da variação percentual (VP), que consiste na diferença percentual entre o primeiro e o último ano do estudo.
A pesquisa seguiu as recomendações éticas e garantiu o sigilo e a privacidade dos sujeitos cujos dados foram utilizados. Os resultados não contêm nenhuma informação pessoal e apenas o pesquisador responsável pela análise da duplicidade teve o referido acesso. A pesquisa restringiu ao máximo o acesso a esses dados e buscou garantir todas as medidas necessárias para proteção dessas informações. O estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Saúde Pública do Ceará em 5 de março de 2020, sob o parecer no 1.765.363.
RESULTADOS
Foram identificadas 10.969 notificações de violência interpessoal e autoprovocada no município de Fortaleza no período compreendido entre 1o de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2018. O número de notificações aumentou ao longo do período avaliado, e o mesmo foi observado no número de unidades notificadoras (Tabela 1).
Número de notificações registradas no banco de dados do Sinan e número de unidades notificadoras. Notificações de violência interpessoal/autoprovocada. Fortaleza (CE), 2015 a 2018.
Das notificações analisadas, 976 (8,9%) foram excluídas por não atenderem à definição de casos notificáveis e por caracterizarem-se como duplicadas (Tabela 2).
Frequências absoluta e relativa das notificações de violência interpessoal e autoprovocada excluídas por não adequação ao objeto de notificação e por duplicidade. Sistema de Informação de Agravos de Notificação, Fortaleza (CE), 2015 a 2018 (n=10.969).
A maior parte dos casos de não adequação ao objeto de notificação foram devido às notificações "sem nenhum tipo de violência informado", que inviabilizam o uso das informações presentes na ficha; e ao registro da ocorrência de violência contra "Homens 20 a 59", que não se enquadravam em nenhum critério de inclusão. Esses casos específicos de violência não são objetos de notificação do Sinan, sendo captados por outros sistemas de informação em saúde, de segurança pública e inquéritos epidemiológicos17. Seguiram, por tanto, para análise de completude e consistência 9.993 fichas de notificação.
Na análise de completude, os campos obrigatórios "data de nascimento" e "município de ocorrência" apresentaram classificação excelente em todo o período avaliado, com total de 99 e 99,4%, respectivamente. O único que obteve a classificação "muito ruim" foi o campo "ocupação" (28,4%). Quanto à variação percentual, o campo "hora da ocorrência" obteve crescimento de 61,5%; e "ocupação" apresentou queda de 20% na variação percentual (Tabela 3)17. Os campos "escolaridade", "identidade de gênero", "hora da ocorrência" e "suspeita de uso de álcool" apresentaram classificação ruim.
Percentual e classificação da completude de campos da ficha de notificações de violência interpessoal/autoprovocada do Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Fortaleza, 2015 a 2018 (n=9.993).
Para os campos com informações sobre a população LGBTQIAPN+ a opção "não se aplica" deve ser considerada apenas para casos de pessoas atendidas menores de 10 anos. Entretanto, o presente estudo observou 450 notificações de maiores de 10 anos com "não se aplica" assinalado no campo orientação sexual e 4.421 no campo identidade de gênero. Já ao se considerar apenas preenchimentos válidos e excluindo-se os menores de 10 anos, constatou-se 1,3% de travestis e transexuais em situação de violência dentre todas as notificações incluídas.
A avaliação da consistência apresentou classificação excelente em cinco das comparações realizadas. As variáveis "tipo de violência sexual — pornografia infantil versus idade" e "gestante versus sexo e idade" apresentaram as melhores médias, com 100% de consistência. Apenas a relação entre as variáveis "lesão autoprovocada versus número de envolvidos" apresentou classificação regular, com resultado médio de 79,3%. No entanto, observou-se variação percentual positiva no período, com 34,2% de aumento (Tabela 4)16.
Percentual e classificação de consistência entre variáveis analisadas da ficha de notificações de violência interpessoal/autoprovocada registradas no Sinan. Fortaleza (CE), 2015 a 2018 (n=9.993).
DISCUSSÃO
Os resultados mostraram aumento das notificações e do número de unidades notificadoras e a melhoria da qualidade entre 2015 e 2018. Observou-se redução do número de inadequações ao objeto de notificação; aumento da completude, exceto para a variável "ocupação"; e melhoria da consistência dos dados, em que apenas uma das relações avaliadas obteve classificação regular. Todavia, foi possível observar o aumento gradual da consistência ao longo do período estudado.
Avaliar a qualidade das notificações requer uma investigação ampliada, e o presente estudo limitou-se a averiguar o panorama geral acerca das notificações do município de Fortaleza, não sendo possível avaliar todas as dimensões da qualidade, como a confiabilidade, validade e cobertura. No entanto, os resultados obtidos podem orientar as ações do município de forma mais específica e fortalecer o processo de notificação com qualidade.
Os critérios iniciais para avaliação da qualidade foram a adequação ao objeto de notificação e a presença de duplicidade. A análise da duplicidade foi dificultada por erros de digitação nos campos "nome" e "data de nascimento", bem como pela ausência de preenchimento. Foram observadas durante a análise algumas falhas recorrentes, por exemplo, as múltiplas notificações de gestantes menores de 14 anos, que em alguns casos foram notificadas na primeira consulta, durante a gestação e no momento do parto. Situações como essa impossibilitam determinar casos de duplicidade real ou não. Essas ocorrências precisam ser filtradas e corrigidas em nível local, onde é possível adotar medidas para correção de eventuais discordâncias.
Na análise de completude foram identificados campos de preenchimento obrigatório com classificação regular, como a variável "gestante". A análise mostrou o uso indiscriminado da opção "ignorado", porém, trata-se de uma variável de grande relevância, que não pode ser desconsiderada. A violência durante a gestação está associada a graves riscos, para a mulher e a criança, como infecção do trato urinário, parto prematuro e baixo peso ao nascer25,27. Outro estudo, realizado em Dessie, na Etiópia, em 2019, mostrou que mulheres que sofreram violência psicológica têm probabilidade 6,5 vezes maior de desenvolver depressão pós-parto, em comparação a mulheres que não sofreram violência7.
Outra ocorrência preocupante foi a incompletude da variável "ocupação", com apenas 28,4% dos campos preenchidos. A ausência dessa informação inviabiliza a identificação de quais ocupações estão mais expostas a situações de violência, além de prejudicar a tomada de decisão e a implementação de estratégias para coibir ações violentas relacionadas ao trabalho. É válido destacar que um possível fator para essa incompletude é a dificuldade do profissional notificante em categorizar a ocupação, tendo em vista que deve ser preenchida em consonância com a classificação brasileira de ocupações.
Ainda com relação à dimensão da completude, vale destacar o preenchimento dos campos que visam captar informações sobre a população LGBTQIAPN+. Mesmo sendo campos de preenchimento obrigatório, "orientação sexual" e "identidade de gênero" não apresentaram bons resultados. As vulnerabilidades e ordens sociais de violência sob as quais esse público está submetido requerem evidenciar o agravo nos SIS oficiais e minimizar sua invisibilidade28. Contudo, a ficha de notificação de violência interpessoal apresenta limitações para esses campos ao não considerar a diversidade de formas de viver, orientações sexuais e identidades de gênero (não binários, gêneros fluídos, intersexos, pansexuais, assexuais). Além disso, as identidades que representam homens e mulheres cisgêneros não são mencionadas, podendo serem consideradas, de forma equivocada, como padrões de "normalidade" e com consequente patologização das vivências transexuais e travestis da população atendida28,29.
Identidades não heteronormativas sofrem mais violência e apresentam maiores riscos para suicídio. Um estudo realizado na região do Cariri, no sul do estado do Ceará, em 2018, observou que 98,9% dos homossexuais (gays e lésbicas), bissexuais, travestis e transexuais da região entrevistados relataram já ter sofrido algum tipo de violência30,31.
A sociedade espera que todos os indivíduos assumam papéis bem-definidos relacionados ao sexo e gênero e acabam por excluir um conjunto de corpos e condições de vida dissidentes32. Esses processos são replicados no âmbito da saúde com a patologização de corpos transexuais e travestis e desrespeito às suas vivências e identidades adotadas, como a não garantia do direito a serem identificados por seu nome social28,29. Isso pode explicar o distanciamento dessas pessoas dos serviços de saúde e a consequente subnotificação da violência.
A consistência apresentou melhores resultados em comparação à completude, com cinco variáveis apresentando classificação excelente. Em uma avaliação realizada em Santa Catarina, em 2018, na base de dados do Sinan, foi possível verificar achado similar, porém, nesse estudo, todas as relações entre as variáveis apresentaram classificação excelente33.
O preenchimento das fichas de notificação não pode ser visto como uma atividade meramente burocrática. Os profissionais precisam estar sensíveis à importância do preenchimento das fichas para a elaboração e avaliação de políticas públicas33. Uma ferramenta apontada como fundamental é o feedback dado ao profissional notificante. Saber quais estratégias estão sendo implementadas e visualizar o impacto dessas notificações na realidade da população pode aumentar o senso de responsabilidade dos profissionais24.
Ter a notificação fortalecida nos territórios permite o rastreamento de casos suspeitos de violência. E, a partir da identificação desses casos, é possível acionar a rede de proteção a fim de cessar o ciclo de violência no qual a pessoa atendida está inserida. É importante reforçar com os profissionais responsáveis pela notificação a importância de registrar todos os casos de violência, inclusive aqueles considerados “menos graves”, pois essa ação permite o acompanhamento da vítima pela rede de proteção. Além disso, é necessário compreender as razões apresentadas pelos profissionais para a não notificação, como a exposição dos profissionais ao agressor sem as devidas medidas de proteção, o constrangimento e a demora para o preenchimento da ficha, a alta demanda de trabalho nos serviços de saúde e a sensação de impotência dos profissionais diante dos casos34. Todos esses aspectos devem ser considerados para a tomada de ações que visem o fortalecimento das notificações.
Torna-se necessário, portanto, a reflexão sobre quais os impactos que as informações obtidas através das fichas de notificação têm na realidade da população. Essa discussão precisa ultrapassar o campo burocrático e se inserir no cotidiano dos profissionais de saúde. O processo de qualificação dos dados é uma tarefa que exige trabalho periódico e sistemático e, portanto, investimento em profissionais capacitados, tecnologia e educação permanente. Diante disso, o apoio institucional torna-se imprescindível nesse processo para prezar pela qualidade da informação.
O estudo observou melhora na qualidade dos dados notificados, considerando as dimensões da adequação ao objeto de notificação, duplicidade de registros e consistência. A análise de completude apresentou classificação regular, embora aponte crescimento no período avaliado. Com base nesses resultados podemos identificar fragilidades presentes nos registros de violência. É importante ressaltar que a avaliação da qualidade dos bancos de dados deve ser um trabalho contínuo, pois a sociedade e os territórios estão em constante modificação.
CONCLUSÃO
O estudo observou melhora na qualidade dos dados notificados, considerando as dimensões da adequação ao objeto de notificação, duplicidade de registros e consistência. Apenas a análise de completude apresenta classificação regular, embora aponte crescimento no período avaliado.
O processo de qualificação dos dados é uma tarefa que exige trabalho periódico e sistemático e, por tanto, investimento em profissionais capacitados, tecnologia e educação permanente. Diante disso, o apoio institucional torna-se é imprescindível nesse processo para prezar pela qualidade da informação. Os gestores dos serviços de saúde e das secretarias municipais utilizam os dados para direcionar políticas públicas e por isso é necessário que esses sejam confiáveis e que reflitam de forma fidedigna a realidade dos territórios.
Ao observar os registros é possível acompanhar casos recorrentes de violência. Situações que iniciam na infância e percorrem por toda a vida dos sujeitos, refletidas em diferentes tipos de violência. Dessa forma, ao analisar esses dados é possível testemunhar trajetórias de vida marcadas pela violência.
A notificação da violência e análise nos sistemas de informação em saúde é importante para fortalecer a noção de que o agravo é de interesse da saúde pública, o que muitas vezes é negligenciado pelos profissionais. Ter a notificação fortalecida nos serviços dos territórios proporciona a identificação dos casos suspeitos e confirmados e a consequente atuação da saúde em finalizar o ciclo de violência em que a pessoa atendida está inserida e articular a rede de proteção para o enfrentamento do problema.
Torna-se necessário, portanto, a reflexão sobre quais os impactos que as informações obtidas através das fichas de notificação têm na realidade da população. Essa discussão precisa ultrapassar o campo burocrático e se inserir no cotidiano dos profissionais de saúde. Pois, a identificação desses casos de violência na fase inicial permite que sejam traçadas estratégias que atuem na proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Além disso, o presente estudo visa estimular o fortalecimento da notificação com qualidade e trazer para esse processo todos os envolvidos: usuários, equipamentos sociais dos territórios e rede de proteção social em articulação com o cuidado em saúde, profissionais e gestores dos serviços de saúde, gestores e técnicos de vigilância em saúde dos municípios, dentre outros atores importantes para esse processo. Dessa forma, o aprofundamento das análises feitas e observância da metodologia utilizada pode ser importante para fomentar a reprodução de novos estudos em outros municípios e estados brasileiros.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo estão publicamente disponíveis Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
REFERÊNCIAS
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Editor responsável:
Guilherme L. Werneck https://orcid.org/0000-0003-1169-1436


