Open-access VERIFICAÇÃO DAS NÔMINAS SUGERIDAS PELO COMITÊ DE MOTRICIDADE ORAL NOS ARTIGOS CIENTÍFICOS EM FONOAUDIOLOGIA

To verify of nomens suggested by the oral motricity committee at scientific papers in speech terapy

RESUMO

Objetivo:  verificar a utilização das nôminas sugeridas pelo Comitê de Motricidade Oral da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia nos artigos científicos nesta área.

Método:  foram selecionadas 16 nôminas utilizadas inadequadamente segundo os documentos 01/01, 02/02 e 03/03 do Comitê de Motricidade Oral da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, através da leitura de 50 artigos na área de motricidade oral publicados nos anos de 2002 e 2003. Posteriormente foi feita a análise quantitativa entre estas e as sugestões descritas nos documentos acima mencionados.

Resultados:  nos 50 artigos pesquisados houve 56,8% de utilização correta das nôminas, já 43,2% foram utilizadas de maneira inadequada.

Conclusão:  observou-se que especializandos / especialistas em Motricidade Oral ainda não utilizam, em suas produções científicas, as nôminas sugeridas pelo comitê de Motricidade Oral, haja vista a grande incidência de inadequações.

DESCRITORES:
Fonoaudiologia; Terminologia; Terapia Miofuncional

ABSTRACT

Purpose:  to verify the use of nomen suggested by the Oral Motricity Committee of the Speech Therapy Brazilian Society, in the related scientific papers.

Method:  from the reading of 50 oral motricity papers, published in the years of 2002 and 2003, sixteen nomens were selected, inadequately applied according to the documents 01/01, 02/02 and 03/03 of the Oral Motricity Committee of the Speech Therapy Brazilian Society. Afterwards, these nomens were analyzed with the suggestions as described in the aforementioned documents.

Results:  in the 50 searched papers, the correct way of nomen obtained 56.8%, and 43.2% were inadequately used.

Conclusion:  considering the high amount of detected errors, the conclusion is that specialists and pre-specialists in oral motricity do not already use in their scientific jobs the nomens as suggested by the Committee of Oral Motricity.

KEYWORDS:
Speech; Language and Hearing Sciences; Terminology; Myofunctional Therapy

INTRODUÇÃO

A especialização em Motricidade Oral (M.O.) foi definida em 1996 mediante a resolução n° 147/96 do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) 1. Durante o VII Congresso de Fonoaudiologia e XII Encontro Nacional de Fonoaudiologia, foi criado o Comitê de Motricidade Oral da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa) que define esta área de atuação como o campo voltado para o estudo/pesquisa, prevenção, avaliação, diagnóstico, desenvolvimento, aperfeiçoamento e reabilitação dos aspectos estruturais e funcionais das regiões orofacial e cervical 1 . Entre outros, o comitê de M.O. tem como objetivo uniformizar o uso das terminologias mais adotadas em M.O. fazendo com que haja homogeneidade na comunicação entre os fonoaudiólogos, e deles com profissionais de áreas afins. Foram analisadas palavras e expressões de maior incidência em publicações e discussões interdisciplinares e a partir daí foi criado o Dicionário de Motricidade Oral, elaborado com base na terminologia anatômica internacional e nos dicionários da língua portuguesa 2 .

O objetivo desta pesquisa é verificar a utilização das nôminas sugeridas pelo comitê de M.O. nos artigos científicos nesta área, produzidos por fonoaudiólogos e publicados em revistas de fonoaudiologia.

MÉTODO

Foi realizado um estudo longitudinal dos artigos científicos em motricidade oral publicados nas revistas CEFAC, Fono Atual e Jornal Brasileiro de Fonoaudiologia nos anos de 2002 e 2003, escritos por fonoaudiólogos.

A primeira etapa do trabalho consistiu na leitura dos artigos através da qual foram selecionadas 16 nôminas que estavam sendo utilizadas de forma inadequada segundo os documentos 01/01, 02/02 e 03/ 03 do comitê de M.O. da SBFª.

A partir desta seleção foi iniciada a segunda etapa onde foi realizada a contagem das nôminas de equivalência correta de acordo com a sugestão do comitê de M.O. para então ser realizada a análise das nôminas adequadas e inadequadas verificando assim, se tais documentos atingem a comunidade científica de fonoaudiologia.

Tabela 1
Relação entre as nôminas corretas e incorretas Nôminas em motricidade oral 83

RESULTADOS

Na análise das 16 nôminas selecionadas, 43,2% foram utilizadas de forma inadequada, enquanto 56,8% seguiram as normas do comitê de M.O. da SBFª nos 50 artigos pesquisados.

Os resultados obtidos foram os seguintes:

  • Levantador do lábio superior- 100% de acerto • Assoalho da boca - 100% de acerto

  • Sistema estomatognático - 90% acerto e 10% erro

  • Disfunção da articulação temporomandibular - 75 % acerto e 25 % erro

  • Hábitos orais deletérios - 62,5% acerto e 37,5% erro

  • Tonsila faríngea / adenóide - 60% acerto e 40% erro

  • Oral - 56,5 % acerto e 43,5 erro

  • Má oclusão - 56,25% acerto e 43,75% % erro • Mentual, Eversão de lábio inferior, Orbicular da boca - 50% acerto e 50% erro

  • Tonsilas palatinas - 37,5 % acerto e 62,5% erro • Posição habitual de língua - 33,4 % acerto e 66,6% erro

  • Ceceio, fissura palatina - O% acerto e 100% erro

DISCUSSÃO

A partir da existência de um dicionário que determina a utilização correta das nôminas na especialidade Motricidade Oral, é de fundamental importância seu conhecimento por parte dos autores para que a comunicação inter e intra disciplinar seja eficiente .

Quando a utilização inadequada das nôminas ocorre em virtude da falta de atualização, a Fonoaudiologia deixa de acompanhar a evolução da comunidade cientifica internacional podendo, deste modo, perder muito em credibilidade.

Em alguns artigos pesquisados os músculos mentual 3-6, levantador do lábio superior 7 e orbicular da boca 7, aparecem com a nomenclatura antiga: Mentalis 7-8, elevador do lábio superior e orbicular dos lábios 9, respectivamente. O que ocorre também com tonsilas palatinas 8,10-11 que devem ser utilizadas no lugar de amígdalas 12-16.

Durante o trabalho desenvolvido pelo comitê de MO observou-se que algumas nôminas utilizadas pelos fonoaudiólogos não constavam nos dicionários da Língua Portuguesa como fissura palatal 17, hábito parafuncional 8,18-20, maloclusão 20-25 (tradução direta da Língua Inglesa) devendo então serem substituídos respectivamente por fissura palatina, hábitos deletérios12,19,21-24,26-27 e má oclusão3,10,19,26-30.

Em um dos artigos foi utilizada nômina aparelho estomatognático 25. Cabe ressaltar que este é composto por estruturas estáticas (arcos osteodentários, maxila e mandíbula, articulação temporo-mandibular - ATM, ossos cranianos e osso hióide) e estruturas dinâmicas (representadas pela unidade neuromuscular) que, interligadas desenvolvem funções comuns 31, devendo então ser denominadas sistema estomatognático8,9,23,27,30,32-33.

Podemos verificar a utilização de desordem temporomandibular 19,20 para as alterações dessa articulação. Como a alteração ocorre na funcionalidade deve ser utilizada disfunção temporomandibular 8,19-20,29, já que a palavra desordem, na Língua Portuguesa, significa falta de organização, então esta não é recomendada. O mesmo aplica-se para a expressão inversão de lábio inferior 10 que não deve ser utilizada pois, inversão significa que algo está ao contrário, deste modo a expressão a ser utilizada é eversão de lábio inferior 27 que irá caracterizar lábio inferior com mucosa exposta.

Outra situação comum foi a utilização como sinônimos de nôminas com significados diferentes, como por exemplo bucal3,6,8-9,12,14-15,18,20,22-23,25-26,30,34-43, que é utilizada como sinônimo inadequado de oral3-8,9-16,18-21,24-30,32,34-39,42,44-49 já que a primeira refere-se à bochecha enquanto a última refere-se à boca. Do mesmo modo inadequadamente usa-se sigmatismo 40, repetição viciosa do /s/, como sinônimo de ceceio, projeção anterior ou lateral da língua durante a fala.

Postura de repouso de língua 12,34,40 é uma expressão que não deve ser utilizada já que não existe repouso absoluto desta estrutura, então utiliza-se posição habitual de língua 4-5.

A utilização indevida do plural para estrutura única tonsila faríngea/adenóide 11, também deve ser considerada.

Constatou-se falta de homogeneidade na utilização das nôminas nas publicações aqui estudadas, o que demonstra ainda falta de conhecimento e atualização dos autores. Cabe ressaltar que a Fonoaudiologia fica enfraquecida diante as outras ciências da saúde quando não se comunica com a mesma terminologia ou quando não se atualiza na mesma velocidade.

Este levantamento ressalta a necessidade de ampla divulgação dos documentos desenvolvidos pelo comitê de MO e empenho dos profissionais dessa área em estarem atualizados com a comunidade cientifica. Sendo assim, a utilização das terminologias internacionais é determinante para tornar a Fonoaudiologia uma ciência de linguagem universal.

CONCLUSÃO

Após a realização deste estudo concluímos que os especializandos/especialistas em M.O. ainda não utilizam de maneira adequada a terminologia sugerida pelo Comitê de Motricidade Oral da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, haja vista a grande incidência de inadequações.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2005

Histórico

  • Recebido
    18 Fev 2005
  • Aceito
    03 Mar 2005
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