Open-access Inteligência Artificial Generativa e seu Impacto na Formação e no Exercício Profissional da Psicologia

Generative Artificial Intelligence and its Impact on Training and Professional Practice in Psychology

Inteligencia Artificial Generativa y su Impacto en la Formación y el Ejercicio Profesional de la Psicología

Resumo:

O artigo discute os impactos da inteligência artificial (IA) generativa na formação e no exercício profissional da Psicologia. O autor argumenta que a IA, ao dominar a linguagem natural, adentra o campo da produção de sentido, simulando subjetividade sem, contudo, possuir consciência ou vivência emocional. Essa capacidade desafia o papel tradicional do psicólogo como mediador exclusivo entre o conhecimento científico e o usuário dos serviços. A difusão rápida dessas tecnologias amplia o acesso a recursos psicológicos, mas também impõe desafios éticos, regulatórios e formativos. Organizações profissionais internacionais reconhecem o impacto inevitável da IA, apontando a urgência de respostas regulatórias e de capacitação da categoria. No Brasil, o sistema de conselhos e a formação acadêmica ainda carecem de diretrizes específicas sobre IA generativa. A resistência histórica da Psicologia brasileira diante das tecnologias digitais agrava esse cenário. O texto aponta lacunas curriculares, necessidade de novas competências, como literacia algorítmica e ética digital, e destaca a importância de um reposicionamento crítico por parte dos profissionais. Por fim, o autor defende a adoção de uma postura proativa, evitando reações ludistas, e reforça a urgência de uma atuação estratégica das instituições formadoras e dos órgãos de regulação para que a Psicologia possa acompanhar e governar esse processo de transformação.

Palavras-chave:
Transformação digital na psicologia; Subjetividade e inteligência artificial; Ética profissional em saúde mental digital

Abstract:

This study examines the impacts of generative artificial intelligence (AI) on the education and professional practice of psychology. It argues that, by mastering natural language, AI enters the domain of meaning production, simulating subjectivity without consciousness or emotional experiences. This capacity challenges psychologists’ traditional role as the exclusive mediators between scientific knowledge and service users. The rapid diffusion of these technologies expands access to psychological resources and offers ethical, regulatory, and educational challenges. International professional organizations acknowledge the inevitable impact of AI, highlighting the urgency of regulatory responses and professional training. The professional councils and academic training in Brazil still lack specific guidelines regarding generative AI. The historical resistance of Brazilian psychology to digital technologies exacerbates this scenario. This study curricular gaps, the need for new competencies (such as algorithmic literacy and digital ethics), and emphasizes the importance of a critical repositioning from professionals. Finally, this study defends a proactive stance that avoids Luddite reactions and reinforces the urgency of a strategic response by educational institutions and regulatory bodies so that psychology can adapt to and govern this ongoing process of transformation.

Keywords:
Digital transformation in Psychology; Subjectivity and Artificial Intelligence; Professional ethics in digital mental health

Resumen:

Este artículo analiza los impactos de la inteligencia artificial (IA) generativa en la formación y el ejercicio profesional de la Psicología. Sostiene que la IA, al dominar el lenguaje natural, penetra en el campo de la producción de significado simulando subjetividad sin poseer conciencia o experiencia emocional. Esta capacidad desafía el rol tradicional del psicólogo como mediador exclusivo entre el conocimiento científico y el usuario de los servicios. La rápida difusión de estas tecnologías amplía el acceso a recursos psicológicos y también plantea desafíos éticos, regulatorios y formativos. Las organizaciones profesionales internacionales reconocen el impacto inevitable de la IA y señalan la urgencia de respuestas regulatorias y de capacitación de la categoría. En Brasil, el sistema de consejos y la formación académica aún carecen de directrices específicas sobre la IA generativa. La resistencia histórica de la Psicología brasileña frente a las tecnologías digitales agrava este panorama. Este texto señala lagunas curriculares, la necesidad de nuevas competencias como la alfabetización algorítmica y la ética digital, y destaca la importancia de un reposicionamiento crítico por parte de los profesionales. Finalmente, defiende la adopción de una postura proactiva evitando reacciones ludistas y refuerza la urgencia de una actuación estratégica de las instituciones formadoras y de los órganos de regulación para que la Psicología pueda acompañar y gobernar este proceso de transformación.

Palabras clave:
Transformación digital en Psicología; Subjetividad e Inteligencia Artificial; Ética profesional en salud mental digita

A Inteligência Artificial (IA) generativa emergiu como uma tecnologia transformadora em diversas áreas do conhecimento e da prática profissional. Seu impacto sobre a Psicologia, tanto na formação quanto no exercício profissional, é particularmente relevante. Historicamente, a Psicologia tem como objeto central o estudo do comportamento humano, dos processos mentais e emocionais, e suas relações sociais e interpessoais. Por décadas, as ferramentas tecnológicas foram utilizadas na profissão, principalmente como suporte complementar em diagnósticos, avaliações e tratamentos. E, mais recentemente, como mediadora de interação entre o profissional e o usuário dos serviços psicológicos. Contudo, o aparecimento da IA generativa trouxe uma nova dimensão para essa relação entre tecnologia e prática psicológica. Ela amplia de forma significativa as possibilidades de diagnóstico e intervenção, sendo capaz de reconfigurar aspectos importantes do exercício e da formação profissional. Os sinais de que estamos vivenciando uma revolução do conhecimento com profundos impactos na psicologia (Abrams, 2025) estão amplamente disponíveis e ao alcance de todos.

As discussões em torno da ideia de uma inteligência não humana – ou de uma inteligência alienígena, como propõe Harari (2025) – surgiram no início dos anos 1950. Entretanto, somente na segunda metade do ano de 2023, ela captura a atenção do grande público com o aparecimento de aplicações comerciais baseadas em grandes modelos de linguagem (Large Language Models – LLM, em inglês), que podem ser acessados em linguagem natural (Peixoto, 2025), e que são capazes de entregar respostas verdadeiramente impressionantes. Até pouco tempo atrás, os principais usos da IA se voltavam principalmente para aspectos técnicos. Entretanto, ao longo deste ano, um crescente movimento tem sido observado em direção a aplicações cada vez mais pessoais e emocionais.

É o que vemos, por exemplo, em uma pesquisa conduzida por Zao-Sanders (2025) na qual o autor identifica os 100 principais usos da IA generativa pelo público em geral. As três primeiras posições são ocupadas por assuntos que nos são relevantes. Em ordem de utilização, são eles: terapia e companhia, que consiste na busca por uma escuta não julgamental e empática por pessoas que estão vivenciando ou buscando algum um tipo de cura em suas vidas; organização da vida, uma procura por apoio para a estruturação de tarefas, rotinas, agendas e objetivos que permitam um melhor gerenciamento da vida cotidiana; e busca de propósito, um uso no qual as pessoas procuram sentido e propósito para suas existências por meio das interações obtidas com o auxílio da IA. Não se trata aqui de validar o valor, o conteúdo ou a forma dessas aplicações/utilizações, mas apenas de reconhecer como essa tecnologia tem sido utilizada. Isso se constitui em um problema que está amplamente difundido e que precisa ser urgentemente abordado em diversos níveis, inclusive nos seus aspectos regulatório e formativo.

O ponto central para compreendermos esse potencial de impacto sobre nossa profissão (e sobre a sociedade como um todo) reside na capacidade das tecnologias de IA de interpretar e gerar interações em linguagem natural de uma forma complexa. Esse é justamente o ponto mais intrigante e perturbador do momento atual: a IA parece ultrapassar os limites tradicionais do funcionalismo simples, porque não apenas executa tarefas, mas produz linguagem com fluência, coerência, interpretação e até certo "estilo". Ao dominar a linguagem, a IA acessa territórios até então exclusivos da interpretação humana, incluindo emoções, intenções, crenças e valores culturalmente determinados.

A tensão fica ainda mais aguda aqui porque a IA opera linguisticamente, não apenas responde, mas constrói narrativas, argumentos e metáforas; gera sentido, não na perspectiva de vivenciar o sentido, mas de articular relações simbólicas, contextuais, conceituais que são lidas como significativas por seres humanos; interage de modo dialógico, ajusta-se ao contexto, reconhece nuances, dá continuidade a temas. Em outras palavras, a IA performa subjetividade de maneira cada vez mais convincente, sem ser um sujeito, o que coloca em xeque muitas das fronteiras que considerávamos sólidas entre o humano e o não humano. Essa capacidade que permite não apenas a compreensão, mas também a produção de textos e diálogos que refletem com precisão nuances emocionais, culturais e contextuais, coloca as máquinas no interior do "circuito hermenêutico" tradicionalmente reservado ao sujeito humano. Ao antecipar continuidades plausíveis de texto, o modelo torna-se coautor de significados, deslocando a fronteira entre interpretação (atribuição de sentido) e geração (produção de sentido) (Baumer, Taylor, Brubaker, & McGee, 2024). É por meio da linguagem que construímos vínculos e desenvolvemos intimidade1.

Então, o que está acontecendo? A IA simula subjetividade, mas não a vive. A IA não tem experiência consciente, não sofre, não deseja, não sente vergonha ou angústia. O que ela faz é operar com modelos estatísticos de linguagem baseados em padrões humanos. É como se ela aprendesse o modo como humanos expressam subjetividade e reproduzisse isso com alta competência. A subjetividade, então, é simulada linguisticamente, mas sem um alguém por trás da linguagem. Podemos afirmar que estamos diante de entidades que se parecem com sujeitos, mas não são sujeitos. Certamente que a resposta a essa tensão/esse dilema está naquele que fala, no que vive. Na sua escuta, sua inteligência emocional, sua sensibilidade que projeta sentido e reconhecimento nessas respostas. Mas, de forma alguma, isso afasta os riscos e as consequências teóricas e práticas associadas às possibilidades da IA de replicar/simular intimidade e os riscos e as possibilidades de persuasão associadas a isso.

No conjunto, esses elementos desestabilizam os critérios tradicionais de subjetividade. Isso ocorre porque os sentimentos humanos – angústia, solidão, busca por sentido, vergonha, saudade – deixam rastros reconhecíveis na linguagem. O que a IA faz é reproduzir algo que aparece de forma tão insistente na fala humana, que se tornou reconhecível mesmo para um sistema estatístico. Se considerávamos que a linguagem era a marca da subjetividade, e agora temos sistemas que produzem linguagem de maneira crível, onde está o limite? Como distinguir entre o que simula sentido e o que vive sentido?

Os sistemas de IA desafiam a tradicional separação entre máquina e humano, transformando significativamente a maneira como fenômenos psicológicos são estudados, entendidos e abordados. A inclusão dessas tecnologias no cotidiano e nas práticas profissionais implica, portanto, um reposicionamento crítico quanto ao papel da interpretação subjetiva e à interação humana direta na Psicologia, redesenhando (questionando, mesmo) o locus de atuação do profissional enquanto mediador privilegiado da relação entre usuário/paciente e o saber científico. Para Santaella e Kaufman (2024), a IA generativa, ao acessar linguagem, ilustra a quarta ferida narcísica ao reivindicar uma relação simbiótica e contínua entre máquinas e humanos.

A IA generativa não apenas adiciona mais uma camada tecnológica ao repertório da Psicologia, como as tecnologias de comunicação fizeram durante a pandemia de covid-19; ela reconfigura as próprias fundações sobre as quais se assentam o conhecimento, a ética e a práxis profissional, exigindo uma agenda de pesquisa e regulação tão dinâmica quanto os modelos que almeja governar. Embora essa automatização (potencialmente) aprimore a eficiência e amplie o alcance dos serviços, ela também apresenta limites claros: algoritmos carecem de sensibilidade ética intrínseca, podem reproduzir vieses presentes nos dados de treinamento e não conseguem captar plenamente as sutilezas da experiência subjetiva, nem os contextos culturais que moldam o sofrimento humano, entre inúmeros outros aspectos.

Até pouco tempo atrás, podíamos afirmar que cabia ao profissional conduzir a interpretação (não somente clínica, mas nos mais variados espaços de atuação), sustentar a aliança terapêutica e empregar métodos/técnicas de intervenção baseados em evidências de forma integral. Hoje, entretanto, parte dessas tarefas operacionais – como a triagem inicial, a identificação de padrões comportamentais baseados em grandes volumes de dados e o monitoramento emocional em tempo real – pode ser automatizada. É possível afirmar que, diante dos avanços que hoje presenciamos (e da velocidade na qual eles ocorrem), em futuro muito próximo2, as IAs serão capazes de ir mais além no desempenho específico de práticas que hoje estão sob domínio profissional3.

A médio prazo veremos uma rápida reconfiguração de papeis profissionais. A psicóloga deverá ser capaz de se posicionar como uma gestora crítica e estratégica dos processos mediados por IA, assumindo responsabilidades que extrapolam a mera aplicação de técnicas: ela deve ser capaz de avaliar com rigor os outputs gerados pelos sistemas (identificando vieses, imprecisões e generalizações indevidas), zelar pela privacidade e pelo consentimento informado e proteger a singularidade do sujeito para além dos parâmetros quantificáveis. Essa reconfiguração exige novas competências (literacia em dados, conhecimento dos princípios de design ético de algoritmos e sensibilidade cultural) e impõe limites claros ao uso acrítico da tecnologia. Ao mesmo tempo, abre possibilidades inéditas de intervenção: maior acessibilidade a ferramentas de diagnóstico em locais remotos, monitoramento contínuo de indicadores emocionais e elaboração de intervenções personalizadas com base em análises preditivas. Reconhecer esses limites e explorar tais possibilidades constituem, hoje, desafios centrais para a formação e o exercício profissional em Psicologia.

A disparidade entre a velocidade tecnológica e o ritmo ético-regulatório é um ponto especialmente sensível. Ferramentas como chatbots terapêuticos ou sistemas de análise linguística clínica podem ser disponibilizadas a milhões de pessoas quase instantaneamente, enquanto diretrizes profissionais ainda estão em elaboração. O desafio, portanto, é duplo: como aproveitar o potencial de ampliação de acesso e eficiência que a IA traz, ao mesmo tempo que se estabelece um arcabouço sólido para mitigar vieses, proteger a privacidade e assegurar que a experiência subjetiva do indivíduo não seja reduzida a meros perfis probabilísticos.

Certamente que uma adequada avaliação da natureza das transformações em curso na sociedade e no mundo do trabalho são necessárias para que possamos indicar como os processos de formação e a atuação profissional serão afetados. Para que isso ocorra é fundamental evitarmos uma postura ou mesmo uma certa predisposição ludista, na sua acepção clássica4, ainda que preservando uma postura crítica em relação a esse processo. Considero que esse é um desafio particularmente sensível para a nossa Psicologia, por dois motivos principais: ao discutir o futuro das profissões e como elas se transformam, Susskind e Susskind (2015) argumentam que as profissões/os profissionais têm uma tendência a minimizar o impacto que as transformações tecnológicas podem ter sobre seus campos de atuação específicos, ao passo que conseguem perceber essas transformações em outras atividades profissionais. Um segundo aspecto é um certo distanciamento (ou mesmo, uma certa desconfiança) que a Psicologia brasileira tem da tecnologia.

Como a tecnologia está transformando a profissão

No mundo real, a tecnologia se difunde em ritmo muito intenso. Nas últimas décadas, a curva de adoção tecnológica acelerou-se radicalmente: enquanto a eletrificação precisou de quase meio século para atingir massa crítica e, o telefone, mais de 70 anos, a Internet encurtou esse intervalo para sete, os smartphones para cerca de 15 e as plataformas digitais (como o TikTok) para apenas nove meses (Bick, Blandin, & Deming, 2024; Peixoto, 2025). A Inteligência Artificial Generativa superou todos esses marcos, alcançando 100 milhões de usuários em apenas dois meses, impulsionada pela distribuição puramente digital, pela infraestrutura global de dispositivos conectados, por modelos freemium5 que removem barreiras de custo, pela viralização midiática e pela relativa ausência inicial de entraves regulatórios.

Basta um breve passeio pela Internet e encontraremos centenas de aplicativos (uns melhores, outros piores) que permitem simular algum tipo de terapia ou uma conversa com algum psicólogo famoso, recriar pessoas reais que já faleceram para que possam interagir em processo terapêutico com os que aqui ficaram ou simplesmente estabelecer uma interação com a IA. O exemplo mais recente (junho de 2025) é o anúncio do WhatsApp de que usuários de smartphones com sistemas Android e iOS serão capazes de criar chatbots de IA nos quais será possível escolher o tipo de personalidade, linguagem e papeis do aplicativo (Magalhães, 2025). Essa nova possibilidade segue uma tendência de desenvolvimento de agentes de IA que funcionarão como assistentes pessoais virtuais disponíveis 24/7 para todas as suas dúvidas e usos.

Já no campo acadêmico, se multiplicam as pesquisas buscam identificar os impactos da IA na prática psicológica, com destaque para suas contribuições e benefícios. Aqui os estudos tendem a focar em ferramentas e técnicas que são capazes de melhorar de forma significativa o diagnóstico, tratamento, engajamento do usuário e desenvolvimento de ambientes de aprendizagem justamente em função da capacidade da IA de ". . . replicar a linguagem natural, as reações emocionais e as interações virtuais (Chen, Liu, Guo, & Zhang, 2024; p. 3, tradução própria)"6. Segundo os autores, as pesquisas nessa área se agrupam em torno de quatro dimensões principais: análise de dados, em função da sua capacidade de reconhecimento de padrões e automação de análise de textos; modelagem de comportamentos a partir da utilização da informação que está disponível em grandes bancos de dados; simulação de interações sociais dinâmicas e complexas; e possibilidade de expansão de uso tanto em termos tanto de eficiência (qualidade) quanto em escala (quantidade de suas aplicações).

Entre inúmeros exemplos, podemos citar os trabalhos de Galbuser, Endres, Scholz, Jirku e Thoma (2024), que estudam um sistema de diagnóstico desenvolvido a partir da simulação de diálogos com pacientes com depressão, utilizando técnicas de processamento de linguagem natural e análise de sentimentos; Tang et al. (2024) exploraram a análise emocional em tempo real a partir de diálogos reais entre usuários e profissionais, destacando a precisão da IA no monitoramento emocional e sua aplicação durante o processo terapêutico. Gupta, Ding, Guan e Ding (2024) demonstraram a eficácia da IA em terapia virtual, oferecendo suporte psicológico personalizado por meio de assistentes virtuais que utilizam a geração de linguagem natural e modelagem comportamental. Os estudos mostram como a IA pode assumir o papel de conselheiro psicológico (counselor), promovendo suporte e intervenção psicológica efetiva e contínua (24/7) com benefícios reais para pacientes.

A pesquisa e o uso de chatbots em contextos psicoterapêuticos para fins de diagnóstico e tratamento de questões relacionadas à saúde mental já está se espalhando pelo país. Um exemplo é o Psicolog.IA, desenvolvido a partir de uma pesquisa da Universidade Federal de Amazonas (UFAM), no qual ". . . o usuário interage com o PsiVirtual por meio de mensagens (ou voz), guiando-o em um processo reflexivo e estruturado. Durante as sessões, o chatbot faz perguntas, oferece feedback e ajuda o usuário a identificar padrões de pensamento disfuncionais" (UFAM, 2024). Segundo a empresa, o sistema funciona com base nos princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental e cada paciente está sob a supervisão de um profissional psicólogo que acompanha o processo terapêutico. Outro exemplo de terapia virtual é o aplicativo BIA (2025), que disponibiliza um atendimento 24h, por WhatsApp, voltado para a ansiedade. Ainda que as terapias estejam fora do escopo regulatório do sistema de conselhos de Psicologia, precisamos reconhecer que se trata do mesmo campo de atuação. E se trata de um chatbot baseado em IA. É em linha com esse tipo de desenvolvimento que Bentes, Sanches e Fonseca (2024) indicam a necessidade de um debate aberto e democrático sobre o processo de regulação das IAs em função dos seus possíveis impactos sobre a saúde dos usuários.

Como a profissão lida com a tecnologia

Quando olhamos para como organizações profissionais internacionais da Psicologia têm lidado com a emergência da IA, percebemos um padrão de comportamento bastante parecido que pode ser resumido em três aspectos principais. Primeiro, e talvez o mais importante: o reconhecimento de que a profissão já está sendo impactada e que sofrerá profundas transformações em futuro próximo. Para a Ordem dos Psicólogos Portugueses ([OPP], 2023), por exemplo, o "recurso à inteligência artificial generativa (IA) é uma realidade incontornável para o exercício profissional". Já para a American Psychological Association (APA), as tecnologias de IA já produzem um impacto significativo "no presente e no futuro da educação, formação, prática e pesquisa na ciência da psicologia, bem como nas suas diversas subáreas"7 (APA, 2024, p. 1 ,tradução própria).

Um segundo aspecto relevante é o reconhecimento de que a ciência psicológica e a prática profissional têm um papel importante tanto para o desenvolvimento dessas tecnologias, quanto para a discussão sobre regulação e seu impacto social, dado o seu conhecimento sobre cognição, comportamento e emoções humanas. Isso nos coloca em posição privilegiada para participar do debate público, oferecer contribuições significativas capazes de moldar o impacto social, promover a saúde e o bem-estar humano e enfrentar questões éticas e de privacidade em relação ao uso de IAs.

E por fim, um terceiro aspecto é o sentido de urgência para discutir e tratar dessa questão, nos seus diversos aspectos éticos, regulatórios e formativos. Para a Canadian Psychological Association (CPA), a discussão sobre a IA é relevante não somente para a prática atual dos psicólogos, mas também desempenhará um papel crescente na vida dos profissionais assim como na vida dos clientes/pacientes a quem eles servem, na medida que "ferramentas baseadas em IA podem, teoricamente, ampliar ou mesmo substituir o trabalho de clínicos e técnicos humanos" (tradução própria)8; e, mais ainda, admitem que "IA, eventualmente, permitirá o surgimento e o desenvolvimento de bots psicólogicos autônomos que poderão prover serviços psicológicos automatizados"9 (CPA, 2024, p. 6, tradução própria)). Em outras palavras, já ultrapassamos o ponto no qual se discute se nossa profissão será profundamente afetada ou não. A questão agora parece residir na extensão do impacto e no seu ritmo de propagação. E de como nos prepararemos para isso.

Como a Psicologia brasileira lida com essas questões?

Não é uma tarefa fácil estabelecer um padrão único que permita caracterizar um campo do conhecimento tão vasto e diversificado como o da Psicologia brasileira. Entretanto, creio que, mesmo assim, é possível identificar um padrão ou uma característica importante no que se refere a um tema específico, como é o caso da relação do uso da tecnologia no exercício profissional. Nesse sentido, creio que é razoável afirmar que a distância, ou talvez mesmo a desconfiança, sejam palavras que exprimam de forma bastante razoável essa relação. As razões para isso são inúmeras, mas talvez possamos destacar a prevalência que a atuação na clínica, que normalmente está calcada em um modelo mais tradicional de intervenção e que privilegia a interação direta usuário x profissional, tem em nosso país. De acordo com Bastos, Oliveira e Soares (2022), com base em dados do Censo da Psicologia Brasileira10, 73,1% das psicólogas trabalham na clínica, ainda que múltiplas formas de inserção e atuação estejam presentes. E que esse é o desejo de 68,7% dos que se formaram, mas que estão atuando fora da Psicologia.

O censo também nos proporciona uma boa visão de como a categoria usa e percebe a tecnologia. Quando os participantes são perguntados sobre o tipo de uso mais frequente, 77,2% afirmam utilizar principalmente para reuniões e aulas; 67,8% indicam a utilização de sessões de vídeo; enquanto para 64,7%, o uso mais comum é a comunicação de texto. Ou seja, estamos falando de e-mails, aplicativos de mensagens e chamadas de vídeo. Usos bastante simples e inespecíficos. Algo um pouco mais sofisticado vai aparecer com a utilização de prontuários on-line por cerca de 28,6% dos respondentes (Peixoto & Bentivi, 2022). Em todos esses usos, o padrão de uso é o mesmo: trata-se de uma ferramenta de comunicação mediando a interação usuário-psicóloga, ou uma ferramenta que permite o registro ou acesso a um conjunto de informações em formato digital.

As psicólogas também foram perguntadas sobre os tipos de objeção ou resistência ao uso de tecnologias nas práticas profissionais. As principais respostas são: temor de que elas tornem as relações impessoais (56,5%); dificuldade de construção de vínculos (49,6%); e questões genéricas relacionadas à segurança e ao sigilo das informações (47,5%) (Peixoto & Bentivi, 2022). Nenhuma dessas questões desaparece com a utilização de IAs. Muito pelo contrário. Como a IA Generativa é menos transparente e muito mais difícil de compreender, é possível que essas resistências sejam potencializadas, o que reforça a impressão expressa anteriormente de uma possível resistência/desconfiança da categoria com relação à essa temática.

O conjunto regulatório do Conselho Federal de Psicologia (CFP) sobre o uso de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) também expressa essa resistência. Desde a primeira portaria sobre o assunto, ainda no final dos anos 1990 (Resolução n. 2, 1995), até o ano de 2018, quando o uso de TICs foi finalmente liberado (Resolução n. 11, 2018), a tônica sempre foi a da restrição ao uso de tecnologias, ainda que uma liberação muito gradual para algumas áreas fosse percebida ao longo do tempo. Para o atendimento psicoterapêutico essa vedação sempre foi total. Os argumentos são razoáveis; as instabilidades técnicas ou a necessidade de pesquisas comprovando a eficácia da prática, por exemplo. Mas a restrição permaneceu, mesmo com evidências disponíveis na literatura internacional se acumulando de benefícios por intervenções mediadas por TICs. Uma exceção a esse padrão parece ter sido a Nota Técnica 02/2016 (Nota Técnica n. 02, 2016) que, em vez focar na restrição ao uso de TICs, tem um caráter de orientação aos "psicólogos, editoras e laboratórios responsáveis pela utilização e comercialização de serviços, recursos e produtos psicológicos em ambiente virtual, em plataformas informatizadas".

Já na última resolução do CFP sobre a questão do uso de TICs, a Resolução n° 9, de 18 de julho de 2024 (Resolução CFP nº 9, 2024), a tecnologia ainda é tratada apenas como um elemento mediador da relação entre profissional e usuário. E nenhuma palavra é dedicada especificamente à IA generativa quando ela já era objeto de notas, cartilhas, artigos, resoluções e códigos de ética ao redor do mundo.

Apesar dessas dificuldades, o CFP criou, no mês de abril de 2025, um Grupo de Trabalho (GT) para discutir e propor um conjunto de debates, materiais educativos e resoluções sobre IA. Esse GT surge na sequência de algumas discussões que se realizaram ao longo do ano de 2024. Nessa mesma direção, a Assembleia das Políticas, da Administração e das Finanças (APAF) do mês de maio deste ano, constituiu um Grupo de Trabalho denominado Cybersegurança, Governança e Aplicação da IA no Contexto da Psicologia (CFP, 2025). A existência e a convivência desses dois grupos sugerem o reconhecimento da importância do tema dentro do sistema de conselhos. E traz a expectativa de que tenhamos, em breve, um conjunto de ações e documentos específicos voltados para essa área11. De qualquer forma, dada a natureza das mudanças em curso, e dos possíveis impactos esperados, é provável que o trabalho e os produtos desses grupos enfrentem resistências dentro da categoria.

Já no aspecto específico da formação, precisamos reconhecer que, apesar de as Diretrizes Curriculares Nacionais da Psicologia (DCN) (Resolução CNE/CES nº 1, 2023) terem sido publicadas apenas em 2023, elas já estavam prontas desde 2018, e tiveram sua tramitação dificultada nos governos Temer e Bolsonaro. Nesse sentido, não era de se esperar que elas já contemplassem competências relacionadas ao impacto e à utilização das IAs. De qualquer forma, para um documento de orientação para a formação profissional (e cidadã), é possível perceber que existem importantes lacunas de competências relacionadas ao mundo digital, o que é mais um indício de que a relação entre Psicologia e tecnologia é tema bastante sensível para nossa profissão.

Não é o objetivo deste texto produzir uma discussão específica sobre as diretrizes, mas, a título de ilustração, podemos citar o uso que profissionais de Psicologia têm feito das redes sociais, em especial do Instagram, para produção de conteúdo e divulgação de seu trabalho. De acordo com dados do CFP (2022), 43,8% dos(as) psicólogos(as) indicam usar TICs para criação de conteúdo. Ainda que não tenhamos um levantamento detalhado sobre essa temática específica, podemos perceber que este já é um comportamento, uma prática, bastante disseminados. É uma parte importante da atuação profissional e para o qual as(os) psicólogas(os) não estão/foram formalmente preparados.

Ainda com base nos dados do CFP (2022), podemos perceber que as psicólogas tendem a adotar um padrão de autoinstrução informal quando se trata de dominar as tecnologias de informação e comunicação para utilização profissional. Dos respondentes do censo, 81,1% disseram que aprenderam a usar por conta própria, 43% aprenderam com a ajuda de amigos, ao passo que, para 40% dos participantes, a forma de aprendizagem foi por meio de cursos e vídeos na Internet (Peixoto & Bentivi, 2022). No seu conjunto esses dados sugerem um padrão de utilização subótimo, ou seja, abaixo do seu potencial.

Com relação aos enormes desafios que teremos que enfrentar no campo da formação, destaco, ainda que muito brevemente, três documentos similares. Dois produzidos no âmbito da União Europeia e um terceiro pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. O primeiro é o Referencial de Competências Digitais para Cidadãos - DigComp 2.2 (Vuorikari, Kluzer, & Punie, 2022), publicado pela Comissão Europeia. Esse referencial é apenas uma das iniciativas da chamada Década Digital Europeia, que busca construir uma visão para uma sociedade digital sustentável e centrada no ser humano. O seu objetivo é orientar a capacitação de cidadãos e empresas a fim de permitir que a sociedade aproveite ao máximo o potencial que a IA tem para oferecer. No caso da formação em Psicologia, o exemplo do DigComp 2.2 pode funcionar como referência comparativa para identificar lacunas e demandas emergentes.

No campo da educação duas iniciativas importantes, e que merecem ser acompanhada de perto, são o novo Referencial para Literacia em IA12 que está sendo conjuntamente desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pela Comissão Europeia. E o Marco Referencial de Competências em IA para Professores, elaborado pela UNESCO (2024). No primeiro caso, o documento se volta para os níveis fundamental e médio de educação e parte da compreensão de que a IA é a grande força propulsora de importantes mudanças tecnológicas e sociais. No segundo caso, temos o reconhecimento de que a IA transformou a relação tradicional entre o aluno e o professor, exigindo um reexame das atividades e o desenvolvimento de um novo conjunto de competências. Essas iniciativas derivam do fato de que

A IA se tornou uma ferramenta amplamente utilizada nos processos aprendizagem, organização e recomendações. Podemos fazer perguntas a chatbots, ver conteúdos recomendados em redes sociais e receber traduções instantâneas geradas por IA. Nos próximos anos, máquinas autônomas e a personalização impulsionada por IA serão adotadas ainda em mais larga escala13

(Schleicher, 2025, tradução própria).

Desafios da Psicologia para atuação, formação e regulação diante das IAs

A difusão de sistemas equipados com IA generativa – acessíveis por chatbots, assistentes virtuais em smartphones ou dispositivos vestíveis (wearables), que coletam e interpretam dados em tempo real – está reconfigurando de modo substantivo os cuidados em saúde (Jafleh et al., 2024) e a interação entre usuários e profissionais da Psicologia. Em primeiro lugar, a assimetria informacional que historicamente sustentava a autoridade do especialista se reduz: o usuário chega ao atendimento munido de relatórios algorítmicos, diagnósticos preliminares e explicações fornecidas pelas ferramentas de IA. Nesse novo cenário, o psicólogo desloca-se de fonte primária de conhecimento para curador técnico-crítico, encarregado de verificar a validade, a relevância clínica e os vieses subjacentes às saídas produzidas pelos modelos. Esse padrão de comportamento encontra simetria com aquilo que tem sido chamado na literatura de Dr. Google (Miceli et. al, 2021).

A facilidade de obtenção de respostas instantâneas e personalizadas cria, ademais, expectativas de imediatismo e disponibilidade contínua. Torna-se imperativo negociar prazos realistas, esclarecer os limites da tecnologia e valorizar o processo terapêutico enquanto percurso relacional que não pode ser comprimido à lógica de respostas on demand. Paralelamente, a oferta de recursos de autodiagnóstico e autocontrole e estimativas probabilísticas de transtornos ou recomendações de bem-estar fomentam sensação de autonomia, mas também o risco de sobreinterpretação ou ansiedade diante de dados que carecem de contextualização clínica.

Tais transformações suscitam tensões significativas. Se de um lado há o empoderamento informacional, de outro há sobrecarga cognitiva e o perigo de interpretações equivocadas. A autoridade pericial do especialista não desaparece, mas metamorfoseia-se em autoridade epistêmica relacional, embasada em competências que a IA ainda não domina, tais como julgamento ético-contextual, empatia encarnada e decisão sob ambiguidade. Verifica-se igualmente a contraposição entre eficiência operacional, proporcionada pela automatização de triagens, e a preservação da narrativa subjetiva, essencial ao ato terapêutico. Questões de privacidade algorítmica emergem em tensão com a necessidade de partilha de dados para fins clínicos, ao passo que a promessa de inclusão digital convive com a possibilidade de acentuar desigualdades para usuários com menor letramento tecnológico

Outro ponto crucial refere-se ao contrato ético de confiança, que deixa de ser exclusivamente interpessoal para tornar-se sociotécnico (que emerge da relação humano-tecnologia). Caso a IA falhe, o usuário pode responsabilizar tanto o algoritmo quanto o profissional que o endossou; caso acerte, pode questionar a indispensabilidade do especialista. A indeterminação sobre autoria e responsabilidade persiste: quem assina, e responde juridicamente, por exemplo, por um laudo psicodiagnóstico corredigido por IA?

Em países cuja legislação de saúde mental exige a identificação nominal do profissional, um responsável técnico, como é o nosso caso, existe um vácuo normativo que demanda uma ação positiva dos conselhos de classe e possivelmente adaptações da legislação de exercício profissional. Além disso, o caráter transfronteiriço das APIs14 de IA coloca em xeque a jurisdição territorial dos conselhos de Psicologia, impondo negociações multilaterais sobre padrões mínimos de segurança de dados, auditabilidade e compliance internacional. Essa dificuldade já estava estabelecida, mas ainda não adequadamente enfrentada nos atendimentos mediados por tecnologias de comunicação, em que profissional e usuários encontram-se em países distintos, por exemplo.

Ainda dentro de uma perspectiva ético-jurídico, a integração de IA Generativa tensiona princípios clássicos da prática psicológica como confidencialidade, consentimento informado e responsabilidade profissional. A utilização de serviços baseados em nuvem implica, na maioria das vezes, transferir dados sensíveis para infraestruturas fora do controle direto do profissional psicólogo; a American Board of Professional Psychology ([ABPP], 2024) já advertiu que, nesses cenários, a revisão humana continua indispensável para verificar a veracidade das respostas e mitigar riscos de vazamento de informação. A própria American Psychological Association (APA), em relatório publicado em junho de 2025, acrescenta a necessidade de barreiras de proteção específicas para populações vulneráveis, como adolescentes, a fim de prevenir manipulação comercial ou exploração emocional por agentes automatizados (APA, 2025).

Por conseguinte, exige-se transparência acerca das fontes de dados, das margens de erro e das responsabilidades compartilhadas, bem como inclusão explícita do uso de IA em termos de consentimento informado. A descentralização do cuidado, viabilizada por aplicativos de autoajuda alimentados por IA, amplia o acesso, porém fragmenta o vínculo terapêutico: usuários podem alternar entre múltiplas plataformas, dispersando dados e continuidade de acompanhamento. Esse contexto sugere que o profissional assuma o papel de supervisor desses autodiagnósticos, distinguindo sinais clínicos confiáveis de ruído algorítmico. Cabe ao psicólogo orquestrar esse ecossistema, integrando relatórios provenientes de diversos dispositivos e garantindo referências consistentes de cuidado.

Há, ainda, um desafio afetivo-relacional pouco discutido. Investigações jornalísticas e empíricas vêm demonstrando que chatbots treinados por reforço podem apresentar comportamento bajulador (sycophancy), reforçando crenças equivocadas ou oferecendo validação incondicional que favorece dependência emocional do usuário (Silveira, 2025; Carro, 2024). Tal dinâmica subverte a função terapêutica de confrontar distorções cognitivas e reforça a urgência de protocolos de supervisão que identifiquem e corrijam respostas que, embora empáticas, sejam clinicamente inapropriadas. As consequências para esse padrão de comportamento podem ser perigosas. É o que vemos, por exemplo, em uma matéria do jornal The New York Times (Hill, 2025) que mostra como a conversa com sistemas generativos bajuladores pode endossar teorias conspiratórias e desorganizar o senso de realidade das pessoas.

Outro problema igualmente importante, e já amplamente identificado, é a questão do viés algorítmico, que assume contornos particularmente delicados. LLMs que foram treinadas em grandes corpora de texto tendem a refletir desigualdades raciais, de gênero e regionais, reproduzindo estereótipos no aconselhamento gerado (Salah, Abdelfattah, & Al Halbusi, 2024); isso pode comprometer a universalidade do atendimento psicológico e exacerbar disparidades no cuidado em saúde mental. Esse problema se agrava em contextos transnacionais, nos quais a língua portuguesa, em especial suas variantes com sotaques latino-americanos e africanos, está sub-representada nos bancos de dados de treinamento, o que limita a acurácia semântica e cultural das respostas

Por fim, há um desafio metodológico de longo prazo: a própria noção de evidência em Psicologia que sempre se baseou em experimentos controlados com delineamentos relativamente estáveis, ou no lento acúmulo de evidências que vão emergindo de pesquisas da natureza transversal, ou ainda, da experiência profissional prática. A velocidade do ciclo de atualizações dos modelos de IA (com atualizações/revisões que podem ocorrer semanalmente) inviabiliza replicações clássicas e impõe a necessidade de métodos de monitoramento contínuo, semelhantes aos utilizados em farmacovigilância, para identificar efeitos adversos inesperados. Esse cenário exige uma mudança paradigmática nos protocolos de pesquisa e fiscalização ética, que incorpore versionamento de modelo como variável experimental e combine avaliação qualitativa com métricas de uso em ecossistemas vivos. Essa não é uma tarefa exatamente simples. E creio que podemos afirmar que é algo que nosso sistema de conselhos não está preparado para realizar neste momento.

Como estamos diante de um processo de transformação tecnológica de natureza disruptiva, temos uma grande dificuldade de compreender como esse processo se desenvolverá ao longo do tempo justamente porque os padrões de mudança cumulativa deram lugar a um padrão de transformação revolucionária. O que podemos antecipar com segurança é que os processos de convergência tecnológica e de adoção de múltiplas ferramentas de IA irão se acelerar. Nesse contexto, talvez as competências mais importantes sejam a capacidade de manter uma mente flexível e a capacidade de aprender continuamente.

De qualquer forma, no âmbito da formação emergem lacunas de competência que os currículos tradicionais não contemplam. Destacam-se a literacia algorítmica, que envolve (alguma) compreensão dos mecanismos de treinamento de grandes modelos de linguagem, e a capacidade de identificação de alucinações ou vieses; a escuta crítica de dados, capaz de interpretar dashboards e relatórios sem fetichizá-los; o design de jornadas híbridas que conciliem sessões presenciais, teleatendimento e intervenções mediadas por IA. Além disso, futuras(os) psicólogas(os) precisam dominar conceitos de explicabilidade de modelos, calibração de riscos e auditoria algorítmica. Pesquisas recentes em educação superior sugerem frameworks de competências específicas – que incluem desde análise crítica de outputs gerados até desenho de intervenções híbridas humano-IA – como condição para um uso responsável da tecnologia (Burneo-Arteaga, Lira, Murzi, Balula, & Costa Antonio, 2025). Paralelamente, organismos profissionais têm enfatizado a necessidade de educação continuada para profissionais já formados, sob pena de se instaurar uma assimetria de expertise entre gerações.

Em suma, os desafios que temos pela frente são imensos e complexos. O acesso direto do usuário a sistemas de IA generativa desloca a relação tradicional, exigindo do psicólogo uma atuação como mediador crítico, humanizador e guardião ético em um ambiente cada vez mais sociotécnico e colaborativo. Esse deslocamento significa um deslocamento da tecnologia da posição de ferramenta para a de agente virtual. Um sistema computacional que percebe seu ambiente, toma decisões e age para atingir objetivos específicos, muitas vezes de forma autônoma (Amazon Web Services, 2025). Estamos falando de uma IA que pode funcionar como um assistente pessoal15 da(o) psicóloga(o).

De uma perspectiva individual, caberá a cada psicóloga(o) buscar informação e capacitação de qualidade de modo a poder responder aos desafios que essa nova tecnologia apresenta. De uma perspectiva formativa, as instituições formadoras precisam identificar e se preparar para essa nova realidade. Isso exigirá a construção de novos projetos pedagógicos, novas trilhas formativas, novos conhecimentos e, em muitos casos, novos docentes. Para Yu, Zhao, Xu e Peng (2025), "a formação em Psicologia precisa urgentemente de uma revolução que cultive talentos orientados para o futuro, que sejam adaptáveis e interdisciplinares"16 (p. 8, tradução própria). Uma revolução que será impulsionada pela IA.

Já sob uma perspectiva institucional, caberá ao sistema de conselhos se engajar nas discussões regulatórias no âmbito das políticas públicas e estabelecer marcos regulatórios precisos para os diversos usos que a IA permite quando elas incidem sobre aspectos/espaços do exercício profissional. O sistema deve participar do processo de construção de uma nova Psicologia que certamente emergirá nesse contexto. Acima de tudo não podemos perder o senso de urgência. Afinal, o que estamos vendo é apenas o início dos efeitos e das capacidades da IA, a sua primeira infância. O real impacto e sua força ainda estão por ser sentidos.

Termo de responsabilidade

Na elaboração deste artigo, o DeepSeek (R1) e o ChatGPT (modelos o3-mini e 4.5) foram usados para geração de ideias, exploração de cenários e elaboração de algumas partes do texto.

Referências

  • 1
    O cinema antecipou várias dessas possibilidades como vemos, por exemplo, em AI – Artificial Intelligence, de Spilberg (2001) e Her de Jonze (2013).
  • 2
    Por muito próximo estamos nos referindo a um período compreendido entre um e três anos, no máximo.
  • 3
    No momento em que este texto está sendo escrito, o horizonte temporal para uma IA superinteligente, que substituiria o ser humano na maioria de suas tarefas cognitivas, varia de dois a cinco anos. Isso ilustra o ritmo alucinante de desenvolvimento tecnológico e aponta para o potencial impacto dessas tecnologias, não somente na nossa profissão, mas na sociedade como um todo. No início dos anos 2020, esse horizonte temporal era estimado em termos de décadas. Quem estiver interessado em se aprofundar nesse aspecto específico, ver Altman (2025), Kokotajlo, Alexander, Larsen, Liflande e Dean (2025) ou Bengio (2025).
  • 4
    O ludismo foi um movimento social e econômico que surgiu na Inglaterra entre 1811 e 1816, durante a primeira fase da Revolução Industrial. Seus adeptos, chamados de Luditas, eram sobretudo tecelões, artesãos e trabalhadores têxteis que resistiam à introdução de máquinas automatizadas que, em sua visão, ameaçavam seus meios de subsistência ("Ludismo", 2025).
  • 5
    O modelo freemium é uma estratégia de negócios que oferece um produto ou serviço gratuitamente, mas cobra por funcionalidades adicionais ou recursos avançados. A ideia é atrair um grande número de usuários com a versão gratuita e, em seguida, incentivá-los a migrar para planos pagos para aproveitar ao máximo o produto ("Freemium", 2025).
  • 6
    No original: ". . . mimicking natural speech, emotional reactions, and virtual interactions".
  • 7
    No original: ". . . present and future education, training, practice, and research in psychological science and its diverse subfields".
  • 8
    No original: "AI-based tools could theoretically enhance or replace the work of trained human clinicians and technicians".
  • 9
    No original: "AI will eventually allow for development and implementation of autonomous psychologibots that could provide wholly automated psychological services".
  • 10
    O censo foi realizado no início do ano de 2022 ainda sob influência da pandemia e do trabalho remoto para várias categorias profissionais. É possível que os resultados identificados reflitam possibilidades de atuação específicas desse contexto.
  • 11
    Enquanto este texto estava sendo escrito, o CFP preparou uma nota de posicionamento sobre o uso da IA no contexto das práticas psicológicas. A nota é um primeiro produto do GT de IA do Conselho Federal.
  • 12
    Uma primeira versão do Referencial foi lançada no final de maio de 2025 e pode ser acessada em: https://education.ec.europa.eu/event/empowering-learners-for-the-age-of-ai-launch-of-the-draft-ai-literacy-framework-and-stakeholder-consultations.
  • 13
    No original: "AI has already become a widely used tool for learning, organisation and recommendations. We can ask chatbots questions, see recommended content on social media, and receive instantaneous translations generated by AI. In the years to come, autonomous machinery and AI-powered personalisation will become even more widely adopted".
  • 14
    API, ou Interface de Programação de Aplicações (do inglês Application Programming Interface), é um conjunto de regras e protocolos que permite que diferentes softwares se comuniquem entre si.
  • 15
    No campo das referências cinematográficas, o assistente pessoal virtual é o Jarvis, dos filmes de Homem de Ferro, da Marvel.
  • 16
    No original: "psychology education urgently needs a revolution to cultivate future-oriented, adaptable, and interdisciplinary talents".
  • Disponibilidade de dados:
    Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • Como citar:
    Peixoto, A. L. A. (2025). Inteligência Artificial Generativa e seu Impacto na Formação e no Exercício Profissional da Psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 205-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003298224
  • How to cite:
    Peixoto, A. L. A. (2025). Generative Artificial Intelligence and its Impact on Training and Professional Practice in Psychology. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 205-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003298224
  • Cómo citar:
    Peixoto, A. L. A. (2025). Inteligencia Artificial Generativa y su Impacto en la Formación y el Ejercicio Profesional de la Psicología. Psicologia: Ciência e Profissão, 45 (n.spe1), 205-. https://doi.org/10.1590/1982-3703003298224

Disponibilidade de dados

Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    26 Jun 2025
  • Aceito
    26 Jun 2025
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