Open-access Hipertensão arterial sistêmica em idosos e fatores associados: estudo de base populacional

Systemic arterial hypertension in the elderly and associated factors: a population-based study

Resumo

Introdução:  A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) é uma condição clínica multifatorial caracterizada por elevação persistente da pressão arterial, apresentando prevalência superior a 60% em idosos no Brasil.

Objetivo:  Analisar a prevalência de HAS e os fatores associados em idosos de Teresina e Picos, no Piauí.

Método:  Estudo transversal, de base populacional e domiciliar, nos municípios de Teresina e Picos (Piauí). Foram coletados dados sociodemográficos, de estilo de vida, antropométricos e de pressão arterial, entre setembro de 2018 e fevereiro de 2020. Para análise estatística, realizaram-se testes de Mann Whitney-U e de ꭓ2, assim como regressão de Poisson, com variância robusta, bruta e ajustada.

Resultados:  A prevalência de HAS foi de 65,1%, e os fatores associados foram a idade (RP 1,18; IC95% 1,01–1,40), o excesso de peso (RP 1,22; IC95% 1,03–1,44) e a circunferência da cintura (RP 1,28; IC95% 1,01–1,63). Na análise por sexo, apenas em mulheres a HAS foi associada a excesso de peso (RP 1,41; IC95% 1,14–1,73) e circunferência da cintura (RP 1,82; IC95% 1,11–3,00).

Conclusão:  Houve elevada prevalência de HAS em idosos, sendo associada à idade, ao excesso de peso e à circunferência da cintura. Ressalta-se a importância da adequação do estado nutricional visando à melhora das condições de saúde dessa população.

Palavras-chave:
hipertensão arterial sistêmica; estado nutricional; fatores de risco; idoso

Abstract

Background:  Systemic arterial hypertension (SAH) is a multifactorial clinical condition characterized by persistent elevation of blood pressure, with a prevalence greater than 60% in the elderly in Brazil.

Objective:  To analyze the prevalence of SAH and associated factors in the elderly in Teresina and Picos, in Piauí.

Method:  A cross-sectional, population-based and household study in the municipalities of Teresina and Picos, Piauí. Sociodemographic, lifestyle, anthropometric and blood pressure data were collected between September 2018 and February 2020. For statistical analysis, Mann Whitney U and ꭓ2 tests were performed, as well as Poisson regression, with robust, raw and adjusted variance.

Results:  The prevalence of SAH was 65.1% and the associated factors were age (prevalence ratio — PR 1.18, 95% confidence interval — 95%CI 1.01–1.40), excess weight (PR 1.22; 95%CI 1.03–1.44) and waist circumference (PR 1.28; 95%CI 1.01–1.63). In the analysis by sex, only in women, SAH was associated with excess weight (PR 1.41; 95%CI 1.14–1.73) and waist circumference (PR 1.82; 95%CI 1.11–3.00).

Conclusion:  There was a high prevalence of SAH in the elderly, associated with age, overweight and waist circumference. The importance of adequate nutritional status is highlighted, aiming at improving the health conditions of this population.

Keywords:
systemic arterial hypertension; nutritional status; risk factors; old adult

INTRODUÇÃO

Diversas mudanças têm sido observadas na população brasileira, como aumento na expectativa de vida e diminuição das taxas de natalidade, o que gera modificações no perfil demográfico e epidemiológico. O crescimento da população idosa é acompanhado por alterações importantes no perfil de morbimortalidade, com aumento na prevalência de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs)1.

Entre as DCNTs, se observa elevadas prevalências de Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) em idosos em todo o mundo2-4 e no Brasil5-7. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existe uma relação linear direta entre a pressão arterial e a idade, sendo a prevalência de HAS superior a 60% em idosos no Brasil8.

A HAS é uma DCNT de causa multifatorial, caracterizada por elevação persistente da Pressão Arterial Sistólica (PAS) maior ou igual a 140 mmHg e/ou pressão arterial diastólica (PAD) maior ou igual a 90 mmHg9.

A HAS é conhecida como a principal causa evitável de morte prematura no mundo, ainda que seja considerada uma doença crônica de fácil prevenção, simples diagnóstico e com tratamento consideravelmente mais barato10. Ademais, a HAS é o fator de risco modificável mais importante para eventos cardiovasculares, incluindo morte cardíaca, doença coronariana, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico. Portanto, entender como prevenir a HAS é fundamental para reduzir a mortalidade cardiovascular e reduzir a carga da doença11.

Muitos são os fatores de riscos relacionados à HAS, sendo classificados em não modificáveis, que se referem a características que não podem ser controladas ou alteradas, a exemplo de idade, sexo, etnia e genética, e em modificáveis, que podem ser controlados ou alterados, e incluem excesso de peso e obesidade, ingestão de sal, consumo de álcool, tabagismo, sedentarismo e fatores socioeconômicos9.

Embora existam estudos populacionais, em nível nacional, sobre prevalência de HAS em idosos e fatores associados8,12, estas pesquisas investigam dados autorrelatados e incluem apenas as capitais brasileiras. Isso demonstra a carência de estudos de base populacional e domiciliar com idosos de municípios brasileiros, como Teresina (Piauí – PI) e Picos (PI). Essas cidades são a primeira e segunda maiores cidades do Piauí, em termos populacionais, que não estão na faixa litorânea, e Teresina é a única capital do Nordeste não banhada pelo mar, o que caracteriza um diferencial, visto que pessoas que moram na faixa litorânea possuem hábitos saudáveis, como maior ingestão de peixes13, o que pode contribuir para a melhor saúde cardiovascular.

Diante disso, faz-se necessário investigar a situação de saúde dos idosos, em relação à presença de HAS e seus fatores de risco, a fim de fornecer informações para estratégias de prevenção e controle. Portanto, o objetivo do estudo foi analisar a prevalência de HAS e os fatores associados em idosos nos municípios de Teresina e Picos, no Piauí.

MÉTODO

Delineamento do estudo

Estudo transversal, de base populacional, realizado com idosos (≥60 anos) residentes na área urbana dos municípios de Teresina e Picos, localizados no estado do Piauí. O estudo é derivado da pesquisa intitulada "Inquérito de saúde de base populacional nos municípios de Teresina e Picos (PI)".

Para o estudo, eram elegíveis todos os indivíduos residentes em domicílios particulares, exceto aqueles que apresentassem quaisquer deficiências ou incapacidades que impossibilitassem a realização da pesquisa. Para esse recorte, foram selecionados indivíduos idosos de ambos os sexos do município de Teresina e Picos (PI).

O plano de amostragem do estudo foi realizado por processo de amostragem por conglomerados, em dois estágios: Unidades Primárias de Amostragem (UPA) e domicílios, com base nos dados do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o ano de 201014.

Para o cálculo do tamanho da amostra, considerou-se o tamanho da população de Teresina (767.557 habitantes) e da população de Picos (58.321 habitantes), assim como a estratificação da população de ambas as cidades de acordo com a idade dos indivíduos para ambos os sexos: crianças menores de 2 anos; crianças de 3 a 4 anos; crianças de 5 a 9 anos; adolescentes de 10 a 14 anos; adolescentes de 15 a 19 anos; adultos de 20 a 59 anos e idosos com mais de 60 anos.

Tendo em vista que o município de Teresina contava com 210.093 domicílios particulares, em 2010, e que Picos contava com 16.949, foi calculado o número médio de indivíduos de cada grupo etário por domicílio em cada cidade. Assim, a amostra inicial consistiu em n ≅642 domicílios em Teresina, distribuídos em 30 UPA, e n ≅688 domicílios em Picos, distribuídos em 24 UPA, selecionados com equiprobabilidade.

Ao final, obteve-se uma amostra de 370 idosos de 60 anos ou mais nas cidades de Teresina e Picos (PI). Desses, 226 idosos residiam em Teresina e 144 em Picos. Para este artigo, foram excluídos 20 idosos por ausência de dados relativos à pressão arterial aferida e dados antropométricos, totalizando 350 idosos incluídos no presente estudo. Mais detalhes acerca do tamanho da amostra e do plano de amostragem do "Inquérito de saúde de base populacional nos municípios de Teresina e Picos (PI)" foram publicados no estudo de Rodrigues et al.15

Critérios de elegibilidade

Foram elegíveis para este estudo idosos com idade igual ou superior a 60 anos, residentes em área urbana e em domicílios particulares permanentes nos municípios de Teresina e Picos (PI). Foram inelegíveis os idosos residentes nos domicílios que apresentaram quaisquer deficiências ou incapacidades que dificultassem a aplicação dos questionários ou a avaliação antropométrica.

Coleta de dados

Os domicílios sorteados para a pesquisa foram visitados por uma equipe multiprofissional, previamente treinada. Em caso de domicílios fechados, foram feitas três tentativas para coletar os dados. Os questionários foram aplicados por meio de dispositivos móveis utilizando o aplicativo Epicollect 5® (Imperial College London).

Foram coletados dados sociodemográficos (idade, sexo, renda familiar, escolaridade, situação conjugal e cor da pele), de estilo de vida (atividade física, tabagismo e etilismo), antropométricos (peso, altura e circunferência da cintura) e quanto à presença de doença crônica, como a hipertensão arterial. Os questionários foram construídos com base em dois inquéritos populacionais brasileiros: "ISA 2008: Inquéritos de Saúde na cidade de São Paulo", de Fisberg e Marchioni16, e na Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo IBGE17.

O nível de prática de atividade física foi avaliado utilizando a versão curta do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ)18, em que se obteve o total de minutos praticado. Em seguida, o tempo em minutos foi classificado de acordo com a OMS19 que, para idosos, recomenda pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica por semana, de intensidade moderada, ou 75 minutos por semana de atividade com intensidade vigorosa.

Os dados sobre consumo de álcool foram coletados por meio da resposta à pergunta: "O(a) senhor(a) consome ou já consumiu bebidas alcóolicas?", com respostas fechadas do tipo "Sim", "Não" e "Não sei/Não respondeu". Do mesmo modo, os dados sobre tabagismo foram obtidos por meio da pergunta: "O(a) senhor(a) fuma atualmente ou já fumou?", com respostas fechadas do tipo "Sim", "Não" e "Não sei/Não respondeu".

Aferições antropométricas

Para a aferição antropométrica foram realizados treinamento e padronização da equipe de acordo com diretrizes do Laboratório de Estudos Populacionais (LANPOP) da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). A avaliação antropométrica foi realizada com a aferição das variáveis peso, altura e Circunferência da Cintura (CC).

Os dados antropométricos foram aferidos de acordo com recomendações de Cameron20 e Jelliffe e Jelliffe21. Os participantes foram pesados com o auxílio de balança portátil, com capacidade máxima de 150 kg, de escala eletrônica, estando os indivíduos descalços e usando roupas leves. A altura foi mensurada, em centímetros, usando estadiômetro desenvolvido segundo recomendações do LANPOP da FSP/USP. Os participantes foram colocados em posição ereta, descalços, com os braços estendidos ao longo do corpo, calcanhares firmemente apoiados no chão, joelhos próximos e estendidos, pés unidos, com a cabeça erguida e olhando para um ponto fixo na altura dos olhos.

O Índice de Massa Corporal (IMC) foi obtido a partir da divisão do peso (em kg) pela altura em metros quadrados (m2). O valor obtido de IMC foi classificado conforme os valores estabelecidos por Lipzchit22: IMC menor que 22 Kg/m2 (baixo peso), entre 22 e 29 kg/m2 (eutrofia) e acima de 27 kg/m2 (sobrepeso).

As medidas da CC foram aferidas utilizando fita métrica, flexível e não extensível, com precisão de 0,1 centímetro, no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca. Os participantes ficaram em posição ereta, com abdômen relaxado, braços estendidos ao longo do corpo e pernas paralelas, ligeiramente afastadas23. A classificação da CC foi obtida de acordo com os pontos de corte preconizados pela World Health Organization (WHO)24, que sugere que não ultrapasse 94 cm nos homens e 80 cm nas mulheres.

Aferição e classificação da pressão arterial

A pressão arterial foi aferida com auxílio de esfigmomanômetro aneroide (Durashock Welch AllynTycos®, NY, USA, Modelo DS-44), devidamente calibrado, utilizando-se manguitos de 25 cm a 34 cm, apropriados para a circunferência dos braços dos idosos.

A medida foi obtida após descanso de três a cinco minutos, nos dois braços por vez, com os indivíduos sentados, com pernas descruzadas, pés apoiados no chão, dorso recostado na cadeira, relaxado, com o braço na altura do coração, apoiado e com a palma da mão voltada para cima. Foram realizadas pelo menos duas medidas no intervalo de um minuto, conforme preconiza a VII Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial25. Para a análise dos dados, utilizou-se a média das duas medidas de pressão arterial. A HAS foi identificada quando se verificaram valores de Pressão Arterial Sistólica (PAS) ≥140 mmHg ou de Pressão Arterial Diastólica (PAD) ≥90 mmHg; uso regular de anti-hipertensivos relatado pelo idoso; e/ou autorrelato de diagnóstico prévio de hipertensão, independentemente do valor da pressão arterial; normotensos com PAS ≤120 mmHg e PAD <80 mmHg; e pré-hipertenso, com PAS entre 121 e 139 e/ou PAD entre 81 e 89 mmHg25. Para as análises estatísticas, as categorias de normotensos e pré-hipertensos foram agrupadas, uma vez que a prevalência do diagnóstico de hipertensão arterial foi o desfecho investigado.

Análise estatística

Para as variáveis que apresentavam valores faltantes, optou-se por realizar a imputação pelo método Predictive Mean Matching, sendo que o percentual de dados imputados não excedeu 20%. Não houve ponderação dos dados, tendo em vista a probabilidade de a seleção da amostra ter sido equiprobabilística. Todas as análises foram feitas no módulo Survey, do Stata, considerando a amostragem complexa, a fim de que os resultados obtidos fossem representativos da população total dos municípios de Teresina e Picos.

As frequências absolutas e relativas foram analisadas por meio de estatística descritiva, sendo a homogeneidade das variâncias demonstrada por meio do teste de Levene. Para verificar as associações entre as variáveis categóricas, foi utilizado o teste de qui-quadrado de Pearson. Para verificar as associações entre a prevalência de HAS e os fatores associados, foi realizada regressão de Poisson, expressa em razão de prevalência, com variância robusta, bruta e ajustada para potenciais fatores de confusão, como idade, sexo, consumo de álcool, tabagismo e prática de atividade física, uma vez que são fatores já bem estabelecidos na literatura científica como associados ao desenvolvimento de HAS.

Devido às diferenças existentes entre os sexos, quanto aos fatores associados investigados — a exemplo do consumo de álcool e da composição corporal, cujo metabolismo e distribuição corporal apresentam-se diferentes quanto ao sexo, respectivamente —, poderem influenciar no próprio desfecho investigado, optou-se por estratificação por gênero nas análises da associação entre a presença de HAS e os fatores pesquisados. Para a variável hipertensão arterial, foram considerados os indivíduos que autorreferiram ser hipertensos, além daqueles que tiveram o diagnóstico de hipertensão após aferição da pressão arterial.

As análises foram realizadas no programa Stata (for Windows® versão 13.0). Para todos os testes foram adotados nível de significância de 5% (p<0,05) e intervalos de confiança de 95% (IC95%).

Aspectos éticos

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), com Protocolo no 2.552.426, de acordo com a Resolução 466/201226. Os indivíduos que concordaram em participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

RESULTADOS

O estudo incluiu 350 idosos entrevistados. Na amostra deste estudo foi observada uma média de idade de 69,9 anos, sendo que em homens foi de 70,3 anos e em mulheres foi de 69,6. A média do valor do IMC foi de 26,8 kg/m2, obtendo-se 26,1 kg/m2 em homens e 27,1 kg/m2 em mulheres. Com relação à CC, foi encontrada uma média de 93,0 cm, onde em homens foi de 95,0 cm e em mulheres foi de 91,0 cm. Observou-se diferença significativa entre os gêneros apenas quanto à CC (p=0,0009).

As características socioeconômicas e demográficas, o estilo de vida, o estado nutricional, a circunferência da cintura e a presença de hipertensão na população são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1
Caracterização dos participantes do estudo. Teresina e Picos (PI), Brasil, 2020.

A prevalência de HAS observada nos participantes do estudo foi elevada: de quase dois terços do total de idosos, o que corresponde a 65,1%, fato que é esperado devido à especificidade da amostra, a qual foi composta exclusivamente por idosos. Ademais, observase que houve diferença significativa entre os sexos quanto à situação conjugal. A maioria dos homens eram casados ou estavam em união estável (78,8%), enquanto as mulheres eram majoritariamente divorciadas ou viúvas (51,3%), conforme Tabela 1.

Quanto aos hábitos de vida, 80,0% dos idosos referiram não consumir bebidas alcóolicas, contudo esse hábito foi relatado em maior frequência pelos homens (homens: 35,6% vs. mulheres: 12,1%; p=0,001). A maioria dos idosos referiu não ter o hábito de fumar (58,6%), no entanto o hábito de fumar foi associado significativamente ao sexo masculino (p=0,003). No que concerne à prática de atividade física, 52,0% dos idosos foram classificados como inativos, não havendo diferenças entre os sexos (Tabela 1).

O estado nutricional, avaliado por meio do IMC, não foi associado estatisticamente ao sexo. No entanto, ao utilizar uma medida de composição corporal (CC), notou-se que essa variável foi mais sensível para demonstrar associação significativa com o gênero, cuja prevalência de inadequação foi maior no sexo feminino (84,4%), conforme Tabela 1.

A Tabela 2 apresenta a prevalência e a razão de prevalência de hipertensão em idosos de acordo com características socioeconômicas e demográficas, estilo de vida, estado nutricional e circunferência da cintura.

Tabela 2
Caracterização dos participantes do estudo. Teresina e Picos (PI), Brasil, 2020.

Observou-se associação significativa entre a faixa etária e a presença de HAS na análise bruta, em que os idosos com 70 anos ou mais apresentaram 18% maior prevalência de HAS quando comparados aos de 60 a 69 (RP 1,18; IC95% 1,01–1,40), contudo esta associação não foi mantida após ajustes (Tabela 2).

Quanto ao estado nutricional, nota-se uma associação entre o excesso de peso e a presença de HAS na análise bruta e ajustada, de modo que, após ajustes, quem possuía excesso de peso apresentou 22% maior prevalência de HAS quando comparado aos idosos com eutrofia/baixo peso (RP 1,22; IC95% 1,03–1,44), conforme Tabela 2.

A Tabela 3 expressa os resultados da Razão de Prevalência entre presença de HAS em idosos e fatores de riscos associados, segundo o sexo. Quando analisado por sexo, apenas o feminino apresentou associação significativa entre o excesso de peso e a presença de HAS (p=0,001). A CC apresentou-se associada à presença de HAS em mulheres, de modo que as mulheres com CC aumentada apresentavam prevalência de HAS 82% maior quando comparadas com aquelas com CC adequada, após ajustes para variáveis de confusão (RP 1,82; IC95% 1,11–3,00).

Tabela 3
Prevalência e razão de prevalência entre a presença de hipertensão arterial e fatores de riscos associados em idosos, segundo sexo. Teresina e Picos (PI), Brasil, 2020.

O sexo mostrou-se uma variável modificadora de efeito entre idade e principalmente entre as medidas de massa corporal e presença de HAS, onde as mulheres apresentaram prevalência de HAS 24% maior em idosas com idade igual e maior que 70 anos (RP 1,24; IC95% 1,01–1,52), sendo estatisticamente significativa apenas na análise bruta (p=0,03). As mulheres também apresentaram prevalência de HAS 41% maior quando comparadas com as eutróficas, após ajustes (RP 1,41; IC95% 1,14–1,73) (p=0,001), conforme Tabela 3.

DISCUSSÃO

O presente estudo apresenta pela primeira vez a situação de saúde de idosos domiciliados em Teresina e Picos em relação à presença de HAS e fatores associados. No que se refere aos fatores comportamentais, observou-se que a maioria dos idosos era inativo e que o consumo de álcool e cigarros foi mais prevalente em homens. Quanto ao estado nutricional, a prevalência de CC elevada foi maior no sexo feminino. Ademais, houve elevada prevalência de HAS na amostra total, observando-se associação significativa com obesidade abdominal. Nas análises por gênero, verificou-se que mulheres com idade maior ou igual a 70 anos, com excesso de peso e CC elevada apresentavam significativamente maior prevalência de HAS.

No que se refere à prevalência de HAS, a elevada frequência encontrada nos idosos do estudo corrobora outros achados7,27, que mostraram uma prevalência de HAS maior entre os indivíduos com 70 anos ou mais. A HAS é comum em idosos e tem sua prevalência aumentada pelo envelhecimento, condicionando, dessa maneira, a maior morbimortalidade dessa população. Ademais, com o passar da idade, as pessoas ficam mais sujeitas a outros fatores de risco, como o excesso de peso, a CC elevada e o enrijecimento arterial28.

No estudo de base populacional realizado em Goiânia (GO)7, a prevalência de HAS foi de 74,9%, sendo maior quando comparada à prevalência de 65,1% encontrada no presente estudo. Entretanto, ambas as prevalências são igualmente relevantes, de modo que a HAS atinge mais da metade da amostra de idosos dessas cidades.

Ademais, nota-se, ainda, que a prevalência de hipertensão em idosos encontrada no presente estudo é maior do que a de idosos encontrada em cidades litorâneas, apresentada em outros estudos29,30. Isso pode estar relacionado ao fato de as pessoas que moram na faixa litorânea possuírem hábitos saudáveis, como maior consumo de peixes13, o que pode contribuir para a melhor saúde cardiovascular.

O consumo de álcool em idosos também foi investigado em outros estudos31,32, sendo observada a redução do consumo de álcool com o aumento da idade e o hábito mais frequente de ingerir álcool entre os homens. É sabido que o consumo de álcool pode aumentar a pressão arterial e contribuir para o desenvolvimento da hipertensão33,34. Embora o consumo de álcool tenha associação com HAS33, no presente estudo essa evidência não foi observada, provavelmente devido ao tamanho da amostra, que reduz o poder do teste estatístico.

O hábito de fumar mais frequente em homens também foi visto no estudo de Beltrame et al.35, com 4.023 idosos, o qual mostrou que os do sexo masculino têm mais chances de serem consumidores de tabaco do que as mulheres (OR 2,77; IC95% 2,31–3,31). Isso se deve a fatores históricos e socioculturais que relacionam esse hábito ao sexo masculino36. Sabe-se que o tabagismo é um importante fator de risco para doenças cardiovasculares e hipertensão pois está associado ao estresse oxidativo e induz a reprogramação metabólica, alterando a função mitocondrial37.

A CC alterada foi mais frequente nas mulheres, concordando com resultados de outros estudos1,32,38. As mulheres tendem a acumular mais gordura visceral e subcutânea do que os homens, possuem diferenças no padrão alimentar, além da menopausa ser acompanhada pelo aumento de peso e de adiposidade39. A concentração excessiva de gordura na região abdominal está relacionada à maior incidência de alterações metabólicas, particularmente as doenças cardiovasculares, entre elas, a hipertensão40. O estudo de Zhao et al.41 esclarece que o aumento da CC reflete em um acúmulo específico de tecido adiposo visceral, o qual pode causar resistência à insulina por aumento da concentração portal de ácidos graxos livres, o que contribui para fatores de risco cardiometabólico, incluindo aumento da pressão arterial.

Entretanto, diferentemente do observado no presente estudo, na análise estratificada por gênero, em que a CC se manteve significativamente associada à HAS apenas em mulheres idosas (RP 1,82; IC95% 1,11–3,00), em pesquisa realizada em Goiânia (GO) com 418 idosos, a obesidade abdominal manteve-se associada positivamente à presença de HAS apenas em homens idosos, após ajustes38. Tal disparidade pode ser explicada pelas diferenças dos métodos de seleção de variáveis confundidoras e de ajuste do modelo da análise de regressão utilizados em cada estudo.

A razão de prevalência mostra que idosos com excesso de peso têm 22% maior chance de serem hipertensos (RP 1,22; IC95% 1,03–1,44), resultados semelhantes aos encontrados em outros trabalhos42-45, como observado em estudo realizado em Uberaba (Minas Gerais – MG)44, no qual idosos com excesso de peso apresentaram 2,52 vezes maior razão de chances de HAS (OR 2,52; IC95% 1,72–3,67), corroborando com o presente estudo, no qual a associação foi igualmente significativa e positiva.

Na análise estratificada por gênero, o excesso de peso permaneceu significativamente associado à HAS em mulheres neste estudo, resultado que pode ser explicado pelo fato de as mulheres estarem associadas a maiores índices de IMC e circunferência da cintura em relação aos homens, pois acumulam mais gordura visceral e subcutânea do que eles; por existirem diferenças no padrão alimentar entre os sexos; e por a menopausa ser acompanhada pelo aumento de peso e adiposidade32,46.

O excesso de peso constitui per se um fator de risco para doença cardiovascular, tal como a HAS, visto que ambos potencializam o surgimento de patologia cardíaca. Pessoas com excesso de peso têm o débito cardíaco e o volume sanguíneo aumentados, assim como as paredes dos vasos arteriais mais rígidas, podendo desenvolver a HAS46. Essas alterações são consequência do aumento da secreção de insulina como reação a taxas de açúcar no sangue frequentemente elevadas. O excesso de insulina leva ao espessamento dos vasos sanguíneos, o que causa aumento do débito cardíaco e favorece a reabsorção do sal e da água pelos rins47.

Uma possível explicação para o fato de a HAS ser mais prevalente em mulheres está relacionada a um aumento da pressão arterial na pós-menopausa devido a mudanças dramáticas nos níveis de hormônios sexuais. Além disso, as mulheres têm uma expressão mais baixa do receptor de angiotensina II tipo 1, enzima de conversão da angiotensina e renina plasmática em comparação com os homens, e a queda nos níveis de estrogênio resulta em redução da biodisponibilidade de NO e melhora da atividade da angiotensina II, que causa insuficiência renal, manipulação de sódio, estresse oxidativo e pressão arterial elevada48.

É importante referir algumas limitações deste estudo, como a não avaliação da dose e frequência no consumo de álcool, o que limita a classificação do consumo e sua relação com HAS. Além disso, por se tratar de um estudo transversal, não é capaz de inferir as mudanças ocorridas ao longo do tempo e garantir a causalidade das associações. Contudo, a presente pesquisa apresenta uma amostra representativa de idosos de dois municípios do Piauí com dados de situação de saúde, o que possibilita o desenvolvimento de estratégias para a prevenção primária, objetivando a redução da morbimortalidade e a melhora da qualidade de vida dessa população.

Diante da elevada prevalência de HAS e da sua associação com idade, estado nutricional e CC nos idosos do presente estudo, ressalta-se a importância de modificações no estilo de vida, visando ao incremento na prática de atividade física e à adequação do estado nutricional. Assim, faz-se necessário, por parte dos governantes, a elaboração de políticas públicas preventivas e de controle, o acompanhamento nutricional, a sensibilização quanto ao autocuidado e o tratamento da HAS.

  • Fonte de financiamento:
    Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. CAPES AUXPE 2533/2015.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    26 Mar 2021
  • Aceito
    20 Out 2022
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