Open-access Desvantagem vocal em estudantes universitários do curso de fonoaudiologia: explorando a relação com a timidez

RESUMO

Objetivo:  analisar a relação entre a autopercepção da desvantagem vocal e o grau de timidez em estudantes universitários.

Métodos:  estudo de natureza observacional e transversal que incluindo estudantes com idade superior a 18 anos, matriculados no curso de Fonoaudiologia de uma Universidade Pública. Os participantes foram convidados a responder a um formulário online, que incluía uma ficha de identificação com perguntas relacionadas ao gênero, idade e formação, a Escala de Timidez de Check e Buss, e o Índice de Desvantagem Vocal reduzido (IDV-10). Os dados foram analisados descritiva e estatisticamente. Para a análise estatística utilizou-se o teste de Correlação de Spearman, o teste de Mann-Whitney e o teste Qui-Quadrado de Pearson, todos com nível de significância de 5%.

Resultados:  144 estudantes universitários, dos quais aproximadamente 28,5% apresentaram algum grau de timidez foram incluídos. Observou-se que cerca de 25% dos participantes relataram desvantagem vocal percebida. Verificou-se uma correlação significativa e de magnitude moderada entre timidez e desvantagem vocal percebida (ρ = 0,445; p < 0,001), bem como uma associação estatisticamente significativa entre essas variáveis (χ² = 21,0; p < 0,001).

Conclusão:  há uma relação entre timidez e desvantagem vocal em estudantes universitários do curso de Fonoaudiologia. A timidez pode ser considerada uma característica que influencia significativamente a comunicação dessas pessoas, devendo ser incorporada como uma variável relevante no processo de aprimoramento das habilidades vocais e comunicativas.

Descritores:
Voz; Timidez; Estudantes; Comunicação

ABSTRACT

Purpose:  to analyze the correlation between self-perception of voice handicap and the degree of shyness in university students.

Methods:  an observational cross-sectional study including students over 18 years old enrolled in the speech-language-hearing program at a public university. Participants were invited to answer an online form, which included an identification form with questions on gender, age, and education, the Check and Buss Shyness Scale, and the reduced Voice Handicap Index (VHI-10). Data were analyzed descriptively and statistically. The Spearman's Correlation test, the Mann-Whitney test, and the Pearson´s Chi-Square test were used for statistical analysis, all with a 5% significance level.

Results:  144 university students, of whom approximately 28.5% had some degree of shyness, were included. Likewise, approximately 25% of them reported perceiving a voice handicap. Shyness was significantly moderately correlated with perceived voice handicap (ρ = 0.445; p < 0.001); these two variables were also statistically significantly associated (χ² = 21.0; p < 0.001).

Conclusion:  shyness is related to voice handicap in speech-language-hearing university students. It can significantly influence their communication and should be included as a relevant variable in improving vocal and communicative skills.

Keywords:
Voice; Shyness; Students; Communication

INTRODUÇÃO

A timidez é um padrão comportamental que ocorre ao se relacionar com outra pessoa, principalmente não familiar1,2. É um traço de personalidade humana comum manifestado por sintomas comportamentais, somáticos e cognitivos3. Não é considerada uma doença, sendo a prevalência estimada em 70% na população mundial1,2. Ela pode ser definida como o desconforto ou inibição frente a interações sociais causadas por possíveis consequências negativas. A pessoa tímida pode sofrer por antecipação a um julgamento negativo, o que compromete sua capacidade de alcançar objetivos tanto profissionais quanto pessoais3. Há pessoas que possuem maior concentração desse comportamento, ou seja, sentem-se tímidos em mais situações, causando em alguns casos inibição e ansiedade social4.

A qualidade vocal e a timidez estão interligadas de diversas maneiras e podem impactar significativamente a comunicação e a expressão de uma pessoa. Durante a fala a pessoa tímida tende a falar com voz em loudness fraca, com tremor, articulação restrita, apresentar queixa de xerostomia e tremores corporais5.

O receio em ser notado, induz a pessoa tímida a falar com intensidade fraca, o que pode influenciar na inteligibilidade da fala e interferir na eficácia da comunicação. Frequentemente as pessoas tímidas experimentam tensão muscular devido à ansiedade social. Essa tensão pode afetar o sistema fonoarticulatório, resultando em uma articulação fechada, causando uma qualidade vocal tensa, rugosa e instável. De modo geral, a qualidade vocal pode ser afetada negativamente pela tensão muscular, a voz pode soar menos natural e fluente, fatores que podem contribuir para a sensação de insegurança4.

Outros aspectos não verbais podem também estar comprometidos, como a falta de projeção vocal, velocidade acelerada de fala e a falta de contato visual com o interlocutor. Esses fatores impactam o discurso e a eficácia da mensagem transmitida, pois diminuem a expressividade da comunicação4.

A timidez pode inibir a expressão emocional e pessoas tímidas podem evitar variações na entonação e em outros aspectos expressivos da fala, o que pode resultar em uma qualidade vocal monótona e inexpressiva, o que compromete a forma como suas mensagens são interpretadas pelo interlocutor. Estudantes tímidos são menos propensos a participarem de atividades em público, realizarem contribuições voluntárias e são mais inibidos que estudantes não tímidos6. Durante a vida acadêmica as habilidades comunicativas são exigidas principalmente nas apresentações orais, uma vez que será importante para os graduandos em seu futuro ambiente de trabalho, independente da área escolhida7.

A comunicação entre o profissional da área da saúde e o paciente influencia na adesão e no sucesso do tratamento já que as relações interpessoais na maioria dos casos são estabelecidas pela comunicação. Uma comunicação eficaz ajuda a estabelecer vínculos, o que é fundamental para compreender a queixa e realizar um bom raciocínio clínico8.

A Fonoaudiologia pode ser uma ferramenta valiosa para auxiliar pessoas tímidas a aprimorar sua qualidade vocal e superar barreiras em situações de comunicação. A relação entre qualidade vocal e timidez é multifacetada e complexa. Considerando a importância das habilidades comunicativas para as interações sociais e profissionais, torna-se fundamental compreender como a timidez pode influenciar a autopercepção vocal do indivíduo. O objetivo deste estudo foi analisar a relação entre a autopercepção da desvantagem vocal e o grau de timidez em estudantes universitários.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal com análise quantitativa dos dados. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ, Brasil, sob o número de parecer 5.149.099 e CAEE 52908221.9.0000.5261. A coleta de dados só teve início após o consentimento dos participantes por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram adotados como critérios de inclusão: estudantes de todos os períodos do curso de Fonoaudiologia de uma Universidade Pública, acima de 18 anos. Sendo excluídos os participantes que não responderam a todos os questionários. A pesquisa foi realizada por meio de um formulário online, elaborado no Google Forms e divulgado em redes sociais, além de outros canais vinculados aos estudantes de Fonoaudiologia desta instituição.

Este estudo foi conduzido em conformidade com os padrões éticos para pesquisas com seres humanos, seguindo os princípios estabelecidos na Declaração de Helsinki e atendendo às diretrizes da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde do Brasil. Todos os procedimentos foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa e realizados após a obtenção do consentimento livre e esclarecido, garantindo o respeito à dignidade, à integridade e aos direitos dos envolvidos.

Os participantes foram convidados a responder a um formulário online com perguntas relacionadas ao gênero, idade e formação, a Escala de Timidez de Check e Buss, e o Índice de Desvantagem Vocal reduzido (IDV-10) 9. A Escala de Timidez de Check e Buss10 tem como objetivo avaliar a presença ou não de timidez nos participantes, é composta por 13 perguntas sobre a comunicação em situações cotidianas. Para o preenchimento da escala, os participantes foram orientados a selecionar uma resposta conforme a escala do tipo Likert de cinco pontos, sendo 0 equivalente a “discordo totalmente” e 4 a “concordo totalmente”. O escore é calculado pela somatória simples das respostas podendo variar de 0 a 52 pontos. Para este estudo, a variável Presença de Timidez foi definida com base no escore obtido na avaliação da escala de timidez: participantes com pontuação abaixo de 34 foram classificados como não tímidos (valor “Não”), enquanto aqueles com pontuação igual ou superior a 34 foram classificados como tímidos (valor “Sim”). Dessa forma, a amostra foi dividida em dois grupos independentes: tímidos e não tímidos.

Utilizou-se ainda o Índice de Desvantagem Vocal (IDV-10)10, constituído de dez questões para avaliar a autopercepção sobre a desvantagem vocal. Cada pergunta pode ser respondida com uma escala do tipo Likert em que 0 significa “nunca”, e 4 “sempre”. O escore é calculado pela somatória simples das respostas, podendo variar de 0 a 40, sendo que 0 indica a ausência de percepção sobre desvantagem vocal e 40 representa a maior percepção sobre desvantagem vocal. A nota do instrumento é de 7 pontos, ou seja, pessoas com pontuação acima de sete são consideradas com autopercepção para desvantagem vocal10. Tais pontuações definem os valores “Sim” e “Não”, respectivamente, da variável Autopercepção de Desvantagem Vocal.

Os dados foram tabulados e analisados por meio de estatística descritiva e inferencial, utilizando-se o software SPSS 25.0. Adotou-se um nível de significância de 5% para todas as análises estatísticas inferenciais.

As variáveis quantitativas contínuas como a idade, a Escala de Timidez e IDV-10, foram analisadas descritivamente por meio do cálculo da média, desvio padrão e mediana, assim como a variável quantitativa ordinal atual no curso período. As variáveis qualitativas nominais como o gênero, faixa etária, período, presença de timidez e autopercepção de desvantagem vocal foram analisados descritivamente por frequência e porcentagem.

O teste de Shapiro-Wilk foi utilizado para averiguar se as variáveis possuíam distribuição semelhante a uma distribuição normal ou não. Para comparação das variáveis quantitativas em função dos dois grupos independentes (tímidos e não tímidos), foi analisada a distribuição das variáveis com o Teste Shapiro Wilk. Todas obtiveram distribuição não normal. Dessa forma, utilizou-se o teste não paramétrico de Mann-Whitney para comparar essas variáveis entre os dois grupos de pesquisa.

Também devido à distribuição não normal das variáveis, as correlações entre a Escala de Timidez, IDV-10 e período no curso foram realizadas por meio do coeficiente da correlação de Spearman (ρ). O grau de correlação entre as variáveis foi considerado maior quanto maior sua proximidade de -1 ou de 1, sendo as correlações negativas ou positivas, respectivamente.

Por último, com o fim de testar a associação entre as variáveis qualitativas nominais Presença de Timidez e Autopercepção de Desvantagem Vocal, utilizou-se o teste Qui-Quadrado de Pearson.

RESULTADOS

Participaram do estudo 144 estudantes com média de idade de 25,3 ± 5,06 anos e variação de 18 a 53 anos.

A Tabela 1 apresenta a frequência das respostas e percentagem das variáveis gênero, faixa etária, período, timidez e autopercepção de desvantagem vocal. É possível observar que 87,6% dos participantes da pesquisa se identificam com o gênero feminino e a maioria dos participantes têm entre 18 e 22 anos. Foram coletados dados de universitários de todos os períodos, porém, houve uma maior participação dos estudantes dos anos iniciais (1°- 4°) comparado aos estudantes dos últimos períodos da graduação (5°- 8°).

Tabela 1
Descrição das frequências das respostas e percentagem das variáveis gênero, faixa etária, faixa de período, presença de timidez e autopercepção de desvantagem vocal

Podem ser observados na Tabela 2 os coeficientes de correlação de Spearman para o cruzamento entre a Escala de Timidez, IDV-10 e o Período. Foi encontrada uma correlação bivariada de Spearman significativa (p < 0,001) e de grau moderado (ρ = 0,445) entre a Escala de Timidez e o IDV-10, indicando que quanto maior o nível de timidez dos participantes, maior sua autopercepção de desvantagem vocal, o que reforça a influência da timidez sobre a percepção vocal autorreferida no grupo estudado; entretanto, não foi encontrada correlação estatisticamente significativa entre a Escala de Timidez e o Período no curso (p = 0,450), nem entre o IDV-10 e o Período (p = 0,818), o que sugere que o avanço acadêmico não demonstra relação relevante com a timidez ou com a percepção sobre desvantagem vocal.

Tabela 2
Coeficiente de correlação de Spearman (ρ) para o cruzamento entre Escala de Timidez, Índice de Desvantagem Vocal-10 e Período

A variante gênero não foi considerada para análise devido à discrepância entre homens e mulheres participantes da pesquisa.

Na Tabela 3 com a análise comparativa entre estudantes tímidos e não tímidos, observou-se que tanto a pontuação da Escala de Timidez quanto os escores de IDV-10 diferem significativamente entre os grupos (p < 0,001), confirmando maiores níveis de timidez e de autopercepção de desvantagem vocal nos participantes tímidos; além disso, a idade também apresentou diferença significativa (p = 0,009), indicando que os tímidos tendem a ser ligeiramente mais velhos, enquanto o período acadêmico (p = 0,807) não variou entre os grupos, corroborando com a ausência de relação entre timidez e avanço no curso.

Tabela 3
Análise das variáveis da Escala de Timidez, Índice de Desvantagem Vocal-10, Período e Idade quanto ao grupo de tímidos e não tímidos

A Tabela 4, que apresenta a associação entre a presença de timidez e a autopercepção de desvantagem vocal, o teste qui-quadrado de Pearson (p < 0,001) indicou associação estatisticamente significativa entre as variáveis: dos 144 participantes, 36 (25%) foram classificados como tímidos, e, entre esses, 58,3% apresentaram desvantagem vocal; por outro lado, dentre os 108 (75%) não tímidos, 81,5% não relataram desvantagem vocal, sugerindo maior prevalência de autopercepção de desvantagem vocal entre os participantes tímidos em comparação com os não tímidos.

Tabela 4
Associação entre a presença de timidez e a autopercepção de desvantagem vocal

DISCUSSÃO

A desvantagem vocal é caracterizada como prejuízo ou efeito negativo que alterações vocais podem gerar na vida de uma pessoa11. A timidez possui características que afetam a fala e comunicação dessas pessoas3. Assim como visto na literatura, pessoas tímidas podem apresentar desvantagem vocal devido a efeitos relacionados ao quadro de timidez e não por alguma alteração vocal12.

Um estudo realizado com uma amostra similar evidenciou que universitários tímidos apresentam maior tendência a ter medo de falar em público e a participar menos de atividades que envolvam comunicação. Ainda, apresentaram autoavaliação negativa da fala, loudness fraco e velocidade de fala acelerada13. Outro estudo que comparou pessoas tímidas e não tímidas demonstrou uma associação entre a timidez e a autopercepção de intensidade vocal fraca14. Os achados da literatura são corroborados pelos resultados obtidos neste estudo. A timidez exerce influência significativa sobre a comunicação e a fala da pessoa, impactando o desempenho vocal durante a expressão oral. Assim, os dados indicam que níveis mais elevados de timidez estão associados a uma maior autopercepção de desvantagem vocal. Pessoas tímidas apresentam uma autoavaliação dos aspectos negativos da fala em público maior do que os aspectos positivos e uma intensidade da voz mais fraca quando comparada às pessoas não tímidas. Quanto maior a percepção de timidez maior a autoavaliação para aspectos negativos da fala e da comunicação15.

Grande parte das profissões exigem uma boa comunicação principalmente no meio corporativo em que é considerada fundamental para um bom desempenho profissional. Para uma comunicação eficiente é necessária uma fala estruturada com objetivos definidos16. Essa habilidade pode ser impactada pela timidez que além dos efeitos na voz da pessoa como intensidade fraca e voz instável, também afetam aspectos não verbais que podem interferir na efetividade da comunicação.

Uma pesquisa teve como objetivo correlacionar ansiedade e performance comunicativa por meio do julgamento perceptivo-auditivo durante as tarefas de vogal sustentada, fala encadeada e discurso no momento da ansiedade. Foi observado que quanto maior o escore no Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE) maior foi a evidência de ansiedade durante o discurso, o que acarretou um desequilíbrio ressonantal, comprometimento na modulação vocal, na articulação fonoarticulatória e na expressão facial. Há evidências de que a ansiedade pode causar problemas na comunicação como voz mais aguda ou quebras na frequência, ressonância laringofaríngea, respiração superficial, aumento da tensão muscular durante a fonação, restrição do vocabulário, disfluência, entre outros17. Em pessoas tímidas, com ou sem alterações vocais, o quadro de ansiedade pode ser intensificado, uma vez que a timidez compromete a eficácia da comunicação e, em alguns casos, está associada à ansiedade social, o que dificulta ainda mais a produção de um discurso claro e eficiente.

Professores, independentemente da presença de queixas vocais, apresentam sintomas psíquicos e maior percepção de desvantagem vocal em comparação a profissionais sem queixas. Aqueles que relataram queixas vocais também referiram sintomas como xerostomia, gosto ácido na boca, má digestão e desconfortos gástricos. Além disso, os participantes com queixa vocal apresentaram indícios de ansiedade no momento da pesquisa, o que pode comprometer a eficácia da comunicação no contexto profissional18.

Dentre os participantes considerados tímidos houve uma predominância nos escores de “pouco tímido”. Essa timidez pode afetar a vida profissional devido às exigências do mercado cada vez maiores por uma boa comunicação. No aspecto social essas pessoas tímidas namoram menos, sentem-se mais solitárias, exploram menos situações sociais e se expressam menos19.

Estudantes de Fonoaudiologia estão expostos a fatores de risco para o desenvolvimento de problemas vocais. Cerca de 11% dos estudantes apresentam problemas vocais diagnosticados, outros 11% falam com intensidade forte e apresentam alta demanda vocal, além do contato com fatores ambientais como álcool, fumo passivo, estresse e poucas horas de sono20. Fatores que podem estar relacionados a desvantagem vocal autorreferida em estudantes não tímidos como também influenciar na desvantagem vocal de pessoas tímidas.

Os dados obtidos indicam que a maioria dos estudantes de Fonoaudiologia não se enquadra no perfil de pessoas tímidas. Esse resultado pode estar relacionado às características próprias do curso e da profissão, que demandam habilidades comunicativas desenvolvidas, uma vez que se dedicam ao cuidado da comunicação humana. Dessa forma, a timidez pode influenciar diretamente a escolha pela carreira, afastando pessoas mais tímidas da Fonoaudiologia. O fato de grande parte desses estudantes apresentarem menor nível de timidez pode contribuir positivamente tanto para o desempenho acadêmico durante a graduação quanto para a atuação profissional futura, uma vez que estão mais propensos a apresentar menor percepção de desvantagem vocal e menos impactos negativos na comunicação em comparação àqueles com níveis mais elevados de timidez.

Em torno de 58% dos estudantes considerados tímidos apresentaram desvantagem vocal, esse dado demonstra que a timidez tem um impacto na percepção da qualidade vocal. A ausência de diferença significativa entre período do curso e timidez sugere que o fator "avanço no curso" não influencia no quadro de timidez. Esses dados indicam que não há relação entre a diminuição ou o aumento da timidez de acordo com o avanço na graduação. Houve correlação significativa, porém pequena, entre timidez e a idade dos participantes. Esse fato pode sugerir que seja possível um aumento ligeiro da timidez com a idade. A variável gênero não foi analisada devido à predominância de estudantes do gênero feminino no curso de Fonoaudiologia, que corresponde a cerca de 90% da amostra. Essa discrepância impediu a análise da relação entre gênero e timidez entre os participantes.

Como limitação do presente estudo, destaca-se o fato de que os participantes pertenciam exclusivamente a uma única instituição de ensino superior. Ademais, a amostragem foi do tipo por conveniência, o que compromete a possibilidade de generalização dos resultados para a população-alvo. Diante disso, recomenda-se que investigações futuras contemplem amostras mais amplas e representativas, bem como utilizem procedimentos de avaliação vocal mais abrangentes, incluindo o diagnóstico e o julgamento perceptivo-auditivo da qualidade vocal. Por fim, os resultados obtidos podem contribuir para o aprimoramento de estratégias comunicativas voltadas à redução da desvantagem vocal em pessoas com traços de timidez.

CONCLUSÃO

Os resultados do presente estudo indicam uma associação significativa entre a timidez e a percepção de desvantagem vocal em estudantes universitários do curso de Fonoaudiologia, evidenciada por uma correlação moderada positiva, bem como pela maior prevalência de desvantagem vocal entre os participantes tímidos. Foi observado que pessoas tímidas têm uma probabilidade significativamente maior de relatar desvantagem vocal. A análise comparativa entre estudantes tímidos e não tímidos revelou diferenças estatisticamente significativas na Escala de Timidez e no IDV-10, confirmando que a timidez pode estar associada à autopercepção de desvantagem vocal. No entanto, não foi encontrada uma relação significativa entre timidez e o avanço no curso, sugerindo que a timidez não exerce influência direta no progresso acadêmico dos estudantes. A idade dos participantes tímidos foi ligeiramente superior à dos não tímidos, sugerindo que a timidez pode se manifestar ou se manter em faixas etárias mais avançadas dentro da população estudada.

A timidez parece ser uma variável relevante a ser considerada no processo de aprimoramento das habilidades vocais e comunicativas. A abordagem mais eficaz para melhorar essa relação envolve tanto o aprimoramento da qualidade vocal quanto o manejo da timidez, visando promover uma comunicação mais eficiente e uma expressão vocal mais confiante. Nesse contexto, os fonoaudiólogos desempenham um papel importante, oferecendo orientação, treinamento e apoio aos indivíduos que buscam superar os desafios impostos pela timidez e pelos prejuízos na qualidade vocal.

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  • Estudo realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.
  • Fonte de financiamento: Nada a declarar
  • Declaração de compartilhamento de dados
    De acordo com as diretrizes do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) que aprovou este estudo, os dados obtidos não serão compartilhados publicamente, uma vez que contêm informações sensíveis e pessoais dos participantes, cuja confidencialidade e privacidade devem ser rigorosamente preservadas. O acesso aos dados foi restrito à equipe de pesquisa autorizada para este estudo, conforme aprovado pelo parecer ético, garantindo o cumprimento integral das normas éticas vigentes para pesquisas com seres humanos no Brasil (Resolução nº 466/2012, CNS/MS).

Editado por

  • Editor Chefe
    Hilton Justino da Silva

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    21 Abr 2024
  • Revisado
    27 Jun 2024
  • Aceito
    29 Maio 2025
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